terça-feira, 7 de junho de 2011

NOVO LIVRO DE JÔ OLIVEIRA



Dia 12 de junho, ao meio dia, será lançando no Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens - 13ª edição, o novo livro de Jô Oliveira - OS DONOS DA BOLA. É um livro totalmente sem texto, com 30 ilustrações, e a ação se passa no antigo Morro do Castelo no centro do Rio de Janeiro.
Esse morro não existe mais... Foi aplainado em nome da urbanização. E a história é sobre a invenção do futebol. E tudo começa com uma bola de látex que cai da cesta de um índio e desce quicando morro a baixo...
CONFIRAM! O Salão FNLIJ acontece no Centro de Convenções Sul América, no Rio de Janeiro.

DO NORDESTE PARA O MUNDO



LUIZ GONZAGA – O EMBAIXADOR DO SERTÃO


Será lançado em breve, pela coleção “Do Nordeste para o Mundo”, a história de Luiz Gonzaga em cordel. Pernambucano de Exu, menino arteiro, tocador de sanfona, cantor e compositor que ganhou o título de Rei do Baião. Gonzagão foi um verdadeiro embaixador do sertão, levando para os quatro cantos do Brasil e do mundo uma música que fala sobre o jeito sertanejo de ser.

O texto é de Arievaldo Viana e as ilustrações de Rafael Limaverde. A Concepção de coleção e Coordenação editorial é da escritora Arlene Holanda, responsável também pela editoração gráfica.


Uma estrela fulgurante
Corta o sertão brasileiro
Dia 13 de dezembro
De doze, li no roteiro,
Nascia Luiz Gonzaga
Nosso maior sanfoneiro.



RACHEL DE QUEIROZ - A DAMA DO ROMANCE
DO NORDESTE PARA O MUNDO Uma coleção contemplada no Selo Editorial - na categoria PRÊMIO MANOEL COELHO RAPOSO - da SECULT, no EDITAL LITERÁRIO PARA AUTORES CEARENSES - "Do Nordeste Para o Mundo" - organizada pela escritora Arlene Holanda - é uma coleção que compreende 5 livros de autores cearenses, a saber: ROUXINOL DO RINARÉ, ARLENE HOLANDA, KLÉVISSON VIANA, ARIEVALDO VIANA e EVARISTO GERALDO.

NA IMAGEM: Capa do livro Rouxinol do Rinaré.
CONFIRA AS ESTROFES DA INTRODUÇÃO DE "Rachel de Queiroz - a dama do romance":

Quando Deus quer neste mundo
Renovar a esperança
Faz brotar a flor no campo,
Símbolo de vida e bonança,
E entre os seres humanos
Nascer mais uma criança.

O século vinte desponta,
A vida se descortina,
Se escuta um som esperado:
O choro de uma menina...
Nasce Rachel de Queiroz
Nessa Terra Alencarina.
(...)

Conheça os outros livros da COLEÇÃO:


“Vitalino – O fazedor de bonecos” - de Arlene Holanda

“Patativa do Assaré – Ave poesia” - de Evaristo Geraldo

“Aldemir Martins – Cores e traços” - de Klévisson Viana


segunda-feira, 6 de junho de 2011

MESTRES DA XILOGRAVURA - III

 WALDERÊDO GONÇALVES
UMA VIDA ESCRITA NA MADEIRA



Por GILMAR DE CARVALHO *


Praça do Cristo Redentor, ponto dos ônibus que fazem a linha Crato –Juazeiro, debaixo dos pés de ficus benjamins, os “velhos” se reúnem para  jogar dominó. Walderêdo, Gonçalves muitas vezes, passa por lá.
Antes, poderia também estar na livraria de seu Ramiro Maia, à rua Senador Pompeu, que fechou, depois de quase setenta anos de atividades.
O mais certo é pegar um mototáxi e subir a ladeira íngreme da Caixa d’ Água, onde ele mora à rua Gérson Zábulon n° 100.
Aos oitenta e quatro anos completos, este grande nome da gravura brasileira, de todos os tempos, que gosta de receber, é sempre atencioso e conversa muito, revolvendo histórias do arco-da-velha, merece, como poucos, ser chamado de mestre.

COMEÇO

Walderêdo nasceu dia 19 de abril de 1920, na rua da Boa Vista, que hoje se chama Nélson Alencar, na cidade do Crato. Dizem que o Milfont, de seu pai José Gonçalves, que a mãe Maria Emília Oliveira herdou, por força de lei, veio de um ancestral Louis Charles, fugitivo da Revolução Francesa, de 1789, que teria se radicado no Brasil.
O pai trabalhava com madeira , “era mais carpinteiro do que marceneiro” e foi com quem o menino se iniciou neste ofício.
Estudou pouco, não tendo passado da segunda série. Foi expulso da escola porque fez “um desenho um pouco pornográfico de uma mulher despida, uma celeuma na sala de aula. De lá pra cá, não ocupei mais professor, meu professor é o mundo...”
Saiu da escola e foi trabalhar. Walderêdo sempre quis levar um dinheiro para casa, pois a família era  pobre e passou a vender apostas do jogo de bicho. O pessoal da livraria Ramiro ficou freguês do jovem cambista mas, nesse tempo, o jogo era clandestino. Ele passou a prestar atenção no material escolar que a livraria vendia e, um dia, na volta às aulas, grande movimento de vendas, se ofereceu para ajudar. “Comecei no balcão da livraria Ramiro aí, nas horas vagas, ia para  a gráfica, que ficava atrás, para imprimir tabuada e carta de ABC”.
Walderêdo aprendeu rápido o ofício, ao contrário do que pensavam seus patrões, e Luis Maia, que foi dono da livraria Renascença, em Fortaleza, o definiu como “o menino que nasceu com o tipo na mão”.
Em 1935, José Bernardo da Silva (1901 / 1972), romeiro alagoano radicado em Juazeiro, “chegou para fazer um livro de orações, do Coração de Jesus. Ele queria ilustração e lá não tinha nenhuma zincogravura”.
Walderêdo relembra: “aí, na hora do almoço, peguei um pedaço de massaranduba, que meu pai tinha oficina em casa,  aí desenhei, cortei e imprimi minha primeira xilo”.
Nessa época, Zé Bernardo vendia folhetos e orações nas feiras e, como não tinha tipografia, recorria às do Crato. O auge veio, a partir de 1949, quando adquiriu o acervo do paraibano João Martins de Athayde (1880 / 1959), estabelecido no Recife, deslocando para Juazeiro o principal pólo de edição de cordel do Brasil.


HISTÓRIA E VIDA
 
A trajetória de Walderêdo é rocambolesca: “gráfica, carpintaria, eletricidade, carimbo de borracha, tudo eu fazia”, ainda que o pai o ameaçasse dizendo: “quem trabalha com muitas profissões não faz nada que preste”.
O casamento, dia 18 de dezembro de 1943, na Sé do Crato, foi celebrado pelo monsenhor Assis Feitosa, e o uniu à prima Maria Ione Gonçalves Moreira, nascida a 12 de março de 1926, com quem teve dez filhos, dos quais seis se criaram: Valdione, Rosália, Valderez, Valdenora, Irinéa e um único filho Geraldo Valdinei. Às vésperas de completar sessenta anos de casados, em meio a rabugices de casal velho, eles contabilizam vinte e três netos, mesmo número de bisnetos e quatro tataranetos.
No ano seguinte, foram morar em Ouricuri (PE), porque Walderêdo tinha sido aprovado num concurso para o Serviço Nacional da Peste (que se transformou na SUCAM, segundo ele), onde ficaram pouco mais de um ano e onde nasceu a primogênita. Transferido para o Piauí, pediu demissão desse que foi seu trabalho “mais seguro”.
A ida para Juazeiro foi porque dona Ione, filha única, queria ficar junto dos pais, o ourives João Moreira Maia e Irinéa Gonçalves Moreira, que moravam lá. Walderêdo gastava o que não tinha comprando remédios e ajudando os pobres do Barro Vermelho, onde morava. E eles ficaram na cidade do Padre Cícero, de 1956 a 1964.
José Bernardo quando soube da chegada do “romeiro” passou a chamá-lo, com freqüência, para cortar as capas da editora de folhetos.
Walderêdo era inquieto demais para se contentar apenas com a xilogravura e o mercado pequeno para suas necessidades. Passou a abrir letreiros de paredes, trabalhou com a fundição de ouro (com o sogro), fez cadeiras, quadros de diplomas e, durante quatro anos, “trabalhei em casa de jogo, mas orientei os meus a não quererem saber de jogatina”.
Enquanto isso, dona Ione “pegava no pesado”, fazendo cocadas, doces e merendas, para ajudar nas despesas da casa.
Walderêdo tinha uma curiosa  aptidão para abrir cofres. “O pessoal tem um negócio de abrir cofre de ouvido. Não é ouvido, é a mão. Uma rodando aqui, outra forçando o trinco. Aí vai rodando, dá aquele pulinho, pá. A gente vai anotando os pulos e vê quais são os positivos e os negativos”. E a porta se abria, num passe de mágica.
E conta a história do primeiro cofre que abriu, que pertencia a três banqueiros do jogo do bicho, que pelejaram e não conseguiam abri-lo. “Aí eles se enfezaram e um deles puxou um revólver. Eu disse: isso aí é de ferro, não abre assim. Dê licença para eu tentar. Aí eu, pá, pá, pá. Pa!. Taí o cofre tá aberto. Aí não faltou mais cofre no Juazeiro pra eu abrir”, para concluir desalentado: “Hoje o pessoal não bota mais dinheiro em cofre”.

ARTE E TÉCNICA

Da tipografia dos Maia, passou pela gráfica do Bispado do Crato, que publicava o jornal “A Ação”, sob a direção de José Barbosa.
Também cortou tacos para a Tipografia Lima, depois Casa dos Horóscopos, de Manoel Caboclo, em Juazeiro, cujo baú de tacos guardava relíquias de Walderêdo, bem como a tipografia do Bispado, que teve suas máquinas vendidas e as matrizes, provavelmente, foram junto (ou jogadas fora).
Walderêdo aconteceu, no início dos anos 60, quando a Faculdade de Filosofia do Crato fez uma tiragem de pranchas de sua autoria.
Em 1962, Sérvulo Esmeraldo e Lívio Xavier, emissários do Museu de Arte da Universidade do Ceará ( MAUC), fundado no ano anterior, foram ao Cariri comprar tacos para o acervo da instituição e aproveitaram para encomendar álbuns, como a “Via Sacra”, de Mestre Noza; “A Vida do Padre Cícero”, de Lino da Silva; “As Aventuras do Caboclo Vira- Mundo”, de José Caboclo e o “Apocalipse”, do Walderêdo.
Walderêdo afirma ter recebido “sugestão”, e nega as referências impressas.. Categórico, afirma que sua Bíblia não trazia ilustrações deste livro profético. “Por isso tem umas caras imitando o sol, outra quadrada, como se fosse um brilhante, de acordo com a história do Apocalipse”, diz comprovando que leu de verdade.
Ele trabalhou a madeira com um virtuosismo ainda hoje perseguido por muitos gravadores. O que ele chama de “foco de luz, e que o pessoal chama de luz celestial” e brinca: “vou lhe ensinar, eu já tou perto de morrer”. Desconjuro! E continua: “a gente deixa essa parte aqui bem elevada. Aí essa elevada fica bem escura, aí vai puxando. Digamos, deixei aqui elevado, aí vou raspando um pouquinho, só raspar, aí fica mais claro, pega menos tinta quando o rolo passa. e quando imprime ela imprime mais branco”. É assim que ele consegue meios tons.
 A xilogravura de Walderêdo está longe de ser a tábua escavada, de modo tosco. Ele é preciso no corte, refinado nos detalhes e sua criação é inconfundível. Luís Karimai, pintor e desenhista de méritos, e Nilo, um dos talentos da nova geração são seus “herdeiros”.
O que ele conseguiu com um canivete ( tem estojo de goivas, mas usa pouco), um pedaço de umburana bem lixado e muito talento, não é fácil de ser obtido.
Participou das coletivas do acervo do MAUC em cidades importantes do circuito das artes, como Lisboa, Barcelona, Colônia, Madrid, Viena, Basiléia  e Paris.
Logo, alugou sua competência a gráficas da região, como a Universitária, do Crato, que migrou para Juazeiro, e passou a fazer rótulos, diplomas, embalagens, em trabalhos que exigiam um “senhor” impressor para o registro das cores. Trata-se de um mestre, na mais completa acepção do termo.
E não ficou só na madeira. Cortou linóleos (placas de paviflex), fórmica, borracha e derreteu o chumbo para fazer o molde, obtendo o “carimbo” em alto relevo. Fez placas de bronze, painéis de pedra (para o Parque de Exposições do Crato, destruído por um prefeito vândalo) e esculturas.
Nesta época, Walderêdo estava menos nômade e querendo um pouso que foi a casa no bairro Caixa d ‘Água, adquirida em 1979, onde vive até hoje.

MEMÓRIA E MERCADO

Ele relembra a Tipografia São Francisco. Diz que o editor nunca escreveu nada, “a maior parte daqueles folhetos de Zé Bernardo são do Expedito (Sebastião da Silva), que trabalhava lá”. Um dia, ele teria se queixado “de que não sabia porque o  Expedito não queria assinar o nome dele como autor da poesia” e Walderêdo não perdeu tempo: “Isto é problema dele, seu Zé Bernardo”.
Sobre dona Ana Vicência, avalia que era muito “financista” e queria pagar pouco pelas matrizes.
Diz que os emissários do MAUC ao Cariri compravam os tacos e obrigavam os editores a encomendar outros, o que foi muito bom para os artistas e também para preservar uma produção que, de outro modo, teria se perdido no tempo.
Conheceu  Noza, de quem foi amigo, “ele trabalhava pouco em xilogravura, trabalhava mais em escultura. Quando alguém ia encomendar algum trabalho ele mandava: vá lá no Walderêdo...”
Não conheceu Damásio Paula e não teve aproximação com João Pereira, Manoel Lopes ou outros gravadores desta primeira fase.
Chegou a desenhar o que cortava, “fazia no papel e emborcava o papel aqui, riscava por cima, aparecia a sombra e eu avivava”. Passou a desenhar na própria madeira, com o lápis de cor azul e o auxílio da borracha.
Interessante como ele conseguiu, autodidata que era, e sem interlocução com outros gravadores, realizar um trabalho de tanta personalidade e competência.
Em relação à fé, Walderêdo confessa: “hoje eu não acredito em nada. Sou discrente de tudo. Eu me baseio naquela filosofia de Lavoisier: nada se constrói, nada se destrói, tudo se transforma. Então pra que religião? Viveu, morreu, acabou-se”.
Justifica o fato de grande parte de sua temática ter sido religiosa por ser objeto de encomenda: “me procuravam e eu fazia e faço tudo o que me pedirem para fazer”.
A família crescia e com ela a responsabilidade. Nenhum dos seus descendentes se interessou pelo ofício de gravador, o que não lhe deixa ressentimentos, tanto que nunca fez questão de ensinar aos filhos e, quando trabalhava, não queria ninguém por perto, “para não “atrapalhar”.
As queixas são muitas. Um “marchand” de Fortaleza (Henrique Blum), teria enganado Walderêdo, adquirido e trazido para a capital, uns tacos que seriam do MAUC, e a série teve de ser refeita.
Outros teriam feito encomendas e não chegado a um acordo quanto ao preço, como o “brazilianista” Ralph della Cava. Parte de suas obras foi parar em museus estrangeiros, como um de Toronto, no Canadá. O galerista Ranulpho, do Recife, encomendou um álbum “Os Doze Apóstolos de Cristo no labor que exerciam antes do...” Explica: “Teve um que eu nunca consegui descobrir e optei pelo caçador. Não dizem que caçador só atira no que vê? São Tomé. Botei que ele era caçador”.
O MAUC, além das matrizes do “Apocalipse”, tem uma série de cenas populares do Cariri (engenho de pau, aviamento, maneiro - pau, o vaqueiro, penitentes) e gravuras soltas. Capas de folhetos, cortadas por ele, se tornaram referências, como “A morte dos doze pares de França”, “Juvenal e o Dragão” e “Antonio Silvino no júri - debate de seu advogado”.
O Dr. José Macário de Brito, do Crato, encomendou uma “Via Sacra”, mas esconde as matrizes  não deixa tirar cópias, “ele diz que só vai abrir o cofre quando eu morrer”.
A idade deixou marcas, como a visão ainda turva pela catarata, que ele só operou um olho, há quatro anos, e pelo princípio de um AVC ( acidente vascular cerebral), ano atrasado.
O reconhecimento ainda não veio. A dissertação de mestrado que se tornou livro (“A xilogravura de Walderêdo Gonçalves no contexto da cultura popular do Cariri”, de Jurandy Temóteo), não faz jus à importância do artista. Inexplicavelmente, nenhum  trabalho seu consta do acervo do Museu Vicente Leite, de sua cidade natal.

PROVA DO ARTISTA

Ainda recebe encomendas e faz xilogravuras, como um Santo Antonio, para capa de um folheto da Academia dos Cordelistas do Crato.
Mostra, com indisfarçável orgulho, um Cristo que monta numa garrafa, esculpido em trinta e três pedaços. A idéia que fica é de alguém que poderia ter ido muito além, se tivéssemos tido, desde a criação da Secretaria da Cultura, em 1966, políticas que valorizassem a tradição como ponto de partida para o contemporâneo.
Temos as pranchas do “Apocalipse”, versão matuta de Jean Duvet ou de Gustave Doré, iluminuras sertanejas, clássicas, sem que ele tenha se deixado contaminar pela pressa das encomendas, vencendo os desafios com paciência, determinação e a marca do gênio.
É isso tudo que faz de Walderêdo Gonçalves o grande nome da xilogravura. Os outros, diante dele, são aprendizes. 

Grande debate de Lampião com São Pedro
Xilogravura de Walderêdo Gonçalves


 * In "Artes da Tradição" - (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2005).

VEJA TAMBÉM:

MESTRES DA XILOGRAVURA I - MINELVINO FRANCISCO
MESTRES DA XILOGRAVURA II - STÊNIO DINIZ

domingo, 5 de junho de 2011

SANTO ANTONIO E O CORDEL


No meu folheto "Romance de Luzia Homem", adaptação da obra do escritor cearense Domingos Olympio, resgato a poderosa oração "Responso de Santo Antônio", que vi minha avó Alzira de Sousa Lima recitar centenas de vezes, principalmente quando desejava encontrar um objeto perdido. Não sei se devido a sua fé no Taumaturgo Português, ou pela força da oração, o objeto perdido em questão era encontrado logo depois... Eis alguns trechos do "Romance de Luzia Homem" e a famosa oração extraída de um livro chamado 'Escudo Admirável', que era um novenário reunindo os principais santos da igreja católica:

Luzia pega a tal carta
Mostra ao promotor então
Crapiúna com cinismo
Se livra da acusação
Saiu contente o soldado
E Alexandre foi levado
Às grades da detenção.

Luzia seguiu pra casa
Bastante contrariada
Terezinha então lembrou
De uma velha afamada
Que sabia adivinhar
Mas precisava levar
A quantia estipulada.

Responso de Santo Antônio
A poderosa oração
Que para as pessoas cultas
Não passa de um abusão
Pra muitos funcionava
Era o que a velha usava
Para descobrir ladrão.

Eis o teor do “Responso”
A poderosa oração,
Vovó Alzira a rezava
Com fervor e devoção,
Faz até gosto se ler
Se o leitor quer aprender
Escute-a com atenção:

RESPONSO DE SANTO ANTONIO

Se milagres desejais,
Recorrei a Santo Antônio,
Vereis fugir o demônio
E as tentações infernais.


Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.


Todos os males humanos
Se moderam, se retiram,
Digam-no aqueles que o viram,
E digam-no os paduanos.


Recupera-se o perdido.
Rompe-se a prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.


Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte,
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são.


(Rezar um Glória ao Pai).

Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.


V. – Rogai por nós, bem-aventurado Antônio.
R. – Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


(Fonte: Escudo Admirável, pág. 451)




UMA RELEITURA POPULAR DE LUZIA HOMEM
O que Arievaldo Viana e Domingos Olympio têm em comum? Além de serem cearenses, nasceram na mesma data: 18 de setembro. O grande romancista sobralense no ano da graça de 1850, o poeta popular em 1967. Agora, as afinidades entre ambos se estreitam mais ainda, quando Arievaldo adapta para o cordel o seu romance mais famoso  Luzia Homem, que acabou sendo vencedor do V Prêmio Domingos Olympio de Literatura, promovido pela Prefeitura de Sobral. Neste mesmo concurso, Arievaldo faturou ainda o terceiro lugar com Queixas de um Vitalino e também o quarto com Viagem à Baixa da Égua poema de 08 páginas ampliado para as 16 pelo paraibano Manoel Monteiro da Silva, responsável pela implantação do cordel nas escolas de Campina Grande-PB.
Aliás, a presença do cordel na escola, sobretudo como ferramenta paradidática na alfabetização de adultos, é a certeza de que essa autêntica manifestação cultural do povo nordestino continuará cumprindo o papel que sempre desempenhou ao longo de mais de um século de existência. Arievaldo é apenas um dos muitos nordestinos que aprenderam as primeiras letras e adquiriram gosto pela leitura nos folhetinhos de feira. Abaixo o analfabetismo. Viva o CORDEL!
* * *

OUTRA ORAÇÃO DE SANTO ANTONIO PARA RECUPERAR OBJETOS PERDIDOS

Eu vos saúdo, glorioso Santo Antônio, fiel protetor dos que em vós esperam. Já que recebestes de Deus o poder especial de fazer achar os objetos perdidos, socorrei-me neste momento, a fim de que, mediante vosso auxílio, eu encontre o objeto que procuro (Dizer o nome do objeto).
Alcançai-me, sobretudo, uma fé viva, uma esperança firme, uma caridade ardente e uma docilidade sempre pronta aos desejos de Deus. Que eu não me detenha apenas nas coisas deste mundo. Saiba valorizá-las e utilizá-las como algo que nos foi emprestado e lute sobretudo por aquelas coisas que ladrão nenhum pode nos arrebatar e nem iremos perder jamais.

Amém.

sábado, 4 de junho de 2011

O DISCO DA SEMANA


É mês de junho, é festa, é alegria! Nosso blog vai publicar, até o final do mês, quatro discos históricos com o cancioneiro junino.
Eis o primeiro da série...


CD – Luiz Gonzaga – São João Na Roça
Musicas
01 – Sao Joao Na Roca
02 – Foguera de Sao Joao
03 – Festa No Ceu
04 – Olha Pro Céu
05 – Noites Brasileiras
06 – Sao João Antigo
07 – Sao João No Arraiá
08 – O Passo da Rancheira
09 – A Danca da Moda
10 – Lenda de Sao Joao
11 – Mané e Zabé
12 – Sao João do Carneirinho
BAIXAR: Luiz Gonzaga

FONTE: http://forrotemquesercoladinho.wordpress.com/2009/11/01/cd-luiz-gonzaga-sao-joao-na-roca/

sexta-feira, 3 de junho de 2011

QUANDO OS BICHOS FALAVAM...

A FÁBULA E O GRACEJO

NA LITERATURA DE CORDEL

Humor e moralismo no sertão nordestino

 


Por: ARIEVALDO VIANA

 

A literatura popular em versos, também chamada “de cordel” possui uma variedade de temas e estilos que expressa, através da ótica popular, diversas escolas da Literatura Erudita, inclusive a Fábula, cujos expoentes maiores são Esopo e La Fontaine. Atribuir qualidades e defeitos do ser humano a animais que falam, inserindo nisso um cunho moral, é uma prática que os poetas populares desenvolvem desde os tempos de Leandro Gomes de Barros (1864 – 1918), pioneiro na publicação de folhetos rimados no Nordeste. São de Leandro, por exemplo, folhetos como “Casamento e divórcio da Lagartixa”,  onde uma família de lacertílios (calangos, tejos, teús e lagartos afins) representam os dissabores de um casamento mal-sucedido. A lagartixa, personagem central do drama, troca o calango seu marido por um papa-vento e os dois terminam-se batendo num duelo, de sangrento desfecho, enquanto a adúltera sorri da desgraça de ambos. O cunho moral da história fica por conta do trágico final destinado a leviana lagartixa, que é devorada por um gato, enquanto deleitava-se com as desgraças ocorridas durante o duelo. “Isto resulta à pessoa/ que sorri do mal alheio”, garante Leandro ao final da narrativa.

José Pacheco da Rocha, poeta pernambucano de Correntes*, nascido na última década do século XIX, foi o mais fiel seguidor de Leandro no que diz respeito à irreverência e jocosidade na elaboração de folhetos de “bichos que falam”. Outro grande expoente dessa escola foi o piauiense Firmino Teixeira do Amaral, autor de “As aventuras do Porco Embriagado” , um folheto que fala de alcoolismo, violência e exclusão social no Reino da Bicharada. De José Pacheco, existem duas obras primas nessa área – “A festa dos cachorros” e “A intriga do Cachorro com o Gato”. No primeiro folheto, os melhores momentos são o namoro do Cachorro com a sua prima Cadela e a carta por ele enviada logo após o primeiro encontro. Eis algumas estrofes cuidadosamente pinçadas para ilustração deste artigo;

“Havia um cachorro velho
Chefe da localidade
Os outros lhe veneravam
Com respeitabilidade
Tanto porque era o chefe
Como pela sua idade

Tinha uma filha bonita
Trabalhava em seu socorro
Dessas que se diz assim:
Por aquela eu mato e morro
Capaz de embelezar
O coração de um cachorro

Certo dia um primo dela
Vindo de uma batucada
Passando pelo terreiro
Ela estava acocorada
Catando pulga e matando
No batente da calçada”


A empatia entre os dois é imediata. A flecha de Cupido acaba provocando um “namoro pesado”, no dizer de José Pacheco. O melhor de tudo é a carta que o Cachorro escreve, assim que chega em sua casa...

O forró dos bichos (xilogravura de J. Borges)


“E palestraram bastante
Cada qual mais satisfeito
Foi um namoro pesado
Porém com muito respeito
Mas para se apartarem
Quase que não tinha jeito.

Chegou em casa escreveu:
‘Prima do meu coração,
eu não posso deslembrar-me
de tua linda feição,
portanto venho pedir-te
tua delicada mão.

Recomendações à todos,
Um abraço em minha tia
Sem mas assunto desculpe
A ruim caligrafia
Deste teu primo Cachorro,
Etcetera & companhia.’

Depois fez no envelope
Um ramalhete de flor
Ele mesmo foi levar
Pra dar mais prova de amor
E mesmo é muito custoso
Cachorro ter portador.”


Na História da Rã Ganhadeira, de Severino Barbosa Torres, poeta cearense radicado em São Luís do Maranhão, observa-se diversos trocadilhos com uma palavra considerada imoral pelos sertanejos de antigamente. O termo “arreganhar”:

“...Um camarada contou-me
que morava na Bahia,
num lugar muito esquisito
que só ele residia,
e o vizinho que tinha
era a camarada Jia.

A Jia era casada
Com o Cururu Tei-Tei.
A Jia era a rainha
E o Cururu era o rei,
O rapaz contou-me isto,
Eu também não duvidei.

Então, da Jia nasceu,
Às seis horas da manhã,
Uma filha com as faces
Coradas como a romã
Como era muito linda
Lhe deram o nome de Rã.

Esse nome,  Cururu Tei-Tei, ainda hoje é utilizado como apelido para pessoas balofas e mal amanhadas. Ele e a esposa dona Jia combinaram levar a filha para capital, a fim de aprender “três artes especiais: ler, escrever e coser.”

Porém botam a Rã
Numa escola atrasada,
A Rã passou cinco anos
Nunca pôde aprender nada,
Foi quando a rainha Jia
Com isto ficou danada.

Porém a Rã aprendeu
Lá com outra camarada
Todo sistema de jogo
Comprou logo uma cartada
Disse: - Agora vou jogar,
E não me faltará nada!

Montou uma casa de jogo
De frente assim com a feira
Começou a ganhar todo
Dinheiro da cabroeira
Por isso lhe apelidaram
Por Dona   Ganhadeira.

O propósito do poeta é claro: trata-se de um trocadilho infame que lembra a palavra “arreganhadeira”, ou seja, mulher sem pudor, que gosta de sentar-se escarrapachada, mostrando as partes íntimas. Segundo o dicionário, é o ato de escancarar a boca e mostrar os dentes, mas aqui no Nordeste, sempre teve outro sentido. Na época que o folheto foi escrito, mais ou menos meados do século XX, isso era um escândalo para as populações simples do interior nordestino. Em muitas casas, o ‘verso’ da Rã entrou no Índex maldito.

O folheto prossegue no mesmo tom. Daí por diante, faz diversos trocadilhos com a palavra:

“Parece que dona Rã
um catimbó inventava,
gente pra jogar com ela
de toda parte chegava
porém só voltava liso,
o dinheiro, a Rã ganhava.

Dona Rã chamava o povo
Para com ela jogar
E os outros, como perus
Entravam para espiar,
Se encostavam na parede
Só pra ver a Rã ganhar...”


* Segundo alguns pesquisadores, José Pacheco era natural de Porto Calvo-AL
(Arievaldo Viana - in "A MALA DA COBRA", livro escrito em 2003)