terça-feira, 20 de novembro de 2018

Estação do Cordel:



(Fotografias do acervo de Nando Poeta)

O CORDEL NO CENTRO DE NATAL




A Estação do Cordel, ANLIC (Associação Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel), com o apoio da SPVA (Sociedade dos Poetas Vivos) começaram as comemorações alusivas ao dia 19, dia do cordelista, data do nascimento de Leandro Gomes de Barros, no III Círculo Natalense do Cordel, realizado nos dias 15,16 e 17 de novembro na cidade de Natal.
O III Círculo Natalense do Cordel foi a culminância do ano Leandrino, já que em março deste ano, celebramos os 100 anos de seu encantamento e iniciamos durante o ano inteiro atividades que lembraria a obra e vida de Leandro Gomes de Barros.
Aproveitamos o evento para celebrar a importância dos 120 anos de Luis da Câmara Cascudo, os 90 anos de encantamento de Fabião das Queimadas, o centenário de Zé Saldanha e os 90 anos da passagem de Mario de Andrade por Natal, todos eles impulsionadores da nossa arte e cultura.
A congregação de poetas vindo de várias partes do país e do Rio Grande do Norte, foi o coroamento. Durante os três dias, realizamos 8 palestras e dois lançamentos que se transformaram em grandes debates, com uma participação envolvente de todos os presentes.
Nas mesas estiveram os poetas e pesquisadores: Irani Medeiros/RN, Gustavo Luz/RN, Jefferson Campos/RN, Aderaldo Luciano/RJ, Varneci Nascimento/SP, Tonha Mota/RN, Marco Haurélio/SP, Gutemberg Costa/RN, Daliana Cascudo/RN, Marciano Medeiros/RN, Kydelmir Dantas/PB, Carlos Alberto/RN, Nando Poeta/RN, Eduardo Santa Rosa, Zeca Pereira/BA,Manoel Cavalcante/RN, Geralda Efigênia/RN, Maria Alice Amorim/PE , Izabel Nascimento/SE, Cláudia Borges/RN, Ozany Gomes/RN, Marconi Branco/RN, Jussiara Soares/RN,  Sírlia Lima/RN  e Tereza Custódio/RN, dentre outros.
No evento foi realizada uma Mesa de Glosa, sob a coordenação de Moura Galvão, que reuniram os poetas: Jadson Lima/RN, Marciano Medeiros/RN, Felipe Pereira/RN e Marcos Teixeira/RN, que chamaram a concentração de todos os presentes, que atentos acompanharam a criação poética (motes) e a desenvoltura dos poetas na mesa.
A Presidente Tonha Mota da ANLIC (Associação Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel) com seus confrades presentes conduziu o Necrológio dos confrades (Antonio Sobrinho,Domingo Tomás,Luiz Campos, Aldivam Honorato e Manoel Justino) da ANLIC-RN, foi um momento de reconhecimento aos poetas da Academia que se encantaram.


Kydelmir Dantas, Gustavo Luz, Paulo Varela e Nando Poeta

Durante três noites, muitos poetas e músicos passaram pelo palco da praça, abrilhantando cada noite do Círculo, entre eles: Jadson Lima/RN, Rodrigão/RN, Lino Sapo/RN, Claudson Faustino/RN, Léo Medeiros, Cláudia Borges/RN, Filipe Borges/RN, Tonha Mota/RN, Manoel Cavalcante/RN, Antonio Francisco/RN, Paulo Varela/RN, José Acaci/RN, Ed Carlos/RN, Carlinhos Zens e Antonia. A condução do Sarau ficou com a coordenação da jornalista Idyane França.
Os Poetas Mirins entraram em cena, encantando todos os presentes. A caravana de poetas mirins desembarcaram na praça, iluminando uma das noites mais bela do III Círculo Natalense do Cordel. Estiveram, Filipe Borges-São José do Mipibu/RN, Davi Lima-Bom Jesus/RN, Tiago Camilo-Currais Novos/RN, Moises-Mossoró-RN e Clara Bezerra-Carnaúbas dos Dantas/RN. Foi um show a parte, com o estrelato mirim interagindo com o poeta Antonio Francisco, que foi recebido pela meninada com grande carinho.
Vários grupos musicais marcaram sua presença, como: Zé Martins e Banda Fibra de Coco, Trio de Forró Du Sete, Fuxico de Feira e o Bando de Fabião, com Tonha Mota e seu Forró pé de serra.
O III Círculo Natalense do Cordel ganhou as ruas de Natal, na concentração na Praça Padre João Maria, o João Redondo abriu o caminho para o Boi Misterioso desfilar pelas ruas da Cidade Alta, animando os brincantes e chamando a atenção dos populares.
Durante todo evento, tivemos a visitação de escolas, com os estudantes e profissionais vivenciando os espaços do III Círculo. A escola Coronel Miguel Teixeira do município de Jardim de Angicos abriu o evento ainda no feriado de 15 de novembro.
Foram três dias intensos de alegria, que contou com o apoio de inúmeros colaboradores que ajudam a edificar no coração do centro histórico da Cidade Alta do Natal, um espaço de arte independente, que tem aglutinado os amantes da arte, populares e turistas que aproveitaram o feriadão e transbordaram na arte e cultura de nossa cidade.
Todos os que participaram do evento, dizem por uma só boca, VIDA LONGA AO CÍRCULO NATALENSE DO CORDEL, e que venha o de 2019.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

SACI X HALLOWEN


(Imagem: reprodução/ Facebook/ Sociedade dos Observadores de Saci)

31 de outubro (31/10):
Dia do Saci ou Dia das Bruxas?
Entenda a história
As duas comemorações são no mesmo dia e não anulam uma a outra. O Dia do Saci prega a perpetuação da cultura e do folclore brasileiro

O Dia das Bruxas, Halloween em inglês, que surgiu nos Estados Unidos, ganhou o mundo e é uma das datas comemorativas mais lucrativas e comerciais sob o pretexto de "doces e travessuras" e pela compra de fantasias e adereços. No Brasil, a abrangência não é diferente, mas há quem defenda que o dia seja comemorado sob outra ótica e destaque outro protagonista: o Saci Pererê.

Pensando em homenagear e perpetuar a cultura do País e ir de encontro ao consumismo e comercialização que acontecem no Dia das Bruxas, estudiosos e entusiastas do foclore brasileiro criaram o Dia do Saci e instituiram a celebração para o mesmo dia do Halloween. A ideia surgiu da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), criada em 2003 em São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo, para estudar não só o saci, como outros mitos brasileiros.

Flávio Paiva, colunista de cultura do O POVO e membro da Sosaci, explica a escolha da data. "A ideia que fosse no mesmo dia foi pra criar um conflito e ir de encontro com a data americana. Não é uma festa 'do contra', é uma festa para dar alternativa a quem gosta desse tipo de manifestação e quer celebrar a brasilidade", aponta.

Leia matéria completa na edição de hoje de O POVO: https://www.opovo.com.br/noticias/curiosidades/2018/10/31-de-outubro-31-10-dia-do-saci-ou-dia-das-bruxas.html

LEIA TAMBÉM: http://maladeromances.blogspot.com/2016/10/saci-perere-x-hallowen.html



terça-feira, 30 de outubro de 2018

Leandro no Itaú Cultural




LEANDRO GOMES DE BARROS
Biografia

Leandro Gomes da Nóbrega (Pombal, PB, 1865 - Recife, PE, 1918). Cordelista. Nasce em Pombal, Paraíba, na fazenda Melancia, e é sobrinho materno do padre Vicente Xavier de Farias (1822- 1907), que ajuda a criá-lo. Sua relação com o tio, entretanto, não é fácil, o que faz com que fuja de casa com 11 anos, por causa dos maus-tratos que sofre. Muda seu sobrenome de Nóbrega para Barros depois de ter sido prejudicado pelo padre na partilha dos bens da família. Na infância, mora em Teixeira, Paraíba, onde convive com diversos violeiros, até que, em 1880, a família se muda para Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Em 1889, começa a publicar seus versos, sendo um dos pioneiros da literatura de cordel. Produzindo de maneira intensa e independente, adquire, em 1906, uma pequena gráfica para imprimir e distribuir os próprios trabalhos. Com sua morte, o genro e escritor Pedro Batista (1890-1938) obtém os direitos de publicação de sua obra. Porém, três anos depois, a viúva de Barros, Venustiniana Eulália de Souza, vende esses direitos para o editor e poeta João Martins de Ataíde (1880-?), que passa a publicar os textos sem creditar-lhe a autoria e fazendo alterações nos originais, o que torna difícil compilação da obra de Barros, estimada em mais de 600 títulos.

FONTE: Itau Cultural
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa5873/leandro-gomes-de-barros

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

ENTREVISTA

HISTÓRIA E POLÍTICA 
NOS FOLHETOS DE CORDEL




Numa entrevista de apenas meia hora, no programa CAFÉ COM DEMOCRACIA, na Web Rádio Atitude Popular, traçamos um panorama da Literatura de Cordel desde as primeiras décadas do Século XIX e o seu envolvimento com a sátira política e também como fonte documental da história. Confiram no Youtube, através deste link:




Folhetos recentes tratam do GOLPE e do (des)Governo de Michel Temer



segunda-feira, 24 de setembro de 2018

UMA VIAGEM AO CÉU



Ilustração: JÔ OLIVEIRA

Há cem anos, Leandro Gomes de Barros empreendia uma viagem ao céu

Arievaldo Vianna



Perguntei-lhe: - Alma, quem és?
Disse ela: - Tua amiga,
Vim te dizer que te mude
Aqui não dá nem intriga
Quer ir para o Céu comigo?
Lá é que se bota barriga!

Eu lá subi com a alma
Num automóvel de vento
Então a alma mostrou-me
Todo aquele movimento,
As maravilhas mais lindas
Que existem no firmamento.
(Uma viagem ao Céu – Leandro Gomes de Barros)

1. Centenário de morte de Leandro

No dia 04 de março de 1918 falecia no Recife, na rua Passos da Pátria, aquele que é considerado o pai do Cordel Brasileiro, o paraibano Leandro Gomes de Barros, nascido na fazenda Melancia (então município de Pombal-PB) aos 19 de novembro de 1865. Responsável pela transição da poesia oral para o formato impresso, autor e editor de uma obra copiosa e de alto nível, Leandro era considerado, já à sua época, “o primeiro sem segundo” no reino da poética sertaneja. Outros poetas chegaram a publicar antes de Leandro, dentre os quais o também paraibano Silvino Pirauá de Lima e o potiguar João Sant’Anna de Maria, o Santaninha, que já é citado por Sílvio Romero, em 1880, como autor de folhetos de poesia popular. Porém nenhum desses teve a projeção do poeta de Pombal, o que mais contribuiu para fixar as regras desse gênero literário e a sua identidade visual.

2 .  Fundador de um gênero literário

A literatura de cordel brasileira surgiu de maneira tardia, porque antes da vinda da Corte Portuguesa, em 1808, era proibida a existência de prelos aqui no Brasil. A poesia popular oral ou manuscrita, que já existia desde os tempos de Agostinho Nunes da Costa, Hugolino do Sabugi, Inácio da Catingueira e Romano da Mãe D'água, só viria a se servir dos tipos móveis quando o poeta Leandro Gomes de Barros se mudou da Vila do Teixeira, na Paraíba, para Vitória de Santo Antão (PE), e passou a editar os primeiros folhetos nas tipografias de Recife. No Ceará, ainda no século XIX, tivemos o exemplo do já citado Santaninha e também do Padre Alexandre Cerbelon Verdeixa e do célebre Juvenal Galeno, que sob o pseudônimo de Silvanus chegou a publicar alguns folhetos de poesia popular. Entretanto não era uma atividade sistemática e sequenciada como a empreendida por Leandro, que criou família numerosa unicamente com a renda advinda de sua produção poética.
Por sua grande contribuição, é considerado o “fundador” da poesia popular no Brasil e o mais importante poeta de seu tempo, conforme o testemunho do seu contemporâneo Francisco das Chagas Batista. É também autor de dois folhetos, dos três que serviram de inspiração para Ariano Suassuna compor O Auto da Compadecida. São eles: O Dinheiro - O testamento do cachorro -, de 1909, e O Cavalo que Defecava Dinheiro.



Ilustração: Jô Oliveira


3. Retalhos da infância de Leandro

Leandro ficou órfão de pai aos sete anos, e mudou-se para a Vila do Teixeira (PB), na companhia de seu tio materno, padre Vicente Xavier de Farias, que ajudou a criá-lo. Deixou a companhia deste ainda na adolescência, por se considerar vítima de maus-tratos. A Vila do Teixeira era o berço dos grandes cantadores do passado - pioneiros do gênero - como Francisco Romano Caluête (o temido Romano da Mãe D'água ou Romano do Teixeira, que travou peleja com Inácio da Catingueira), e do famoso glosador Agostinho Nunes da Costa, pai de Ugolino e Nicandro Nunes da Costa, tidos como os melhores cantadores de seu tempo.
Informa-nos o escritor Pedro Nunes Filho, autor de Guerreiro Togado, que o Padre Vicente, além de vigário da Vila do Teixeira, era também professor de latim e humanidades, o que no passado chamava-se padre-mestre, tendo sido, provavelmente, o responsável pela educação daquele garoto, que cedo revelou os seus pendores para a literatura.
Após deixar o Teixeira, por volta de 1880, mudou-se para Pernambuco, fixando-se inicialmente em Vitória de Santo Antão (PE). Após uma curta permanência em Vitória, Leandro mudou-se para Jaboatão, onde casou-se com dona Venustiniana Eulália de Sousa (que se tornou "de Barros"), com quem teve quatro filhos, segundo informa a pesquisadora Ruth Brito Lemos Terra em sua obra Memórias de Lutas: Literatura de Folhetos do Nordeste - 1893 - 1930. Os filhos de Leandro eram Rachel Aleixo de Barros Lima (que se casou em 1917 com o escritor Pedro Batista, irmão do também poeta Francisco das Chagas Batista), Herodias (Didi), Julieta e Esaú Elóy. Este último seguiu a carreira militar, tendo participado da Revolução de 1924 e da Coluna Prestes.

4. A “indústria” do Cordel
Onde situam-se os pontos de confluência entre a velha literatura ibérica das folhas volantes, pliegos sueltos e folhetos de cordel com o Romanceiro Popular Brasileiro? Luís da Câmara Cascudo, em 'Cinco livros do povo', fornece boas pistas, mostrando antigas matrizes utilizadas pelos nossos poetas de bancada nordestinos nos primórdios da Literatura de Cordel. Alguns textos encontram-se em prosa, caso da História de João de Calais, outros em quadras atribuídas ao cego Balthazar Dias, da Ilha da Madeira, dentre os quais a História da Imperatriz Porcina. Um ciclo curioso na chamada literatura de cordel nordestina são as fábulas (Casamento e divórcio da lagartixa, A intriga do cachorro com o gato, A festa dos cachorros, A noiva do gato, dentre outros). Parece que suas matrizes mais distantes são os famosos 'testamentos de bichos' importados da Europa pela Livraria Garnier, em meados do século XIX.
Franklin Maxado Nordestino informa que o catálogo de 1811, dos livros importados por Silva Serva, de Salvador-BA, contém toda uma seção intitulada “Papéis pertencentes a notícias, proclamações, e tudo quanto pertence às Guerras, Tragédias e Novelas, tudo em brochura”, muitos dos quais eram folhetos, ou de histórias tradicionais como 'História de Roberto do Diabo' ou de assuntos mais atuais, como a 'Entrada de Napoleão no inferno'. E os folhetos portugueses, conhecidos como 'Literatura de Cego', depois que um decreto de 1779 reservou a sua venda à ambulantes cegos  continuavam a ser importados, segundo Maxado, pela Livraria Garnier, em meados do Século XIX. (Maxado, Franklin  O que é Cordel? Editora Queima-Bucha, 2ª. Edição)
Laurence Hallewell, autor de O livro no Brasil: sua história (pág. 639) informa que “A primeira impressão no Brasil, das velhas histórias, foi feita pela Impressão Régia, responsável em 1815 pela História da Donzela Teodora, em que se trata de sua grande formosura e sabedoria (30 páginas) e pela História verdadeira da Princesa Magalona, com um retrato da princesa em xilogravura na página de rosto. É perfeitamente razoável que outras gráficas brasileiras antigas tenham preenchido seu tempo ocioso com a impressão desse material tão popular e tão prontamente vendável.”
E de se supor que Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima, Francisco das Chagas Batista e João Melchiades Ferreira, só para citar alguns dos pioneiros da publicação de histórias rimadas no Nordeste, tenham tido acesso desde a infância à tais publicações, que acabaram se tornando fonte permanente de inspiração para suas obras. Se tais histórias chegaram até aqui em prosa, quadra ou mesmo sextilhas, é um detalhe que, em absoluto elimina a influência ibérica no cordel brasileiro. Paralelo a isso, circulavam por todo o Nordeste obras como A história do Imperador Carlos Magno e os doze pares de França e O Martir do Gólgotha, do romancista espanhol Enrique Pérez Scrish, que tanto influenciaram os nossos 'cantadores de Ciência' e poetas de bancada do segundo quartel do Século XIX.
Além dos folhetos populares que circularam no Brasil desde o século XVIII, dentre os quais situam-se os já mencionados 'Cinco livros do povo', estudados por Câmara Cascudo, a saber: Donzela Teodora, Princesa Magalona, Imperatriz Porcina, João de Calais e Roberto do Diabo, uns em quadras, outros em prosa, sabe-se que a Livraria Garnier, no Rio de Janeiro e a Livraria do Povo (Pedro Quaresma & Cia.) já apostavam na publicação de algumas historietas rimadas, dentre as quais a Guerra de Canudos, escrita por João de Sousa Cunegundes e uma história da Guerra do Paraguai, em versos, elaborada pelo cearense João de Sant’Anna Maria, o Santaninha, conforme atesta um estudo publicado pelo historiador José Calasans, intitulado “Canudos na literatura de Cordel”.
Entretanto, nada se compara ao tino comercial, ao estro prolífico e a persistência de Leandro Gomes de Barros, que pode ser considerado o verdadeiro fundador da literatura popular em versos no Nordeste Brasileiro. Leandro, que optou por viver unicamente de escrever e vender a sua poesia, conforme atesta Câmara Cascudo, fez com que fossem criados pontos de venda em vários Estados brasileiros, fazendo com que sua produção se espalhasse por todo o país, sobretudo nos estados do Norte-Nordeste. No início do século XX, as distâncias quase intransponíveis deste país continental foram aos poucos se reduzindo com a implantação de uma boa malha ferroviária, além da navegação marítima e fluvial. Quando Leandro faleceu, em 1918, o avião já havia sido largamente utilizado na 1ª Guerra Mundial e o automóvel começava a se popularizar.
Quando Leandro faleceu, a poesia popular impressa já estava consolidada e consistia num negócio bem lucrativo. Além dele, já atuavam com desenvoltura os irmãos Chagas e Pedro Baptista (da Popular Editora) e o iniciante João Martins de Athayde, que viria a se tornar o maior editor do gênero, após adquirir os direitos da obra de Leandro e outros grandes poetas daquela época.


Fabiano Chaves (óleo sobre tela)


5. A morte do poeta

Do mesmo modo que a sua vida, a morte de Leandro também é envolta em lendas e controvérsias. Há pelo menos umas quatro versões para esse fato. O jornalista Permínio Ásfora, em artigo publicado no Diário da Noite do Recife, em 13 de dezembro de 1949, intitulado "Crise no romanceiro popular", diz o seguinte:
“Trechos de sua vida são lembrados ainda hoje. Contam que já morava aqui no Recife quando um senhor de engenho, indignado com um morador, resolveu aplicar neste uma sova de palmatória. (...) Um dia o senhor de engenho é surpreendido por violenta punhalada vibrada pela mesma mão que levara seus bolos. O poeta Leandro aproveita o caso policial, transformando-o em folheto que era um libelo contra o senhor de engenho. Descreve em "O punhal e a palmatória", com calor e simpatia, a inesperada vindita. O chefe de polícia, enfurecido com a literatura de Leandro, manda metê-lo na cadeia. Apesar de folgazão, Leandro era homem de muita vergonha e de muito sentimento. E como naquele já distante ano de 1918 a cadeia constituía uma humilhação, à humilhação da cadeia sucumbiu o grande trovador popular.”
Outros pesquisadores afirmam que Leandro morreu vítima da influenza espanhola, uma gripe mortífera que assolou o Brasil no início do século passado. Egídio de Oliveira Lima, por sua vez, diz que Leandro morreu "de uma enfermidade que o havia atacado uns dez anos antes" (Lima, 1978: 156), e no seu ATESTADO DE ÓBITO consta como causa mortis ANEURISMA.
Cristina da Nóbrega, seguindo pistas fornecidas pelo autor destas linhas, pesquisou nos cartórios do Bairro de São José, no Recife, e localizou o livro onde está assentada a CERTIDÃO DE ÓBITO do grande poeta. Algumas informações curiosas, prestadas por seu filho Esaú Eloy de Barros Lima (quem, por sinal, assina o documento), são bem reveladoras. Ele informa que seu pai tinha 58 anos de idade, e não 53, na data de seu falecimento, o que remete seu nascimento para 1860, ao invés de 1865, data divulgada oficialmente. Diz que Leandro era filho de José Gomes de Barros Lima e Adelaide Gomes de Barros (seu nome de solteira era Adelaide Xavier de Farias). Era comerciante, faleceu na rua Passos da Pátria, bairro de São José, às 9h30 da noite do dia 4 de março de 1918, tendo como causa mortis aneurisma. Nessa data, Rachel Aleixo de Barros Lima, a filha mais velha, tinha 24 anos, Esaú Eloy, o declarante, 17 anos, e as suas irmãs Julieta (na certidão está grafado erroneamente Juvanêta, noutros documentos aparece grafada também a forma Giovaneta) e Herodias eram também menores.
Após a morte de Leandro, seu genro Pedro Batista (irmão de Chagas Batista e esposo de Rachel Aleixo de Barros) continuou editando a obra do sogro em Guarabira (PB), fazendo algumas revisões de linguagem, entre 1918 e 1921. Finalmente em 1921, após desentender-se com o genro, a viúva do poeta, Dona Venustiniana Aleixo de Barros, vendeu seu espólio literário a João Martins de Athayde.

6. Autor de clássicos do gênero

O estilo de Leandro é inconfundível. Ele teve fôlego para transitar em todos os gêneros e modalidades correntes: peleja, romance, gracejo, crítica social, e o fez com maestria. Poucos conseguiram igualar-se. No geral, ninguém o superou até hoje. Dentre as suas obras mais expressivas destacam-se Juvenal e o dragão, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, A vida de Pedro Cem, A Donzela Teodora, Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, O soldado jogador, O cachorro dos mortos, Interragatório de Antônio Silvino, A vida de Cancão de Fogo e seu Testamento, todos considerados verdadeiros clássicos do Cordel.

Arievaldo Vianna
Poeta popular, criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula



Bibliografia
ALDÉ, Lorenzo. "Hora de Conhecer Leandro", in Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 3, n. 29, fevereiro de 2008.
BARROSO, Gustavo. Ao Som da Viola (Folclore), nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949.
BATISTA, Francisco das Chagas. Cantadores e poetas populares. 2. edição. João Pessoa, 1997.
BATISTA, Sebastião Nunes. Bibliografia Prévia de Leandro Gomes de Barros. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1971.
CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores. São Paulo: Ediouro, 2000.
__________. Cinco Livros do Povo. 2. edição. João Pessoa: Editora Universitária/UEPb, 1979.
CURRAN, Mark. História do Brasil em cordel. 2 ed. São Paulo: EDUSP, 2001.
FILHO, Pedro Nunes. Guerreiro Togado - Fatos Históricos de Alagoa do Monteiro. Recife: Editora Universitária - UEPE, 1997.
HALLEWELL, Laurence, O livro no Brasil: Sua história. Edusp, 1985.
LITERATURA POPULAR EM VERSO. Estudos. Tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973 (Coleção de textos da Língua Portuguesa moderna).
__________. ANTOLOGIA, Tomo III. Leandro Gomes de Barros - 2. João Pessoa: UFPB, 1977.
LOPES, Ribamar. Literatura de Cordel - Antologia. 3. edição. Banco do Nordeste do Brasil S.A., 1984.
MAXADO, Franklin, O que é cordel na Literatura Popular, Edições Queima-Bucha, 2012.
PIMENTEL, Altimar. F. das Chagas Batista, Antologia. São Paulo: Hedra, 2007.
TERRA, Ruth Brito Lemos. Memória de Lutas: Literatura de Folhetos no Nordeste - 1893 - 1930. São Paulo: Global, 1983.
VIANA, Arievaldo – Leandro Gomes de Barros – Vida e Obra, Queima-Bucha Editora / Edições Fundação SINTAF, 2015.
__________. Santaninha – Um poeta popular na capital do Império, Editora IMEPH, 2017.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

RIO DE JANEIRO



Literatura de cordel vira patrimônio cultural e vive momento de efervescência

Reconhecimento do Iphan chega no momento em que a internet promove desafios entre cordelistas do Brasil e do exterior, difundindo mais ainda a cultura.


Ministro Sérgio Sá

RIO - Trazida pelos portugueses na segunda metade do século 19, a literatura de cordel narrativa poética popular com métricas e rimas perfeitas ou quase perfeitas , receberá quarta-feira o registro de Patrimônio Cultural do Brasil. O título, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), atende a pedido de 85 poetas, feito em 2010, através da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), no Rio.
"É um momento histórico. É a coroação de 30 anos da academia, que incentiva, divulga, produz e revela novos talentos", diz, emocionado, o presidente da ABLC, Gonçalo Ferreira da Silva, de 80 anos, autor de 300 cordéis e 30 livros.O reconhecimento vem numa hora de 'efervescência cordelista' graças à internet, que agora propaga desafios virtuais (pelejas). A poetisa Dalinda Catunda é pioneira. "Comecei brincando com a escritora Rosário Pinto. Hoje, as pelejas ocupam um espaço importante nas redes sociais", orgulha-se.


Poetas Rosário Pinto, Marcus Lucenna e Arievaldo Vianna


No Rio, estima-se que vivam cerca de 50 cordelistas cariocas, nordestinos, paulistas e mineiros. Na Fundação Casa de Rui Barbosa, o acervo digital de mais de 2,3 mil folhetos (há outros 9 mil na fila) é mais acessado que as obras do próprio patrono 120 mil em dois anos.Já o Escritório da Biblioteca do Congresso e a Divisão Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington estão formando, por meio da American Folklife Center (AFC), a maior coleção de cordéis do mundo, com mais de 12 mil peças, a partir de 1930.Outro termômetro do sucesso: só a Copiadora Father, no Centro, imprime ao menos mil livretos de escritores populares por mês. "Nos tornamos especialistas", diz o gráfico Fábio Albino.


Gonçalo Ferreira, Marco Haurélio, Marcus Lucenna, Klévisson Viana e Gustavo Dourado


Na Feira Nordestina de São Cristóvão, cordelistas de outras cidades têm destaque, como Isael de Carvalho, de Petrópolis, e o mineiro Manoel Santa Maria. "Versos em oito páginas custam R$ 3", propagandeia Isael. Por R$ 300, são feitos cordéis personalizados para aniversários, casamentos e homenagens.Para Rosilene Alves de Melo, pesquisadora que coordenou os trabalhos do processo, o momento se traduz em dois significados: "Primeiro, o reconhecimento, ainda que tardio, pelo Estado brasileiro, da importância de uma prática cultural que por muito tempo foi considerada poesia menor, à margem das elites. O poeta Raimundo Santa Helena, para lembrar, foi rechaçado por duas vezes em 1980, por acadêmicos, ao tentar ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL), mesmo tendo escrito 500 folhetos.
Na Praça XV e no Campo de São Cristóvão, folhetos eram apreendidos e os poetas presos (no século passado). O segundo aspecto é a dimensão política. O acesso a literatura de cordel passa a ser um direito de todos. Os poetas e toda a cadeia produtiva poderá reivindicar políticas públicas para a sua salvaguarda e difusão", ressalta.Maria Elisabeth Costa, chefe do setor de pesquisa do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, que supervisionou os estudos pelo Iphan, exalta a internet como ponte para outras expressões artísticas. "É a ligação com o cinema, com as novelas, com as revistas em quadrinhos... Surpreendem a força e a vitalidade do cordel que, ao contrário de diversos prognósticos quanto ao seu desaparecimento no século 20, chegou ao século 21 fortalecido e adaptado a novos formatos e linguagens", atesta.


Professora Rosilene Melo, com uma turma de poetas e pesquisadores de Cordel


Entrevista com Rosilene Alves de Melo, historiadora, professora da Universidade Federal de Campina Grande e pós-doutoranda pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), que coordenou a pesquisa para o processo de registro do cordel no Iphan.
O DIA - Desde 1990 pesquisando cordéis pelo Brasil, o que a surpreendeu nesse período?
Rosilene: O que surpreende é a força e a vitalidade da literatura de cordel que, ao contrário de diversos prognósticos quanto ao seu desaparecimento no século XX, chegou ao século XXI bastante fortalecida e se adaptando a novos formatos e linguagens.
Além do Nordeste, outros estados, como Rio e São Paulo, por exemplo, têm se destacado na produção de cordéis?
Rosilene: Podemos afirmar que a literatura de cordel está presente em todas as regiões do país, mesmo reconhecendo que em algumas localidades ela de difundiu mais profundamente. No Sudeste a literatura de cordel se consolidou sobretudo a partir do final da década de 1940, quando as comunidades de migrantes nordestinos se formaram no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mas temos também cordelistas atuando em Minas Gerais. Cabe destacar, também, a difusão do cordel no Distrito Federal quando os trabalhadores da construção civil levaram a cantoria e o cordel para os locais de trabalho e para a praça pública. É importante recordar, também, a difusão do cordel na região Norte em razão das comunidades de migrantes durante o chamado "ciclo da borracha" e que se fortaleceu com a criação da Editora Guajarina na cidade de Belém que funcionou entre 1914 e 1949.
A internet vem sendo realmente uma importante difusora e universalização desta modalidade de expressão e comunicação....
Rosilene: Certamente. O cordel por ser um gênero literário que possui relações com a oralidade, com o texto escrito e com a imagem (através das capas dos folhetos) transitou com bastante facilidade através do jornal impresso, do rádio, da televisão, do teatro, do cinema e, mais recentemente, através da internet. Neste sentido vale recordar as primeiras "pelejas virtuais" a partir da década de 1990 quando os poetas passaram a compor folhetos em parceria através de mensagens de texto e de e-mails e o cordel ingressou no ciberespaço, a exemplo do folheto intitulado "O marco cibernético construído em Timbaúba", de autoria do poeta José Honório da Silva e publicado em 1995. Atualmente os cordelistas produzem em parcerias através dos aplicativos de celular e mantém uma importante rede de trocas e sociabilidades através das redes sociais. Vale acrescentar que alguns poetas mantém sites e bloggs, a exemplo do blogg Acorda Cordel, mantido pelo poeta Arievaldo Viana desde 2011. É preciso enfatizar, também, que a internet vem possibilitando para a realização de pesquisas, através da digitalização de acervos localizados no Brasil e no exterior que disponibilizam informações e o acesso a originais raros impressos no início do século XX bem como a produção contemporânea.
Qual a importância do registro da Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil?
Rosilene: é possível afirmar que registro da literatura de cordel tem pelo menos dois significados: o primeiro é o reconhecimento simbólico, ainda que tardio, do Estado brasileiro da importância de uma prática cultural que por muito tempo foi considerada uma poesia menor, colocada à margem por setores das elites. O poeta Raimundo Santa Helena, por exemplo, tentou por duas vezes ingressar na Academia Brasileira de Letras e em que pese já ter escrito mais de 500 folhetos, foi duas vezes rechaçado pelos acadêmicos da ABL na década de 1980. No Rio de Janeiro, na Praça XV e no Campo de São Cristóvão, folhetos eram apreendidos e os poetas presos. na Bahia em 1938 os folhetos eram queimados em praça pública. Os poetas Rodolfo Coelho Cavalcante (1919-1986) e o poeta José Bernardo da Silva (1902-1972) foram presos por venderem literatura em praça pública, o que podemos afirmar que é uma vergonha, num país em que a população ainda tem pouco acesso a literatura. O segundo aspecto é a dimensão política do registro: o acesso a literatura de cordel passa a ser um direito de todos os cidadãos, já que se tornou um bem cultural. Portanto, a partir do registro os poetas e toda a cadeia produtiva do cordel poderá reivindicar maior acesso às políticas públicas para a sua salvaguarda e difusão para as próximas gerações.
Dá para imaginar o número aproximado de cordeliastas, repentistas, além de xilógrafos, pesquisadores e todas as pessoas envolvidas na sua pesquisa?
Rosilene: o número de pessoas envolvidas direta ou indiretamente na produção e difusão da literatura de cordel no Brasil é muito grande e não temos uma estimativa em números concretos. Somente através de um recenseamento teríamos condições de expressar quantitativamente a presença do cordel no país. O dossiê do registro produzido pelo IPHAN realizou 140 entrevistas. No entanto, não havia possibilidade de entrevistar todas as pessoas envolvidas. O que posso dizer é que este número não representa a totalidade desta comunidade, mas é importante informar que além das entrevistas realizamos diversas reuniões com os poetas, pesquisadores, proprietários de editoras especializadas, xilógrafos, declamadores e representantes de instituições de pesquisa em diversas cidades do país, para discussão acerca do significado deste registro e para a construção de recomendações de salvaguarda.
Como define os cordelistas brasileiros?
Rosilene: creio que este momento é muito importante para a literatura de cordel e para a nossa geração que teve a oportunidade de concretizar este registro. Costumo dizer que estamos prestando, também, uma homenagem e reconhecimento a todas as pessoas que no passado se dedicaram à difusão da literatura brasileira nas praças, feiras, mercados populares e não foram reconhecidas como escritores. A sociedade brasileira reproduz, no plano cultural, a exclusão social e econômica de grande parte da população que não tem acesso ao livro e a leitura como um direito de todos. Os poetas de cordel são pessoas obstinadas em levar a poesia aos lugares mais distantes e traduzem para a linguagem do verso rimado e metrificado a opinião pública, os valores sociais e até mesmo os preconceitos que precisamos combater. Sou muito grata pela oportunidade de ter feito parte de uma excelente equipe de trabalho, sob a coordenação do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que reuniu muitas pessoas que se empenharam com extremo zelo para fazer o melhor. Me sinto muito honrada, como servidora pública, de ter dedicado muitos anos a este trabalho para deixar este legado às futuras gerações.




OPINIÃO DO POETA MARCO HAURÉLIO:

O CORDEL É PATRIMÔNIO CULTURAL DESTE PAÍS

O cordel sempre foi um patrimônio histórico, cultural, imaterial, material, afetivo, linguístico do povo brasileiro. Ontem, no Rio de Janeiro, veio o reconhecimento institucional 'quae sera tamen'.
São muitas vozes que, desde sempre, se empenharam para que tal chancela viesse. Participei de muitas reuniões, acompanhei o trabalho competente da professora Rosilene Melo e sua equipe, o pedido feito pela ABLC, com o aval dos poetas presentes a um encontro em Brasília em 2010, as discussões ora ásperas, ora amenas acerca de questões conceituais e outras menos importantes.
Falo de Rosilene e dos membros de sua equipe que viajaram o Brasil, colhendo depoimentos, registrando histórias, pesquisando acervos e dando voz aos protagonistas do gênero poético que é, a um só tempo, letra e voz.
E agora? O que virá? Sinceramente, não sei, mas espero que não cruzemos os braços, aceitando, passivamente, a tutela do estado, ou o afago de uma mão paternal. Lutemos por políticas públicas, transparências nos editais e a inclusão do cordel na educação, sem a caricatura e o falso pitoresco nos quais alguns desavisados o embalam para consumo.
Que ele seja sempre a "literatura do coração" preconizada pelo saudoso vate Manuel Caboclo, a poesia que, há várias gerações, embala os serões das noites sertanejas e ameniza a saudade dos que partem para o reino do Vai-Não-Torna, acalentando o sonho de muitos brasileiros.
Sigamos esperançosos, mas, também, vigilantes.

sábado, 15 de setembro de 2018

NOTÍCIA DO IPHAN



Cordelista e folheteiro Jesus Sindeaux

Literatura de Cordel pode se tornar Patrimônio Cultural do Brasil

Entre versos, rimas e cantoria, a Literatura de Cordel é uma expressão cultural popular que abrange não apenas as letras, mas também a música e a ilustração. É um gênero literário, veículo de comunicação, ofício e meio de sobrevivência para inúmeros cidadãos brasileiros. Poetas, declamadores, editores, ilustradores (desenhistas, artistas plásticos, xilogravadores) e folheteiros (como são conhecidos os vendedores de livros) podem entrar na torcida, pois agora a Literatura de Cordel pode ser reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Apesar de ter começado no Norte e no Nordeste do país, o cordel hoje é disseminado por todo o Brasil, principalmente por causa do processo de migração de populações. Hoje, circula com maior intensidade na Paraíba, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo. Em todos estes estados é possível encontrar esta expressão cultural, que revela o imaginário coletivo, a memória social e o ponto de vista dos poetas acerca dos acontecimentos vividos ou imaginados.


Poeta Lucas Evangelista, um dos mais antigos no ramo


A Literatura de Cordel no Brasil é o resultado de uma série de práticas culturais em que os cantos e os contos – e suas variantes – constituem as matrizes a partir das quais uma série de formas de expressão se forjou. Na formação da cultura brasileira, da qual a literatura de cordel faz parte, tanto indígenas quanto africanos e portugueses adicionaram práticas de transmissão oral de suas cosmologias, de seus contos, de suas canções. A questão da harmonia sonora é muito ressaltada pelos poetas. Além das razões estéticas, há uma explicação histórica para isso. No início do século XX, quando a literatura de cordel se consolidou como um sistema editorial próprio, os poetas desenvolveram um modo particular de comercializar seus livros nos mercados e feiras livres. Carregavam consigo os exemplares e montavam uma banca em que os folhetos eram exibidos (por esse motivo os poetas da literatura de cordel também são chamados de poetas de bancada). Para atrair curiosos e compradores, os poetas costumavam cantar em voz alta trechos dos poemas, contando dramas, tragédias, romances e sátiras. No momento mais importante da narrativa – quando o desfecho da história de aproximava – o canto era interrompido e o final da história só poderia ser conhecido por aqueles que comprassem o folheto. Assim, a métrica perfeita era a condição para que o poeta pudesse exercer sua performance com maestria diante do público.



Literatura de Cordel

Na região do Pajeú (sertão de Pernambuco), a declamação ainda hoje é praticada cotidianamente pela população. Atualmente, os declamadores gravam suas performances em discos e vídeos que são comercializados em festivais e feiras de literatura de cordel. Além da declamação, outro modo particular de jogo verbal se difundiu e se popularizou no Brasil: o desafio – ou peleja – se define como uma disputa oral, em geral entre duas pessoas, cujo objetivo é vencer o adversário por meio do virtuosismo poético diante do público. Além da viola – instrumento mais comum na cantoria –, a rabeca também era utilizada por alguns cantadores.

A literatura de cordel faz parte da vida social dos brasileiros. Ao longo do tempo, por meio das trocas e empréstimos culturais com a música, o cinema, o teatro, as novelas e as redes sociais, se atualizou e se transformou, sem perder a identidade, a originalidade e sua estética própria, particular.


Entrevista com o poeta Natan Marreiro, Canindé-CE


Origens

A literatura de cordel é um gênero poético que resultou da conexão entre as tradições orais e escritas presentes na formação social brasileira e carrega vínculos com as culturas africana, indígena e europeia e árabe. Trata-se de um fenômeno cultural vinculado às narrativas orais (contos e histórias de origem africana, indígena e europeia), à poesia (cantada e declamada) e à adaptação para a poesia dos romances em prosa trazidos pelos colonizadores portugueses. Os poetas brasileiros no século XIX conectaram todas essas influências e difundiram um modo particular de fazer poesia que se transformou numa das formas de expressão mais importantes do Brasil.



O cordel se inseriu na cultura brasileira em fins do século XIX, forjado como a variação escrita da poesia musicada por duplas de cantadores de viola, de improviso, conhecida como repente. A expressão literatura de cordel não se refere num sentido estrito a um gênero literário específico, mas ao modo como os livros eram expostos ao público. No entanto, cada vez mais essa expressão foi sendo associada a um conjunto de edições de baixo custo, adaptações de textos provenientes das mais diversas fontes (obras até então manuscritas, narrativas orais, peças de teatro cômico) destinadas a um número cada vez maior de leitores pouco familiarizados com a escrita e, por esse motivo, diversos procedimentos editoriais foram introduzidos a fim de tornar a leitura mais fácil: diminuição do tamanho da obra ao enxugar o livro por meio do emprego de textos curtos, uso de papel de baixa qualidade e redução dos preços.

Os poetas costumam definir a literatura de cordel como um gênero literário que obrigatoriamente possui três elementos: métrica, rima e oração. Esses três elementos da poética do cordel constituem os fundamentos que precisam ser apropriados por quem deseja produzir um cordel. Ao compor um cordel com métrica, rima e oração, o poeta aciona os resultados de um longo aprendizado, de uma formação que não se obtém na escola, mas a partir do convívio com outros poetas, ou seja, a partir uma tradição coletiva que se transmitiu ao longo de gerações.

FONTE: http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/4819