segunda-feira, 18 de junho de 2018

Sertão Lamparina



O ELEMENTO FICCIONAL NO LIVRO 
“NO TEMPO DA LAMPARINA”, 
DE ARIEVALDO VIANNA

                 Maércio Siqueira

Quando nós, simpatizantes da análise textual e da crítica literária, nos pomos a ler um livro, procuramos nele algo como originalidade, unidade, universalidade, estilo, e principalmente a criatividade, ou invenção, que devem estar presentes principalmente nas obras com clara finalidade literária. Não é a  forma mais espontânea de se ler, é bem verdade, mas trata-se de uma leitura que expõe os valores estéticos de uma produção ou a ausência de tais valores, quando deveriam existir. Ao primeiro lance de vista, não poderíamos abordar por esse prisma o livro de Arievaldo Vianna, “No tempo da Lamparina”, recentemente lançado, uma vez que, embora sejam crônicas, estas visam à narração de eventos reais, acontecidos. Porém um olhar mais atento dessa obra vai trazendo à luz o elemento ficcional, senão exatamente como invenção de eventos, pelo menos no estilo, bastante rico, vibrátil e inteligente.

Arievaldo não se limita à narração dos fatos. São crônicas e não reportagens. Seleciona cenas, episódios, estabelece uma ordem, por importância de afeto, no quadro vivo da reminiscência. Mesmo quando esteve mais preso a datas e sequências cronológicas, como no livro anterior “O Sertão em Desencanto”, essa mesma ternura da linguagem se fez presente. O fato é que o nosso autor sabe temperar as frases, torná-las saborosas, como no seguinte exemplo: “A missiva envelopada tinha caráter de coisa séria e eu entrei em pânico. A carta do cabra velho dizia mais ou menos o seguinte(...)” (página 47). Daqui se deduz o cuidado com a língua, a busca de expressividade, a não vulgarização do idioma. Também aí se apimenta o episódio, cria uma expectativa no leitor, e isso não diz respeito ao fato em si narrado, mas já é uma característica do narrador, arrumando o caso, tornando-o mais interessante, “enfeitando”, como ele próprio diz, arte que aprendeu com parentes próximos.  No capítulo II, intitulado “Quando me entendi por gente”, essa preferência pela invenção, pelo “enfeite”, é confessada através de alguns episódios. Para ilustrar nossa abordagem, vale a seguinte passagem, referindo-se à descoberta, pelo mais velhos de sua família, de sua forma exagerada de contar as coisas, quando criança:

“Lá se ia eu remendar a história e contar como realmente acontecera: insossa, desenxabida, medíocre e sem graça. Por que não me deixaram exercitar as artes de ‘literato’, como faziam livremente o Raimundo Viana e o Gabriel? Até o João da Graça, empregado do meu avô, podia contar suas meias verdades impunemente, a céu aberto” (p. 58)

Temos razão em acreditar que essa consciência literária não era apenas uma mania ou traço de sua personalidade infantil. O adulto e escritor, podemos ver isso a todo instante em seus textos, está sempre procurando desviar-se da sensaboria da expressão comum. Os fatos, reais, ocorridos, são contados com arte, com delicadeza, revestidos dos comentários mais interessantes. Sua prosa está cheia de referências literárias e culturais, regionais, pessoais e universais. Como as coisas podem ser vistas de maneira crua, sem sabor, se o sujeito que olha tem um universo na cabeça, de lembranças, de leituras as mais variadas e eruditas? E, além disso, um bem educado senso de humor?

Não se trata, portanto de um livro de puro registro. Não notamos no autor aquela ansiedade de falar de si mesmo. Deseja nos mostrar um mundo, do qual ele fez parte e do qual agora é um porta-voz. Mas esse mundo não existe mais; para que tenhamos ideia dele, precisa ser contado, ou recontado, não em um realismo fotográfico, mas pela afetividade da palavra. E assim como a lamparina emprestava o efeito alucinatório de suas chamas às cenas que realmente aconteciam, o nosso autor empresta essa chama tremulante e vívida, para darmos uma olhada naqueles tempos idos.

Por isso, considero “No tempo da Lamparina”, bem como “O Sertão em Desencanto”, trabalho de arte literária, e que devem ser vistos como tais.

Deve ser lembrado que esse livro faz parte de um interessante projeto, sendo o segundo livro de uma desejada trilogia. O autor vem sendo bem-sucedido nas duas obras já realizadas. Quando estiver completa, então entenderemos a totalidade do que Arievaldo tem em mente. Veremos o que ele terá criado. Deus conceda a Arievaldo todas as condições para que escritor valoroso venha a concluir um plano tão importante no palco das letras cearenses.




Casa de taipa - xilogravura de Maércio Siqueira

Ao pé do rádio - Xilo de Maércio Siqueira



AGRADECIMENTO A MAÉRCIO SIQUEIRA
E uma ligeira divagação sobre a sua arte como xilógrafo e escritor

Mais uma vez fico deveras comovido com a sua generosidade, não apenas com relação a acolhida ao meu trabalho (de escritor provinciano e longe dos holofotes midiáticos) mas, sobretudo, pelo fato de comentá-lo com muita propriedade e acerto. Alguns episódios desse livro "No tempo da lamparina - II volume de memórias de um menino sertanejo" são esboços de um romance embrionário que venho engendrando há alguns anos, sem coragem (e tempo) de arregaçar as mangas para trazê-lo à lume... Algo nascido no tempo do velho candeeiro sertanejo talvez fique ofuscado diante dos modernos holofotes cosmopolitas. Entretanto, a frase de Tolstoi continua me encorajando, aquela que afirma que a melhor maneira de sermos universais é falarmos de nossa aldeia. A persistência de Luiz Gonzaga em cantar os ritmos e costumes do povo nordestino sofreu os piores preconceitos, as maiores afrontas e entraves nas suas primeiras tentativas. Mas o tempo, a quem se atribui o título de Senhor da Razão, se encarregou de provar que o menino de Exu - filho adotivo do Crato (o Cratinho de açúcar, coração do Cariri), como ele, carinhosamente, se referia, estava certo!

Quem se abeira das veredas de seu chão nativo, e se abebera das fontes sertanejas, pisa na folha seca e não chia. Bebe nas cacimbas sagradas da cultura popular e rejuvenesce a cada nesga de lembrança que consegue resgatar das entranhas do cérebro ou das conversas com pessoas que estão sintonizadas com esse universo. É exatamente isso que você consegue com a sua poesia, com a sua prosa e, sobretudo, com as suas xilogravuras, tão ricas de detalhes e simbologia, tão comprometidas com esse chão sagrado em que nascemos e onde temos a graça de habitar. Até mesmo quando você reproduz uma cena bíblica, como a fuga da Sagrada Família para o Egito, eu consigo vislumbrar claramente as expressões nordestinas de um José Sertanejo, cambiteiro dos antigos engenhos de cana do Cariri cearense; de uma Maria dona-de-casa, acostumada a lavar roupa na Pedra da Batateira e outras nascentes da região e de um Menino Jesus amamentado com leite de cabra e mingau de araruta, com seus cueiros cheirando a sabão de oiticica e alfazema.

É a perfeita simbiose de Gustave Doré com Mestre Noza! O estilo impecável dos grandes gravadores europeus misturando-se com o traço inconfundível de Stênio Diniz, Damásio Paulo, Antônio Relojoeiro e Walderedo Gonçalves. Naturalmente que você tem o seu próprio estilo e não seria exagero afirmar que você já se projetou como um dos mestres da gravura do Cariri em matéria de estilo e rebuscamento, tornando-se um mestre no ofício que abraçou.

Do Maércio poeta e prosador eu não me aventuro a traçar um perfil, embora já tenha saboreado alguns de seus escritos. É que não tenho a pretensão de ser crítico literário, porém, como leitor, asseguro que gostei, aprovei e recomendo. É uma escrita que tem o mesmo sabor de uma rapadura batida ou de um arroz temperado com piqui.


Arievaldo Vianna

quarta-feira, 13 de junho de 2018

MEMÓRIAS DA LAMPARINA


Arievaldo Vianna

O SERTÃO DA NOSSA INFÂNCIA

Texto de Sérgio Araújo sobre o livro 'No tempo da lamparina'




Através do olhar encantado do então menino Arievaldo Viana, o sertão do tempo da lamparina ressurge com toda a sua magia - cheiros, cores, sons e imagens parecem ressoar no silêncio de nossas almas, com um encanto único. Arievaldo, como hábil escritor, soube captar nuances de um tempo em que nossa cultura era pura como água de chuva, daquelas do fim de tarde, no sertão, em que os grossos pingos batem no telhado com tanta força que parece que vão quebrar as telhas. E o cheiro que se seguia? Apesar dos carões dos mais velhos, fazíamos toda a questão do mundo de sorver aquele aroma com toda nossa alma.
Esse é o No Tempo da Lamparina, uma viagem feita no lombo do jumento, calçado com chinela de couro ou de pneu. Pros que viveram esse tempo, é um gostoso reencontro com “aquele cheiro meu”, como na música do Luiz Gonzaga, em que ele retorna pra casa e, numa madrugada dessas do sertão, reencontra seu pai no abrir da tramela de uma janela.
O dragão chamado progresso, com seus asfaltos, sua televisão e seu aculturamento encarregou-se de levar tudo isso pra longe, mas especialmente para quem teve o prazer de saborear algo desse velho tempo, não há nada mais gostoso do que reviver tudo aquilo, ainda que seja por meio da auto-hipnose a que deliciosamente nos submetemos ao ler essa obra ímpar.
Obrigado, Arievaldo, obrigado, por ter abraçado sua arte com tanto amor. Os frutos desse amor estão cativando muitos corações por aí afora. E o meu certamente é um deles.



Sérgio Luiz Araújo Silva

segunda-feira, 11 de junho de 2018

RESENHA

O POETA E EDITOR POTIGUAR GUSTAVO LUZ AVALIA O LIVRO 

NO TEMPO DA LAMPARINA

Quem nasceu, ou por alguns momentos de sua infância, passou férias no sertão, encontrará no mais novo livro do poeta e escritor Arievaldo Vianna, as chaves para muitas dúvidas de seus costumes e gostos que por algum momento você não sabe de onde veio.
Em No tempo da lamparina, Ari, para os mais próximos, esmiúça sua infância de menino da roça, para chegar a uma conclusão cabível pelo seu amor à cultura e a literatura popular. As estórias de trancoso que escutava da velha Bastiana e sua neta Rita Maria, fez com que os impressos em folhetos parecessem verdadeiros ou, pelo menos, plausíveis, como escreveu no inicio de conversa.
Escutar estórias de almas penadas, botijas, encantamentos em pleno sertão sem eletricidade, alumiado nas noites pelas lamparinas, com sua luz bruxuleante, criando imagens imaginarias de bichos nas paredes de taipa, e acompanhado das leituras dos folhetos de sua avó Alzira, guardados na mala em cima do caixão de farinha, fez com que o poeta, caminhando em cima dos lajedos, em baixo das velhas oiticicas, já criasse seu mundo de estórias e imaginações. De onde, num futuro próximo, extraiu bagagem suficiente para escrever seus romances e seus versos rimados cheios de fantasias e humor.
Arievaldo nasceu poeta e contador de histórias, sempre bem humorado, foi na casa de sua infância onde encontrou a munição que precisava para o enriquecimento de sua memória. A prova disso está no seu O TEMPO DA LAMPARINA, livro, para a nova geração ficar informada que nem sempre o sertão foi um local de pessoas alienadas e sem matrizes culturais.
Permeado com as músicas que lhe acompanhou durante sua vida, Arievaldo consegue fazer um pequeno relado do papel que teve a música nordestina, na formação do individuo que procura a sabedoria, como um remédio para momentos difíceis de nossa existência.
No sertão do tempo da lamparina, sabia-se a hora de plantar, de colher e de armazenar. Sabia-se o que era educativo, e mesmo sem estudos, os mais velhos tinham visão de vida e de futuro. E foi assim com Arievaldo Vianna, onde seus pais, logo procuraram escola para os filhos, porque sabiam que a educação andava de mãos dadas com o bem-estar. E foi na cidade onde ele tornou-se escritor e poeta.
Essa parte não contarei, lendo as 270 paginas do volume, você saberá como o poeta conseguiu ser um dos melhores cordelistas do Brasil. Boa leitura!
Gustavo Luz - Poeta e Editor

quinta-feira, 7 de junho de 2018

RECADO PRO TONICO



Patrícia, Tonico, Pedro Uchoa e Arievaldo Vianna

UM BREVE RECADO PARA O MEU AMIGO TONICO MARREIRO

Foi com um misto de surpresa, apreensão e pesar que recebi a infausta notícia sobre o estado de saúde do amigo Tonico Marreiro, radialista, poeta, escritor e folclorista dos Sertões de Canindé. Após submeter-se a uma delicada cirurgia, Tonico entrou em estado de coma e sobrevive por meio de aparelhos. As informações mais recentes, colhidas junto a alguns familiares, dizem que, segundo a avaliação médica, essa situação é praticamente irreversível. Conhecendo a garra e a vitalidade desse menino de quase 75 anos de idade, eu não me surpreenderia caso o nosso Tonico desafiasse os diagnósticos da Ciência e reaparecesse com o bom humor de sempre, contando que durante esse estado de letargia havia conversado com o Bunaco, o Homerinho, o Pierre Mesquita, e ainda por cima mangando do seu compadre Toinho Walberto, dizendo que pretende passar mais uns quinze ou vinte anos aqui na terra, para somente fazer a viagem derradeira na sua companhia.
Conheço Tonico há mais de trinta anos, desde quando dei os meus primeiros passos no meio radiofônico. Para ser mais exato, antes mesmo de ingressar na antiga Rádio Uirapuru de Canindé. É que o Tonico me levou, ainda meninote imberbe, para uma apresentação no programa Ceará Caboclo, de Carneiro Portela. E nessa caravana foi também o Coral do Frei João Pinto, o pessoal da Banda de Música do saudoso maestro Jota Ratinho, os poetas Gonzaga Vieira e Natan Marreiro, além do compositor Jota Batista, dentre outros. Era uma pequena amostra da arte e da cultura do seu amado Canindé que aparecia diante das câmeras da antiga TVE (TV Educativa) hoje TVC (TV Ceará). Passou-se algum tempo. Depois fomos colegas de prefixo nas rádios Jornal de Canindé AM, Rádio São Francisco de Canindé AM e Rádio Cidade AM de Fortaleza-CE.



Ao longo dos tempos, apesar de pequenas e eventuais divergências, sempre mantivemos um espírito de amizade, camaradagem e de colaboração mútua, interessados que somos pela boa música, pela cultura sertaneja e pelas tradições de Canindé e demais municípios da Região Central do Ceará. O anedotário local era o principal tópico de nossas conversas e sempre que nos encontrávamos ele desfiava um excelente repertório de figuras inesquecíveis como Miguel Carpina, Barros dos Santos, Silazinha, Monte Pintor, Antonio da Gunda etc. – figuras que nem cheguei a conhecer, e também os “tirados de loro” de seu saudoso pai Raimundo Marreiro (que vi apenas duas ou três vezes) e do nosso saudoso Bunaco, figura com a qual andei trocando “figurinhas” em mesas de boemia do Mercado Velho e Praça Azul.


Minha esposa Juliana e meu filho Yuri, a quem o Tonico chama carinhosamente
de "meu genro", numa manhã de junho em Caridade-CE.


O MAL SÚBITO E A CRENÇA NO PODER DIVINO

Sabendo que Tonico é um homem espiritualizado, sintonizado com as energias que emanam do Plano Superior, peço apenas que se cumpram os desígnios de Deus e que tudo aconteça de acordo com a vontade do nosso Criador. O que todos nós desejamos – irmãos, esposa, filhos, sobrinhos, amigos e admiradores é que ele retorne à lida, tocando a nossa Academia de Letras, apresentando o seu programa de rádio e contando as suas divertidas lorotas nas esquinas e calçadas de Canindé e Caridade.
Pelo muito que representa para a Cultura de Canindé, Tonico é digno de todas as homenagens. Seu último bastião de resistência foi a criação da ACLAME – Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória de Canindé, da qual sou membro, ocupando a cadeira de número 3, cujo patrono é o historiador Francisco Magalhães Karam.

Aguardemos, portanto, que os desígnios de Deus sejam cumpridos e que haja um pronunciamento oficial da família a respeito desse assunto tão delicado... Afinal, diz a sabedoria popular: “ENQUANTO HÁ VIDA, HÁ ESPERANÇA”. Por enquanto, torço pela sua volta e solidarizo-me com toda a família Marreiro e com todos os amigos e admiradores do poeta, que construiu com caráter e denodo uma bela página na história da cultura canindeense. Porém, como já foi dito, de acordo com os ditames celestes.


Tonico e Bunaco


UM POUCO DA BIOGRAFIA DO POETA

PARA QUEM NÃO SABE, informamos que seu nome de batismo é Antônio Gonzaga Marreiro, filho do poeta e folclorista Raimundo Rodrigues Marreiro e de dona Laura Gonzaga Marreiro. Nasceu em Canindé no dia 17 de junho de 1943. O apelido Tonico foi dado pelos familiares e o acompanha desde os primeiros dias de nascido.

A última vez que nos falamos, por telefone, TONICO pediu-me para lançar nesta data, 17 de junho, o meu novo livro “NO TEMPO DA LAMPARINA – MEMÓRIAS DE UM MENINO SERTANEJO” e trabalhava nesse sentido, a fim de conseguir um espaço adequado que pudesse congregar todos os membros da ACLAME e o público em geral. Diante das circunstâncias, só nos resta aguardar o que está por vir.

(ARIEVALDO VIANNA)

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Soneto de Jorge de Lima




Após ler os primeiros capítulos do meu novo livro "No tempo da lamparina", o amigo e conterrâneo (de Madalena-CE), Dr. Antônio Mesquita do Bomfim, advogado e diretor do Sindicato dos Fazendários - SINTAF, enviou-me este belo soneto do poeta alagoano Jorge de Lima:

Lamparina
Jorge de Lima


Põe azeite na tua lamparina
Para que a treva eterna se retarde.
A tarde há de ensombrar a tua sina
E a Morte é indefectível como a tarde.

Observa: a sua luz não tem o alarde,
Que as combustões de súbito confina.
O fogaréu indômito ilumina,
Mas, quase sempre, em dois instantes arde.

A lamparina, entanto, muito calma,
— Luz pequenina, que parece uma alma,
Que à Grande Luz celestial se eleva –,

Espera nesse cândido transporte,
Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte,
Que a luz pequena para a Grande leva.


Publicado originalmente no Jornal do Comércio, Maceió, 26 set. 1917
Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 52




quarta-feira, 23 de maio de 2018

SERTÃO DAS MEMÓRIAS


NO TEMPO DA LAMPARINA
II VOLUME DE MEMÓRIAS
DE UM MENINO SERTANEJO


Pré-lançamento do novo livro de Arievaldo Vianna, neste sábado, 26/05, em sessão da Academia Canindeense de Letras.

Data: 26 de maio de 2018
Local: Auditório da CDL de Canindé
Horário: a partir das 9h
Entrada aberta ao público.
Informações: arievaldoviana@gmail.com.br




O sertão das nossas memórias

“No tempo da lamparina – Memórias de um Menino Sertanejo” é o título do novo livro de Arievaldo Vianna, espécie de continuação do livro “Sertão em Desencanto” lançado em maio de 2016. Como nas antigas estórias de Trancoso, em que fabulosos tesouros são desenterrados, Arievaldo Vianna abre, nesta obra, os baús da própria memória, e tira de lá um mundo de vivências que retratam não apenas suas experiências individuais, mas todo o quadro de um sertão desconhecido das novas gerações.
Já para os que, como ele, nasceram naquela parte do mundo nos anos 1960 – e que, portanto, viveram no mesmo cenário e em circunstâncias semelhantes – este livro tem o condão de os transportar instantaneamente para aquela realidade de cores fortes e sons marcantes...
Foi assim que ao ler avidamente cada página pisei novamente na areia fria do riacho à sombra dos pés de oiticica, ouvi os bandos de capotes no terreiro, senti o cheiro do ferro a brasa, da folha verde de marmeleiro e da cinza de fogão a lenha que se misturava aos objetos do precioso monturo... ouvi o tilintar dos chocalhos pesados das vacas, e dos mais delicados, das ovelhas, sendo tangidas nas capoeiras, pelo familiar aboio dos vaqueiros...
Percorri o corredor da casa de fazenda, abri o caixão da farinha e vi, na despensa, a prateleira dos queijos e os baús de redes lavadas e cheirando a sol, prontas para receber hospitaleiramente qualquer viajante que chegasse, a qualquer hora do dia ou da noite.
O valor de obras como esta ultrapassa em muito o papel de reavivar memórias familiares. Este livro é o retrato histórico de uma época, o que enriquece o conhecimento que se tem a respeito da humanidade, cuja jornada é a somatória de cada vivência, cada saber particular e de grupos ou comunidades.
Assim, nas memórias bem-humoradas de um menino atento ao mundo à sua volta, vêm à tona tradições e práticas que se perderam completamente ou estão em vias de desaparecer, como o trabalho artesanal do curtidor de couro.
São muitas histórias, boas de contar, de ler e de ouvir, pelos que as viveram e pelos que nunca imaginaram que tal mundo possa ter existido.

Ana Rita Araújo (jornalista)



quarta-feira, 16 de maio de 2018

DEPOIMENTO


A pedido do poeta-editor Paiva Neves, da Cordelaria Flor da Serra, escrevi esse depoimento sobre a importância da Literatura de Cordel durante a minha alfabetização e como os folhetos contribuíram para despertar em mim o gosto pela escrita e a  leitura:




O CORDEL COMO FERRAMENTA 
AUXILIAR NA SALA DE AULA


Nasci em setembro de 1967, na fazenda Ouro Preto, pequena propriedade rural de meus avós, situada na divisa dos municípios de Quixeramobim e Canindé (hoje a região pertence ao município de Madalena). Vivi ali até os dez anos de idade, sob a luz da lamparina, obedecendo aos velhos costumes sertanejos, herdados de meus ancestrais.
A única escola que havia na região, distava quase uma légua e ainda utilizava a velha palmatória. Por conta disso, minha avó resolveu me alfabetizar em casa. Uma das ferramentas que utilizei durante esse processo de alfabetização foi a Literatura de Cordel. E por uma razão muito simples, além de ser uma leitura prazerosa, minha avó possuía uma coleção de folhetos que costumava ler em voz alta, para uma roda de ouvintes maravilhados com a narrativa dos cordéis. Eu tinha os meus prediletos: Proezas de João Grilo, Cancão de Fogo, Príncipe do Barro Branco, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e vivia pedindo, insistentemente, para que ela os relesse.
Percebendo o meu gosto pelos folhetos e sabendo que eu já tinha idade suficiente para ser alfabetizado, minha avó comprou uma Carta de ABC e começou a me familiarizar com as letras. Assim que aprendi a juntar as sílabas, pegava os folhetos e tentava decifrar o seu conteúdo. Alguns eu já conhecia de cor e salteado, o que certamente facilitou o meu aprendizado. Aos sete anos eu já lia desembaraçadamente e virei uma atração na bodega de meu avô. Às vezes ele me sentava no balcão e pedia que lesse um folheto para os seus fregueses. O público, formado por pessoas simples e analfabetas, em sua maioria, sertanejos rudes, acostumados com as lides do roçado, ficava encantado com aquela novidade.

Os autores que eu mais gostava eram Leandro Gomes de Barros e José Pacheco. Do primeiro eu absorvi o gosto por histórias de encantamento e romances de fôlego como o Cachorro dos Mortos e Juvenal e o Dragão. Com José Pacheco, aprendi a métrica perfeita e o gracejo, tanto que aos oito anos eu já fazia algumas estrofes nos meus cadernos escolares. Meu pai, um amante da poesia, que sonhava em ser cantador na juventude, incentivava o meu estro e até me ajudava a corrigir as rimas. De métrica não havia necessidade porque sempre tive um ouvido privilegiado para o ritmo, fã que sempre fui de Jackson do Pandeiro. Então o domínio das redondilhas (maior e menor) eu aprendi muito cedo e depois, com o tempo, observando os cantadores, aprendi também o decassílabo e até mesmo os alexandrinos, lendo sonetos de Bilac e Augusto dos Anjos. Sempre gostei de folhetos de pelejas: Cego Aderaldo e Zé Pretinho, Riachão com o Diabo, Pinto e Milanês, justamente porque ofereciam a possibilidade de aprender novos estilos, não ficavam naquela mesmice da sextilha.
Prossegui nesse aprendizado, sempre em escolas informais, até os dez anos de idade. Somente em 1978 é que fui matriculado no Instituto São José, em Maracanaú e para ser admitido na quinta série fui submetido a uma prova, pois até ali eu não tinha boletins nem histórico escolar. Dona Mazé, a diretora do Instituto, ficou impressionada com a minha desenvoltura, um menino sertanejo, criado num ambiente rural, já tinha uma bagagem razoável de conhecimento. Isso porque sempre fui um leitor compulsivo, inclusive da Bíblia Sagrada. De modo que tirei nota máxima nesse teste preliminar e ingressei na série desejada sem qualquer embaraço.


Sabedor da importância do CORDEL no meu aprendizado, resolvi criar, em 2001, o projeto ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA a fim de incentivar o uso do folheto como ferramenta paradidática nas escolas. Tempos depois conheci o pesquisador Ribamar Lopes, outro que também teve a influência do cordel no seu processo de alfabetização. Segundo ele, lá em Pedreiras-MA, terra de João do Vale, era comum que os alunos lessem em voz alta, nas aulas de sexta-feira e o professor deixava que o próprio aluno escolhesse o texto. Ele resolveu levar “A intriga do cachorro com o gato” e foi criticado por algumas pessoas da escola, que diziam não haver “literatura” naqueles folhetos de feira. Porém o velho Riba foi persistente e acabou despertando nos colegas o interesse pelos folhetos, tornando-se um hábito a leitura desses textos nas aulas seguintes.
No Maracanaú eu pegava folhetos emprestados com um colega que morava na Pajuçara, cujo nome não me vem à memória, mas eram folhetos diferentes, de capa colorida. O primeiro que o rapaz me emprestou foi “Vicente, o Rei dos Ladrões”, de Manoel D’Almeida Filho. Depois emprestou também “A marca do Zorro” e outros títulos publicados pela Luzeiro. Ele considerava Manoel D’Almeida Filho um dos maiores poetas do gênero. Em contrapartida, eu lhe emprestava folhetos tradicionais, da Lira Nordestina e do editor Manoel Caboclo e Silva, que comprava no Mercado Público de Maranguape. Não sei se os professores viam com bons olhos aquele intercâmbio... Os demais alunos se interessavam por quadrinhos e bolsilivros de faroeste. Ou simplesmente não liam nada, além dos livros escolares.
Tomando por base o meu exemplo e de outros poetas como Rouxinol do Rinaré, Evaristo Geraldo, Marco Haurélio, Klévisson Viana, dentre outros, não tenho dúvidas em afirmar que o cordel é uma ferramenta poderosíssima na formação de novos leitores. A sua narrativa é contagiante e o “professor folheto”, como chamava o saudoso poeta Manoel Monteiro, deve ser trabalhado em classe, de preferência em leituras coletivas, em voz alta.

Arievaldo Vianna


sábado, 12 de maio de 2018

MEUS BRINQUEDOS DE CRIANÇA



Dois momentos da infância, aos 10 e aos 13 anos


Autor: Arievaldo Vianna

— Vou falar das brincadeiras
Do meu tempo de criança
Porque não posso olvidar
Tanta bem-aventurança
Um tempo lúdico, encantado,
Que não me sai da lembrança.

Eu nasci e me criei
Nos sertões do Ceará
Lá em Quixeramobim
Pertinho de Quixadá
E meu primeiro brinquedo
Foi um tosco maracá.

Ouvi canções de ninar
Que a minha mãe cantava
Numa rede de varandas
A noite ela me botava
E solfejando cantigas
Com prazer me embalava.

Três monólitos gigantes
No final da cordilheira
Dominavam a paisagem
Nessa terra hospitaleira
Onde vivi com prazer
A minha infância primeira.

Nesse lugar encantado
Onde só reina alegria
No meio dos meus parentes
Como num sonho eu vivia
Lá, a própria natureza
Só respira poesia.

As aves cantam nos galhos
Trina a cigarra na mata
Os cristais resplandecentes
Parecem de ouro e prata
E o olho d'água da fonte
Jorra em suave cascata.

No sopé da cordilheira
Que se ergue abruptamente
O sabiá laranjeira
Canta sublime e plangente
O sol dardeja os seus raios
Tocando a alma da gente.



Preás se escondem nas locas
Com medo dos predadores
Inhambus arrulham nas matas
Atraindo os caçadores
Abelhas zumbem na relva
Sugando o néctar das flores.

No sopé dos três serrotes
Tudo é encanto e beleza
Seus habitantes convivem
Em paz com a natureza
E os monólitos ostentam
O seu porte de nobreza.

No ano sessenta e sete
Do outro século passado
Nasci naquele recanto
E fui por Deus inspirado
A beber daquela fonte
Perto do reino encantado.

Ao completar oito anos
Meu pai, um agricultor,
(Também um iniciado
Na arte de trovador),
Levou-me pra ver de perto
Aquele grande esplendor.

Todo esse imaginário
Ficou na minha lembrança
Jamais vivi nada igual
Ao longo de minha andança
Como as lindas brincadeiras
Dos meus tempos de criança.



A criança hiperativa
Era chamada “malina”...
Construindo meus brinquedos
Eu gastava adrenalina
Porque sou um sertanejo
Do tempo da lamparina.

Fui crescendo curioso
E muito observador
Lá eu vi bumba-meu-boi,
Sanfoneiro e tocador
De viola em desafio
Na gesta do trovador.

Raramente eu ganhava
Brinquedo industrializado
Meu pai era agricultor
E tinha um belo roçado
Juntei cabelos de milho
De pelo fino, alourado.

E mesmo sem conhecer
Lobato, o grande escritor
Com a palha e os sabugos
Eu também fui inventor
Construindo o meu 'Visconde'
Mas não era falador...

Quando era tempo de inverno
Eu saia com certeza
Procurando borboletas
E via tanta beleza
Que deitava sobre a relva
Em paz com a natureza.



Posso dizer que vivi
Felicidade notória...
Agora, o momento mágico,
Que não me sai da memória
Era quando a minha avó
Nos contava alguma estória.

Quando eu era pequenino
Nos alpendres do sertão
Que ouvia: “ Era uma vez...”
Ficava de prontidão:
Já sabia que as estórias
Jorravam em profusão.

Os meninos do sertão
Bebiam a nossa cultura;
Os mais velhos transmitiam,
Em prosa franca e segura
As estórias de Trancoso
Em oralidade pura.

Belos romances rimados
(Os folhetinhos de feira)
Eram lidos em voz alta
No alpendre e na bagaceira
Dos engenhos de açúcar
Para toda cabroeira.

O Fiscal e a Fateira
Os Cabras de Lampião
A Vida de Pedro Cem
Testamento de Cancão
O Crente e o Cachaceiro
Numa grande discussão.



Martírios de Genoveva
E a Donzela Teodora
São romances que o povo
Guarda, conserva e adora
E a criança inteligente
Lê, admira e decora...

Cancão de Fogo e João Grilo
Aderaldo e Zé Pretinho
Juvenal e o Dragão
Eu li tudo com carinho,
No alpendre, em voz alta,
Rodeado de vizinho.

Mas hoje em dia o sertão
Está se modificando,
De uns trinta anos pra cá
A cultura está mudando
Nosso povo regredindo
Pensa que está avançando.

As crianças de hoje em dia,
Depois da televisão,
Só gostam de vídeo-game,
Internet e “Malhação”,
São os sintomas maléficos
Da tal globalização.

No meu tempo de menino
O tempo corria lento,
A gente matava o tempo
Sorvendo cada momento...
A tudo que acontecia
Eu sempre ficava atento.

Brinquei de gado-de-osso,
De carrapeta e pião,
Em cavalinhos de pau
Corria pelo sertão...
Com prego, lata e madeira
Fazia o meu caminhão.~



Um parque de diversão
Só raramente chegava
Nas festas do padroeiro
E pouco tempo ficava
Porém depois que partia
Muita saudade deixava.

Quando cheguei na cidade
Ainda estou bem lembrado
Na pracinha principal
Chegou um circo afamado
Eu passei o dia inteiro
Vendo o circo ser montado.

Acompanhar o palhaço
E cantar o seu refrão
Nos garantia um ingresso
Para a grande diversão...
São coisas que eu não vejo
Hoje em dia, no sertão.

Mas, de toda diversão,
Do meu tempo de criança
O contador de estórias
Jamais me sai da lembrança
Essa figura encantada
Renova a minha esperança.

Eu tenho muita saudade
Dos saberes e cantares
Vovô sabia narrar
Muitas lendas populares
Tinha o urubu e o sapo
Numa festa, pelos ares.

Tinha o macaco e a onça
A raposa e o “cancão”
Dois gênios da esperteza
Como reza a tradição;
No fim da fábula, a moral,
Trazendo alguma lição.

Por tudo quanto vivi
Me tornei um menestrel
Penso rimas, traço trovas
Em pedaços de papel
Eis o que me transformou
Num poeta de cordel.

Nessa teia do passado
Foi bom desatar os nós,
Reviver em poesia
Usando a pena e a voz,
Sem retirar da lembrança
A casa dos meus avós.


(in SERTÃO EM DESENCANTO - Arievaldo Vianna, 2016)

terça-feira, 8 de maio de 2018

LANÇAMENTO



Como nas antigas estórias de Trancoso, em que fabulosos tesouros são desenterrados, Arievaldo Viana abre, nesta obra, os baús da própria memória, e tira de lá um mundo de vivências que retratam não apenas suas experiências individuais, mas todo o quadro de um sertão desconhecido das novas gerações.





MEMÓRIAS | CAUSOS | ANEDOTAS | PERFIS BIOGRÁFICOS | HISTÓRIA | REMINISCÊNCIAS | E OUTROS EPISÓDIOS DO TEMPO DA LAMPARINA NO SEGUNDO VOLUME DE MEMÓRIAS DE UM MENINO SERTANEJO. AGUARDEM!

MAIS UM LIVRO DE ARIEVALDO VIANNA.
LANÇAMENTO EM BREVE


segunda-feira, 7 de maio de 2018

EVALDINHO - 77 ANOS



Meus pais, Evaldo e Hathane (foto Karam, 1984)

ANIVERSÁRIO DO VADINHO

Hoje é uma data muito especial, dia do aniversário do meu pai, Evaldo Lima.

Francisco Evaldo de Sousa Lima nasceu no dia 07 de maio de 1941, em Cacimba Nova (Quixeramobim). É o terceiro filho do casal Manoel e Alzira. Vovô só o chamava de Vadinho... Teve pouquíssima instrução. Só freqüentou a escola até o terceiro ano primário, mas é dotado de uma aguda inteligência e grande sensibilidade para a poesia, sobretudo a que chamamos poesia popular, dos cantadores, glosadores e poetas de cordel.
Mesmo com a pobreza e as dificuldades enfrentadas por seus pais ao longo da década de 1940, quando viveu a sua infância, papai guarda boas lembranças desse período. Ele recorda que a sua mãe passava a maior parte do tempo em cima de uma máquina de costura tentando ganhar alguma coisa para ajudar nas despesas do lar. O pai vivia adoentado, mas não perdia a coragem e a vontade de trabalhar.
 Aos poucos as coisas foram melhorando. Quando saíram do Castro para o Ouro Preto, meus avós começaram a prosperar, principalmente depois que vovô começou a investir no ramo comercial, com uma pequena bodega, sem se descuidar contudo da agricultura e da criação de um pequeno rebanho de gado e ovelhas.
Papai sempre foi amigo da leitura e, com seu exemplo, nos serviu de estímulo para que fôssemos amigos dos livros. Como bom autodidata, retém muitos ensinamentos e os transmite através de uma prosa fluente e agradável, entremeada de glosas e citações que aprende no que observa da vida e nas obras que lê.


Casa onde nasceram os cinco filhos do casal (apenas a Vandinha nasceu em Canindé)

Uma pequena amostra de sua prosa foi registrada pelas câmeras da TV Assembléia, através do documentário “Heranças Preciosas”[1], realizado em 2015, com roteiro de Ângela Gurgel, produção de Ana Célia Oliveira e direção de Augusto Bozzo. Durante o período de gravação das imagens, surpreendi-me com sua desenvoltura, pois imaginava o contrário, que ele não renderia diante das câmeras uma conversa segura e espontânea como a que apresentou, ao longo de todo o seu depoimento. O documentário fala de seus antepassados e do gosto pela leitura que nos acompanha desde os tempos do bisavô Fitico.

LINK para o documentário: https://www.youtube.com/watch?v=Untp1SCvLSA

Papai coloca um pouco de poesia e literatura em tudo o que diz. Desde criança, acostumei-me a escutar folhetos, canções, trechos de cantoria que ele retém na memória com incrível facilidade. Faz também seus versos de improviso, de vez em quando. No dia 7 de maio de 2011, completou 70 anos de idade, ocasião em que lhe dediquei esses versos, publicados no blog Acorda Cordel:

PARABÉNS, EVALDO LIMA

 — Hoje o autor dos meus dias
Completa setenta anos,
Vida de sonhos e planos,
Bonanças e tropelias,
Escutando cantorias,
Pois é discípulo da rima...
E para entrar nesse clima,
Juntei uns quatro vinténs
E vou cantar parabéns
Para o bardo EVALDO LIMA.

Nasceu na Cacimba Nova,
Lá no Quixeramobim.
Do começo até o fim,
Faz o bem e tira a prova.
Bandeira que se renova,
Estandarte do cordel,
Vai cumprindo seu papel
E não gosta de mentira.
É filho de dona Alzira
E do vovô Manoel.

Com Hathane é casado,
Sertaneja carinhosa,
Que inspira a sua glosa
E lhe trata com cuidado.
Toda vida foi amado,
Casaram em sessenta e seis.
Por isso digo a vocês:
Dos filhos sou o primeiro
Têm mais cinco no roteiro.
Com a Vandinha, são seis!

Parabéns Evaldo Lima!
Meu verso é de gratidão.
De todo meu coração,
Desse filho que lhe estima,
Que o Pai do Céu, lá de cima,
Prolongue mais sua vida,
Abençoe a sua lida
E, quando um dia o chamar,
Queira por bem lhe abrigar
Ao lado da mãe querida.

07 de maio de 2011

(Texto extraído do livro Sertão em Desencanto - Arievaldo Vianna)