quarta-feira, 4 de maio de 2011

O AUTO DA COMPADECIDA

E A LITERATURA DE CORDEL
Por Marco Haurélio

As proezas de João Grilo, obra de João Ferreira de Lima
ampliado por Delarme Monteiro, clássico absoluto do cordel.

Foi num folheto de gracejo que Ariano Suassuna encontrou o personagem-símbolo de sua dramaturgia. As Proezas de João Grilo (ver trecho abaixo), história escrita em 1932 por João Ferreira de Lima, trazia como protagonista o célebre amarelinho oriundo dos contos populares portugueses, que, no processo de aculturação, ganhou características idênticas às de outro famoso espertalhão de origem ibérica: Pedro Malazarte. Esse mesmo João Grilo será reaproveitado no Auto da Compadecida, transformado em filme em 2000 por Guel Arraes, com Mateus Nachtergaele (João Grilo) e Selton Melo (Chicó) nos papéis principais.

João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia,
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria,
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.


(...)

Na noite que João nasceu,
houve um eclipse na lua,
e detonou um vulcão,
que ainda continua.
Naquela noite correu
um lobisomem na rua.

(...)

Entretanto, a Compadecida se baseia em três folhetos distintos, dois deles escritos por Leandro Gomes de Barros. O primeiro é O Cavalo que Defecava Dinheiro, que mostra como um finório consegue lograr um duque invejoso convencendo-o de que um cavalo é realmente capaz de obrar (sem trocadilho) o prodígio do título. Obviamente quem assistiu à peça ou à uma de suas versões para o cinema, sabe que o cavalo foi transmutado num gato, por motivos mais que compreensíveis. O outro poema de Leandro reaproveitado por Suassuna é O Dinheiro (O Testamento do Cachorro), onde aparecem as figuras do padre e do bispo. A autoria de Leandro é inquestionável, embora a origem dos motivos que compõem a estória seja mais difícil de rastrear. O próprio Ariano reconhece essa dificuldade quando afirma: “- a história do testamento do cachorro, que aparece no Auto da Compadecida, é um conto popular de origem moura e passado, com os árabes, do Norte da África para a Península Ibérica, de onde emigrou para o Nordeste”.
 




O cavalo que defecava dinheiro, de Leandro Gomes de Barros
acabou se transformando no "gato que descomia dinheiro"
da peça de Suassuna. (Desenho: Klévisson Viana)


Além destes dois poemas de caráter marcadamente cômico, o Auto propriamente dito – a última parte – tem por base o folheto O Castigo da Soberba, de autoria desconhecida, embrora alguns atribuam-na a Silvino Pirauá de Lima. A história tem a marcante presença do imaginário medieval que impregna a obra de Gil Vicente, outra evidente fonte de Suassuna. Maria (Nossa Senhora) é a advogada. Jesus o Juiz, e o Diabo o acusador. É a Nossa Senhora – a “advogada nossa” da oração Salve Rainha – que a alma recorre, em vista da iminente condenação. Evocada em nome de seu bendito filho, ela responde à súplica da alma. No final, após ouvir acusação e defesa, Jesus – no folheto também chamado Manuel – decide pela salvação da alma. O Diabo (Cão), vencido, chama os seus comandados. A estrofe abaixo reproduzida, com a última fala do tinhoso, está bem próxima do desfecho do Auto da Compadecida:

Vamos todos nós embora
Que o causo não é o primeiro,
E o pior é que também
Não será o derradeiro...
Home que a mulher domina

Não pode ser justiceiro.

Os três folhetos, diga-se de passagem, foram coligidos por Leonardo Mota no livro Violeiros do Norte. Indiretamente, este pesquisador cearense, ao reunir as três obras em seu precioso estudo, apontou o caminho que Ariano Suassuna deveria seguir, mesmo apoiando-se em outras tradições populares – especialmente o Bumba-meu-boi, onde os personagens Mateus e Bastião cumprem um papel semelhante ao de João Grilo e Chicó na Compadecida.




QUEM FOI LEONARDO MOTA

LEONARDO MOTA , folclorista dos maiores que já tivemos, era taquígrafo. Usou a taquigrafia para recolher tudo que podia do nosso folclore.

Leonardo Mota conseguiu registrar, pela taquigrafia, muitos dos improvisos de Sinfrônio, afamado cantador-violeiro cego do Ceará, inclusive algumas disputas entre ele e outros cantadores célebres do interior cearense e nordestino.

Cantadores (1921), Violeiros do Norte (1925), Sertão alegre (1928), No tempo de Lampião (1930), Prosa vadia (1932) e muitos artigos publicados na imprensa fazem parte do acervo literário de Leonardo Mota.

No livro "Adagiário Brasileiro", coletânea de frases colhidas pelo Brasil afora por LM, assim o descrevem Moacir Mota e Orlando Mota, filhos do folclorista: "Em anos seguidos de intermináveis e exaustivas andanças, cruzou e recruzou o Brasil, vendo, ouvindo, observando e anotando, atento a todas as manifestações da alma popular. Fez obra de autêntico bandeirismo nacionalista."

Leonardo Mota nasceu no dia 10 de maio de 1891, um domingo, às 7 horas da manhã, na vila de Pedra Branca, Ceará. Morreu no dia 2 de janeiro de 1948, em Fortaleza, na sua residência, de um colapso cardíaco.

"Em 1921, Leonardo Mota é recebido por Rui Barbosa, que o ouve longamente sobre os seus estudos folclóricos, e para quem Leonardo Mota recita versos e conta anedotas sertanejas. Também o Presidente da República, Epitácio Pessoa, o recebe na intimidade do seu lar, ao lado da família e de amigos. Leonardo Mota fala sobre poesia e linguagem do sertão do Ceará." (Adagiário Brasileiro, pág. 33)

"Em 1924, faz outra viagem aos sertões caririenses em busca de material folclórico e pronunciando conferências. Visita desta vez o Crato, Juazeiro, Barbalha, Ingazeiras, Missão Velha, Senador Pompeu, Aurora..."

‘‘Nasci para viver de lápis em punho, a registrar as inconfundíveis maneiras de falar dos sertanejos de meu país’’, explicava-se ‘‘Leota’’, como o chamavam os amigos e como ele assinava os seus artigos no ‘‘Correio do Ceará’’.

‘‘Violeiros do Norte’’, um de seus livros , foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, o que garantiria a Mota o título de ‘‘Embaixador do Sertão’’.

8 comentários:

  1. Leota não foi, na acepção do termo, um folclorista. Era, sim, um coletor de material folclórico, um observador sagaz dos costumes sertanejos e um grande estilista.

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  2. Esse terceiro folheto que compoê a trilogia da qual Suassuna monta o Auto e que o poeta Marco Aurélio cita como de autoria anônima, não será a "História de João da Cruz" de autoria de Leandro Gomes de Barros, publicado pela Tupynniquin?

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  3. Na verdade, o terceiro folheto usado por Suassuna (ou quarto, porque ele também usou o João Grilo) chama-se "O castigo da soberba" e alguns pesquisadores atribuem-no a Manoel Viera do Paraíso, embora não haja nada que comprove essa afirmativa. Meras suposições...

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  4. O Castigo da Soberba é, também, atribuído a Silvino Pirauá. A cena do julgamento faz parte dos autos populares, com raízes em textos medievais. A História de João da Cruz, como bem lembrou o Paiva, também traz esse motivo. Bem como A Chegada de Lampião no Céu, de Rodolfo Coelho Cavalcante, que nada tem a ver com O Grande Debate de Lampião com São Pedro, de José Pacheco. Conheço benditos em que a disputa pela alma envolve os mesmos personagens com as mesmas atribuições que aparecem em O Castigo da Soberba.
    Trato do assunto do julgamento celeste neste artigo: http://marcohaurelio.blogspot.com/2008/06/marco-haurlio-literatura-popular-em.html

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  5. Estive com Ariano Suassuna recentemente em uma apresentação em São Bernardo do Campo e ele me disse que de fato O Castigo da soberba é de Silvino Pirauá.

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  8. Olá!
    Adorei a publicação, estou fazendo meu TCC sobre o Auto da Compadecida e precisarei citar esses textos de cordel. Sua publicação me ajudou bastante.

    Abraços

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