quarta-feira, 12 de julho de 2017

ZÉ LINS EM CORDEL

LITERATURA E RESISTÊNCIA
Poeta de cordel diz que as oligarquias são 'o grande câncer' do país



Com 30 títulos publicados e 100 mil exemplares vendidos, escritor paraibano lança clássico "Menino de Engenho" em versos de cordel, e defende expressão cultural como frente de luta pela libertação

por Helder Lima, da RBA

Poeta Janduhi Dantas, foto: Divulgação


São Paulo – Obra clássica da literatura brasileira, o romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego (1901-1957), foi recriado em versos de cordel e publicado em edição produzida com recursos próprios pelo escritor paraibano Janduhi Dantas, um dos principais nomes da literatura cordelista hoje no Nordeste. “Passei mais de um ano no texto. Havia momentos de felicidade, em que o texto fluía e agradava, dava prazer, até mesmo emocionava. Mas tinha em que dava trabalho achar as palavras para as quais houvesse rima e métrica. Dava trabalho, dava dor de cabeça. Tinha que ter paciência”, afirma Janduhi.

O escritor, professor e pesquisador da cultura brasileira tem no currículo duas edições paradidáticas publicadas pela Editora Vozes: As figuras de linguagem na linguagem do Cordel e Lições de Gramática em Versos de Cordel. Ambas mostram a versatilidade da linguagem do cordel para discorrer sobre os mais diversos temas e assuntos, e são também emblemáticas da valorização que essa expressão cultural pode alcançar em obras de interesse a um grande universo de leitores.

Com cerca de 30 histórias publicadas e 100 mil exemplares vendidos, Janduhi, que vive em Juazeirinho, no Seridó paraibano, a 190 quilômetros de João Pessoa, tem a maior parte de seus títulos encontrada no comércio turístico da capital do estado e de outras cidades nordestinas que se identificam com a literatura de cordel.

Seu título A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99, como ele próprio diz “um de meus dois trabalhos mais conhecidos”, alcançou a tiragem de 20 mil exemplares e foi referência em um artigo do jornalista Xico Sá em janeiro de 2012: “Na sua crônica de costumes sobre o avanço das mulheres, o poeta conta como uma destemida fêmea resolveu se livrar do seu ébrio e desagradável companheiro, no ano de 2010. A heroína, que no cordel é comparada a Leila Diniz, levou a infeliz criatura à feira e o vendeu a uma velha senhora.”

Como escritor consciente de que não é possível ficar à margem da política, Janduhi vê na persistência da dualidade entre Casa-Grande e Senzala na cultura um dos principais problemas que seguram os avanços em direção a uma sociedade inclusiva. “Penso que sim, que a dicotomia Casa-Grande e Senzala persiste. Penso que o grande câncer do país são as oligarquias. Penso que não conseguimos superá-las, vencê-las ainda. Penso que com oligarquia não dá para ser feliz! As oligarquias são a Casa-Grande do país”, afirma nesta entrevista à Revista do Brasil.

“Particularmente, me motivam as palavras do teatrólogo Plínio Marcos, que dizia que ‘um povo que não ama e preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre’. Então estou preocupado com a identidade cultural de meu povo”, afirma ainda Janduhi, que agora trabalha na adaptação de um clássico do cinema para o cordel, mas ainda guarda o projeto em segredo.

Por que a escolha de Menino de Engenho para recriação na literatura de cordel? O fato de José Lins do Rego ser paraibano pesou em sua escolha? Ou foram os 60 anos da morte do escritor?



Não necessariamente foi isso. Foi mais pelo grande carinho que tenho pelo livro. E sei que muita gente também tem esse carinho. Foi um dos primeiros livros que li, adolescente; lembro-me da emoção que me deu a sua leitura. Ainda hoje é para mim um livro emocionante. Foi a minha descoberta de Zé Lins. Depois dele, fui ler Doidinho, Banguê, o lindíssimo Pureza, até chegar a (que não tenho como ler sem não chorar!) Fogo Morto, que está entre os 10 mais importantes romances da literatura brasileira. Coincidência talvez tenha sido a de estar a obra de Zé Lins tão influenciada pela poesia popular de sua terra. Ele certa vez disse que Os doze pares de França, obra basilar para a Literatura de Cordel, foi o primeiro livro que leu, aos 10 anos. E em outra ocasião disse que “quando imagino os meus romances, tomo sempre como roteiro e modo de orientação o dizer as coisas como elas me surgem na memória, com o jeito e as maneiras simples dos cegos poetas”. Eu tinha feito a adaptação de um conto de Leon Tolstoy para o cordel há pouco tempo, e um dia deparei com o Menino de Engenho na estante e foi aí que veio a ideia da transcrição.

Menino de Engenho foi o primeiro livro publicado por José Lins do Rego, em 1932. Curiosamente, o romance foi publicado com os próprios recursos do autor, que depois teve uma carreira promissora como escritor. E agora, 85 anos depois, você publica a versão em cordel, também com os próprios recursos, em versão de autor. Essa coincidência significa que alguma coisa não muda neste país?

Na verdade, por um bom tempo, há uns cinco anos, este cordel esteve para ser publicado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB). Mas era muito grande o número de livros a serem publicados por aquela editora na época, e o cordel acabou não saindo por lá. Com toda dificuldade enfrentada, como escassez de verba para tocar os trabalhos, a direção da EDUEPB já há um bom tempo vem fazendo um trabalho muito bonito, publicando não só professores da universidade, como também escritores diversos da Paraíba, por meio do selo Latus. Tenho publicado por ela adaptação de um conto de Tolstoi, adaptação de Psicose, de Hitchcock, e um cordel que aborda a Revolta de Princesa, estopim da Revolução de 30 em João Pessoa. A editora é, inclusive, ganhadora já de alguns prêmios Jabuti. De qualquer modo, optei pela edição independe do cordel, esperando ver a repercussão do lançamento, para depois ver a possibilidade de nova edição por alguma editora. Por sorte, os autores de cordel conseguem ser mais autônomos (também politicamente), até mesmo pelo custo baixo da edição de um cordel. O baixo custo da impressão de um cordel facilita a sua venda.

Qual foi o principal desafio para transpor Menino de Engenho para o cordel? Quanto tempo você trabalhou nesse projeto?

O que fiz, na verdade, foi tentar dizer em versos o que Zé Lins diz em prosa. Como o texto original é escrito em primeira pessoa, não achei que seria fácil passá-lo para o cordel em terceira pessoa, por exemplo. Achei que isso poderia descaracterizar por demais o original. E assim fui, página por página, sintetizando em versos o que lia, sem perder de vista a necessidade de dar coerência ao texto. Outro dia na TV vi um documentário em que o diretor do clássico Doze homens e uma sentença dizia algo como “a gente se emociona com o que faz antes de emocionar o nosso público”. Me lembrei do processo da escrita do cordel. Passei mais de um ano no texto. Havia momentos de felicidade, em que o texto fluía e agradava, dava prazer, até mesmo emocionava. Mas também havia hora em que dava trabalho achar as palavras para as quais houvesse rima e métrica. Dava trabalho, dava dor de cabeça. Tinha que ter paciência.

Onde já foi lançado Menino de Engenho em versos de cordel? Como faz o leitor de qualquer lugar do país que quiser adquirir um exemplar?

O cordel está sendo lançado em algumas cidades da Paraíba. O primeiro lançamento foi em João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins do Rego, onde recebi importante apoio do pessoal que administra o Museu Zé Lins que, além de me convidar para fazer o lançamento lá, dentro das comemorações da “Semana José Lins do Rego”, me fez chegar até uma das filhas do escritor. Na conversa (para mim, uma emoção falar com uma filha de Zé Lins!) que tive com essa filha dele, a dona Cristina, fui informado que os direitos autorais das obras do pai dela pertencem à Editora Record. Posteriormente, tive dessa editora a autorização para publicar o cordel. Tudo isso porque a obra original não está em domínio público. O “cordelivro”, como alguns chamam o cordel no formato de um livro, também foi lançado em Pilar, terra de Zé Lins, e Teixeira. Ainda será lançado em Patos, minha cidade natal, e Sousa, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). E estamos vendo um lançamento para Natal ainda este ano. As pessoas que queiram adquirir o livro podem fazê-lo pelo meu email: durica5164@gmail.com. Antes que esqueça: há no Youtube pequeno vídeo em que divulgo o cordel: Menino de Engenho em cordel.


VER POSTAGEM COMPLETA AQUI:

http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/130/poeta-de-cordel-diz-que-as-oligarquias-sao-o-grande-cancer-do-pais

quinta-feira, 29 de junho de 2017

REFLEXÕES FILOSÓFICAS




Essa caricatura é uma cortesia 
do amigo e parceiro Jô Oliveira

Nesse período que antecede o meu cinquentário tenho refletido muito sobre a vida e a razão de nossa existência nesse planeta. Qual a missão que nos foi confiada. Como tornar essa tarefa mais suportável e prazerosa? 
Então lembrei-me de um poema que fiz há algum tempo, cujo título é:


O QUE ESPERO DO MUNDO
E O QUE DESEJO DA VIDA


Do mundo eu só quero a vida:
Da abelha eu só quero o mel
Da poesia o CORDEL
Da rede quero a dormida
(Com minha esposa querida
Eu quero sexo também!)
De mil eu só quero cem
Do milho eu quero a pamonha
Do homem quero a vergonha
Cada qual dá o que tem.


Da Ciência a descoberta
Que nos traga algum progresso
Pois ninguém quer retrocesso
Nem morrer de boca aberta
Por isso é que vivo alerta
De todos quero a verdade
Dos pais eu quero a bondade
Cada qual dá o que tem
Difícil é querer também
Do político, honestidade.


Eu quero a música do disco
De um cantor que me agrada
Do FUNK eu não quero nada
Valei-me, meu São Francisco
Não quero correr o risco!
Do mar eu quero o segredo
Do romance o seu enredo
Da mulher, sinceridade
Eu quero PAZ na cidade
Pois vivo sempre com medo.


Do dia eu quero a aurora
Da noite quero o sossego
Do trabalho eu quero emprego
(Que ninguém me mande embora)
Jesus e Nossa Senhora
Protegendo a minha lida
Não quero coisa perdida
Nada que não me pertença
Nem que valente me vença
Quero DEUS na minha VIDA.


Eu não quero as ilusões
De uma vida passageira
E nem dar crença a besteira
No torpe mar dos senões
Eu não desejo os porões
Da terrível ditadura
Dos filhos quero a doçura
E dos parentes, respeito
A vida assim desse jeito
Honra qualquer criatura.


Do Santo espero o milagre
Do sábio a filosofia
Do trovador, cantoria,
Ou algo que o consagre
Do açude, não quero bagre
Quero da escola o estudo
Da garrafa, o conteúdo
Se a bebida for boa
Do cantador quero a loa
Mas de DEUS eu quero TUDO!



Arievaldo Viana

50 ANOS DA PARTIDA DE ADERALDO


ILUSTRAÇÃO: JÔ OLIVEIRA

Hoje, 29 de julho, completam 50 anos do desaparecimento daquele que é considerado um dos mais importantes poetas populares nordestinos, Aderaldo Ferreira de Araújo - o famoso Cego Aderaldo. Citado pelos cantadores com um dos pilares da trindade mítica do Nordeste, aparece nesse mote de sete sílabas:

“SÃO TRÊS VULTOS QUE SEMPRE ADMIREI
PADIM CIÇO, ADERALDO E LAMPIÃO”


Há cinquenta anos falecia o Cego Aderaldo, o mais lírico violeiro e cantador do Brasil

Texto de J. Lindemberg de Aquino

Cem anos já são passados do nascimento do mais famoso dos poetas cantadores e violeiros do Nordeste (o centenário do Cego aconteceu em 1978 – este artigo é de 1977), o Cego Aderaldo. Cearense do Crato, teve por berço o cenário emoldurado de verdes e azuis da Serra do Araripe o cascatear de fontes e regatos cristalinos e a terra histórica, de mártires e de heróis.

Poeta e repentista, o verso saia-lhe natural, rude, rústico e espontâneo, seja a entoar louvores ou a ferrotear os adversários dos incansáveis desafios sertanejos, seja em epigramas vorazes contra os que lhe testavam a argúcia e a inteligência, seja na exaltação das belezas da terra, dos sentimentos diversos ou nos repentes gozados, humorísticos, galhofeiros e ferinos que faziam a delícia dos auditórios.

Na poesia de Aderaldo cintilam faiscações primorosas de uma inteligência inconfundível. Tinham os seus versos configurações geniais, mostrando a lucidez de um espírito observador e analítico, como esses:

O filho do alfaiate — seu brinquedo é com retalho,
O filho do jogador gosta muito é do baralho,
E o filho do preguiçoso só dorme bem no borralho,
O filho do homem praiano, seu vício é comer areia,
O filho da costureira sua roupa é muito feia,
Porque é feita de taco
Que sobrou da roupa alheia
O filho do carteiro — brinca com caixão e saca,
O filho do feiticeiro só fala em urucubaca,
O filho do vaqueiro junta ossinhos, chama vaca…
O filho do ferreiro, seu brinquedo é uma safra,
O filho do pescador aprende a fazer tarrafa,
E o filho do cachaceiro nasce lambendo garrafa…

Falando sobre a terra natal de Aderaldo, o grande Jáder de Carvalho diz:

“Cego Aderaldo… de onde era filho? Ele mesmo, nas suas memórias aponta o Crato como o chão onde a parteira lhe apanhou o corpinho nutrido. Mas a terra mesmo da gente não é aquela onde nasce o corpo: é aquela onde nasce a alma. E a alma do cantador famoso veio à luz em Quixadá. Foi na cidade das pedras na cidade do chão duro e salgado, que veio ao mundo a alma do mais agressivo o mais lírico violeiro e cantador do Brasil.

A alma da gente, ó meu leitor — continua Jáder de Carvalho – não brota logo com o corpo, entre as dores do parto: brota na hora em que o menino principia a entender, a sentir o mundo, o céu, o canto dos pássaros, o mugido de uma vaca o relincho de um cavalo, o aboio de um vaqueiro — em qualquer dessas coisas pode estar a raiz da alma. Como pode estar também, no gemido de uma viola, num apito de fábrica, no silvo de um navio no dobrar de um sino, no barulho do mar.

A alma de Aderaldo nasceu — e disso tenho certeza, sob o sol de fogo de Quixadá, ao pé de uma mãe viúva, que, de tão pobre, teve de empregar a dois vinténs por dia o órfãozinho de cinco anos…”



Eduardo Campos, ao analisar o Cego Aderaldo afirma:

“Não se repetia, aí estava a grande vantagem sobre os outros.

Não era cantador das palavras difíceis, dos que se acodem nos dicionários ou nos livros sagrados. Os seus grandes livros de sabedoria estavam na natureza, no estranho mas belo mundo que ele, a rigor, aprendeu a ver através dos outros”.

O Aderaldo sempre cantou sua cegueira em diferentes ocasiões.

Eis algo a esse respeito, de sua autoria:

Correu de mim a fortuna a luz dos olhos perdi;
Céus, estrelas, terra e mar
Fugiram, jamais os vi,
Flores jardins, campos e prados de vê-los jamais esqueci.
Deus quer que eu viva sem lua. Sem ver do mundo a beleza.
E permitiu que eu perdesse da vida a maior riqueza,
Já não tenha a quem recorra, nem a própria natureza!

Ou esse outro verso, final do seu soneto, dedicado à sua mãezinha, composto em Maceió em 12 de maio de 1949, Dia das Mães.

Este Dia das Mães, como outros dias,
Santos e puros cheios de afeição,
Abriga o bem de todas as Marias
Cantando rimas para um coração…
Mas minha mãe partiu…
Meus dezoito anos
Trouxeram-me a cegueira, foi-se a alma
Desde então eu a vejo entre meus planos
Mas somente com os olhos de minha alma!…

Grande poeta e cantador Aderaldo viveu mais de 70 anos a percorrer os sertões, em desafios e violas, a entoar versos e a recitar poemas imortais.

Aderaldo no Céu é o título de trabalho de Pantaleão Damasceno, jornalista cearense em homenagem ao poeta após a morte. Nele Damasceno afirma:

“Cego Aderaldo, por uma dessas coincidências da vida, nasceu no dia de São João e morreu no dia consagrado a São Pedro. Tratando-se do mês das tradicionais comemorações juninas, tudo indica que o saudoso violeiro, vai encontrar o Céu em festa e de portas abertas, podendo o Santo Chaveiro, eufórico, repetir as mesmas palavras que proferiu à chegada de Irene à porta do paraíso segundo o poeta Manuel Bandeira:

— Entre, Aderaldo, você não precisa pedir licença.

E o velho cego, agora leve como uma pluma, e agora enxergando tudo, observa com surpresa, aqui e ali, as belezas infinitas do firmamento. E numa espécie de desabafo, manda-nos dizer, em mensagem de fé e esperança, que ‘os mortos vivem não os choreis’”.

Depoimento de outro escritor, Otacílio Colares:

“O Cego Aderaldo era, a nosso ver, o último remanescente daquela grei imensa que nos deu valores como Inácio da Catingueira, Francisco Romano, Dantas Quezado e a negra Chica Barroso. Forte como um carvalho, franco e simples como um eterno menino grande, passou ele a existência a transmitir alegria, em versos que lhe saíam da alma como o arrojo dos rios em cheia, e soube morrer tranquilo e sereno como um justo, compenetrado de haver realizado a sua destinação, na terra que ele tanto amou e decantou. Tipo acabado de trovador da velha cepa, com a sua morte, podemos estar certos, encerrou-se um ciclo dos grandes cantadores aqueles que tinham como característica primordial a singeleza no viver e no interpretar a sua arte”.

Extraordinário rapsodo dos sertões, Aderaldo eternizou-se pelo muito que produziu, e que está, infelizmente disperso em livros, jornais e revistas. Em 1962, foi lançado um livro com seus versos, com comentários de Raquel de Queiroz e Paulo Sarasate. Mas esse livro hoje raro, não contém um milésimo de sua fertilíssima produção poética, derramada em mais de 60 anos pelo Brasil inteiro. Sua vida cantou a dor, de ver a pobreza rondando-lhe a infância desventurada, o pai, surdo e paralítico, a mãe pobre e desassistida e a cegueira chegar-lhe aos 18 anos de idade. Mas a tudo resistiu, valendo-se da voz, inspiração, inteligência e lucidez, para com a viola, exaltar o sertão e construir o seu mundo.

Humorista fez da ironia a suprema virtude nos versos, e sentia-se que, com tato e olfato aguçado via melhor do que os que tem olhos. Ao ser apresentado à noiva de um cidadão, sentindo-a robusta e forte; versou:

Doutor, esta sua noiva
É uma linda cachopa,
a gente olhando seus seios
Assim por cima da roupa,
é ver dois cocos na praia
Dentro dum saco de estopa.


Se eu me casasse doutor
Minha mulher era feia,
Casar com mulher bonita
toma a freguesia alheia
Cego com mulher bonita
É plantar feijão de meia…



Trovador inesquecível dos sertões, Aderaldo Ferreira de Araújo, era este o seu nome, nasceu em Crato a 24 de junho de 1878 e faleceu em Fortaleza, praticamente indigente*, a 29 de junho de 1967, sendo filho do casal Joaquim Rufino de Araújo, alfaiate, e Maria Olimpia de Araújo. A sua rua de nascimento foi a antiga Pedra Lavrada, das mais antigas do Crato, que tem o Riacho Granjeiro às costas e é hoje chamada Pedro II. Encantou os auditórios mais seletos de todo o  Brasil e percorreu todos os sertões, vilas, sítios e fazendas, cantando, encantando com sua verve, seu humor e sua imensa produção poética. O que produziu garantiu-lhe a imortalidade e dele disse, em versos, na sua despedida, Ladislau Vieira:

Já não vibra a viola do
Nordeste nas praças e nas casas das fazendas
e que nas lojas redobrava as vendas
tangida pelas mãos do antigo mestre.
A araponga de cantar silvestre
Na sua voz de metal pelas contendas tornou-se muda,
De mudez agreste
Na sua voz de metal pelas contendas.
Não mais se animam velho e criaturas
Nas noites de sermões enluaradas
Nos fogos de São João pelas calçadas…
Pois finou-se o Aderaldo, ao fim das danças
Ninguém jamais na terra o encontrará
e a “Parca a paca cara pagará…

Aquino, J. Lindemberg de. “Cego Aderaldo, o mais lírico violeiro e cantador do Brasil”. Jornal do Commercio. Recife, 25 de junho de 1977

Fonte: http://www.jangadabrasil.org/revista/2011/10/27/cego-aderaldo-o-mais-lirico-violeiro-e-cantador-do-brasil/


* A respeito dessa afirmativa, de que o cego teria morrido como indigente, vejamos o que diz o mestre Alberto Porfírio em seu livro ‘Poetas populares e cantadores do Ceará’:

“Em Fortaleza, quando adoeceu para morrer, foi colocado no apartamento Eduardo Salgado da Santa Casa de Misericórdia, quarto 6, onde, por conta do industrial Fernando Pinto, foi assistido pelos médicos especialistas Dr. Farah Otoch e Dr. Eudásio Barroso, muito ao contrário do que se fala por aí, dizendo que o velho poeta fora internado e morrera como indigente.”

quarta-feira, 28 de junho de 2017

CINQUENTENÁRIO

Caricatura: Jô Oliveira (feita especialmente para essa ocasião)


Em 2007, quando eu completei 40 anos de idade, o amigo e parceiro Rouxinol do Rinaré enviou-me um CORDEL felicitando-me pelo aniversário, no qual se encontram dados da minha biografia e citações à minha obra. Preferi guardar esse trunfo para o meu cinquentenário, que julgo ser uma data mais marcante. Eis que agora publico, pela primeira vez, o texto escrito pelo Amigo Antônio Carlos da Silva - o popular ROUXINOL DO RINARÉ, texto esse que pretendo publicar também em folheto. A ilustração é do grande Jô Oliveira e servirá como selo comemorativo desta efeméride. De quebra, pretendo lançar, ainda este ano, os livros "O besouro" (contos) e "O Livro das Crônicas - II Volume de Memórias".


Poeta Rouxinol do Rinaré


UMA HOMENAGEM AO POETA
ARIEVALDO VIANA

ROUXINOL DO RINARÉ


Ó musa da poesia
Dá-me inspiração completa,
Um versejar bem fluente
Com rima bela e seleta
Pra, nessa nova abordagem,
Prestar uma homenagem
De poeta pra poeta.

Foi a convite da IMEPH,
Na pessoa do editor
Flávio Martins Albuquerque,
Que eu pude então me dispor
Pra narrar neste cordel
A vida dum menestrel
Cordelista de valor.

Flávio editor e amigo
Ao olhar o calendário
Comprovou que em setembro
Ari faz aniversário
Pensou: — Na sua linguagem
Vou “bolar” uma homenagem,
Porque se faz necessário.

Acertou então comigo
(Pois a musa nos irmana)
Me dizendo: —Rouxinol,
Faça um cordel bem bacana
Com inspiração e destreza
Pra fazer uma surpresa
A Arievaldo Viana!

Aceitei a incumbência
Porque tenho acompanhado
O trabalho desse vate,
Cordelista consagrado,
Reconheço seu valor
Já sou admirador
Desse poeta inspirado.

Falar de Arievaldo
É falar de um companheiro
Na arte cordeliana
Um poeta verdadeiro
De raiz e tradição,
Conceito e inspiração
No Nordeste brasileiro.

Nasceu no meu Ceará,
Lá em Quixeramobim.
Foi na Fazenda Ouro Preto
Em sessenta sete, enfim,
Setembro, dia dezoito,
(Nasceu “malino” e afoito)
Seu registro diz assim.

Na cartilha de ABC
Teve a primeira lição
Com a sua avó Alzira,
Tendo a predestinação
De poeta menestrel
Complementou com o Cordel
A primeira educação.

Cresceu com ele o talento
Da sua alma de artista
Pois faz um pouco de tudo:
Escreve e é desenhista
Com técnica e inspiração
Já tem vasta produção
Como um grande cordelista.

Com base na experiência
Da infância, no sertão,
De seu lúdico aprendizado
Tem repassado a lição:
Arte-educador fiel
Criou o “Acorda Cordel”
Projeto pra Educação.

Nosso cordel auxilia
O letramento, na escola,
E o “Acorda Cordel”,
Nesse caso é show de bola!
Pra estimular a leitura
E armazenar mais cultura
Nos “arquivos” da cachola!

Arievaldo também
Por mérito da poesia
Está na ABLC
Uma egrégia academia
Pois em 2.000 foi eleito.
Por seu talento e conceito
Aos imortais se associa.

Quarenta (algarismo místico)
É o número da cadeira
Que Arievaldo ocupa
Na Academia altaneira
E em memória ou abono*
Dessa cadeira é patrono
João Melchíades Ferreira.

Com Pedro Paulo Paulino,
Outro poeta exemplar,
A caixa “Cancão de Fogo”
Ari conseguiu lançar
No fim dos anos noventa.
Nossa cultura fomenta,
Pois começa a publicar.

O cordel, por essa época,
Andava meio abatido
Com Arievaldo e Klévisson
Ganhou um novo sentido.
Produzindo e publicando,
O folheto foi chegando
Ao seu lugar merecido.




E resgatando o romance
Arievaldo é autor
De “O castigo da inveja
Ou o filho do pescador”,
“O crime das três maçãs”
Que agrada a todos os fãs
Dos dramas trágicos de amor.

É dele “O príncipe Natan
E o cavalo mandingueiro”,
“Encontro com a consciência”,
Um enredo verdadeiro
Que enfoca a fatalidade,
Ressalta a honestidade
Mesmo envolvendo dinheiro!

Já adaptou Cervantes
Pra nossa literatura
Narrando “A força do sangue”,
Que é uma novela pura.
Como saga nordestina
Compôs “Jerônimo e Paulina
Ou O prêmio da bravura”.

Nos “Martírios de uma mãe
Ou as dores de Marina”
Ari mostra os sofrimentos
De uma mãe nordestina
Em sua trilha de dores
Colhendo espinhos e flores
Pelos reveses da sina!

Conta a história de “Luiz
Gonzaga, o Rei do Baião”,
Fez “Um pagode no inferno
Ou a nova loura do cão”.
São engraçados, de fato,
“O batizado do gato”,
“A raposa e o cancão”.




Ari fez com verve crítica
E poética galhofeira:
“Atrás do pobre anda um bicho”,
“Vacina contra a besteira”
Nesse aponta a “podridão”
Que traz a televisão
À família brasileira.

No “Encontro de FHC
Com Pedro Álvares Cabral”
Ironiza a trajetória
Desse país tropical
Que desde a sua invasão
Sofre com a corrupção
Da política sem moral.

Em “Os novos mamadores
Da negra dum peito só”
Outra vez contra os políticos
Desce o chicote, sem dó.
“Zé Ganância e João Preguiça”
Nesse faz crítica à cobiça
E ao preguiçoso bocó.

Escritor, ágil, versátil
(Sempre apronta “traquinice”),
Fugindo ao lugar-comum,
Porque detesta a mesmice,
Fez ensaio, escreveu causos,
Conquistou fama e aplausos
Com “O Baú da Gaiatice”.

Seus parceiros cordelistas
Minha pena agora cita:
Com Rinaré escreveu
Uma trama que suscita
Riso, sarcasmo, a contento,
Tratando do “Casamento
Do Morcego com a Catita”.

Compôs com Jota Batista
Gracejos, sem embaraço,
Com a história “O homem
Que lutou com um cabaço”,
As “Proezas de um babão”
E outros que não fiz menção
Pelo limite do espaço.

Com o irmão Klévisson Viana
Muito já tem publicado:
“O divórcio da Cachorra”
(Em Zé Pacheco inspirado),
“Martírios de um alemão”,
“O rapaz que virou barrão
Ou o porco endiabrado”.

Com Pedro Paulo Paulino
Até pra ciência apela
Como na glosa atual,
Falando de mulher bela,
No folheto bem rimado
“Se o clone for aprovado
Vou mandar fazer o dela”.

Os seus romances circulam
Por este Brasil inteiro
Com os selos da “Queima-bucha”,
“Tupynanquim” e “Luzeiro”.
Ari já é consagrado
Por vezes já foi citado
Na imprensa do estrangeiro.

Pela Editora Imeph
Revelou novo perfil
Lançando dois livros novos,
Com enredo claro e sutil,
Em cordel, bem trabalhados,
E belamente ilustrados
Para o leitor juvenil.

Um dos livros tem por título
“O pavão misterioso”
Recriação do romance
Clássico e bastante famoso
Com ilustrações, de primeira,
Feitas por Jô Oliveira
Ilustrador primoroso!

Já o outro é um enredo
Tirado da tradição
Uma fábula interessante
“A Raposa e o Cancão”
Que Arlene Holanda ilustrou
E a EDUCAÇÃO adotou
Desde a primeira edição.

Enfim, desse grande vate,
O que posso dizer mais?
Entre mais de cem cordéis
Tem romances geniais!...
É cordelista perito
Que já tem seu nome escrito
No livro dos imortais!!!

FIM



Comemorando o São João, com Ricardo Elesbão e Rouxinol do Rinaré

MAIS CARICATURAS

Cortesia de William Medeiros (PB)


Desenho de Klévisson Vianna


Cortesia do amigo Carlos Amorim (RJ)


Válber Benevides (CE)
Caricatura feita no programa LERUAITE, do Falcão.





segunda-feira, 26 de junho de 2017

CORDEL NO TEATRO



O RICO GANANCIOSO E O POBRE ABESTALHADO, CORDEL DE ARIEVALDO VIANNA, É ADAPTADO PARA O TEATRO

O cordel “O rico ganancioso e o pobre abestalhado”, de Arievaldo Vianna, foi adaptado pela Murion Cia de Teatro - Padre Paraiso/MG e vem sendo apresentado com sucesso em festivais realizados em Minas Gerais.

SINOPSE:
No sertão, os desígnios de Deus: o homem
ganha o seu pão com o suor do seu rosto.
Dois compadres, um rico e outro pobre, vivem os arranjos
de uma existência assentada na desigualdade social. Seria
essa desigualdade uma determinação divina? Seria possível
o poder dos céus mudar os arranjos terrenos? O rico
ganancioso e o pobre abestalhado é uma história onde o mágico e
a tradição, de mãos dadas, oferecem ao público a força da reflexão.

Duração: 40 min
Classificação: Livre
Ficha técnica: Direção – Armando Ribeiro | Cenografia – Coletivo | Figurino – Coletivo | Maquiagem – Coletivo | Trilha Sonora – Coletivo | Elenco – Cleonice Pereira Dias, Gabriela Ferreira de Lima, Júlio Antônio Ramalho Alves, Leticia Kelly Ribeiro Miranda, Michele Vitória Veiga de Araújo, Izadora Stuhr dos Santos Lopes, Izabela Stuhr dos Santos Lopes, Guilherme Stuhr dos Santos Lopes.

PARA SABER MAIS:



FOLHETO FOI PREMIADO PELO MINC

O RICO GANANCIOSO E O POBRE ABESTALHADO, folheto de 16 páginas baseado num conto popular brasileiro é o nosso trabalho premiado no Edital Patativa do Assaré do PRÊMIO MAIS CULTURA 2010. A edição já se encontra na gráfica e irá circular em breve. De acordo com o projeto apresentado no concurso, parte da tiragem de 3 mil exemplares será destinada ao MINC e haverá também uma parcela para bibliotecas públicas do Estado do Ceará. O restante será comercializado. Eis alguns trechos do folheto:

O RICO GANANCIOSO E O POBRE ABESTALHADO
Autor: Arievaldo Viana

Quando o homem foi expulso,
Cheio de mágoa e desgosto,
Dos jardins do Paraíso,
Deus lhe disse, do seu posto:
- Hás de ganhar o teu pão
Com o suor do teu rosto!

Ficou o homem vagando
Na Terra, Vale de Dores,
Mas logo seus descendentes
Revelaram seus pendores,
Pois surgiram os dominados
E os cruéis dominadores.

O mundo está repleto
De ganância e de cobiça
O rico, quanto mais tem,
Mais o desejo o atiça;
E na contra-mão padece
Quem é pobre ou tem preguiça.

Quem nasce pra não ter nada
A sorte é uma graúna,
Não pode alcançar os louros
Que repousam na tribuna,
Mas há aqueles a quem
Deus promete e dá fortuna.

Nos sertões de Pernambuco
Há muito tempo passado
Viveu um rico sovina
Muito ardiloso e malvado,
Compadre de um camponês
Simplório e abestalhado.

Então o compadre pobre
Tinha preguiça por cem,
Era pai duma ninhada
Miúda igual a xerém
E às custas do seu suor
Nunca ganhou um vintém.

No fundo de uma tipóia
Passava o dia roncando,
Se a mulher reclamasse
Ele saía zombando;
Enchia a cara de cana
Voltava se pabulando.

Estórias mirabolantes
O preguiçoso contava
Se alguém de bom coração
Na conversa acreditava
Ele pedia uma esmola
E assim a vida levava...


(...)