sábado, 28 de abril de 2012

ANTOLOGIA DO CORDEL BRASILEIRO



Fotos do lançamento da Antologia do Cordel Brasileiro na livraria Cultura de Fortaleza. Na foto os poetas Rouxinol do Rinaré e Arievaldo Viana autografam livros para o casal Paulo Rossano e Gláucia Lima.


Discurso de apresentação da obra

quarta-feira, 25 de abril de 2012

LANÇAMENTO HOJE, 26/04



Contemplados em uma antologia nacional, quatro cordelistas cearenses evidenciam potencial do Estado

O projeto tomou em torno de cinco anos, entre planejamento e elaboração. As referências, porém, foram construídas ao longo da vida inteira, graças à paixão pela cultura popular brasileira. Assim o poeta, cordelista e pesquisador Marco Haurélio, expoente do gênero no País, construiu a Antologia do Cordel Brasileiro, lançado em março deste ano em São Paulo, pela Global Editora. Fortaleza receberá o segundo lançamento da obra, amanhã, na Livraria Cultura.

A Capital não está no roteiro por acaso. Dos 15 cordelistas selecionados para a Antologia, quatro são cearenses - Arievaldo e Klévisson Viana (esse último, fundador da editora Tupynanquin, especializada em literatura de cordel), Evaristo Geraldo da Silva e Rouxinol do Rinaré, todos representantes da nova geração de autores e referência no País.

O livro reúne um texto de cada autor, entre pioneiros (como Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865, cujo "O soldado jogador" abre a publicação) e clássicos (José Pacheco, Francisco Salles Arêda) até contemporâneos (além dos cearenses, há nomes como Pedro Monteiro e o próprio Marco Haurélio). As ilustrações ficaram a cargo do xilogravurista Erivaldo.

É a primeira vez que uma antologia contempla cordelistas da nova geração, bem como a produção de diferentes estados, como Ceará, Pernambuco, Paraíba, Bahia e Piauí. "Esse é o grande mérito do livro. Ao inserir o trabalho de autores contemporâneos e clássicos, alguns já falecidos, outro cujas obras eram significativamente ignoradas, Marco Haurélio apresenta um rico panorama do cordel hoje no Brasil", elogia Arievaldo.

Para o cearense, trata-se de uma opção emblemática, pois foi essa nova geração a responsável pela retomada do cordel após duas décadas de enfraquecimento do gênero.

"Nos anos 1980 e 90, as principais editoras especializadas fecharam suas portas, como a Lira Nordestina, em Juazeiro do Norte. Pesquisadores chegaram a decretar a morte do romance de cordel. No período, predominou o folheto reportagem, quase sempre de qualidade duvidosa", critica Arievaldo.

Os quatro cordelistas (reunidos na entrevista para esta matéria) concordam que o romance é o tipo de texto que realmente define o gênero cordel. "Requer maior engenhosidade do autor, personagens bem construídos, uma trama mais rica", ressalta Klévisson.

Atualmente, muitos cordéis são adaptações de obras em prosa de autores clássicos, como José de Alencar - segundo Arievaldo, uma exigência do mercado, que não deixa de contribuir para a difusão do cordel, especialmente entre os jovens. Não por acaso, um dos espaços onde o gênero é privilegiado é a escola. Todos os cearenses participantes da antologia, por exemplo, mantêm projetos vinculados a órgãos governamentais de educação (municipal, estadual ou federal). As iniciativas variam desde oficinas até participação em programas como o Alfabetização na Idade Certa (Paic).

"O melhor caminho para o cordel, hoje, é a sala de aula. Os leitores tradicionais não renovam seus referencias, querem os cordéis clássicos, que conhecem desde meninos", destaca o agente e entusiasta da cultura popular e Antônio Andrade Leal, também presente na entrevista. "E foi essa nova geração de cordelistas, de 10, 15 anos para cá, que levou o cordel para as escolas", explica.

Seleção

Para Arievaldo, esse é um trabalho de continuidade daquele iniciado pelos cordelistas clássicos. "No Ceará, por exemplo, tivemos Lucas Evangelista, de Crateús, ainda hoje ativo e Mestre da Cultura, e Expedido Sebastião da Silva, de Juazeiro. Sem esquecer Joaquim Batista de Sena, que declamava e vendia cordéis nos ônibus em Fortaleza", recorda.

Ainda segundo Arievaldo, para além da questão de contemplar a nova geração de autores, outro mérito de Antologia do Cordel Brasileiro é o cuidado na seleção de textos, que privilegiou obras menos conhecidas pelo público - tendo, assim, ampliado seu poder de difusão.

"No caso de José Pacheco, por exemplo, em vez de publicar ´A chegada de Lampião no inferno´, seu cordel mais famoso, Haurélio escolheu "História do caçador que foi ao inferno", observa o cearense. "Outro destaque é ´A guerra dos passarinhos´, cordel inédito de Manoel D´Almeida Filho", complementa Arievaldo, que destaca ainda os textos que acompanham cada cordel selecionado, sobre sua origem e respectivo autor - uma mão na roda para leitores não iniciados. "Para ficar completo, essa Antologia precisaria de umas mil páginas", brinca o irmão Klévisson. Por isso, o cearense adianta que um segundo volume já faz parte dos planos de Marco Haurélio. "Por ser pesquisador e se dedicar há muito tempo ao gênero, ele conhece quem faz cordel de qualidade no Brasil", reconhece. Por enquanto, o trabalho é voltado à divulgação de Antologia, a ser lançado em diferentes cidades do Nordeste, além do Rio de Janeiro, onde reside Haurélio.


Mais informações


Lançamento de Antologia do Cordel Brasileiro - amanhã, às 19 horas, na Livraria Cultura (Av. Dom Luís, 1010, Meireles, shopping Varanda Mall). Contato: (85) 4008.0800
LIVROAntologia do Cordel Brasileiro
Marco Haurélio
Global
2012, 256 páginas
R$ 37
ADRIANA MARTINS   REPÓRTER
(Diário do Nordeste, Caderno 3 - Edição de 25/04/2012)

terça-feira, 24 de abril de 2012

SÁTIRA POLÍTICA


PADRE NOSSO DO IMPOSTO
Autor: Leandro Gomes de Barros


Nunca se viu tanto imposto
Num país como esse nosso
Cobra-se até de quem reza
Padre Nosso.

Nos falta calçado e roupa
Quem compra mais um chapéu?
Acode-nos, pai da pobreza
            Que estás no céu.

Olhe que o pobre matuto
Que vê o milho encostado,
Não pode guardar nem um dia
            Santificado.

Carne fresca e toucinho
O pobre matuto não come,
Ainda que, o que ele implore
            Seja o vosso nome.

Meu Deus! Temos esperança
Só no socorro de vós,
Fazei que um bom inverno
            Venha a nós.

De rato, lagarta e formiga
Vos pedimos, defendei-nos
Imploramos todos os dias
            Ao vosso reino.

Livrai-nos que contra nós
Caia a ira do prefeito
E o mercado da cidade
            Seja feito.

Fazei que caia o imposto
Da municipalidade
Mas, queira Deus eles façam
            A vossa vontade.

O estado  nos oprime,
O município faz guerra,
Nunca se viu tanto imposto
            Assim na terra.

Queixa-se o povo em geral
Que vive como tetéu
E o governo vive aqui
            Como no céu...

Os deputados da Câmara
Conservam-se com grande “roço”
Por terem por honorários
            O pão nosso.

Quando querem nossos votos
Nos tratam com cortesia
Os impostos aumentando
            De cada dia.

O dinheiro do tesouro
Some-se como quem foge,
A fortuna dos prefeitos
            Nos dai hoje!

Destes impostos d’agora
Por caridade livrai-nos
As censuras que fizemos
            Perdoai-nos.

Não temos mais o que fazer
As cousas vão tão insípidas!
Que não podemos pagar
            As nossas dívidas.

Impostos por toda forma
O governo nos traz atroz
Deus queira que ele fique
            Assim como nós.

O procurador nos cobra
Nós tão pobres nos vexamos
Mas quando ele nos deve
            O perdoamos.

Os do governo se unem
Fazem como vós, com os vossos.
É preciso que vós auxilies
            Aos nossos.

O governo nunca deu
Ouvido aos nossos clamores
Aceita queixas dos nossos
            Devedores.

Por qualquer coisa nos multam
Só para nos perseguir
Nas unhas desses tiranos
            Não nos deixeis cair.

O preço baixo da farinha
Nos faz grande confusão
Faz o agricultor cair
            Em tentação.

Escutai nossos clamores
Nas aflições amparai-nos
E desses fiscais carniceiros
Livrai-nos.

Seja vós o protetor
Que nos sirva de fanal
Defendei-nos dos impostos
            E do mal.

Permiti que o inverno
Venha cedo e chova bem
Livrai-nos de todas as multas
            Amém.

Ofereço esse Padre-Nosso
Aos prefeitos do Estado,
Para que nas eleições
Cada um seja votado,
Adiante o município
E cada qual fique arrumado.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

LENDAS BRASILEIRAS EM CORDEL


Eis aqui mais um trabalho que fiz em parceria com JÔ OLIVEIRA. O livreto LENDAS BRASILEIRAS EM CORDEL, onde narro em cordel as lendas da MÃE DO OURO, CURUPIRA, BOTO COR-DE-ROSA e A MULA SEM CABEÇA. O trabalho foi feito por encomenda dos CORREIOS que lançou quatro selos de Jô Oliveira referentes à essas lendas do povo brasileiro. A seguir, trechos da LENDA DO CURUPIRA:


A LENDA DO CURUPIRA EM CORDEL
Autor: Arievaldo Viana – Desenhos: Jô Oliveira



1 - A poesia é um dom
Que a musa divina inspira
É a pepita que ofusca
O cascalho da mentira
Peço ajuda ao universo
Para narrar, no meu verso,
A lenda do Curupira.

2 - Tem os cabelos vermelhos
Dentes de rara beleza
Verdes como a esmeralda
Luz de vagalume acesa
Não gosta de caçador
É o gênio protetor
Das coisas da Natureza.

3 - Diz a lenda que um índio
Um dia, por distração,
Adormeceu na floresta
E acordou de supetão
Na sua frente sorria
O Curupira e queria
Comer o seu coração.

4 - O caçador já matara
Ali alguns animais
Então concebeu um plano
Astucioso e sagaz
Um coração lhe arranjou
O Curupira provou
E sorriu, pedindo mais.

5 - Um coração de macaco
O caçador lhe entregou
O Curupira comeu
O coração e gostou,
O caçador respondeu:
- Agora me dê o seu;
Que o meu você devorou...

6 - O Curupira inocente
Agiu com todo respeito
Pediu a faca do índio
E cravou no próprio peito
Depois ficou estirado
E o caçador assombrado
Saiu depressa, sem jeito.

7 - Por muito tempo o tal índio
Não queria mais caçar
Por mais que os seus amigos
Viessem lhe convidar
Ele inventava desculpa
No peito trazia a culpa
Medo, tristeza e pesar.

8 - A filha do caçador
Pediu a ele um colar
O índio, pai devotado,
Resolveu ir procurar
Os dentes do Curupira
Brilhantes como safira
Para a filhinha enfeitar.

9 - Achou o crânio do gênio
E ali mesmo procurou
Bater com ele na pedra
Mas logo que o tocou
De uma maneira funesta
O espírito da floresta
Depressa ressuscitou.

10 - O Curupira entendeu
Que ele fosse o responsável
Por sua ressurreição
E de modo muito amável
Deu-lhe um arco pra caçada
E uma flecha encantada
De valor inestimável.


(...)