terça-feira, 21 de março de 2017

SONETO


Pierre Mignard - Clio (Musa da História)

A HISTÓRIA, MÃE DA VERDADE

Desde os tempos de Mauá e de Delmiro
Que a suprema e vil sanha estrangeira
Prejudica a economia brasileira
E abate o nosso avanço com um tiro.

Eu conheço a História e não deliro,
Sobrenado nessa onda de besteira...
Sei filtrar as notícias na peneira
E não venham me dizer que eu conspiro!

Não me iludo com o discurso de um fascista,
E nem assumo a postura imbecil,
De quem vive acostumado a lamber chão.

Pois eu cá, não me curvo a entreguista!
Quem conhece a história do Brasil
Não aceita andar mais na contramão.

Arievaldo Vianna
21.03.2017


Irineu Evangelista de Sousa - O Visconde de Mauá


O pioneiro da indústria nordestina Delmiro Gouveia

SOBRE CLIO, A MUSA DA HISTÓRIA
Da união de Zeus e Mnemósine nasceram as nove musas, personificando as artes e ciências. Clio (ou Arauto) é a musa grega da História.
Clio junto com as irmãs, habita o monte Hélicon. As musas reúnem-se, sob a assistência de Apolo, junto à fonte Hipocrene, presidindo às artes e às ciências, com o dom de inspirar os governantes e restabelecer a paz entre os homens. Clio é a musa da história e da criatividade, aquela que divulga e celebra as realizações. Preside a eloquência, sendo a fiadora das relações políticas entre homens e nações. É representada como uma jovem coroada de louros, trazendo na mão direita uma trombeta e, na esquerda, um livro Intitulado "Thucydide" (Tucídides). Outras representações apresentam-na segurando um rolo de pergaminho e uma pena, atributos que, às vezes, também acompanham Calíope. Clio é considerada a inventora da guitarra. Em algumas de suas estátuas traz esse instrumento em uma das mãos e, na outra, um plectro (palheta). Um dos nove livros de Heródoto leva o nome de Clio em homenagem à deusa.
Metaforicamente, Clio simboliza que o conhecimento é fruto da leitura e do estudo e, nas lendas gregas, a musa é referida como aquela que legou o alfabeto aos homens.


FONTE: http://speglich.blogspot.com.br/2008/03/clio-musa-da-histria.html

sábado, 4 de março de 2017

A MORTE DE LEANDRO


Em Pombal-PB, na festa do Sesquicentenário de nascimento do poeta 

99 ANOS SEM LEANDRO, O PAI DA LITERATURA DE CORDEL

Hoje, 04 de março de 2017, fazem exatamente 99 anos que o poeta Leandro Gomes de Barros transportou-se para outro plano. Do mesmo modo que a sua vida, a morte de Leandro também é envolta em lendas e controvérsias. Sabe-se, seguramente, que a data foi 04 de março de 1918, pois isso consta em folhetos editados pelo seu genro Pedro Batista entre 1918 e 1921 e na sua certidão de óbito, encontrada num cartório do bairro de São José, no Recife-PE. A causa e o local exato é que são controversas, embora tenhamos cópia de sua certidão de óbito lavrada em um cartório no bairro de São José, no Recife, que traz à tona informações dignas de crédito. Ruth Terra, que entrevistou uma de suas filhas, afirma que Leandro morreu no Recife, na rua Passos da Pátria, número 35. No dia 07 de março o jornal A Província, de Recife, noticiou deste modo a morte do grande poeta:

"Aos primeiros minutos da manhã de anteontem, faleceu em sua residência, à Rua Passos da Pátria, nº 35, o poeta popular Leandro Gomes de Barros. Possuidor de grande inspiração poética, Leandro Gomes publicou grande número de histórias rimadas que tinham grande aceitação, não apenas no interior do estado como também nesta capital e em outros estados. Em seus livros de versos, embora não fossem confeccionados com a métrica e estilos exigidos pela arte, encontra-se a verdadeira poesia, cheia de sentimento e inspiração. À família do saudoso poeta levamos os nossos sentimentos."

É oportuno ler o que escreveu Permínio Ásfora, no Diário da Noite de Recife, em 13 de dezembro de 1949, em artigo intitulado “Crise no romanceiro popular”:

Trechos de sua vida são lembrados ainda hoje. Contam que já morava aqui no Recife quando um senhor de engenho, indignado com um morador, resolveu aplicar neste uma sova de palmatória. (...) Um dia o senhor de engenho é surpreendido por violenta punhalada vibrada pela mesma mão que levara seus bolos. O poeta Leandro aproveita o caso policial, transformando-o em folheto que era um libelo contra o senhor de engenho. Descreve em "O punhal e a palmatória", com calor e simpatia, a inesperada vindita. O chefe de polícia, enfurecido com a literatura de Leandro, manda metê-lo na cadeia. Apesar de folgazão, Leandro era homem de muita vergonha e de muito sentimento. E como naquele já distante ano de 1918 a cadeia constituía uma humilhação, à humilhação da cadeia sucumbiu o grande trovador popular.

Ásfora cita a seguir uma estrofe do dito folheto que afirma ser a primeira:

“Nós temos cinco governos
O primeiro, o Federal,
O segundo o do Estado,
O terceiro, o municipal,
O quarto é a palmatória
E o quinto o velho punhal”.

Ruth Terra(1), nas pesquisas de seu livro já mencionado, encontrou  o dito folheto “A palmatória e o punhal” no acervo dos Fundos Vila-Lobos e constatou que a primeira estrofe difere daquela citada por Permínio Ásfora:

“Desde que entrou a República
Que o nosso país vai mal
Pois o lençol da miséria
Cobriu o mundo em geral
Deixando a mão entregue
À palmatória e ao punhal”.


Ilustração: JÔ OLIVEIRA 

Ruth Terra teve o cuidado de verificar se a estrofe recolhida por Permínio Ásfora achava-se em outro trecho do referido folheto localizado nos Fundos Villa-Lobos, mas não a encontrou. Como o folheto localizado por ela não tem data, fica difícil saber se é a mesma edição apreendida pelo chefe de polícia de Recife em 1918 ou se a estrofe recolhida por Permínio Ásfora foi apenas retida na memória de algum fã do poeta e deturpada ao longo dos anos.
Outros pesquisadores afirmam que Leandro morreu vítima da influenza espanhola, uma gripe mortífera que assolou o Brasil no início do século passado. Egídio de Oliveira Lima(2), por sua vez, diz que Leandro morreu "de uma enfermidade que o havia atacado uns dez anos antes" (Lima, 1978: 156), e no seu ATESTADO DE ÓBITO consta como causa mortis ANEURISMA.
Após a morte de Leandro, em 1918, seu genro Pedro Batista (irmão de Chagas Batista e esposo de Rachel Aleixo de Barros), continuou editando a obra do sogro em Guarabira-PB, fazendo algumas revisões de linguagem. Na 3ª edição completa de O Cachorro dos Mortos, um dos maiores clássicos de Leandro, publicado em Guarabira-PB em 1919 (um ano após a sua morte), Pedro Batista colocou o seguinte aviso:

“Tendo falecido o poeta Leandro Gomes de Barros passou a me pertencer a propriedade material de toda a sua obra literária. Só a mim, pois, cabe o direito de reprodução dos folhetos do dito poeta, achando-me habilitado a agir dentro da lei contra quem cometer o crime de reprodução dos ditos folhetos.”

Ainda na contracapa do dito folheto, Pedro Batista dá nome aos “bois” responsáveis pela “pirataria”:

“Já achava-se este folheto em composição quando chegou ao meu conhecimento que em Belém do Pará, um indivíduo de nome Francisco Lopes e no Ceará um outro de nome Luiz da Costa Pinheiro, têm criminosamente feito imprimir e vender este e outros folhetos do poeta Leandro Gomes de Barros, sem a menor autorização de minha parte que sou o legítimo dono de toda a obra literária desse poeta. (...)”

Ora, bem pior fez João Martins de Athayde, que após adquirir por compra o espólio de Leandro, tentou usurpar-lhe a autoria suprimindo o seu nome da capa dos folhetos e alterando os acrósticos que Leandro utilizava no final dos poemas, a fim de confundir a identificação.  Essa prática condenável verifica-se em dezenas de obras reeditadas por Athayde. Vejam só o que aconteceu com a última estrofe  do folheto “A Força do Amor ou Alonso e Marina”, onde o acróstico LEANDRO  foi alterado para IEANJRO.

Folheto editado pelo autor:

Levemos isso em análise
Então vê-se aonde vai
A soberba é abatida
No abismo tudo cai,
Deus é grande e tem poder
Reduz ao pó qualquer ser
O poder d'Ele não cai.

Versão de João Martins de Athayde:

Isto fica como exemplo
Então vê-se  aonde vai
A soberba é abatida
No abismo tudo cai
Jesus é grande em poder
Reduz ao pó qualquer ser
O poder d'Ele que é pai.

A venda dos direitos autorais de Leandro Gomes de Barros, pela viúva do poeta, Dona Venustiniana Aleixo de Barros, a João Martins de Ataíde ocorreu em 1921. O pesquisador Sebastião Nunes Batista, que muito se empenhou pela restituição de autoria de Leandro e de outros poetas populares, informa como se deu essa transação, em artigo intitulado “O seu ao seu dono...” publicado na revista Encontro com o Folclore (Rio de Janeiro, 5 de abril de 1965):

“D. Vênus, como era chamada na intimidade, desentendera-se com o seu genro Pedro Batista, porque tendo este enviuvado de sua filha Rachel Aleixo de Barros, que faleceu de parto da pequena Djenane, não concordou em que a menina fosse para companhia da avó materna, e esta em represália autorizou João Martins de Athayde a editar parte da obra literária do grande poeta popular paraibano Leandro Gomes de Barros.”

Um dos filhos de Leandro, Esaú Eloy Barros de Lima, assinou juntamente com mãe o documento de venda da obra de seu pai ao poeta João Martins de Athayde, em abril de 1921. A venda foi efetuada no dia 13 e o documento foi registrado em cartório no dia 16 do mesmo mês.

O TEXTO INTEGRAL DO DOCUMENTO DE VENDA, CONFORME Sebastião N. Batista, (In Literatura Popular em Verso  Estudos, pág. 452 da segunda edição - Editora Itatiaia, 1986):

“CONTRATO DE VENDA DE PROPRIEDADE LITERÁRIA”

A abaixo assinada, viúva do poeta popular LEANDRO GOMES DE BARROS, tendo ficado com a propriedade exclusiva de todas as obras do referido poeta, declara pelo presente ter vendido ao Sr. JOÃO MARTINS DE ATAÍDE a mesma propriedade pela quantia de seiscentos mil réis (600$000), cuja importância me foi paga em moeda legal do país, pelo que poderá usar de todos os direitos que lhe são conferidos por lei, fazendo da mesma o uso que lhe convier.  Jaboatão, 13 de abril de 1921  (a) VENUSTINIANA EULÁLIA DE BARROS.  (a) JOÃO MARTINS DE ATAÍDE.  Cunha: - (a) Esaú Eloi de Barros Lima  (a) Aprígio José de Lázaro. Reconheço as firmas dos constantes e das suas testemunhas.  Recife, 16 de abril de 1921  em testemunho da verdade  (a) Tavares de Genésio Barreto.”

(Conforme cópia do original fornecida ao Prof. Mark Curran, em Recife, agosto de 1966, por um filho do poeta-editor João Martins de Ataíde).

[1] - Ruth Brito Lemos Terra - Memória de Lutas: Literatura de Folhetos no Nordeste  1893  1930, editora Global, 1983.
[2]  Egídio de Oliveira Lima, Folhetos de Cordel, Edição UFPB, 1978, pág. 156.


ENCONTRADA A CERTIDÃO
DE ÓBITO DE LEANDRO

Cristina da Nóbrega, seguindo pistas fornecidas pelo autor destas linhas, pesquisou nos cartórios do Bairro de São José, no Recife, e localizou o livro onde está assentada a CERTIDÃO DE ÓBITO do grande poeta. Algumas informações curiosas, prestadas por seu filho Esaú Eloy de Barros Lima (quem, por sinal, assina o documento), são bem reveladoras. Ele informa que seu pai tinha 58 anos de idade, e não 53, na data de seu falecimento, o que remete seu nascimento para 1860, ao invés de 1865, data divulgada oficialmente. Diz que Leandro era filho de José Gomes de Barros Lima e Adelaide Gomes de Barros (seu nome de solteira era Adelaide Xavier de Farias). Era comerciante, faleceu na rua Passos da Pátria, bairro de São José, às 9h30 da noite do dia 4 de março de 1918, tendo como causa mortis aneurisma. Nessa data, Rachel Aleixo de Barros Lima, a filha mais velha, tinha 24 anos, Esaú Eloy, o declarante, 17 anos, e as suas irmãs Julieta (na certidão está grafado erroneamente Juvanêta) e Herodias eram também menores.
Após a morte de Leandro, seu genro Pedro Batista (irmão de Chagas Batista e esposo de Rachel Aleixo de Barros) continuou editando a obra do sogro em Guarabira (PB), fazendo algumas revisões de linguagem, entre 1918 e 1921.
Em 1921, após desentender-se com o genro, a viúva do poeta, Dona Venustiniana Aleixo de Barros, vendeu seu espólio literário a João Martins de Athayde. O pesquisador Sebastião Nunes Batista, que muito se empenhou pela restituição de autoria de Leandro e de outros poetas populares, informa como se deu essa transação, em artigo intitulado "O seu ao seu dono...", publicado na revista Encontro com o Folclore (Rio de Janeiro, 5 de abril de 1965):


D. Vênus, como era chamada na intimidade, desentendera-se com o seu genro Pedro Batista, porque tendo este enviuvado de sua filha Rachel Aleixo de Barros (que faleceu de parto da pequena Djenane, em junho de 1918), não concordou em que a menina fosse para companhia da avó materna, e esta em represália autorizou João Martins de Athayde a editar parte da obra literária do grande poeta popular paraibano Leandro Gomes de Barros.

[In Leandro Gomes de Barros - Vida e Obra, de Arievaldo Vianna]


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Relembrando o BENTEVI

Poeta Bentevi Neto fotografado em Canindé-CE

Amigo José Tinoco
Eu ainda faço glosa
Sou repentista da prosa
Que nunca ficou no toco
Sou glosador de papôco
Já glosei com mais de cem!
Dos poetas que aqui vêm
Pra derribar meu projeto
Encontrei Bentevi Neto,
Daí pra cá mais ninguém.

(Glosa do poeta Roque Machado, recolhida por Alberto Porfírio)

BENTEVI NETO, um glosador do “papôco”


Quarto ou quinto violeiro da famosa dinastia dos Bentevis da Paraíba, Severino Mendonça da Silva*, o Bentevi Neto (ou Bem-te-vi, como preferem alguns), nasceu em Patos-PB, no dia 11 de março de 1922, mas fez fama como glosador no Sertão Central do Ceará e Maciço de Baturité. Faleceu no dia 05 de julho de 1959, em Água Verde, distrito de Pacatuba, vítima de um acidente de caminhão. O poeta havia conseguido uma carona num caminhão carregado de frutas, que vinha de Baturité para Fortaleza. Na ponte da Água Verde, o carro virou devido um cochilo do motorista. Dizem que de boas intenções o inferno está cheio... Bentevi ficou soterrado sob as frutas e o ajudante do carro, pensando em socorrê-lo, riscou um fósforo, porque ainda estava escuro. O resultado é que o carro incendiou imediatamente e o pobre cantador morreu carbonizado.


Eis o pássaro que emprestou o nome ao genial glosador


O LEGADO DO POETA

Quando criança, ouvi muitas glosas atribuídas ao Bentevi. Meu pai toda vida gostou de cantoria e quando se juntava com o amigo Chico Cazuza, um fã do poeta, pedia sempre para que ele recitasse alguns versos do grande cantador. Esses versos corriam de boca em boca, no meio daquela gente simples e semi-analfabeta, porém foram preservados ao longo do tempo. Contam que certa feita ele cantava em São José da Macaóca (distrito de Quixeramobim), na casa do mestre Mário Victor, quando fez um gesto muito comum nos grandes cantadores, ergueu a cabeça a fitar as telhas em busca de uma rima. Já havia feito os dois primeiros versos:

O Bentevi quando canta
O seu cantar é exato...

Ergue a cabeça para inspirar-se e eis que passa um gato correndo pela meia parede. Foi o suficiente para completar magistralmente a estrofe:

... Valha-me Nossa Senhora
Que alí vai passando um gato
Mas ele morre e não come
Um Bentevi de sapato!

Dizem os apologistas que guardam carinhosamente algumas pérolas da sua produção poética no cofre da memória, que de outra feita o poeta cantava num salão onde estavam dois cachorros, bem do seu lado. De repente aparece um gato e o poeta improvisa:

Estou muito satisfeito
Cantar nesta sala aqui
De um lado está Tubarão
Do outro lado o Joli
Os cães espantaram o gato
Pra não pegar Bentevi.

Um belo dia juntaram-se 12 cantadores em Baturité. João Siqueira do Amorim liderava o grupo e o Dr. Saraiva Leão pagava a despesa dos poetas, quando surgiu a melhor estrofe, feita pelo Bentevi:

Somos doze cantadores
Aqui no quadro da feira,
Imitando os doze apóstolos,
Com Jesus na cabeceira.
O Cristo é o doutor Saraiva
E Judas é João Siqueira.

De outra feita Bentevi encontrava-se numa barbearia na localidade de Pirangi, distrito de Ibaretama-CE, cujo proprietário tinha o apelido de Gavião. Nesse momento chegou um velho conhecido de ambos, apelidado Marreco, que entrou na barbearia fumando um cigarro e propôs ao Bentevi fazer uma glosa sobre o encontro. O poeta temperou a garganta e respondeu de chofre:

Vi um touro jejuar
Sexta-feira da Paixão
Macaco fazer sermão,
Vi pulga se confessar,
Vi cobra dar de mamar
Ao filho de um juriti
E agora, no Pirangi,
Vi um Marreco fumando
E um Gavião tirando
A barba dum Bentevi.

O poeta gostava de descrever a natureza e tinha paixão pela fauna, não esquecendo sequer o humilde e desprezado cururu:

Não é alto; é baixo e grosso;
É redondo, curto e chato,
Gosta muito de regato,
Mora na beira do poço,
Canta desde sapo moço;
Seu cantar é uma certeza,
Procurando a correnteza,
Banhando o seu corpo nu
Quero bem ao cururu
Profeta da Natureza.

O inspirado glosador viajava de trem de Itapiúna a Caio Prado quando presenciou uma cena bastante desumana. Um homem de CANGATI levava um saco cheio de gatinhos para soltar num local deserto. Bentevi, amante dos animais e da natureza, saiu-se com esta:

Há inverno em todo Estado
Só não chove em Cangati
Porque o povo dali
É todo amaldiçoado
A nuvem do Caio Prado
Passa por cima e some
Tudo por causa dum "home"
Que mandou botar no mato
Um saco cheio de gato
Pra morrer de sede e fome.

Cantando numa emissora de rádio com o poeta José Mota Pinheiro, Bentevi percebeu a chegada de dois colegas: Lourival Bandeira Lima e Lourival Batista. Zé Mota quis ufanar-se terminando uma estrofe cheia de bazófia:

Eu sou Zé Mota Pinheiro,
Um campeão do repente.

Pegando na deixa, Bentevi fulminou-o dessa maneira:

Bentevi Neto, somente,
Nome que o jornal adota;
Lourival Bandeira Lima
E Lourival Patriota.
Onde cantam esses três homens
Não se fala em José Mota.

Segundo nos informou o poeta José Maria de Fortaleza, o principal parceiro de Bentevi era o cantador Nogueira (ou Nogueirão, como era mais conhecido pelos colegas). Certa feita os dois foram cantar em Aracoiaba e andavam pela rua, quando o Nogueira resolveu entrar numa barbearia para cortar o cabelo. Bentevi seguiu adiante e entrou numa bodega, onde foram logo lhe perguntando: Bentevi, cadê Nogueira? O poeta, percebendo que a pergunta era metrificada em sete sílabas respondeu em cima da bucha:

Bentevi, cadê Nogueira?...
Lhe respondo em poesia
Ficou na barbearia
Derrubando a cabeleira;
Com a tesoura cortadeira
Cabelo cai de magote,
E a navalha no cangote
Tirando o resto do friso,
Deixando o pescoço liso
Que só pau de cabeçote!

Numa cantoria na localidade de Três Irmãos (Canindé) nome proveniente de um serrote formado por três gigantescos monólitos praticamente iguais, Bentevi admirou-se da indumentária de um garotinho, que ali se encontrava em trajes mal amanhados...

A calça deste garoto
Parece que está perdida
Foi esta a roupa mais feia
Que eu já vi na minha vida
Pra ser comprida está curta
Pra ser curta está comprida.

Outra glosa famosíssima atribuída a Bentevi, que me foi recitada pelo cantador Pedro Evangelista, questiona a Criação do Homem:

Diz a Sagrada Escritura
Que Adão foi feito de barro
Mas essa história eu não narro
Porque é mentira pura
Ainda tem gente que jura
Que isso tudo foi passado...
Deus é um Santo Sagrado,
Ele nunca foi “loiceiro”
Pra estar dentro dum barreiro
Fazendo cabra safado.

Cantando com Lourival Bandeira Lima, nos festejos de São Francisco das Chagas, em Canindé-CE, o parceiro disse que ia tomar uma cana e tirar o gosto com caju. Os poetas ficavam geralmente em latadas de palha, construídas no leito do rio Canindé, onde se vendia bolo, café, refeições e bebidas alcoólicas, principalmente a cachaça. Bentevi, que também gostava de tomar um trago, glosou de imediato:

Tanto faz chamar caju
Como se chamar jucá;
É cê-a-ca, jota-u-ju
É jota-u-ju, cê-a-cá;
Trocando o pau pelo fruto
Caju pra cá, pau pra lá.


Festejos de Canindé na década de 1940

Ainda em Canindé, o poeta teria glosado essa estrofe, em linguagem matuta, pronunciando “Rie” no lugar de RIO e “mie”, em vez de MILHO, como é muito comum entre os sertanejos. Eis a sextilha:

O Bentevi quando canta
Dentro do leito do RIE
Parece trinta macacos
Em um roçado de MIE
Dezoito quebram na frente
Doze atrás fazendo ATIE.

Fazer atilho é o ato de amarrar a palha das espigas de milho umas nas outras para facilitar o seu transporte. Os macacos são mestres nessa arrumação.

HOMENAGENS PÓSTUMAS

Falando de seu conterrâneo Moysés Lopes Sesyom, no IV Volume do Livro das Velhas Figuras, o grande folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo disse que os seus versos magistrais “estão mais seguros na retentiva popular do que nas páginas de um folheto. Mas essa impressão garantiria a pureza da produção humilde, impossibilitando as deturpações vindouras, instaladas no texto como letra integral.” Foi com essa intenção que os colegas violeiros da SOVIBRIL (Sociedade dos Cantadores, Violeiros e Poetas Populares do Brasil), fundada em 27 de outubro de 1974, publicaram um folheto de 16 páginas intitulado “Vida e Morte de Severino Mendonça da Silva, vulgo Bentevi Neto” fazendo o necrológio do poeta e apresentando uma coletânea de suas glosas mais inspiradas, muitas das quais viriam a ser reunidas posteriormente na famosa Antologia Ilustrada dos Cantadores, de Francisco Linhares e Otacílio Batista. Nesta pequena crônica, conseguimos reunir também algumas estrofes dispersas recolhidas por seus admiradores dos sertões de Canindé e Quixeramobim. Gente anônima que conheci na infância, trabalhadores rurais que guardavam de memória as estrofes felizes do grande glosador paraibano.


Capa do folheto de Minelvino Francisco Silva

Também o poeta popular baiano Minelvino Francisco Silva, “o trovador apóstolo” publicou um folheto de 8 páginas intitulado “Homenagem póstuma ao violeiro Bentevi Neto”, com bela xilogravura retratando o poeta defronte uma igreja. É justamente esse folheto de Minelvino que informa as datas de nascimento e morte de Severino Mendonça da Silva. Vejamos:

No dia 11 de março
Este poeta nasceu
Em Patos, na Paraíba,
O berço querido seu
No ano de 22 (1922)
Conforme Deus concedeu.

Manoel da Silva Mendonça
E dona Rita Crispim
Foram os pais de Severino
De inteligência sem fim
No assunto da poesia
Por ordem de Eloim.

O seu avô era um homem
Sincero e muito correto
Tinha o vulgo Bentevi
Cantador mesmo dileto,
Por isso é que Severino
Chamavam Bentevi Neto.

(...)

No ano 59 (1959)
Um desastre aconteceu
No dia 5 de julho
Bentevi Neto morreu
Na ponte de Água Verde
Esse desastre se deu.

Porque ele viajava
Fazendo a sua defesa
Cantando aqui, acolá,
Por aquela redondeza
Vinha de Baturité
Seguindo pra Fortaleza.

O poeta descreve dessa maneira os momentos trágicos da morte do grande cantador, após a virada do caminhão na ponte de Água Verde:

Ainda estava muito escuro
O ajudante saltou
Pra socorrer Bentevi
Um fósforo logo riscou;
Mas com a explosão do fósforo
Todo carro incendiou.

Ali não teve mais jeito
Todo carro incendiado
Bentevi Neto que estava
Debaixo dele, imprensado,
Foi pra terra da verdade
Além de morto, queimado.

No ano 76 (1976)
Seu Murilo Evangelista
Fez uma bela promessa
Com a alma do repentista
Que morreu ali queimado
Na ponte, fora da pista.

E sendo vitorioso
Por ordem do Salvador
Resolveu ir ao local
Desse desastre de horror
E mandou rezar uma missa
Pra alma do cantador.

A Murilo Evangelista
Jesus lhe deu um bom tino
Pra reunir os poetas
Homem, mulher e menino,
E construir uma capela
Ali, pra São Severino.

(Silva, Minelvino Francisco da. Homenagem póstuma ao violeiro Bentevi Neto)

Segundo o poeta Zé Maria de Fortaleza, ao que parece, a construção dessa igrejinha no local da tragédia jamais se concretizou, embora poetas como Cezanildo Lima tenham envidado todos os esforços para que o projeto fosse adiante.
O poeta potiguar Eliseu Ventania, o ‘Rei da Canção’, foi um de seus parceiros e se dizia influenciado pelo grande poeta paraibano. Em sua última entrevista concedida à imprensa, para o jornal O Mossoroense, em 27 de setembro de 1998, falou da influência que outros violeiros tiveram para a sua decisão pela cantoria. “O que me impulsionou foi o chamado de outros violeiros, como João Liberalino, Adonias Ferreira, entre outros. Aos 18 anos, eu fui para Fortaleza, no Ceará, e lá fiz parceria com alguns violeiros. Anos depois tive como parceiros João Liberalino, Adonias Ferreira, Raimundo Mourão, Bentivi Neto, Patativa, Chico Traíra e muitos outros", relatou à época.

Arievaldo Vianna


* Na Antologia Ilustrada dos Cantadores, de Otacílio Batista e Francisco Linhares, o nome do poeta é dado como Severino Mendes de Queiróz.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

FOLHETOS DE GRACEJO




O CORDEL TIRANDO A MULHER A TERREIRO
(As feministas que me perdoem, mas a piada é fundamental)

“A mulher numa algibeira
Chama-se tiro seguro,
Porque ela entra n'um bolso
Que só fogo no monturo,
Como faca em melancia
 colher em mamão maduro.”

(Leandro Gomes de Barros -  O casamento do velho
e um desastre na festa, folheto de 1913)

A mulher, eterna musa dos poetas, razão maior da existência da poesia é decantada em milhares de folhetos da Literatura de Cordel. Segundo o saudoso poeta paraibano Manoel Monteiro, “a poesia popular vem de tempos  imemoriais, dos beduínos nômades, dos mouros, dos ciganos avoengos, de andarilhos errantes que para afugentar a solidão do ermo cantavam para as estrelas da Península Ibérica, espraiando-se depois pelas terras do Novo Mundo.”
Pelo menos é o que dizem os estudiosos da poesia popular, mas o poeta Manoel Monteiro achava que a coisa vinha de muito mais longe. Segundo ele, “a poesia nasceu na caverna quando o macaco em mutação, já mais homem do que símio, querendo fazer a côrte  à trogloditazinha simpática, cantou-lhe o primeiro verso e com esse artifício meloso ganhou a primeira mina.”


O grande poeta Manoel Monteiro, já falecido.

São inúmeros os poemas enaltecendo a graça e a beleza da mulher, mas, como não poderia deixar de ser, existem também centenas deles  “tirando a mulher a terreiro”, ou seja, levando-a para o campo do gracejo e do humorismo. Citamos como exemplo: O gênio das mulheres, O peso de uma mulher e A mulher em tempo de crise, de Leandro Gomes de Barros. José Pacheco da Rocha, o genial poeta alagoano, também escreveu um folheto intitulado A mulher no lugar do homem, no qual ridiculariza as conquistas feministas. O já mencionado Manoel Monteiro, de Campina Grande-PB, lançou há pouco tempo um folheto na mesma linha de Pacheco intitulado A mulher de antigamente e a mulher de hoje em dia, do qual reproduziremos alguns trechos:

Folheto de gracejo escrito por José Costa Leite


A MULHER DE ANTIGAMENTE
E A MULHER DE HOJE EM DIA
Autor: Manoel Monteiro
(Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel)

Deus após formar o mundo
Achou que era preciso
Povoá-lo, fez Adão,
Mas fez Eva sem juízo
E deixou os dois flertando
No pomar do Paraíso...

Quando foi criar o homem
Ficou sobrando um pedaço,
Ele deixou assim mesmo
E seguiu sem embaraço
Mas quando fez a mulher
Deixou aberto um espaço.

Adão ficou perturbado
Vendo um defeito daquele,
Pois o que faltava nela
Estava sobrando nele,
Para tapar o buraco
Meteu o pedaço dele.


Eu acho que a Bíblia fala
Em sentido figurado,
Porque deixar Adão nu,
Com Eva nua a seu lado
Tinha que dar no que deu:
Foi Caim pra todo lado!

Você já imaginou
Eva dengosa e faceira
Tendo só por vestimenta
Uma folha de parreira?
Não precisava nem Cão
Para Adão fazer besteira.

Mas no começo do mundo
Tudo era diferente
Trabalhar não precisava
Adão vivia contente,
Só arruinou, ao juntar-se
Eva, a maçã e a serpente.

Porque Deus disse à Adão
Como de tudo, porém,
Não coma a maçã de Eva,
Adão lhe disse: Está bem!
Mas veio a peste da cobra
Pra estragar seu xerém.

Contra as ordens do Divino
A cobra se levantou,
Tentou o primeiro homem
E Adão se abestalhou
Comeu a maçã de Eva
E o negócio arruinou.

O homem foi enganado
Por Eva e por Lúcifer
Mas ele em sua bondade
Dá tanta corda à mulher
Que ela pensa que pode
Fazer o que bem quiser.

Elas estão todo dia
Tomando o nosso lugar
Se continuarem assim
Só o que nos vai sobrar
É o tanque de lavar roupa
E o ferro de engomar.

Em toda repartição
Tem uma mulher mandando
Elas estão assumindo
Todos os postos de mando
E enquanto isso no lar
Tem uma mulher faltando.

(...)

Houve um tempo que a mulher
Era bicho conhecido
Usava saia godê
Blusa de manga ou vestido
Anágua, friso e marrafa
Cabelo sempre comprido.

Touca, espartilho, ampoleta,
Moda ousada era cocó
Se o rapaz pedisse um beijo
Ficava falando só
Sem casar, só via mesmo
Mão, pescoço e mocotó.

Não raspava a sobrancelha
Nem sovaco, nem pentelho,
Para usar rouge ou batom
Tinha que pedir conselho,
Califon de meio corpo,
Calçola até o joelho.

A mulher andava livre
Do terreiro pra cozinha,
No resto era proibida
Na sala a mulher só vinha
Se fosse pra trazer água
Ou para tanger galinha.

No jornal O Povo, edição de 25/05/2003, na página 8 do caderno Allmanaque, foi publicado um e-mail enviado pelo leitor Bruno Loureiro, intitulado “As feministas que me perdoem, mas a piada é fundamental”, onde figura esse trecho da Constituição Nacional Inglesa (lei do Século XVIII)  “Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheio nos quadris, incorrem no delito de bruxaria, e o casamento fica automaticamente anulado.”
Os editores do referido caderno, não resistiram à tentação e publicaram o seguinte comentário: “Para sorte da mulher inglesa, a Constituição se esqueceu de prever avanços como o silicone, o mega-hair, a lente de contato colorida, o wonderbra, a chapinha, os bobs, a maquiagem definitiva, a depilação e o curvex.”



A Literatura de Cordel, que tem eternizado o amor e a mulher  em romances clássicos como Coco Verde e Melancia, Pavão Misterioso, Pedrinho e Julinha (todos de José Camelo de Melo Resende) também não a poupa de gracejos. No Acre existiu um poeta chamado Manoel Lourenço Alves, descendente de cearenses, que publicou alguns folhetos, dentre os quais um de título bastante sugestivo: “Como escolher entre mil moças a que serve para o lar”. Nesse livreto o poeta diz o seguinte:

Vou escolher entre louras
Morena, branca e mulata,
Pequenas, grandes e médias,
Saber quem não é ingrata
E dizer quem é que tem
O coração de barata.

O rapaz pra se casar
É preciso ter coragem
Porque as moças de hoje
Eu não conto pabulagem;
Vou escolher entre mil
Pra saber a porcentagem.

Não pense que é brincadeira
O meu recenseamento
Porque nesta minha escolha
Noventa e nove por cento
Das moças classificadas
Quem dá o preço é o vento.

(...)

Quem se casar com uma moça
Que tenha a canela fina
Não sabe o que é prazer
Nem tem proteção divina;
É pior que jararaca
E ainda quer ser granfina.

Mulher da canela fina
Toda ela é faladeira
E é metida a valente
Gosta de ser fuxiqueira
Aonde passa uma dessas
Só se escuta a quebradeira.

Comecei falar em perna
Vou com o assunto a frente
Vou falar de perna grossa
Aí é mais diferente
Perna grossa e mini-saia
Faz admirar a gente.

Mas moça da perna grossa
Não dá conta do recado
Põe o feijão na panela
E deixa o fogo apagado
E dorme, que deixa até
O povo desconfiado.

E quando ela se acorda
Vai se queixar pra vizinha
- Mulher, eu tenho um feijão
Que o danado não cozinha...
Já este seu ferve logo
Não sei que sorte esta minha.

(...)

Mas se as moças tivessem
Algum letreiro na testa
No meu casório eu faria
O maior dia de festa
E não me importo que digam
LOURENÇO ALVES não presta.

Arievaldo Vianna

Trecho do livro MALA DA COBRA – ALMANAQUE MATUTO