quarta-feira, 24 de abril de 2019

CARIRI CANGAÇO 2019



PROGRAMAÇÃO CARIRI CANGAÇO
QUIXERAMOBIM 2019

SEXTA-FEIRA
Dia 24 de Maio de 2019

17h – Solenidade de Abertura
Memorial Antonio Conselheiro
Quixeramobim, Ceará
Mestre de Cerimônia
Aílton Siqueira

17h10min – Formação da Mesa de Autoridades
17h15min – Hino Nacional
Cecília do Acordeon
Redenção-CE

17h30min – Apresentação do Cariri Cangaço
Por Conselheiro
Ângelo Osmiro Barreto
Fortaleza-CE
O
17h40min - Fala das Autoridades

18h - Entrega de Diplomas aos Homenageados
Pedro Igor Azevedo
Bruno Paulino
Francisco Antônio Rabelo
 Neto Camorim
Goreth Pimentel

Entrega por Conselheiros e Convidado
Luiz Ruben Bonfim
Paulo Afonso-BA
Manoel Serafim
Floresta-PE
Professor Pereira
Cajazeiras-PB
Rangel Alves da Costa
Poço Redondo-SE
Jorge Figueiredo
Grupo Sertão Nordestino

20h10min -  Comenda a Antônio Vicente Mendes Maciel
Em Memória - "Personalidade Eterna do Sertão"
Roberto Maciel
Por Personalidades
Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros
Rio de Janeiro-RJ
Mucio Procópio Araujo
Natal-RN

20h20min - Entrega de Comendas às Instituições
"Equipamento Imprescindível
 à Memória e Cultura do Sertão"
IPHANAC
AQUILETRAS
ESCOLA HUMBERTO BEZERRA
ESCOLA JOSÉ ALVES DA SILVEIRA
Por Conselheiros:
Elane e Archimedes Marques
Aracaju-SE
Aderbal Nogueira
Fortaleza-CE
Cristina Couto
Lavras da Mangabeira-CE
Ana Lúcia Souza
Petrolina-PE

20h30min - Entrega da Premiação do Concurso
"Antônio o Conselheiro do Brasil"
das Escolas de Quixeramobim
Homenagem Póstuma a Marcílio Maciel
Sérgio Machado
Fundação Canudos
Terezinha Oliveira
AQUILetras
Linda Lemos | Academia de Letras Juvenal Galeno
Paulo Roberto Neves | ACLA - Academia Ciências ,Letras e Artes Columinjuba



 20h40min - Conferência de Abertura
"Igreja e República Frente ao Mundo Beato
O Martírio de Antonio Conselheiro"
 Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros
Rio de Janeiro-RJ 

21h45min - Coquetel de Abertura
Apresentação
Quirino Silva e Célia Maria
João Pessoa-PB


SÁBADO
Dia 25 de Maio de 2019

8h30min - Saída para Visita Técnica

9h - Fazenda e Vila da Canafístula Velha

9h10min - Descerramento de Quadro Comemorativo à Memória de
Dona Marica Lessa - Guidinha do Poço
Capela da Sagrada Família
Manoel Severo | Fortaleza-CE
Bruno Paulino | Quixeramobim-CE
Rodrigo Honorato | Exu-PE

10h15min - Apresentação
"O Rabicho da Geralda"
Francine Maria
Ibiapina-CE

10h30min – Conferência
“O Sertão de Dona Guidinha”
Bruno Paulino | Quixeramobim-CE
Carlos Alberto | Natal-RN

Ilustração: ARIEVALDO VIANNA (Direitos Reservados)

11h30min – Lançamento do livro
“Os Milagres de Antônio Conselheiro”
Arievaldo Viana | Fortaleza-CE
Bruno Paulino | Quixeramobim-CE

12h00min - Lançamento
"Dona Marica Lessa"
Paulo de Tarso, o Poeta de Tauá | Tauá-CE

13h - Almoço Literário na Fazenda Barro Doce
Forró Pé de Serra
Cecília do Acordeon e Artistas da Terra

13h45min - Roda de Conversa
Facilitadores
Pedro Igor e Manoel Severo
O
“O que ficou de Antônio Conselheiro
e Canudos no Imaginário Popular de Quixeramobim”
Goreth Pimentel
Quixeramobim-CE
“Os Caminhos de Conselheiro”
Neto Camorim
Quixeramobim-CE
"Santo Antônio dos Mares e o Rio Grande do Norte"
João da Mata Costa
Natal-RN

16h – Visita ao Salva Vidas
Capela de Nossa Senhora das Graças

16h15min - Apresentação
"Antonio Conselheiro"
Francine Maria
Ibiapina-CE
 
 "A História de Antônio Conselheiro"
Geraldo Amâncio
Fortaleza-CE
                                       
Lançamento
“O Cinema dos Fósseis”
Alan Mendonça
Fortaleza-CE

NOITE

21h30min

Programação Sugerida
Show Musical na Ponte Metálica
Country Bar
David Einstein



DOMINGO
Dia 26 de Maio de 2019

8h30min - Conferência de Encerramento
Hotel Veredas
"Antônio Vicente Mendes Maciel: O Homem, O Mito”
Múcio Procópio
Natal-RN

9h10min - Lançamento
"Luiz Gonzaga nos Carnavais"
Coronel Marcelo Leal
Fortaleza-CE

9h40min - Saída para Caminhada
Roteiro Histórico de Quixeramobim
Bruno Paulino
Ciro Barbosa
Beto Camurim

Casa de Dona Marica Lessa – Guidinha do Poço
Casa de Antônio Conselheiro
Casa de Manoel Bandeira
Casa de Câmara e Cadeia
Igreja Matriz de Santo Antônio

Cariri Cangaço Quixeramobim 2019

Realização
INSTITUTO CARIRI DO BRASIL
Co-realização
IPHANAC
Apoio
AQUILETRAS - ACADEMIA QUIXERAMOBIENSE DE LETRAS
FUNDAÇÃO CANUDOS
PREFEITURA MUNICIPAL DE QUIXERAMOBIM
CÂMARA MUNICIPAL DE QUIXERAMOBIM
SBEC- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DO CANGAÇO
GECC - GRUPO DE ESTUDOS DO CANGAÇO DO CEARÁ
GPEC-GRUPO PARAIBANO DE ESTUDOS DO CANGAÇO
ICC - INSTITUTO CULTURAL DO CARIRI
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO PAJEÚ
ACADEMIA LAVRENSE DE LETRAS
ACLA-ACADEMIA DE CIÊNCIAS LETRAS E ARTES DE COLUMINJUBA
SOCIEDADE CEARENSE DE GEOGRAFIA E HISTORIA
Mídia e Redes Sociais
GRUPO LAMPIÃO CANGAÇO E NORDESTE
GRUPO OFICIO DAS ESPINGARDAS
COMUNIDADE O CANGAÇO
GRUPO HISTORIOGRAFIA DO CANGAÇO
O CANGAÇO NA LITERATURA
GRUPO SERTÃO NORDESTINO
PROGRAMA RAÍZES DO SERTÃO
ODISSÉIA DO CANGAÇO
BLOG ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA

Fonte: Cariri Cangaço | http://cariricangaco.blogspot.com/

quinta-feira, 11 de abril de 2019

“ - PRETO NÃO ENTRA!”



PERCALÇOS E PRECONCEITOS ENFRENTADOS POR LUIZ GONZAGA NA SUA ESCALADA PARA A FAMA

Por: Arievaldo Vianna*

Negro, pobre, Nordestino (ou nortista, como se dizia na época) e semianalfabeto. Era esse o perfil de Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), que viria a ser aclamado Rei do Baião, depois de enfrentar toda sorte de afrontas e preconceitos. Forte, determinado, inteligente e obstinado, ele foi vencendo todas as barreiras que impediam a sua trajetória, se afirmando como gênio da música brasileira. Foi uma carreira cheia de percalços, de proibições, de afrontas que fariam com que muitos na sua condição desanimassem na metade do caminho. Mas o ‘Lua’ superou tudo isso com seu talento e também com a sua teimosia.
Fugido de casa em 1930, com 18 anos incompletos, devido o preconceito do pai de sua namorada, que não queria a filha branca namorando com um negro, Luiz Gonzaga sentou praça no 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza. Para tanto, teve que aumentar a idade a fim de ser aceito como recruta, sem a devida autorização de seus pais. No Exército ele percorreu vários Estados do Brasil. Depois de servir as Forças Armadas por uma década, deu baixa em 1940 e resolveu se apresentar no Mangue, zona boêmia do Rio de Janeiro, então Capital da República, passando um pires depois das apresentações para recolher donativos, com os quais tentava sobreviver modestamente. Morava na casa de outro músico, Xavier Pinheiro, que juntamente com Dina, sua esposa, se tornaria responsável pela criação do filho Gonzaguinha.
Luiz Gonzaga era um danado. Nunca foi acomodado. Tentou a sorte em vários programas de calouros, sendo “gongado” em alguns ou tirando notas medíocres noutros, sem jamais desistir de seu intento. Um grupo de estudantes cearenses pediu-lhe que deixasse de tocar valsas, polcas e tangos que costumava apresentar nas boates, para tocar a música regional do Nordeste, aquela melodia dos sambas de latada, dos pés-de-serra do sertão. A dica foi preciosa. Com “Vira e Mexe”, “Xamego” e “Pé-de-Serra”, três solos genuinamente sertanejos, conseguiu se projetar e acabou tirando nota máxima no programa de auditório do exigente Ary Barroso. Daí por diante o sucesso começou a lhe sorrir e o sanfoneiro do Araripe foi contratado pela RCA Victor, uma gravadora multinacional responsável pelo lançamento de grandes nomes como Orlando Silva e Nélson Gonçalves.
Mas logo veio o diabo do preconceito. Os diretores da gravadora diziam que ele tinha “voz de taboca rachada” e o proibiam de cantar. Também foi proibido de cantar no rádio, a grande vitrine da época,  o que o levou a entregar suas composições a outros intérpretes, como Manezinho Araújo, o Rei da Embolada, e o conjunto Quatro Ases e Um Coringa, formado por jovens músicos do Ceará.  Foram eles os responsáveis pela primeira gravação de Baião, que teve um sucesso estrondoso. Na opinião dos entendidos, a voz de Luiz Gonzaga estava longe de corresponder aos padrões estéticos da época, em que predominavam os vozeirões de Vicente Celestino, Francisco Alves e Orlando Silva. Usando da sua astúcia habitual, Gonzaga blefou, dizendo que iria gravar na concorrente Odeon, usando o pseudônimo de Januário, nome de seu pai. Victório Lattari, diretor da RCA, acabou consentindo. Nessa época os discos 78 rpm traziam apenas duas gravações, uma em cada face. A condição era continuar gravando um ‘solo’ no lado A e uma composição cantada no lado B. Aos poucos Luiz Gonzaga foi agradando e conquistando uma legião de admiradores. O sucesso foi tão grande, que a sua cota de direitos autorais praticamente dobrou. O diretor balançava a cabeça e dizia:

“— Há gosto para tudo nesse mundo!”
Mas preconceito pior ainda estava por vir...  Foi um verdadeiro pandemônio quando ele tentou se apresentar no auditório da Rádio Nacional usando um chapéu e assessórios de couro na sua vestimenta, lembrando dois tipos característicos do Nordeste: o vaqueiro e o cangaceiro. Sua intenção era explicitar a sua condição de Nordestino, a exemplo do que fazia outro sanfoneiro, o gaúcho Pedro Raymundo, que entrava no palco trajando o chapelão, as bombachas e a cuia de chimarrão, traje típico do Sul do País. Floriano Faissal, diretor artístico da Rádio Nacional, ficou possesso quando o viu caracterizado daquela maneira e decretou:
“— Enquanto eu mandar nesta rádio, não permitirei que você apareça diante de nosso público vestido de bandido de Lampião”.
Em 1951, após dez anos de uma carreira sempre ascendente, apesar do sucesso e da fama que experimentava em todo o País, ainda teria de enfrentar outras agruras e humilhações ao longo de sua carreira. A pior delas aconteceu em São Paulo,  quando foi barrado na portaria da Rádio Gazeta, então conhecida como “a emissora da elite”, que não permitia a entrada de pretos em seu auditório.


Luiz Gonzaga, Marinês e Pedro Sertanejo, num forró em São Paulo.

Revista do Rádio, número 81 - março de 1951

(Acervo da Biblioteca Nacional)

Numa matéria intitulada “PRETO NÃO ENTRA – LUIZ GONZAGA TEVE SUA ENTRADA BARRADA NA PORTA DA RÁDIO GAZETA, DE SÃO PAULO”, a Revista do Rádio, edição de número 81, de 27 de março de 1951, lemos o seguinte:

“O assunto já havia sido tratado, e bem tratado, pelos nossos colegas paulistas de “Radar”: Luiz Gonzaga tivera sua entrada impedida nas dependências da Rádio Gazeta, capital bandeirante, semanas atrás, apenas porque era preto. Incrível que pareça, isso acontece em pleno Brasil, em plena capital de um dos nossos maiores Estados! E eis agora, dias passados, o acaso nos põe diante de Luiz Gonzaga, lá mesmo em São Paulo, no aeroporto. E ainda o acaso nos traz o assunto à baila.
— É isso mesmo, Luiz, que a Gazeta proibiu sua entrada no estúdio por ser você de cor?
E, atendendo o nosso pedido, para que nos detalhe o caso tal qual se passou, Luiz Gonzaga começou:
— Uma artista da Rádio Gazeta, aliás senhora de um amigo meu, convidou-me para assistir ao seu programa. Trata-se aliás de uma grande acordeonista e eu, por laços de amizade com o casal e também por apreciar imenso o acordeón, acedi ao convite. À hora marcada cheguei à porta de entrada da Rádio Gazeta. Veio o porteiro ao meu encontro e disse:
— O senhor não pode entrar.
— Mas... eu sou artista. Sou Luiz Gonzaga.
— Sem convite não entra!
— Mas onde apanhar um convite? Ou mesmo comprar?
— Com ninguém. Não tem mais.
— Percebi então, pois não sou tolo, (Luiz Gonzaga recomeça a palestra conosco) que não se tratava de convite, mas sim de preconceito de cor. Pedi ao porteiro que me deixasse entrar para falar com um diretor da rádio. Nada. Insisti. Nada ainda. Resolvi então entrar por minha conta e peguei o elevador. No primeiro andar, porém, ele e outros já me esperavam. E diante da minha insistência foram então sinceros e explicaram a razão pela qual eu não podia entrar. Questão de cor. Em outras palavras eles queriam dizer: PRETO NÃO ENTRA.
— E que fez você, Luiz Gonzaga?
— Mandei chamar o meu amigo, o esposo da artista que aliás já tinha até iniciado o programa.
— E tudo se resolveu?
— Ele foi ao diretor da Rádio Gazeta. Explicou quem eu era, um artista brasileiro, um intérprete da música nacional, um cantor, um compositor, um homem do Brasil, enfim! Pouco depois o caso estava resolvido. Consegui entrar, mas que luta!
— E o que você diz a isso, Luiz? Que acha você dessa atitude da Gazeta, tentando implantar o preconceito de cor em seus domínios.
— Prefiro não dizer nada. O que narrei foi o que se passou realmente. O público agora que tire as suas conclusões e que julgue como melhor entender.
E aí terminou a palestra sobre o assunto.”

Fiz questão de colocar em negrito essa última frase de Luiz Gonzaga para mostrar o quanto ele era sensato em relação a casos dessa natureza. Em vez de abrir as baterias contra a Rádio Gazeta ou mesmo xingar o porteiro que impediu, obstinadamente, o seu ingresso na emissora paulista, ele limitou-se a dizer que narrara apenas o fato do modo que acontecera e que o julgamento caberia ao público. Ora, a essa altura Luiz Gonzaga já era uma grande atração em São Paulo, para onde viajava toda semana, cantando às vezes na marquise da rádio, já que não havia espaço para a multidão que se comprimia nas ruas dentro do auditório da emissora. Curiosamente, foi nesse mesmo ano, 1951, que aconteceu o terrível acidente automobilístico, no qual o Rei do Baião e seus músicos Zequinha e Catamilho quase perderam a vida. Eles viajavam para São Paulo... Quanto ao preconceito contra preto e Nordestino, fica a pergunta: — Será que mudou alguma coisa de 1951 para cá???

* Autor dos livros “O Rei do Baião – do Nordeste para o mundo” (Editora Planeta, 2012) e “O be-a-bá do Sertão na voz de Gonzagão”, parceria com Arlene Holanda (Armazém da Cultura).

quarta-feira, 3 de abril de 2019

VACINA CONTRA A BESTEIRA


Arievaldo Vianna, caricatura de Válber

O VELHO FEBÊAPÁ



O amigo José Augusto Moita comentava hoje de manhã, nas redes sociais, que até para ser BESTA é preciso ter talento e preparo. Por mais besta que o cara seja, não é todo dia que está disposto a dizer sandices por aí. Conversei sobre o assunto com minha "CONGE" e ela me aconselhou a consultar a comadre LUZIA, esposa do CAMONGE.

Praticar a besteira dia após dia é uma arte... Somente o PALERMA, o PAPANGU, o PACÓVIO e o PASCÁCIO de berço é que podem exercitar essa curiosa arte de forma espontânea, natural e convincente. 

O mercado da BESTEIRA está alta, e disso não podemos nos queixar. Ultimamente, a besteira anda tão em moda que o saudoso Sérgio Porto, melhor dizendo, Stanislaw Ponte Preta, autor do FEBÊAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) teria um excesso de material tão grande que, certamente, teria uma estafa se tentasse compilar em livros tudo que se produz em matéria de ASNEIRA atualmente.



Há cerca de 15 anos, escrevi e publiquei um folheto chamado VACINA CONTRA A BESTEIRA, que, no meu entender, continua atualíssimo. Vejamos as estrofes a seguir. O texto integral será republicado brevemente pela RINARÉ EDITORA.

“VACINA CONTRA A BESTEIRA”

Stanislaw Ponte Preta,
Grande cronista, nos diz:
O que atrasa o Brasil
Tornando o povo infeliz
É o Festival de Besteira
Que assola o nosso país.


Formiga acaba uma roça
Neblina acaba uma feira
A bomba atômica arrasou
Uma metrópole inteira
No Brasil não há quem possa
Dar vencimento à besteira...

A besteira tem crescido
Numa escala de milhão
Do Oiapoque ao Chauí
A besteira é o refrão
Tomou conta de jornal
De rádio e televisão.


A besteira é um veneno
Pior que a estriquinina
Curar doença tão grave
Desafia a medicina
Na cultura popular
Talvez se ache a vacina.

A defesa da cultura
É uma necessidade
Para que o nosso povo
Não perca a identidade
Se afirme como nação
A atinja a prosperidade.

Somente valorizando
A popular tradição
O reisado, a cantoria.
Xote, xaxado e baião.
Pode-se achar um caminho
No rumo da salvação.

O folheto de cordel
O coco de embolada
A nossa xilogravura
Que na madeira é talhada
Também são ingredientes
Dessa vacina sagrada.

O teatro de Ariano
A música de Gonzagão
Xaxado e outras cantigas
Dos cabras de Lampião
Podem curar a besteira
Que assola nossa nação.

O trovador do Rio Grande
Com sua gaita fagueira
Cavalhadas de Goiás
E uma ciranda praieira
São remédios eficazes
Para se curar a besteira.

O frevo, o maracatu.
E o samba de raiz
São reflexos da cultura
De um povo bom e feliz
Basta beber dessa fonte
E zelar essa matriz.

O calango, o tatu-bola.
E a embolada mineira
As estórias encantadas
Dos folhetinhos de feira
São excelentes vacinas
Pra se curar a besteira.

A cultura popular
Não tem contra-indicação
Contém nacionalismo
E doses de tradição
Tem vários ingredientes
Que vitalizam a nação.

Pois esse lixo enlatado
Da cultura ocidental
Que nós somos obrigados
Consumir, por bem ou mal.
Só pode ser combatido
Se usarmos nosso arsenal.

Uma bomba de forró
Do legítimo “pé-de-serra”
Um torpedo de repente
Faz estremecer a terra
Vamos usar a cultura
Para vencer essa guerra.

Dominar, esse é o lema.
Dos povos conquistadores
Escravizar os mais fracos
Subtrair seus valores...
Negar a nossa cultura
É a marca dos opressores.

Neste século vinte e um
A besteira anda a mil
E reina de ponta a ponta
Sob um céu azul anil;
Educação e cultura
Podem salvar o Brasil...

(...)



quarta-feira, 27 de março de 2019

UM CABRA DE LAMPIÃO



O irreverente ZUCA IDELFONSO, personagem do livro O BAÚ DA GAIATICE

A HERANÇA DO PARAÍBA
(É feio, mas é bom...)


Há cerca de 15 anos eu realizava uma pesquisa sobre o anedotário dos sertões de Canindé e Quixeramobim, em especial da nossa família, para dar sequência ao trabalho iniciado no livro O Baú da Gaiatice, que tivera ótima aceitação junto ao público.
Foi aí que o tio José Bruno Vianna me contou a curiosa história do caboclo Chico Paraíba e de umas glosas feitas pelo Zuca Idelfonso, após a morte do sujeito, tratando de suposta herança deixada por ele. Chico Paraíba foi um andarilho, um camarada do oco do mundo que apareceu em meados da década de 1920 na Fazenda Cacimbinha puxando apenas uma corda... a cachorra havia morrido de fome no caminho. Como se não bastasse, vinha doente de sezão, impossibilitado de trabalhar, porém conseguiu pousada na casa de meu bisavô Olympio Vianna, onde se restabeleceu e mostrou ser homem disposto e trabalhador. Ontem, dia 25 de março de 2019, fui novamente à terra de meus antepassados com o objetivo de entrevistar meu tio Luiz Gonzaga Vianna (Tio Liu) já nonagenário, porém com a memória em perfeito estado e a dicção impecável. Ele é um verdadeiro guardião da história de nossa família e dentre os assuntos abordados na entrevista, veio à baila o curioso episódio do Chico Paraíba.
Aliás, não foi bem uma entrevista, mas uma conversa descontraída entre parentes, onde puxei pela memória do meu interlocutor, relembrando assuntos dos quais ele foi testemunha ou soube através de informações colhidas junto aos antigos.


Casa da Cacimbinha, construída por meu bisavô Olympio Vianna


Várzea do Riacho Cacimbinhas


Com minha mãe Hathane e meu tio-avô Luiz Gonzaga Vianna

Parte desse relato encontra-se no livro Mala da Cobra – Almanaque Popular, obra que ainda permanece inédita, apesar de ter sido escrita em 2003. Na época eu escrevi esse texto intitulado A herança do Paraíba (É feio, mas é bom), do qual apresento alguns trechos:

Segundo o relato do tio José Bruno, Chico Paraíba era trabalhador e extremamente usurário, um pirangueiro de peso e medida, portanto não lhe foi difícil amealhar alguns cobres depois de alguns meses de extenuante trabalho. O caboclo aplicava suas economias comprando cabeças de gado e jumentos que criava nas capoeiras do Pai Vianna, seu protetor. Trabalhou noutras fazendas da região, tangeu comboios no rumo da serra do Baturité e, ao cabo de alguns anos, já era possuidor de 14 cabeças de gado, um lote de jumentos e um capital avaliado em mais de três contos de réis.
Mas não há bem que sempre dure... Mal alimentado, já que não usufruía de seus haveres da maneira devida, constantemente exposto ao sol e à chuva, acabou contraindo uma infecção intestinal, uma fraqueza crônica ou outra moléstia mais grave que lhe desfigurou o corpo e consumiu-lhe as forças. Tocado pela mão negra do destino, resolveu procurar abrigo na casa de seu antigo patrão, o velho Olímpio Viana, proprietário da Fazenda Cacimbinha. Segundo o Tio Liu, as mazelas do Paraíba podem ter se agravado pelo fato dele não gostar de tomar banho. Ele exalava forte mau-cheiro e o suor não saía direito porque os poros estavam tapados pela sujeira.
 “Pai” Viana o tratou com benevolência e a caridade digna de um verdadeiro cristão, fornecendo-lhe um quartinho isolado na casa velha para abrigar-se e uma pessoa para tratar de sua doença, que todos julgavam ser contagiosa. Quem cuidava do enfermo era o Antônio Bento, evitando que morresse à míngua, sem alguém que pelo menos lhe fizesse um chá ou lhe pusesse uma vela acesa nas mãos.
O Paraíba possuía um verdadeiro “putufu” de dinheiro nos dois bolsos da calça, pois havia passado o seu rebanho bovino nos cobres, ficando apenas com alguns jumentos. Não se apartava de suas economias por nada. Dormia agarrado com os bolsos. Um dia, sentindo que ia morrer, chamou ‘seu’ Vianna e pediu-lhe que liquidasse algumas contas pendentes, mandasse celebrar algumas missas em intenção de sua alma e fizesse bom proveito do dinheiro que sobrasse. O Paraíba morreu, as missas foram celebradas, as dívidas foram pagas e uma parte do dinheiro foi convertida em esmolas.  Viana não queria ficar com aquele dinheiro impregnado do suor do moribundo e ganho a duras penas. Resolveu levar o restante para o Dr. Josias, Juiz de Quixeramobim, para dar o destino que melhor aprouvesse à Justiça. Nesta dita viagem, levou o seu genro Caboclo Vianna, para casar no civil com a minha avó Aurinha, e trouxe umas sacas de cal para caiar o oitão da casa.

Foi o bastante para o maledicente Zuca Idelfonso, falador por natureza, poeta ocasional, aproveitar o ensejo para fazer o “testamento” do falecido Chico Paraíba, dizendo quem havia lucrado com os bens por ele deixados. Quem já leu O Baú da Gaiatice sabe que o personagem em questão tinha um modo peculiar de falar, trocando algumas letras. Eis alguns trechos do irreverente poema:

REFRÃO:
É xeio, mas é bom
Deixe quem quigé falar...

— A herança do Paraíba
Causou grande rejultado
“Giana” pintou a casa
Caboclo xaiu cajado,
E até o Chico Lobo
Que era xeu axilhado (afilhado)
Entrou no xeu testamento
Ganhou um par de calxado:
Uma chinela de pneu
Com o calcanhar furado...
É xeio, mas é bom,
Deixe quem quigé falá!

Os chinelos deixados pelo finado Paraíba eram de pneu, com buracos em forma de meia lua no calcanhar e outros profundos sulcos no local dos dedos. Zé Viana assegurava que na marca do dedão cabia um ovo de capota.



Lampião - desenho de Arievaldo (Direitos Reservados)


A CONFISSÃO DO PARAÍBA
(EX-CABRA DE LAMPIÃO)


Agora vamos à parte mais interessante da história, que foi confirmada por tio Luiz Gonzaga na entrevista gravada na manhã de ontem (25/03). Apesar de ter vivido nos sertões cearenses por mais de dez anos, pouco se sabia sobre a origem do caboclo, que não gostava de falar do seu passado. Também nunca apareceu parente nem aderente do mesmo. Quando estava às portas da morte, meu bisavô Olympio, que era muito religioso, mandou um portador a cavalo no Quixeramobim buscar o padre Jaime Felício, vigário da paróquia, para confessar o moribundo.
Chico Paraíba nunca havia se confessado, em toda a sua existência, mas sentindo a aproximação da morte consentiu em ser ouvido em confissão pelo dito sacerdote. Apontando o local onde o padre se sentara, após a confissão, tio Liu me repetiu o que já fora dito anteriormente pelo Zé Vianna:
“— O padre Jaime disse ao papai que o Paraíba teria um fim de vida bem-aventurado, porque fora ouvido em confissão e se arrependera de seus pecados. E disse que o havia instruído para pedir bênçãos para todos da casa, quando chegasse no outro mundo. Foi então que o padre Jaime fez a grande revelação. Chico Paraíba confirmou, durante a confissão, o que já dissera a amigos mais chegados: havia pertencido ao bando de Lampião em determinado período da sua vida, e que resolvera viver incógnito nos sertões do Ceará, onde não seria perseguido por seus inimigos dos tempos do cangaço.”
Eu dou total credibilidade a essa história por dois fatores importantíssimos: primeiro, o relato do Tio Luiz Vianna não destoa em nada do que me foi dito quinze anos antes por José Vianna, já falecido. Ambas as versões são de uma linearidade impressionante, nos menores detalhes. Em segundo lugar, devemos levar em consideração que o caboclo só fez essa revelação já às portas da morte, no momento de sua confissão. Foi um segredo confiado a um sacerdote. Certamente que o Padre Jaime não revelou outros detalhes da confissão, que deviam ser mantidos em segredo, segundo manda a Igreja, porém não viu mal nenhum em revelar ao protetor de Chico Paraíba a sua verdadeira origem. Cangaceiro, ex-cabra de Lampião, falecido em 1940 na fazenda Cacimbinha, o cabra do ôco do mundo só não levou este segredo para o túmulo devido a confissão que fez antes de receber a extrema unção.
Ao longo de sua atividade como chefe supremo do cangaço, Lampião recrutou centenas, talvez mais de um milheiro de cabras. Muitos morreram em combate, outros foram capturados pelas volantes. E, como em toda atividade guerreira, certamente também existiram os desertores. Cabras que fugiram durante uma refrega com os macacos e resolveram dar novo rumo às suas vidas, bem distantes do teatro da luta, onde ninguém soubesse de suas origens. Seria esse o caso do paraibano que morreu na Cacimbinha? Qual seria o seu codinome durante o período em que pertenceu ao bando do famoso Virgulino Ferreira da Silva?