quinta-feira, 19 de setembro de 2019

SONETO DE ANIVERSÁRIO




Cinquenta e dois anos! Tempo bastante
Para se aprender o que a vida ensina
Conter os impulsos da língua ferina
Descartar da roda sujeito tratante.

Desviar caminho de todo farsante
Procurar o ouro somente na mina
Se vir o perigo, dobrar a esquina,
Recebendo amor, seja bom amante.

Ser leal com todos que nos abençoam
Porque nessa vida, nossos dias voam...
Agradeço, então, o amor de vocês.

Pois a gratidão é a maior virtude
Desejo a todos mais paz e saúde
Para celebrarmos meus cinquenta e três!

Caucaia, 19 de setembro de 2019

terça-feira, 10 de setembro de 2019

SESQUICENTENÁRIO DO POETA


João Melchíades na capa da primeira edição de 
Cantadores e Poetas Populares, de F. Chagas Baptista (1929)

João Melchíades, o Cantor da Borborema

Por Bráulio Tavares
(Do blog Mundo Fantasmo)

O dia de 7 de setembro é aniversário de muita gente importante, como meus amigos-do-coração Roberto Coura e Jackson Agra, e de instituições fundamentais para o equilíbrio do Universo, como o Treze Futebol Clube, o glorioso Galo da Borborema.

Mas resolvi dedicar este artigo a um aniversariante não menos ilustre, embora pouco conhecido, que hoje completa o seu sesquicentenário de nascimento.

Nasceu em 7 de setembro de 1869, no município de Bananeiras (PB) o poeta que veio a ser chamado “O Cantor da Borborema”, João Melchíades Ferreira da Silva.

Acabei de passar os olhos no primeiro esboço da biografia do poeta que está sendo escrita pelo pesquisador Arievaldo Viana, de Fortaleza, o mesmo que biografou o “pai do cordel” Leandro Gomes de Barros, além do precursor “Santaninha”, cuja vida ele reconstituiu juntamente com Stélio Torquato.



Aqui, as respectivas referências:

Leandro:

Santaninha:

No seu trabalho bem documentado sobre João Melchíades, sob o título provisório de A Saga Aventurosa do Cantor da Borborema, Arievaldo destaca, entre outros, três elementos importantes para fazer dele um personagem único:

1) Lutou ainda muito jovem na Guerra de Canudos.

2) Escreveu o Romance do Pavão Misterioso.

3) Foi personagem de Ariano Suassuna no ciclo da Pedra do Reino.

Melchíades teve uma vida aventurosa: raptado por ciganos antes dos dez anos de idade, só foi resgatado pela família três anos depois. Aos dezoito anos, ainda na época da monarquia, entrou para o Exército, e em 1897, como integrante do 27º Batalhão de Infantaria das Forças Armadas, foi combater na Guerra de Canudos, onde quase perdeu a vida. Depois da guerra, foi promovido a Sargento-Mor.

Existem relatos entre seus descendentes de que ele teria voltado da guerra muito traumatizado pelos episódios de violência e crueldade que testemunhou, entre eles a visão dos cadáveres carbonizados de mães agarradas aos filhos. Em todo caso, participou da tomada das trincheiras dos jagunços ao longo das margens do rio Cocorobó, uma das batalhas mais sangrentas daquela guerra.

Melchíades casou-se em 1897 com Senhorinha Melchíades, com quem teve quatro filhos. Nessa época começou também a sua produção poética. Segundo Arievaldo Viana, a pesquisadora Ruth Brito Lemos Terra localizou um poema datado desse período.

Alguns dos folhetos mais conhecidos do poeta, que morreu em 1933, são A Guerra de Canudos, O Príncipe Roldão no Leão de Ouro, Estória do Valente Sertanejo Zé Garcia, Combate de José Colatino contra o Carranca do Piauí, História de Juvenal e Leopoldina, A Vitória dos Aliados: a Derrota da Alemanha e a Influenza Espanhola e outros.

Com relação ao célebre Romance do Pavão Misterioso, existe há muitas décadas dentro da historiografia do cordel uma polêmica acesa sobre quem seria o verdadeiro autor do folheto: José Camelo de Melo Rezende ou João Melchíades Ferreira da Silva.

Arievaldo Vianna colhe depoimentos de descendentes dos poetas e de outras fontes, e tenta pôr um pouco de ordem nesta discussão que repousa em grande parte nas opiniões de pessoas que dispõem apenas de relatos orais. Há pouca documentação impressa disponível.



Segundo Arievaldo,

...entre 1925 e 1929 circula a primeira edição impressa de O Pavão Misterioso, a qual vinha assinada por João Melchíades Ferreira da Silva. Alguns pesquisadores asseguram que já havia uma versão do poema, escrita anteriormente pelo paraibano José Camelo de Melo Resende. Esta versão supostamente “original”, no entanto, teria vindo a lume apenas sob a forma de cantoria, numa apresentação de Camelo Resende, não tendo sido publicada. Teria ocorrido então que João Melchíades, parceiro de Camelo Resende em algumas cantorias, memorizara a essência da narrativa, reescrevendo-a a seu modo.

Há indícios de que Camelo teria de fato criado a versão inicial do romance, mas Melchíades imprimiu primeiro a sua, de modo que cada um, possivelmente, achava-se com algum direito para reivindicar a primazia.

José Camelo não protestou de início porque foi esta uma fase turbulenta de sua vida; preso por ter recebido e passado adiante (inadvertidamente) algum dinheiro falso, ele levou anos para reequilibrar sua vida. E nesse processo revoltou-se contra a publicação do folheto de Melchíades, afirmando, ao publicar sua própria versão:

Quem quiser ficar ciente
da história do Pavão
leia agora este romance
com calma e muita atenção
e verá que essa história
é minha, e de outro não!

Há muitos anos versei
esta história, e muitos dias,
fiz uso d’ela sozinho
em diversas cantorias
depois dei a cópia dela
ao cantor Romano Elias.

O cantor Romano Elias
mostrou-a a um camarada,
a João Melchíades Ferreira
e este fez-me a cilada
de publicá-la, porém,
está toda adulterada.

De fato existem diferenças textuais entre as versões dos dois autores, bem como semelhanças, que o livro de Arievaldo estuda de maneira mais minuciosa.

João Melchíades tem a honra de ser um dos poucos personagens “da vida real” que figuram no Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna (ele e o poeta-charadista Euclides Vilar). No livro, ele é o mestre poético do protagonista Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, e aparece em momentos-chave da narrativa.

O maior destaque dado a Melchíades, contudo, é numa das sequências do romance, As Infâncias de Quaderna, publicado em folhetins no Diário de Pernambuco entre 1976 e 1977, e ainda inédito em livro.

É nesta última obra que João Melchíades é visto por Quaderna pela primeira vez, no Folheto XLIII, ”A Casa do Matagal e a Chave Enferrujada”.

Quaderna tinha sido raptado por ciganos (tal como ocorreu com Melchíades na vida real) e é resgatado pelo cangaceiro Antonio Silvino, que o traz de volta para a casa de sua família. O garoto está passeando pela fazenda com seu primo Arésio Garcia-Barreto e os dois se encontram com o poeta, que reconhece Quaderna, de quem é primo distante. E passa a transmitir a este, pela primeira vez, a história da família de ambos!

João Melchíades começou a infeccionar meu sangue com aquela turva história de assassinatos sobre aras e pedras, tesouros, encantações, combates, coroas, elevação e trucidamento de Reis, violações de Princesas, incêndios, degola dos inocentes e outras coisas gloriosas e monárquicas.


Diante do menino maravilhado com tantas façanhas nobres, Melchíades continua:

– Os turcos inventaram que tinham matado O Rei Dom Sebastião, na África, mas é mentira. Ele veio para cá, numa Nau, entre nevoeiros, e depois um filho dele veio morar no Pilar, e o neto em Boqueirão de Cabaceiras, junto com o Teodósio, o Imperador Teodósio – Teodósio de Oliveira Ledo de nome. (...)

Veio a Guerra dos Quebra-Quilos em 1874: foi aí que, na estrada de Campina Grande aqui para Taperoá, degolaram seu Avô, meu tio, Pedro Alexandre. A mulher dele, Bruna, tia minha e Avó sua, pegou a cabeça cortada dele e veio para cá, pedir morada e proteção a seu outro Avô, o Barão do Cariri. (...) Bruna, que era filha do Padre Wanderley, mandou botar na salmoura a cabeça do marido dela, Pedro Alexandre, para ela não apodrecer.

É esse o mestre que injeta na imaginação fogosa de Quaderna uma boa parte dos delírios que futuramente irão desencadear os prodígios, os crimes bárbaros e as convulsões sociais do Romance da Pedra do Reino. Seu uso como personagem de ficção por Ariano mostra a importância deste poeta de verdade cujo sesquicentenário de nascimento celebramos hoje, 7 de setembro de 2019, quando o Brasil mostra que não mudou nada, nadinha.


O poeta, escritor, compositor e dramaturgo paraibano Bráulio Tavares



Fonte: http://mundofantasmo.blogspot.com/2019/09/4501-joao-melchiades-o-cantor-da.html


VISITE TAMBÉM: http://acordacordel.blogspot.com/2019/09/homenagem.html

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

HOMENAGEM


Arte: Arievaldo Vianna

7 de setembro de 2019:
SESQUICENTENÁRIO DE JOÃO MELCHIADES FERREIRA DA SILVA, O CANTOR DA BORBOREMA



HÁ EXATOS 150 ANOS, no dia 7 de setembro de 1869, nascia mais um patriota no município de Bananeiras-PB: o menino João Melchíades Ferreira da Silva, que se auto-intitularia, no futuro, O Cantor da Borborema. No folheto "Os homens da cordilheira" (há um exemplar catalogado nos Fundos Villa Lobos, organizado por Mário de Andrade), João Melchíades diz que seu avô materno, o beato Antônio Simão, construiu uma igreja na serra, a pedido do padre Ibiapina. Ele teria fundado também uma escola para educar crianças, onde o próprio Melchíades aprendeu as primeiras letras. No terrível triênio de seca que foi de 1877 a 1879, já órfão de pai e criado sob a tutela desse avô, o menino João Melchíades foi raptado por um grupo de ciganos. Dizem que ele teria se encantado pela música e resolveu acompanhá-los. Sua mãe só foi resgatá-lo de volta cerca de dois anos depois.

De espírito inquieto e aventureiro, sua sina era correr o mundo. Aos 18 anos sentou praça no Exército, ainda na Monarquia. Em 1897 João Melchíades, integrante do 27º Batalhão de Infantaria das Forças Armadas, foi convocado para combater na Guerra de Canudos, onde quase perdeu a vida. Após a guerra, foi promovido a Sargento-Mor. Lembranças familiares, recolhidas num velho manuscrito por sua neta Lela Melchíades, a partir dos relatos de sua avó Senhorinha, informam que ele voltou traumatizado da Guerra e não gostava de tocar no assunto. Ficou muito chocado ao ver os cadáveres de mães carbonizados e abraçadas aos filhinhos, naquilo que Euclides da Cunha batizou de "a nossa Vendeia" ou "Troia sertaneja". Ele participou ativamente da tomada das trincheiras às margens do rio Cocorobó, uma das refregas mais sangrentas daquela luta fratricida.

Informa a pesquisadora Ruth Brito Lêmos Terra que a atividade poética de Melchíades é anterior a 1898. Ela baseia-se no poema "Melchíades escreve a Cícero de Brito Galvão, no Rio de Janeiro, sobre a açudagem do Seridó", onde o poeta faz referência a um açude de propriedade do cangaceiro Silvino Ayres, mentor de Antônio Silvino. O ano de 1898 foi o mesmo em que Silvino Ayres foi preso e, por conta disso, sucedido por seu êmulo no comando do cangaço.


Folheto raro de Melchíades 
(in Fundos Villa-Lobos, Coleção Mário de Andrade)


Folheto raro de Melchíades (in Fonds Raymond Cantel)


Em 1903, João Melchíades foi designado para combater na fronteira do Acre com a Bolívia, onde contraiu a febre béri-béri, que quase o vitimou. Nesse período, o poeta andava na companhia do cantador Joaquim Jaqueira e chegou a fazer apresentações em Manaus e em Belém do Pará, ao som da viola. No ano seguinte, segundo apurou o pesquisador baiano José Calasans, Melchíades resolveu publicar, em cordel, suas memórias sobre Canudos. É possível que tenha sido escrito ainda no século XIX, após o término da guerra. Sua visão é alinhada com a propaganda difamatória que se fazia contra o beato Antônio Conselheiro, por meio de libelos divulgados na imprensa, sob a orientação do Ministério da Guerra. Mas nem por isso ele deixa de reconhecer a bravura dos conselheiristas em estrofes antológicas como esta:

"Escapa, escapa, soldado
Quem tiver perna que corra
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra
Há de nascer duas vezes
Quem sair desta gangorra".


Na opinião de Calasans, Melchíades era poeta de reconhecida capacidade, como podemos comprovar nesses versos que consignam um instante dramático da fuga dos soldados da terceira expedição. Na década de 1970, a pesquisadora Ruth Terra entrevistou uma filha do poeta, Santina, e teve acesso a uma carta de 1914, dirigida à sua esposa, Senhorinha (mãe de seus quatro filhos), falando sobre o folheto do Matador de Onças ("História do Capitão Cazuza Sátyro"). Nessa correspondência, o poeta fala também de outras obras e de seus filhos. O pesquisador Mário de Andrade considerou esse poema excelente ("Cazuza Sátyro, o Matador de Onças") e anotou isso, de próprio punho, num exemplar que se encontra na coleção dos Fundos Villa-Lobos. Diz Mário de Andrade: "Estupendo! Não porque esteja feito com espírito, mas pelo interesse extraordinário de quanto conta pelo realismo, às vezes duma firmeza homérica, com que conta. É admirável e vale mais que qualquer espírito".

Outro folheto muito elogiado, que tornou-se um dos maiores clássicos da chamada Literatura de Cordel é a "História do Valente Sertanejo Zé Garcia", assim avaliado por mestre Câmara Cascudo, em seu "Vaqueiros e Cantadores": "Retrata deliciosamente o sertão de outrora, com as pegas de barbatão, escolhas de cavalos para montar, rapto de moças, assaltos de cangaceiros, chefes onipotentes e vaqueiros afoitos, cantadores famosos e passagens românticas. Pertence bem ao ciclo social que terminou no século XX e que durara até o século XIX".


Versão infanto-juvenil, releitura de Arievaldo Vianna e Jô Oliveira


O PAVÃO MISTERIOSO

Entre 1925 e 1929, circula a primeira edição impressa do folheto "O Pavão Misterioso", assinada por João Melchíades Ferreira da Silva. Alguns pesquisadores asseguram que já havia uma versão do poema, escrita anteriormente pelo paraibano José Camelo de Melo Rezende (1885 - 1964) mas que ainda não fora publicada, mas cantada ao vivo. José Camelo era um autor imaginoso e brilhante, de grandes recursos poéticos. Ao que parece, a polêmica em torno da autoria só ganhou repercussão após a morte de Melchíades, em 1933. Depois que o folheto se consolidou como um estrondoso sucesso, tornou-se objeto de cobiça de vários editores, que incitavam a polêmica para facilitar a sua publicação sem pagar direitos autorais a nenhum dos dois poetas.

Segundo Átila de Almeida e José Alves Sobrinho, autores do Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, nesse período, José Camelo vinha sofrendo perseguições e havia se afastado da Paraíba e se refugiado no Rio Grande do Norte. Essa situação nunca foi devidamente esclarecida. Aroldo Camelo de Melo, sobrinho do poeta, assegura que ele estava preso, em João Pessoa, por causa de dinheiro falso que recebera de um editor no Recife (PE). O pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira-PB, encontrou cópia de um folheto escrito e publicado por José Camelo narrando esse episódio do dinheiro falso, dos seus percalços perante à Justiça e de como conseguiu se livrar da acusação. Vale ressaltar que o mais importante editor de cordel da época, atuando no Recife-PE, era ninguém menos que João Martins de Athayde, com quem José Camelo mantinha negócios. Entretanto, no folheto intitulado "A prisão e soltura de José Camelo" o poeta afirma que recebeu as cédulas falsas de um rapaz que lhe comprou quatrocentos folhetos para revenda. O mesmo rapaz apareceu à noite na cantoria que realizava em companhia de um colega. Parecendo cortês e generoso, colocou uma cédula graúda na bandeja e pegou outras menores, verdadeiras, como troco. O caso do dinheiro falso veio a ser descoberto por um policial, a quem um amigo do poeta comprara um carneiro gordo com uma das cédulas recebidas na dita cantoria. Daí em diante começa o seu calvário, a fim de provar a sua inocência. É um caso que precisa ser melhor apurado, já que chegou aos tribunais da Justiça paraibana.


Em seus livros, a pesquisadora Ruth Terra apresenta uma lista completa (ou quase) de todos os poetas populares que haviam publicado folhetos entre 1898 e 1930. Na Casa de Rui Barbosa e outras coleções pesquisadas pela autora, aparecem diversos folhetos de João Melchíades, mas nenhum de José Camelo, até o ano de 1930.

Segundo o testemunho do poeta Antônio Ferreira da Cruz, que escreveu um folheto intitulado "A morte de João Melchíades - O Cantor da Borborema", publicado pela tipografia da Popular Editora, de João Pessoa, Melchíades era uma espécie de "professor de cantoria" e tinha muitos discípulos. Um de seus parceiros era justamente o cantador José Camelo de Melo, com quem viajava fazendo apresentações. Aroldo Camelo informa que, durante uma dessas apresentações, a questão da autoria do "Pavão Misterioso" veio à baila, mas em clima amistoso. Camelo terminou uma estrofe dizendo: "O pavão tem duas asas / pode voar com nós dois". Melchíades respondeu com outra estrofe, no mesmo tom. Eis o que diz Antônio Ferreira da Cruz, na página 4 do folheto já mencionado, falando inicialmente de uma polêmica (poética) que Melchíades (católico fervoroso) mantinha com os evangélicos:

"Era um cantor educado
Na regra de divertir
Não bebia, não jogava,
Nem gostava de mentir;
Com qualquer pastor da crença
Gostava de discutir.

Em toda zona brejeira
Mostrava bem seu emblema
Era muito conhecido
Por Cantor da Borborema
Desde o Pico do Jabre
Ao Boqueirão da Jurema.

Ensinou muitos cantores,
Era um escritor de fé
Andou com José Camelo
Ensinou Antônio Thomé
Ensinou José Thomás
Lecionou Josué

Em toda escala de versos
Ele sabia cantar
Ensinou a cantador
Que não sabia falar
Ainda que alguém lhe desse
A paga de o difamar".

No romance "A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta", de Ariano Suassuna, João Melchíades Ferreira aparece como padrinho de crisma e mestre de cantoria de Quaderna e de seu parceiro Lino Pedra Verde. Pelo visto, mestre Ariano tinha ciência dessa atividade de Melchíades. Nas "Infâncias de Quaderna" o personagem criado por Ariano também é raptado por ciganos, como de fato ocorreu com João Melchíades, quando criança.
A saga do Cantor da Borborema virou livro, uma biografia escrita por Arievaldo Vianna, incluindo um estudo crítico da obra, com colaboração do professor Stélio Torquato Lima e prefácio de Bráulio Tavares. Importante ressaltar também a colaboração do pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira, que levantou fotos, documentos e folhetos raros em Campina Grande, João Pessoa e na região do Brejo Paraibano, área de maior atuação do poeta.
Depois de realizarmos uma cuidadosa pesquisa, entrevistando familiares, colhendo documentos em cartórios e livros paroquiais, elaboramos um texto enxuto porém fartamente documentado, a fim de contar a sua história sem acirrar, ainda mais, essa polêmica infrutífera que ainda hoje norteia os voos do Pavão Misterioso.

ARIEVALDO VIANNA


5ª Edição de Historia do Valente Sertanejo Zé Garcia,
de 1926, edição feita ainda em vida do autor, por F. C. Batista & Irmão.
(Coleção Mário de Andrade)





quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A VISITA DA MORTE




O HOMEM QUE QUERIA ENGANAR A MORTE
Um cordel de ARIEVALDO VIANNA

Diz um antigo provérbio
Que a morte ninguém desvia
Até mesmo Salomão
Com sua sabedoria
Quis mudar o seu destino
Mas o desígnio divino
Tal coisa não consentia.

Tentar mudar o destino
Que nos traça o Soberano
Mostrou-se, através dos tempos,
O mais lamentável engano
Todo homem, quando nasce
A Morte grava-lhe a face
Com a marca do desengano.

Ceifar da face da terra
Todo e qualquer ser vivente
É esta a sua missão
Imutável, permanente,
Tentar enganar a Morte
É pelejar contra a sorte
Numa luta inconseqüente.

Manter gelo no sol quente
Sem ter refrigerador
É querer guardar dinheiro
Depois que perde o valor;
Renegar o Evangelho,
Viajar num carro velho
Depois que bate o motor.

Num pequeno vilarejo
Encravado no agreste
Residia um potentado
O mais rico do Nordeste
Fazendeiro respeitado
Dono de ouro e de gado
Sovina que só a peste.

Construiu bela mansão
Bem na rua principal
Mandou cercá-la de grades
Botou um guarda leal;
Entretanto, bem pertinho
Residia um pobrezinho
Numa miséria total.

Era um casebre de taipa
De palha e zinco coberto
Em um terreno baldio
Que antes era deserto
E o coitado ali vivia
Porque o dono consentia
Ou não sabia, decerto...

(...)



Lá na mansão do ricaço
Uma bela placa havia
Dizendo o nome da rua
“Desembargador Garcia”
O número vinha depois:
Seiscentos e vinte e dois
Na mesma placa se lia.

Era uma placa dourada
Toda em metal niquelado
Os números de outra cor
Feitos de bronze cromado;
Agora vamos saber
Que placa podia haver
No casebre do outro lado.

Num pequeno compensado
Ou talvez num papelão
O pobre havia botado
Um texto feito a carvão
“Seiscentos e vinte três”
Agora vejam vocês
O deus Destino em ação...

Certo dia o rico andava
Nas ruas da capital
Quando uma velha cigana
Revela seu mapa astral:
- Nos corredores da sorte
Eu vejo a face da morte
Numa sentença fatal.

Dizia a velha: — Estou vendo
(Pois já se aproxima o dia)
A morte andando na rua
“Desembargador Garcia”
E numa bela morada
Que tem a placa dourada
Vejo prantos de agonia.

O rico impressionado
Com os pés cravados no chão
Viu na bola de cristal
Reflexos de uma mansão
Idêntica à que residia
E a dita placa onde lia
O número com perfeição.

Viu uma mulher chegar
Montando um negro corcel
Consultando um velho livro
Cessou então o tropel
Do seu cavalo e parou
A dita placa mirou
E anotou num papel.

O rico saiu dali
Bastante impressionado
As palavras da cigana
O deixaram perturbado,
Dia e noite lamentava
Porque já se aproximava
A triste data marcada.

(...)

sábado, 31 de agosto de 2019

CENTENÁRIO DE JACKSON




Correios lançam selo em homenagem ao centenário de Jackson do Pandeiro



Apresentação oficial do selo ocorreu no dia 25 de maio, no Memorial Jackson do Pandeiro, em Alagoa Grande

O centenário de nascimento do cantor e compositor Jackson do Pandeiro inspirou a criação de um selo comemorativo pelos Correios e Telégrafos. O ‘rei do ritmo’, como é conhecido o paraibano, nasceu em 31 de agosto de 1919 na cidade de Alagoa Grande, no Brejo paraibano, a 103 quilômetros de João Pessoa.
Jackson, que tinha como nome de batismo José Gomes Filho, passou boa parte da vida na cidade de Campina Grande. A motivação para a arte nasceu da admiração pelo trabalho da mãe, que cantava coco, com quem ele começou a tocar aos sete anos.
O artista trabalhou em várias rádios em Campina Grande, João Pessoa e Recife. No momento em que foi para Pernambuco, passou a receber a atenção da mídia e ficou conhecido como o homem orquestra pelo domínio da percussão. O estouro do talento do paraibano aconteceu quando ele gravou o sucesso ‘Sebastiana’ na década de 1950.

Jackson morreu em 10 de julho de 1982, em Brasília, quando tinha 62 anos de idade. Ele brilhou no forró e também no samba.

A apresentação oficial do selo aconteceu no dia 25 de maio, no Memorial Jackson do Pandeiro, em Alagoa Grande, com a presença de representantes dos Correios, dos criadores do selo, autoridades, além de convidados e da população em geral.


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

IMAGENS DA BIENAL

Participamos da XIII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO CEARÁ, um dos maiores eventos literários do país. Mais uma vez, o destaque ficou por conta da PRAÇA DO CORDEL, o recanto mais animado da feira. Seguem algumas imagens do evento, para os leitores do blog ACORDA CORDEL que lá estiveram ou não puderam se fazer presentes:


Com Maílson Furtado Viana


Com Paola Torres

 

Com Luciano Dídimo, no lançamento de 100 SONETOS DE 100 POETAS


Lançamento de Klévisson e Arlene Holanda


Lançamento de OS MILAGRES DE ANTÔNIO CONSELHEIRO
com Manoel Severo Barbosa e Bruno Paulino


Com meu querido amigo Jáder Soares - o Zebrinha


Turma boa do Cordel


Meu pai, Evaldo Lima, declamando na Praça do Cordel ao lado de Bule-Bule


Stand da Editora IMEPH


Com meu caçulinha João Miguel


Com Fabiano Piúba, Camilo Santana, Klévisson Viana e 
meu sobrinho Khalil Antônio.





quarta-feira, 21 de agosto de 2019

CORDELTECA DA UNIFOR


Poesia, música e cantoria marcam a inauguração da Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel

Equipamento reúne mais de 2 mil folhetos e é o primeiro do Brasil a catalogar obras de literatura de cordel


A Cordelteca funciona de segunda a sexta-feira, de 8h30 às 17h e sábados de 8h às 13h. Foto: Ares Soares.

Ao som dos acordes de Pavão Misterioso, do cantor cearense Ednardo, e da poética rimada do cordel, a Fundação Edson Queiroz inaugurou na manhã desta terça-feira, 20 de agosto, a Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel, a primeira do Brasil a reunir obras de literatura de cordel devidamente catalogadas. O novo equipamento, situado no 1º andar da Biblioteca Central da Unifor, tem acervo de mais de 2 mil títulos, instrumentos musicais e xilogravuras e homenageia a primeira mulher a publicar um folheto de cordel no Brasil, em 1938.


A professora Paola Torres foi a idealizadora da Cordelteca (Foto: Unifor)

A cerimônia de lançamento, realizada no auditório da Biblioteca Central, contou com a presença da presidente e da vice-presidente da Fundação Edson Queiroz, respectivamente, Lenise Queiroz Rocha e Manoela Queiroz Bacelar, do chanceler Edson Queiroz Neto, da reitora Fátima Veras, de vice-reitores, dos secretários de Cultura do Ceará e do Rio Grande do Norte e da idealizadora da cordelteca, a professora do curso de Medicina Paola Tôrres, além de professores, alunos, cordelistas e de familiares da homenageada, entre os quais a filha Alzinete Pimentel.


Ao centro, Alzinete Pimentel, filha da homenageada (Foto: Unifor)


Lenise Queiroz Rocha, presidente da Fundação Edson Queiroz, destacou em seu discurso o cordel como expressão literária da região Nordeste e o papel de Maria das Neves que, mesmo em uma época marcada pelo pelo machismo e preconceito soube expressar sua arte e criatividade. “A inauguração da cordelteca é mais um passo para legitimar a literatura de cordel que, em 2018, foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil. E ao escolhermos o nome de Maria das Neves, queremos ressaltar a importância de celebrarmos a pluralidade, premissa básica na cultura, na preservação da história e de nossas potencialidades enquanto povo”, pontuou.

O secretário de Cultura do Ceará, Fabiano Piúba, declarou que a literatura de cordel é o cordão umbilical do povo nordestino, por meio do qual o ritmo, a melodia e a métrica contribuem para divulgar o amplo repertório cultural da região. E elogiou a Fundação Edson Queiroz por abrigar a cordelteca. “O acervo literário agora instalado na Unifor é uma referência de pesquisa não só para o Ceará mas para todo o Brasil”, destacou. O secretário de Cultura do Rio Grande do Norte, cordelista Joaquim Crispiniano Neto, também enalteceu a iniciativa da Fundação Edson Queiroz ao “abraçar a ideia de criação da cordelteca, por tudo o que ela representa de defesa da literatura de cordel”.

Em seu discurso, o pesquisador Bráulio Tavares lembrou frase do escritor Ariano Suassuna. “Segundo Ariano, existem o Brasil real e o Brasil oficial, e claro está que a literatura de cordel retrata o nosso Brasil real, de uma forma poética e bela”. Bráulio ressaltou ainda que os cordelistas são os únicos poetas a viver única e exclusivamente de poesia, daí necessitarem de apoio e de divulgação. “Os grandes poetas brasileiros nunca viveram de poesia, afinal, eram diplomatas, advogados ou médicos. Já os cordelistas dependem de seus cordéis para sobreviver”, salientou.

Em nome de Maria das Neves, a filha Alzinete Pimentel agradeceu a iniciativa da Fundação Edson Queiroz, acrescentando que a família ficou bastante lisonjeada com a homenagem. “Nossa família tem mais de 30 poetas, mas certamente minha mãe teve papel de destaque por ser autodidata e por ser a primeira mulher a usar o cordel para se expressar numa época marcada pelo machismo, mesmo que sob o pseudônimo masculino de Altino Alagoano”, afirmou.

Ao final dos discursos, houve apresentação musical de Paola Tôrres e da cantora paraibana Renata Arruda, que cantaram Pavão Misterioso e uma música de autoria da dupla. Em seguida, os presentes se dirigiram até a cordelteca e puderam conferir declamação de cordelistas e cantorias.


Maria das Neves Baptista Pimentel

Paraibana e cordelista, Maria das Neves Baptista Pimentel foi a primeira mulher a publicar um folheto de cordel. Seu amor pela literatura de cordel foi herdada de seu pai, que era poeta e editor de uma livraria e uma tipografia. “O violino do diabo ou o valor da honestidade” foi o título de sua primeira obra, publicada e vendida na livraria de seu pai, em 1938.
A cordelista teve que usar o pseudônimo Altino Alagoano, formado pelo nome de seu falecido marido e o estado onde ele havia nascido. A época patriarcal não era favorável às mulheres, que enfrentaram preconceitos de gênero. Somente nos anos 1970 foi possível a publicação de folhetos de cordelistas mulheres.

Serviço
Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel
1º piso da Biblioteca Central da Unifor
Funcionamento: Segunda a sexta-feira de 8h30 às 17h e sábados de 8h às 13h
Aberta ao público
Mais informações: (85) 3477.3169