sábado, 1 de fevereiro de 2020

"POMBA", PALAVRA PROIBIDA!



PORQUE O CEARENSE DEU O NOME DE “AVOANTE” À POMBA DE BANDO

Esta semana caiu-me às mãos um exemplar de um livreto assaz curioso, publicado em 1921, intitulado Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará (128 páginas), da autoria do professor João Gonçalves Dias Sobreira, editado no Rio de Janeiro pela Typ. Desembargador Lima Drummond. Seu autor foi um professor primário e telegrafista*, nascido no Crato, em setembro de 1847, que cursou o seminário da Prainha, em Fortaleza, até a altura dos estudos teológicos.

É autor de várias obras didáticas, inclusive de uma Simplificação da Grammatica Portugueza, de 1885, aprovada pela Secretaria da Instrução Pública do Ceará e de uma Geographia Especial do Ceará, adotadas para servirem de compêndio pelas escolas do Estado.

Nesse opúsculo de 1921 encontra-se uma curiosa explicação para o termo “avoante”, nome pelo qual os cearenses e nordestinos em geral conhecem a pomba de bando (Zenaida Auriculata), ave de arribação oriunda do continente africano.

Segundo o professor J. G. Dias Sobreira, a Câmara Municipal de Quixeramobim, famosa por haver deposto o Imperador D. Pedro I e deflagrado a Confederação do Equador no distante ano de 1824, durante a grande seca de 1845 resolveu censurar o nome “pomba”, certamente por excesso de pudor, já que aqui no Nordeste é um dos muitos sinônimos pelo qual se conhece o órgão sexual masculino. Eis o que diz o texto do escritor cratense:

“Na grande seca de 1845, a Câmara Municipal de Quixeramobim, vendo o nome d'essas aves não lhe soava bem, entendeu de reunir-se em sessão especial, e determinou, sob pena de prisão, que d'ali em diante fossem chamadas “avoantes”, nome pelo qual são elas hoje conhecidas, em todo Ceará.” [p. 24]

Isso nos remete a uma estrofe do cantador Zé Porfírio, que tendo derrotado um repentista da cidade de Pombal, numa peleja realizada em solo cearense, recebeu do oponente uma "intimação" para uma revanche em Pombal, na Paraíba. Zé Porfírio, que não tinha nada de besta, respondeu nesses termos:

À cidade de Pombal?
Eu vou lá é uma pitomba...
O cantador que for lá
Com certeza se arromba;
Que eu não passo dez minutos
num lugar que só tem POMBA!


* NOTA - Segundo o Barão de Studart (Diccionário Bio-bibliográfico Cearense) foi professor do Liceu do Ceará. Em 1893, desgostoso com o magistério, transferiu-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde prestou concurso e exerceu o ofício de telegrafista.



Por conta de tudo isso, recordei-me, então, de um texto que publiquei em junho de 2011 aqui mesmo, no blog “Acorda Cordel”. Postagem essa que bateu record de visitas e comentários, sendo ainda hoje uma das mais acessadas. Ei-la na íntegra, tal e qual foi postada em 21/06/2011:



AVES DE ARRIBAÇÃO

Hoje pela manhã, fazendo o trajeto Fortaleza – Caridade, vi pela janela do ônibus milhares e milhares de avoantes (cujo nome cientifico é Zenaida Auriculata) em migração. O espetáculo é belíssimo e impressiona pela solidariedade de alguns grupos que parecem voar em círculos esperando os retardatários.

Os caçadores, pressentido a sua chegada, que acontece no final da quadra invernosa nordestina entram imediatamente em ação abatendo-as sem piedade e, o que é pior, destruindo os pombais onde as mesmas depositam seus ovos.

Na Revista Brasileira de Zoologia, Vol. 3. Número 7, Curitiba, 1986, encontramos essa informação sobre a presença dessas aves na Caatinga Nordestina:

“Na região da caatinga brasileira, a avoante é novamente encontrada em grandes números, referindo-se a ela vários cronistas do século passado e início deste como um auxílio divino às populações humanas carentes, sempre nidificando no solo em colônias. Somente em meados desse século aparecem os primeiros relatos científicos sobre sua nidificação no solo de caatinga (Ihering, 1935). O primeiro autor a se preocupar mais profundamente com o assunto foi Álvaro Aguirre, produzindo vasta bibliografia sobre as colônias de reprodução e hábitos alimentares. Seu trabalho mais completo foi publicado em 1976, dissecando os conhecimentos existentes sobre a biologia, ecologia e utilização desse recurso natural renovável pelo nordestino (Aguirre, 1976).
Todos esses autores referem-se à população nordestina de Zenaida aureculata como a única a nidificar colonialmente no chão, considerada característica peculiar à subespécie da região (Z. a. noronha). Fora do Nordeste, há notas sobre ninhos isolados no solo no Estado de São Paulo (Aguirre, 1972) e em pequenas colônias no Equador (Marchant in Goodwin, 1970)
Desde 1979, o problema do abate ilegal de avoantes na região Nordeste vem preocupando de perto o Departamento de Parques Nacional do IBDF. A partir daquele ano tem início uma série de trabalhos de campo melhor compreensão do fenômeno e para a conservação desse recurso natural renovável, sobre-explorado e colocado em risco de extinção pela exploração irracional para comércio da carne de avoante salgada. A partir de 1982, o trabalho, que visa principalmente compreender, através de anilhamento, os movimentos da espécie na região conta com o apoio do CNPq.”

Como já foi dito, a avoante é uma ave de imigração que aparece em determinada época do ano no sertão nordestino. A avoante chega na quadra de fins d’água, em bandos, nas caatingas, passando nos lugares onde encontra o capim-milhã, que é a alimentação que prefere. Os caçadores, apesar da forte vigilância do IBAMA, entram em ação e abatem uma quantidade enorme, que são vendidas nas feiras. É um massacre injustificado que ameaça a preservação dessa espécie. O que mais impressiona é a crueldade dos caçadores que, não satisfeitos em abater milhares de aves, ainda se comprazem em pisotear os ninhos (feitos geralmente no chão) pelo simples prazer de destruir os ovos. No nordeste brasileiro a pomba-avoante (“avoante”) parece ter o seu padrão de migração em função ao regime de precipitação pluviométrica. 


* * *
Aproveito o ensejo para publicar também, na íntegra, o texto de J.G. Dias Sobreira, publicado em “Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará” (páginas 22 a 24). Nesse trabalho ele descreve minuciosamente o processo de captura e abate das aves, tal e qual meu avô me contava nos primórdios da minha infância.


AVES DE ARRIBAÇÃO

Um fenômeno, que se manifesta, nas grandes secas, é o número prodigioso de aves de arribação. Nos anos comuns, ninguém dá noticia d'essas aves. Não se sabe de onde procedem; o certo é que elas se aglomeram em tamanhos bandos, que ao passarem voando, não se enxerga o ar do lado oposto, que elas atravessam! Estando pousadas e espantando-se, voam todas a um só tempo, produzindo um forte ruído ou estrondo, como de um trovão longínquo.

Alguns meses, depois do seu aparecimento, chega o tempo da postura. Então afluem todas para um ponto da mata e a esta reunião dão-lhe o nome de pombal. Cada uma põe somente dois ovos, mas a quantidade delas é tamanha que, uma semana depois, juntam-se cargas e mais cargas de ovos, que elas põem a granel, espalhados em toda a extensão ocupada pelo pombal! Juntam-nos e os cozinham duros para não se machucarem e os levam aos mercados. É alimento saborosíssimo e tem o gosto do ovo de galinha.

Só vendo-se (parece fábula) a reunião daquela multidão sem conta, e apesar da destruição, por todos os meios, elas reproduzem-se consideravelmente, nesses pombais! Havendo secado as aguas, elas procuram onde beber, e só a podem encontrar em algum açude. Para lá dirige-se toda aquela imensa quantidade de pombas sequiosas, a beber com grande avidez.

Os moradores julgam-se, então, com a vida ganha; porque não lhes faltará, tão cedo, carne nem dinheiro. Armam barracas ou esperas de ramos bem tapadas, dispondo uma travessa encostada n'agua, sobre a qual as incautas e sequiosas pombas vão pousar afim de saciar a sede. Pousam ali aos montões, aos milhões! Introduzem n'agua o bico até acima dos olhos; tal é o afã, a ansiedade com que elas pousam para beber!

Aquela turba multa não se apercebe que as suas companheiras estão desaparecendo, logo após! O homem, que está escondido na espera ou barraca, metido n'agua, que as pombas vão beber, vai puxando-as pelo bico e estrangulando-as, em tamanha quantidade, que, em um quarto de hora, já tem juntas mais de um milheiro!

Quando julgam já ser bastante, saem do esconderijo e vão prepara-las para o seu sustento e da família; mas, como sobra, em demasia, depois de salgadas, expõem-nas ao secar ao sol. Depois de bem enxutas, levam-nas em cargas e mais cargas aos mercados para vende-las. Negociantes ha que as compram em tanta quantidade, ao ponto de encherem armazéns até ao teto. É o refrigério da pobreza, é o maná, que Deus envia para sustento d'aquela onda sem conta de flagelados, que a grande seca os reduziu à miséria!

Na grande seca de 1845, a Câmara Municipal de Quixeramobim, vendo o nome d'essas aves não lhe soava bem, entendeu de reunir-se em sessão especial, e determinou, sob pena de prisão, que d'ali em diante fossem chamadas “avoantes”, nome pelo qual são elas hoje conhecidas, em todo Ceará. 

(Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará, págs. 22 a 24)


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

HISTÓRIA EXTRAORDINÁRIA



O Super-Homem de Quixeramobim

No distante ano de 1921 foi publicado um interessante opúsculo intitulado Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará (128 páginas numeradas), da autoria do  Professor João Gonçalves Dias Sobreira, editado no Rio de Janeiro pela Typographia Desembargador Lima Drummond. Seu autor foi um professor primário e telegrafista, nascido no Crato, que cursou o seminário da Prainha, em Fortaleza, até a altura dos estudos teológicos. Segundo o Barão de Studart (Diccionário Bio-bibliográfico Cearense) foi professor do Liceu do Ceará. Em 1893, desgostoso com o magistério, transferiu-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde prestou concurso e exerceu o ofício de telegrafista.



É autor de várias obras didáticas, inclusive de uma Simplificação da Grammatica Portugueza, de 1885, aprovada pela Secretaria da Instrução Pública do Ceará e de uma Geographia Especial do Ceará, adotadas para servirem de compêndio pelas escolas do Estado. Nesse livreto de 1921 encontra-se essa história impressionante (páginas 15 a 19), a respeito de um homem que tinha uma força descomunal e quebrava metais com os dentes. Quando menino ouvi referências a essa história, nas conversas narradas por meu avô Mané Lima... Vejamos:


FORÇA PRODIGIOSA

Na comarca de Quixeramobim vivia uma família meio abastada, cujo chefe chamava-se Borges Gomes, casado e tendo três filhos varões.
Uma noite o velho chamou os seus dois filhos mais velhos e ordenou que, no dia seguinte, pela manhã, levassem uma junta de bois a um certo lugar e de lá trouxessem um pau, afim de fazer d'ele um coxo para a casa de farinha.
Com efeito, pela manhã, os dois rapazes pegaram os bois, meteram-nos em um carretão e seguiram para o lugar indicado. Lá estava o tronco, tão grosso e pesado que os bois não o puderam arrastar. Depois de empregarem todos os esforços, desligaram-no do carretão e voltaram sem o levar, dizendo que os bois não puderam com ele.
O filho mais moço, que se achava presente, na ocasião, disse:
Deixem que eu vou buscar o pau. E saiu.
Todos tomaram aquele dito por mera brincadeira.
Mas, qual não foi o assombro e pasmo de todos, quando, algumas horas depois, voltava Bernardo  (assim chamava-se ele) com o pau ao ombro e o lançara ao terreiro da casa, dizendo:
Está aqui o pau.
Todos acorreram a ver o que se passava, exclamando:
Isto é arte do diabo! Não é possível que um menino tenha mais força do que dois bois!
É o diabo!
Gritavam todos! É o diabo!
O velho, tomado de terror, disse com voz espavorida:
Ponha-se fora de minha casa! Eu não quero o diabo aqui!
O pobre mocinho sem culpa, mas obediente, saiu sem destino. Corria o ano de 1872. Algum tempo depois chegou ele a Fortaleza e uma vez ali, divertia-se em praticar algumas proezas admiráveis, que lhe mereceram a alcunha de mandingueiro ou feiticeiro.
Partia ele com os dentes uma moeda de cobre, tirando dela quantos pedaços quisesse. Um dia dirigiu-se ele à loja do Sr. Antônio Gonçalves da Justa e perguntou se tinha machados “Califórnia”.
Eram uns machados americanos, conhecidos por este nome, cujo aço era tão polido que podia servir de espelho. O caixeiro afirmou que sim.
O moço disse: Quero ver e quero bom.
O caixeiro apresentando-lhe o machado, respondeu-lhe o freguês:
Ah! Este não presta: é de cera.
Disse o caixeiro:
Qual de cera! Você não encontra melhores.
O sertanejo continuando a afirmar que era de cera, interviu o patrão e disse que o machado era verdadeiro Califórnia, não existiam melhores.
Afirmo que este machado é de cera; e, si o senhor duvida eu tiro um pedaço com os dentes.
Tire lá, disse o patrão.
O nosso desconhecido, levou o machado á boca e arrancou dele um grande pedaço, deixando-o inutilizado e o patrão e caixeiro pasmados pelo que acabavam de presenciar!
O rapaz saiu deixando-os atônitos, a se olharem sem dizer uma palavra!
O nosso mandingueiro vagou algum tempo pela capital e seus arredores e desapareceu.
Passaram-se os anos, quando manifestou-se a grande e terrível seca de 1877 a 1879. Começa a capital a encher-se de emigrantes famintos e o nosso Bernardo fazendo parte deles, a exibir as suas mandingas, que o povo as tinha como sendo arte do maldito! Arte diabólica!
Já para o fim da seca, o governo que fornecia gêneros em abundancia, começou a escassear; e, para diminuir a população de emigrantes na capital, o Presidente os mandou acampar em Parangaba, oito quilômetros distante dali. Lá estavam eles debaixo do cajueiral, abrigados por palhoças de ramos das arvores.
Uma tarde ouviu-se o apito da locomotiva, que ia da capital.
O povo, na esperança que o trem conduzisse gêneros, acorreu para a estação.
Chegou o trem e nada levou.
Este facto desagradou os emigrantes; e o nosso mandingueiro, que se achava entre eles, disse, referindo-se ao trem:
Pois este diabo não sai daqui, que eu não quero; e aproximou-se da traseira do ultimo vagão.
Alguns minutos depois, a sineta deu sinal de partida. A locomotiva apitou, dando assim o ultimo sinal. Os emigrantes, que esperavam um fiasco da parte do Bernardo, ficaram atentos ao lado do mandingueiro.
Ao terminar o segundo apito, o maquinista deu movimento e as rodas entraram a mover-se, mas como um motor fixo!
Isto causou grande surpresa em todos: ao maquinista, passageiros e aos circunstantes. Parado o movimento estático da locomotiva, todos deixaram seus lugares, ansiosos por saber a causa.
Tudo examinado, nada encontrou de anormal o maquinista. Segunda tentativa, o mesmo fenômeno reproduziu-se. Os emigrantes, vendo que o trem não andava, disseram:
Bernardo, deixa o trem ir embora!
Bem, respondeu ele: Vai-te, diabo!
E, soltando a traseira do último vagão, que ele segurava com uma das mãos, o trem deslizou sobre os trilhos e desapareceu na linha, no meio de uma quantidade, sem conta, de palmas e gritarias dos emigrantes!!
E diziam:
É danado mesmo o diabo deste mandingueiro!!
Nunca pensei que ele fizesse isto! Dizia outro.
Esse excepcional sertanejo, dotado, pela natureza, de um dom tão prodigioso e extraordinário, nunca se utilizou dele, em proveito próprio, senão para se divertir e atrair sobre si o mau pensar dos ignorantes, supondo ser arte diabólica aquele dom natural, do qual nunca se aproveitou, podendo ter-se locupletado e enriquecido!
Morreu pobre e miserável, levando para a sepultura somente a alcunha de mandingueiro, que o povo lhe dera.

"E digam os sábios da Escritura,
Que segredos são esses da Natura".

In SOBREIRA, J. G. Dias. Curiosidades e factos notáveis do Ceará. Rio de Janeiro: Tipografia Desembargador Lima Drummond, 1921.

domingo, 12 de janeiro de 2020

ENTREVISTA


OS CORDÉIS QUE SUASSUNA UTILIZOU 

NO AUTO DA COMPADECIDA



No último dia 7 de janeiro o caderno VERSO, do Diário do Nordeste, publicou ampla matéria sobre a reprise da série O AUTO DA COMPADECIDA, direção de Guel Arraes, inspirado na obra do mestre Ariano Suassuna. Na ocasião, o repórter Diego Barbosa me entrevistou a respeito dos folhetos de Leandro Gomes de Barros e outros poetas que tiveram influência direta sobre a obra de Suassuna. Confiram a íntegra da entrevista:


1- De que forma uma das principais obras de Ariano Suassuna, “O Auto da Compadecida”, influenciou seu trabalho no posto de cordelista? Houve essa influência?
R – Posso dizer que foi o contrário. Conheci a obra de Leandro Gomes de Barros, a principal referência na obra de Suassuna, uns vinte anos antes de conhecer “O Auto da Compadecida”. Não achei a menor graça naquela adaptação dos “Trapalhões”, porém a do Guel Arraes, para a Rede Globo, foi formidável. Ele valorizou todos os aspectos da cultura popular nordestina, sobretudo da Literatura de Cordel. Eu que já conhecia os textos dos cordéis, enfeixados no livro “Violeiros do Norte”, de Leonardo Mota, publicado em 1926, fiquei encantado com o modo como Suassuna costurou o seu enredo, valendo-se das passagens mais engraçadas e marcantes dos folhetos para criar as ações e os diálogos de seus personagens. Essas estrofes de “O Dinheiro” (Leandro Gomes de Barros, 1909) são emblemáticas e alguns versos foram utilizados na fala do Padre João, personagem vivido pelo grande Rogério Cardoso:

Um inglês tinha um cachorro
De uma grande estimação
Morreu o dito cachorro
E o inglês disse então:
― Mim enterra esse cachorro
Inda que gaste um milhão

Foi ao vigário, lhe disse:
― Morreu cachorra de mim
E urubu do Brasil
Não poderá dar-lhe fim
― Cachorro deixou dinheiro?
Pergunta o Vigário assim...

― Mim quer enterrar cachorra!
Disse o vigário: ― Oh! Inglês!
Você pensa que isto aqui
É o país de vocês?
Disse o inglês: ― Oh! Cachorra
Gasta tudo desta vez

Ele antes de morrer
Um testamento aprontou
Só quatro contos de réis
Para o vigário deixou
Antes de o inglês findar
O vigário suspirou

― Coitado! ― Disse o vigário,
De que morreu esse pobre?
Que animal inteligente!
Que sentimento tão nobre!
Antes de partir do mundo
Fez-me presente do cobre!



Leandro Gomes de Barros, por Jô Oliveira


2- Você escreveu a biografia do Leandro Gomes de Barros, que foi quem escreveu alguns cordéis que inspiram os episódios do Auto da Compadecida. Me explique melhor como aconteceu essa influência de Leandro sobre a escrita do clássico de Suassuna. De fato, houve essa conexão da escrita entre os dois? Que cordéis específicos foram esses?
R – Ariano tinha na figura do seu pai, João Suassuna, ex-governador da Paraíba assassinado após a Revolta de 1930, a sua maior referência. O livro “Violeiros do Norte”, de Leota, é de 1926 e traz uma dedicatória ao pai do dramaturgo paraibano. Pode-se dizer que este livro foi uma das leituras prediletas de Ariano desde a infância, pois fazia parte da biblioteca de seu pai. Na opinião de Bráulio Tavares, autor de ABC de Ariano Suassuna (José Olympio Editora, 2ª edição, p. 25) “a Literatura de Cordel, que Ariano conheceu ainda menino, em Taperoá-PB, viria a ser uma das fontes inspiradoras não apenas de sua obra literária, mas do próprio Movimento Armorial, sua intervenção mais consistente e deliberada na cultura brasileira.” Apesar da tragédia familiar causada pela morte de seu pai e as constantes mudanças que a viúva e os filhos foram forçados, a biblioteca de João Suassuna foi preservada por seu cunhado Manuel Dantas Vilar, tio materno de Ariano e aqueles livros, certamente, constituíam um tesouro na infância e adolescência do futuro escritor. Os folhetos divulgados por Leota e inclusos na trama d’O Auto da Compadecida são: “O Dinheiro” e “O cavalo que defecava dinheiro”, de Leandro Gomes de Barros e “O Castigo da Soberba”, de Silvino Pirauá de Lima. Além destes, podemos incluir também “As proezas de João Grilo”, do poeta pernambucano João Ferreira de Lima.

3- De forma geral, qual a relação do “Auto da Compadecida” com o cordel, de uma forma geral?
R – Sem exageros eu posso afirmar que sem o Cordel essa peça não existiria e, se existisse, não teria tido metade da aceitação que teve por parte do público. Os lances mais engraçados da obra, como o testamento e enterro da cachorra, o animal que defecava moedas de ouro, a gaita mágica que ressuscita defuntos e até mesmo a burla da bexiga cheia de sangue de galinha estão nos folhetos de Leandro, que certamente baseou-se em contos populares, transmitidos oralmente geração após geração. Daí a empatia imediata que o público teve pela obra, ao reconhecer de imediato as velhas matrizes de histórias que faziam parte de sua tradição oral. Convém lembrar que outras obras realizadas a partir do romanceiro popular nordestino também obtiveram grande sucesso. Nessa lista eu incluiria os filmes “O homem que virou suco” (filme brasileiro de 1981 dirigido por João Batista de Andrade e estrelado pelo ator José Dumont)  e “O homem que desafiou o diabo” (filme de 2007, dirigido por Moacyr Góes, baseado na obra As Pelejas de Ojuara do escritor potiguar Nei Leandro de Castro). Citaria também as novelas “Saramandaia”, de 1976, que tinha em sua trilha a canção Pavão Mysteriozo, do cearense Ednardo e outra mais recente, intitulada “Cordel do Fogo Encantado”. O cordel também tem feito muito sucesso nas adaptações para teatro. Em 2006 o “Grupontapé de Teatro”, de Uberlândia-MG, dirigido por Fernando Limoeiro, ganhou um prêmio da Funarte com a adaptação de um dos meus folhetos, “O batizado do gato”, que escrevi e publiquei em 2000 e hoje se encontra na oitava edição.

4- Por que, em sua visão, a série “O Auto da Compadecida” marcou tanto e como você acha que o público a receberá hoje?
R – O Auto da Compadecida é uma das obras-primas da dramaturgia brasileira e a adaptação que Guel Arraes fez para a televisão e o cinema conseguiu reunir um dos melhores elencos da dramaturgia brasileira. Não é todo filme que consegue reunir, numa só tacada, atores como Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Rogério Cardoso, Diogo Vilela, Marco Nanini, Matheus Nashtergaele e Selton Melo num mesmo time, numa produção tão bem cuidada, com cenários tão ricos e trilha sonora tão adequada. Tudo ali é perfeito, ao contrário da adaptação de “A Pedra do Reino”, por Luís Fernando Carvalho, que acabou se tornando, a meu ver, um grande equívoco. Apesar do esforço do diretor e da superprodução, o resultado soou meio hermético, incompreensível para o grande público. Eu, particularmente, gostei bastante, sobretudo pelo lado burlesco e grandiloquente, mas o público comum não está habituado a esse tipo de produção. Na minha opinião, essa versão de O Auto da Compadecida é como as comédias de Charlie Chaplin. É atemporal.


5- Qual legado o programa deixa para a cultura brasileira tendo em vista o reconhecimento dado à regionalidade nordestina?
R – Acho que o cinema brasileiro teria dado largas passadas se tivesse seguido essa fórmula tão bem engendrada pela produção de “O Auto da Compadecida”. Na esteira de seu sucesso, tivemos, pelo menos, dois filmes interessantes: “Lisbela e o Prisioneiro” e o já mencionado “O homem que desafiou o diabo”. Conversando outro dia com o cineasta Rosemberg Cariry ele me confidenciou que seu maior sonho é fazer uma adaptação do Romance do Pavão Misterioso com todos os efeitos especiais que a tecnologia permite hoje em dia. Outro texto formidável, na mesma linha do João Grilo, é A vida de Cancão de Fogo e seu Testamento, de Leandro Gomes de Barros. Outra obra do poeta paraibano que tem todos os elementos adequados para um bom filme é O Cachorro dos Mortos, uma história de suspense, na linha de Edgar Allan Poe, onde três irmãos são mortos barbaramente tendo por única testemunha um cachorro, que consegue escapar a fúria do assassino e acaba sendo a principal testemunha do crime. O grande problema, a meu ver, é que sempre que o cinema e a TV querem utilizar o cordel como fonte de inspiração, não interagem com o devido respeito, não fazem da mesma maneira de quando se trata de uma obra “erudita”. Para eles, todo cordel é coisa de “DOMÍNIO PÚBLICO”, algo sem um criador definido. É preciso ter mais respeito pela chamada CULTURA POPULAR. Se você reparar bem, nem no livro de Suassuna, nem nas adaptações feitas para o cinema e a televisão, aparece o nome de LEANDRO GOMES DE BARROS, o verdadeiro criador dos folhetos e maior responsável pela popularização dessas histórias.

Entrevista concedida à DIEGO BARBOSA - Repórter do Sistema Verdes Mares | Caderno Verso - Diário do Nordeste

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

CENTENÁRIO DO POETA







A Editora ALFAGUARA anuncia o relançamento 

da Obra Completa de João Cabral de Melo Neto


O advento de seu Centenário de nascimento em 2020 fará com que João Cabral de Melo Neto, um dos poetas nordestinos de maior reconhecimento, ganhe uma edição completa de sua obra.  O legado do escritor pernambucano será celebrado em 2020 com livro de entrevistas, fotobiografia e coletâneas.
Nascido em Pernambuco, em 1920, a literatura de cordel ensejou os primeiros contatos de Cabral com as letras. Ainda menino, o escritor lia folhetos e romances para os trabalhadores do engenho do seu pai. Essa vivência com o cordel explica a escolha da redondilha maior (versos de sete sílabas) na elaboração de seu poema mais famoso:



TRECHO DE “VIDA E MORTE SEVERINA”

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;



João Cabral de Melo Neto (1920-1999) foi um poeta e diplomata brasileiro. Autor de Morte e Vida Severina, poema dramático que o consagrou. Tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras. Nasceu no Recife, Pernambuco, no dia 9 de janeiro de 1920.

Filho de Luís Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro Leão Cabral de Melo, João Cabral era irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre. Passou sua infância entre os engenhos da família nas cidades de São Loureço da Mata e Moreno. Estudou no Colégio Marista, no Recife. Amante da leitura, lia tudo o que tinha acesso, no colégio e na casa da avó. Dentre suas leituras prediletas, os folhetos da LITERATURA DE CORDEL.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O CORDEL NA OBRA DE SUASSUNA



OS FOLHETOS QUE INSPIRARAM 
“O AUTO DA COMPADECIDA”

Arievaldo Vianna

Ariano Suassuna sempre admitiu que a principal fonte de inspiração de suas peças teatrais foi a cultura popular nordestina, em especial o nosso romanceiro, também chamado de Literatura de Cordel. O livro que o motivou a beber nessa fonte inesgotável foi “Violeiros do Norte”, do folclorista cearense Leonardo Mota, cuja primeira edição, de 1926, traz uma dedicatória ao pai do dramaturgo, o então governador da Paraíba João Suassuna.
Três dessas histórias estão contidas no livro de Leota: “O dinheiro – O testamento do cachorro”, de Leandro Gomes de Barros, publicado em 1909; “O cavalo que defecava dinheiro”, também de Leandro, “O Castigo da Soberba”, atribuído a Silvino Pirauá de Lima, mas que Leota recolheu da boca do cantador cearense Anselmo Vieira de Sousa (1867 – 1926). Leonardo Mota, após a transcrição do poema, informa que no Cancioneiro do Norte (Tip. Minerva, Fortaleza-CE, 1903), de Rodrigues de Carvalho, foi registrado um poema parecido com o título de “A Peleja da Alma”.
Além dos folhetos citados, convém acrescentar, é claro, o clássico “As proezas de João Grilo”, do pernambucano João Ferreira de Lima, que data do início da década de 1930, numa versão de apenas 8 páginas (intitulada “As palhaçadas de João Grilo”), ampliada posteriormente para 32 páginas pelo poeta Delarme Monteiro da Silva, a pedido do editor João Martins de Athayde.
Embora Mestre Ariano tenha se utilizado de muitos temas populares na elaboração de sua peça mais famosa, estes poemas são as fontes principais.

CONFIRA A NOVA ABERTURA DA MINI-SÉRIE:





CADERNO VERSO TRAZ LONGA MATÉRIA SOBRE A REPRISE DE “O AUTO DA COMPADECIDA”


Imagem da nova abertura, clique para ampliar.



Reportagem de Diego Barbosa

Eis alguns trechos e o link da matéria:

Série “O Auto da Compadecida” é reexibida, 
com forte influência também no Ceará



Reprise acontece 20 anos após a primeira exibição; trabalhos cearenses perpetuam o legado da aclamada produção audiovisual

Selton Mello e Matheus Nachtergaele ficaram marcados na memória do público por darem vida a Chicó e João Grilo

Não parece, mas já se passaram 20 anos desde a primeira exibição da série “O Auto da Compadecida”. De lá para cá, muita coisa no Brasil mudou, seja a configuração política ou a própria maneira de fazer audiovisual, donde a atração deriva.
Mas ainda é bem viva na memória nacional o carisma e humor indefectíveis de João Grilo e Chicó que, feito guias, vão nos conduzindo a uma trama de aventuras e causos no sertão nordestino regada a muitos regionalismos, saberes populares e farta gama de personagens e situações inesquecíveis.

Na pele de João Grilo, Matheus Natchtergaele afirma: 
“Me ensinou a ser feliz na tristeza"

Baseado na peça teatral homônima do poeta, dramaturgo e romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), o seriado logo caiu no gosto do público e ganhou uma versão inclusive para o cinema, com 100 minutos a menos do tempo total do programa.
A partir desta terça-feira (7), a audiência mergulha novamente no fabuloso enredo a partir da reexibição da série na TV Globo, após a novela “Amor de Mãe”. Os quatro episódios serão veiculados até sexta (10), totalmente remasterizados, com nova abertura e tendo a identidade visual do céu e inferno repaginadas por computação gráfica.
Em entrevista, Guel Arraes, que assina a direção e roteiro da produção, comenta o caráter singular de uma história que já nasceu clássica, a qual narra as vivências de dois nordestinos pobres que vivem enganando os habitantes de um pequeno vilarejo no sertão da Paraíba para sobreviver.
 “‘O Auto da Compadecida’ oferece beleza, alegria e dramaticidade atemporais. Sempre é tempo de revisitar o povo brasileiro, que é safo e sobrevive quase sem ajuda. Especialmente o nordestino que, apesar de todas as dificuldades, sabe se divertir e tem vocação para ser feliz”.




Filmados em Cabaceiras, no sertão da Paraíba, série e filme utilizaram elementos populares e sacros para contar aventuras

Matheus Nachtergaele que o diga. Intérprete do desnutrido João Grilo, malandro conhecido pela astúcia, ele enumera os aprendizados que reuniu com o personagem.

“Me ensinou a ser feliz na tristeza, a rir nas horas mais perigosas e desgraçadas da vida. Gosto das cenas com Selton Mello porque foi um encontro especial. Precisamos um do outro para que elas acontecessem como aconteceram. Mas me comovo também profundamente na hora do julgamento, em que a Compadecida livra o João Grilo do inferno”, confessa.
Selton, por sua vez, na pele do compulsivo e metido a galanteador Chicó, dimensiona que há uma carreira antes e depois do trabalho.


Na visão de Selton Mello, há uma carreira antes e depois de Chicó

“É o personagem mais popular da minha vida, e olha que já fiz muita novela, um formato que te deixa em evidência por meses”, situa, sublinhando ainda o que representa o retorno do programa.

(...)

CORDEL

A opinião sintoniza-se com a ótica de Arievaldo Viana – embora o cordelista tenha conhecido “O Auto da Compadecida” depois de se aprofundar na trajetória do paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o qual foi biografado pelo cearense.

“Ele foi a principal referência na obra de Suassuna. Eu, que já conhecia os textos dos cordéis, enfeixados no livro ‘Violeiros do Norte’, de Leonardo Mota (1926), fiquei encantado com o modo como Ariano costurou o enredo, valendo-se das passagens mais engraçadas e marcantes dos folhetos para criar as ações e diálogos dos personagens”.


O Dinheiro - Capa de Marcelo Soares

Alguns versos de “O Dinheiro” – folheto escrito por Leandro, em 1909 – foram utilizados, inclusive, na fala de Padre João, vivido pelo ator Rogério Cardoso na série e cinema.


"― Mim quer enterrar cachorra!
Disse o vigário: ― Oh! Inglês!
Você pensa que isto aqui
É o país de vocês?
Disse o inglês: ― Oh! Cachorra
Gasta tudo desta vez

Ele antes de morrer
Um testamento aprontou
Só quatro contos de réis
Para o vigário deixou
Antes de o inglês findar
O vigário suspirou

― Coitado! ― disse o vigário,
De que morreu esse pobre?
Que animal inteligente!
Que sentimento mais nobre!
Antes de partir do mundo
Fez-me presente do cobre!"

(O Dinheiro, Leandro Gomes de Barros, 1909)


Ilustração de Jô Oliveira para o cordel “O cavalo que defecava dinheiro", de Leandro Gomes de Barros, cujos versos inspiraram Ariano Suassuna

Também partes de “O cavalo que defecava dinheiro” e “O Castigo da Soberba”, este último escrito por Silvino Pirauá de Lima, integraram o roteiro, assim como “As proezas de João Grilo”, do poeta pernambucano João Ferreira de Lima.
Arievaldo considera ainda que o cordel influenciou definitivamente na peça, a ponto de afirmar que, sem essa linguagem, a montagem não existiria ou não teria tido metade da aceitação que obteve por parte do público.




Autor da biografia de Leandro Gomes de Barros, Arievaldo Viana 
dimensiona alcance do Auto nas letras

“Os lances mais engraçados, como o testamento e enterro da cachorra, o animal que defecava moedas de ouro, a gaita mágica que ressuscita defuntos, e até mesmo a burla da bexiga cheia de sangue de galinha, estão nos folhetos de Leandro, que certamente baseou-se em contos populares, transmitidos oralmente geração após geração. Daí a empatia imediata que o público teve pela obra, ao reconhecer de imediato as velhas matrizes de narrativas que faziam parte de sua tradição oral”.


Cena do Gato que descomia dinheiro


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