quarta-feira, 16 de maio de 2018

DEPOIMENTO


A pedido do poeta-editor Paiva Neves, da Cordelaria Flor da Serra, escrevi esse depoimento sobre a importância da Literatura de Cordel durante a minha alfabetização e como os folhetos contribuíram para despertar em mim o gosto pela escrita e a  leitura:




O CORDEL COMO FERRAMENTA 
AUXILIAR NA SALA DE AULA


Nasci em setembro de 1967, na fazenda Ouro Preto, pequena propriedade rural de meus avós, situada na divisa dos municípios de Quixeramobim e Canindé (hoje a região pertence ao município de Madalena). Vivi ali até os dez anos de idade, sob a luz da lamparina, obedecendo aos velhos costumes sertanejos, herdados de meus ancestrais.
A única escola que havia na região, distava quase uma légua e ainda utilizava a velha palmatória. Por conta disso, minha avó resolveu me alfabetizar em casa. Uma das ferramentas que utilizei durante esse processo de alfabetização foi a Literatura de Cordel. E por uma razão muito simples, além de ser uma leitura prazerosa, minha avó possuía uma coleção de folhetos que costumava ler em voz alta, para uma roda de ouvintes maravilhados com a narrativa dos cordéis. Eu tinha os meus prediletos: Proezas de João Grilo, Cancão de Fogo, Príncipe do Barro Branco, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e vivia pedindo, insistentemente, para que ela os relesse.
Percebendo o meu gosto pelos folhetos e sabendo que eu já tinha idade suficiente para ser alfabetizado, minha avó comprou uma Carta de ABC e começou a me familiarizar com as letras. Assim que aprendi a juntar as sílabas, pegava os folhetos e tentava decifrar o seu conteúdo. Alguns eu já conhecia de cor e salteado, o que certamente facilitou o meu aprendizado. Aos sete anos eu já lia desembaraçadamente e virei uma atração na bodega de meu avô. Às vezes ele me sentava no balcão e pedia que lesse um folheto para os seus fregueses. O público, formado por pessoas simples e analfabetas, em sua maioria, sertanejos rudes, acostumados com as lides do roçado, ficava encantado com aquela novidade.

Os autores que eu mais gostava eram Leandro Gomes de Barros e José Pacheco. Do primeiro eu absorvi o gosto por histórias de encantamento e romances de fôlego como o Cachorro dos Mortos e Juvenal e o Dragão. Com José Pacheco, aprendi a métrica perfeita e o gracejo, tanto que aos oito anos eu já fazia algumas estrofes nos meus cadernos escolares. Meu pai, um amante da poesia, que sonhava em ser cantador na juventude, incentivava o meu estro e até me ajudava a corrigir as rimas. De métrica não havia necessidade porque sempre tive um ouvido privilegiado para o ritmo, fã que sempre fui de Jackson do Pandeiro. Então o domínio das redondilhas (maior e menor) eu aprendi muito cedo e depois, com o tempo, observando os cantadores, aprendi também o decassílabo e até mesmo os alexandrinos, lendo sonetos de Bilac e Augusto dos Anjos. Sempre gostei de folhetos de pelejas: Cego Aderaldo e Zé Pretinho, Riachão com o Diabo, Pinto e Milanês, justamente porque ofereciam a possibilidade de aprender novos estilos, não ficavam naquela mesmice da sextilha.
Prossegui nesse aprendizado, sempre em escolas informais, até os dez anos de idade. Somente em 1978 é que fui matriculado no Instituto São José, em Maracanaú e para ser admitido na quinta série fui submetido a uma prova, pois até ali eu não tinha boletins nem histórico escolar. Dona Mazé, a diretora do Instituto, ficou impressionada com a minha desenvoltura, um menino sertanejo, criado num ambiente rural, já tinha uma bagagem razoável de conhecimento. Isso porque sempre fui um leitor compulsivo, inclusive da Bíblia Sagrada. De modo que tirei nota máxima nesse teste preliminar e ingressei na série desejada sem qualquer embaraço.


Sabedor da importância do CORDEL no meu aprendizado, resolvi criar, em 2001, o projeto ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA a fim de incentivar o uso do folheto como ferramenta paradidática nas escolas. Tempos depois conheci o pesquisador Ribamar Lopes, outro que também teve a influência do cordel no seu processo de alfabetização. Segundo ele, lá em Pedreiras-MA, terra de João do Vale, era comum que os alunos lessem em voz alta, nas aulas de sexta-feira e o professor deixava que o próprio aluno escolhesse o texto. Ele resolveu levar “A intriga do cachorro com o gato” e foi criticado por algumas pessoas da escola, que diziam não haver “literatura” naqueles folhetos de feira. Porém o velho Riba foi persistente e acabou despertando nos colegas o interesse pelos folhetos, tornando-se um hábito a leitura desses textos nas aulas seguintes.
No Maracanaú eu pegava folhetos emprestados com um colega que morava na Pajuçara, cujo nome não me vem à memória, mas eram folhetos diferentes, de capa colorida. O primeiro que o rapaz me emprestou foi “Vicente, o Rei dos Ladrões”, de Manoel D’Almeida Filho. Depois emprestou também “A marca do Zorro” e outros títulos publicados pela Luzeiro. Ele considerava Manoel D’Almeida Filho um dos maiores poetas do gênero. Em contrapartida, eu lhe emprestava folhetos tradicionais, da Lira Nordestina e do editor Manoel Caboclo e Silva, que comprava no Mercado Público de Maranguape. Não sei se os professores viam com bons olhos aquele intercâmbio... Os demais alunos se interessavam por quadrinhos e bolsilivros de faroeste. Ou simplesmente não liam nada, além dos livros escolares.
Tomando por base o meu exemplo e de outros poetas como Rouxinol do Rinaré, Evaristo Geraldo, Marco Haurélio, Klévisson Viana, dentre outros, não tenho dúvidas em afirmar que o cordel é uma ferramenta poderosíssima na formação de novos leitores. A sua narrativa é contagiante e o “professor folheto”, como chamava o saudoso poeta Manoel Monteiro, deve ser trabalhado em classe, de preferência em leituras coletivas, em voz alta.

Arievaldo Vianna


sábado, 12 de maio de 2018

MEUS BRINQUEDOS DE CRIANÇA



Dois momentos da infância, aos 10 e aos 13 anos


Autor: Arievaldo Vianna

— Vou falar das brincadeiras
Do meu tempo de criança
Porque não posso olvidar
Tanta bem-aventurança
Um tempo lúdico, encantado,
Que não me sai da lembrança.

Eu nasci e me criei
Nos sertões do Ceará
Lá em Quixeramobim
Pertinho de Quixadá
E meu primeiro brinquedo
Foi um tosco maracá.

Ouvi canções de ninar
Que a minha mãe cantava
Numa rede de varandas
A noite ela me botava
E solfejando cantigas
Com prazer me embalava.

Três monólitos gigantes
No final da cordilheira
Dominavam a paisagem
Nessa terra hospitaleira
Onde vivi com prazer
A minha infância primeira.

Nesse lugar encantado
Onde só reina alegria
No meio dos meus parentes
Como num sonho eu vivia
Lá, a própria natureza
Só respira poesia.

As aves cantam nos galhos
Trina a cigarra na mata
Os cristais resplandecentes
Parecem de ouro e prata
E o olho d'água da fonte
Jorra em suave cascata.

No sopé da cordilheira
Que se ergue abruptamente
O sabiá laranjeira
Canta sublime e plangente
O sol dardeja os seus raios
Tocando a alma da gente.



Preás se escondem nas locas
Com medo dos predadores
Inhambus arrulham nas matas
Atraindo os caçadores
Abelhas zumbem na relva
Sugando o néctar das flores.

No sopé dos três serrotes
Tudo é encanto e beleza
Seus habitantes convivem
Em paz com a natureza
E os monólitos ostentam
O seu porte de nobreza.

No ano sessenta e sete
Do outro século passado
Nasci naquele recanto
E fui por Deus inspirado
A beber daquela fonte
Perto do reino encantado.

Ao completar oito anos
Meu pai, um agricultor,
(Também um iniciado
Na arte de trovador),
Levou-me pra ver de perto
Aquele grande esplendor.

Todo esse imaginário
Ficou na minha lembrança
Jamais vivi nada igual
Ao longo de minha andança
Como as lindas brincadeiras
Dos meus tempos de criança.



A criança hiperativa
Era chamada “malina”...
Construindo meus brinquedos
Eu gastava adrenalina
Porque sou um sertanejo
Do tempo da lamparina.

Fui crescendo curioso
E muito observador
Lá eu vi bumba-meu-boi,
Sanfoneiro e tocador
De viola em desafio
Na gesta do trovador.

Raramente eu ganhava
Brinquedo industrializado
Meu pai era agricultor
E tinha um belo roçado
Juntei cabelos de milho
De pelo fino, alourado.

E mesmo sem conhecer
Lobato, o grande escritor
Com a palha e os sabugos
Eu também fui inventor
Construindo o meu 'Visconde'
Mas não era falador...

Quando era tempo de inverno
Eu saia com certeza
Procurando borboletas
E via tanta beleza
Que deitava sobre a relva
Em paz com a natureza.



Posso dizer que vivi
Felicidade notória...
Agora, o momento mágico,
Que não me sai da memória
Era quando a minha avó
Nos contava alguma estória.

Quando eu era pequenino
Nos alpendres do sertão
Que ouvia: “ Era uma vez...”
Ficava de prontidão:
Já sabia que as estórias
Jorravam em profusão.

Os meninos do sertão
Bebiam a nossa cultura;
Os mais velhos transmitiam,
Em prosa franca e segura
As estórias de Trancoso
Em oralidade pura.

Belos romances rimados
(Os folhetinhos de feira)
Eram lidos em voz alta
No alpendre e na bagaceira
Dos engenhos de açúcar
Para toda cabroeira.

O Fiscal e a Fateira
Os Cabras de Lampião
A Vida de Pedro Cem
Testamento de Cancão
O Crente e o Cachaceiro
Numa grande discussão.



Martírios de Genoveva
E a Donzela Teodora
São romances que o povo
Guarda, conserva e adora
E a criança inteligente
Lê, admira e decora...

Cancão de Fogo e João Grilo
Aderaldo e Zé Pretinho
Juvenal e o Dragão
Eu li tudo com carinho,
No alpendre, em voz alta,
Rodeado de vizinho.

Mas hoje em dia o sertão
Está se modificando,
De uns trinta anos pra cá
A cultura está mudando
Nosso povo regredindo
Pensa que está avançando.

As crianças de hoje em dia,
Depois da televisão,
Só gostam de vídeo-game,
Internet e “Malhação”,
São os sintomas maléficos
Da tal globalização.

No meu tempo de menino
O tempo corria lento,
A gente matava o tempo
Sorvendo cada momento...
A tudo que acontecia
Eu sempre ficava atento.

Brinquei de gado-de-osso,
De carrapeta e pião,
Em cavalinhos de pau
Corria pelo sertão...
Com prego, lata e madeira
Fazia o meu caminhão.~



Um parque de diversão
Só raramente chegava
Nas festas do padroeiro
E pouco tempo ficava
Porém depois que partia
Muita saudade deixava.

Quando cheguei na cidade
Ainda estou bem lembrado
Na pracinha principal
Chegou um circo afamado
Eu passei o dia inteiro
Vendo o circo ser montado.

Acompanhar o palhaço
E cantar o seu refrão
Nos garantia um ingresso
Para a grande diversão...
São coisas que eu não vejo
Hoje em dia, no sertão.

Mas, de toda diversão,
Do meu tempo de criança
O contador de estórias
Jamais me sai da lembrança
Essa figura encantada
Renova a minha esperança.

Eu tenho muita saudade
Dos saberes e cantares
Vovô sabia narrar
Muitas lendas populares
Tinha o urubu e o sapo
Numa festa, pelos ares.

Tinha o macaco e a onça
A raposa e o “cancão”
Dois gênios da esperteza
Como reza a tradição;
No fim da fábula, a moral,
Trazendo alguma lição.

Por tudo quanto vivi
Me tornei um menestrel
Penso rimas, traço trovas
Em pedaços de papel
Eis o que me transformou
Num poeta de cordel.

Nessa teia do passado
Foi bom desatar os nós,
Reviver em poesia
Usando a pena e a voz,
Sem retirar da lembrança
A casa dos meus avós.


(in SERTÃO EM DESENCANTO - Arievaldo Vianna, 2016)

terça-feira, 8 de maio de 2018

LANÇAMENTO



Como nas antigas estórias de Trancoso, em que fabulosos tesouros são desenterrados, Arievaldo Viana abre, nesta obra, os baús da própria memória, e tira de lá um mundo de vivências que retratam não apenas suas experiências individuais, mas todo o quadro de um sertão desconhecido das novas gerações.





MEMÓRIAS | CAUSOS | ANEDOTAS | PERFIS BIOGRÁFICOS | HISTÓRIA | REMINISCÊNCIAS | E OUTROS EPISÓDIOS DO TEMPO DA LAMPARINA NO SEGUNDO VOLUME DE MEMÓRIAS DE UM MENINO SERTANEJO. AGUARDEM!

MAIS UM LIVRO DE ARIEVALDO VIANNA.
LANÇAMENTO EM BREVE


segunda-feira, 7 de maio de 2018

EVALDINHO - 77 ANOS



Meus pais, Evaldo e Hathane (foto Karam, 1984)

ANIVERSÁRIO DO VADINHO

Hoje é uma data muito especial, dia do aniversário do meu pai, Evaldo Lima.

Francisco Evaldo de Sousa Lima nasceu no dia 07 de maio de 1941, em Cacimba Nova (Quixeramobim). É o terceiro filho do casal Manoel e Alzira. Vovô só o chamava de Vadinho... Teve pouquíssima instrução. Só freqüentou a escola até o terceiro ano primário, mas é dotado de uma aguda inteligência e grande sensibilidade para a poesia, sobretudo a que chamamos poesia popular, dos cantadores, glosadores e poetas de cordel.
Mesmo com a pobreza e as dificuldades enfrentadas por seus pais ao longo da década de 1940, quando viveu a sua infância, papai guarda boas lembranças desse período. Ele recorda que a sua mãe passava a maior parte do tempo em cima de uma máquina de costura tentando ganhar alguma coisa para ajudar nas despesas do lar. O pai vivia adoentado, mas não perdia a coragem e a vontade de trabalhar.
 Aos poucos as coisas foram melhorando. Quando saíram do Castro para o Ouro Preto, meus avós começaram a prosperar, principalmente depois que vovô começou a investir no ramo comercial, com uma pequena bodega, sem se descuidar contudo da agricultura e da criação de um pequeno rebanho de gado e ovelhas.
Papai sempre foi amigo da leitura e, com seu exemplo, nos serviu de estímulo para que fôssemos amigos dos livros. Como bom autodidata, retém muitos ensinamentos e os transmite através de uma prosa fluente e agradável, entremeada de glosas e citações que aprende no que observa da vida e nas obras que lê.


Casa onde nasceram os cinco filhos do casal (apenas a Vandinha nasceu em Canindé)

Uma pequena amostra de sua prosa foi registrada pelas câmeras da TV Assembléia, através do documentário “Heranças Preciosas”[1], realizado em 2015, com roteiro de Ângela Gurgel, produção de Ana Célia Oliveira e direção de Augusto Bozzo. Durante o período de gravação das imagens, surpreendi-me com sua desenvoltura, pois imaginava o contrário, que ele não renderia diante das câmeras uma conversa segura e espontânea como a que apresentou, ao longo de todo o seu depoimento. O documentário fala de seus antepassados e do gosto pela leitura que nos acompanha desde os tempos do bisavô Fitico.

LINK para o documentário: https://www.youtube.com/watch?v=Untp1SCvLSA

Papai coloca um pouco de poesia e literatura em tudo o que diz. Desde criança, acostumei-me a escutar folhetos, canções, trechos de cantoria que ele retém na memória com incrível facilidade. Faz também seus versos de improviso, de vez em quando. No dia 7 de maio de 2011, completou 70 anos de idade, ocasião em que lhe dediquei esses versos, publicados no blog Acorda Cordel:

PARABÉNS, EVALDO LIMA

 — Hoje o autor dos meus dias
Completa setenta anos,
Vida de sonhos e planos,
Bonanças e tropelias,
Escutando cantorias,
Pois é discípulo da rima...
E para entrar nesse clima,
Juntei uns quatro vinténs
E vou cantar parabéns
Para o bardo EVALDO LIMA.

Nasceu na Cacimba Nova,
Lá no Quixeramobim.
Do começo até o fim,
Faz o bem e tira a prova.
Bandeira que se renova,
Estandarte do cordel,
Vai cumprindo seu papel
E não gosta de mentira.
É filho de dona Alzira
E do vovô Manoel.

Com Hathane é casado,
Sertaneja carinhosa,
Que inspira a sua glosa
E lhe trata com cuidado.
Toda vida foi amado,
Casaram em sessenta e seis.
Por isso digo a vocês:
Dos filhos sou o primeiro
Têm mais cinco no roteiro.
Com a Vandinha, são seis!

Parabéns Evaldo Lima!
Meu verso é de gratidão.
De todo meu coração,
Desse filho que lhe estima,
Que o Pai do Céu, lá de cima,
Prolongue mais sua vida,
Abençoe a sua lida
E, quando um dia o chamar,
Queira por bem lhe abrigar
Ao lado da mãe querida.

07 de maio de 2011

(Texto extraído do livro Sertão em Desencanto - Arievaldo Vianna)




domingo, 6 de maio de 2018

MESTRE DA CULTURA




Hoje, 06 de maio, é o aniversário do poeta João Lucas Evangelista, Mestre da Cultura do Ceará:

De JOÃO GRILO e de CANCÃO
O poeta herdou a manha
A defesa do CORDEL
Foi sempre sua campanha
Sem jamais sair da pista
JOÃO LUCAS EVANGELISTA
MENESTREL DA CALAMBANHA.



Fotos: Arusha Oliveira


LUCAS EVANGELISTA,
O MENESTREL DO REINO DA CALAMBANHA*

“No castelo das pedras sertanejas
Brilha o sonho do povo brasileiro.”
(Ariano Suassuna)

Saímos bem cedo de Fortaleza, eu e meus compadres Stélio Torquato Lima e Arusha Oliveira, seguimos pela BR 0-20 até Canindé e de lá tomamos o rumo de Santa Quitéria, Hidrolândia, Ipueiras e Crateús, munidos de gravadores, filmadoras e câmeras fotográficas. O objetivo era entrevistar o Fabuloso Menestrel do Reino da Calambanha em seu habitat natural.
Se o leitor ainda não sabe quem é o misterioso personagem em questão, trata-se do autor das consagradas canções “Carta de um marginal” e “Tostão de Chuva”, ninguém menos que o velho bardo João Lucas Evangelista. Nascido no ano da graça de 1937, Lucas Evangelista teve a sorte de nascer cearense porque, no século XIX, o nosso Estado resolveu permutar a belíssima Parnaíba, com seu delta exuberante e clima agradável, pela aridez e o calor de Crateús. Se não foi uma boa troca, pelo menos ganhamos um poeta. Fizemos essa pitoresca viagem no “Astronauta Libertário”, um velho carango que meu compadre Stélio mimava com chistes e agrados. Até instalara um aparelho de tocar CD's, razão pela qual a viagem de ida foi embalada por canções de Roberto Carlos e Belchior.



Stélio Torquato, Lucas Evangelista, Arievaldo Viana, Raimundo Cândido e 
o poeta Humberto Paz, membros da Academia de Letras de Crateús-CE.


Como diz a “Canção de Gesta” de Jorge Mello e Belchior, enquanto o som do alto falante rolava e me dava o toque, fui relembrando o início de minha amizade com esse trovador eletrônico chamado Lucas Evangelista. Acompanho o seu trabalho com bastante interesse, desde a época em que o conheci nos festejos religiosos da cidade de Canindé-CE, no comecinho da década de 1980. Ali o poeta comparecia duas vezes por ano, na Festa de São Francisco e no Natal, vendendo folhetos, discos e fitas K7 contendo a sua inspirada produção poética. As canções "Filho de cigano" e "Veniz, o cão de guarda" são as minhas preferidas, embora seu maior êxito nessa seara ainda seja "Carta de um marginal". Dos romances publicados em folheto gosto de "As aventuras de João Desmantelado", publicado pela Editora Luzeiro e "Lucilane, o vaqueiro valente nas vaquejadas do céu", este último um clássico do gênero. Foi Lucas que, de certa forma, me estimulou a publicar meus primeiros folhetos. Por volta de 1997, encontrei o poeta novamente em Canindé, porém bastante desanimado em relação ao futuro da Literatura de Cordel. Disse-me que as principais editoras estavam fechando e que não havia uma nova geração para dar continuidade à tradição. Isso serviu-me de alerta para iniciar uma "campanha" em prol da revitalização do cordel.
Seguramente, minha conversa com Lucas Evangelista em 1997, sobre a situação em que se encontrava o cordel, mais precisamente o folheto, o suporte tradicional da poesia popular, foi o fator determinante para que, a partir de então, eu abraçasse a cruzada de difundir e revitalizar essa arte pelos quatro cantos do país.
Chegamos em Crateús por volta do meio dia e já éramos esperados pelo velho bardo que, juntamente com o escritor Raimundo Cândido, nos levaram até os estúdios da rádio Educadora, onde participamos de uma animada entrevista. Em seguida, fomos recepcionados por membros da Academia de Letras de Crateús, cuja sede funciona na antiga estação ferroviária. Foi ali, cercados por livros, folhetos e homens de letras, que ligamos o nosso equipamento para colher o depoimento de Lucas Evangelista e outros poetas da região. Foi uma conversa longa, reveladora e bem descontraída, mas ao concluir a entrevista me parecia haver faltado algum elemento, algum ingrediente picaresco, já que Lucas Evangelista é um verdadeiro Cancão de Fogo, um amarelinho muito do sabido, como seu xará João Grilo e o irrequieto Pedro Malazartes. Por sinal, seu único irmão chamava-se Pedro, razão pela qual o velho editor Joaquim Batista de Sena os identificava com esses personagens do cordel. Disse-me o Lucas que certa feita eles saíram com duas malas de folhetos para o Mercado São Sebastião, em Fortaleza, quando a esposa de Joaquim Batista de Sena se mostrou preocupada:
— Hein, Joaquim... Você mandou os meninos para o mercado, com essas malas de folhetos e eu acabei de ouvir aqui no rádio que houve uma fuga no presídio e que os ladrões, possivelmente, já se encontram aqui em Fortaleza. E agora?
Sena começou a rir e tranquilizou a esposa desse modo:
— Ora, minha velha, os ladrões é que devem tomar cuidado com os Evangelistas!

(...)

* Trecho extraído do livro NO TEMPO DA LAMPARINA, de Arievaldo Vianna. Lançamento em breve!



sábado, 5 de maio de 2018

DO BLOG CONVERSA DE ALPENDRE


Tenho acompanhado nos últimos dias as postagens do blog CONVERSA DE ALPENDRE, focado na tradição, na cultura, na história e notícias do SERTÃO CENTRAL do Ceará, tendo por base os municípios de Canindé, Madalena, Quixeramobim, Quixadá e adjacências. As matérias são interessantes e trazem referências literárias (caso da postagem de uma bela crônica de Rachel de Queiroz).  Defensores que sempre fomos da CULTURA POPULAR e das coisas do sertão, resolvemos divulgar uma das matérias postadas no referido blog, para a apreciação dos leitores do blog ACORDA CORDEL. Confiram.

A matéria a seguir foi extraída do blog CONVERSA DE ALPENDRE, de Júlio Vieira. Confiram...


Foram distribuídas gratuitamente mudas de plantas frutíferas e nativas


MADALENA REALIZA I FEIRA DA AGRICULTURA FAMILIAR

Voltada para promover geração de renda para o pequeno produtor, e contribuir com a qualidade de vida da população, através do fomento à produção e consumo de alimentos orgânicos no município, a Prefeitura de Madalena realizou, no dia 02 de maio próximo passado, a I Feira da Agricultura Familiar. A prefeita Sonia Costa mostrou-se otimista com os resultados obtidos na primeira edição do evento e promete empenhar-se para que a feira continue se realizando regularmente. “Essa primeira versão da Feira da Agricultura Familiar de Madalena foi meio na base do improviso. Tivemos 15 barracas padronizadas, emprestadas pela Prefeitura de Boa Viagem, porém contamos com uma boa participação dos pequenos e médios agricultores e produtores de Madalena, além de uma boa diversidade de produtos. Nosso objetivo é adquirir um kit de barracas para o nosso município e continuar realizando a Feira regularmente” – disse a prefeita.
Carlos Flaubert Patrício é outro que se mostra satisfeito com a iniciativa. “A feira serve para as famílias venderem seus produtos e ainda evitarem a figura do atravessador. Por ter sido a primeira precisa de alguns ajustes, mas o objetivo foi alcançado. Pretendemos torná-la semanal.”
Milho verde, feijão, jerimum, pimentão, mel de abelha, hortaliças foram alguns dos produtos expostos nas barracas. Houve distribuição gratuita de mudas de plantas. Também houve a comercialização de pequenos animais: aves, ovinos e caprinos. Os participantes ficaram muito felizes com o resultado, porque a feira atraiu bastante compradores.
Na opinião do Diretor de Meio-Ambiente do Município, professor Renê Sousa, trata-se de uma ação de grande importância para o município, pois irá trazer benefícios aos pequenos produtores rurais. “Através da feira podemos mostrar para toda região uma grande variedade de produtos produzidos e criados aqui no município de Madalena (frutas, legumes, hortaliças, derivados de leite, ovos e galinhas caipira, entre outros), bem como irá trazer uma renda extra ao homem do campo.”
Ele avalia ainda que essa feira aos poucos irá se tornar uma tradição, beneficiando também as pessoas que irão comprar, pois ali só tem produtos livres de agrotóxicos totalmente naturais.
“Como filho de agricultor, nascido e criado na roça, vejo que é de suma importância a criação dessa feira, pois estará dando oportunidade para aqueles que trabalham e vivem no campo levar até a cidade as riquezas que são produzidas com muito suor e dedicação, fazendo com que os mesmos tenham oportunidade de expor e vender sua produção sem que precise de atravessador. Madalena está de parabéns por esta ação o qual foi realizada pela Secretaria de Agricultura e apoio das demais secretarias Municipais, com total Apoio de nossa Prefeita Sônia Costa que abraçou essa ideia e colocamos em prática” concluiu Renê Sousa.

QUER SABER MAIS? 

Leia a matéria completa no blog: 
http://alpendresertao.blogspot.com.br/2018/05/uma-boa-noticia.html


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Um poema de Evaristo Geraldo




Poeta Evaristo Geraldo na companhia de Chico Pedrosa, Marcelo Soares
e Arievaldo Viana, em Fazenda Melancia - município de Paulista-PB, terra
natal de Leandro Gomes de Barros.

No sertão de antigamente
Autor: Evaristo Geraldo

No sertão de antigamente
Tudo era mais salutar:
Rios e açudes limpos,
Sem Poluição no ar.
As florestas tropicais
Cercavam nossos quintais,
Era lindo o comtemplar!

Na casa do camponês
Entrava comida pura.
Na merenda sempre tinha
Leite, cuscuz, rapadura,
Água fresquinha no pote,
No almoço capão, capote
Com feijão verde e fuçura.

O jantar do sertanejo
Era farinha e coalhada.
Após o jantar ficavam
No alpendre ou latada.
Ali com muita atenção
Falavam de assombração,
De reinos, príncipes e fada.

Naquelas bocas de noite
Sempre faziam leitura
De romances de princesas,
Ou folhetos de bravura
E o leitor, pouco letrado,
Lá recitava empolgado
Versos com desenvoltura

As crianças do passado
Não desenhava em Corel.
Muitas nunca receberam
A visita do Noel
E por serem mui carentes
Nunca ganhavam presentes,
Nem brincavam em carrossel.

Mesmo sem ganhar presentes
As crianças eram felizes.
Faziam os próprios brinquedos,
As mais belíssimas matrizes.
Com ossos velhos de gados
Faziam bandos, soldados,
Conforme suas raízes.

Antigamente os meninos,
Que moravam no sertão
Para brincar precisavam
Forçar a imaginação
Uns fingiam ser soldados
Ou cangaceiros malvados
Do bando de Lampião.

Quem viveu naquela época
Traz tatuado na mente
Boas lembranças vividas
Ao lado de sua gente,
Cenas que o tempo apagou,
Mas que o cérebro preservou
Lá no subconsciente!

Da infância nós trazemos
Esses referenciais,
São estigmas que conduzem
Pelas veredas atuais.
Memórias, belas lembranças
Vividas, quando crianças,
Junto dos manos, dos país!

Fim


EVARISTO GERALDO