segunda-feira, 26 de junho de 2017

CORDEL NO TEATRO



O RICO GANANCIOSO E O POBRE ABESTALHADO, CORDEL DE ARIEVALDO VIANNA, É ADAPTADO PARA O TEATRO

O cordel “O rico ganancioso e o pobre abestalhado”, de Arievaldo Vianna, foi adaptado pela Murion Cia de Teatro - Padre Paraiso/MG e vem sendo apresentado com sucesso em festivais realizados em Minas Gerais.

SINOPSE:
No sertão, os desígnios de Deus: o homem
ganha o seu pão com o suor do seu rosto.
Dois compadres, um rico e outro pobre, vivem os arranjos
de uma existência assentada na desigualdade social. Seria
essa desigualdade uma determinação divina? Seria possível
o poder dos céus mudar os arranjos terrenos? O rico
ganancioso e o pobre abestalhado é uma história onde o mágico e
a tradição, de mãos dadas, oferecem ao público a força da reflexão.

Duração: 40 min
Classificação: Livre
Ficha técnica: Direção – Armando Ribeiro | Cenografia – Coletivo | Figurino – Coletivo | Maquiagem – Coletivo | Trilha Sonora – Coletivo | Elenco – Cleonice Pereira Dias, Gabriela Ferreira de Lima, Júlio Antônio Ramalho Alves, Leticia Kelly Ribeiro Miranda, Michele Vitória Veiga de Araújo, Izadora Stuhr dos Santos Lopes, Izabela Stuhr dos Santos Lopes, Guilherme Stuhr dos Santos Lopes.

PARA SABER MAIS:



FOLHETO FOI PREMIADO PELO MINC

O RICO GANANCIOSO E O POBRE ABESTALHADO, folheto de 16 páginas baseado num conto popular brasileiro é o nosso trabalho premiado no Edital Patativa do Assaré do PRÊMIO MAIS CULTURA 2010. A edição já se encontra na gráfica e irá circular em breve. De acordo com o projeto apresentado no concurso, parte da tiragem de 3 mil exemplares será destinada ao MINC e haverá também uma parcela para bibliotecas públicas do Estado do Ceará. O restante será comercializado. Eis alguns trechos do folheto:

O RICO GANANCIOSO E O POBRE ABESTALHADO
Autor: Arievaldo Viana

Quando o homem foi expulso,
Cheio de mágoa e desgosto,
Dos jardins do Paraíso,
Deus lhe disse, do seu posto:
- Hás de ganhar o teu pão
Com o suor do teu rosto!

Ficou o homem vagando
Na Terra, Vale de Dores,
Mas logo seus descendentes
Revelaram seus pendores,
Pois surgiram os dominados
E os cruéis dominadores.

O mundo está repleto
De ganância e de cobiça
O rico, quanto mais tem,
Mais o desejo o atiça;
E na contra-mão padece
Quem é pobre ou tem preguiça.

Quem nasce pra não ter nada
A sorte é uma graúna,
Não pode alcançar os louros
Que repousam na tribuna,
Mas há aqueles a quem
Deus promete e dá fortuna.

Nos sertões de Pernambuco
Há muito tempo passado
Viveu um rico sovina
Muito ardiloso e malvado,
Compadre de um camponês
Simplório e abestalhado.

Então o compadre pobre
Tinha preguiça por cem,
Era pai duma ninhada
Miúda igual a xerém
E às custas do seu suor
Nunca ganhou um vintém.

No fundo de uma tipóia
Passava o dia roncando,
Se a mulher reclamasse
Ele saía zombando;
Enchia a cara de cana
Voltava se pabulando.

Estórias mirabolantes
O preguiçoso contava
Se alguém de bom coração
Na conversa acreditava
Ele pedia uma esmola
E assim a vida levava...


(...)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

DEIXE JUNHO PRA SÃO JOÃO


Coletânea "Sobe balão", da SINTER



Com o radialista Carneiro Portela, um defensor da música nordestina.

UM MANIFESTO EM DEFESA DO FORRÓ



Deixe o cavalo pra sela
E o burro para cangalha
O escudo para batalha
Deixe o fósforo para vela
Deixe o pirão pra tigela
Deixe a rota pro timão
Cangaço pra Lampião
E música pro realejo
Mas não toque breganejo
Deixe junho pra São João.

(Arievaldo Vianna)

Esse mote criado por Bráulio Tavares foi glosado por vários poetas. Trata de uma questão preocupante, a descaracterização das Festas Juninas do Nordeste, que estão sendo invadidas por uma onda avassaladora de cantores “breganejos” e bandas de “forruim” ou “forró de plástico”.
Na década de 1970, embora eu fosse muito pequeno, acompanhava com vivo interesse as festas juninas, sobretudo na calçada da casa de meu avô, defronte a grande fogueira que era acesa no oitão. Havia ano de se festejar os três santos: Santo Antônio (13 de junho), de quem minha avó era devota fervorosa e celebrava a sua trezena, São João (na noite do dia 23 para o dia 24 de junho) e São Pedro, no dia 29/06.
As rádios tocavam uma programação espetacular, dando prioridade às músicas de Luiz Gonzaga, Marinês, Abdias, Coroné Ludugero, Trio Nordestino, Elino Julião, Jackson do Pandeiro, Messias Holanda, dentre outros. A gente sintonizava a Difusora Cristal de Quixeramobim, Tupinambá de Sobral, Rádio Assunção, Uirapuru ou Dragão do Mar e a pisada era a mesma: forró da melhor qualidade, machinha, baião, arrasta-pé e também aqueles clássicos de Lamartine Babo, Mário Zan e outros artistas do Sudeste do país.
Cada gravadora lançava um suplemento de músicas juninas. A RCA apostava no seu astro maior, Luiz Gonzaga, mas também lançava canções de Severino Januário, João Silva e outros artistas do seu cast. A CBS reinava com a coletânea chamada “Pau de Sebo”, cujo primeiro volume foi lançado em 1967, sob a produção de Abdias dos Oito Baixos e contando com o Trio Nordestino na sua melhor fase.


A PHILLIPS também investia no período junino com a série “O fino da roça”, onde pontificavam Jackson do Pandeiro, Zé Calixto, Messias Holanda, Zé Catraca e Elino Julião. Essas caravanas de artistas percorriam o Brasil de ponta a ponta, sobretudo o Nordeste, inundando os nossos ouvidos e alegrando os nossos corações com música da melhor qualidade. A coletânea "Quebra pote" também fez história, com artistas como Ary Lobo, Antônio Barros, Jacinto Silva e muitos outros forrozeiros de peso.
Logo se vê que o protesto de artistas como Santana, Alcymar Monteiro, Chambinho do Acordeón, Elba Ramalho, Joquinha Gonzaga e outros considerados representantes do forró verdadeiro, herdeiros da velha GENEALOGIA GONZAGUEANA (como diz Alceu Valença) são mais do que justos. São justíssimos! Estão cobertos de razão em protestar e cobrar mais respeito à nossa cultura, nos poucos meios de comunicação que ainda lhes abrem algum espaço: RESPEITEM A NOSSA MÚSICA – DEIXEM JUNHO PRA SÃO JOÃO.
Em tempo! É importante que se diga que os maiores culpados por essa descaracterização das festas juninas são os prefeitos de cidades como Campina Grande, Caruaru e Mossoró e outras cidades que tradicionalmente festejam o São João. Estão desprezando o forró autêntico, avacalhando a nossa festa mais tradicional, e trazendo artistas do sudeste, com um tipo de música que não tem nada a ver com o período nem a com as tradições de nosso povo.

Resolvi, portanto, registrar o meu protesto em prosa e verso:

Deixe o veneno pro rato
Cadeia para o AÉCIO
E para o eleitor NÉSCIO
Deixe tortura e maltrato
Deixe o peixe para o gato
O corisco pro trovão
O defunto pro caixão
Chinelo pro percevejo
Mas não curta o breganejo
Deixe JUNHO pra SÃO JOÃO.

E digo mais!

Um povo que não defende
A sua própria CULTURA
Se dissolve e não depura
Se equivoca e não entende
Rala muito e não aprende
Perde o sabor e o cheiro
É como um cão perdigueiro
Que perdeu o próprio faro
Morde o amigo mais caro
E não defende o terreiro.


(Arievaldo Vianna)


domingo, 18 de junho de 2017

DO BAÚ DAS LEMBRANÇAS


RETALHOS DA INFÂNCIA

Pra ter animação na festa, 
São João só presta puxando fogo!
(Elino Julião)


Estou puxando pelo FOGO da memória. Lembranças que ardem sem se queimar, paixão que se consome sem arder, fogueira que jamais se apagará da minha coivara de lembranças, ventos que sempre soprarão favoráveis na queima de meu roçado e chuvas que sempre cairão benfazejas em cada coisa que eu plantar durante os dias de peregrinação nesse planeta.

O cordel foi minha leitura de primeira hora, literatura que vislumbrei da soleira das janelas de minha infância, linguagem corriqueira que utilizávamos no dia-a-dia com a vantagem de ser rimada e metrificada. Antes mesmo de aprender o beabá eu já me deliciava com a leitura de minha avó Alzira, corrida e desembaraçada, na toada mais adequada para os folhetos e romances de cordel. Desfilavam diante de mim reis, princesas encantadas, castelos de ouro e cristal, gigantes descomunais, dragões flamejantes, guerreiros medievais, amarelinhos sabidos, o diabo logrado, as fábulas repletas de bichos da fauna nordestina e a saga dos cangaceiros audaciosos. Universo mais lúdico é impossível.



DIFUSORA DRAGÃO DO MATO
(A voz de ouro das Capembas Rajadas)

Depois do Cordel, o rádio era a minha grande paixão. Cheguei mesmo a brincar de radialista, quando menino. A Difusora Dragão do Mato, ZYH 1967 operava num estúdio feito de varas de marmeleiro, coberto de sacos plásticos e galhos de mofumbo, numa capoeira que principiava logo após o monturo da casa de meus avós. O microfone era uma lata de sardinha ligado por fios de arame a uma velha bacia de alumínio, colocada na extremidade de uma longa vara que servia de antena. Eu destruía velhos cadernos escolares para retirar o arame dos espirais e construir os equipamentos da minha emissora de brinquedo. Além de atuar como disk-jóquei e sonoplasta, eu também era o único cantor da emissora, interpretando desde os clássicos de Luiz Gonzaga, o nosso imortal Rei do Baião, às cantigas safadas de Genival Lacerda, João Gonçaves e Messias Holanda:

— Ô lapa de minhoca, eita que minhocão / com uma minhoca dessas se pesca até tubarãããããoooo!

E ainda tinha aquele clássico do comecinho da carreira do grande forrozeiro cearense:

— Ouvi cantar o sabiá na bananeira, amor. Na bananeira ouvi um sabiá cantar... til, til, til, til, canta, canta, sabiá...


A construção do estúdio da Difusora Dragão do Mato principiou meio às escondidas. Vovô não gostava que a gente andasse pelos matos armados de foices e facões derribando moitas de marmeleiro e cavando buracos com alavancas para instalação dos pilares (forquilhas) que sustinham o teto da construção. Para tarefas dessa natureza eu contava sempre com a colaboração dos primos Totonho e Oswaldo, mais velhos do que eu, que ajudavam a pegar as ferramentas no quarto da casa velha, quando vovô tirava uma sesta após o almoço. Com um machado conseguimos cortar quatro forquilhas mais grossas e o restante foi feito com barbante, prego, arame e varas de marmeleiro. Tábuas de velhos caixotes e engradados vazios serviram para montar os móveis do estúdio, um verdadeiro luxo para os meus olhos de criança.
Por trás da emissora ficava o meu curral de gado. Gadinho de osso, feito com as articulações do mocotó das reses e o osso do chambari (foto postada por Carlos Flaubert Patrício de Almeida). Eu brincava também com vagens de Pereiro, que se assemelhavam com uma sela de montaria. O cavalinho podia ser um fruto de mandacaru com quatro patas de cipó... Ali funcionava também a minha olaria, onde eu fabricava tijolos um pouco maiores que uma caixa-de-fósforo, com a ajuda de uma pequena grade que eu mesmo havia construído. Chegamos mesmo a fazer caieiras e botar fogo nesses pequenos tijolos, com o risco de incendiar toda a capoeira. Um dia o Totonho chegou com um plano mirabolante:

— Vamos fazer um açude? Nunca vi fazenda sem açude.
— Um açude? Aonde?
— Nessa grota que passa aqui por trás da rádio. Dá um açude que é uma beleza!
Começamos no mesmo dia. Fizemos um barreiro que dava para nadar, quando muito, meia dúzia de patos. Vovô às vezes se incomodava com aquela movimentação, o sumiço de ferramentas que esquecíamos no lugar da “obra” e aquela brincadeira incessante que lhe parecia uma coisa inútil e ociosa. Naquele tempo, menino sertanejo tinha suas obrigações. Os meus primos, por exemplo, botavam água e lenha, cuidavam de animais e trabalhavam no roçado. Só me ajudavam nessas brincadeiras quando não tinham o que fazer. Eu me dedicava mais ao estudo e à leitura e às vezes ajudava na bodega ou dava água a algum animal. Raríssimas vezes fui recrutado para o roçado. Minha avó, principalmente, achava que meu futuro estava nos estudos e não no cabo de uma enxada. Por isso ria embevecida quando escutava meus programas radiofônicos na Difusora Dragão do Mato, ZYH 1967, a Voz de Ouro das Capembas Rajadas.

* * *


Desde menino eu sonhava em me tornar radialista. O velho rádio de casa era ligado direto, das cinco da manhã até a hora de dormir, sintonizado nas rádios mais populares da época: Difusora Cristal de Quixeramobim, Tupinambá de Sobral, Uirapuru, Assunção e Dragão do Mar, de Fortaleza. Eram todas AM, com repertório eclético e comunicadores que ficaram na história da radiofonia cearense. Aurélio Brasil, Wilson Machado, Guajará Cialdini, Cid Carvalho, Narcélio Limaverde, José Lisboa e Jurandi Mitoso estavam entre os mais populares.
Eu me inspirava, principalmente, no Guajará Cialdini, forrozeiro da melhor cepa, que gostava de intercalar a programação com anedotas, chistes e poemas matutos como A estátua do Jorge, de Alberto Porfírio, Confissão de Caboclo, de Zé da Luz e Mulher super-teimosa, de Jota Amaro. Além desses, eu sabia de cor A chegada de Lampião no Inferno, As proezas de João Grilo e outros cordéis que eu lera desde que me alfabetizara. Os deuses que regem o destino da humanidade prestam muita atenção no que faz uma criança, tanto é que me tornei radialista profissional (redator, produtor, comunicador e radioator) algum tempo depois. Tornei-me também publicitário, ilustrador, escritor, poeta popular e declamador, do jeitinho que havia sonhado quando criança. Mas até hoje, nenhum microfone me deu tanto prazer quanto a velha lata de sardinha da Difusora Dragão Mato de Ouro Preto.

Para concluir, apresento um cordel feito recentemente para o Instituto C&A, que me encomendou um texto sobre brincadeiras e folguedos de um menino sertanejo a fim de inserir numa de suas publicações. Lembrei-me, é claro, da minha infância lúdica e feliz na fazendola de meus avós:



MEUS BRINQUEDOS DE CRIANÇA
 Arievaldo Vianna Lima

— Vou falar das brincadeiras
Do meu tempo de criança
Porque não posso olvidar
Tanta bem-aventurança
Um tempo lúdico, encantado,
Que não me sai da lembrança.

Eu nasci e me criei
Nos sertões do Ceará
Lá em Quixeramobim
Pertinho de Quixadá
E meu primeiro brinquedo
Foi um tosco maracá.

Ouvi canções de ninar
Que a minha mãe cantava
Numa rede de varandas
A noite ela me botava
E solfejando cantigas
Com prazer me embalava.

Três monólitos gigantes
No final da cordilheira
Dominavam a paisagem
Nessa terra hospitaleira
Onde vivi com prazer
A minha infância primeira.

Nesse lugar encantado
Onde só reina alegria
No meio dos meus parentes
Como num sonho eu vivia
Lá, a própria natureza
Só respira poesia.

As aves cantam nos galhos
Trina a cigarra na mata
Os cristais resplandecentes
Parecem de ouro e prata
E o olho d'água da fonte
Jorra em suave cascata.

No sopé da cordilheira
Que se ergue abruptamente
O sabiá laranjeira
Canta sublime e plangente
O sol dardeja os seus raios
Tocando a alma da gente.

Preás se escondem nas locas
Com medo dos predadores
Inhambus arrulham nas matas
Atraindo os caçadores
Abelhas zumbem na relva
Sugando o néctar das flores.

No sopé dos três serrotes
Tudo é encanto e beleza
Seus habitantes convivem
Em paz com a natureza
E os monólitos ostentam
O seu porte de nobreza.

No ano sessenta e sete
Do outro século passado
Nasci naquele recanto
E fui por Deus inspirado
A beber daquela fonte
Perto do reino encantado.

Ao completar oito anos
Meu pai, um agricultor,
(Também um iniciado
Na arte de trovador),
Levou-me pra ver de perto
Aquele grande esplendor.

Todo esse imaginário
Ficou na minha lembrança
Jamais vivi nada igual
Ao longo de minha andança
Como as lindas brincadeiras
Dos meus tempos de criança.

A criança hiperativa
Era chamada “malina”...
Construindo meus brinquedos
Eu gastava adrenalina
Porque sou um sertanejo
Do tempo da lamparina.

Fui crescendo curioso
E muito observador
Lá eu vi bumba-meu-boi,
Sanfoneiro e tocador
De viola em desafio
Na gesta do trovador.

Raramente eu ganhava
Brinquedo industrializado
Meu pai era agricultor
E tinha um belo roçado
Juntei cabelos de milho
De pelo fino, alourado.

E mesmo sem conhecer
Lobato, o grande escritor
Com a palha e os sabugos
Eu também fui inventor
Construindo o meu 'Visconde'
Mas não era falador...

Quando era tempo de inverno
Eu saia com certeza
Procurando borboletas
E via tanta beleza
Que deitava sobre a relva
Em paz com a natureza.

Posso dizer que vivi
Felicidade notória...
Agora, o momento mágico,
Que não me sai da memória
Era quando a minha avó
Nos contava alguma estória.

Quando eu era pequenino
Nos alpendres do sertão
Que ouvia: “ Era uma vez...”
Ficava de prontidão:
Já sabia que as estórias
Jorravam em profusão.

Os meninos do sertão
Bebiam a nossa cultura;
Os mais velhos transmitiam,
Em prosa franca e segura
As estórias de Trancoso
Em oralidade pura.

Belos romances rimados
(Os folhetinhos de feira)
Eram lidos em voz alta
No alpendre e na bagaceira
Dos engenhos de açúcar
Para toda cabroeira.

O Fiscal e a Fateira
Os Cabras de Lampião
A Vida de Pedro Cem
Testamento de Cancão
O Crente e o Cachaceiro
Numa grande discussão.

Martírios de Genoveva
E a Donzela Teodora
São romances que o povo
Guarda, conserva e adora
E a criança inteligente
Lê, admira e decora...

Cancão de Fogo e João Grilo
Aderaldo e Zé Pretinho
Juvenal e o Dragão
Eu li tudo com carinho,
No alpendre, em voz alta,
Rodeado de vizinho.

Mas hoje em dia o sertão
Está se modificando,
De uns trinta anos pra cá
A cultura está mudando
Nosso povo regredindo
Pensa que está avançando.

As crianças de hoje em dia,
Depois da televisão,
Só gostam de vídeo-game,
Internet e “Malhação”,
São os sintomas maléficos
Da tal globalização.

No meu tempo de menino
O tempo corria lento,
A gente matava o tempo
Sorvendo cada momento...
A tudo que acontecia
Eu sempre ficava atento.

Brinquei de gado-de-osso,
De carrapeta e pião,
Em cavalinhos de pau
Corria pelo sertão...
Com prego, lata e madeira
Fazia o meu caminhão.

Um parque de diversão
Só raramente chegava
Nas festas do padroeiro
E pouco tempo ficava
Porém depois que partia
Muita saudade deixava.

Quando cheguei na cidade
Ainda estou bem lembrado
Na pracinha principal
Chegou um circo afamado
Eu passei o dia inteiro
Vendo o circo ser montado.

Acompanhar o palhaço
E cantar o seu refrão
Nos garantia um ingresso
Para a grande diversão...
São coisas que eu não vejo
Hoje em dia, no sertão.

Mas, de toda diversão,
Do meu tempo de criança
O contador de estórias
Jamais me sai da lembrança
Essa figura encantada
Renova a minha esperança.

Eu tenho muita saudade
Dos saberes e cantares
Vovô sabia narrar
Muitas lendas populares
Tinha o urubu e o sapo
Numa festa, pelos ares.

Tinha o macaco e a onça
A raposa e o “cancão”
Dois gênios da esperteza
Como reza a tradição;
No fim da fábula, a moral,
Trazendo alguma lição.

Por tudo quanto vivi
Me tornei um menestrel
Penso rimas, traço trovas
Em pedaços de papel
Eis o que me transformou
Num poeta de cordel.

Nessa teia do passado
Foi bom desatar os nós,
Reviver em poesia
Usando a pena e a voz,
Sem retirar da lembrança
A casa dos meus avós.

FIM 


As vagens do PEREIRO eram selas de montaria, na nossa imaginação infantil.
(Foto Carlos Flaubert Patrício de Almeida)