quinta-feira, 19 de julho de 2018

XILOGRAVURA x "INFOGRAVURA"



Ciclos Temáticos na Literatura de Cordel

Li hoje uma notícia sobre o livro Ciclos Temáticos na Literatura de Cordel, lançado pela Graciliano Ramos Editora (Imprensa Oficial de Alagoas) e escrito por Manuel Diegues Junior. Nesta obra, o autor faz uma análise dos temas mais comuns na literatura de cordel nordestina e de como esses temas são abordados por cada poeta.
A capa foi elaborada pelo artista gráfico Daniel Holgrefe, que informa o seguinte em sua página: “Fui convidado para ilustrar a capa e não dava pra fugir do tema cordel, então me baseei nas capas feitas em xilogravura de mestres como J. Borges e criei alguns personagens e ambientes. Queria mesmo era fazer uma xilogravura, na madeira e tal, mas o prazo às vezes não deixa né…” O design ficou por conta do Michel Rios.
Realmente esse desenho imitando a xilogravura, que eu costumo chamar de “infogravura”, tem ganhado muito espaço em várias publicações e outras mídias visuais, inclusive comerciais e abertura de programas de TV, mas nada como a gravura impressa a partir de uma boa matriz de madeira, já que o resultado é bem mais original. (A.V.)

PARA SABER MAIS:
Link: https://danielhogrefe.wordpress.com/2012/12/09/ciclos-tematicos-na-literatura-de-cordel/




segunda-feira, 2 de julho de 2018

LUTO




Morre jornalista e escritor Orlando Tejo
Paraibano, natural de Campina Grande, Tejo é autor do livro "Zé Limeira: o poeta do absurdo"


O jornalista, advogado, ensaísta e poeta, Orlando Tejo, autor do famoso livro “Zé Limeira: o poeta do Absurdo” faleceu neste domingo (01/07). Aos 83 anos, natural de Campina Grande, na Paraíba, ele é autor do livro Zé Limeira, Poeta do Absurdo, editado no início dos anos 80, que conta a história do cordelista, cantador bom de viola, mais mitológico do Brasil.

Tejo testemunhou ainda jovem muitos dos desafios do qual Limeira participou. Chegou a registrar algumas gravações de voz, que não existem mais. O que conseguiu memorizar colocou no papel e editou o livro. Na obra, ele relata como conheceu Zé Limeira, em 1940, e conta alguns causos, entre eles a história de que o governador de Pernambuco, Agamenon Magalhães, promovera no palácio um encontro de repentistas com a participação de Zé Limeira. Muitos acham que Zé Limeira não existiu, que era uma lenda criada por Orlando Tejo.

O governador Paulo Câmara, por meio de sua assessoria de Comunicação, lamentou a morte do jornalista e escritor Orlando Tejo. "Quero apresentar meus sinceros sentimentos de pesar pela morte do jornalista, ensaísta e poeta Orlando Tejo. Sua longa produção intelectual expressa a importância para a cultura de Pernambuco e do Nordeste, especialmente por sua obra seminal "Zé Limeira – Poeta do Absurdo". Minha solidariedade ao seus familiares, amigos e admiradores".

Fonte: DIÁRIO DE PERNAMBUCO http://www.diariodepernambuco.com.br

A partir de um mote sugerido pelo poeta Kydelmir Dantas, fizemos essas duas estrofes:

Segundo a filosomia
Do livro de Alan Kardec
Orlando Tejo foi beque
Na seleção da Turquia
E me disse um certo dia
Que cantou com Xeleléu
Andando de déu em déu
Leu a manchete primeira:
“ORLANDO TEJO E LIMEIRA
DOIS ABSURDOS NO CÉU”

Orlando Tejo brigou
Com uma cobra na mata
Depois mordeu a batata
Foi assim que escapou
Zé Limeira ainda atirou
No meio desse escarcéu
Depois que baixou o véu
Foi que viu a bagaceira
ORLANDO TEJO E LIMEIRA
DOIS ABSURDOS NO CÉU.

(Arievaldo Vianna)


terça-feira, 26 de junho de 2018

RESENHA




No Tempo da Lamparina

(Arievaldo Viana em busca do tempo vivido)

Recebi com o atraso costumeiro dos correios algumas semanas atrás o livro No Tempo da Lamparina, do grande amigo Arievaldo Viana, o segundo de uma trilogia sobre suas memórias de infância, que se iniciou com o Sertão em Desencanto. E melhor forma não poderia ter escolhido o poeta para marcar a passagem do seu cinqüentenário que a produção dessa trilogia, que a julgar pelos dois primeiros volumes, já nos põe a esperar ansiosos pelo terceiro tomo.
Escacaviando os caminhos das lembranças em busca do tempo vivido, tendo a luz da Lamparina como guia, nas brenhas mais remotas da memória, o novo livro de Arievaldo Viana nos apresenta o reino encantado do sertão de sua infância. Sertão saudoso, quase em extinção das ‘mulher séria e dos homem trabalhador’ do cantar inconfundível de Luiz Gonzaga; além disso o memorialista relata seu processo de formação como leitor de cordéis, os causos de sua família, a sua difícil e dolorida migração para Fortaleza quando ainda adolescente viria a encontrar o vasto mundo. E por fim, elenca os perfis de poetas populares que construíram seu imaginário como: Lucas Evangelista, Gonzaga Vieira, Alberto Porfírio e outros. Fazendo com isso do livro No Tempo da Lamparina um retrato profundo do gosto de vida no sertão do Nordeste brasileiro nas décadas de 70, 80 e 90 no final do século XX.
Na prosa do escritor assim como nos seus cordéis aprecio a clareza da linguagem e a fluidez dos textos, e é claro, aprecio o senso de humor, à moda dos cearenses, sempre associado à inteligência e refinado. Com esse trabalho Arievaldo Viana firma-se de modo definitivo como um grande memorialista do panteão sagrado de nossas letras alencarinas, ao lado de Gustavo Barroso, de quem, diga-se de passagem, é leitor contumaz.

Bruno Paulino - Escritor

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Sertão Lamparina



O ELEMENTO FICCIONAL NO LIVRO 
“NO TEMPO DA LAMPARINA”, 
DE ARIEVALDO VIANNA

                 Maércio Siqueira

Quando nós, simpatizantes da análise textual e da crítica literária, nos pomos a ler um livro, procuramos nele algo como originalidade, unidade, universalidade, estilo, e principalmente a criatividade, ou invenção, que devem estar presentes principalmente nas obras com clara finalidade literária. Não é a  forma mais espontânea de se ler, é bem verdade, mas trata-se de uma leitura que expõe os valores estéticos de uma produção ou a ausência de tais valores, quando deveriam existir. Ao primeiro lance de vista, não poderíamos abordar por esse prisma o livro de Arievaldo Vianna, “No tempo da Lamparina”, recentemente lançado, uma vez que, embora sejam crônicas, estas visam à narração de eventos reais, acontecidos. Porém um olhar mais atento dessa obra vai trazendo à luz o elemento ficcional, senão exatamente como invenção de eventos, pelo menos no estilo, bastante rico, vibrátil e inteligente.

Arievaldo não se limita à narração dos fatos. São crônicas e não reportagens. Seleciona cenas, episódios, estabelece uma ordem, por importância de afeto, no quadro vivo da reminiscência. Mesmo quando esteve mais preso a datas e sequências cronológicas, como no livro anterior “O Sertão em Desencanto”, essa mesma ternura da linguagem se fez presente. O fato é que o nosso autor sabe temperar as frases, torná-las saborosas, como no seguinte exemplo: “A missiva envelopada tinha caráter de coisa séria e eu entrei em pânico. A carta do cabra velho dizia mais ou menos o seguinte(...)” (página 47). Daqui se deduz o cuidado com a língua, a busca de expressividade, a não vulgarização do idioma. Também aí se apimenta o episódio, cria uma expectativa no leitor, e isso não diz respeito ao fato em si narrado, mas já é uma característica do narrador, arrumando o caso, tornando-o mais interessante, “enfeitando”, como ele próprio diz, arte que aprendeu com parentes próximos.  No capítulo II, intitulado “Quando me entendi por gente”, essa preferência pela invenção, pelo “enfeite”, é confessada através de alguns episódios. Para ilustrar nossa abordagem, vale a seguinte passagem, referindo-se à descoberta, pelo mais velhos de sua família, de sua forma exagerada de contar as coisas, quando criança:

“Lá se ia eu remendar a história e contar como realmente acontecera: insossa, desenxabida, medíocre e sem graça. Por que não me deixaram exercitar as artes de ‘literato’, como faziam livremente o Raimundo Viana e o Gabriel? Até o João da Graça, empregado do meu avô, podia contar suas meias verdades impunemente, a céu aberto” (p. 58)

Temos razão em acreditar que essa consciência literária não era apenas uma mania ou traço de sua personalidade infantil. O adulto e escritor, podemos ver isso a todo instante em seus textos, está sempre procurando desviar-se da sensaboria da expressão comum. Os fatos, reais, ocorridos, são contados com arte, com delicadeza, revestidos dos comentários mais interessantes. Sua prosa está cheia de referências literárias e culturais, regionais, pessoais e universais. Como as coisas podem ser vistas de maneira crua, sem sabor, se o sujeito que olha tem um universo na cabeça, de lembranças, de leituras as mais variadas e eruditas? E, além disso, um bem educado senso de humor?

Não se trata, portanto de um livro de puro registro. Não notamos no autor aquela ansiedade de falar de si mesmo. Deseja nos mostrar um mundo, do qual ele fez parte e do qual agora é um porta-voz. Mas esse mundo não existe mais; para que tenhamos ideia dele, precisa ser contado, ou recontado, não em um realismo fotográfico, mas pela afetividade da palavra. E assim como a lamparina emprestava o efeito alucinatório de suas chamas às cenas que realmente aconteciam, o nosso autor empresta essa chama tremulante e vívida, para darmos uma olhada naqueles tempos idos.

Por isso, considero “No tempo da Lamparina”, bem como “O Sertão em Desencanto”, trabalho de arte literária, e que devem ser vistos como tais.

Deve ser lembrado que esse livro faz parte de um interessante projeto, sendo o segundo livro de uma desejada trilogia. O autor vem sendo bem-sucedido nas duas obras já realizadas. Quando estiver completa, então entenderemos a totalidade do que Arievaldo tem em mente. Veremos o que ele terá criado. Deus conceda a Arievaldo todas as condições para que escritor valoroso venha a concluir um plano tão importante no palco das letras cearenses.




Casa de taipa - xilogravura de Maércio Siqueira

Ao pé do rádio - Xilo de Maércio Siqueira



AGRADECIMENTO A MAÉRCIO SIQUEIRA
E uma ligeira divagação sobre a sua arte como xilógrafo e escritor

Mais uma vez fico deveras comovido com a sua generosidade, não apenas com relação a acolhida ao meu trabalho (de escritor provinciano e longe dos holofotes midiáticos) mas, sobretudo, pelo fato de comentá-lo com muita propriedade e acerto. Alguns episódios desse livro "No tempo da lamparina - II volume de memórias de um menino sertanejo" são esboços de um romance embrionário que venho engendrando há alguns anos, sem coragem (e tempo) de arregaçar as mangas para trazê-lo à lume... Algo nascido no tempo do velho candeeiro sertanejo talvez fique ofuscado diante dos modernos holofotes cosmopolitas. Entretanto, a frase de Tolstoi continua me encorajando, aquela que afirma que a melhor maneira de sermos universais é falarmos de nossa aldeia. A persistência de Luiz Gonzaga em cantar os ritmos e costumes do povo nordestino sofreu os piores preconceitos, as maiores afrontas e entraves nas suas primeiras tentativas. Mas o tempo, a quem se atribui o título de Senhor da Razão, se encarregou de provar que o menino de Exu - filho adotivo do Crato (o Cratinho de açúcar, coração do Cariri), como ele, carinhosamente, se referia, estava certo!

Quem se abeira das veredas de seu chão nativo, e se abebera das fontes sertanejas, pisa na folha seca e não chia. Bebe nas cacimbas sagradas da cultura popular e rejuvenesce a cada nesga de lembrança que consegue resgatar das entranhas do cérebro ou das conversas com pessoas que estão sintonizadas com esse universo. É exatamente isso que você consegue com a sua poesia, com a sua prosa e, sobretudo, com as suas xilogravuras, tão ricas de detalhes e simbologia, tão comprometidas com esse chão sagrado em que nascemos e onde temos a graça de habitar. Até mesmo quando você reproduz uma cena bíblica, como a fuga da Sagrada Família para o Egito, eu consigo vislumbrar claramente as expressões nordestinas de um José Sertanejo, cambiteiro dos antigos engenhos de cana do Cariri cearense; de uma Maria dona-de-casa, acostumada a lavar roupa na Pedra da Batateira e outras nascentes da região e de um Menino Jesus amamentado com leite de cabra e mingau de araruta, com seus cueiros cheirando a sabão de oiticica e alfazema.

É a perfeita simbiose de Gustave Doré com Mestre Noza! O estilo impecável dos grandes gravadores europeus misturando-se com o traço inconfundível de Stênio Diniz, Damásio Paulo, Antônio Relojoeiro e Walderedo Gonçalves. Naturalmente que você tem o seu próprio estilo e não seria exagero afirmar que você já se projetou como um dos mestres da gravura do Cariri em matéria de estilo e rebuscamento, tornando-se um mestre no ofício que abraçou.

Do Maércio poeta e prosador eu não me aventuro a traçar um perfil, embora já tenha saboreado alguns de seus escritos. É que não tenho a pretensão de ser crítico literário, porém, como leitor, asseguro que gostei, aprovei e recomendo. É uma escrita que tem o mesmo sabor de uma rapadura batida ou de um arroz temperado com piqui.


Arievaldo Vianna

quarta-feira, 13 de junho de 2018

MEMÓRIAS DA LAMPARINA


Arievaldo Vianna

O SERTÃO DA NOSSA INFÂNCIA

Texto de Sérgio Araújo sobre o livro 'No tempo da lamparina'




Através do olhar encantado do então menino Arievaldo Viana, o sertão do tempo da lamparina ressurge com toda a sua magia - cheiros, cores, sons e imagens parecem ressoar no silêncio de nossas almas, com um encanto único. Arievaldo, como hábil escritor, soube captar nuances de um tempo em que nossa cultura era pura como água de chuva, daquelas do fim de tarde, no sertão, em que os grossos pingos batem no telhado com tanta força que parece que vão quebrar as telhas. E o cheiro que se seguia? Apesar dos carões dos mais velhos, fazíamos toda a questão do mundo de sorver aquele aroma com toda nossa alma.
Esse é o No Tempo da Lamparina, uma viagem feita no lombo do jumento, calçado com chinela de couro ou de pneu. Pros que viveram esse tempo, é um gostoso reencontro com “aquele cheiro meu”, como na música do Luiz Gonzaga, em que ele retorna pra casa e, numa madrugada dessas do sertão, reencontra seu pai no abrir da tramela de uma janela.
O dragão chamado progresso, com seus asfaltos, sua televisão e seu aculturamento encarregou-se de levar tudo isso pra longe, mas especialmente para quem teve o prazer de saborear algo desse velho tempo, não há nada mais gostoso do que reviver tudo aquilo, ainda que seja por meio da auto-hipnose a que deliciosamente nos submetemos ao ler essa obra ímpar.
Obrigado, Arievaldo, obrigado, por ter abraçado sua arte com tanto amor. Os frutos desse amor estão cativando muitos corações por aí afora. E o meu certamente é um deles.



Sérgio Luiz Araújo Silva

segunda-feira, 11 de junho de 2018

RESENHA

O POETA E EDITOR POTIGUAR GUSTAVO LUZ AVALIA O LIVRO 

NO TEMPO DA LAMPARINA

Quem nasceu, ou por alguns momentos de sua infância, passou férias no sertão, encontrará no mais novo livro do poeta e escritor Arievaldo Vianna, as chaves para muitas dúvidas de seus costumes e gostos que por algum momento você não sabe de onde veio.
Em No tempo da lamparina, Ari, para os mais próximos, esmiúça sua infância de menino da roça, para chegar a uma conclusão cabível pelo seu amor à cultura e a literatura popular. As estórias de trancoso que escutava da velha Bastiana e sua neta Rita Maria, fez com que os impressos em folhetos parecessem verdadeiros ou, pelo menos, plausíveis, como escreveu no inicio de conversa.
Escutar estórias de almas penadas, botijas, encantamentos em pleno sertão sem eletricidade, alumiado nas noites pelas lamparinas, com sua luz bruxuleante, criando imagens imaginarias de bichos nas paredes de taipa, e acompanhado das leituras dos folhetos de sua avó Alzira, guardados na mala em cima do caixão de farinha, fez com que o poeta, caminhando em cima dos lajedos, em baixo das velhas oiticicas, já criasse seu mundo de estórias e imaginações. De onde, num futuro próximo, extraiu bagagem suficiente para escrever seus romances e seus versos rimados cheios de fantasias e humor.
Arievaldo nasceu poeta e contador de histórias, sempre bem humorado, foi na casa de sua infância onde encontrou a munição que precisava para o enriquecimento de sua memória. A prova disso está no seu O TEMPO DA LAMPARINA, livro, para a nova geração ficar informada que nem sempre o sertão foi um local de pessoas alienadas e sem matrizes culturais.
Permeado com as músicas que lhe acompanhou durante sua vida, Arievaldo consegue fazer um pequeno relado do papel que teve a música nordestina, na formação do individuo que procura a sabedoria, como um remédio para momentos difíceis de nossa existência.
No sertão do tempo da lamparina, sabia-se a hora de plantar, de colher e de armazenar. Sabia-se o que era educativo, e mesmo sem estudos, os mais velhos tinham visão de vida e de futuro. E foi assim com Arievaldo Vianna, onde seus pais, logo procuraram escola para os filhos, porque sabiam que a educação andava de mãos dadas com o bem-estar. E foi na cidade onde ele tornou-se escritor e poeta.
Essa parte não contarei, lendo as 270 paginas do volume, você saberá como o poeta conseguiu ser um dos melhores cordelistas do Brasil. Boa leitura!
Gustavo Luz - Poeta e Editor

quinta-feira, 7 de junho de 2018

RECADO PRO TONICO



Patrícia, Tonico, Pedro Uchoa e Arievaldo Vianna

UM BREVE RECADO PARA O MEU AMIGO TONICO MARREIRO

Foi com um misto de surpresa, apreensão e pesar que recebi a infausta notícia sobre o estado de saúde do amigo Tonico Marreiro, radialista, poeta, escritor e folclorista dos Sertões de Canindé. Após submeter-se a uma delicada cirurgia, Tonico entrou em estado de coma e sobrevive por meio de aparelhos. As informações mais recentes, colhidas junto a alguns familiares, dizem que, segundo a avaliação médica, essa situação é praticamente irreversível. Conhecendo a garra e a vitalidade desse menino de quase 75 anos de idade, eu não me surpreenderia caso o nosso Tonico desafiasse os diagnósticos da Ciência e reaparecesse com o bom humor de sempre, contando que durante esse estado de letargia havia conversado com o Bunaco, o Homerinho, o Pierre Mesquita, e ainda por cima mangando do seu compadre Toinho Walberto, dizendo que pretende passar mais uns quinze ou vinte anos aqui na terra, para somente fazer a viagem derradeira na sua companhia.
Conheço Tonico há mais de trinta anos, desde quando dei os meus primeiros passos no meio radiofônico. Para ser mais exato, antes mesmo de ingressar na antiga Rádio Uirapuru de Canindé. É que o Tonico me levou, ainda meninote imberbe, para uma apresentação no programa Ceará Caboclo, de Carneiro Portela. E nessa caravana foi também o Coral do Frei João Pinto, o pessoal da Banda de Música do saudoso maestro Jota Ratinho, os poetas Gonzaga Vieira e Natan Marreiro, além do compositor Jota Batista, dentre outros. Era uma pequena amostra da arte e da cultura do seu amado Canindé que aparecia diante das câmeras da antiga TVE (TV Educativa) hoje TVC (TV Ceará). Passou-se algum tempo. Depois fomos colegas de prefixo nas rádios Jornal de Canindé AM, Rádio São Francisco de Canindé AM e Rádio Cidade AM de Fortaleza-CE.



Ao longo dos tempos, apesar de pequenas e eventuais divergências, sempre mantivemos um espírito de amizade, camaradagem e de colaboração mútua, interessados que somos pela boa música, pela cultura sertaneja e pelas tradições de Canindé e demais municípios da Região Central do Ceará. O anedotário local era o principal tópico de nossas conversas e sempre que nos encontrávamos ele desfiava um excelente repertório de figuras inesquecíveis como Miguel Carpina, Barros dos Santos, Silazinha, Monte Pintor, Antonio da Gunda etc. – figuras que nem cheguei a conhecer, e também os “tirados de loro” de seu saudoso pai Raimundo Marreiro (que vi apenas duas ou três vezes) e do nosso saudoso Bunaco, figura com a qual andei trocando “figurinhas” em mesas de boemia do Mercado Velho e Praça Azul.


Minha esposa Juliana e meu filho Yuri, a quem o Tonico chama carinhosamente
de "meu genro", numa manhã de junho em Caridade-CE.


O MAL SÚBITO E A CRENÇA NO PODER DIVINO

Sabendo que Tonico é um homem espiritualizado, sintonizado com as energias que emanam do Plano Superior, peço apenas que se cumpram os desígnios de Deus e que tudo aconteça de acordo com a vontade do nosso Criador. O que todos nós desejamos – irmãos, esposa, filhos, sobrinhos, amigos e admiradores é que ele retorne à lida, tocando a nossa Academia de Letras, apresentando o seu programa de rádio e contando as suas divertidas lorotas nas esquinas e calçadas de Canindé e Caridade.
Pelo muito que representa para a Cultura de Canindé, Tonico é digno de todas as homenagens. Seu último bastião de resistência foi a criação da ACLAME – Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória de Canindé, da qual sou membro, ocupando a cadeira de número 3, cujo patrono é o historiador Francisco Magalhães Karam.

Aguardemos, portanto, que os desígnios de Deus sejam cumpridos e que haja um pronunciamento oficial da família a respeito desse assunto tão delicado... Afinal, diz a sabedoria popular: “ENQUANTO HÁ VIDA, HÁ ESPERANÇA”. Por enquanto, torço pela sua volta e solidarizo-me com toda a família Marreiro e com todos os amigos e admiradores do poeta, que construiu com caráter e denodo uma bela página na história da cultura canindeense. Porém, como já foi dito, de acordo com os ditames celestes.


Tonico e Bunaco


UM POUCO DA BIOGRAFIA DO POETA

PARA QUEM NÃO SABE, informamos que seu nome de batismo é Antônio Gonzaga Marreiro, filho do poeta e folclorista Raimundo Rodrigues Marreiro e de dona Laura Gonzaga Marreiro. Nasceu em Canindé no dia 17 de junho de 1943. O apelido Tonico foi dado pelos familiares e o acompanha desde os primeiros dias de nascido.

A última vez que nos falamos, por telefone, TONICO pediu-me para lançar nesta data, 17 de junho, o meu novo livro “NO TEMPO DA LAMPARINA – MEMÓRIAS DE UM MENINO SERTANEJO” e trabalhava nesse sentido, a fim de conseguir um espaço adequado que pudesse congregar todos os membros da ACLAME e o público em geral. Diante das circunstâncias, só nos resta aguardar o que está por vir.

(ARIEVALDO VIANNA)