sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DIA DE REIS NA FORTALEZA ANTIGA


Jean Baptiste Debret: Arrecadação de esmolas para a festa do Rosário

O DIA DE REIS NA FORTALEZA ANTIGA

No livro ‘Scenas e Typos’ do escritor Rodolfo Teófilo há uma bela crônica intitulada Através do passado, que fala de um ritual que ocorria na Fortaleza antiga, antes da abolição dos escravos: a coroação do rei e da rainha dos pretos na vetusta Igreja do Rosário. Repasso, a seguir, os principais trechos da referida crônica:

ATRAVÉS DO PASSADO

Igreja do Rosário (Fortaleza Nobre)

Eu ouvia missa dominical na igreja do Rosário, em que me batizaram, havia mais de meio século. Este pequeno templo, antes de edificada a Sé, servia de matriz.
Frequentavam-no então o governador da capitania e a elite da cidade, composta de portugueses.
Era também a igreja dos escravos, mas isso uma vez no ano. Tinha patrimônio e irmandade. Celebrava-se nela a festa da padroeira, com missa cantada e assistência real. Ainda alcancei esse tempo, que já vai longe. Era o dia dos cativos o dia 6 de janeiro, dia de Reis.
Em seu dia, esses desgraçados eram livres, tanto que tinham pátria como os seus imperantes.
À hora da missa, seguiam para a igreja o rei, a rainha e a corte. O rei era um preto já idoso, de manto, cetro e coroa. A rainha, uma escrava, meio velha, acompanhada de suas damas de honor. Na capela-mor estava armado o trono, em que se deviam sentar suas majestades.
Logo que chegava o rei com a sua corte, entrava a missa, que era cantada, com repiques de sinos e foguetes. O casal de escravos sentava-se no trono com ares de quem estava convencido da realidade da sena, representada também pelos reis dos brancos, tão ou mais ridículos de cetro e coroa do que ele. Acabada a missa, saia o cortejo real de cidade à fora até o ‘palácio’, em que passava o resto do dia a comer, a beber, a dançar, festejando as poucas horas de liberdade que todos os anos lhe concediam os senhores da terra, que primeiro libertou os seus escravos.
(...)
As senhoras de distinção iam à missa em palanquim. Entre elas estava a minha avó paterna, para quem o marido, o português Manoel José Teófilo, negociante abastado, mandaram vir da terra um muito lindo.
Comprara uma parelha de escravos, parecidos, como se fosse cavalos de sege, atrelados, carregando a senhora para a igreja. Quando minha avó me contava esta história, eu, que era tão abolicionista quanto ela escravagista, condenava aquela barbaridade; a velhinha ria-se e dizia-me que o escravo vinha do começo do mundo.
(...)”

(in 'Scenas e Typos', Rodolfo Teófilo - Fundação Waldemar Alcântara, edição fac-similar)


HISTÓRIA DA IGREJA DO ROSÁRIO

Em Fortaleza, vila nascente onde estava instalada a administração da Província do Ceará Grande, como em muitas outras cidades do Brasil, os homens de cor, embora não fossem em grande número, procuraram, desde cedo, ter o seu próprio templo, já que eram discriminados nas igrejas construídas pelos brancos. E, assim como em outras partes, sua devoção dirigia-se a Nossa Senhora do Rosário, considerada sua Padroeira.
A tradição diz que já em 1730, um preto africano construiu, no mesmo local onde está a atual, uma capelinha, de taipa e palha, onde os negros rezavam terços e novenas, na época bastante distante da Vila, centralizada em redor da Matriz de São José.

Debret:  Casamento de negros

A Primeira Festa

A primeira festa dedicada a Padroeira realizou-se ali no dia 27 de outubro de 1747, cobrando os padres que funcionaram nos atos religiosos a quantia de 10$000 pela missa e 7$000 pela música. A partir de então, todos os anos, vinham os pretos, escravos ou forros, nos bandos de congos dançarem na Noite de Natal em frente à Igreja, para festejar a Virgem. Era grande o número de pessoas que vinham prestigiar a solenidade, inclusive autoridades. Em certas ocasiões a festa do Rosário alcançava raro esplendor. Como lembra João Nogueira, em sua "Fortaleza Velha" era festa de pretos, mas levada com grande pompa e luxo, as negras escravas ostentando cordões de ouro, brincos e jóias de valia, que suas bondosas senhoras lhes emprestavam para que se apresentassem como o espavento e brilho exigido pela importância da missa e coroação dos reis.
Assim, era na igrejinha do Rosário, toda caiada de novo, que se procedia ao ritual da coração do rei, do rei dos Congos, do rei do Rosário, com sua rutilante coroa à cabeça, seu vistoso manto de tecido de algodão aveludado, de um vermelho vivo, contrastando com colete verde e calças azuis, e sempre acompanhado de sua corte, de onde se destacavam as figuras do "príncipe" e do "secretário", com seus chapéus de abas largas enfeitados de brilhantes conchas.E pelas ruelas nascidas na beira do mar, rumo ao sul vinha o cortejo, cantando e executando bailados e jogos de agilidade, simulando combates, rumo ao Rosário.
O Secretário, então, perguntava: Os pretinhos dos congos, pra onde vão?
O coro respondia: Nós vamo pro Rosário. Festejá a Maria.
Secretário: Oh! Festeja, oh festeja, oh festeja. Com muita alegria.
Coro: Nós vamo pro Rosário, Festejá a Maria.
Secretário: É de zambi a pumba. É de bambê.
Coro: Miserere, miserere. Misere rê.
Secretário: Papaconha, papaconha. Peneruê.
Coro: É de zambi a ponga. E qui bambê.

Maria Moreira e Joana Rodrigues, filhas de Jorge Rodrigues, atendendo ao seu pai, fizeram doação à Santa, em 28 de novembro de 1748, de terras na estrada que ia para Porangaba no rumo de Porangabuçu, com mais ou menos um quarto de légua de comprimento, por três quartos de largura. Esse patrimônio ainda existe, produzindo renda sob a forma de fóros e laudêmios.
Havia uma Irmandade, com dirigentes negros e um Juiz (Presidente) branco, porém, no início, o grupo tinha dificuldades em manter o imóvel em perfeitas condições, tanto que, em 1753 a igrejinha estava ameaçada de cair e com a permissão das autoridades eclesiásticas, iniciaram-se a reconstrução, em pedra e cal, que em 1755 ficou pronta.
Em 1821, a Matriz de São José estava em ruínas, precisando ser reconstruída. Tendo a vila crescido para o lado da Igreja do Rosário, foram passadas para esta, em procissão, o Santíssimo Sacramento e todas as imagens, passando ela a funcionar como Matriz até 2 de abril de 1854, quando as imagens voltaram à Matriz.
Sendo a Igreja unida ao Estado, os templos eram usados para realização de atos públicos. Ocorrendo um conflito mais grave quando das eleições realizadas em setembro de 1848, resultando em derramamento de sangue dentro do próprio recinto sagrado, a capela foi interditada, sendo posteriormente arrombada pelos líderes de um dos partidos.
Ao tempo em que era presidente da Província o bacharel Francisco Xavier Paes Barreto, o vice-presidente José Antônio Machado mandou proceder nova reforma que terminou em 1855.
Em 1872 o capitão João Francisco dos Santos, procurador dos bens patrimoniais ficou encarregado de limpar, assear e decorar o templo. A Igreja do Rosário sempre foi mantida com recursos próprios, advindo de grande terreno a ela doado em 1748, terrenos esses que se estendiam desde o local da igreja até o sítio Damas. Em 1871, entretanto, seus recursos se esgotaram e o então presidente José Antônio Calazans Rodrigues (Barão de Taquary) encaminhou pedido que só foi atendido na gestão seguinte, de João Wilkens de Mattos, importando na quantia de 2.000$000 (dois contos de réis), da Lei Nº 1440 de 2 de outubro de l871. Mas a verba destinada ao trabalho no templo era insuficiente e o presidente teve de complementar com pagamento de férias por conta da verba "Obras Públicas", ficando a obra concluída ainda em 1872.
O cronista Mozart Soriano Aderaldo, em "Variações em torno da Catedral", revela que a 16 de fevereiro de 1892, na revolta contra o Presidente General José Clarindo de Queiroz, promovida por Floriano Peixoto e executada pelos alunos da Escola Militar, uma bala de canhão, de 11 quilos, das utilizadas no bombardeio do Palácio da Luz - vizinho à igreja - foi arremessada contra a sua porta principal e, penetrando por ali arrebentou o púlpito, 2 balaustres da mesa de comunhão e a parede que dá para o corredor esquerdo; depois, em ricochete, destruiu o altar de Nossa Senhora das Dores e mais 3 balaustres. Outra bala dessas apeou o General Tibúrcio do seu pedestal, em episódio mais conhecido, no qual salientou-se o caráter daquele militar cearense: mesmo nessa hora, ele caiu em pé!
Mas a igreja a que nos referimos até agora não é exatamente esta que hoje lá está, há muito desvinculada dos devotos de cor, relembrando um tempo bem recuado da nossa história. Várias reformas nela foram processadas, além das já citadas. Em março de 1929 abriu-se novas janelas na altura do primeiro andar, em julho de 1935 foram construídos dois nichos, ao lado do sacrário, com Nossa Senhora do Rosário e Santa Teresinha e, por último, em setembro de 1938, repetiu-se o episódio de 1821: a Matriz de São José foi demolida para construção de uma nova e a Igreja do Rosário passou a ter as honras de Catedral, embora muitos atos, mais solenes, viessem a ser realizados na Igreja do Pequeno Grande. Foram necessários, outra vez, trinta anos, para a construção da nossa nova e esplêndida Catedral, durante os quais a Igreja do Rosário funcionou como a principal de toda a Arquidiocese!
A Igreja do Rosário é testemunha de fatos históricos importantíssimos, dentre eles a deposição de Nogueira Accioli em 1912 e as trincheiras de 1914 feitas para receberem os jagunços da "Sedição de Juazeiro".

Fonte: http://irmandadedorosariofortaleza.blogspot.com.br/2011/05/blog-post.html

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PATRIARCAS DO CORDEL

Chico dos Romances (foto: Arievaldo Vianna)

CHICO DOS ROMANCES
E A “ENCANTARIA” DO CORDEL

No princípio da década de 1980, ainda criança, eu trabalhava como camelô nas ruas de Canindé, no período da romaria a São Francisco das Chagas. De agosto a dezembro eu perambulava pelo Bar Canindé, Abrigo dos Romeiros na rua Euclides Barroso (antiga Rua da Palha), Alto do Custódio porém preferia mesmo a rua João Pinto Damasceno, que fica às margens do rio Canindé e dá acesso à Basílica do padroeiro no sentido norte-sul.
Sempre fui admirador incondicional da Literatura de Cordel e numa dessas incursões pela João Pinto deparei com o poeta e folheteiro piauiense Francisco Peres de Sousa, o Chico dos Romances, no saguão do Hotel Santo Antônio, arrumando a sua mala de romances para começar a sua atividade numa das praças da cidade. Acheguei-me do poeta e pedi para ver os títulos que ele trazia. Praticamente não havia nenhum clássico daqueles editados em Juazeiro do Norte ou Campina Grande. Eram folhetos de sua própria lavra e alguns de Lucas Evangelista, que ele conseguia mediante permuta. Gostei de dois títulos e os adquiri: “História de Sete Cidades ou a Deusa da Encantaria” e “O homem que era ateu e uma graça alcançada por São Francisco”. Comecei a ler imediatamente. Mas os versos, lidos em voz baixa, não tinham o mesmo encanto, o mesmo sabor de quando declamados pela voz de seu autor, que é um verdadeiro show-man. Chico dos Romances é um declamador de grandes recursos, que prende a atenção do público com gracejos, inflexões na voz e a magia dos seus olhos azuis e hipnóticos.
Passaram-se os anos. Muito tempo depois ouvi falar novamente de Chico dos Romances num livro do pesquisador Gilmar de Carvalho: “Poetas do Povo do Piauí’. Soube um pouco de sua biografia e fiquei contente ao constatar que ainda estava lúcido e em plena atividade. "Um personagem saído dos livros de Guimarães Rosa!" É assim que o descreve Gilmar de Carvalho em sua obra.
Ao ser convocado pela professora Rosilene Melo para uma pesquisa  patrocinada pelo IPHAN, cujo objetivo era fazer um levantamento dos poetas em atividade para reconhecimento do CORDEL, da CANTORIA e do ABOIO como patrimônio imaterial do povo brasileiro, fiz questão de ir até o Piauí e, na companhia do poeta Raimundo Clementino, fomos até Piripiri onde vive o poeta Francisco Peres de Sousa, atuando nas feiras, declamando e compondo novos folhetos.
Primeiro entrevistei os poetas radicados em Teresina - Joames, Marina Campelo, Ilza Bezerra, mestre José Barbosa, dr. Pedro Ribeiro. Depois fui ao programa de rádio do professor Wilson Seraine que me deu a preciosa dica: "- Rapaz, você precisa ir a Piripiri entrevistar o Chico dos Romances... Um velhinho engraçado dos zóio bem azuzim, que declama bem e conversa pelos cotovelos”.


Foi uma das entrevistas mais rendosas e interessantes. É um dos depoimentos que pretendo peneirar, aprofundar e transformar em livro num futuro próximo. Peres me disse que começou a produzir seus folhetos ainda na adolescência e teve como primeiro editor o saudoso poeta Joaquim Batista de Sena (Tipografia Graças Fátima, situada na Rua Liberato Barroso, em Fortaleza) de quem foi discípulo e companheiro de muitas jornadas pelo Brasil afora. Mas, por enquanto, apresento a vocês tão somente um resumo biográfico de CHICO DOS ROMANCES, extraído de um site de Piracuruca, terra natal do poeta:


Francisco Peres de Souza (Piracuruca, 1 de abril de 1939) - Nascido no local Retiro, município de Piracuruca-PI, em 01 de abril de 1939, filho de Gerviz Rosa de Sousa e Paulo Pereira Neres, Chico do Romance aparenta uma jovialidade na sua narração diária de seus cordéis e na presteza com que atende seus clientes. Se for entrevista se prepare para passar a manhã toda... É que ele se sente orgulhoso aos extremos de sua obra literária.
Perdendo a mãe quando tinha apenas um ano de idade, o futuro cordelista foi morar em com a avó materna, a qual também faleceu cedo, quando Chico tinha apenas seis anos. Mais um golpe na vida do pequeno Francisco Perez. Mas sua predestinação lhe reservava um futuro gratificante.  Sua biografia, que consta em seus “romances” diz:

Pequeno, ajudava seu pai na lavoura, mas logo veio morar em Piripiri, onde começou a cantar folhetos para os amigos, daí surgiu sua paixão pela literatura de cordel, onde descobriu que em si brotava a poesia, morando com sua tia Cecília em Piripiri e cantando nas casas de fazenda. Viajando para Fortaleza, depois com os melhores poetas da época, viajou pelo Piauí, Ceará, Maranhão, Goiás e Pará. Nas estradas de chão tudo isso dos 10 aos 30 anos.
Depois passou uns tempos em Fortaleza-Ceará, onde afirma ter penado muito, sem dinheiro e sem ter onde morar, fazendo bicos para sobreviver.
Redigindo seus textos fantásticos e sempre cativantes, Chico do Romance estreou como cordelista com 15 anos de idade, e hoje já contabiliza mais de 200 obras editadas. A princípio os cordéis eram impressos pelo tradicional método da xilogravura, ou seja, a matriz de impressão eram chapas de madeira esculpidas. É que as impressões tipográficas eram muito caras nos tempos idos.
A partir do início dos anos 1970, com a disseminação do sistema offset, que barateou os custos elevados do sistema tipográfico, Chico do Romance passou a imprimir seus trabalhos na gráfica de Gilberto Mendes (em Campo Maior) e posteriormente, na gráfica do ex-prefeito de Piripiri, Arimatéia Melo. Hoje seus trabalhos são impressos em impressoras de computador.
O cordelista casou-se aos 21 Anos de idade com Luzia Pessoa de Sousa, e criou família com nove filhos em Piripiri, onde reside, sempre tendo como trabalho principal a edição e venda de obras de cordel. Mora hoje no bairro piripiriense do recreio.
Com 75 anos completados em primeiro de abril de 2014 e em pleno vigor para escrever e ministrar palestras, Chico do Romance é sempre requisitado para fazer palestras e declamar suas poesias populares em colégios, academias, centros culturais, além de se fazer sempre solícito para entrevistas de jornais, Tvs, sites, etc.



UM EXEMPLO NOTÁVEL DA CULTURA POPULAR 
DE LITERATURA DE CORDEL DO PIAUÍ
Sua biografia acrescenta ainda, dentre tantas homenagens:

Participou de 17 a 21/08/2009 da I Mostra da cultura Popular, realizada na Casa da cultura em Teresina, recebendo a Comenda Fontes Ibiapina. Nos dias 26 e 27 de novembro de 2009, o poeta participou da II Conferência Estadual de Cultura do Piauí, em Teresina, no Clube Atlantic City. Por último, teve ao dia  24 de abril do ano de 2010 outorgado o título de Sócio Honorário da Casa do Padre Freitas, pela ACALPI (Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri).
Destacam-se, nas suas centenas de obras: História das Sete Cidades e a Deusa da Encantada; Padre Domingos de Freitas e Silva-Fundador de Piripiri; Homenagem ao Piripiri do Século; Pequenos Dados Biográficos de Virgulino Ferreira da Silva - O Lampião; História do Catirina (Lenda de Sete Cidades); As Bravuras de José Pela princesa Franluzia etc.
Piripiri se orgulha de ter entre seus filhos adotivos um dos maiores nomes da literatura cordelista do Brasil.
Fonte: fonte;http://www.piracuruca.com/



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

SHAKESPEARE EM CORDEL

Desde 2008 venho fazendo adaptações da obra de William Shakespeare para o CORDEL, algumas delas já publicadas, como podemos ver a seguir. As ilustrações são de Jô Oliveira, meu parceiro em várias obras:

A ambição de Macbeth - Cortez Editora

Otelo e Desdêmona - Editora Pallas

Sonho de uma noite de verão - Ed. Amarilys

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO – EM CORDEL
Adaptação de Arievaldo Viana


(TRECHOS)

À Grécia dos Tempos Clássicos
Quero agora retornar
Pois na cidade de Atenas
Por decreto milenar
O pai escolhia o noivo
Para a filha se casar.

Em Atenas residia
Um velho chamado Egeu
E o mesmo foi se valer
Do governante, Teseu,
Porque sua filha Hérmia
A lei desobedeceu.

Poderes de vida e morte
Dava a lei ultrapassada,
Egeu elegeu Demétrio
Julgando a escolha acertada,
Mas por Lisandro, outro jovem
Hérmia estava apaixonada.

Hérmia por esse motivo
Resolve então enfrentar
A autoridade paterna
E combinou de encontrar
Na floresta com Lisandro
Para bem longe casar.

Além do mais, que Helena
Sua amiga predileta
Amava o jovem Demétrio
Então traçaram uma meta
Julgando que assim teriam
Felicidade completa.

Helena para provar
O seu amor desvelado
Foi revelar à Demétrio
Aquele plano formado;
Estando noivo de Hérmia
Ele ficou transtornado.

Deixemos aqui os jovens
Com suas tramas formadas,
Vamos encontrar Titânia
Bela Rainha das Fadas
Com seu pajem favorito
E serviçais dedicadas.

(...)


sábado, 31 de dezembro de 2016

REFLEXÕES DE FIM DE ANO


VOCÊS! Que fazem parte dessa massa...


Haverá paz na terra "E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará". (Isaías 11:6 ). 

Desde o princípio das coisas, uma parte da humanidade sempre teve o desejo de conquistar, colonizar, civilizar, catequizar, enquadrar, explorar e escravizar o semelhante. Os que desejam simplesmente viver em paz, trabalhando pelo seu sustento, sem agredir a fauna e a flora e sem explorar o semelhante são incompreendidos. Tidos como selvagens, ascetas, bichos do mato, sujeitos esquisitos e anti-sociais!

O que será dessa classe oprimida que navega tal e qual um rebanho de bodes e ovelhas neste Vale de Lágrimas? Do jeito que a coisa vai, às vezes me bate o vago desejo de seguir os passos do Belchior... Evaporar como o éter e mandar todo esse sistema de coisas para o raio que o parta.



Antigamente, os nossos antepassados conseguiam escapar incólumes (pelo menos por algum período) em algum quilombo, caverna ou biboca, num sítio esquecido num pé de serra ou numa tribo perdida nos confins da Amazônia. Plantando, colhendo, criando e vivendo, camuflados como nativos “ignorantes” ou Cristãos “inofensivos”, sem prestar contas aos donos do planeta, somente ao Bom Deus, Onisciente e Onipresente, Aquele que tudo vê. Mas se não deu certo no passado, como iria dar certo hoje em dia, em plena era digital?

Hoje, com o advento da antena parabólica, do telefone celular, do tablet, do satélite, do chip, do radar e das redes sociais, a teia da aranha se fechou completamente. Não tem como escapar. Somos todos presas inúteis, imobilizadas e prestes a ser devorados pelo SISTEMA na hora que ELE bem entender, ao bel prazer.

Quando menos se espera, o sujeito cai na teia digital, nas redes sociais e na malha fina. Não tem como escapar. Se for inseto graúdo cai na Lava-Jato. Se for miúdo cai numa raquete Made in China, daquelas de matar muriçoca. Um dia você cai. Todos caem.

E, enquanto nos debatemos nessa teia, arriscamos uma pergunta: até quando iremos esperar pelo cumprimento das palavras do Profeta Isaías?



Arievaldo Vianna

domingo, 25 de dezembro de 2016

O dia em que não vi PAPAI NOEL


São Nicolau e o Krampus

O KRAMPUS SERTANEJO
(PAPAI NOEL ÀS AVESSAS)

Pelos idos de 1973 ou 74 deu-se um fato curioso: o dia em que não vi Papai Noel. Lembro-me de uma única vez em minha infância em que amanheceu um brinquedo debaixo da rede, na manhã de Natal. Disseram-me que era o Papai Noel que o havia deixado. Mesmo desconfiado, fingi acreditar naquela farsa. Tempos depois aconteceu um episódio que me fez perder inteiramente a crença no velhote.  Eu voltava da escola certo dia, quando nosso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel, me chamou muito animado e perguntou:

— Arievaldo, você já viu o Papai Noel?

— Vi não, Zé Miguel. Ano passado apareceu um brinquedo debaixo da minha rede e disseram ter sido o Papai Noel quem botou, mas eu desconfio que foi mesmo obra da vovó ou de alguma de minhas tias.

— Que nada, rapaz! Papai Noel existe! Está aqui em casa passando uns dias. Quer ver?


José Rodrigues de Sousa, o saudoso "Zé Miguel"

A Marta, minha prima, andava comigo e também ficou curiosa para ver o “bom velhinho”. O Chico Bastião, devidamente combinado com o Zé Miguel, começou a cantar velhas cantigas natalinas invocando o Papai Noel, enquanto o nosso ardiloso parente nos preparava uma surpresa. Entrou apressadamente para o quarto, vestiu uma velha roupa de estopa, botou uma máscara horrenda de papangu e apareceu no alpendre de supetão, trajando essa estranha indumentária e sapateando em nossa direção.
Nem é preciso dizer o que se seguiu. Arrancamos em desabalada carreira, botando o coração pela boca, com medo daquela aparição. Entretanto deu-me na veneta voltar discretamente por dentro do mato e verificar a coisa de perto, para contar de certo. Ora, não deu outra. Presenciamos o Zé Miguel às gargalhadas, juntamente com seu cúmplice, despindo a máscara e a estranha indumentária. Criei coragem e voltei para desmascará-lo, dizendo que já sabia de tudo, desde o começo.

— E por que foi que correram?

— Corremos para ver o Papai Noel achando graça!

Eu tinha resposta para tudo, nessas situações.




* * *

Sem o saber, o Zé Miguel encarnou o Krampus, o antinoel dos contos russos. Reza a lenda que o Krampus seria uma criatura mitológica que acompanhava São Nicolau durante a época do Natal. E essa crença difundiu-se em várias regiões do mundo.
A palavra Krampus vem de Krampen, palavra para "garra" do alto alemão antigo. Nos Alpes, Krampus é representado por uma criatura semelhante a um demônio. Enquanto o Pai Natal dá presentes para as crianças boas, o Krampus avisa e pune as crianças más. Tradicionalmente, rapazes se vestem de Krampus nas duas primeiras semanas de dezembro, particularmente no anoitecer de 5 de dezembro, e vagam pelas ruas assustando crianças com correntes e sinos enferrujados. Em algumas áreas rurais, a tradição também inclui surras aplicadas pelo Krampus.
As fantasias modernas de Krampus consistem em uma Larve (máscaras de madeira), pele de ovelha e chifres. A manufatura das máscaras artesanais demanda um esforço considerável, e vários jovens em comunidades rurais competem nos eventos do Krampus. O “Papai Noel” encarnado pelo primo Zé Miguel nada mais era que uma imitação desse personagem lendário, que aqui no Nordeste possui o nome de “Papa-figo” ou “Véi do Saco”.  
Foi bom perder a crença no Papai Noel porque, ao mesmo tempo, deixei também de acreditar nesse outro personagem que usavam para intimidar as crianças, o “Véi do Saco”.

* * *

 Com relação aos “caretas” ou “papangus” do Bumba-meu-boi, a primeira vez que vi uma representação desse tipo  foi no Iguaçu, distrito de Canindé-CE.
Os participantes do reisado não assumem a pecha de “papangus”. Eles dizem que papangus são os meninos da plateia. Os brincantes são os caretas.
A criançada empolgada com esse folguedo não falava noutra coisa. Os meninos do Antônio Tobias e outros garotos da localidade entenderam de fazer um reisado mirim.
 Tiramos vergônteas de mofumbo, para fazer a armação do boi, arranjamos um velho lençol de chita para cobri-lo e a cara do bicho foi pintada num grosso papelão. Faltava agora aprender as cantigas do boi. Foi quando alguém nos deu a ideia de visitar o velho José João (ou João José), que morava nos arredores. O bom ancião nos atendeu prontamente e repetiu dezenas de quadrinhas até que nós decoramos a maior parte e nos munimos de um estoque de glosas para a encenação do folguedo. Lembro-me perfeitamente dessas duas:

“Eu me chamo Chico Torto
Revesso, quebra-machado,
Cavo cacimba no seco
Depressa dá no molhado.

Só não quero que me mandem
Na rua, comprar fiado,
Que fiado me dá pena
E pena me dá cuidado.”


A apresentação do grupo foi no terreiro do Toinho Tobias, cunhado de minha tia Augediva. Apesar do amadorismo do grupo e dos inevitáveis improvisos, foi sucesso total. Retrato de um Sertão não tão distante, que foi tragado pelas mandíbulas da tal globalização.

Arievaldo Vianna (de O LIVRO DAS CRÔNICAS)
Todos os direitos reservados ao autor.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A FARSA DO PAPAI NOEL




Um velho ridículo, vestido de vermelho, montado num trenó puxado por renas voadoras usurpou a Festa Magna da Cristandade em nome do capitalismo selvagem. Os poetas GERALDO AMÂNCIO e OLIVEIRA DE PANELLAS, em mote inspiradíssimo, fizeram esse belo protesto:


SEM NOEL E SEM NATAL

"Criancinha do mocambo
Teu Papai Noel não vem
Pra te trazer um He-man
Ou um boneco do Rambo
Quando você, por um bambo
Vê um no comercial
Deseja pegar o tal
Porém teme aos seguranças
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal

Ou Papai Noel, por que
O senhor nunca visita
O guri da palafita
Que procura e não lhe vê
Ouvi tanto de você
'Tudo pelo social'
Chegou seu tempo, afinal
Restam amargas lembranças
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal

Criancinha magricela
Cadê teu Papai Noel
Esse homem de papel
Que entra pela janela?
Será que pela favela
Papai Noel passa mal
Por pensar que o marginal
Rouba as suas alianças?
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal"



O blog ACORDA CORDEL deseja a todos os seus seguidores um NATAL de LUZ e PAZ, com a presença de JESUS MENINO e sem velho farsante criado pela mídia.




terça-feira, 13 de dezembro de 2016

104 ANOS DO REI DO BAIÃO


Ilustrações: Arievaldo Vianna (Todos os Direitos Reservados)


TREZE DE DEZEMBRO
Música: Luiz Gonzaga / Zedantas
Letra: Gilberto Gil

Bem que essa noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando e ao longe
Ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava pra acontecer na região

Quando o galo cantou
Que o dia raiou
Eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro
E a treze de dezembro nasceu nosso rei

O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de Dom Sebastião
Como fruto do matrimônio do cometa Januário
Com a estrela Sant'Ana
Ao romper da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás

É desse treze de dezembro que eu me lembrarei

E sei que não esquecerei jamais.