quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

DESPEDIDA



ENCANTOU-SE O POETA LOURO BRANCO
O MAIOR HUMORISTA DA CANTORIA


Acabam de informar, pelas redes sociais, o falecimento do grande poeta LOURO BRANCO, repentista genial e cancioneiro dos mais inspirados.
Francisco Maia de Queiroz, o popular Louro Branco, Poeta, repentista e compositor, nasceu dia 02 de Setembro de 1943, na Vila Feiticeiro no município de Jaguaribe - CE. Foi pescador, agricultor e vendedor ambulante. Começou a cantar aos 12 anos de idade.
Cantou em vinte estados do Brasil, com todos os maiores cantadores do Nordeste, participou em mais de 400 festivais, tem ao todo mais de 700 composições. Esteve também em Portugal, fazendo dupla com o poeta cearense Geraldo Amâncio, um de seus maiores admiradores.
Louro Branco publicou dois livros: A Natureza Falando, e Da Casca Até o Miolo.
Casado com Maria Gomes de Souza Queiroz, o casal teve uma prole de seis filhos.

HUMORISTA NATO. O poeta Paulo de Tarso, admirador da cantoria e fã de Louro Branco costuma memorizar e declamar estrofes engraçadas do poeta. Segundo ele, Louro Branco disse essa estrofe numa cantoria, quando Valdir Teles o criticou por ter mudado de religião:

Valdir vive criticando
Porque agora eu sou crente
E tá dizendo às mulheres
Que eu fiquei impotente...
Quem diabo disse a Valdir
Que Bíblia capava gente?

VEJAM A SEGUIR, mensagem do poeta GERALDO AMÂNCIO, um de seus parceiros mais freqüentes, publicada hoje no facebook:

“A CANTORIA ESTÁ DE LUTO

Há poucos minutos recebi a triste notícia do falecimento do repentista Louro Branco. Com ele a cantoria perde a graça, o humor, o raciocínio a jato e a inteligência maior do improviso.
Louro Branco incontestavelmente foi o maior repentista dos últimos anos. Aliás ele era o único grande repentista vivo.
Nos últimos cinquenta anos não surgiu nenhum grande repentista. Temos grandes cantadores, porém a safra de grandes repentistas se extingue com a morte de Louro Branco.
Foi sempre muito injustiçado nos julgamentos dos festivais de improviso. Eu acompanhei e testemunhei essas injustiças.
De forma que participei de um grande festival fazendo dupla com ele, no marco zero em Recife e tiramos primeiro lugar, ganhando dos famosos medalhões da viola. Quando deram o resultado eu chorei de emoção, não por mim mas, por ele, que dificilmente era colocado no lugar que merecia.
Quando o cineasta Rosemberg Cariri foi fazer o filme sobre o cego Aderaldo, me convidou para fazer o papel principal e eu pedi que ele convidasse o poeta Louro Brando e botasse em meu lugar. Ele perguntou por que e eu disse que Louro Branco era extraordinário e não tinha o espaço merecido,  e à mim Deus já me Deu muitas graças. Tomo o próprio Rosemberg por testemunha. Se eu não falar isso ninguém fala.

LOURO PELAS RIMAS CERTAS
IRÁ ENCONTRAR COM ZELO
UM CÉU DE PORTAS ABERTAS
E CRISTO PRA RECEBÊ-LO."

Abaixo um poema de LOURO BRANCO que era o predileto do meu saudoso amigo Ribamar Lopes:


O CASAMENTO DOS VELHOS

Tem certas coisas no mundo
Que eu morro e num acredito
Mas essa eu conto de certo
Dum casamento bonito
De um viúvo e uma viúva
Bodoquinha Papaúva
E Tributino Sibito              

O véio de oitenta ano
Virado num estopô
A véia setenta e nove
Maluca por um amor
Os dois atrás de esquentar
Começaram a namorar
Porque um doido ajeitou

Um dia o véio comprou
Um corpete pra bodoquinha
Quando a véia foi vestir
Nem deu certo, coitadinha
De raiva quase se lasca
Que o corpete tinha as casca
Mas os miolo num tinha

No dia três de abril
Vêi o tocador Zé Bento
Mataram trinta preá
Selaram oitenta jumento
Tributino e Bodoquinha
Sairam de manhazinha
Pra cuidar do casamento

O veião saiu vexado
Foi se arranchar na cidade
Mandaram chamar depressa
Naquela oportunidade
O veião chegou de choto
Inda deu catorze arroto
Que quase embebeda o padre

O padre ai perguntô:
Seu Tributino, o que pensa,
Quer receber Bodoquinha
Sua esposa, pela crença?
O veião dixe: eu aceito
Tô tão vexado dum jeito
Chega tô sem paciência

E preguntô a Bodoquinha:
Se aceitar esclareça
A véia lhe arrespondeu
Dando um jeitim na cabeça
Aceito de coração
Tô cum tanta precisão
Tô doida que já anoiteça

Casaram, foram pra casa
Comeram de fazer medo
Conversaram duas horas
Uns assuntos duns segredo
E Bodoquinha dixe: agora,
Meu pessoá, vão embora
Que eu quero drumi mais cedo

O véi vestiu um pijama
Ficou vê uma raposa
A véia de camisola
Dixe: óia aqui sua esposa
Cuma é, vai ou num vai?
O veião dixe: ai, ai, ai
Já tá me dando umas coisa

A véia dixe me arroche
Cuma se novo nóis fosse
O véio dixe: ê minha véia
Acabou-se o que era doce
A véia dixe: é assim?
Então se vai dar certim
Que aqui também apagou-se

Inda tomaram uns remédio
Mas num deu jeito ao enguiço
De noite a véia dizia:
Mas meu véi, que diabo é isso?
Vamo vendê essa cama
Nóis sempre demo na lama
Ninguém precisa mais disso

A véia dixe: isso é triste
Mas esse assunto eu esbarro
Eu já bati o motor
Meu véi estrompou o carro
Ê, meu veião Tributino
Nóis dois só tem um menino
Se a gente fizer de barro.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CORDEL E LEITURA



PALESTRA "A LITERATURA DE CORDEL COMO FERRAMENTA DE INCENTIVO À LEITURA, com Arievaldo Vianna, na JORNADA PEDAGÓGICA do município de Madalena-CE.
Dia 17 de janeiro de 2018, no auditório da Secretaria de Obras do Município, a partir de 9h00.
BREVEMENTE será implantada em Madalena a Biblioteca de Cordel Alzira de Sousa Lima, com acervo de 800 folhetos e diversos livros sobre o assunto. Aguardem!

Realização: Secretaria de Educação, Cultura e Desporto de Madalena.

Apoio: AESTROFE

Vejam as fotos:






sábado, 13 de janeiro de 2018

Cultura Popular:



Rosemberg Cariry lança livro 
sobre Cego Aderaldo

O cineasta e pesquisador da cultura popular Rosemberg Cariry lançou no último dia 22 de dezembro o livro "Cego Aderaldo - o homem, o poeta e o mito", às 18h, dentro da programação do Pequeno Encontro de Violeiros e Repentistas do Sertão Central, na Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá (CE). A obra sucedeu a realização do documentário "Cego Aderaldo - o cantador e o mito" (2012), que foi exibido antes, às 16h, no mesmo evento. Após a exibição, o cineasta participou de um bate-papo com o público.
O livro de Rosemberg contempla 10 anos de pesquisa sobre vida e obra do poeta e cantador cearense Cego Aderaldo (1878-1967), nascido no Crato. Editada pela Casa de Saberes Cego Aderaldo e Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE), a publicação (Interarte) traz 87 recortes ou "sequências de vida" de Aderaldo, divididas em três atos ao longo de pesadas 780 páginas.
Além do lançamento em Quixadá, Rosemberg Cariry também vai lançar o livro na Escola de Saberes de Barbalha (CE), no próximo dia 28.

Diretor de filmes como "Corisco & Dadá" (1996), "Patativa do Assaré - Ave ou poesia" (2007) e, mais recentemente, "Pobres Diabos" (lançado em 2013 no circuito nacional de festivais e somente este ano nas salas comerciais do País), Cariry explica, em entrevista por e-mail, que a publicação terá, apesar da dimensão robusta (quase 800 páginas e mil fotos de época), distribuição gratuita para instituições culturais, escolas e universidades.
"Essa é uma edição popular. Mas uma pequena quantia de livros será separada para a venda a pesquisadores, como forma de permitir o acesso nacional à obra, que interessa a muitos estudiosos", situa.
O cineasta destaca que, pelo interesse em torno do livro, ainda antes do lançamento, já está sendo pensada uma segunda edição, "a cores e com capa dura", detalha.
Rosemberg Cariry recapitula que a ideia de levantar a publicação surgiu bem antes do lançamento do documentário. Ele conta que há 21 anos, na França, ouvia um disco ("Folk Songs", 1981) do trio Egberto Gismoni, Jean Garbarek e Charles Haden, incluindo a faixa "Cego Aderaldo".
"Já havia também a homenagem feita pelo Baden Powell, Nara Leão e Cirino, entre outros. Então eu me perguntei: por que o Ceará resolveu esquecer esse grande artista? A partir daí dediquei-me às pesquisas e a juntar documentos e depoimentos para realizar o filme. Estou contente", revela.
Com o lançamento de "Cego Aderaldo - o homem, o poeta e o mito", Rosemberg Cariry se diz com a "missão cumprida" e enfatiza que o Ceará volta a valorizar um artista popular de "extraordinária grandeza. Mais do que uma pessoa histórica revelada em sua biografia, temos também a importante dimensão do mito", observa.

Percurso
Indagado se o plano era lançar o livro em paralelo ao documentário, há cinco anos, Rosemberg confirma que havia, sim, essa expectativa. Mas o plano original não vingou e o filme já traz uma reputação consolidada.

"Foi lançado em vários festivais (a exemplo do Cine Ceará em 2012), (e ainda) terá exibição nacional, através da TV Brasil, no próximo ano", adianta o diretor.
Nas resenhas do próprio filme, os textos dão conta do trabalho do cineasta em contornar fontes "imprecisas" (algumas histórias só tinham registro pela oralidade das fontes) para levantar a pesquisa minuciosa sobre a trajetória do Cego Aderaldo.
Sobre essa checagem, ele explica que "havia a própria memória do Cego Aderaldo, organizada e publicada pelo escritor Eduardo Campos. Também muitos acervos jornalísticos, além de artigos e ensaios com referências que vão de Leonardo Mota a Rachel de Queiroz, de Rogaciano Leite a Câmara Cascudo, de Zélito Magalhães a Cláudio Portela, de Geraldo Amâncio a Oswald Barroso, cada um contribuindo ao seu modo", especifica.
Ele complementa que "também a oralidade foi de grande importância, sobretudo as indicações e memórias de dona Nair de Oliveira Brito (viúva de Mário Aderaldo) e do historiador João Eudes Cavalcante Costa, entre tantos outros. Talvez por isso três páginas do livro são apenas de agradecimentos às minhas fontes", destaca o cineasta.


Futuro
Rosemberg Cariry reconhece que, embora tenha entregue uma obra de longo fôlego a respeito de Cego Aderaldo, a riqueza do mito e a intrigante biografia do homem (ele adquiriu deficiência visual no curso da vida, mas não se entregou às limitações do bloqueio) ainda pedem novos olhares de pesquisadores e de interessados em geral pela cultura popular.
"O Cego Aderaldo não é apenas um fenômeno da força, do heroísmo e da cultura da gente cearense, ele é também um lugar para se pensar esse País imenso, contraditório e desigual. Através dele é possível pensar e vislumbrar o Brasil profundo, ao mesmo tempo original e herdeiro universal de culturas e povos", reflete Cariry.



Fonte: Diário do Nordeste

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

08 de janeiro

ANIVERSÁRIO DE NASCIMENTO 
DE MESTRE AZULÃO


Xilogravura de ERIVALDO


Mestre Azulão visitando a minha residência.

Se alguém falar no poeta José João dos Santos, cordelista e editor, alguns, certamente, o confundirão com João José da Silva, criador da Luzeiro do Norte, uma das principais editoras de cordel nas décadas de 1950-60. Porém se acrescentar, logo após o nome de batismo, o apelido que o celebrizou, aí não restará mais dúvidas. José João dos Santos é ninguém menos que o Mestre Azulão, paraibano da cidade de Sapé, onde nasceu aos 8 de janeiro de 1932, filho de João Joaquim dos Santos e de Severina Ana dos Santos.
Figura notável no universo do cordel, Azulão migrou muito jovem para o Rio de Janeiro, onde fez dupla com outros cantadores de fama, dentre os quais o famoso Palmeirinha. Ambos foram projetados através do quadro Onde está o poeta?, num programa de rádio apresentado pelo famoso Almirante.
Para a campanha de defesa do folclore brasileiro, Azulão gravou o disco Literatura de cordel, em 1975, onde interpreta de forma brilhante o poema ‘O marco brasileiro’, de Leandro Gomes de Barros, inserindo uma belíssima introdução ao som da viola, que seria reaproveitada posteriormente por Lenine, na gravação de ‘O Marco Marciano’, composição sua e de Bráulio Tavares, inclusa no CD ‘O dia em que faremos contato’ (BMG).
Lembro-me de havê-lo conhecido pessoalmente em dezembro de 2000, por ocasião de minha posse na ABLC – Academia Brasileira de Literatura de Cordel, em sessão realizada na Federação das Academias de Letras da América Latina, no Rio de Janeiro. Bem antes disse eu já havia travado contato com a sua obra e tinha alguns de seus folhetos na minha coleção particular, dentre os quais ‘Peleja de Mestre Azulão com Zé Limeira’, exemplar que pertenceu ao saudoso Jocelyn Brasil, um dos heróis da campanha “O petróleo é nosso”, ocorrida ainda na Era Vargas.
Em outubro de 2012, o jovem diretor Fernando Assunção realizou uma série de documentários em vídeo com os acadêmicos da ABLC. Fui um dos entrevistados e, no dia seguinte, a convite de Chico Salles e do próprio Fernando, fui assistir à entrevista de Mestre Azulão na Barraca da Chiquita, na Feira de São Cristóvão. Em dado momento da entrevista, perguntei se Mestre Azulão havia conhecido o poeta Rafael de Carvalho, famoso ator paraibano, que utilizava a poesia popular como um de seus instrumentos de trabalho.


Gravando o cordel O BATIZADO DO GATO

Azulão começou relembrando o famoso Comício da Central do Brasil, ou Comício das Reformas, (realizado no dia 13 de março de 1964, na cidade do Rio de Janeiro, na Praça da República, situada em frente à estação da Central do Brasil). Segundo o poeta, uma multidão incalculável ali se reuniu, sob a proteção de tropas do I Exército, unidades da Marinha e Polícia, para ouvir a palavra do Presidente da República, João Goulart, e do governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola. As bandeiras vermelhas que pediam a legalização do Partido Comunista Brasileiro e as faixas que exigiam a reforma agrária foram vistas pela televisão, causando arrepios nos meios conservadores.
O desfecho desse episódio, todos já conhecem, o comício histórico da Central do Brasil desencadeou o golpe militar e instauração da ditadura que perdurou por duas longas décadas. Pois bem, naquela época Azulão já havia travado amizade com Rafael de Carvalho e, a pedido deste, escreveu um folheto sobre o Comício da Central, em linguagem progressista e simpática à causa comunista. Foram impressos 10 mil exemplares, segundo relatou Azulão, e as vendas iam de vento em popa, quando o Golpe Militar foi deflagrado. Os militantes mais ativos começaram a ser perseguidos e um certo dia, eis que o poeta Rafael de Carvalho aparece em sua casa, em Engenheiro Pedreira-Japeri, na Baixada Fluminense, pedindo abrigo por alguns dias, pois estava na mira da repressão. Azulão abrigou o amigo, porém com muito receio, e certa noite, levantou-se de madrugada e fez um buraco no quintal, onde enterrou um pacote contendo todo restante da tiragem do referido folheto. Segundo ele, só foi desenterrar o pacote muitos anos depois da restauração da democracia, e não encontrou mais nada que se aproveitasse, apenas uma massa disforme destruída pela ação do tempo.


No palco da Praça do Cordel, Bienal do Livro do Ceará


GLOSADOR E GOZADOR

Mestre Azulão foi uma das grandes atrações do I Festival Internacional de Trovadores e Repentistas, promovido por Rosemberg Cariri nas cidades de Quixadá e Quixeramobim, no período de 29 de outubro a 2 de novembro de 2004. Esse evento teve a participação de muitos poetas, xilogravadores e também compositores do porte de Elomar, Xangai, Ednardo e Renato Teixeira, dentre outros. Um repórter de uma emissora local, ao deparar com aquele velhote baixinho, de chapéu e óculos fundo-de-garrafa, o interpelou para uma entrevista, pensando tratar-se de Patativa do Assaré, à época já falecido. Azulão, um gozador de marca, deixou a coisa fluir e só esclareceu a verdade nos momentos finais da entrevista, deixando o pobre radialista meio apalermado. É nisso que dá, fazer entrevistas sem se inteirar previamente a respeito do entrevistado.


Zé Maria, Azulão, Arievaldo e Geraldo Amâncio

Depois dessa aventura em Quixadá, Azulão tornou-se “figurinha carimbada” na Bienal do Livro do Ceará, sempre convidado como atração da “Praça do Cordel”, espaço coordenado pelo artista multimídia Klévisson Viana. Além de resgatar as antigas toadas do cordel, na reprodução de clássicos como ‘A chegada de Lampião no Inferno’ e ‘Romance do Pavão Misterioso’, cuja toada aprendera com o próprio José Camelo de Melo, Azulão também declamava trabalhos de sua autoria e fazia versos de improviso, de acordo com os temas fornecidos pela plateia. Numa de suas passagens por Fortaleza, levamos o poeta até o estúdio Pro-áudio, do amigo Marcílio Mendonça, onde ele gravou diversas faixas, inclusive uma participação especial no CD do projeto Acorda Cordel, o poema ‘O batizado do gato’, de minha autoria.
Até mesmo quando interrogado a respeito da sua terra natal, Azulão não deixava de lado a sua verve humorística e relembrava um episódio que lhe contavam na infância, de uma vaca que teria comido um papagaio num ano de seca crucial:

Na terra de Azulão
Não chove no mês de maio
O povo de lá só vive
De fazer cesto e balaio
É a terra aonde a vaca
Engoliu um papagaio.

Na sua opinião, a vaca confundira o verde papagaio com uma moita de capim. Na última vez que o entrevistei, durante a Bienal Internacional do Livro do Ceará de 2014, recolhi, dentre outras, essas duas estrofes, a primeira criticando o fanatismo religioso de algumas pessoas e a outra uma sátira à descida da Missão Apolo 11 na lua:

Tem muita gente fanática
Por jogo e religião
Ídolo de televisão
E todo tipo de prática...
Feitiçaria asiática
Presta adoração a bruxa;
Lambe os pés, batina, e puxa,
Saco do Papa de Roma
E, se lhe der, ainda toma,
UM CHÁ DE XIXI DA XUXA!

Foi na viagem primeira
Da Missão Apolo Onze
Uma plaqueta de bronze
Um mastro e uma bandeira
Eles viram uma clareira
Lá na lua prateada
Depois da nave pousada
Foram saber o que era
Só acharam na cratera

Prego, martelo e mais nada!

(...)


Com Mestre Azulão e Bule-Bule, no antigo Centro de Convenções do Ceará


 ATENÇÃO! Este ensaio será publicado integralmente no livro "NO TEMPO DA LAMPARINA", de Arievaldo Vianna, que será lançado em breve. AGUARDEM!

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

NORDESTE CABOCLO



Há quatro anos estive no programa Nordeste Caboclo, do poeta Carneiro Portela e relembrei esse poema de Zé Praxédi, o Poeta Vaqueiro, que ele costumava declamar no final do programa, desde os tempos do CEARÁ CABOLCO, na TVC. O amigo Édson Crisóstomo, de Canindé, me enviou o texto completo do poema:

DOTÔ, INTÉ OUTRO DIA
(Zé Praxédi, o Poeta Vaqueiro)

Seu doto inté asturdia
basta mecê precisar
um criado às suas ordens
na Serra do Jatobá...

Pros almoço tem galinha
tem quaiada pro jantar
água cheirosa de tanque
pra vosmecê se banhar.

Leite quente ao pé da vaca
quando o dia amanhecer
café torrado no caco
de quando invez pra você.

Aguardente potiguar
caso goste de beber
capim mimoso verdinho
pra seu cavalo comer.

Pra vosmecê merendá
mel de abelha com farinha
tem da fonte milagrosa
água fria na quartinha.

Pra vosmecê se deitar
uma rede bem arvinha...
Mas,leve tombém sua muié
pruquê lá só tem a minha!

sábado, 30 de dezembro de 2017

ROMANCEIRO DO GADO


O Romance de Carmelita
Uma introdução ao Romanceiro nordestino

             As pesquisas em torno da cultura popular no Brasil visaram muito mais identificar variantes de temas universalizados pelo interesse moral, do que recolher manifestações próprias e interpreta-las no contexto cultural das raças combinadas. O sergipano Silvio Romero, sem prejuízo da recolha que fez de textos europeus, quis marcar a sua obra com as contribuições locais, de indígenas, negros, colonos brancos e mestiços, chegando a discutir teorias com Teófilo Braga para defender suas posições radicais.
            No seu livro de Cantos Populares do Brasil, Silvio Romero divulga versões de poemas nordestinos, curtos como as quadras, comuns como as sextilhas, cantados, recolhidos da memória do povo, alguns deles reescritos, como O Boi Espácio e o Rabicho da Geralda, que José de Alencar divulgou no jornal carioca O Globo, em 1874, sob o título geral de Nosso Cancioneiro. A posição radicalizada do escritor sergipano responde, na lonjura do tempo, pela sobrevivência de uma literatura mestiça, usual nas camadas populares, notadamente no Nordeste brasileiro, mas pouco acolhida nos manuais literários.
            O Romanceiro tradicional, e dentro dele o romanceiro fronteiriço, opondo cristãos e mouros como personagens invariantes, tem uma nacionalidade no contexto de histórias e culturas identificadas numa determinada civilização do mundo. As motivações, mais que temáticas, servem para afirmar valores com os quais algumas sociedades estabeleceram seus domínios e territórios. Os romances foram até onde a civilização levou, fosse entre lutas e conquistas no mundo velho, fosse nas entradas inaugurais do Novo Mundo, aí embalados pelas ondas do mar desconhecido, quando os missionários cantavam para tornar a viagem menos cansativa. Os romances, como disse Frei Tomás de la Torre, no seu relato sobre o cruzamento do oceano Atlântico, em 1844, foram conotados com os seus propósitos religiosos e, em conseqüência, morais.
Os romances produziram, no Brasil e na América espanhola, ampla coleta e ensejou estudos críticos de elevado nível, comparável com os estudos de Menendez Pidal, e de outros exegetas de tais estórias cantadas. No Brasil moderno, o nome de Bráulio do Nascimento tem corrido como o principal mestre do trabalho interpretativo e tipológico, que ambienta o romance nas terras brasileiras, estabelecendo os pontos de contato, ideológicos e estéticos, necessários à identificação da poesia tradicional.
            O Romance de Carmelita, comum entre os vaqueiros nordestinos, é uma espécie de matriz, da qual descendem diversos outros romances, cantados com a mesma melodia, e com a mesma medida dos versos e estrofes. As trocas, que podem ser vistas como adaptações, asseguram semelhança ao modo de compor e de cantar, singular no universo popular, devendo sugerir uma nova conceituação que mostre filiação formal aos tipos de romances portugueses e espanhóis, alguns deles transformados pelos mestiços brasileiros, como queria o próprio Silvio Romero, ao classificar e publicar sua Antologia.
            A tradição de romances de vaqueiros e dos aboios conserva a melodia única e a temática que abarca personagens permanentes, em tudo equivalentes aos personagens do romance tradicional. O Rei /O Fazendeiro; O Cavalheiro/O Vaqueiro; O Reinado/Os Campos dos Gados, personagens e cenários. A ação transcorre no ambiente típico das vaquejadas, como torneios corriqueiros, lado lúdico dos criatórios que foram, no Nordeste, durante muito tempo, base da economia nordestina.

Folheto de Lucas Evangelista, com a personagem Carmelita

                             
O Romance de Carmelita

1          Chegando o mês de novembro,
            Dando as primeiras chuvadas,
            Reúne-se a vaqueirama,
            Em frente a casa caiada,
            Pra ver se nos campos vastos,
            A rama já tá molhada.
          

2          O vaqueiro da fazenda,
            É quem se monta primeiro,
            Em seu cavalo castanho,
            Bonito e muito ligeiro,
            E vai pros campos pensando,
            Na filha do fazendeiro.


3          Corre dentro da catinga
            Rolando em cima da sela,
            Se desviando de espinho,
            Unha de gato e favela,
            Abóia em verso falando
            Na beleza da donzela.
          

4          E dedica o seu aboio
            A Vaca mansa e bonita,
            Tendo lugar no chocalho,
            Um lindo laço de fita,
            Seu nome é Rosa do Prado,
            Um mimo de Carmelita.
  

5          Peço desculpa aos vaqueiros,
            Em frente a casa caiada,
            Um cabra de voz bonita
            Sai cantando uma toada,
            Que a filha do fazendeiro,
            Fica logo apaixonada.


6          Carmelita quando vê
            O seu amor verdadeiro,
            Todo vestido de couro,
            Começa no desespero,
            Mamãe deixa eu ir embora
            Na garupa do vaqueiro.


7          O vaqueiro adoecendo,
            Coloca os couros na cama,
            Pelo campo o gado urra,
            Como quem por ele chama,
            Na porteira do curral
            Berra toda a bezerrama.
            

8          Diz ele quando eu morrer
            Coloquem no meu caixão,
            Meu uniforme de couro,
            Perneira, chapéu, gibão,
            Pra eu brincar com São Pedro,
            Nas festas de apartação.


9          Não esqueçam de botar,
            As esporas e o chapéu,
            O retrato do cavalo
            Que eu sempre chamei Xexéu,
            Pra eu brincar com São Pedro
            Nas vaquejadas do céu.


10        Diz ele quando eu morrer,
            Não quero choro nem nada,
             Quero meu chapéu de couro
            E uma camisa encarnada,
            Com umas letras bem bonitas:
            Foi o Rei da Vaquejada.


11        Termino me despedindo
            Das terras, dos tabuleiros,
            Dos grotões e das chapadas,
            De todos os bons vaqueiros,
            Dos currais e das famílias
            De todos os fazendeiros.

FONTE: http://www.infonet.com.br/noticias/cidade/ler.asp?id=97400

ROMANCE DE LUCAS EVANGELISTA resgata a personagem CARMELITA:


LINK: https://issuu.com/acervocordeis/docs/a_vida_de_um_vaqueiro_valente


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O VELHO RIBA


Ribamar Lopes no lançamento do meu livro 
São Francisco de Canindé na Literatura de Cordel


Ribamar Lopes observa o xilogravador Stênio Diniz
talhando uma matriz



Ribamar Lopes

O DIA EM QUE CONHECI 
RIBAMAR LOPES
A vida tem me ensinado que nada acontece por acaso. A partir de 1998 eu passei a ver a Literatura de Cordel com seriedade, porque antes me considerava apenas um leitor e poeta diletante. Fazia por brincadeira, sem a preocupação de publicar e não obedecia qualquer critério comercial com relação à escolha dos temas. Somente quando resolvi enfeixar parte da minha produção no meu livro de estreia, “O Baú da Gaiatice”, é que constatei que 90% do que havia produzido até ali era tão pessoal, tão restrito ao meu círculo de amizades, que o leitor comum ficaria a ver navios, sem entender patavina. É que antes de deixar Canindé para batalhar pela vida em Fortaleza, os temas de nossos cordéis surgiam nas rodas boêmias ou no balcão da velha Casa Marreiro. Fazíamos uma pequena tiragem na “xerox” e nos dávamos por satisfeitos.
Tanto que ao chegar numa agência de propaganda, onde trabalhavam pessoas da capital e também do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, eu era considerado um bicho do mato, um legítimo matuto, coisa que a princípio me causava algum constrangimento, mas depois, refletindo bem, tornou-se motivo de orgulho. Aqui, acolá, diziam, em tom de gozação:
— Esse bicho saiu do sertão, mas o sertão não saiu dele.
Geralmente, tais comentários eram feitos quando eu aparecia na agência com um folheto de cordel ou com LP’s de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, em plena era do CD e outras mídias digitais!
À medida que eu colecionava folhetos, ia escrevendo meus textos e procurando temas mais abrangentes, que fossem compreensíveis a qualquer tipo de público. A sátira política era um de meus temas favoritos, mas também comecei a me enveredar pelo romance de 16, 24 e até 32 páginas, exercitando a minha poética de forma consciente. Fiz várias pelejas imaginárias, sozinho ou ao lado de parceiros, para testar outras modalidades, como o martelo, o beira-mar, o cantador de vocês, o oitavão rebatido e outros gêneros da cantoria.
Quando me preparava para lançar a “Coleção Cancão de Fogo”, uma caixa com dez folhetos, meus e de Pedro Paulo Paulino, passei na gráfica Simões, que ficava na rua Agapito dos Santos (Centro de Fortaleza), e peguei alguns exemplares dos quatro primeiros títulos que acabavam de ser impressos. Minutos depois passei numa banca de revistas da Praça do Liceu e deparei com um senhor grisalho, de estatura mediana, magro, usando uns óculos grossos e arredondados. A figura me pareceu familiar, embora nunca o tivesse visto pessoalmente. Procurei nos escaninhos da mente e acabei deduzindo que havia visto a sua foto no jornal, em matéria assinada pelo jornalista Eliézer Rodrigues, divulgando o lançamento de seu livro “Cordel, Mito e Utopia”. Era o poeta e pesquisador Ribamar Lopes, organizador da melhor antologia de Literatura de Cordel de que se tem notícia no Brasil, aquela lançada pelo Banco do Nordeste.
Hesitei alguns minutos antes de me apresentar, mas, percebendo que ele já se despedia do Bandeira, dono da banca de revistas, adiantei-me e fiz a pergunta que já estava engatilhada:
— O senhor é o escritor Ribamar Lopes?
— Em carne e osso, disse ele.
— Muito prazer. Tenho ouvido falar de suas pesquisas sobre Literatura de Cordel. No momento estou empenhado na publicação de uma caixa de folhetos.
— Uma caixa de folhetos?!
— Sim, respondi. Como eu e meu parceiro já dispomos de vários títulos, resolvemos lançá-los numa coleção, como aquela de Patativa do Assaré, organizada pelo professor Gilmar de Carvalho, que foi lançada pela SECULT-CE.
Ribamar me olhou meio desconfiado, como que duvidando do meu talento, e rebateu:
— Muito bem. Mas, vocês já têm bagagem para isso? Já publicaram alguma coisa?
— Acabo de receber da gráfica alguns exemplares dos quatro primeiros...
— Deixa eu ver. Se prestar eu digo. Se não prestar... Posso ver?
Meti a mão lá na “aduana”, como diz o Kid Morangueira, e saquei os seguintes títulos: Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Encontro de FHC com Pedro Álvares Cabral, Peleja de Franciné Calixto com Pedro Tatu e Debate de Zé Limeira com os profetas do fim do mundo. Os dois últimos em parceria com Pedro Paulo, que, salvo engano, também estava presente a esse encontro, ocorrido em julho ou agosto de 1999.
Ribamar esboçou um sorriso maroto, ajustou os óculos na ponta do nariz e abriu o primeiro folheto, lendo-o em voz alta:

Eu admiro o cangaço,
Apesar da violência
Dos engenhos o bagaço
Porque a minha vivência
Tem sido nesse sertão
Pesquisando Lampião
Padim Ciço e Conselheiro,
Cultura que não se esmaga
E ouvindo Luiz Gonzaga
Nosso maior sanfoneiro.

No município de Exu
Divisa com o Ceará,
Nos Sertões do Pajeú,
Do Juazeiro pra lá
Nasceu este nordestino,
Artista desde menino,
Orgulho do meu sertão
Dia treze de dezembro
De doze, ainda me lembro,
Nasceu o REI DO BAIÃO.

O mestre arregalou os olhos, abriu-se num sorriso largo e sincero e perguntou:
— É tudo em dez pés?
— Não, respondemos. Tem folhetos em sextilha, setilha, e também pelejas com outras modalidades da cantoria.
Ribamar leu mais algumas estrofes de outro folheto e acenou com o polegar para cima, como faziam os romanos no Coliseu, quando queriam salvar a vida de um gladiador. Entabulamos um papo animado e ele percebeu, de imediato, que não éramos neófitos nem penetras naquela seara. Então, fez-nos um convite:
— Meninos, eu tenho o que fazer em casa. Moro nesse prédio, quase defronte à banca de revistas. Querem me fazer uma visita?
— Agora?
— Sim, por que não?
Seguimos o Ribamar, e a partir daquele instante estávamos crismados como poetas populares, sagrados cavaleiros das rimas por uma das maiores autoridades no assunto. Quando adentramos no apartamento em que ele morava, não nos surpreendemos com a quantidade de livros nas estantes que havia na sala, no corredor, no seu gabinete de trabalho e outros cômodos da casa. O que nos deixou basbaques, boquiabertos, foi a coleção de folhetos de cordel, composta de quase seis mil títulos, organizada em dois armários de ferro com amplos gavetões, cuidadosamente organizados por assunto, autores, editores etc. Coisa metódica, de um pesquisador sério e organizado.
E que alegria reencontrar folhetos que havíamos lido na infância e que haviam se extraviado, levados por empréstimo, destruídos pela ação do tempo ou perdidos em faxinas e mudanças.
Quis pedir alguns emprestados, mas achei que estaria abusando da confiança do novo amigo e deixei para uma visita futura, que aconteceu logo na semana seguinte. Ribamar, um pouco desconfiado, pegou alguns títulos que tinha em duplicata e me emprestou, dizendo que forneceria outro lote, assim que eu devolvesse o primeiro. Foi assim que pude reler todos os clássicos que havia lido na infância e travar contato com outros títulos igualmente preciosos, como a obra dos poetas Delarme Monteiro e Manoel Camilo dos Santos, que eu mal conhecia. De Delarme só havia lido, até então, “O sino da Torre Negra” e de Camilo apenas o clássico “Viagem a São Saruê”, que aparece um duas ou três antologias. Em setembro daquele mesmo ano, no dia do meu aniversário, o Velho Riba me presenteou com um exemplar da terceira edição da Antologia do BNB, obra espetacular, onde os folhetos aparecem de forma fac-similar, algo que lhe custou muito trabalho, pois na época não se conhecia o scanner e outras ferramentas de tratamento de imagem.
Para encurtar a conversa, além de amigo dileto, Ribamar tornou-se, a partir dali, revisor de minhas obras e, mais das vezes, contribuiu com sugestões maravilhosas. Caso dos livros “São Francisco de Canindé na Literatura de Cordel” e “Acorda Cordel na Sala de Aula”, para os quais escreveu o prefácio, fez a revisão e ainda sugeriu a inclusão de alguns assuntos.
Foi uma perda muito sentida, a sua partida inesperada em janeiro de 2006. Na véspera tivemos um encontro no Fabiano da Panelada, ali na Praça do Liceu, e o Riba, jovialmente, recordou muitos episódios da sua infância em Pedreiras-MA e de sua juventude, na capital São Luís. Poeta de esmerado talento, contista imaginoso e ensaísta consagrado, Ribamar nos deixou um legado literário que, infelizmente, vai sendo aos poucos esquecido, nesse país de desmemoriados. Dentre as amizades que cultivou, os que sempre o relembram em conversas, além de mim, figuram o escritor Raymundo Neto, que o homenageou numa crônica belíssima e o poeta Rouxinol do Rinaré, que adaptou alguns de seus contos para o Cordel.


Artigos de Ribamar Lopes publicados no jornal O POVO

José Ribamar Lopes nasceu no dia 8 de novembro de 1932 em Pedreiras (Maranhão) e faleceu em Fortaleza (Ceará) aos 24 de janeiro de 2006.
Contista, poeta e ensaísta, nas últimas décadas vinha desenvolvendo grande atividade como pesquisador e incentivador da Literatura de Cordel. Deixou publicado os seguintes livros: "Literatura de Cordel (Antologia)", "Quinze Casos Contados" (Contos); "Viola da Saudade" (Poesia) e "Sete Temas de Cordel" (Ensaio), além do inédito "O Dragão da Literatura de Cordel", cujos originais foram confiados à Tupynanquim Editora.

Arievaldo Vianna

(Crônica integrante do livro 
NO TEMPO DA LAMPARINA)