quarta-feira, 9 de outubro de 2019

FEIRA DO CORDEL

CAIXA CULTURAL FORTALEZA RECEBE A QUARTA EDIÇÃO DA FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO



Texto: Divulgação.

Evento reúne expoentes da autêntica Cultura Popular Brasileira e grandes personalidades da Literatura do Cordel


De 17 a 20 de outubro de 2019 a CAIXA Cultural Fortaleza recebe a IV Feira do Cordel Brasileiro, uma realização da AESTROFE – Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará. A feira traz lançamentos literários, exposição de obras raras, vendas de folhetos de cordel, livros, camisetas e CDs referenciais, além de shows, recitais, palestras, oficinas de xilogravura e de cordel.

Nesta edição, a IV Feira do Cordel Brasileiro é apadrinhada pelos mestres da cultura Chico Pedrosa e Bule-Bule, e presta homenagens a grandes nomes da cultura nordestina: Jackson do Pandeiro (centenário), João Melchíades Ferreira (sesquicentenário), Alberto Porfírio (in memoriam) e o comunicador Carneiro Portela.

O multiartista pernambucano Antônio Nóbrega, um dos expoentes do gênero literário e referências da cultura popular, ministra uma palestra ilustrada intitulada ‘Da quadrinha ao galope a beira mar’, no dia 18/10, às 14h. Entre as atrações do evento, estão ainda a xilogravadora Lucélia Borges, o ator e cordelista Edmilson Santini, a dupla de emboladores Marreco e Pinto Branco, o Trio Arupemba e CIA, os Tecelões Teatro com Bonecos, os cantadores Guilherme Nobre e Geraldo Amâncio Pereira, o humorista-cordelista Tranquilino Ripuxado, a xilogravurista Lucélia Borges e a repentista Fabiane Ribeiro. Para apresentar pesquisas temáticas, participam Gilmar de Carvalho, Alberto Perdigão, Vládia Lima, Ana Claudia Veras, Stélio Torquato, entre outros.  

Também marca presença o renomado ilustrador pernambucano Jô Oliveira, que assina o cartaz da feira. Mestre dos Quadrinhos pelo HQ-MIX (2004), Jô publicou diversas histórias em quadrinhos, tendo várias ilustrações e selos premiados, no Brasil e no exterior. A programação completa está disponível em https://www.facebook.com/FeiradoCordelBrasileiro
Serviço:

[Vivências] IV FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO
Local: CAIXA Cultural Fortaleza
Endereço: Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema
Data: De 17 a 20 de outubro de 2019
Horário: Quinta a sábado: 14 às 21h | Domingo: 14 às 19h
Entrada Franca
Classificação indicativa: livre para todos os públicos
Acesso para pessoas com deficiência
Paraciclo disponível no pátio interno
Informações gerais| Bilheteria da CAIXA Cultural Fortaleza: (85) 3453-2770
Patrocínio: CAIXA e Governo Federal

Atendimento à imprensa:
Isabelle Vieira - (85) 98871.4139 / vieira.aisabelle@gmail.com 
Helena Félix – (085) 99993-4920 / pontualcomunicacao@gmail.com
Kiko Bloc-Boris – (085) 98892-1195 / kikobb@gmail.com
Assessoria de Imprensa da CAIXA Cultural Fortaleza (CE):
www.caixa.gov.br/imprensa | @imprensaCAIXA
Acesse o site www.caixacultural.gov.br
Baixe o aplicativo “Caixa Cultural”



PROGRAMAÇÃO DA
IV FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO
De 17 a 20 de outubro de 2019
na CAIXA Cultural Fortaleza
Mestre Bule-Bule da Bahia

DIA 17 (Quinta-feira)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h – ABERTURA com a participação dos mestres do cordel e da cantoria | Declamação com Klévisson Viana (CE) e Aldanísio Paiva (CE), apresentação com Mestre Bule-Bule (BA), Jefferson Portela (RJ) e Zé Rodrigues (CE), César Barreto (CE) e do Grupo Cordel de Raiz, da EMEF Ernesto Gurgel Valente (Aquiraz/CE)
15h10 – Mesa "O CORDEL COMO OBJETO DE PESQUISA"
Com Gilmar de Carvalho (CE) ‘’Cordel Cearense’’, Vládia Lima (CE) ‘’Alberto Porfírio’’, Ana Claudia Veras (CE) ‘’Caldeirão’’ e Alberto Perdigão (CE) ‘’Jornalismo em Cordel’’
Mediação do professor e cordelista Stélio Torquato Lima (CE)

Lucélia Borges

Sala de Ensaio: José Pacheco
15h – Oficina de xilogravura com o mestre João Pedro de Juazeiro (CE) e Lucélia Borges (BA)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
16h40 – Recital “AS MULHERES NO CORDEL” com Julie Oliveira (CE), Bia Lopes (CE) e Ivonete Morais (CE)
17h30 – Recital com Dideus Sales (CE)
18h – Repente ao som da viola com Fabiane Ribeiro (MA) e Guilherme Nobre (CE)                                                                    
19h – Show “CANTIGAS DO SERTÃO” com José Rodrigues (PE) e o Trio Cabeça de Fósforo (CE), participação especial do mestre Bule-Bule (BA.                                                                         
20h – Show “DE CANTIGAS E ROMANCES” com Eugênio Leandro (CE), participação especial de David Simplício (CE)

Antônio Nóbrega

DIA 18 (Sexta-feira)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h20 – Aula-ilustrada “DA QUADRINHA AO GALOPE A BEIRA MAR” com Antônio Nóbrega (PE)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
16h – Espetáculo “CHICO MAMULENGO CONTRA A COBRA CANINANA” com a Cia Tecelões Teatro com Bonecos (CE)
17h – Recital com Rafael Brito (CE), Evaristo Geraldo (CE), Ian Fermon (CE) e Esperantivo (PE)

Edmillson Santini

18h – Espetáculo “JACKSON, SOM DO PANDEIRO E A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU” com Edmilson Santini (RJ)
19h – Recital com Chico Pedrosa (PB), Arievaldo Viana (CE) Lucarocas (CE) e Aldanísio Paiva (CE)
20h – Cantoria de embolada com Marreco (CE) e Pinto Branco (CE)


 
Jô Oliveira

DIA 19 (Sábado)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h – Palestra ‘’A DIVERSIDADE NA ILUSTRAÇÃO DE FOLHETOS DE CORDEL” com o mestre Jô Oliveira (DF), Lucélia Borges (BA), Eduardo Azevedo (CE) e Cayman Moreira (CE)
Mediação: Arievaldo Vianna (CE)



Sala de Ensaio: José Pacheco
14h – Oficina “APRENDA A FAZER CORDEL” com Rouxinol do Rinaré (CE)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
16h – Recital ‘’ANUNS E CORDÉIS”  com Breno de Holanda (PE) e Lançamento do livro
17h – Trio Arupemba (CE)
18h – Repente com Geraldo Amâncio (CE) e Zé Vicente (CE)
19h – Recital ‘’O PATATIVA QUE EU CONHECI’’ com Daniel Gonçalves (CE)
20h – Show ‘’CANTIGAS PRA BEM VIVER’’ com Paola Torres (CE) e lançamento dos livros “O RIO E A NUVEM” e “VAMOS FALAR SOBRE O CÂNCER?”

DIA 20 (Domingo)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h – Mesa “PEIXEIRAS AO ALTO: O FANTÁSTICO ARMORIAL NORDESTINO” com Rodrigo Passolargo (CE), Vinícius Rodrigues (CE) e Eduardo Macedo (CE)
Mediação: Paulo de Tarso (CE)

Café: Luiz Gonzaga
15h – Lançamento do Cordel “SUPERAÇÃO NA EDUCAÇÃO” de Maria de Lourdes Fernandes (CE)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
15h30 – Show ‘’PIMENTINHA DO FORRÓ’’ com Cecília do Acordeon (CE)
16h20 – Show de humor e cordel com Tranquilino Ripuxado (CE)
17h20 – Cutuca a Burra

Pátio Externo
18h – Intervenção Artística com Pifarada Urbana (CE)

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

SELAR O TEJO



Sabem a origem da expressão "SELAR O TEJO"?
Confiram:

LAGARTUS ASSUSTADUS LIGEIRUS

Tejuaçu, tejo ou tiú (é a cara dum camaleão)

Quando adulto chega a medir um metro de comprimento. Alimenta-se de batatas silvestres, folhas de pau, casca de planta, ovos e raízes do pau pereiro. Vive uma média de três anos. Ovíparo, o bicho! Seu mais terrível inimigo é a cobra caninana, também chamada de NINA ou NINANA. Por determinação da natureza, toda vez que se cruzam o pau canta. Enfrentam-se com fúria mortal, porém raramente há vítima fatal nesses confrontos. Depois de levar uma mão de peia medonha, a cobra NINANA sai se retrocendo, toda estrupiada e o tejuaçu corre para restaurar as forças, mastigando plantas medicinais, batata de purga ou cabeça de nego, para anular o efeito do veneno. O tejuaçu é um bicho muito tímido e assustadiço, por isso vive se escondendo. Quando vê alguém, pranta os pés na carreira. A corrida é rápida e efêmera. Mais adiante ele para e fica olhando de lado, como se não lembrasse porque correu... Coisa que dura pouco, do tipo fogo de palha, pode tranquilamente ser classificada como carreira de tejuaçu.  (Tarcísio Garcia, no livro NÓ NA LINGUA, 1997)


Dada a velocidade da carreira do tejuaçu, quando alguém deseja pressa no sertão costuma dizer para o portador: - SELE O TEJO, PISE NA FOLHA E RUMBORA... E RISQUE! 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

FEIRA DO CORDEL




Desenho: JÔ OLIVEIRA | Arte: KLÉVISSON (Clique para ampliar)

Vem aí, a IV FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO!

De 17 à 20 de outubro de 2019. Serão 4 dias de interação, valorização, difusão e troca de conhecimentos de uma das maiores manifestações culturais do Brasil, fazendo da CAIXA Cultural Fortaleza um verdadeiro celeiro de grandes artistas e um imenso acervo com as mais variadas obras do cordel brasileiro.
Faltam apenas 30 dias, marque na sua agenda, convide os amigos, traga a família e embarque com a gente nessa grande viagem ao mundo encantado do CORDEL.


#feiradocordelbrasileiro #cordel #patrimonioimaterial #tradicao #vemprafeira



quinta-feira, 19 de setembro de 2019

SONETO DE ANIVERSÁRIO




Cinquenta e dois anos! Tempo bastante
Para se aprender o que a vida ensina
Conter os impulsos da língua ferina
Descartar da roda sujeito tratante.

Desviar caminho de todo farsante
Procurar o ouro somente na mina
Se vir o perigo, dobrar a esquina,
Recebendo amor, seja bom amante.

Ser leal com todos que nos abençoam
Porque nessa vida, nossos dias voam...
Agradeço, então, o amor de vocês.

Pois a gratidão é a maior virtude
Desejo a todos mais paz e saúde
Para celebrarmos meus cinquenta e três!

Caucaia, 19 de setembro de 2019

terça-feira, 10 de setembro de 2019

SESQUICENTENÁRIO DO POETA


João Melchíades na capa da primeira edição de 
Cantadores e Poetas Populares, de F. Chagas Baptista (1929)

João Melchíades, o Cantor da Borborema

Por Bráulio Tavares
(Do blog Mundo Fantasmo)

O dia de 7 de setembro é aniversário de muita gente importante, como meus amigos-do-coração Roberto Coura e Jackson Agra, e de instituições fundamentais para o equilíbrio do Universo, como o Treze Futebol Clube, o glorioso Galo da Borborema.

Mas resolvi dedicar este artigo a um aniversariante não menos ilustre, embora pouco conhecido, que hoje completa o seu sesquicentenário de nascimento.

Nasceu em 7 de setembro de 1869, no município de Bananeiras (PB) o poeta que veio a ser chamado “O Cantor da Borborema”, João Melchíades Ferreira da Silva.

Acabei de passar os olhos no primeiro esboço da biografia do poeta que está sendo escrita pelo pesquisador Arievaldo Viana, de Fortaleza, o mesmo que biografou o “pai do cordel” Leandro Gomes de Barros, além do precursor “Santaninha”, cuja vida ele reconstituiu juntamente com Stélio Torquato.



Aqui, as respectivas referências:

Leandro:

Santaninha:

No seu trabalho bem documentado sobre João Melchíades, sob o título provisório de A Saga Aventurosa do Cantor da Borborema, Arievaldo destaca, entre outros, três elementos importantes para fazer dele um personagem único:

1) Lutou ainda muito jovem na Guerra de Canudos.

2) Escreveu o Romance do Pavão Misterioso.

3) Foi personagem de Ariano Suassuna no ciclo da Pedra do Reino.

Melchíades teve uma vida aventurosa: raptado por ciganos antes dos dez anos de idade, só foi resgatado pela família três anos depois. Aos dezoito anos, ainda na época da monarquia, entrou para o Exército, e em 1897, como integrante do 27º Batalhão de Infantaria das Forças Armadas, foi combater na Guerra de Canudos, onde quase perdeu a vida. Depois da guerra, foi promovido a Sargento-Mor.

Existem relatos entre seus descendentes de que ele teria voltado da guerra muito traumatizado pelos episódios de violência e crueldade que testemunhou, entre eles a visão dos cadáveres carbonizados de mães agarradas aos filhos. Em todo caso, participou da tomada das trincheiras dos jagunços ao longo das margens do rio Cocorobó, uma das batalhas mais sangrentas daquela guerra.

Melchíades casou-se em 1897 com Senhorinha Melchíades, com quem teve quatro filhos. Nessa época começou também a sua produção poética. Segundo Arievaldo Viana, a pesquisadora Ruth Brito Lemos Terra localizou um poema datado desse período.

Alguns dos folhetos mais conhecidos do poeta, que morreu em 1933, são A Guerra de Canudos, O Príncipe Roldão no Leão de Ouro, Estória do Valente Sertanejo Zé Garcia, Combate de José Colatino contra o Carranca do Piauí, História de Juvenal e Leopoldina, A Vitória dos Aliados: a Derrota da Alemanha e a Influenza Espanhola e outros.

Com relação ao célebre Romance do Pavão Misterioso, existe há muitas décadas dentro da historiografia do cordel uma polêmica acesa sobre quem seria o verdadeiro autor do folheto: José Camelo de Melo Rezende ou João Melchíades Ferreira da Silva.

Arievaldo Vianna colhe depoimentos de descendentes dos poetas e de outras fontes, e tenta pôr um pouco de ordem nesta discussão que repousa em grande parte nas opiniões de pessoas que dispõem apenas de relatos orais. Há pouca documentação impressa disponível.



Segundo Arievaldo,

...entre 1925 e 1929 circula a primeira edição impressa de O Pavão Misterioso, a qual vinha assinada por João Melchíades Ferreira da Silva. Alguns pesquisadores asseguram que já havia uma versão do poema, escrita anteriormente pelo paraibano José Camelo de Melo Resende. Esta versão supostamente “original”, no entanto, teria vindo a lume apenas sob a forma de cantoria, numa apresentação de Camelo Resende, não tendo sido publicada. Teria ocorrido então que João Melchíades, parceiro de Camelo Resende em algumas cantorias, memorizara a essência da narrativa, reescrevendo-a a seu modo.

Há indícios de que Camelo teria de fato criado a versão inicial do romance, mas Melchíades imprimiu primeiro a sua, de modo que cada um, possivelmente, achava-se com algum direito para reivindicar a primazia.

José Camelo não protestou de início porque foi esta uma fase turbulenta de sua vida; preso por ter recebido e passado adiante (inadvertidamente) algum dinheiro falso, ele levou anos para reequilibrar sua vida. E nesse processo revoltou-se contra a publicação do folheto de Melchíades, afirmando, ao publicar sua própria versão:

Quem quiser ficar ciente
da história do Pavão
leia agora este romance
com calma e muita atenção
e verá que essa história
é minha, e de outro não!

Há muitos anos versei
esta história, e muitos dias,
fiz uso d’ela sozinho
em diversas cantorias
depois dei a cópia dela
ao cantor Romano Elias.

O cantor Romano Elias
mostrou-a a um camarada,
a João Melchíades Ferreira
e este fez-me a cilada
de publicá-la, porém,
está toda adulterada.

De fato existem diferenças textuais entre as versões dos dois autores, bem como semelhanças, que o livro de Arievaldo estuda de maneira mais minuciosa.

João Melchíades tem a honra de ser um dos poucos personagens “da vida real” que figuram no Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna (ele e o poeta-charadista Euclides Vilar). No livro, ele é o mestre poético do protagonista Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, e aparece em momentos-chave da narrativa.

O maior destaque dado a Melchíades, contudo, é numa das sequências do romance, As Infâncias de Quaderna, publicado em folhetins no Diário de Pernambuco entre 1976 e 1977, e ainda inédito em livro.

É nesta última obra que João Melchíades é visto por Quaderna pela primeira vez, no Folheto XLIII, ”A Casa do Matagal e a Chave Enferrujada”.

Quaderna tinha sido raptado por ciganos (tal como ocorreu com Melchíades na vida real) e é resgatado pelo cangaceiro Antonio Silvino, que o traz de volta para a casa de sua família. O garoto está passeando pela fazenda com seu primo Arésio Garcia-Barreto e os dois se encontram com o poeta, que reconhece Quaderna, de quem é primo distante. E passa a transmitir a este, pela primeira vez, a história da família de ambos!

João Melchíades começou a infeccionar meu sangue com aquela turva história de assassinatos sobre aras e pedras, tesouros, encantações, combates, coroas, elevação e trucidamento de Reis, violações de Princesas, incêndios, degola dos inocentes e outras coisas gloriosas e monárquicas.


Diante do menino maravilhado com tantas façanhas nobres, Melchíades continua:

– Os turcos inventaram que tinham matado O Rei Dom Sebastião, na África, mas é mentira. Ele veio para cá, numa Nau, entre nevoeiros, e depois um filho dele veio morar no Pilar, e o neto em Boqueirão de Cabaceiras, junto com o Teodósio, o Imperador Teodósio – Teodósio de Oliveira Ledo de nome. (...)

Veio a Guerra dos Quebra-Quilos em 1874: foi aí que, na estrada de Campina Grande aqui para Taperoá, degolaram seu Avô, meu tio, Pedro Alexandre. A mulher dele, Bruna, tia minha e Avó sua, pegou a cabeça cortada dele e veio para cá, pedir morada e proteção a seu outro Avô, o Barão do Cariri. (...) Bruna, que era filha do Padre Wanderley, mandou botar na salmoura a cabeça do marido dela, Pedro Alexandre, para ela não apodrecer.

É esse o mestre que injeta na imaginação fogosa de Quaderna uma boa parte dos delírios que futuramente irão desencadear os prodígios, os crimes bárbaros e as convulsões sociais do Romance da Pedra do Reino. Seu uso como personagem de ficção por Ariano mostra a importância deste poeta de verdade cujo sesquicentenário de nascimento celebramos hoje, 7 de setembro de 2019, quando o Brasil mostra que não mudou nada, nadinha.


O poeta, escritor, compositor e dramaturgo paraibano Bráulio Tavares



Fonte: http://mundofantasmo.blogspot.com/2019/09/4501-joao-melchiades-o-cantor-da.html


VISITE TAMBÉM: http://acordacordel.blogspot.com/2019/09/homenagem.html

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

HOMENAGEM


Arte: Arievaldo Vianna

7 de setembro de 2019:
SESQUICENTENÁRIO DE JOÃO MELCHIADES FERREIRA DA SILVA, O CANTOR DA BORBOREMA



HÁ EXATOS 150 ANOS, no dia 7 de setembro de 1869, nascia mais um patriota no município de Bananeiras-PB: o menino João Melchíades Ferreira da Silva, que se auto-intitularia, no futuro, O Cantor da Borborema. No folheto "Os homens da cordilheira" (há um exemplar catalogado nos Fundos Villa Lobos, organizado por Mário de Andrade), João Melchíades diz que seu avô materno, o beato Antônio Simão, construiu uma igreja na serra, a pedido do padre Ibiapina. Ele teria fundado também uma escola para educar crianças, onde o próprio Melchíades aprendeu as primeiras letras. No terrível triênio de seca que foi de 1877 a 1879, já órfão de pai e criado sob a tutela desse avô, o menino João Melchíades foi raptado por um grupo de ciganos. Dizem que ele teria se encantado pela música e resolveu acompanhá-los. Sua mãe só foi resgatá-lo de volta cerca de dois anos depois.

De espírito inquieto e aventureiro, sua sina era correr o mundo. Aos 18 anos sentou praça no Exército, ainda na Monarquia. Em 1897 João Melchíades, integrante do 27º Batalhão de Infantaria das Forças Armadas, foi convocado para combater na Guerra de Canudos, onde quase perdeu a vida. Após a guerra, foi promovido a Sargento-Mor. Lembranças familiares, recolhidas num velho manuscrito por sua neta Lela Melchíades, a partir dos relatos de sua avó Senhorinha, informam que ele voltou traumatizado da Guerra e não gostava de tocar no assunto. Ficou muito chocado ao ver os cadáveres de mães carbonizados e abraçadas aos filhinhos, naquilo que Euclides da Cunha batizou de "a nossa Vendeia" ou "Troia sertaneja". Ele participou ativamente da tomada das trincheiras às margens do rio Cocorobó, uma das refregas mais sangrentas daquela luta fratricida.

Informa a pesquisadora Ruth Brito Lêmos Terra que a atividade poética de Melchíades é anterior a 1898. Ela baseia-se no poema "Melchíades escreve a Cícero de Brito Galvão, no Rio de Janeiro, sobre a açudagem do Seridó", onde o poeta faz referência a um açude de propriedade do cangaceiro Silvino Ayres, mentor de Antônio Silvino. O ano de 1898 foi o mesmo em que Silvino Ayres foi preso e, por conta disso, sucedido por seu êmulo no comando do cangaço.


Folheto raro de Melchíades 
(in Fundos Villa-Lobos, Coleção Mário de Andrade)


Folheto raro de Melchíades (in Fonds Raymond Cantel)


Em 1903, João Melchíades foi designado para combater na fronteira do Acre com a Bolívia, onde contraiu a febre béri-béri, que quase o vitimou. Nesse período, o poeta andava na companhia do cantador Joaquim Jaqueira e chegou a fazer apresentações em Manaus e em Belém do Pará, ao som da viola. No ano seguinte, segundo apurou o pesquisador baiano José Calasans, Melchíades resolveu publicar, em cordel, suas memórias sobre Canudos. É possível que tenha sido escrito ainda no século XIX, após o término da guerra. Sua visão é alinhada com a propaganda difamatória que se fazia contra o beato Antônio Conselheiro, por meio de libelos divulgados na imprensa, sob a orientação do Ministério da Guerra. Mas nem por isso ele deixa de reconhecer a bravura dos conselheiristas em estrofes antológicas como esta:

"Escapa, escapa, soldado
Quem tiver perna que corra
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra
Há de nascer duas vezes
Quem sair desta gangorra".


Na opinião de Calasans, Melchíades era poeta de reconhecida capacidade, como podemos comprovar nesses versos que consignam um instante dramático da fuga dos soldados da terceira expedição. Na década de 1970, a pesquisadora Ruth Terra entrevistou uma filha do poeta, Santina, e teve acesso a uma carta de 1914, dirigida à sua esposa, Senhorinha (mãe de seus quatro filhos), falando sobre o folheto do Matador de Onças ("História do Capitão Cazuza Sátyro"). Nessa correspondência, o poeta fala também de outras obras e de seus filhos. O pesquisador Mário de Andrade considerou esse poema excelente ("Cazuza Sátyro, o Matador de Onças") e anotou isso, de próprio punho, num exemplar que se encontra na coleção dos Fundos Villa-Lobos. Diz Mário de Andrade: "Estupendo! Não porque esteja feito com espírito, mas pelo interesse extraordinário de quanto conta pelo realismo, às vezes duma firmeza homérica, com que conta. É admirável e vale mais que qualquer espírito".

Outro folheto muito elogiado, que tornou-se um dos maiores clássicos da chamada Literatura de Cordel é a "História do Valente Sertanejo Zé Garcia", assim avaliado por mestre Câmara Cascudo, em seu "Vaqueiros e Cantadores": "Retrata deliciosamente o sertão de outrora, com as pegas de barbatão, escolhas de cavalos para montar, rapto de moças, assaltos de cangaceiros, chefes onipotentes e vaqueiros afoitos, cantadores famosos e passagens românticas. Pertence bem ao ciclo social que terminou no século XX e que durara até o século XIX".


Versão infanto-juvenil, releitura de Arievaldo Vianna e Jô Oliveira


O PAVÃO MISTERIOSO

Entre 1925 e 1929, circula a primeira edição impressa do folheto "O Pavão Misterioso", assinada por João Melchíades Ferreira da Silva. Alguns pesquisadores asseguram que já havia uma versão do poema, escrita anteriormente pelo paraibano José Camelo de Melo Rezende (1885 - 1964) mas que ainda não fora publicada, mas cantada ao vivo. José Camelo era um autor imaginoso e brilhante, de grandes recursos poéticos. Ao que parece, a polêmica em torno da autoria só ganhou repercussão após a morte de Melchíades, em 1933. Depois que o folheto se consolidou como um estrondoso sucesso, tornou-se objeto de cobiça de vários editores, que incitavam a polêmica para facilitar a sua publicação sem pagar direitos autorais a nenhum dos dois poetas.

Segundo Átila de Almeida e José Alves Sobrinho, autores do Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, nesse período, José Camelo vinha sofrendo perseguições e havia se afastado da Paraíba e se refugiado no Rio Grande do Norte. Essa situação nunca foi devidamente esclarecida. Aroldo Camelo de Melo, sobrinho do poeta, assegura que ele estava preso, em João Pessoa, por causa de dinheiro falso que recebera de um editor no Recife (PE). O pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira-PB, encontrou cópia de um folheto escrito e publicado por José Camelo narrando esse episódio do dinheiro falso, dos seus percalços perante à Justiça e de como conseguiu se livrar da acusação. Vale ressaltar que o mais importante editor de cordel da época, atuando no Recife-PE, era ninguém menos que João Martins de Athayde, com quem José Camelo mantinha negócios. Entretanto, no folheto intitulado "A prisão e soltura de José Camelo" o poeta afirma que recebeu as cédulas falsas de um rapaz que lhe comprou quatrocentos folhetos para revenda. O mesmo rapaz apareceu à noite na cantoria que realizava em companhia de um colega. Parecendo cortês e generoso, colocou uma cédula graúda na bandeja e pegou outras menores, verdadeiras, como troco. O caso do dinheiro falso veio a ser descoberto por um policial, a quem um amigo do poeta comprara um carneiro gordo com uma das cédulas recebidas na dita cantoria. Daí em diante começa o seu calvário, a fim de provar a sua inocência. É um caso que precisa ser melhor apurado, já que chegou aos tribunais da Justiça paraibana.


Em seus livros, a pesquisadora Ruth Terra apresenta uma lista completa (ou quase) de todos os poetas populares que haviam publicado folhetos entre 1898 e 1930. Na Casa de Rui Barbosa e outras coleções pesquisadas pela autora, aparecem diversos folhetos de João Melchíades, mas nenhum de José Camelo, até o ano de 1930.

Segundo o testemunho do poeta Antônio Ferreira da Cruz, que escreveu um folheto intitulado "A morte de João Melchíades - O Cantor da Borborema", publicado pela tipografia da Popular Editora, de João Pessoa, Melchíades era uma espécie de "professor de cantoria" e tinha muitos discípulos. Um de seus parceiros era justamente o cantador José Camelo de Melo, com quem viajava fazendo apresentações. Aroldo Camelo informa que, durante uma dessas apresentações, a questão da autoria do "Pavão Misterioso" veio à baila, mas em clima amistoso. Camelo terminou uma estrofe dizendo: "O pavão tem duas asas / pode voar com nós dois". Melchíades respondeu com outra estrofe, no mesmo tom. Eis o que diz Antônio Ferreira da Cruz, na página 4 do folheto já mencionado, falando inicialmente de uma polêmica (poética) que Melchíades (católico fervoroso) mantinha com os evangélicos:

"Era um cantor educado
Na regra de divertir
Não bebia, não jogava,
Nem gostava de mentir;
Com qualquer pastor da crença
Gostava de discutir.

Em toda zona brejeira
Mostrava bem seu emblema
Era muito conhecido
Por Cantor da Borborema
Desde o Pico do Jabre
Ao Boqueirão da Jurema.

Ensinou muitos cantores,
Era um escritor de fé
Andou com José Camelo
Ensinou Antônio Thomé
Ensinou José Thomás
Lecionou Josué

Em toda escala de versos
Ele sabia cantar
Ensinou a cantador
Que não sabia falar
Ainda que alguém lhe desse
A paga de o difamar".

No romance "A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta", de Ariano Suassuna, João Melchíades Ferreira aparece como padrinho de crisma e mestre de cantoria de Quaderna e de seu parceiro Lino Pedra Verde. Pelo visto, mestre Ariano tinha ciência dessa atividade de Melchíades. Nas "Infâncias de Quaderna" o personagem criado por Ariano também é raptado por ciganos, como de fato ocorreu com João Melchíades, quando criança.
A saga do Cantor da Borborema virou livro, uma biografia escrita por Arievaldo Vianna, incluindo um estudo crítico da obra, com colaboração do professor Stélio Torquato Lima e prefácio de Bráulio Tavares. Importante ressaltar também a colaboração do pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira, que levantou fotos, documentos e folhetos raros em Campina Grande, João Pessoa e na região do Brejo Paraibano, área de maior atuação do poeta.
Depois de realizarmos uma cuidadosa pesquisa, entrevistando familiares, colhendo documentos em cartórios e livros paroquiais, elaboramos um texto enxuto porém fartamente documentado, a fim de contar a sua história sem acirrar, ainda mais, essa polêmica infrutífera que ainda hoje norteia os voos do Pavão Misterioso.

ARIEVALDO VIANNA


5ª Edição de Historia do Valente Sertanejo Zé Garcia,
de 1926, edição feita ainda em vida do autor, por F. C. Batista & Irmão.
(Coleção Mário de Andrade)