segunda-feira, 6 de junho de 2011

MESTRES DA XILOGRAVURA - III

 WALDERÊDO GONÇALVES
UMA VIDA ESCRITA NA MADEIRA



Por GILMAR DE CARVALHO *


Praça do Cristo Redentor, ponto dos ônibus que fazem a linha Crato –Juazeiro, debaixo dos pés de ficus benjamins, os “velhos” se reúnem para  jogar dominó. Walderêdo, Gonçalves muitas vezes, passa por lá.
Antes, poderia também estar na livraria de seu Ramiro Maia, à rua Senador Pompeu, que fechou, depois de quase setenta anos de atividades.
O mais certo é pegar um mototáxi e subir a ladeira íngreme da Caixa d’ Água, onde ele mora à rua Gérson Zábulon n° 100.
Aos oitenta e quatro anos completos, este grande nome da gravura brasileira, de todos os tempos, que gosta de receber, é sempre atencioso e conversa muito, revolvendo histórias do arco-da-velha, merece, como poucos, ser chamado de mestre.

COMEÇO

Walderêdo nasceu dia 19 de abril de 1920, na rua da Boa Vista, que hoje se chama Nélson Alencar, na cidade do Crato. Dizem que o Milfont, de seu pai José Gonçalves, que a mãe Maria Emília Oliveira herdou, por força de lei, veio de um ancestral Louis Charles, fugitivo da Revolução Francesa, de 1789, que teria se radicado no Brasil.
O pai trabalhava com madeira , “era mais carpinteiro do que marceneiro” e foi com quem o menino se iniciou neste ofício.
Estudou pouco, não tendo passado da segunda série. Foi expulso da escola porque fez “um desenho um pouco pornográfico de uma mulher despida, uma celeuma na sala de aula. De lá pra cá, não ocupei mais professor, meu professor é o mundo...”
Saiu da escola e foi trabalhar. Walderêdo sempre quis levar um dinheiro para casa, pois a família era  pobre e passou a vender apostas do jogo de bicho. O pessoal da livraria Ramiro ficou freguês do jovem cambista mas, nesse tempo, o jogo era clandestino. Ele passou a prestar atenção no material escolar que a livraria vendia e, um dia, na volta às aulas, grande movimento de vendas, se ofereceu para ajudar. “Comecei no balcão da livraria Ramiro aí, nas horas vagas, ia para  a gráfica, que ficava atrás, para imprimir tabuada e carta de ABC”.
Walderêdo aprendeu rápido o ofício, ao contrário do que pensavam seus patrões, e Luis Maia, que foi dono da livraria Renascença, em Fortaleza, o definiu como “o menino que nasceu com o tipo na mão”.
Em 1935, José Bernardo da Silva (1901 / 1972), romeiro alagoano radicado em Juazeiro, “chegou para fazer um livro de orações, do Coração de Jesus. Ele queria ilustração e lá não tinha nenhuma zincogravura”.
Walderêdo relembra: “aí, na hora do almoço, peguei um pedaço de massaranduba, que meu pai tinha oficina em casa,  aí desenhei, cortei e imprimi minha primeira xilo”.
Nessa época, Zé Bernardo vendia folhetos e orações nas feiras e, como não tinha tipografia, recorria às do Crato. O auge veio, a partir de 1949, quando adquiriu o acervo do paraibano João Martins de Athayde (1880 / 1959), estabelecido no Recife, deslocando para Juazeiro o principal pólo de edição de cordel do Brasil.


HISTÓRIA E VIDA
 
A trajetória de Walderêdo é rocambolesca: “gráfica, carpintaria, eletricidade, carimbo de borracha, tudo eu fazia”, ainda que o pai o ameaçasse dizendo: “quem trabalha com muitas profissões não faz nada que preste”.
O casamento, dia 18 de dezembro de 1943, na Sé do Crato, foi celebrado pelo monsenhor Assis Feitosa, e o uniu à prima Maria Ione Gonçalves Moreira, nascida a 12 de março de 1926, com quem teve dez filhos, dos quais seis se criaram: Valdione, Rosália, Valderez, Valdenora, Irinéa e um único filho Geraldo Valdinei. Às vésperas de completar sessenta anos de casados, em meio a rabugices de casal velho, eles contabilizam vinte e três netos, mesmo número de bisnetos e quatro tataranetos.
No ano seguinte, foram morar em Ouricuri (PE), porque Walderêdo tinha sido aprovado num concurso para o Serviço Nacional da Peste (que se transformou na SUCAM, segundo ele), onde ficaram pouco mais de um ano e onde nasceu a primogênita. Transferido para o Piauí, pediu demissão desse que foi seu trabalho “mais seguro”.
A ida para Juazeiro foi porque dona Ione, filha única, queria ficar junto dos pais, o ourives João Moreira Maia e Irinéa Gonçalves Moreira, que moravam lá. Walderêdo gastava o que não tinha comprando remédios e ajudando os pobres do Barro Vermelho, onde morava. E eles ficaram na cidade do Padre Cícero, de 1956 a 1964.
José Bernardo quando soube da chegada do “romeiro” passou a chamá-lo, com freqüência, para cortar as capas da editora de folhetos.
Walderêdo era inquieto demais para se contentar apenas com a xilogravura e o mercado pequeno para suas necessidades. Passou a abrir letreiros de paredes, trabalhou com a fundição de ouro (com o sogro), fez cadeiras, quadros de diplomas e, durante quatro anos, “trabalhei em casa de jogo, mas orientei os meus a não quererem saber de jogatina”.
Enquanto isso, dona Ione “pegava no pesado”, fazendo cocadas, doces e merendas, para ajudar nas despesas da casa.
Walderêdo tinha uma curiosa  aptidão para abrir cofres. “O pessoal tem um negócio de abrir cofre de ouvido. Não é ouvido, é a mão. Uma rodando aqui, outra forçando o trinco. Aí vai rodando, dá aquele pulinho, pá. A gente vai anotando os pulos e vê quais são os positivos e os negativos”. E a porta se abria, num passe de mágica.
E conta a história do primeiro cofre que abriu, que pertencia a três banqueiros do jogo do bicho, que pelejaram e não conseguiam abri-lo. “Aí eles se enfezaram e um deles puxou um revólver. Eu disse: isso aí é de ferro, não abre assim. Dê licença para eu tentar. Aí eu, pá, pá, pá. Pa!. Taí o cofre tá aberto. Aí não faltou mais cofre no Juazeiro pra eu abrir”, para concluir desalentado: “Hoje o pessoal não bota mais dinheiro em cofre”.

ARTE E TÉCNICA

Da tipografia dos Maia, passou pela gráfica do Bispado do Crato, que publicava o jornal “A Ação”, sob a direção de José Barbosa.
Também cortou tacos para a Tipografia Lima, depois Casa dos Horóscopos, de Manoel Caboclo, em Juazeiro, cujo baú de tacos guardava relíquias de Walderêdo, bem como a tipografia do Bispado, que teve suas máquinas vendidas e as matrizes, provavelmente, foram junto (ou jogadas fora).
Walderêdo aconteceu, no início dos anos 60, quando a Faculdade de Filosofia do Crato fez uma tiragem de pranchas de sua autoria.
Em 1962, Sérvulo Esmeraldo e Lívio Xavier, emissários do Museu de Arte da Universidade do Ceará ( MAUC), fundado no ano anterior, foram ao Cariri comprar tacos para o acervo da instituição e aproveitaram para encomendar álbuns, como a “Via Sacra”, de Mestre Noza; “A Vida do Padre Cícero”, de Lino da Silva; “As Aventuras do Caboclo Vira- Mundo”, de José Caboclo e o “Apocalipse”, do Walderêdo.
Walderêdo afirma ter recebido “sugestão”, e nega as referências impressas.. Categórico, afirma que sua Bíblia não trazia ilustrações deste livro profético. “Por isso tem umas caras imitando o sol, outra quadrada, como se fosse um brilhante, de acordo com a história do Apocalipse”, diz comprovando que leu de verdade.
Ele trabalhou a madeira com um virtuosismo ainda hoje perseguido por muitos gravadores. O que ele chama de “foco de luz, e que o pessoal chama de luz celestial” e brinca: “vou lhe ensinar, eu já tou perto de morrer”. Desconjuro! E continua: “a gente deixa essa parte aqui bem elevada. Aí essa elevada fica bem escura, aí vai puxando. Digamos, deixei aqui elevado, aí vou raspando um pouquinho, só raspar, aí fica mais claro, pega menos tinta quando o rolo passa. e quando imprime ela imprime mais branco”. É assim que ele consegue meios tons.
 A xilogravura de Walderêdo está longe de ser a tábua escavada, de modo tosco. Ele é preciso no corte, refinado nos detalhes e sua criação é inconfundível. Luís Karimai, pintor e desenhista de méritos, e Nilo, um dos talentos da nova geração são seus “herdeiros”.
O que ele conseguiu com um canivete ( tem estojo de goivas, mas usa pouco), um pedaço de umburana bem lixado e muito talento, não é fácil de ser obtido.
Participou das coletivas do acervo do MAUC em cidades importantes do circuito das artes, como Lisboa, Barcelona, Colônia, Madrid, Viena, Basiléia  e Paris.
Logo, alugou sua competência a gráficas da região, como a Universitária, do Crato, que migrou para Juazeiro, e passou a fazer rótulos, diplomas, embalagens, em trabalhos que exigiam um “senhor” impressor para o registro das cores. Trata-se de um mestre, na mais completa acepção do termo.
E não ficou só na madeira. Cortou linóleos (placas de paviflex), fórmica, borracha e derreteu o chumbo para fazer o molde, obtendo o “carimbo” em alto relevo. Fez placas de bronze, painéis de pedra (para o Parque de Exposições do Crato, destruído por um prefeito vândalo) e esculturas.
Nesta época, Walderêdo estava menos nômade e querendo um pouso que foi a casa no bairro Caixa d ‘Água, adquirida em 1979, onde vive até hoje.

MEMÓRIA E MERCADO

Ele relembra a Tipografia São Francisco. Diz que o editor nunca escreveu nada, “a maior parte daqueles folhetos de Zé Bernardo são do Expedito (Sebastião da Silva), que trabalhava lá”. Um dia, ele teria se queixado “de que não sabia porque o  Expedito não queria assinar o nome dele como autor da poesia” e Walderêdo não perdeu tempo: “Isto é problema dele, seu Zé Bernardo”.
Sobre dona Ana Vicência, avalia que era muito “financista” e queria pagar pouco pelas matrizes.
Diz que os emissários do MAUC ao Cariri compravam os tacos e obrigavam os editores a encomendar outros, o que foi muito bom para os artistas e também para preservar uma produção que, de outro modo, teria se perdido no tempo.
Conheceu  Noza, de quem foi amigo, “ele trabalhava pouco em xilogravura, trabalhava mais em escultura. Quando alguém ia encomendar algum trabalho ele mandava: vá lá no Walderêdo...”
Não conheceu Damásio Paula e não teve aproximação com João Pereira, Manoel Lopes ou outros gravadores desta primeira fase.
Chegou a desenhar o que cortava, “fazia no papel e emborcava o papel aqui, riscava por cima, aparecia a sombra e eu avivava”. Passou a desenhar na própria madeira, com o lápis de cor azul e o auxílio da borracha.
Interessante como ele conseguiu, autodidata que era, e sem interlocução com outros gravadores, realizar um trabalho de tanta personalidade e competência.
Em relação à fé, Walderêdo confessa: “hoje eu não acredito em nada. Sou discrente de tudo. Eu me baseio naquela filosofia de Lavoisier: nada se constrói, nada se destrói, tudo se transforma. Então pra que religião? Viveu, morreu, acabou-se”.
Justifica o fato de grande parte de sua temática ter sido religiosa por ser objeto de encomenda: “me procuravam e eu fazia e faço tudo o que me pedirem para fazer”.
A família crescia e com ela a responsabilidade. Nenhum dos seus descendentes se interessou pelo ofício de gravador, o que não lhe deixa ressentimentos, tanto que nunca fez questão de ensinar aos filhos e, quando trabalhava, não queria ninguém por perto, “para não “atrapalhar”.
As queixas são muitas. Um “marchand” de Fortaleza (Henrique Blum), teria enganado Walderêdo, adquirido e trazido para a capital, uns tacos que seriam do MAUC, e a série teve de ser refeita.
Outros teriam feito encomendas e não chegado a um acordo quanto ao preço, como o “brazilianista” Ralph della Cava. Parte de suas obras foi parar em museus estrangeiros, como um de Toronto, no Canadá. O galerista Ranulpho, do Recife, encomendou um álbum “Os Doze Apóstolos de Cristo no labor que exerciam antes do...” Explica: “Teve um que eu nunca consegui descobrir e optei pelo caçador. Não dizem que caçador só atira no que vê? São Tomé. Botei que ele era caçador”.
O MAUC, além das matrizes do “Apocalipse”, tem uma série de cenas populares do Cariri (engenho de pau, aviamento, maneiro - pau, o vaqueiro, penitentes) e gravuras soltas. Capas de folhetos, cortadas por ele, se tornaram referências, como “A morte dos doze pares de França”, “Juvenal e o Dragão” e “Antonio Silvino no júri - debate de seu advogado”.
O Dr. José Macário de Brito, do Crato, encomendou uma “Via Sacra”, mas esconde as matrizes  não deixa tirar cópias, “ele diz que só vai abrir o cofre quando eu morrer”.
A idade deixou marcas, como a visão ainda turva pela catarata, que ele só operou um olho, há quatro anos, e pelo princípio de um AVC ( acidente vascular cerebral), ano atrasado.
O reconhecimento ainda não veio. A dissertação de mestrado que se tornou livro (“A xilogravura de Walderêdo Gonçalves no contexto da cultura popular do Cariri”, de Jurandy Temóteo), não faz jus à importância do artista. Inexplicavelmente, nenhum  trabalho seu consta do acervo do Museu Vicente Leite, de sua cidade natal.

PROVA DO ARTISTA

Ainda recebe encomendas e faz xilogravuras, como um Santo Antonio, para capa de um folheto da Academia dos Cordelistas do Crato.
Mostra, com indisfarçável orgulho, um Cristo que monta numa garrafa, esculpido em trinta e três pedaços. A idéia que fica é de alguém que poderia ter ido muito além, se tivéssemos tido, desde a criação da Secretaria da Cultura, em 1966, políticas que valorizassem a tradição como ponto de partida para o contemporâneo.
Temos as pranchas do “Apocalipse”, versão matuta de Jean Duvet ou de Gustave Doré, iluminuras sertanejas, clássicas, sem que ele tenha se deixado contaminar pela pressa das encomendas, vencendo os desafios com paciência, determinação e a marca do gênio.
É isso tudo que faz de Walderêdo Gonçalves o grande nome da xilogravura. Os outros, diante dele, são aprendizes. 

Grande debate de Lampião com São Pedro
Xilogravura de Walderêdo Gonçalves


 * In "Artes da Tradição" - (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2005).

VEJA TAMBÉM:

MESTRES DA XILOGRAVURA I - MINELVINO FRANCISCO
MESTRES DA XILOGRAVURA II - STÊNIO DINIZ

3 comentários:

  1. Olá Arievaldo,
    Realmente cada postagem sua é uma aula sobre cordel. Vale a pena conferir suas postagens você realmente nos acorda para tudo que envolve o cordel. Esta postagem sobre o xilogravurista Wanderêdo Gonçalves "é primeira".
    Um abraço,
    Dalinha

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  2. Fiquei feliz e sou grata a voces,por publicar sobre o meu pai.O grande mestre da xilogtavura brasileira.Fiz um blog e gostaria muito de postar algo sobre ele.

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  3. Olá Irinéia Pinheiro, obrigado pela visita. Deixe o endereço do seu blog, para meus leitores visitarem também.

    Arievaldo Viana

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