quinta-feira, 19 de setembro de 2013

UM BRINDE À VIDA

 
Arievaldo Viana
 
Cheguei aos quarenta e seis
Anos de minha existência
Pleno de graça e vivência
Felicidade, talvez...
Por isso digo à vocês
Que nunca estive sozinho:
Dos filhos tenho o carinho
E os beijos da companheira
E ao longo da vida inteira
Tenho Deus no meu caminho.
 
Passei vereda de espinho
Galguei ladeira tirana
Muita casca de banana
Puseram no meu caminho
Porém eu sou como o vinho
Envelhecido na adega
Saio melhor da refrega
Venci com fé em Jesus
Quem busca a trilha da Luz
Não cai em qualquer bodega.
 
Mas minha alma sossega
Lembrando do que plantei
Das sementes que deixei
Nos momentos de entrega
Quando Deus fizer a sega
E ceifar os meus terrenos
Só tem pecados pequenos
Não sei quanto vou pagar
Talvez não queira cobrar
Muito de quem peca menos.
 
Peço sempre ao Nazareno
Pra me dar paz e saúde
Ter fé é uma virtude
O resto é café pequeno
Neste momento sereno
De ventos celestiais
Eu busco cada vez mais
Sair da trilha de espinho
E agradecer o carinho
Dos meus amigos leais.
 
Escrito entre 18 e 19 de setembro de 2013
 
 
 * * *

Relendo o livro Fulô do Mato, do poeta potiguar Renato Caldas (Editora Queima-Bucha) encontrei essa pérola: "Toda sodade é assim", que reproduzo a seguir...



TODA SODADE É ASSIM
 

Meu patrão, eu reconheço
E sei cuma é caro o preço
De uma arrescordação...
- O prazê da mocidade,
Pra se pagar com sodade...
Hai muita expiloração!
 

Às vez, a gente lucrou-se
De tão pouco, qui acabou-se
Sem o gosto do bom senti.
Depois dos tempos passados
Os gostos vão ser cobrados
Com juros – sempre a subi.
 

As contas sempre são véia,
Só é nova a churrutéia
Se as lembranças vem cobrá.
O freguês paga tudinho...
Mas, fica sempre um rabinho,
Pra conta continuá.
 

Um namoro atrás do muro,
Um passeio no escuro...
Uma bestêra quarqué.
Só sei qui na tramunhada,
Tem uma história embruiada
Na saia de uma muié.
 

Patrão, tô véio e cansado,
Arrescordo o meu passado...
Num sô um véio chorão.
Mas fico desmilinguido
Se dentro do meu sentido
Passeia a rescordação.
 

- A sodade é buliçosa.
É renitente. É teimosa,
Num tem acomodação...
Noite e dia trabaiando,
Bulindo, cascaviando,
No baú do coração.

 
Vê minha mãe remendando
Minha rôpa... Fuxicando...
Eu junto dela, no chão
Brincando c’uma boiada
De osso de panelada...
Sodade é isso, patrão!
 

Sodade é rescordação!
É dô... É satisfação.
É estrepe de mel de abeia,
É luz, qui a gente apagando
Fica pru dentro, queimando
O pavio da candeia.
 
 


RENATO CALDAS 

Por: Rostand Medeiros

 
O poeta Renato Caldas nasceu na cidade de Assú no dia 8 de outubro de 1902, sendo considerado o maior representante da poesia matuta no Rio Grande do Norte.

Ficou conhecido como o “poeta das melodias selvagens”, por seus versos apresentarem de maneira simple e espontânea, para alguns até mesmo rude, mas sempre original, aspectos do amor, da simplicidade da vida do homem do campo, da natureza sertaneja e da beleza feminina.

Homem expansivo, o poeta Renato Caldas era um grande boêmio e um apreciador das cantigas populares. A sua obra mais conhecida é o livro de poesias “Fulô do Mato”.
 

domingo, 15 de setembro de 2013

O RATO VEM E CARREGA

 
O poeta Paiva Neves publicou esta foto no facebook, retratando sua banca de folhetos no Dragão do Mar. Sem o rato, é claro. Tive a idéia de provocá-lo para um debate, do qual participaram também os poetas Rouxinol do Rinaré e Stélio Torquato:
 
O RATO VEM E CARREGA

(Reflexões sobre a Literatura de Cordel)

 

ARIEVALDO:

Quem vive da poesia
Tem que fazer uma entrega
Entregar seus sentimentos
Sem entregar o colega
Depois que fizer sonetos
Se agarre com seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
PAIVA NEVES:

Manterei o olho vivo
Na banquinha do cordel,
Meu amigo menestrel
De versejar criativo
Paiva Neves é cativo
De sua obra e não nega,
Enfrenta qualquer refrega
De dez pés até tercetos
Se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega

 
STÉLIO TORQUATO:

Para que, em absoluto,
Aniquile-se o perigo,
Importa, meu bom amigo,
Vigiar bem seu produto.
Assim, com olhar astuto,
Não se descuide, colega:
Enquanto um olho sossega,
Vela o outro os livretos.
E se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega.

 
ARI

Aqui em casa já deu
Uma praga de cupim
Um inseto muito ruim
Por aqui apareceu
E na coleção comeu
Folhetos do meu colega
Depois de grandes refregas
Os matei com carburetos
Se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega!
 

STÉLIO:

A tal praga de cupim
É realmente cruel:
Ingere livro, cordel
E tudo que é afim.
Voracidade assim
A rataria congrega.
Todo poeta “arrenega”...
Logo, o amigo dos versetos
Deve agarrar os folhetos
Ou vem o rato e carrega.

 
ARI

O rato não pesa um quilo
Mas é bicho interesseiro
Quando vê um folheteiro
Agarra logo o ‘João Grilo’
‘Malazartes’, seu pupilo
E ‘Cancão’, seu bom colega
Sendo gatuno ele agrega
Os leva como amuletos
Se agarre com seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
STELIO

Cabras de todas as partes
Junto a Paiva estão,
Como João Grilo, Cancão
E o tal Pedro Malazartes.
Cuidado com suas artes,
Que a desatenção nos cega.
Quem em bons mares navega
Não tem no armário esqueletos.
Se agarre com seus folhetos
Se não o rato carrega!

 
ARI

Na cidade de Iguatu
Eu vendia os meus cordéis
Quando chegou, de revés
Um tremendo guabiru
Mesmo sem trazer tutu
Remexeu minha ‘bodega’
Tudo que vê, logo pega,
Saiu a custa de espetos!
Se agarre com seus folhetos
Se não o rato carrega.
 

STÉLIO

Encerro, dupla amada,
Minha ação nesta peleja,
Pois é mister que eu esteja
Em breve em plena estrada.
Volta pra sua morada
Este que a estrada pega.
A lição não desapega
Dos olhos míopes e pretos:
Se agarre com seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
PAIVA

Eu cheguei nesse momento
Da cidade de Horizonte,
Na estrada tinha um monte
De animal, e um jumento
Lá daquele ajuntamento
Relinchou, me deu esbrega
Dizendo: vê se sossega
Rime lenha com gravetos
Se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega.

 
ROUXINOL

Hoje o cordel tá na moda
Ta chovendo “cordelista”
Gente que “parou na pista”
Com uma poética “foda”
Vamos fazer uma poda
Dá nesses tais um “esbrega”
Senão todo esse mal pega
Nos vilarejos e guetos
Segurem bem seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
ARI

É igual couro de pica
O papangu de quaresma
Esse poeta-abantesma
Que o verso desmetrifica
Se remenda, pior fica
Entretanto não sossega
Vai na praia, vai no brega
Berrando seus poemetos
Segurem bem seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
ROUXINOL:

Esses ratos do cordel
Estão tendo muito espaço
Pondo os incautos no laço
Com um versejar infiel
Amarga igualmente o fel
E engana essa gente “cega”
Se essa moda ruim pega
Vou usar mil amuletos
Segurem bem seus folhetos
Senão o rato carrega!
 

ARI:

Tem poeta sem respaldo
Metido a pesquisador
Tem cordelista impostor
Que o verso não dá um caldo
Essa semente eu escaldo
E não guardo em minha adega
Porque joio em minha sega
Tem o valor dos gravetos
Segurem bem seus folhetos
Senão o diabo carrega!
 

* * *
 


O DIABO VEM E CARREGA
 

Esta aconteceu ali pras bandas dos sertões de Madalena, e é coisa bem recente. A precaução e o bom senso nos mandam omitir o nome dos personagens, mas o caso em si não pode passar em branco. Tem que ser relatado.
Certo matuto, filho de um abastado fazendeiro da região, velava o corpo do pai recém-falecido e se mostrava inconformado com os desígnios divinos, embora o mesmo já fosse de idade avançada. No auge de suas queixas, saiu-se com esta pérola: 

- Isso é que é... Tanta gente ruim nesse mundo e não morre. Já o papai, uma pessoa tão boa, podendo ainda estar vivo, aqui mais nós... O diabo vem e carrega!

 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

É FEIO, MAS É BOM!

 
CAMPINAS DE SEU ZUQUINHA 

Por: Arievaldo Viana
 

Campinas de ‘seu’ Zuquinha
Homem branco de respeito
Cu-do-mundo da Lili
Repuxo do Barrão Preto... 

Zuca Idelfonso  ou 'Seu' Zuquinha das Campinas,  homem branco de respeito,  como ele próprio se autodenominava, foi um personagem inteligente, espirituoso, desbocado e pra lá de autêntico. Nasceu e se criou nos sertões adustos de Quixeramobim, em território posteriormente desmembrado com a emancipação do distrito de Madalena. Ultimamente tenho ido amiúde às comunidades de Macaóca, Sabonete, Cacimbinha e Vila Campos, locais onde o Zuca ainda hoje é lembrado pela sua irreverência. Seus filhos Chaguinha e Manoel, parentes indo e voltando (tanto pela parte do meu avô Manoel Barbosa Lima, quanto pela de minha avó Alzira de Sousa Viana) sempre me visitam e enriquecem o repertório anedótico com novas histórias.

Minha parenta Auri Araújo, que anda empenhada em montar a árvore genealógica das famílias Sousa, Viana, Araújo, Crisóstomo, dentre outras daquela região, tem obtido em suas andanças um precioso material inconográfico que vem postando regularmente numa página da internet, criada especialmente para este fim. Foi de lá que resgatamos estas duas preciosidades: uma foto do Zuca, já idoso e da casa onde morava, na localidade de Alegre. 

 

QUEM ERA MESMO
‘SEU’ ZUQUINHA?

 

José de Sousa Araújo, o Zuquinha, não tinha papa na língua, nem mandava recado. Dizia o que bem queria em qualquer hora e lugar. É o tipo da figura que extrapola qualquer comentário, que excede qualquer anedotário e que não cabe nas páginas de livro algum, tamanha é quantidade de "causos" que lhe são atribuídos, alguns dos quais impublicáveis.

Everardo Lima, comerciante na Fazenda Ouro Preto (hoje Madalena, antigamente Quixeramobim), teve o prazer de conviver com este singular personagem sem contudo captar a íntegra de seu "tirocínio". "O Zuca me contou mil histórias, mas eu perdi mais da metade" - admite.  A verdade é que, apesar de falecido, o Zuca continua sendo lembrado freqüentemente pelas pessoas que o conheceram, graças a inegável qualidade do anedotário que lhe é atribuído. Se é verdade ou mentira o que dele contam, isso é outra estória, as anedotas do Zuca já se tornaram de domínio público, como as de Quintino Cunha, Manezim do Bispo, 'Seu' Lunga e tantas outras figuras folclóricas do Ceará. Uma particularidade: adorava questão. Contam que ele dava um boi para entrar numa briga e depois da confusão formada não consta que corresse com a cangalha!

Falava  de uma maneira bastante singular, trocando o "s" pelo "x" - anos luz antes do surgimento da Xuxa  -  e a letra "v" pelo "g".  A propósito desse seu distúrbio de linguagem, é notório o caso do Presidente Dutra  (1945  a 1951), que também falava "imprialzim" ao Zuca, conforme constatou a historiadora cearense Isabel Lustosa em seu livro "Histórias de Presidentes  A República no Catête", obra fartamente ilustrada com desenhos de J. Carlos e outros chargistas da época. O capítulo dedicado ao Marechal Dutra intitula-se "Voxê qué xabê?". Por conta dessa particularidade, Dutra foi "massacrado" pelos chargistas seus contemporâneos.

O forte do Zuca era o seu poder mordaz de satirizar situações. Troçava com a ordem estabelecida, a moral e os bons costumes. Sertanejo astuto, feroz observador, não poupava nem a própria sombra. Em muitas de suas ações  como na vez em que amarrou um pedaço de xique-xique sob a cauda de uma rês que lhe invadira o roçado -  ele lembra o "Baixim", o Fradim sacana do cartunista Henfil.

Gostava de implicar com todo mundo, inclusive os parentes. Os Vianas eram seu alvo predileto: "Giana é igual a pelo de hortênsia, desgraxa uma bebida!". Também teria afirmado, em outra ocasião: "Giana é um bicho muito parexido com gente... pé de Giana é como picarete, do tanto que tem pra frente, tem pra trás!"

Fazia pouco caso da polícia e do clero. Quando foi buscar uma parteira para assistir o primeiro parto de sua mulher, Zuca fez o seguinte comentário:

- Padre, Parteira e Xoldado... ô três classe de gente xem futuro!!!

É ilustrativo o seu comentário sobre a candidatura do ex-deputado Barros dos Santos. Almoçando na residência do Sr. Neles Secundino, de quem era parente e amigo fiel, Zuca foi admoestado pelo anfitrião a aderir à candidatura do Sr. Barros dos Santos à Assembléia Legislativa.  Seu Neles caprichou na boca de urna:

- Compadre Zuca, este aqui é o grande advogado Barros dos Santos, pessoa da nossa estima, da nossa amizade e consideração. Ele disputa uma cadeira de deputado, por isso esperamos contar com o seu valioso apoio... 

Dr. Barros era um mulato e Zuca, como a maioria das pessoas de sua geração, era meio racista. Depois de analisar detidamente o candidato, Zuca  que não tinha papa na língua nem falava pelas costas  mostrou-se muito decepcionado e detonou a candidatura:

- Cumpade Neles, voxê num tem gergonha de me xeduzir pra votar no diabo d'um nêgo???

- Ma- mas Zuca, o Dr. Barros...

- E ainda por xima Dotô??? É por ixo que num chove!!!  arrematou o Zuca.

 

HÁ VIDA APÓS A MORTE?

 

O velho Chico de Sousa -  o Fitico do Castro -, foi um dos homens mais religiosos de que se teve notícia em Quixeramobim. Ele e seu genro Mané Aderaldo eram praticamente uns beatos, de tanto que rezavam, além do respeito imensurável por tudo que se relacionava com as coisas da Igreja Católica. Tal sentimento jamais foi partilhado pelo Zuca, sujeito irreverente e livre pensador, anarquista por pura intuição, uma vez que jamais deve ter lido livro algum que o doutrinasse neste sentido.
 
Francisco de Assis de Souza, o Fitico do Castro

O certo é que Zuca costumava zombar deste apego desmedido às coisas do outro mundo, a ponto de imaginar um Inferno repleto de maravilhas terrenas, sanfoneiros, dançadeiras seminuas e bebida da melhor qualidade, enquanto o Céu seria um lugar monótono, sem qualquer atrativo, onde as almas bocejavam de tédio sobre brancas nuvens de algodão azul.

Acerca dessa questão, um sobrinho do Zuca, o Albani, afirma que o viu comentar certa vez:

" - Já penxou quando nós tiver tudim no 'inxerno', danxando com as nêga e bebendo xerveja... ô que beleza! Já o pobre do Mané Aderaldo, coitado,  tão triste, lá em xima, trepado naquelas nuvens xem graça, doidim prá cair na gandaia e num pode...!"

De certo modo, seu jeito irreverente lembra as peripécias de Cancão de Fogo, o célebre "amarelinho" criado por Leandro Gomes de  Barros  - de quem voltaremos a falar  no terceiro capítulo deste livro - que  também zombava da morte:

 
"Quando ele viu que morria
Chamou a mulher pra junto
E disse: - Minha mulher
Não precisa chorar muito
Não há tempo mais perdido
Do que chorar por defunto.

 
A pessoa que tomar
Remédio pra não morrer
É como quem salga carne
Depois dela apodrecer,
É rezar para São Bento
Depois da cobra morder.
 

Chegou um frade e lhe disse:
- Venho ajudá-lo a morrer...
Respondeu Cancão de Fogo:
- Tenho que lhe agradecer,
Deite-se aí para um canto
Cuide logo em se torcer.
 

- Torcer como? Disse o frade,
Disse o Cancão: - Meu amigo,
O senhor não vem morrer
Para ir junto comigo?
O frade responde: - Vôtes!
Um burro é quem vai contigo!
 

Disse o Cancão de Fogo:
- Se eu não estivesse prostrado
Você tinha que sair
Cortês e civilizado
E só entraria em casa
Depois que fosse chamado. 
 

- Meu irmão, lhe disse o frade
Eu vim aqui exortá-lo,
O inferno está aberto
O diabo a esperá-lo
As chamas do purgatório
Estão prontas pra queimá-lo.
 

- Se entrei na tua casa
Foi para te confessar,
Pois levas grandes pecados
Para o leito tumular
Vim salvar-te do diabo,
Pra ele não te levar.
 

Disse-lhe o Cancão de Fogo:
- Frade, quero que me dê
explicação do Inferno,
Lhe peço como mercê,
No Inferno inda haverá,
Um diabo como você?
 

O frade saiu dali
Se benzendo amedrontado
Dizendo: - Aquilo é o Cão
Em um ente transformado
Me valha rosário bento
E o madeiro sagrado."
 

A FESTA DO ZUCA
 

Certa feita o Zuca resolveu fazer uma festa em sua casa. Já diz um velho adágio popular que festa é muito bom... na casa dos outros. Festa no sertão termina sempre em briga, em candeeiro apagado, em fole furado e outras desavenças do gênero. Prevendo tais contratempos e temeroso de que os brigões puxassem estacas de sua cerca, Zuca mandou cortar 50 cacetes de jucá e os empilhou no terreiro. Todo convidado que chegava ele dava o aviso:

- Olhe xeu xela da puta, se quigé brigá ali tem caxête de xobra! Num é prexijo arrancá as vara da minha cerca!

A festa  que por sinal não tinha alvará de licença  foi das mais bagunçadas. Briga por cima de briga, araca por cima de araca... um verdadeiro pandemônio.

No dia seguinte, como já era de se esperar, o Zuca foi intimado a comparecer perante o delegado de Quixeramobim, onde registrou-se o seguinte diálogo:

- Senhor José de Sousa Araújo...

- Xou eu!!!

- Soube que o senhor fez uma festa sem licença e  que a mesma resultou em muita briga...

- Menos a verdade! Em primeiro lugá eu num prexijo de lixença pra fazer festa na minha casa, porque lá quem manda xou eu. Em segundo lugá, xó houve uma briga... comexou a boca da noite e terminou de manhã!

 

ZUCA NAMORADOR

 

Tudo que se disser do Zuca é possível. Toda vez que passava pela Vila Campos, seu amigo Neles Secundino gostava de "dar corda" para ver o Zuca se soltar... De uma feita, estava hospedado na casa do amigo quando chegou um conhecido fazendeiro, filho de família rica e respeitada, que era o supra-sumo da elite rural do interior de Canindé, naqueles tempos idos. Seu Neles apressou-se em apresentar-lhe o rapaz, certo de que o Zuca soltaria uma das suas. Só não imaginava é que a brincadeira fosse tão pesada:

- Zuca, este aqui é o fulano, filho de fulano de tal...

- Ah! É 'xilho' de fulano? Namorei muito com a xinhora  xua mãe!

- Quando ela era solteira...?

- Depois de 'cajada" também!

 

(In ‘O Baú da Gaiatice’, Editora Assaré, 3ª. Edição, 2012)

 

A HERANÇA DO PARAÍBA (É feio, mas é bom...)
 

Chico Paraíba foi um caboclo velho do oco do mundo que apareceu certo tempo na Fazenda Cacimbinha puxando apenas uma corda... a cachorra havia morrido de fome no caminho. Trabalhador e extremamente usurário, um pirangueiro de peso e medida, não lhe foi difícil amealhar alguns cobres depois de alguns meses de extenuante trabalho. Chico aplicava suas economias comprando cabeças de gado e jumentos que criava nas capoeiras do patrão. Trabalhou noutras fazendas da região, tangeu comboios no rumo da serra do Baturité e, ao cabo de alguns anos, já era possuidor de 14 cabeças de gado, um lote de jumentos e um capital avaliado em mais de dois contos de réis.

Mas não há bem que sempre dure... Mal alimentado, já que não usufruía de seus haveres da maneira devida, acabou contraindo uma infecção intestinal, uma fraqueza crônica ou outra moléstia mais grave que lhe desfigurou o corpo e consumiu-lhe as forças. Tocado pela mão negra do destino, resolveu procurar abrigo na casa de seu antigo patrão, o velho Olímpio Viana, proprietário da Fazenda Cacimbinha.

 “Pai” Viana o tratou com benevolência e a caridade digna de um verdadeiro cristão, fornecendo-lhe um quartinho isolado da casa para abrigar-se e uma pessoa para tratar de sua doença, que julgava-se contagiosa. O velho possuía um verdadeiro “putufu” de dinheiro nos dois bolsos da calça, pois havia passado o seu rebanho bovino nos cobres, ficando apenas com alguns jumentos. Não se apartava de suas economias por nada. Dormia agarrado com os bolsos. Um dia, sentindo que ia morrer, chamou seu Viana e pediu-lhe que pagasse algumas contas que devia, mandasse celebrar algumas missas em intenção de sua alma e fizesse bom proveito do dinheiro que sobrasse. O velho morreu, as missas foram celebradas, as dívidas foram pagas e uma parte do dinheiro foi convertida em esmolas.  Viana não queria ficar com aquele dinheiro impregnado do suor do moribundo e ganho a duras penas. Resolveu levar o restante para o Juiz de Quixeramobim  dar-lhe o destino que melhor aprouvesse à Justiça. Nesta dita viagem, levou o seu genro Caboclo Viana, para casar no civil com a  Aurinha, e trouxe uns sacos de cal para caiar o oitão da casa.

Foi o bastante para o maledicente Zuca Idelfonso, falador por natureza, poeta ocasional, aproveitar o ensejo para fazer o “testamento” do falecido Chico  Paraíba, dizendo quem havia lucrado com os bens por ele deixados. Eis alguns trechos do irreverente poema:

 
REFRÃO:

É xeio, mas é bom
Deixe quem quigé falar...

 
- A morte do Paraíba
Causou grande rejultado
“Giana” pintou a casa
Caboclo xaiu cajado,

E até o Chico Lobo
Que era xeu axilhado (afilhado)
Entrou no xeu testamento
Ganhou um par de calxado:
Uma chinela de pneu
Com o calcanhar furado...

É xeio, mas é bom,
Deixe quem quigé falá! 

Os  chinelos deixados pelo finado Paraíba eram de pneu, com buracos em forma de meia lua no calcanhar e outros profundos sulcos no local dos dedos. Zé Viana assegura que na marca do dedão cabia um ovo de capota. 
 
 

Tempos depois recolhi aleatoriamente uma outra estrofe, que se encaixa dentro da mesma melodia (algo parecido com a música Calango da Lacraia, de Luiz Gonzaga), onde o Zuca vergasta o meu tio Dica Viana e outros vizinhos. Provavelmente não faz parte da versalhada sobre a herança do Paraíba: 

O Dica ta no Inxerno
E o Zé Gomes nas profundas
O Zé Chole também vai
Com um bode ‘alei’ nas cacundas... 

É xeio, mas é bom,
Deixe quem quigé falá! 

(In ‘A mala da cobra’, livro inédito)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

MAIS MÉDICOS NO CEARÁ

 

MANUAL DE ANATOMIA CEARENSE
PARA MÉDICOS CUBANOS
Arievaldo Viana e Pedro Paulo Paulino
 
Trechos:

Vem gente de todo canto
No Brasil fazer de tudo.
Uns vêm para passear,
Outros, pra fazer estudo,
Uns atrás de namorada,
Outros pra não fazer nada,
É bastante o conteúdo. 

De toda parte vem gente
Para este chão soberano.
Em vista disso, é brutal,
Desonroso e desumano,
Esses protestos grosseiros
Feitos pelos brasileiros
Contra os médicos cubanos.
 
Setecentos municípios
Desta nação brasileira
Não têm um médico sequer,
Muitos nem têm enfermeira.
Sem ter pra quem apelar
Muitos vão se consultar
Com raizeiro ou parteira. 

As premissas de Hipócrates
Para muitos são lorotas.
Tem médico que se recusa
Passar por dentro de grotas,
E diz: - Não vou trabalhar
Naquele horrendo lugar
Que Judas perdeu as botas! 

Pois já que os daqui desprezam
A nossa população,
Sem atender todo o mundo,
Como manda a profissão,
Foi necessário importar
Médicos de outro lugar,
E eu pergunto: “Por que não?!” 

Assim, vamos ajudar
Da maneira mais decente,
Informando aos novos médicos
Como aqui se fala a gente
Acerca de anatomia,
Conforme este nosso guia
Que segue daqui pra frente. 

O crânio se chama quengo,
É onde fica a moleira,
O pau da venta e os beiços,
Caixa dos “zói”, ou viseira.
Tudo em riba do pescoço
Que pode ser fino ou grosso
Em cima da “Cantareira”. 

A íris, bila dos zói,
A coluna é espinhela,
Tem o osso do vintém
Bem no final da canela;
O rádio é cana do braço,
Cervical é espinhaço
E abdômen, titela.
 
Injusto protesto contra os médicos cubanos no Ceará

(...)

Atenção, doutor cubano,
É preciso que lhe diga:
Se o paciente queixar-se
De dor no pé da barriga,
Não tem o menor segredo
Pode receitar sem medo,
Remédio contra lombriga.
 
As doenças por aqui
No Ceará, nosso Estado,
Têm nomes peculiares:
Um “catarro amalinado”
É que chamam de virose
E tem a tal de “trombose”
Que deixa “desmastreado”. 

Tem cobreiro, tem curuba,
Tem pereba, tem coceira.
Uma micose entre os dedos
A gente chama é frieira.
O paciente, coitado,
Diz que tá “todo enchanhado”
Com tosse, lepra e “gafeira”.
 
Uma doença venérea
Chamam “doença do mundo”.
E toda a região glútea
A gente chama é de ‘fundo’.
A genitália é “as parte”,
Se o cabra “fizer um arte”
Sente um desgosto profundo.
 
Às vezes chega um velha
Doente da “espinhela”,
Se queixando de “puxado”
E forte dor na titela,
Se não for tuberculose,
Na certa é uma virose
Com inflamação na “guela”.
 
(...)

EM BREVE, O FOLHETO COM O TEXTO INTEGRAL (32 estrofes) será publicado pela Editora Coqueiro, de Recife-PE. AGUARDEM!!!

 
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

FEIRA DO LIVRO INFANTIL

LANÇAMENTO DE "DONA BARATINHA
E SEU CASÓRIO ATRAPALHADO"

Está agendado para hoje, 28 de agosto, às 16h00, na Praça do Ferreira, o lançamento do livro "DONA BARATINHA E SEU CASÓRIO ATRAPALHADO", texto em cordel de Arievaldo Viana, pelas Edições Demócrito Rocha, na IV Feira do Livro Infantil de Fortaleza.
 
Autor: Arievaldo Viana
Poeta popular, radialista e publicitário Arievaldo Viana Lima exercita sua verve poética desde criança. Aos 22 anos, lançou, juntamente com Pedro Paulo Paulino, a coleção Cancão de Fogo, com 10 folhetos de cordel. Criador do Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos, em 2000, foi eleito membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na qual ocupa a cadeira de nº 40. Tem publicados mais de 100 folhetos de cordel e quatro livros: O Baú da Gaiatice, São Francisco de Canindé na Literatura de Cordel , Mala da Cobra e Acorda Cordel na sala de aula, didático relatando a execução do projeto homônimo.
Ilustradoras: Selma Ginez e Marisol Albano
Pedagoga, Arte educadora e Artesã Selma Ginez é fascinada por trabalhos manuais. Adora o que faz e procura tirar inspiração do brilho dos olhos das crianças, das flores e da superação da dor. As ilustrações deste livro foram produzidas em parceria com a filha Marisol Albano - bióloga, artesã e cantora – com quem ilustrou, também, os livros De fio em fio a história se desfia, de Elvira Drummond e Vaga-vaga Vagalume, de Valkíria Kaminski. Utilizando a técnica do patchwork, elas confessam ter sido um prazer ir recortando e bordando paninhos, para contar essa nova versão do casamento da Dona Baratinha. Em meio à lembrança da historinha que Selma costumava contar para Marisol, quando criança, foram surgindo de forma lúdica e, ao mesmo tempo bem-humorada, os personagens que, mais uma vez divertirão as crianças, nesse relato de amor, esperança e persistência.
Sinopse: 
Dona Baratinha e seu casório atrapalhado é uma nova versão da clássica musiquinha que embalou o sono de crianças de várias gerações. Na readaptação de Arievaldo Viana para o cordel, a personagem continua romântica e sonhadora e vive inúmeras decepções com os pretendentes que encontra, até o dia do seu atrapalhado casamento com o guloso João Ratão.
 
PROGRAMAÇÃO DA FEIRA DO LIVRO INFANTIL
 


Ver lançamento de "Dona Baratinha na programação da IV Feira



 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

MESTRES DO CORDEL - JOÃO JOSÉ

 
João José da Silva é um nome importantíssimo da Literatura de Cordel por sua larga atividade como poeta e editor. A Luzeiro do Norte (que de certo modo deu origem à Luzeiro de São Paulo) foi a editora que revelou grandes poetas depois que João Martins de Athayde encerrou suas atividades editoriais.
Vamos saber um pouco mais sobre esse poeta, desaparecido em meados da década de 1990, num texto extraído do blog CORDEL ATEMPORAL, do amigo Marco Haurélio:
 
"JOÃO JOSÉ DA SILVA nasceu em 24 de junho de 1922, em Vitória de Santo Antão, PE. Filho de agricultores, revelou-se poeta desde menino. Aos 10 anos de idade já improvisava versos para seus amigos e conhecidos. Por falta de recursos, só conseguiu nessa época fazer o curso primário, vindo a se aperfeiçoar somente na meia idade, como autodidata. Em 1947 se tornou profissional da poesia, escrevendo então seu primeiro livro em versos, O macaco misterioso. Escreveu mais de 164 obras, distinguindo-se entre as mais procuradas O macaco misterioso e A fera de Petrolina. Viveu em Recife, PE, onde chefiou sua família trabalhando no ramo de Literatura de Cordel, `frente da tipografia Luzeiro do Norte, até início da década de 1970. Faleceu em 1997.Folhetos lançados pela Editora Luzeiro: A condessa Rosa NegraA fera de PetrolinaO caçador sertanejo."