quarta-feira, 22 de junho de 2011

ALBERTO PORFÍRIO


UM MESTRE DA POESIA POPULAR

Por Arievaldo Viana*


Desde que me entendo por gente tenho mantido um contato permanente com a poesia popular. Meu pai, Evaldo de Sousa Lima, agricultor e poeta, tinha enorme facilidade para decorar folhetos de cordel, canções e até longos trechos de cantorias que assistia. No dia seguinte, seu prazer era reproduzir em voz alta os versos retidos na memória, com desenvoltura e entusiasmo, durante o exercício de sua lida diária. Às vezes íamos buscar água no olho d’água das Coronhas, no sopé do serrote dos Três Irmãos, um lugarejo situado na confluência dos municípios de Quixeramobim, Canindé e Quixadá, CE. Durante o trajeto, ele costumava cantar ou declamar diversos poemas, dentre os quais os folhetos Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e Juvenal e o dragão, ambos de Leandro Gomes de Barros, e uma plangente canção intitulada “A voz do Siqueira”, homenagem que o poeta Alberto Porfírio fez ao velho cantador João Siqueira do Amorim, o parceiro mais constante do grande Domingos Fonseca, que perdera a voz após uma exaustiva maratona de apresentações Nordeste afora.

Por esta razão, posso afirmar seguramente, que ouço falar de Alberto Porfírio desde a minha primeira infância, pois na casa de meus avós aconteciam cantorias e dentre os poetas convidados estavam Alberto, seu irmão José Porfírio e o cantador Antônio Ribeiro Maciel, de Quixeramobim. Minha avó, Alzira de Sousa Lima, colecionava folhetos de cordel e tinha prodigiosa memória. Geralmente ela os adquiria nas festas do Canindé ou das mãos de um certo Damásio, que morava em Boa Viagem e que desconfio ser o poeta e xilogravador Damásio Paulo da Silva, que durante muitos anos foi funcionário de José Bernardo da Silva, na antiga Tipografia São Francisco, a mesma que viria a se chamar posteriormente de Lira Nordestina, em Juazeiro do Norte. Foi minha avó quem me alfabetizou a partir dos folhetos As proezas de João Grilo e A vida de Cancão de Fogo e seu testamento.

Meu avô, Manoel Barbosa Lima, era um pequeno comerciante e agro-pecuarista. Viajava constantemente para Quixadá, Quixeramobim e Canindé. Era amigo dos cantadores e também tinha grande admiração pela chamada Literatura de Cordel. Mas não era de seu agrado que meu pai se tornasse um repentista, pois considerava a profissão incerta. Na verdade ele não queria que meu pai botasse uma viola nas costas e ganhasse o “oco do mundo”, como se dizia na época, longe de suas vistas e de sua proteção paternal. Em 1978 eu tinha entre 10 e 11 anos de idade, quando meu pai apareceu com uma grande novidade: um livro que marcou profundamente a minha infância e se tornou companheiro inseparável da nossa família até os dias de hoje. Era o Poetas Populares e Cantadores do Ceará, de Alberto Porfírio (Horizonte Editora, 1978), poeta que eu já conhecia de nome e de versos. As rádios costumavam divulgar seus escritos, sobretudo os poemas matutos A estátua do Jorge e Cantiga da Dourinha, que faziam sucesso na voz do saudoso radialista Guajará Cialdini, fã do poeta e divulgador incansável de sua obra. Guajará declamava com desembaraço e encanto, fazendo com que nos tornássemos, cada vez mais, admiradores da lira maviosa do mestre Porfírio. O escritor Luciano Barreira, autor de Os cassacos, referindo-se à primeira parte de Poetas Populares e Cantadores do Ceará diz que a mesma “é composta de criações poéticas moldadas na simplicidade e na grandeza da poesia mais pura, essa que brota quase sempre de improviso, à sombra do alpendre ou da latada sertaneja. Versos cheios de lirismo e ao mesmo tempo de lições de elevado cunho humano”.

Esse livro, de pouco menos de 150 páginas, é uma obra essencial para todos que amam a poesia popular. Além de apresentar uma série de poemas matutos da lavra do autor, traz ainda dados biográficos de vários cantadores e saborosos fragmentos de cantorias realizadas por outros poetas cearenses, dentre os quais essa pérola que apresentaremos a seguir, proferida no calor de um desafio, por seu irmão José Porfírio. Vamos contar o caso do princípio. Um policial, por nome Tenente Paes, entendeu de acabar uma cantoria, após exigir dos repentistas a apresentação de um alvará. Ante a perplexidade dos poetas, que não tinham conhecimento de tal exigência, resolveu arbitrariamente cobrar 20% do valor arrecado na bandeja dos cantadores, dinheiro ensombrado de suor e talento, ganho a duras penas naquela feira sertaneja. E assim o fez: meteu a mão na bandeja, contou o dinheiro, tirou a sua parte e se retirou autoritariamente. Mal o tenente dobrou a esquina, Zé Porfírio saiu-se com este genial trocadilho, que lembra os momentos mais fulgurantes de seu colega de profissão Lourival Batista, o Louro do Pajeu:

No sertão atualmente
Ninguém se diverte mais
Porque o tenente Paes
Acaba com a paz da gente.
Terroriza o ambiente
Onde há divertimento...
Até briga de jumento
Se houver gente pagando
O tenente Paes chegando
Vai cobrar vinte por cento!



O POETA E SUA OBRA

Como poeta de bancada, Alberto Porfírio é autor de quase 100 livrinhos de cordel. Explorou de forma pioneira temas como a ecologia, combate ao tabagismo e outros vícios que degradam o ser humano. Também enveredou pela denúncia social de maneira consciente e vigorosa. É o que vemos, por exemplo, no Romance de Rosa Alice e muitos outros folhetos de sua lavra, oportunamente reeditados pela Tupynanquim Editora. Aliás, a figura do Alberto cordelista ganhou nova dimensão depois que o poeta fez amizade com o editor Klévisson Viana, seu admirador desde a infância. Além dos folhetos publicados na linguagem vernacular, Alberto também é autor de uma extensa coletânea de “poemas matutos”, dentre os quais se destacam: As moças da cachoeira, Meu cachorro caçador, Eu gostei mais foi do cão, No tempo da lamparina, A estátua do Jorge, Meu boi Dengoso, Porque não aprendi a ler e o pitoresco Idéias de Caboclo, do qual reproduziremos alguns trechos:

“O professô dos menino
Fala, fala chega estronda!
Querendo qui eu acredite
Qui a terra seja redonda.

Não, senhor, num acredito
Nunca pude acreditá
Qui viva assim todo mundo
Andando em cima duma bola
Sem nunca iscorregá!

Vós mincê preste atenção,
Um monstro cuma é o trem!...
Se a terra fosse redonda,
Iscorregava tombém.

(...)


Num acredito!... não! não!
Qué sabê cuma é a terra
Na minha maginação?
É um prato feito de barro
Mal feito mais bem grandão!
Emborcado em riba d’água
N’uma firme pusição,
Cum a gente morando in riba
Cum toda satisfação.

Vou prová cuma é mermo
Vou dá toda a insplicação:

Quando Deus fez este mundo
Mandou a terra secá,
Mandou se juntá as água
E foi assim qui fez os má.
E se a terra fosse doida
Rodando pra se acabá,
Tinha derramado as água
E era até pirigoso
O próprio Deus se afogá.

Tá certo ou num tá?!


(...)


Além de poeta, popular e erudito, Alberto também dominava a prosa com facilidade. O dramaturgo paraibano Ariano Suassuna assegura que não existe essa separação entre cultura popular e erudita. “O que existe é cultura boa e cultura ruim”, afirma.  Seguindo este preceito, podemos afirmar que a cultura de Alberto Porfírio é das melhores! Antes de falecer, o poeta já havia publicado vários livros. O primeiro deles é Poetas Populares e Cantadores do Ceará (1978), do qual já fizemos uma modesta apreciação. Escreveu, posteriormente, para a UGF Editora, de Minas Gerais, em parceria com escritores escolhidos do Brasil o livro Conta Brasil 2000. Sua terceira obra é o Livro da Cantoria, metodologia do repente e do cordel que foi escrito nas pequenas cavernas de Quixadá. É que o poeta costumava se refugiar no sossego dos monólitos para compor os seus textos. Seu quarto livro foi o recém-publicado As noites de viola da Casa de Juvenal de Galeno, das quais foi um participante assíduo e grande incentivador. O que mais se destaca nesse livro é a sua capacidade de reconhecer o talento alheio, mesmo entre os poetas mais simples e pouco apreciados pelas massas. Graças a Alberto puderam chegar aos nossos dias fagulhas do estro de poetas quase anônimos como Chico Buriti, Bem-te-vi Neto, Urcino Borborema, Antônio Limeira, Chico Raimundo, Pedro Cezário Bezerra, Roque Machado, dentre outros.

O poeta potiguar Crispiniano Neto costuma dizer que alguns artistas deveriam dormir de beliche – uma cama para o corpo, outra para o ego. Definitivamente este não é o caso do Mestre Alberto Porfírio, um homem que sabia distinguir uma fagulha de talento numa fogueira de vaidades. Que sabia, sobretudo, reconhecer o mérito dos outros, dando o devido valor a quem merecia. Diferente de muitos que vivem falando pelos cotovelos e fazendo apologia ao próprio umbigo em busca de autopromoção. Sua obra como poeta foi coroada com a publicação do livro Os 100 sonetos de Alberto Porfírio, muitos dos quais recitava de cor, mesmo depois de ter sido acometido pela grave doença que o vitimou. Já perto de morrer, começou a escrever esta autobiografia, que oportunamente foi lançada com apoio da SEDUC, e deixou inédita uma obra intitulada Histórias que o povo conta.

Além de sua atividade como repentista e poeta de bancada, também desempenhou com brilho as atividades de professor, fotógrafo, xilógrafo e escultor. Dentre as suas obras mais conhecidas nesta última atividade citada, destacamos as seguintes: a estátua de Cego Aderaldo em Quixadá (em parceria) e a estátua do Pe. Zé Bezerra, no Choró; a do cantador do Brasil, em Brasília (inaugurada pelo ex-presidente José Sarney). Ainda esculpiu as estátuas do Frei Damião, em Apodi, no RN e a estátua do cantador Eliseu Ventania, em Mossoró. Tem ele o seu espaço cultural em Quixadá onde escreveu, nas pedras, inúmeros sonetos e, esculpiu estátuas de personalidades como a da famosa escritora Rachel de Queiroz.
Perguntado qual a obra de sua estima ele respondeu: Da minha literatura a que eu mais gosto é o folhetinho de 08 páginas intitulado “Um sonho dourado” e das esculturas a obra que eu mais gosto é a viola de cimento que toca. Numa entrevista, alguém admirado, perguntou por que ele se escondia nas pedras de Quixadá para estudar e escrever os seus livros, ele disse: - Lá, mais facilmente, a gente se concentra em Deus ao olhar a natureza e fica inspirado para escrever. Deus pôs o homem na Terra exclusivamente para estudar, trabalhar e produzir para ajudar na construção do mundo.

Alberto queria muito que um de seus filhos desse continuidade à sua obra, mas isso não foi possível. Diante disso, elegeu os pássaros de seu pomar como herdeiros legítimos de seu estro. Essa vontade está expressa neste belo poema:

UM FELIZ DESTINO

Eu falo para os senhores
Que nasci para cantar
Muito embora em meu lugar
Fui o rei dos cantadores
Enfrentei opositores
Saí como campeão
Assumi a profissão
Com o melhor desempenho
Ao morrer sei que não tenho
A quem passar meu bastão.

Eu tive filhos bastante
Nenhum quis ser cantador
Um deles quis ser doutor
O outro comerciante
Se eu morrer, qualquer instante
Nenhum me tem como guia
Um rio de poesia
Pelo deserto se perde
Porque não tenho quem herde
O bastão da cantoria.

Dou a verdadeira prova
Que é um dom a cantoria
O Jocélio, o Zé Maria,
Os pais viveram da trova
Ivanildo Vila Nova
É filho de Zé Faustino
E, Moacir Laurentino
Foi com o pai que aprendeu
Nenhum filho meu nasceu
Com esse feliz destino.

No dia que eu me ausentar
De minhas atividades
Deixarei minhas saudades
Às aves do meu pomar,
Elas sabem que cantar
É sintoma de alegria,
O bastão da cantoria
E a minha vida feliz,
Deixarei aos bem-te-vis
Que cantam ao nascer do dia.

* Poeta popular, criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula


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