domingo, 6 de outubro de 2013

ARTIGO DE STÉLIO TORQUATO

 
Os PCN e as potencialidades

didático-pedagógicas do cordel 
( Primeira Parte )

Stélio Torquato Lima

 
Departamento de Literatura, Curso de Letras, Universidade Federal do Ceará, Av. da Universidade, 2683, 60020-181, Fortaleza, Ceará, Brasil. (Texto publicado na revista Acta Scientiarum. Education Maringá, v. 35, n. 1, p. 133-139, Jan.-June, 2013).
E-mail: profstelio@ufc.br

RESUMO. O artigo analisa a importância da inclusão da literatura de cordel como ferramenta auxiliar no processo de ensino-aprendizagem. Essa análise tem como referência os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN, diretrizes organizadas pelo governo federal para orientar a ação pedagógica nas escolas brasileiras de ensino fundamental e médio. Nessa perspectiva, mostramos como a inclusão do cordel em sala de aula possibilita ao professor trabalhar novas habilidades e novos saberes junto aos alunos, incluindo a superação de preconceitos de ordem linguística e cultural.

Palavras-chave: literatura popular, ensino-aprendizagem, materiais didáticos.
 
 Arievaldo Viana e Jô Oliveira com crianças do Rio de Janeiro
PCN and didactic and pedagogical
potentialities of the string literature 

ABSTRACT. This paper analyzes the importance of including string literature as an auxiliary tool in the teaching-learning process. This analysis has reference to the Parâmetros Curriculares Nacionais (National Curriculum Parameters) – PCN, a guidelines organized by the federal government to guide the pedagogical action in elementary and high Brazilian schools. From this perspective, we show how the inclusion of the string literature in classrooms allows the teacher to work on new skills and new knowledge close to the students, including the overcoming of linguistic and cultural prejudices.

Keywords: folk literature, teaching and learning, instructional tools.
Introdução
Por muito tempo, predominou no meio acadêmico certo desinteresse pela produção popular, que era vista como algo destituído de valor estético e de profundidade intelectual. Tratava-se, no fundo, da perpetuação de um distanciamento sedimentado na Idade Média entre a cultura popular e a erudita, entre a ‘alta’ e a ‘baixa’ cultura. Em eras pretéritas, como explica Luyten (2007), esse litígio resultou na marginalização das obras literárias identificadas com as camadas populares: sem o apoio de uma elite intelectual, que detinha o poder de chancela sobre o que era produzido pelos escritores, e sem o acesso ao aparato tecnológico que permitia a publicação em larga escala das obras, o povo viu sua produção literária cada vez mais relegada a um espaço afastado do meio em que circulava a ‘alta’ literatura.

Nesse contexto marginalizante, a relação da elite intelectual com a literatura popular foi marcada historicamente pelo preconceito. É o que destaca Guerreiro (1983), apontando como exemplo a censura que o trovador português Martim Soares faz a um colega na primeira metade do século XIII, acusando os cantares deste de agradarem ao ‘público popular’, e não ‘aos trovadores e às damas’. Não distante dessa linha de pensamento, o Marquês de Santilana, no século XV, critica os ‘ínfimos’ que “[...] fazen estos romances e cantares de que las gentes de baxa e servil condición se alegran” (SANTILANA, apud GUERREIRO, 1983, p. 26).

A escola, infelizmente, incorporou esse preconceito em relação às obras da cultura popular. Ao determinar, por exemplo, os livros que mereciam o atributo de ‘obra clássica’, ou seja, que eram dignos de serem estudados em classe, a escola encarregou-se durante muito tempo de manter distante dos alunos as obras populares.

No Brasil, autores como Silvio Romero (2002) e Câmara Cascudo (1971) dedicaram várias  pesquisas para demonstrar a riqueza da cultura popular e, mais especificamente, da literatura produzida pelos autores populares. Não obstante, foi principalmente a partir dos trabalhos de autores estrangeiros que produções como o cordel passaram a ser vistas com um olhar menos preconceituoso por parte da intelectualidade brasileira (ABREU, 1993). De toda forma, convém destacar que o cordel vem ocupando a cada dia um lugar, dada a sua estreita ligação com maior espaço nas instituições de ensino, incluindo as universidades. Em consequência disso, ampliam-se as pesquisas em torno dessas produções populares, incluindo entre essas investigações científicas alguns estudos que têm como recorte analítico a discussão sobre a importância do cordel como ferramenta auxiliar no processo de ensino-aprendizagem.

Entre os analistas que já se detiveram nesse assunto, cabe citar os nomes de Hélder Pinheiro e Ana CristinaLúcio (2001). Os dois pesquisadores não apenas defendem o uso do cordel como instrumento didáticopedagógico, como oferecem na obra Cordel em sala de aula (2001) uma série de sugestões metodológicas para explorar de forma mais eficiente a literatura de folhetos em sala de aula.

Também o professor Veríssimo de Melo, à guisa de prefácio de uma antologia do cordel, defende que Outro papel importante exercido pela literatura de cordel diz respeito à sua função como auxiliar de alfabetização. Sabe-se que incontáveis nordestinos carentes de alfabetização aprenderam a ler por meio de folhetos. E, desta forma, cresce, gradativamente, o interesse de estudantes e educadores, em todo o Brasil, pela literatura de cordel para este fim e das muitas maneiras como o folheto pode ser utilizado em sala de aula (apud VIANA, 2010, p. 8).

Reportagem do GLOBO RURAL visita uma escola de Maracanaú
 
É a partir dessa premissa que o presente artigo defende que a literatura de cordel pode ser uma importante ferramenta auxiliar no processo de ensinoaprendizagem. Como é aqui mostrado, o cordel permite aos professores trabalharem novas habilidades e fortalecer alguns saberes sintonizados com as novas demandas educacionais. Para tanto, recorremos à discussão de trechos dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN, assim denominadas as diretrizes organizadas pelo governo federal para orientar a ação pedagógica nas escolas brasileiras de ensino fundamental e médio. Com vistas a tornar mais clara nossa abordagem da questão, o trabalho está estruturado para contemplar cada benefício que identificamos no que tange à inserção do cordel em sala de aula.

(...)
In Acta Scientiarum. Education Maringá, v. 35, n. 1, p. 133-139, Jan.-June, 2013


PARTE II
Cordel e diversificação textual
 
 

Em consonância com a Constituição Federal de 1988 e com a nova Lei de Diretrizes e Bases daEducação Nacional (Lei Federal n. 9.394), aprovada em 20 de dezembro de 1996 (BRASIL, 1996), os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN – foram elaborados para servirem de referência para o trabalho docente no âmbito dos ensinos fundamental e médio no Brasil. Assim, mais do que um conjunto de regras, os PCN sugerem caminhos para o desenvolvimento do processo de ensinoaprendizagem, expressando os novos entendimentos em torno da ação pedagógica. No que diz respeito à disciplina de Língua Portuguesa, por exemplo, os PCN enfatizam a importância dos textos no processo de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. Como defendem os PCN, os textos são instrumentos  

[...] que favorecem a reflexão crítica e imaginativa, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, os mais vitais para a plena participação numa sociedade letrada (BRASIL, 1997a, p. 26). 

E, mais do que essa clara opção pelos textos, os PCN defendem a necessidade de colocar 

[...] à disposição dos alunos textos dos mais variados gêneros, respeitados os seus portadores: livros de contos, romances, poesia (...), ‘revistas de literatura de cordel’, textos gravados em áudio e em vídeo, entre outros (BRASIL, 1997a, p. 61, grifo nosso). 

Portanto, já se pode acentuar aqui um primeiro benefício que a inserção da literatura de cordel na escola pode trazer para o processo de ensinoaprendizagem: contribuir com o processo de diversificação de textos, viabilizando  

“[...] o acesso do aluno ao universo dos textos que circulam socialmente, [ensinando] [...] a produzi-los e a interpretá-los” (BRASIL, 1997a, p. 26). 

Ademais, considerando que o texto em folhetos é também um artefato estético, este possui marcas peculiares, entre as quais a plurissignificação e a desautomatização da linguagem (FIORIN; SAVIOLI, 1990; PROENÇA FILHO, 1995) e ainda oferece ao leitor observar estratégias criativas de trabalho dos autores com a linguagem. Por essa razão, os PCN afirmam que 

É importante que o trabalho com o texto literário esteja incorporado às práticas cotidianas da sala de aula, visto tratar-se de uma forma específica de conhecimento. Essa variável de constituição da experiência humana possui propriedades compositivas que devem sermostradas, discutidas e consideradas quando se trata de ler as diferentes manifestações colocadas sob a rubrica geral de texto literário (BRASIL, 1997a, p. 29). 

Considerando ainda que o texto em cordel é escrito em versos, as formalizações estéticas que ampliam o conhecimento do aluno no trato com o idioma pátrio se revelam ainda mais profundas, haja vista que  

No poema a linguagem recupera sua originalidade primitiva, mutilada pela redução que lhe impõem a prosa e a fala cotidiana. A reconquista de sua natureza é total e afeta os valores sonoros e plásticos tanto como os valores significativos. A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, todos os seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou como um foguete no momento de explodir no céu. O poeta põe em liberdade sua matéria. O prosador aprisiona-a (PAZ, 1982, p. 28-29). 

Soma-se a isso o fato de que o texto em versos possui uma dimensão lúdica e um componente de musicalidade ainda mais forte do que os textos em prosa. Além disso, a rima, a métrica e a sonoridade transformam o poema em um instrumento facilitador da memorização, auxiliando o aluno a reter o texto lido ou ouvido. Desse modo, não é sem razão que, como lembra Gustavo Barroso (1949),  

[...] o ensino das crianças, na Grécia Antiga, começava pela poesia, por ser o meio mais fácil de guardar de memória, nessa época em que o livro era raro, a narração dos acontecimentos e o perfil dos homens nele envolvidos. Assim, pôde o povo grego conservar, carinhosamente, de cor, os admiráveis cantos dos rapsodos (BARROSO, 1949, p. 33). 

Por fim, mas não menos importante, convém lembrar que os textos em versos há muito vêm sendo desprezados no dia-a-dia de sala de aula. Bittencourt (1997), por exemplo, ao aplicar um questionário junto a escolas públicas do Rio Grande do Sul, concluiu que apenas 6,4% dos textos trabalhados com os alunos em sala de aula eram em versos. Esse desprestígio do texto poético em sala de aula pode ser explicado de várias formas, incluindo o despreparo dos professores em trabalharem com o texto em versos, haja vista que

 “[...] a leitura do texto poético tem peculiaridades e carece, portanto, de mais cuidados do que o texto me prosa” (PINHEIRO; BANBERGER, 2002, p. 23).  

Todavia, sendo superados esses obstáculos, certamente a inserção do cordel no processo de ensino-aprendizagem contribui para preencher essa lacuna que insiste em perdurar nas  escolas de ensino fundamental e médio em nosso País. Cordel e desenvolvimento de novas habilidades Na obra Educação de corpo inteiro, João Batista Freire da Silva (1989) alerta sobre o risco de as escolas continuarem matriculando apenas a cabeça do aluno. Com essa declaração, o pesquisador chama a atenção para o fato de que, em regra, as grades curriculares de nossas escolas preocupam-se muito pouco com a educação corporal. Dessa forma, caberia às nossas instituições de ensino buscar a superação da dualidade corpo e mente, tendo em vista que estes  

“[...] devem ser entendidos como componentes que integram um único organismo. Ambos devem ter assento na escola” (SILVA, 1989, p. 13). 

Abordando essa questão de um ângulo diverso, pode-se afirmar que, em geral, a escola limitabastante o rol de habilidades a serem trabalhadas em sala de aula. O que se observa comumente é que as escolas se preocupam quase que exclusivamente com o desenvolvimento do raciocínio lógico, relegando a um segundo plano algumas das habilidades contempladas pela Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner (1995), entre as quais a inteligência espacial, a musical, a cinestésica, a interpessoal e a intrapessoal.

Os PCN fazem referências a várias habilidades que não são comumente trabalhadas em sala de aula. A criatividade, por exemplo, é citada várias vezes no corpo do documento em foco. Na introdução dos PCN de Língua Portuguesa, por exemplo, indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos 

[...] sejam capazes de: questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolvê-los, utilizando para isso o pensamento lógico, a ‘criatividade’, a intuição, a capacidade de análise crítica, selecionando procedimentos e verificando sua adequação (BRASIL, 1997a, p. 10, grifo nosso). 

Já na apresentação dos PCN da disciplina Arte, mencionam-se duas outras habilidades que devem ser trabalhadas juntamente com os alunos: a sensibilidade artística e a fruição estética: 

A educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico, que caracteriza um modo particular de dar sentido às experiências das pessoas: por meio dele, o aluno amplia a sensibilidade, a percepção, a reflexão e a imaginação. prender arte envolve, basicamente, fazer trabalhos artísticos, apreciar e refletir sobre eles. Envolve, também, conhecer, apreciar e refletir sobre as formas da natureza e sobre as produções artísticas individuais e coletivas de distintas culturas e épocas (BRASIL,1997b, p. 15). 

Em nosso julgamento, o cordel, como produto artístico, pode contribuir bastante com a ampliação do leque de habilidades a serem trabalhados em sala de aula. Incluem-se nesse rol as habilidades há pouco citadas – criatividade, sensibilidade artística e fruição estética. Isso decorre em muito de sua condição, já mencionada, de texto poético, uma vez que a poesia tem o poder de despertar junto aos alunos o  

[...] Exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade e do mundo dos seres, o cultivo do humor (CANDIDO, 1995, p. 249).


PARTE III - FINAL
Cordel e variações linguísticas
 
A oralidade é um traço marcante do cordel. O registro de palavras tal como são faladas pelo povo, a presença de provérbios, o uso de redundâncias ou elipses próprias da fala são algumas expressões dessa oralidade nos folhetos. Por essa razão, Martine Kunz (2007, p. 29) defende que a “[...] rima do cordel é feita para o ouvido e a memória, não para os olhos”, lembrando-nos de que, por muito tempo, uma massa expressiva de analfabetos usufruía do cordel apenas através de audições.
Importa destacar que essa característica remonta ao fato de que antes que o primeiro cordel fosse publicado já existia um cordel oral, o qual teve sua origem nas cantorias nordestinas. Nesse processo, tanto o uso das rimas quanto das redondilhas maiores serviam como recurso mnemônico, facilitando a memorização por parte dos ouvintes. Mas, mesmo quando o cordel passou a ser impresso, as marcas da oralidade permaneceram. Ou seja,
 
[...] a transposição gráfica não [implicou] [...] acesso completo ao universo da escrita, que, como se sabe, possui convenções e recursos próprios, em grande medida distintos daqueles característicos daoralidade (ABREU, 1993, p. 162).
 
Por outro lado, a presença da oralidade certamente ajuda a explicar por que o cordel esteve
por tanto tempo afastado das salas de aula. É que, entendida como elemento de oposição à escrita, a oralidade esteve por muito tempo identificada com os analfabetos, ou seja, com quem não possuía as habilidades de ler e escrever. Ademais, privilegiando apenas a norma culta, os educadores selecionavam para a leitura apenas as obras que contribuíssem com
o domínio da forma padrão de linguagem. É o que demonstra Zilberman (1999), ao listar os textos que eram normalmente lidos nas salas de aula brasileiras a partir do final do século XIX
 
Em nossos dias, porém, não mais se sustenta esse preconceito para com a oralidade. Paul Zumthor, por exemplo, defende que É inútil julgar a oralidade de modo negativo, realçando-lhe os traços que contrastam com a escrita. Oralidade não significa analfabetismo, o qual, despojado dos valores próprios da voz e de qualquer função social positiva, é percebido como uma lacuna (ZUMTHOR, 1995, p. 27).
 
De fato, os pesquisadores vêm acentuando a importância dos vários registros da linguagem. Bechara (2002), criticando a gramática normativa tradicional por ver a língua como algo homogêneo, e não como um conjunto de variantes dialetais, advoga a necessidade de o indivíduo tornar-se poliglota dentro da própria língua. Nessa mesma linha de pensamento, Paquette (apud BAGNO, 2001) mostra a insustentabilidade dos termos ‘culto’ e ‘não-culto’, uma vez que os falantes se utilizam de registros diferentes da língua de acordo com o contexto discursivo sociolinguista destaca a relevância das várias formas de dizer a língua, defende Cagliari (2002) que a
 
[...] língua portuguesa, como qualquer língua, tem ocerto e o errado somente em relação à sua estrutura. Com relação a seu uso pelas comunidades falantes, não existe certo e errado linguisticamente, mas o diferente (CAGLIARI, 2002, p. 35).
 
Afinados com esse novo entendimento a respeito das variantes dialetais, os PCN de Língua portuguesa defendem que A Língua Portuguesa, no Brasil, possui muitas variedades dialetais. Identificam-se geográfica e socialmente as pessoas pela forma como falam. Mas há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar: é muito comum se considerarem as variedades linguísticas de menor prestígio como inferiores ou erradas (BRASIL, 1997a, p. 26).
O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o respeito à diferença. Para isso, e também para poder ensinar Língua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma ‘certa’ de falar - a que se parece com a escrita - e o de que a escrita é o espelho da fala - e, sendo assim, seria preciso ‘consertar’ a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas duas crenças produziram uma prática de mutilação cultural que, além de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos, por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico (Cf. BRASIL, 1997a).
Portanto, os PCN, ao mesmo tempo em que afirmam a importância das variantes lingüísticas como expressões da identidade, acentuam a necessidade de a escola reformular suas práticas no sentido de combater o preconceito linguístico. Dessa forma, os PCN mostram que cada variante lingüística desempenha um papel de relevo de acordo com o contexto discursivo, cabendo à escola a tarefa de capacitar o aluno a escolher o registro mais ajustado a
uma dada situação comunicativa. Ou seja, A questão não é falar certo ou errado, mas saber qual forma de fala utilizar, considerando as características do contexto de comunicação, ou seja, saber adequar o registro às diferentes situações comunicativas. É saber coordenar satisfatoriamente o que falar e como fazê-lo, considerando a quem e por que se diz determinada coisa. É saber, portanto, quais variedades e registros da língua oral são pertinentes em função da intenção comunicativa, do contexto e dos interlocutores a quem o texto se dirige. A questão não é de correção da forma, mas de sua adequação às  circunstâncias de uso, ou seja, de utilização eficaz da linguagem: falar bem é falar adequadamente, é produzir o efeito pretendido (BRASIL, 1997a, p. 26).
No que diz respeito, em específico, à questão da oralidade, os PCN de Língua Portuguesa afirmam que Não é papel da escola ensinar o aluno a falar: isso é algo que a criança aprende muito antes da idade escolar. Talvez por isso, a escola não tenha tomado para si a tarefa de ensinar quaisquer usos e formas da língua oral.
Quando o fez, foi de maneira inadequada: tentou corrigir a fala “errada” dos alunos — por não ser coincidente com a variedade lingüística de prestígio social —, com a esperança de evitar que escrevessem errado. Reforçou assim o preconceito contra aqueles que falam diferente da variedade prestigiada (BRASIL,1997a, p. 38).
Dessa forma, o cordel pode propiciar um trabalho interessante em sala de aula tanto em relação ao trabalho com a oralidade quanto em relação ao estudo de variantes linguísticas, ou mais propriamente, de variantes regionais. Nesse sentido, o cordel pode contribuir com a descoberta, pelo aluno, de novos vocabulários, formulações sintáticas, timbres etc., ajudando-o a ampliar seu conhecimento no tocante à diversidade linguística do português falado no Brasil. O cordel, assim, pode servir como um instrumento de combate ao preconceito linguístico, mostrando como cada variante que forma o mosaico linguístico brasileiro tem potencialidades expressivas na produção da beleza e na transmissão de saberes.
 
Cordel e pluralidade cultural
 
A inserção dos temas transversais nos Parâmetros Curriculares Nacionais teve como alvo trazer para o debate de sala de aula alguns assuntos importantes que não estão ligados a uma disciplina específica da grade curricular das escolas. Trata-se de questões como meio ambiente, pluralidade cultural, ética e saúde, os quais devem ser abordados segundo uma perspectiva interdisciplinar. Ademais, os temas transversais também se ocupam da valorização de questões locais ligadas ao entorno do aluno. Assim, o
 
[...] currículo ganha em flexibilidade e abertura, uma vez que os temas podem ser priorizados e contextualizados de acordo com as diferentes realidades locais e regionais e outros temas podem ser incluídos (BRASIL, 1997c, p. 25).
 
Considerando a frequência com que os cordelistas discutem em suas obras os assuntos enfeixados nos PCN sob o rótulo de temas transversais universais, ratifica-se mais uma vez a importância do uso do cordel como ferramenta auxiliar de ensino-aprendizagem, pois o cordel há muito vem trabalhando questões como o meio ambiente, a ética, além de defender a importância da pluralidade cultural. Por outro lado, centrando o foco na importância do cordel para a discussão de temas locais, os quais
 
[...] pretendem contemplar os temas de interesse específico de uma determinada realidade a serem definidos no âmbito do Estado, da cidade e/ou da escola (BRASIL, 1997c, p. 28), importa ressaltar que a literatura de cordel manteve sempre o vínculo com a região que lhe serviu de berço. Em estreito diálogo com o contexto sócio-histórico e cultural em que se desenvolveu, o cordel expressa a visão de mundo do nordestino, transforma as demandas existenciais da população do semiárido em temas centrais, transforma em personagens indivíduos identificados com o povo sofrido do sertão: A virtuosidade e o talento dos poetas populares do Nordeste brasileiro eclodiram e persistem nessa região cuja cronologia é a das secas e das inundações, das grandes fomes históricas, ou das fomes mudas, cotidianas e crônicas, onde o analfabetismo e o subdesenvolvimento econômico sustentam-se um ao outro , onde a fome de pão muda-se em fome de vida e a espontaneidade poética parece nascer da dificuldade de sobreviver (KUNZ, 2001, p. 60).
 
De fato, a luta contra as secas e a fome, o mandonismo dos coronéis, o sofrimento dos menos favorecidos etc. não são apenas referências de um Nordeste ainda em luta consigo mesmo com vistas ao seu pleno desenvolvimento; são, também, as marcas de uma literatura ao mesmo tempo rústica e singela, que entretém ao mesmo tempo em que questiona as causas da opressão do povo. Nesse pormenor, Diegues Júnior (apud LOPES, 1983) enfatiza o contexto sóciohistórico nordestino como fator decisivo para o surgimento da literatura de cordel: No Nordeste, por condições sociais e culturais peculiares, foi possível o surgimento da literatura de cordel, de maneira como se tornou hoje em dia característica da própria fisionomia cultural da região. Fatores de formação social contribuíram para isso; a organização da sociedade patriarcal, o surgimento de manifestações messiânicas, o aparecimento de bandos de cangaceiros ou bandidos, as secas periódicas provocando desequilíbrios econômicos e sociais, as lutas de família deram oportunidade, entre outros fatores, para que se verificasse o surgimento de grupos de cantadores como instrumento do pensamento coletivo, das manifestações da memória popular (DIEGUESJÚNIOR apud LOPES, 1983, p. 12).
 
Dessa forma, servindo como veículo de expressão de elementos da cultura exprimindo elementos da região nordestina, a literatura de cordel estampa os traços basilares de uma visão e de um conhecimento acumulado pelas camadas populares, argutamente captados pelo folclorista Câmara Cascudo em obras como Tradição, ciência do povo (1971). Ou seja, os cordéis retratam a cosmovisão popular nordestina, a religiosidade popular, as superstições, a medicina popular das ervas, os métodos e as ferramentas de trabalho, etc., constituindo um repositório de saberes dignos de serem conhecidos como qualquer outro:
 
No âmbito da denominada literatura de cordel há (denominação recente, uma vez que o povo e os poetas não usavam esta terminologia), toda uma riqueza de versos, de imagens, de revelações do modo de ser de um povo que vem sendo lentamente descoberta e devidamente valorizada. São experiências humanas e artísticas que, durante séculos, estão à margem da literatura erudita e são, além de desconhecidas por milhares de estudiosos e professores, totalmente ausentes dos grandes compêndios de história da literatura brasileira (PINHEIRO, 2008, p. 35).
 
A partir desse entendimento, vê-se que a condição do cordel como repositório de saberes e culturas ligadas com o Nordeste pode contribuir para que seja atingido, por parte dos alunos, uma das metas que os Parâmetros Curriculares Nacionais indicam como objetivos do ensino, a saber:
 
[...] conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais (BRASIL, 1997c, p. 9).
 
Dito de outro modo: dada a estreita ligação do cordel com o contexto sociocultural nordestino, a literatura de folhetos pode ocupar um lugar importante em sala de aula tanto por oferecer ao aluno do Nordeste um espaço de reflexão sobre a própria cultura, quanto por propiciar aos alunos de outras regiões uma percepção da rica diversidade cultural brasileira.
 
 
 
Considerações finais
 
Os Parâmetros Curriculares Nacionais, em sintonia com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, expressam as novas concepções sobre o fazer pedagógico. Isso inclui uma nova relação entre os atores sociais do processo de ensino aprendizagem, uma preocupação em ampliar o rol de habilidades a serem desenvolvidos junto aos alunos pela escola, uma valorização do conhecimento prévio do aluno, um interesse em estreitar os laços entre escola e sociedade na promoção da cidadania etc. Em sala de aula, as novas percepções sobre o ensino-aprendizagem impõem uma quebra constante de paradigmas e superação de preconceitos. No plano da linguagem, por exemplo, significa substituir a velha noção de certo/errado pela ideia de adequado/não adequado.
Da mesma forma, a oralidade passa a ser valorizada, deixando de ser vista como elemento associado ao analfabetismo e em oposição à escrita. Ou seja, o aluno é estimulado a entrar em contato com os vários registros do idioma pátrio, habilitando-se a selecionar o registro mais adequado a uma dada situação comunicativa. Como vimos neste artigo, textos tradicionalmente marginalizados pela escola passam a ser agora valorizados como repositórios
de linguagens, cosmovisões e expressões culturais que são potencialmente úteis na tarefa de ajudar a expandir os saberes e os horizontes perceptivos dos alunos. Nesse processo, a literatura de cordel se revela bastante interessante no que tange à diversificação textual, ao trabalho com artefatos estéticos, ao contato com a oralidade, ao exercício da criatividade, à percepção da riqueza e à pluralidade cultural brasileira.
Para o aluno das escolas do Nordeste, onde o cordel se sedimentou, o cordel é uma ferramenta de debate da identidade, levando ao aluno o contato com as suas raízes culturais. Aos alunos de outras regiões, principalmente naquelas em que o cordel é menos conhecido, a literatura de folhetos traz aos estudantes uma percepção de uma cultura riquíssima, patrocinando assim a pluralidade cultural.
Assim, sem termos esgotado a lista de benefícios que o cordel pode trazer para o processo de ensino-aprendizagem, trouxemos aqui nossa contribuição para ampliar ainda mais a utilização dessa importante expressão da cultura popular. Ademais, não é demais lembrar que o cordel, com sua dimensão lúdica, musicalidade, humor etc., revela-se um instrumento que sempre encanta, ao mesmo tempo em que alarga o entendimento do pequeno leitor. Portanto, não exagera o poeta popular Arievaldo Viana ao dizer poeticamente que
 
Os doze Pares de França
Batalhas de Ferrabrás,
História de Pedro Cem,
As queixas de Satanás,
Tudo em linguagem correta
Como A História Completa
Do Herói João de Calais.
 
São histórias fascinantes
Que as escolas devem ter,
onde os estudantes podem
Pesquisar e aprender.
Em cada biblioteca
deve ter a Cordelteca,
outra fonte de saber.
 
O cordel contém ciência,
Matemática, astrologia,
Noções de física, gramática,
de história e geografia.
Em linguagem popular,
o cordel pode narrar
Tudo isso em poesia
(VIANA, 2010, p. 10).
 
Referências
 
ABREU, M. A. Cordel português/folhetos nordestinos: confrontos - um estudo histórico comparativo. 1993. 373f. Tese (Doutorado em Teoria Literária)-Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1993.
BAGNO, M. A. Norma linguística. São Paulo: Loyola, 2001.
BARROSO, G. Ao som da viola. 2. ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1949.
BECHARA, E. Ensino de gramática: opressão? liberdade? 11. ed. São Paulo: Ática, 2002.
BITTENCOURT, G. N. S. O ensino de literatura no 2° grau: a ótica do professor e do aluno. Revista Niterói, n. 2, p. 259-275, 1997. (1° semestre).
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei n. 9394. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, 1996.
BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: Língua Portuguesa. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Fundamental, 1997a.
BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: Arte. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Fundamental,
1997b.
BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: Temas transversais/Ética. Brasília: MEC/Secretaria de Educação
Fundamental, 1997c.
CAGLIARI, L. C. Alfabetização e Linguística. 10. ed. São Paulo: Scipione, 2002.
CÂMARA CASCUDO, L. Tradição, ciência do povo: pesquisas na cultura popular do Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1971.
CANDIDO, A. O direito da literatura. In: CANDIDO, A. (Ed.). Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995.
FIORIN, J. L.; SAVIOLI, F. P. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1990.
GARDNER, H. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Tradução Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
GUERREIRO, M. V. Para a história da literatura popular portuguesa. 2. ed. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1983. (Biblioteca Breve; Série Literatura, 19).
KUNZ, M. Cordel: a voz do verso. Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2001. (Coleção Outras Histórias, v. 6).
KUNZ, M. Cordel, criação mestiça. Revista Cultura Crítica, n. 6, p. 26-32, 2007. (2º semestre).
LOPES, R. Literatura de cordel: antologia. 2. ed. rev. Fortaleza: BNB, 1983.
LUYTEN, J. M. O que é literatura de cordel. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Primeiros Passos, 317).
PAZ, O. O arco e a lira. Tradução Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Logos).
PINHEIRO, J. H. Tesouros da poesia popular para crianças e jovens. Boitatá - Revista do GT de
Literatura Oral e Popular da ANPOLL, n. 5, p. 34-44, 2008.
PINHEIRO; J. H.; BANBERGER, R. Poesia na sala de aula. 2. ed. João Pessoa: Idéia, 2002.
PINHEIRO, J. H.; LÚCIO, A. C. M. Cordel na sala de aula. São Paulo: Duas Cidades, 2001.
PROENÇA FILHO, D. A linguagem literária. 5. ed. São Paulo: Ática, 1995. (Princípios, v. 49).
ROMERO, S. Contos populares do Brasil. 2. ed. São Paulo: Landy, 2002. (O original é de 1883).
SILVA, J. B. F. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da Educação Física. São Paulo: Scipione, 1989.
VIANA, A. Acorda cordel na sala de aula: a literatura popular como ferramenta auxiliar na educação. 2. ed. Fortaleza: Encaixe, 2010.
ZILBERMAN, R. Leitura literária e outras literaturas. In:
BATISTA, A. A. G.; GALVÃO, A. M. O. (Ed.). Leitura:
práticas, impressos, letramentos. Belo Horizonte: Autêntica,
1999. p. 71-97.
ZUMTHOR, P. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Hucitec, 1995. Received on April 10, 2012. Accepted on July 20, 2012.



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Arievaldo na Bienal de Pernambuco

IX Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
 


 

O escritor cearense Arievaldo Viana participou da IX Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, nos dias 4 e 5 de outubro, onde fez uma palestra sobre cordel, no ‘Espaço Além das Letras’ (Auditório do Brum) e o lançamento do livro “O REI DO BAIÃO, DO NORDESTE PARA O MUNDO”, no estande da Editora Planeta.
 

A programação oficial do evento conta com 192 convidados, entre eles 130 escritores, que participam de 94 mesas de debate e atividades de estímulo à leitura, além de 90 lançamentos de livros. Considerado o terceiro maior evento literário do país, a feira homenageia Antônio Maria, Gilvan Lemos, Eurico de Barros e Silva, José Cortez, Cancão e Tarcísio Pereira. O tema desta edição é Literatura, futebol e identidades nacionais. É realizada de 4 a 13 de outubro, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda. O orçamento é de R$ 3,8 milhões.


O rei do baião – Do Nordeste para o mundo
O Rei do Baião - Do Nordeste para o  mundo" apresenta a vida de Luiz Gonzaga às crianças em forma de literatura de cordel

Escrito pelo cordelista Arievaldo Viana, o novo lançamento da Planeta Infantil celebra o centenário do "rei do baião" e vem ricamente ilustrado com gravuras de Jô Oliveira.

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em 1912, no município de Exu, Pernambuco. E, se estivesse vivo em 2012, o “rei do baião”, autor de clássicos da música brasileira como Asa branca, Assum preto, Juazeiro e Xote das meninas, completaria 100 anos no dia 13 de dezembro.
Além de divulgar suas músicas com temas sobre o sertão, o homem sertanejo e as festas juninas, o “velho Lua”, como era carinhosamente chamado pelos amigos e admiradores, apresentou a cultura brasileira para os quatro cantos do Brasil e do mundo. Gêneros musicais tipicamente nordestinos, como xote, baião, forró e xaxado, tornaram-se conhecidos e influenciaram outros ritmos, criando novas gerações de cantores e compositores.

Em O rei do baião – Do Nordeste para o mundo (Planeta Infantil, 40 págs., R$ 29,90), o poeta cearense Arievaldo Viana “cordeliza” a vida de Luiz Gonzaga, desde sua infância até sua morte, passando por seus amores e seu enorme sucesso popular, e para isso escreve todo o texto usando versos de estrutura típica da literatura de cordel. A história ganha textura e sensibilidade por meio das cores e formas das gravuras do pernambucano Jô Oliveira, um dos mais atuantes artistas gráficos do país dedicados a esse estilo.
Gracioso e musical como a obra de seu homenageado, o texto possibilita uma leitura fluente para os pequenos leitores e apresenta a eles, também, um vocabulário rico e colorido, celebrando a riqueza e a sonoridade da língua portuguesa. Além disso, apresenta às crianças personagens célebres de nossa cultura, que, de alguma forma, conviveram com Gonzagão. Ary Barroso, Zé Dantas, Humberto Teixeira, Gilberto Gil, Tom Zé, Caetano Veloso e o cantor Gonzaguinha, filho do Gonzagão, são alguns deles.

Leia, abaixo, um pequeno trecho do livro:


Na sua infância matuta
Gonzaga viveu feliz
Brincando com seus irmãos
Teve a vida que bem quis
E aprontou travessuras
Conforme a história diz.

Quando seu pai, Januário,
Deixava a sua oficina
E seguia pro roçado,
Gonzaga então se destina
Pra lá, a fim de aprender
Tocar uma concertina.


Sobre o autor

Arievaldo Viana nasceu em Quixeramobim (CE), em 1967, e hoje vive em Fortaleza (CE), onde trabalha como ilustrador em jornais e boletins do movimento sindical cearense. É radialista, publicitário, chargista, xilogravador e poeta popular.
Um dos mais conhecidos cordelistas brasileiros, é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, eleito no ano 2000 e ocupando a cadeira de número 40. Agitador cultural, divulga a literatura de cordel em todo o país. Tem cerca de 30 livros e mais de 100 livretos de cordel publicados.

Sobre o ilustrador

Jô Oliveira nasceu na ilha de Itamaracá (PE), em 1944, e hoje vive entre Brasília (DF) e Rio de Janeiro (RJ). Jornalista e professor universitário, é atualmente um dos mais importantes ilustradores brasileiros, da mesma geração de Rui de Oliveira e de outros que estudaram na Rússia e só retornaram ao Brasil com o fim da ditadura. Possui mais de 60 livros publicados.
É um dos mais atuantes artistas brasileiros. Ganhou os mais importantes prêmios da área de literatura infantojuvenil, como o Altamente Recomendáveis (FNLIJ), e é um dos ilustradores oficiais da ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telegráfos, já tendo feito selos comemorativos muito disputados entre colecionadores.

Informações – Lu Fernandes Comunicação e Imprensa
Tel.: (11) 3814-4600
Atendimento: Fabio Rigobelo

O Rei do Baião - Do Nordeste para o mundo
Autor: Arievaldo Viana
Editora: Planeta
Páginas: 40

Preço: R$ 29,90 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

IMPRASTIFIQUE!!!


 
Dizem que o poeta Luiz Campos, grande expoente da cantoria, recentemente falecido, tinha um irmão que elegeu-se vereador por Mossoró. Chamava-se Vicente e era chegado a uma farra. Quem me repassou o episódio em questão foi o poeta Kydelmir Dantas, durante agradável libação no ‘Sêbado’ de Mossoró. O Sêbado é uma mistura de bar e sebo de livros e discos que funciona preferencialmente aos sábados, daí a originalidade de seu nome. O vereador fora convidado para um animado leilão de Santa Luzia, padroeira de Mossoró e aboletou-se numa mesa disposto a comer e beber do bom e do melhor. Toda vez que um adversário dava um lance no leilão ele dobrava a oferta, só para inflacionar.
Ao arrematar uma grade de cerveja e uma galinha cheia a preço exorbitante, o padre ficou deveras animado com a sua generosidade e até aconselhou algumas paroquianas solteiras e de procedência duvidosa a fazer companhia a Vicente, prevendo, com sobrada razão, que a presença feminina seria um poderoso estímulo para abertura desregrada das torneiras de sua generosidade. Não deu outra! Animado pela presença das meninas, Vicente gastou o que tinha e o que não tinha. No final da festa, estava devendo mais de cinco mil reais à paróquia, tudo devidamente anotado pelo vigário numa caderneta. Ao ser apresentada a ‘dolorosa’, Vicente não se fez de rogado e sacou imediatamente de seu talão de cheques do Banco do Brasil, arredondando a cifra para R$ 6 mil. Datou, assinou e entregou ao sacerdote, que não cabia em si de tanta felicidade.
No dia seguinte, por volta das 10 e meia da manhã, via-se o padre caminhar visivelmente nervoso e agitado rumo à casa de Vicente. Ao bater na porta deparou com uma cena previsível… Calças penduradas nos armadores, calcinhas femininas espalhadas pelo chão e o Vicente de ressaca, só de cueca numa rede, com uma de suas paroquianas. O padre foi direto ao assunto:
 
- Vicente, rapaz, como é que você faz uma coisa dessa criatura?! Isso é um completo absurdo!
 
- O que foi, padre? Num tô lhe entendendo… Num foi o sinhô mesmo que me apresentou as meninas?!
 
- Eu lá tô falando de menina, rapaz... Tô falando é da conta de ontem!
 
- Eu num lhe dei o cheque, home de Deus?
 
- Deu… mas deu um cheque cruzado, predatado para o ano que vem e NOMINAL à Santa Luzia! O que é que eu faço com o diabo desse cheque???
 
Vicente bocejou, espreguiçou-se na fianga, enquanto a jovem que o acompanhava fugia enrolada no lençol para o banheiro, com cerimônia do vigário. O malandro demorava-se na resposta. O padre insistiu:
 
- Me diga, homem de Deus, o que diabo eu vou fazer com a porra desse cheque?
Vicente deu-lhe uma resposta fulminante:
 
- Imprastifique!… Imprastifique senão o senhor perde!
 
(Do livro SERTÃO GAIATO, de Arievaldo Viana)
 
 
 
COMENTE! VOTE NA MELHOR ILUSTRAÇÃO PARA ESSE 'CAUSO'


domingo, 22 de setembro de 2013

COBLA PLETA

OU A CORAGEM DO TOTONHO

cobra
 
 
Luiz Gonzaga dizia que todo menino que nasce no sertão e não é vitima da opressão de senhores arrogantes tem uma infância feliz. Mesmo que passe privações tem diante de si o recanto mais lúdico e encantado de todo o Universo. Quem sou eu para contrariar essa afirmativa do saudoso Rei do Baião… Tive uma infância parecida com a dele nas brincadeiras, nos folguedos, na religiosidade. Talvez um pouco mais farta e despreocupada, pela condição econômica de meu avô que era comerciante e pequeno agropecuarista. Guardo desse período as mais gratas lembranças, relicário de imagens, saberes e lições que moldaram a minha personalidade pelo resto da vida, desde o gosto literário e musical até a minha postura diante dos desafios da vida. Quando trabalhei como redator e designer gráfico em agencias de propaganda de Fortaleza os colegas costumavam brincar:
 
- Ô bicho matuto… Este cabra saiu do sertão, mas o sertão não saiu dele!
 
Diziam em tom de mofa, cobrando uma urbanização, uma pasteurização de costumes que eu jamais almejei, por isso a minha resposta era sempre a mesma:
 
- Eu sou o Sertão! Matuto, graças a Deus!
 
Prosear no alpendre, depois da janta, era um costume secular no sertão de outrora, coisa que foi desaparecendo gradativamente com a chegada da eletricidade, dos aparelhos de TV e das antenas parabólicas, gigantescas “urupemas” que infestam desde as opulentas casas-sede de fazenda até os casebres mais simplórios. Com o advento do Funrural, instituído no início da década de 1970 e os programas sociais do Governo, todo mundo possui moto, geladeira, aparelho de TV, telefone celular (mesmo que não pegue), computador e as indefectíveis parabólicas. É como diz o Gilberto Gil na canção ‘Parabolicamará’:
 
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena
Parabolicamará…
 
ftb
Foto: Blog do Macário Batista
 
Se há um lado positivo, pela melhoraria da qualidade de vida das pessoas e acesso ao consumo, por outro lado as tradições estão escoando pelo ralo e as novas gerações sertanejas, em muitas localidades, são compostas por jovens indolentes, alienados, arrogantes em sua maioria e, de certo modo, parecidos com os malandros da periferia das grandes cidades. Copiam a roupa, o modo de andar, as gírias, o (des)gosto musical e outros hábitos menos recomendáveis.
 
velhinha - parecida com a BASTIANAMas voltemos ao alpendre de meu avô; deixemos tais elucubrações para os historiadores e sociólogos de plantão. À noitinha, depois da ceia, filhos, netos, vizinhos reuniam-se no alpendre da casa de meus avós para um animado bate-papo, onde não faltavam histórias de caçadas, viagens, relembranças de tempos distantes, amenidades do dia-a-dia e novidades que chegavam pelo rádio. Mas a modalidade mais aterradora de todas (pelo menos para mim) eram as histórias de assombração, cobras venenosas e discos voadores. Eu tinha muito medo de alma, de coisa do outro mundo, mas tinha mais medo ainda do tal disco voador, que os matutos descreviam como uma luz que perseguia as pessoas para chupar o sangue e as cobras venenosas, cascavéis principalmente, que ficaram nas veredas enrodilhadas a espreita de uma vítima. E tinha a história de um ateu cujo caixão pesara meia tonelada na hora do enterro e que ainda por cima virara um bicho, depois de sepultado, sendo necessário colocar uma jaula sobre a catacumba. A velha Bastiana, torradeira de café, jurava que era verdade. Quem ousava duvidar?
Que tortura, ir deixar um cavalo no cercado à noite, mesmo que houvesse lua cheia. Essas lembranças logo vinham à tona, o serviço era feito às pressas, sob clima de terror. Na ida, montado no animal, até que restava um pouco de coragem, mas a volta eram outros quinhentos. O cabra vinha correndo em desabalada carreira e quando chegava no terreiro de casa, sentava um pouco para serenar a respiração e não denunciar o medo que sentia.
Sabendo que eu era medroso confesso, meu avô raramente me incumbia de tarefas como esta. Cabia geralmente aos primos Dário José e Walberto, que tinham fama de corajosos, mas que certamente também tinham medo de tais marmotas. Eles ficavam felizes e empavonados quando meu avô lhes gabava a coragem:
- Cabra macho! Esse é homem mesmo! Foi sozinho deixar o cavalo no cercado e voltou nas mesmas pisadas…
O velho sabia como mexer com os brios do suposto corajoso. Éramos, ao todo, morando na casa grande ou nas imediações, mais de vinte netos, além de sobrinhos e agregados. Menino como o diabo, como dizia Luiz Gonzaga. Só o tio José Oswaldo tinha dez! De todos, o mais medroso era o Totonho. Se assustava até com a própria sombra, era raquítico, miúdo, embora fosse um dos mais velhos da turma. Tinha a fala meio atrapalhada e batia os olhos em sistema pisca-pisca, quando estava aperreado. Foi vítima de uma das muitas travessuras que aprontei na infância.
Remexendo pelo armazém da casa velha, onde dormia o João, empregado de meu avô, encontrei uma velha câmara de ar de pneu de bicicleta, a qual, de tanto remendo, havia sido descartada. De parelha com meu primo Dário José resolvi pregar uma peça no Totonho, que morria de medo de cobras. Cortamos o pneu, enchemos de ar e amarramos com liga nas duas pontas, de modo a parecer uma serpente, uma cobra preta, para ser mais preciso. E colocamos a danada na vereda que o Totonho palmilhava toda noite, por volta das seis meia, para vir tomar uma coalhada que a vovó lhe oferecia. Dito e feito. Eu já estava meio esquecido da armadilha quando ouvi um grande alarido, um terrível alvoroço no alpendre, que já estava cheio de gente. O menino chegou branco dar cor de um finado e levou uns três minutos para recuperar a fala, aterrado, transido de susto. Depois de beber sofregamente alguns goles de garapa de açúcar resolveu abrir o par de queixos:
 
lampião
- Vo- Vovô! Ali tem uma cobla pleta! Um cobla medonha, vovô!
 
Mané Lima levantou-se de um salto, deu de garra de um cacete de jucá e foi logo perguntando:
 
- Aonde menino? Cadê essa cobra?
 
- A- acolá vovô, na valeda… (vereda)
 
- Pois vamos me mostrar!
 
A ordem era imperiosa. Mesmo morrendo de medo o Totonho sujeitou-se a ir apontar o local onde havia avistado o gigantesco ofídio. Na sua descrição media mais de três metros de comprimento! O Gabriel Lopes, marido de minha tia Heliodoria, seguiu com eles conduzindo um lampião a querosene. Chegando ao local, depararam com a tira de pneu e vovô não contou pipoca, desceu o pau na suposta serpente, com toda força do braço, a torto e a direito. Atoleimado, como costumava ser em situações desse tipo. Quanto mais ele batia, mas o pneu pulava e se retorcia, simulando os movimentos de uma cobra.
O Gabriel talvez até já tivesse percebido o engano, pois estava com o lampião e tinha a visão perfeita, mas divertindo-se com a situação, conseguia disfarçar o riso e dava corda no meu avô, para levar a cena adiante:
 
- Ô cobra dura de morrer, ‘seu’ Manoel, taca o pau nessa danada! Abarca essa bicha, arrocha, ‘seu’ Manoel!
 
Vendo os pulos da cobra, Totonho foi o primeiro a correr, de volta para o alpendre. Quando a farsa foi descoberta, todos riram a bandeiras despregadas, até mesmo meu avô, que tinha sido uma das vítimas do logro. O resto da noite foi só de “elogios” à coragem do Totonho.