terça-feira, 8 de agosto de 2017

II FEIRA DO CORDEL

NA CAIXA CULTURAL DE FORTALEZA


CAIXA CULTURAL FORTALEZA RECEBE A SEGUNDA EDIÇÃO DA FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO

Com curadoria do cordelista e editor Klévisson Viana, evento reúne os principais expoentes da literatura popular em versão tipicamente nordestina


Foto: Leonardo Costa


A CAIXA Cultural Fortaleza apresenta, de 17 a 20 de agosto de 2017, a II Feira do Cordel Brasileiro, que tem o objetivo de incentivar e promover a literatura popular e as manifestações artísticas tipicamente nordestinas. Com aproximadamente 30 expositores, o evento também pretende fomentar o encontro do público geral com os artistas, como forma de conhecer melhor a expressiva produção do melhor do cordel, da cantoria e da xilogravura nacional.



Com entrada gratuita, a Feira do Cordel Brasileiro reúne vários dos principais nomes da literatura de cordel no País, além de emboladores, cantadores de viola e da música regional. Entre as atrações estão os músicos-cordelistas Jorge Mello, parceiro de Belchior em aproximadamente 40 canções; o cordelista, repentista e sambador Mestre Bule-Bule; o Mestre Valdeck de Garanhuns, bonequeiro, cordelista, repentista e xilogravador; a médica, cantora e cordelista Paola Torres; os grupos Tempo de Brincar; o jovem Rafael Brito e a Rabecaria; dos forrós Kutuca a Burra e Cacimba de Aluá. O evento conta ainda com show de repente pela dupla Geraldo Amâncio e Guilherme Nobre, além de muitas declamações pelos cordelistas Chico Pedrosa, Antônio Francisco, Klévisson Viana, Evaristo Geraldo, Lucarocas, Paulo de Tarso, Raul Poeta, Paiva Neves, Arievaldo Vianna e Tiago Monteiro.
A Feira vai promover palestras, lançamentos literários, a exibição do documentário “Cego Aderaldo – o Cantador  e o Mito”, de Rosemberg Cariry, como também a exposição e venda de folhetos de cordel, livro, camisetas e CDs. A curadoria é do cordelista e editor Klévisson Viana, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura (2015) com o livro "O Guarani em cordel" (Ed. Amarylis, baseado na obra de José de Alencar).
Além disso, os interessados poderão participar de oficinas de xilogravura e de cordel. As inscrições estarão abertas de 07 a 16 de agosto de 2017, por meio dos emails encenaproducoes@gmail.com e aestrofe@gmail.com ou pelo telefone. (85) 3023-3064. Cada oficina terá limite de 20 vagas.
Nessa edição, os homenageados serão o repentista Cego Aderaldo (50 anos de morte), os cordelistas Gonçalo Ferreira (80 anos), Arievaldo Vianna (50 anos), o Mestre Bule-Bule (70 anos), Zé Maria de Fortaleza (60 anos de viola) e o cordelista e xilogravador Mestre José Costa Leite (90 anos de vida e 72 anos de arte).




Manifestação literária

O Ceará se perpetua como o maior polo produtor de Literatura de Cordel desde os longínquos tempos da Tipografia São Francisco, em Juazeiro do Norte, posteriormente rebatizada de Lira Nordestina. A partir da década de 1990, essa produção se acentuou na capital do Estado, sobretudo após o surgimento de associações de poetas, trovadores e folheteiros, tais como o Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste (CECORDEL), a Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (AESTROFE), entre outras, além da consolidada casa editorial Tupynanquim Editora e da Cordelaria Flor da Serra.

Apesar do linguajar simples e informal, a literatura de cordel é, hoje, revista como importante manifestação literária, pois é compreendida como uma das nossas primeiras manifestações poéticas em língua portuguesa, tendo sua origem na produção oral trovadoresca. Neste sentido, a literatura de cordel vem sendo cada vez mais aceita e estudada pelas academias e já possui uma Academia Brasileira de Cordel, fundada em 07 de setembro de 1988 com sede no Rio de Janeiro.

A II Feira do Cordel Brasileiro é uma iniciativa é da AESTROFE (Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará) com patrocínio da CAIXA Econômica Federal e Governo Federal com o apoio cultural da Tupynanquim Editora, Cariri Filmes, Editora Imeph, Programa A Hora do Rei do Baião e Premius Editora.

Sobre os homenageados


CEGO ADERALDO (Aderaldo Ferreira de Araújo) – 50 anos de morte (24 de junho de 1878 + 29 de junho de 1967)
No dia 29 de julho de 2017, completaram-se 50 anos do desaparecimento daquele que é considerado um dos mais importantes poetas populares nordestinos, Aderaldo Ferreira de Araújo - o famoso Cego Aderaldo. Nascido no Crato (CE), ele veio morar muito jovem na cidade de Quixadá (CE), depois de ficar órfão de pai, empregando-se na estrada de ferro. Cegou aos 18 anos. Trabalhava abastecendo uma caldeira quando tomou um copo de água fria e os olhos estalaram imediatamente, fazendo com que perdesse a visão pelo resto da vida. Comprou então o seu primeiro instrumento e descobriu que sabia fazer versos. Achava humilhante ter que pedir esmolas por isso exerceu diversas profissões: além de cantador foi comerciante e exibia filmes num cinematógrafo lhe presenteado por Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo.



GONÇALO FERREIRA – 80 anos
Cearense da cidade de Ipu, o poeta, contista e ensaísta Gonçalo Ferreira da Silva nasceu no dia 20 de dezembro de 1937. Aos 14 anos transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde, em 1963, publicou pela Editora da Revista Rural Fluminense o primeiro livro: “Um resto de razão”, coletânea de contos regionais do Nordeste. Em 1978 iniciou sua produção de literatura em cordel, quando, ao realizar estudos sobre cultura popular na Fundação Casa de Rui Barbosa, conheceu o pesquisador Sebastião Nunes Batista e em companhia dele passou a frequentar a Feira de São Cristóvão. Muito exigente com a forma, tem estrofes primorosas em seus mais de 200 trabalhos já publicados. Também escreveu livros em prosa, como uma biografia romanceada do cangaceiro Lampião. É fundador e atual presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC, situada no bairro de Santa Tereza (RJ).



ARIEVALDO VIANNA (Arievaldo Vianna Lima) – 50 anos
Nascido aos 18 de setembro de 1967 na fazenda Ouro Preto (Sertão Central do Ceará), o escritor Arievaldo Vianna foi criado à luz de lamparina, em contato permanente com as cacimbas dos saberes do povo nordestino. Foi alfabetizado em meados de 1970, graças ao valioso auxílio da Literatura de Cordel. Estreou na imprensa em 1982 no Jornal de Canindé e, logo em seguida, passou a publicar seus trabalhos no Caderno de Domingo do jornal O POVO, de Fortaleza. A partir dos anos 1980 vem publicando diversos folhetos, alguns em parceria com Gonzaga Vieira, Klévisson Viana, Pedro Paulo Paulino, Jota Batista e Sílvio Roberto Santos, entre as dezenas de livros com temática diversa e mais de 120 folhetos de cordel já publicados. É também xilogravador, chargista e ilustrador. Participou, ao lado de Dominguinhos, Assis Ângelo e Sinval Sá, de documentário da TV Câmara de Brasília sobre o Centenário de Luiz Gonzaga.



MESTRE BULE-BULE (Antônio Ribeiro da Conceição) – 70 anos
Um dos mestres da cultura popular nordestina mais renomados do Brasil, Antônio Ribeiro da Conceição, cujo nome artístico é Bule-Bule, nasceu em 22 de outubro de 1947 na cidade de Antônio Cardoso (BA), uma região onde as influências culturais do sertão e do recôncavo baiano se misturam e contribuíram decisivamente para o arcabouço artístico deste grande poeta. Figura emblemática da cultura popular, também é um excelente cordelista com mais de 100 títulos publicados; um exímio sambador e tiraneiro, além de forrozeiro de grande valor, tendo todas estas virtudes comprovadas nos oito discos e dois DVDs gravados em mais de 45 anos de carreira. Já dividiu o palco com renomadas figuras como Gilberto Gil, Beth Carvalho, Gabriel o Pensador e Tom Zé, em apresentações nos Estados Unidos, na Alemanha, Espanha e em Portugal. Em 2008, Bule Bule foi condecorado com a maior premiação brasileira para a Cultura, a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura, e em 2017 foi um dos homenageados da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará.



ZÉ MARIA DE FORTALEZA (José Maria do Nascimento) – 60 anos de viola
 Zé Maria de Fortaleza é o nome artístico de José Maria do Nascimento, nascido em Aracoiaba (CE) em 07 de agosto de 1945. É cantador, repentista, músico, ator e cordelista. Membro da Academia Brasileira da Literatura de Cordel (ABLC), cadeira nº 24, que tem como patrono o poeta Francisco Sales Areda. Vice-presidente da Academia Brasileira de Cordel (ABC), filiado à Ordem dos Músicos do Brasil, à União dos Compositores Cearenses (UCC), à Associação dos Cantadores do Nordeste (ACN), à Sociedade dos Amigos da Arte (SOAMA) e vice-presidente da Associação de Escritores Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (AESTROFE). Também cursou Teoria Musical no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno e foi certificado nos cursos “Influência afro na cultura brasileira” e “História da música popular brasileira”.

Foto: Jaqueline Silva (Portal Pernambuco)


JOSÉ COSTA LEITE – 90 anos

José Costa Leite nasceu em 27 de julho de 1927, em Sapé (Paraíba). Diz que nunca frequentou a escola tradicional, tendo aprendido a ler soletrando folhetos de cordel. Em 1938 muda-se com a família para Pernambuco, fixando residência em Condado, cidade aonde mora até hoje. Em 1947 começa a vender folhetos nas feiras do interior e, em 1949, publica os seus primeiros títulos: Eduardo e Alzira e Discussão de José Costa com Manuel Vicente. Verseja sobre praticamente todos os temas do cordel, escrevendo clássicos como A carta misteriosa do Padre Cícero Romão Batista, O dicionário do amor e Os dez mandamentos, o Pai Nosso e o Credo dos cachaceiros.
Suas xilogravuras ilustram inúmeros folhetos – tanto os seus, como os de outros poetas – e ganharam status de obra de arte a partir dos anos 1960, quando passaram a ser publicadas em álbuns e expostas em museus, no Brasil e no exterior. Em 2005, José Costa Leite foi o convidado especial de uma exposição realizada no Musée du Dessin et de l’Estampe Originale de Gravelines (França), aonde também fez ateliês de xilogravura.
Fonte: www.casaderuibarbosa.gov.br/cordel



Programação da II Feira do Cordel Brasileiro

17 de agosto (Quinta-feira)
Teatro
14h – Abertura Oficial da II Feira do Cordel Brasileiro – Recital dos Mestres
14h40min – “Bagunça dos Brinquedos” – Apresentação teatral com texto adaptado do cordel de Mariane Bigio e participação especial das crianças da cidade de Pio IX/PI

Palco Cego Aderaldo
15h – Forró de raiz: Cecília do Acordeom (Redenção/CE)
15h30min – Rafael Brito e a Rabecaria (Fortaleza/CE)
16h – Raul Poeta (Juazeiro do Norte/CE)
16h30min – Olegário Alfredo e Ricardo Evangelista (Belo Horizonte/MG)
17h – Tempo de Brincar (Sorocaba/SP)
18h – Geraldo Amâncio e Guilherme Nobre (Fortaleza/CE)
19h – Mestre Valdeck de Garanhuns (Guararema/SP)

18 de agosto (Sexta-feira)
Teatro
14h – Palestra “Receitando Cordel”
Palestrantes: Paola Torres (Fortaleza/CE), Sávio Pinheiro (Várzea Alegre/CE) e Breno de Holanda (Fortaleza/CE)
         Mediador: Assis Almeida (Fortaleza/CE)

Sala de Ensaio
14h – Oficina de Xilogravura - Facilitador: Sergio Magalhães (Itapajé/CE) – para o público a partir de 14 anos
14h – Oficina de Xilogravura - Facilitador: João Pedro do Juazeiro (Fortaleza/CE) - para o público a partir de 14 anos

Palco Cego Aderaldo
16h – Recital: Evaristo Geraldo da Silva (Alto Santo/CE), Lucarocas (Fortaleza/CE) e Arievaldo Viana (Caucaia/CE)
16h40 – Lançamentos da Cordelaria Flor da Serra com os poetas Arievaldo Vianna, Evaristo Geraldo da Silva, Auri Lopes, Marco Haurélio, Paiva Neves e Orlando Paiva.
17h – Declamação: Dideus Sales (Aracati/CE)
17h30min – Embolada: Marreco e convidado (Fortaleza/CE)
18h15min –“A grande peleja de Benedito com Guilherme Nobre” – Mestre Valdeck de Garanhuns (Guararema/SP)
19h15min – Mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE)

19 de agosto (Sábado)
Teatro
14h – Palestra “A Literatura de Cordel no panorama brasileiro”
Palestrantes: Jorge Melo (São Paulo/SP), Marco Haurélio (São Paulo/SP), Oswald Barroso (Fortaleza/CE)
Mediação: Eduardo Macedo (Fortaleza/CE)

Sala de Ensaio:
14h – Oficina de Cordel - Facilitador: Rouxinol do Rinaré (Fortaleza/CE) - para o público a partir de 12 anos

Palco Cego Aderaldo:
15h – Recital: Antônio Francisco (Mossoró/RN)
16h – Tempo de Brincar (Sorocaba/SP)
17h – Declamação – Tiago Monteiro (Pocinhos/PB)
17h30min – Francine Maria (Ibiapina/CE)
18h – Show: Canto Cordel - Tião Simpatia (Fortaleza/CE)
18h50min – Eugênio Leandro (Limoeiro do Norte/CE)
19h10min – Mestre Bule-Bule (Camaçari/BA)

20 de agosto (Domingo)
Teatro
14h – Palestra “Cego Aderaldo, o trovador do Nordeste”
Exibição do Filme Cego Aderaldo – o Cantador  e o Mito – Classificação: Livre
Palestrantes: Rosemberg Cariry (Fortaleza/CE), João Eudes Costa (Quixadá/CE) e Arievaldo Viana (Caucaia/CE)
           Mediação: Poeta Orlando Queiroz (Quixadá/CE)

Palco Cego Aderaldo
16h – Chico Pedrosa (Olinda-PE) e Antônio Francisco (Mossoró/RN)
16h30min – Forró pé-de-serra: Kutuka a Burra (Fortaleza/CE)
17h – Canções de Viola: Antônio Jocélio (Fortaleza/CE)
17h30min – Marco Lucena (RJ) e Cacimba de Aluá (Fortaleza/CE)
18h30min – Show de Encerramento: Mestre Bule-Bule (Camaçari/BA)

EXPOSITORES:
1.    ABLC (Rio de Janeiro/RJ)
2.    AESTROFE (Fortaleza/CE)
3.    Arievaldo Viana (Caucaia/CE)
4.    CECORDEL (Fortaleza/CE)
5.    Chico Pedrosa (Olinda/PE)
6.    Cordelaria Flor da Serra (Fortaleza/CE)
7.    Edições Patabego (Tauá/CE)
8.    Editora Coqueiro (Olinda/PE)
9.    Eduardo Macedo (Fortaleza/CE)
10.  Evaristo Geraldo da Silva (Alto Santo/CE)
11.  Francisco Melchiades (Fortaleza/CE)
12.  Francorli (Juazeiro do Norte/CE)
13.  Geraldo Amâncio (Fortaleza/CE)
14.  Guilherme Nobre (Fortaleza/CE)
15.  João Pedro do Juazeiro (Fortaleza/CE)
16.  José Lourenço (Juazeiro do Norte/CE)
17.  Jotabê (Fortaleza/CE) 
18.  Lucarocas (Fortaleza/CE)
19.  Nonato Araújo (Fortaleza/CE)
20.  Olegário Alfredo (Belo Horizonte/MG)
21.  Regina Drozina (Guararema/SP)
22.  Ricardo Evangelista (Belo Horizonte/MG)
23.  Rouxinol do Rinaré (Fortaleza/CE)
24.  Valdeck de Garanhuns (Guararema/SP)
25.  Valentina Monteiro (Campina Grande/PB)
26.  Tupynanquim Editora (Fortaleza/CE)

Serviço:
II FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO
Local: CAIXA Cultural Fortaleza
Endereço: Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema

Data: De 17 a 20 de agosto de 2017
Horários: Quinta a sábado: 14 às 20h | Domingo: 14 às 19h
Classificação indicativa: Livre

GRATUITO

Atendimento à imprensa:
Helena Félix – (085) 99993-4920 / pontualcomunicacao@gmail.com e
Kiko Bloc-Boris – 
(085) 98892-1195 / kikobb@gmail.com

Assessoria de Imprensa da CAIXA Cultural Fortaleza (CE):
Bebel Medal – (85) 99934-0866
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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

SERTÃO DESMANTELADO


QUASE TRÊS DÉCADAS PASSADAS
SEM LUIZ E ALGODÃO

“Bate a enxada no chão
Limpa o pé de algodão
Pois pra vencer a batalha
Precisa ser forte, robusto
E nascer no sertão...”
(Algodão – Luiz Gonzaga | Zédantas)

Luiz Gonzaga do Nascimento, o Gonzagão, foi o primeiro compositor nordestino a fazer sucesso no eixo Rio-São Paulo com os ritmos da nossa Região. O Rei do Baião morreu há 28 anos, no dia 2/8/1989, aos 76 anos. O músico, que se dizia não apenas o inventor do baião, mas também do forró, das marchinhas juninas e "de tudo que se chama arrasta-pé", foi descoberto no final dos anos 1930 no programa de Ari Barroso. Ao fazer parceria com o cearense Humberto Teixeira, a partir de 1946, Luiz Gonzaga começou a emplacar uma série de sucessos imortais, dentre os quais destacam-se Baião, Asa Branca, Assum Preto, Estrada do Canindé, Mangaratiba, dentre outros. A “trindade” do baião completou-se com o médico pernambucano José de Sousa Dantas, o inesquecível Zédantas, criador de A volta da asa branca, Paulo Afonso, Sabiá e Algodão, uma das mais belas canções sobre o sertanejo nordestino.
Hoje vamos relembrar os 28 anos da partida de Gonzagão com essa crônica que escrevi na noite de ontem, falando sobre o OURO BRANCO, praticamente extinto em nossa região.
Afetado pela praga do “bicudo”, na década de 1980, o algodão, que constituía a maior riqueza de nossa agricultura foi aos poucos desaparecendo. Como sertanejo, nascido e criado nos cafundós do Ceará, acostumado a ver minha família no cultivo e manejo dessa lavoura, é impossível não se comover diante de um pé carregado de plumas branquinhas, sob o azul marinho de um céu de “verão”. Passemos à crônica:





FLOCOS DE ALGODÃO DOCE


João Miguel subiu na cisterna, posou para foto, estirou o dedinho e perguntou:
- Pai, que planta bonita é aquela?
- É algodão, meu filho. Ouro branco que fazia o nosso povo feliz...
- Algodão doce?
- Não... Algodão de fibra, para fazer roupas, meias..
- Ah, sim. É o algodão do Luiz Gonzaga?!
(O menino gosta do Gonzagão, pois estou sempre escutando suas canções. E Algodão é uma das minhas preferidas).
Durante esse fim de semana, vimos diversos pés de algodão, mocó e verdão, carregados de plumas branquinhas nas margens da BR 020 e também da estreita rodovia que liga Macaóca a Itatira.
Por conta disso, eu quis lembrar dos meus tempos de menino, quando passava férias escolares no Ouro Preto e ganhava uns trocados apanhando algodão nas capoeiras de meu avô. Às vezes vovô Mané Lima me dava uma "cata" para apanhar de meia e isso me rendia um bom numerário.
A falta de um bornal, peguei um balde de plástico, desses de 20 litros, e resolvi apanhar o algodão. Um formigueiro assanhado quase me devora os pés, mas eu não esmoreci. Apanhei uns três quilos ou mais, na intenção de aproveitar os caroços para uma planta futura. A pluma serve perfeitamente para fazer uns pavios de lamparina. O comentário pode parecer obsoleto e descabido, mas na minha recente estadia no sertão, tivemos um apagão de mais de duas horas e foi justamente um velho candeeiro que nos garantiu a luz até o retorno da energia elétrica.


Estava eu entretido nessa faina, quando dois "sertanejos" passaram numa moto e eu me fiz de desentendido. Olhei para os cabras e perguntei:
- Vocês sabem me dizer que planta é essa?
Um deles, de brinco na orelha, boné atolado na cabeça e camiseta do Aviões do Forró coçou a cabeça e disse...
- É... Eu acho que isso aí é COTTON.
- Cotton?
- É cotton, que antigamente a galera chamava de algodão, tá ligado?
- Ah, está bem. E por que vocês não apanham esse algodão?
Os caras se entreolharam, aceleraram a moto e saíram sorrindo.
Pensei com meus botões...

- Acho que não apanham o COTTON com medo que caiam as HANDS.


(De O LIVRO DAS CRÔNICAS - Arievaldo Vianna)



sexta-feira, 28 de julho de 2017

II FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO



II FEIRA DO CORDEL CORDEL BRASILEIRO
De 17 a 20 de agosto, na CAIXA CULTURAL Fortaleza

Homenageados:


Ilustração: JÔ OLIVEIRA

Cego Aderaldo – 50 anos de morte
Aderaldo Ferreira de Araújo
(* 24 de junho de 1878 + 29 de junho de 1967)

No dia 29 de julho de 2017, completaram-se 50 anos do desaparecimento daquele que é considerado um dos mais importantes poetas populares nordestinos, Aderaldo Ferreira de Araújo - o famoso Cego Aderaldo. Nascido no Crato, veio morar muito jovem na cidade de Quixadá, depois de ficar órfão de pai, empregando-se na estrada de ferro. Cegou aos 18 anos. Trabalhava abastecendo uma caldeira, quando tomou um copo de água fria e os olhos estalaram imediatamente, fazendo com que perdesse a visão pelo resto da vida. Comprou então seu primeiro instrumento e descobriu que sabia fazer versos. Achava humilhante ter que pedir esmolas por isso exerceu diversas profissões: além de cantador foi comerciante e exibia filmes, num cinematógrafo que lhe fora presenteado por Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo.



Gonçalo Ferreira – 80 anos

Cearense da cidade de Ipu, o poeta, contista e ensaísta Gonçalo Ferreira da Silva nasceu no dia 20 de dezembro de 1937. Aos quatorze anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde, em 1963, publicou, pela Editora da Revista Rural Fluminense, o primeiro livro: Um resto de razão, coletânea de contos regionais do Nordeste. Em 1978 iniciou a sua produção de literatura de cordel, quando, ao realizar estudos sobre cultura popular, na Fundação Casa de Rui Barbosa, conheceu o pesquisador Sebastião Nunes Batista e, em companhia dele, passou a freqüentar a Feira de São Cristóvão. Muito exigente com a forma, tem estrofes primorosas em seus mais de 200 trabalhos já publicados. Também escreveu livros em prosa, um deles uma biografia romanceada do cangaceiro Lampião.
É fundador e atual presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC, situada no bairro de Santa Tereza.


Caricatura de Válber Benevides


Arievaldo Vianna – 50 anos
Arievaldo Vianna Lima – 18 de setembro de 1967

Nascido aos 18 de setembro de 1967, na fazenda Ouro Preto, Sertão Central do Ceará, o escritor Arievaldo Vianna foi criado à luz de lamparina, em contato permanente com as cacimbas dos saberes do povo Nordestino. Foi alfabetizado em meados da década de 1970, graças ao valioso auxílio da Literatura de Cordel.
Estreou na imprensa em 1982 no Jornal de Canindé e logo em seguida passou a publicar os seus trabalhos no Caderno de Domingo do jornal O POVO, de Fortaleza. A partir da década de 1980 vem publicando diversos folhetos, alguns em parceria com Gonzaga Vieira, Klévisson Vianna, Manoel Monteiro, Marco Haurélio, Evaristo Geraldo, Rouxinol do Rinaré, Pedro Paulo Paulino, Jota Batista e Sílvio Roberto Santos. De lá para cá são dezenas de livros, de temática diversa, e mais de 120 folhetos de cordel já publicados. É também xilogravador, chargista e ilustrador. Participou, ao lado de Dominguinhos, Assis Ângelo e Sinval Sá, de um documentário da TV Câmara de Brasília, sobre o Centenário de Luiz Gonzaga.
É criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, que utiliza a poesia popular como ferramenta paradidática. Tem percorrido o Brasil realizando palestras, oficinas e recitais para estudantes, educadores e amantes da poesia popular nordestina. Foi eleito em 2000 para a cadeira de número 40 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, cujo patrono é o poeta João Melchíades Ferreira (1869 – 1933). Conquistou o premio Domingos Olimpio de Literatura, promovido pela Prefeitura de Sobral-CE, com uma adaptação do romance Luzia Homem para o cordel. Foi redator e consultor de uma série de programas sobre Literatura de Cordel exibida pela TV ESCOLA (Programa Salto para o futuro). Tem vários livros adotados em programas governamentais, como o PNBE, do Ministério da Educação.


Bule-Bule e Klévisson Viana, organizador da II FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO


Mestre Bule-Bule – 70 anos
Antônio Ribeiro da Conceição, 22 de outubro de 1947

Um dos mestres da cultura popular nordestina mais renomados do Brasil. Antônio Ribeiro da Conceição, nome artístico Bule-Bule, nascido em 22 de outubro de 1947, na Cidade de Antônio Cardoso no Estado da Bahia, vem de uma região onde as influências culturais do sertão e do recôncavo baiano se misturam e contribuíram decisivamente para o arcabouço artístico deste grande poeta. Esta figura emblemática da cultura popular, também é um excelente cordelista, com mais de 100 títulos publicados, um exímio sambador e tiraneiro, e um forrozeiro de grande valor, tendo todas estas virtudes comprovadas em seus oito discos e dois DVDs gravados em mais de 45 anos de carreira.
Ao longo da sua trajetória Bule-Bule fez shows e concedeu palestras nos quatro cantos deste Brasil e do mundo. Já dividiu o palco com figuras renomadas como Gilberto Gil, Beth Carvalho, Gabriel o Pensador e Tom Zé, ou em apresentações nos Estados Unidos, na Alemanha, na Espanha e em Portugal. Em 2008 Bule Bule foi condecorado com a maior premiação brasileira para a Cultura, a Ordem do Mérito Cultural, do Ministério da Cultura.



Zé Maria de Fortaleza – 60 anos de viola
José Maria do Nascimento, 7 de agosto de 1945

Zé Maria de Fortaleza é o nome artístico de José Maria do Nascimento, nascido em Aracoiaba-CE, em 7 de agosto de 1945. É cantador, repentista, músico, ator e cordelista. Membro da Academia Brasileira da Literatura de Cordel (ABLC), cadeira nº 24, que tem como patrono o poeta Francisco Sales Areda. Vice-presidente da Academia Brasileira de Cordel (ABC), filiado à Ordem dos Músicos do Brasil, à União dos Compositores Cearenses (UCC), à Associação dos Cantadores do Nordeste (ACN), à Sociedade dos Amigos da Arte (SOAMA), e vice-presidente da Associação de Escritores Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (AESTROFE). Cursou Teoria Musical no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno; recebeu certificado dos cursos Influência afro na cultura brasileira e História da música popular brasileira.


Vem há muitos anos ministrando cursos, palestras e oficinas sobre a literatura de cordel, em vários estados brasileiros. Tem dezenas de cordéis publicados e 3 livros: Gramática em cordel (Editora IMEPH), A lenda do vaga-lume (Escala Educacional – SP), Fragmentos da literatura popular cearense, em parceria com Dr. Antônio Ferreira. Zé Maria tem ainda 10 CDs gravados e 3 DVDs. Apresenta semanalmente o programa Canta Brasil, na Rádio Cidade-AM, 860, em Fortaleza-CE.

terça-feira, 25 de julho de 2017

TOLERÂNCIA MIL



Com a aproximação do meu cinquentenário de nascimento e 35 anos de carreira como poeta cordelista e ilustrador, resolvi retirar da gaveta alguns folhetos inéditos, dentre os quais "O sonho de Carlos Magno (32 páginas), "A Sina do Enforcado" (32 páginas) e "Kalunga, O homem mais tolerante do mundo", folheto de apenas 08 páginas, que sairão em breve pela Editora Queima-Bucha, de Mossoró-RN. Outros lançamentos estão previstos pela Editora Imeph. Três folhetos são lançados também pela Cordelaria Flor da Serra, do poeta Paiva Neves. São eles: "O Antigo Testamento, segundo Zé Limeira", "Artimanhas de João Grilo" e "Carmélia e Sebastião", romance escrito em parceria com o poeta Evaristo Geraldo. Também estão no prelo os livros "O Besouro" (Contos) e "O Livro das Crônicas - Volume II de Memórias".

É ainda nossa intenção inaugurar duas CORDELTECAS, cujo acervo pretendo doar. Uma homenageando minha avó Alzira de Sousa Lima, em Madalena-CE ou Quixeramobim-CE; e uma outra em Canindé-CE homenageando o meu primeiro parceiro na Literatura de Cordel, o saudoso poeta José Maria Gonzaga Vieira, o popular Gonzaga de Canindé, falecido este ano. No dia 20 de setembro, Gonzaga completaria 71 anos de idade. A implantação das CORDELTECAS depende de entendimentos com autoridades desses municípios que ficarão responsáveis pela guarda do acervo.

Selo comemorativo - presente do amigo Jô Oliveira



A seguir, alguns trechos de KALUNGA:


KALUNGA, O homem mais tolerante do mundo

Autor: Arievaldo Vianna



Kalunga foi um cristão
Que já nasceu educado...
Ter paciência de Jó
É seu maior predicado
Nem parece aquele outro
Que dizem ser tão zangado.

Ele não xinga os vizinhos
Todo domingo comunga
Se ouve pergunta besta
Paciente não resmunga
Se alguém pisa o seu calo
Ele não grita nem funga!

No tempo que era menino
Escanchado num jumento
Na cangalha do animal
Machucou seu instrumento
Mas saiu resignado
A procura de ungüento.

Kalunga nunca brigou
Com os filhos do vizinho
Na escola era um aluno
Famoso por seu alinho
E tratava os seus colegas
Com respeito e com carinho.

Se uma pergunta tola
Alguém faz, por imprudência
E persiste perguntando
Com a maior insistência
O Kalunga explica tudo
Com perfeita paciência.

O Kalunga nunca soube
O que é ignorância
Não maltrata o semelhante
E só age em consonância
Com as leis do bem viver
É um mestre da tolerância.


Certa feita, pelas ruas,
Ele levava na mão
Um copo de mel contendo
Duas bandas de limão
Perguntaram pra que era
Diz ele: - Para o pulmão.

Nada de espremer na vista
Nem se mostrar revoltado
Kalunga deu a receita
Ao curioso abusado...
Saíram os dois satisfeitos
Cada qual para o seu lado.

No trânsito, um motoqueiro
Sem luva e sem capacete
Arranca o retrovisor
Do seu veículo, um Kadete,
E ainda desceu brigando
Na mão trazendo um porrete.

Mas logo baixou a arma
E ficou mais moderado
Vendo tanta mansidão
Do seu Kalunga, coitado,
Que lhe abraçou sorrindo
Dizendo: - Estás perdoado!

Esse Kalunga é tão fino
Nada do mundo o emperra
Seu peito só tem bondade
E toda beleza encerra
Deu aulas de etiqueta
Aos príncipes da Inglaterra.

Se anda com esposa
Pelas ruas, passeando,
E encontra algum gaiato
Sua amada paquerando
Kalunga faz que não vê

Sai contente, assobiando.

(...)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

ZÉ LINS EM CORDEL

LITERATURA E RESISTÊNCIA
Poeta de cordel diz que as oligarquias são 'o grande câncer' do país



Com 30 títulos publicados e 100 mil exemplares vendidos, escritor paraibano lança clássico "Menino de Engenho" em versos de cordel, e defende expressão cultural como frente de luta pela libertação

por Helder Lima, da RBA

Poeta Janduhi Dantas, foto: Divulgação


São Paulo – Obra clássica da literatura brasileira, o romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego (1901-1957), foi recriado em versos de cordel e publicado em edição produzida com recursos próprios pelo escritor paraibano Janduhi Dantas, um dos principais nomes da literatura cordelista hoje no Nordeste. “Passei mais de um ano no texto. Havia momentos de felicidade, em que o texto fluía e agradava, dava prazer, até mesmo emocionava. Mas tinha em que dava trabalho achar as palavras para as quais houvesse rima e métrica. Dava trabalho, dava dor de cabeça. Tinha que ter paciência”, afirma Janduhi.

O escritor, professor e pesquisador da cultura brasileira tem no currículo duas edições paradidáticas publicadas pela Editora Vozes: As figuras de linguagem na linguagem do Cordel e Lições de Gramática em Versos de Cordel. Ambas mostram a versatilidade da linguagem do cordel para discorrer sobre os mais diversos temas e assuntos, e são também emblemáticas da valorização que essa expressão cultural pode alcançar em obras de interesse a um grande universo de leitores.

Com cerca de 30 histórias publicadas e 100 mil exemplares vendidos, Janduhi, que vive em Juazeirinho, no Seridó paraibano, a 190 quilômetros de João Pessoa, tem a maior parte de seus títulos encontrada no comércio turístico da capital do estado e de outras cidades nordestinas que se identificam com a literatura de cordel.

Seu título A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99, como ele próprio diz “um de meus dois trabalhos mais conhecidos”, alcançou a tiragem de 20 mil exemplares e foi referência em um artigo do jornalista Xico Sá em janeiro de 2012: “Na sua crônica de costumes sobre o avanço das mulheres, o poeta conta como uma destemida fêmea resolveu se livrar do seu ébrio e desagradável companheiro, no ano de 2010. A heroína, que no cordel é comparada a Leila Diniz, levou a infeliz criatura à feira e o vendeu a uma velha senhora.”

Como escritor consciente de que não é possível ficar à margem da política, Janduhi vê na persistência da dualidade entre Casa-Grande e Senzala na cultura um dos principais problemas que seguram os avanços em direção a uma sociedade inclusiva. “Penso que sim, que a dicotomia Casa-Grande e Senzala persiste. Penso que o grande câncer do país são as oligarquias. Penso que não conseguimos superá-las, vencê-las ainda. Penso que com oligarquia não dá para ser feliz! As oligarquias são a Casa-Grande do país”, afirma nesta entrevista à Revista do Brasil.

“Particularmente, me motivam as palavras do teatrólogo Plínio Marcos, que dizia que ‘um povo que não ama e preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre’. Então estou preocupado com a identidade cultural de meu povo”, afirma ainda Janduhi, que agora trabalha na adaptação de um clássico do cinema para o cordel, mas ainda guarda o projeto em segredo.

Por que a escolha de Menino de Engenho para recriação na literatura de cordel? O fato de José Lins do Rego ser paraibano pesou em sua escolha? Ou foram os 60 anos da morte do escritor?



Não necessariamente foi isso. Foi mais pelo grande carinho que tenho pelo livro. E sei que muita gente também tem esse carinho. Foi um dos primeiros livros que li, adolescente; lembro-me da emoção que me deu a sua leitura. Ainda hoje é para mim um livro emocionante. Foi a minha descoberta de Zé Lins. Depois dele, fui ler Doidinho, Banguê, o lindíssimo Pureza, até chegar a (que não tenho como ler sem não chorar!) Fogo Morto, que está entre os 10 mais importantes romances da literatura brasileira. Coincidência talvez tenha sido a de estar a obra de Zé Lins tão influenciada pela poesia popular de sua terra. Ele certa vez disse que Os doze pares de França, obra basilar para a Literatura de Cordel, foi o primeiro livro que leu, aos 10 anos. E em outra ocasião disse que “quando imagino os meus romances, tomo sempre como roteiro e modo de orientação o dizer as coisas como elas me surgem na memória, com o jeito e as maneiras simples dos cegos poetas”. Eu tinha feito a adaptação de um conto de Leon Tolstoy para o cordel há pouco tempo, e um dia deparei com o Menino de Engenho na estante e foi aí que veio a ideia da transcrição.

Menino de Engenho foi o primeiro livro publicado por José Lins do Rego, em 1932. Curiosamente, o romance foi publicado com os próprios recursos do autor, que depois teve uma carreira promissora como escritor. E agora, 85 anos depois, você publica a versão em cordel, também com os próprios recursos, em versão de autor. Essa coincidência significa que alguma coisa não muda neste país?

Na verdade, por um bom tempo, há uns cinco anos, este cordel esteve para ser publicado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB). Mas era muito grande o número de livros a serem publicados por aquela editora na época, e o cordel acabou não saindo por lá. Com toda dificuldade enfrentada, como escassez de verba para tocar os trabalhos, a direção da EDUEPB já há um bom tempo vem fazendo um trabalho muito bonito, publicando não só professores da universidade, como também escritores diversos da Paraíba, por meio do selo Latus. Tenho publicado por ela adaptação de um conto de Tolstoi, adaptação de Psicose, de Hitchcock, e um cordel que aborda a Revolta de Princesa, estopim da Revolução de 30 em João Pessoa. A editora é, inclusive, ganhadora já de alguns prêmios Jabuti. De qualquer modo, optei pela edição independe do cordel, esperando ver a repercussão do lançamento, para depois ver a possibilidade de nova edição por alguma editora. Por sorte, os autores de cordel conseguem ser mais autônomos (também politicamente), até mesmo pelo custo baixo da edição de um cordel. O baixo custo da impressão de um cordel facilita a sua venda.

Qual foi o principal desafio para transpor Menino de Engenho para o cordel? Quanto tempo você trabalhou nesse projeto?

O que fiz, na verdade, foi tentar dizer em versos o que Zé Lins diz em prosa. Como o texto original é escrito em primeira pessoa, não achei que seria fácil passá-lo para o cordel em terceira pessoa, por exemplo. Achei que isso poderia descaracterizar por demais o original. E assim fui, página por página, sintetizando em versos o que lia, sem perder de vista a necessidade de dar coerência ao texto. Outro dia na TV vi um documentário em que o diretor do clássico Doze homens e uma sentença dizia algo como “a gente se emociona com o que faz antes de emocionar o nosso público”. Me lembrei do processo da escrita do cordel. Passei mais de um ano no texto. Havia momentos de felicidade, em que o texto fluía e agradava, dava prazer, até mesmo emocionava. Mas também havia hora em que dava trabalho achar as palavras para as quais houvesse rima e métrica. Dava trabalho, dava dor de cabeça. Tinha que ter paciência.

Onde já foi lançado Menino de Engenho em versos de cordel? Como faz o leitor de qualquer lugar do país que quiser adquirir um exemplar?

O cordel está sendo lançado em algumas cidades da Paraíba. O primeiro lançamento foi em João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins do Rego, onde recebi importante apoio do pessoal que administra o Museu Zé Lins que, além de me convidar para fazer o lançamento lá, dentro das comemorações da “Semana José Lins do Rego”, me fez chegar até uma das filhas do escritor. Na conversa (para mim, uma emoção falar com uma filha de Zé Lins!) que tive com essa filha dele, a dona Cristina, fui informado que os direitos autorais das obras do pai dela pertencem à Editora Record. Posteriormente, tive dessa editora a autorização para publicar o cordel. Tudo isso porque a obra original não está em domínio público. O “cordelivro”, como alguns chamam o cordel no formato de um livro, também foi lançado em Pilar, terra de Zé Lins, e Teixeira. Ainda será lançado em Patos, minha cidade natal, e Sousa, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). E estamos vendo um lançamento para Natal ainda este ano. As pessoas que queiram adquirir o livro podem fazê-lo pelo meu email: durica5164@gmail.com. Antes que esqueça: há no Youtube pequeno vídeo em que divulgo o cordel: Menino de Engenho em cordel.


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http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/130/poeta-de-cordel-diz-que-as-oligarquias-sao-o-grande-cancer-do-pais