domingo, 19 de junho de 2011

OS DOIS LADOS DA MOEDA



Democracia é isso! Na postagem de ontem mostramos o lado humorístico e folclórico em torno da Lei Maria da Penha. Hoje, pretendemos mostrar o lado sério da coisa, reproduzindo trechos do excelente poema 'A Lei Maria da Penha em Cordel", do poeta cearense Tião Simpatia. A violência contra a mulher é uma ação covarde e merece ser punida com os rigores da lei. Afinal, como os poetas sempre dizem:  em mulher não se bate nem com uma flor! Tião, juntamente com Zé Maria de Fortaleza, Rozamato e outros colegas formam o excelente grupo BATUTA NORDESTINA.

Vejamos alguns trechos do cordel de TIÃO SIMPATIA, impresso pela Tupynanquim Editora, com capa de Klévisson Viana:

I
A Lei Maria da Penha
Está em pleno vigor
Não veio pr’a prender homem
Mas pr’a punir agressor
Pois em “mulher não se bate
Nem mesmo com uma flor”.

II
A violência doméstica
Tem sido grande vilã
Por ser contra a violência
Desta lei me tornei fã.
Pr’a que a mulher de hoje
Não seja vítima amanhã.

III
Toda mulher tem direito
A viver sem violência
É verdade, tá na lei.
Que tem muita eficiência
Pr’a punir o agressor
E à vítima, dar assistência.

IV
Tá no artigo primeiro
Que a lei visa coibir;
A violência doméstica
Como também, prevenir;
Com medidas protetivas
E ao agressor, punir.

V
Já o artigo segundo
Desta lei especial
Independente de classe
Nível educacional
De raça, de etnia;
Opção sexual…


VI
De cultura e de idade
De renda e religião
Todas gozam dos direitos
Sim, todas! Sem exceção.
Que estão assegurados
Pela Constituição.

VII
E que direitos são esses?
Eis aqui a relação:
À vida, à segurança.
Também à alimentação
À cultura e à justiça
À Saúde e educação.

VIII
Além da cidadania
Também à dignidade
Ainda tem moradia
E o direito à liberdade.
Só tem direitos nos “As”,
E nos “Os”, não tem novidade?

IX
Tem direito ao esporte
Ao trabalho e ao lazer
E o acesso à política
Pr’o Brasil desenvolver
E tantos outros direitos
Que não dá tempo dizer.

X
A Lei Maria da Penha
Cobre todos esses planos?
Ah, já estão assegurados
Pelos Direitos Humanos
A lei é mais um recurso
Pr’a corrigir outros danos.

XI
Por exemplo: a mulher
Antes da lei existir,
Apanhava, e a justiça
Não tinha como punir
Ele voltava pra casa
E voltava a agredir.

XII
Com a lei é diferente
É crime naceitável.
Se bater, vai pr’a cadeia!
Agressão é intolerável.
O Estado protege a vítima
Depois pune o responsável.

(...)

Fonte: http://tiaosimpatia.blogspot.com/

O DISCO DA SEMANA


Colaboração do José de Sousa, de Guarabira – PB



Esse é o raríssimo e histórico álbum que iniciou as coletâneas juninas. Na época, Abdias era diretor artístico da CBS e conseguiu montar um time de primeira linha na parte de forró. Nos anos seguintes, a gravadora receberia o reforço de Jackson do Pandeiro, Zé Gonzaga e outros grandes artistas nordestinos. Um disco único.Participaram da coletânea Marinês, Coronel Ludugero, Abdias, Trio Nordestino, Osvaldo Oliveira e Jacinto Silva.

Coletânea – Pau de sebo vol. 1
1967 – CBS

01 Marinês – O sol nasceu (Onildo Almeida)
02 Coronel Ludugero – Brinca de ané (Dilson Dória – Hélio Gomes)
03 Abdias – Segura o pé de bode (Adapt. Abdias Filho)
04 Trio Nordestino – No garpão da bulandeira (João Silva – K-Boclinho)
05 Osvaldo Oliveira – Prepara a fogueira (Osvaldo Oliveira – Dilson Dória)
06 Jacinto Silva – Amei amei (D. Mathias – Jacinto Silva)
07 Trio Nordestino – Brincadeira na fogueira (Antonio Barros)
08 Abdias – Zefinha das Camorânas (Onildo Almeida)
09 Jacinto Silva – Rosa branca (Jacinto Silva – R. Sandoval de Melo)
10 Marinês – Rosa amarela (Onildo Almeida)
11 Coronel Ludugero – Eu vi passar (Onildo Almeida)
12 Trio Nordestino – Tem Geny (Juracy Alcantara)

Para baixar esse disco, clique aqui.

Fonte: http://www.forroemvinil.com/coletanea-pau-de-sebo-vol-1/

sábado, 18 de junho de 2011

LEI MARIA DA PENHA



É impossível encontrar com o poeta Crispiniano Neto, ex-Secretário de Cultura do Rio Grande do Norte e não colher uma novidade. Principalmente no campo da poesia popular. Ontem, no aniversário da nossa amiga Lucinda Albuquerque, dona da Editora IMEPH, Crispiniano recitou-me esta pérola, de um cantador potiguar, cujo nome não consegui reter na memória. Ainda bem que não esqueci dos versos:


Mulher braba igual a minha
No mundo não há quem tenha
Ontem mesmo quis bater-me
Com uma tora de lenha
E eu me calei... com medo
Da Lei Maria da Penha!


É poeta ou não é, um peste desses?

Crispiniano está escrevendo um trabalho sobre a Lei Maria da Penha na Literatura de Cordel. Disse-me que já conseguiu reunir mais de 20 folhetos sobre o tema, a maioria aplaudindo os efeitos da dita lei, e alguns, lógico, distoando do côro dos contentes. O meu amigo Tião Simpatia lançou até um DVD enaltecendo essa Lei que pune a violência doméstica onde a mulher é sempre a vítima desprotegida. Cabra que bate em mulher tem que ser punido nos rigores da lei, ora se não!



Que isto não sirva de ofensa para as mulheres, mas voltemos ao coro dos descontentes: É o caso dessa obra da dupla Bentevi e Curió, que, imagino, deve ser uma dupla de emboladores de coco: Consequencias desastrosas da Lei Maria da Penha. O que ressalto aqui é o bom humor da poesia, longe de julgar se é ou não politicamente correta. Afinal de contas a dupla de poetas já começa afirmando em seu poema o velho bordão: "Em mulher não se bate nem com uma flor"... Nos dias de hoje, onde o politicamente correto é quem dá as cartas até poetar de maneira irreverente tornou-se uma atividade perigosa.
Mas, deixemos de lenga-lenga e vamos ver alguns trechos do referido poema:


O poeta sempre foi
Da mulher um defensor
Traça rimas, pensa trovas,
Canta sempre em seu louvor
E afirma com seu mister
Dizendo que na mulher
Não se bate nem com flor.


Poeta clássico ou matuto
MPB ou Romântico
Sempre elogia a mulher
Na poesia ou no cântico
Já dizia o Caetano:
- Com mulher eu não me engano
Isso é um produto quântico!


Porém o Roberto Carlos
Diz e ninguém acredita
Que a grande paixão do homem
Não tem medida nem fita,
Não se fala em quantidade,
O negócio é a qualidade,
Que tinha a Maria Rita.


Os nossos antepassados
Não casavam por amor
Os pais olhando os cifrões
Só pensavam no valor,
De algum doutor togado
De médico ou advogado
Deputado ou senador.


Vovó era astuciosa
Mas era mulher sensata
Pois temia a duas coisas
Ao marido e a barata.
A mulher sem temer nada
Se torna descontrolada
Doida, agressiva e ingrata.


O homem temente a Deus
Nunca pratica heresia
Mulher que teme ao marido
Nunca comete anarquia
Lava roupa, cria os filhos,
Se o homem sair dos trilhos
Não condena a bigamia.


Porém surgiu uma lei
Na qual a mulher se empenha
Fez cavalo de batalha
Pinta, borda e até desenha
Pois em nome do progresso
Foi votada no Congresso
A Lei Maria da Penha.


(...)

O certo é que antigamente
No tempos dos meus avós
A mulher não amarrava
E nem desatava nós...
Andava sempre na linha
Dormia com a galinha
Acordava com os socós.



Uma vaca disse ao touro
Tô cansada da ordenha
Você tem vinte e três vacas
Copula, cobre e emprenha,
Depois não dá um real
Porquê não tem no curral
A Lei Maria da Penha.


O touro então respondeu
Criatura, isso é um erro,
Já dizia um pecuarista
Lá na Fazenda Desterro:
- É isso que elas querem,
Triste do boi se fizerem
A Lei Maria Bezerro.


A galinha disse ao galo
Meu velho, eu estou cansada,
Pois toda mulher que erra
E fica mal-afamada
O povo chama: “galinha”
Meu Deus, que sorte mesquinha
Ando muito injuriada.


E o galo respondeu:
- Que asneira disseste tu
Já dizia um galo velho
Que morou no Iguatu
Meus jovens, se agüentem
Tomara que não inventem
Lei Maria Sobrecu!


A Lei Maria da Penha
Não trouxe uma solução
A mulher ficou afoita
Querendo mais confusão
E o cabra revoltado
Quando está embriagado
Finca o pé e mete a mão.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

ESCLARECIMENTO OPORTUNO

 
LITERATURA DE CORDEL
E POESIA MATUTA

Num comentário que fez na postagem de ontem, o poeta Marco Haurélio citou um trecho do livro Autores de Cordel, de Marlyse Meyer, que traduz a exata dimensão do poeta de bancada, sempre sedento de conhecimento:

"De modo geral, os poetas procuram se informar de tudo. Leem, quando podem, e tentam possuir uma pequena biblioteca. É o caso de Manoel Camilo, possuidor de uma estante cheia de livros. É também característica do poeta popular uma verdadeira obsessão pelo aprimoramento da linguagem. Justamente por isto, não podem ser confundidos com os chamados poetas matutos, os quais deformam de propósito o idioma, com o intuito de recriar a linguagem do homem do campo, que acreditam errada."

É isso, meus senhores e senhoras. O cordel, desde os primórdios, desde a longínqua estréia de Leandro Gomes de Barros e Silvino Pirauá de Lima vem primando pela correção da linguagem. É inadmissível, portanto, que pessoas esclarecidas (inclusive pesquisadores renomados) confundam a verdadeira Literatura de Cordel com a poesia matuta. Nada contra a segunda, uma singela expressão da cultura popular, onde pontificaram nomes como Catulo da Paixão Cearense, Zé da Luz, Patativa do Assaré, Luiz Campos e Alberto Porfírio. Costumo dizer que as duas são ramos do mesmo tronco, filhas da mesma árvore - o TROVADORISMO -, mas que cada uma tem suas peculiaridades. Ou seja, são galhos bem distintos.

A verdade tem que ser esclarecida, para que os leitores hodiernos não continuem comprando gato por lebre.

Vejam abaixo trechos de um excelente cordel produzido pelo poeta cearense Pedro Paulo Paulino, publicado hoje no seu blog:  www.vilacamposonline.blogspot.com


O MEU CORDEL ENCANTADO
Pedro Paulo Paulino


O meu cordel encantado
Está na televisão
Que eu trago sintonizada
No canal do coração,
Desde as primeiras leituras,
Com as imagens mais puras
Das coisas do meu sertão.

O meu cordel encantado,
Eu sempre tenho assistido
No dia a dia do povo
Deste Nordeste sofrido:
Um cordel risonho e franco,
Umas vezes, preto e branco,
Outras vezes, colorido.

O meu cordel encantado,
Repleto de poesia,
Está lá numa escolinha
Onde aprendi certo dia
O á-bê-cê e a tabuada,
Sem qualquer norma empregada
Na atual pedagogia.

O meu cordel encantado
Inda está sobre o balcão
Da bodeguinha modesta
Do meu pai, lá no sertão,
Onde à tarde, sem faltar,
Lia para ele escutar
Versos sobre Lampião.

O meu cordel encantado
Inda está na poesia
Cativante do romance
Coco Verde e Melancia,
No Malazartes Jocoso,
No Pavão Misterioso,
Que também pra ele eu lia.

O meu cordel encantado
Que conservo sempre eterno,
Pela mão que o escreveu,
Já nasceu velho e moderno,
Com metro e rima apurada,
Tem como exemplo, A Chegada
De Lampião no Inferno.

O meu cordel encantado
Tem bastante sensação,
Faz rir, como faz chorar,
Se lido com emoção.
O meu cordel tem sinônimo
Na história de Jerônimo
- O Grande Herói do Sertão.

O meu cordel encantado
Tem sentido e tem roteiro.
Grinalra e Sebastião,
Um romance verdadeiro.
Com saudade, sinto abalo
Ao lembrar certo cavalo
Que defecava dinheiro.

O meu cordel encantado
Eu lembro a todo momento.
Pela grandeza que tem,
Contagia o sentimento,
É feito com perfeição,
Como A Vida de Cancão.
E seu rico Testamento.

O meu cordel encantado
Que eu lia na infância minha
Era o mesmo que se lia
Numa casa de farinha,
Romance de drama e glória,
Tal como a bonita história
Do Pedrinho e a Julinha.

(...)


Ver postagem integral em:  http://www.vilacamposonline.blogspot.com/

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quinta-feira, 16 de junho de 2011

CORDEL NO CARNAVAL CARIOCA

DEPOIS DA TV, CORDEL GANHA A MARQUÊS DE SAPUCAÍ
 

Dizem que no Brasil, tudo acaba em samba... Acabava! Agora acaba tudo em cordel. 90% dos encartes de lojas que circularam em junho de 2011  aqui em Fortaleza usaram a gravura popular (de capas de folhetos) como principal ilustração. Até anuncios da TV seguiram a mesma trilha.

É sempre bom ver a cultura nordestina em destaque, sendo reconhecida em outros recantos do país. Depois que a Rede Globo lançou a novela Cordel Encantado é a vez de uma grande escola de samba do Rio de Janeiro (a Acadêmicos do Salgueiro) aproveitar o tema para o desfile de 2012. No entanto, essa badalação enorme que se criou em torno da Literatura de Cordel às vezes me anima e outras me preocupa. Para quem lê cordel desde a infância e conhece essa arte como a palma da mão, tais manifestações às vezes soam falsas e meio pasteurizadas. A intenção pode ser boa, mas o cordel com a sinopse do tema, que irá inspirar os compositores na elaboração do samba-enredo da Acadêmicos do Salgueiro  mistura, equivocadamente, o linguajar matuto (que não é utilizado pelo verdadeiro cordelista) com métrica claudicante e rimas duvidosas. É uma simbiose de Patativa do Assaré com o samba do crioulo doido. Passa é longe da arte de José Camelo de Melo, Leandro Gomes de Barros e José Pacheco da Rocha. Quantas vezes vou ter ainda que repertir que CORDEL é uma coisa e POESIA MATUTA é outra?

Sinceramente,  versos como "um cadim de inspiração" doem no ouvido. E TROVA rimando com EUROPA é de fazer o velho Manoel D'Almeida Filho se remexer na tumba! Outra coisa, ví xilogravuras de J. Borges, Costa Leite, Dila e outros artistas compondo o cenário (que por sinal está belíssimo)... Será que esses artistas populares nordestinos receberam alguma coisa de direito autoral? Afinal de contas, o carnaval carioca é um negócio altamente lucrativo, que movimenta cifras astronômicas. Não custa nada deixar uma moedinha cair na cuia do ceguinho cantador de feira, não é mesmo?


Os mais otimistas dizem que o cordel está ganhando projeção nacional, que será absorvido e digerido avidamente por todas as camadas sociais e por gente dos mais distantes rincões desse país continental. Os tradicionalistas vêm esse oba-oba com desconfiança, uma vez que o que vem sendo apresentado até aqui não passa de uma caricatura da poesia popular, com foco mais centrado na xilogravura. Fala-se muito que o cordel está em evidência graças à novela e outras manifestações afins, mas na prática, no frigir dos ovos, o que isto vem trazendo de positivo para o poeta popular? Que custo era contratar especialistas no assunto para uma consultoria?
Eu, particularmente, não quero cometer o pecado de julgar por antecipação o espetáculo que a Acadêmicos do Salgueiro prepara para o carnaval de 2012. Até porque, a ABLC (Academia Brasileira de Literatura de Cordel), instituição da qual faço parte, será homenageada pela referida Escola de Samba... De repente, pode vir coisa boa por aí, mas pelo sim, pelo não, estou com as barbas de molho.

Vejam, a seguir, matéria extraida do blog "Quintal do Lobisomem", mantido pelo poeta Victor Alvim, capoeirista famoso no Rio de Janeiro, autor de diversos folhetos:

"A tradicional escola de samba Acadêmicos do Salgueiro acertou em cheio ao escolher o tema do seu próximo carnaval. A vermelha e branca tijucana vai levar para a avenida o enredo "Cordel Branco e Encarnado", de autoria de Renato Lage e Márcia Lage.

A escola pretende unir a arte dos poetas populares do Nordeste com o inconfundível batuque carioca. Sem esquecer das origens do cordel na Europa , que ressurgiu com toda a força no Nordeste em histórias que caíram no gosto popular, como "O Romance do Pavão Misterioso", obra que inspirou os carnavalescos a criarem a logomarca do enredo salgueirense.

A sinopse do enredo foi apresentada aos compositores no dia 14 de junho em reunião na quadra da Rua Silva Teles e surpreendeu a todos por ter sido escrita em forma de poema como um tradicional cordel. Tive a oportunidade de estar presente trocando informações com o carnavalesco Renato Lage, a diretoria cultural e parte da sua talentosa equipe, entre eles Gustavo Mello, Eduardo Pinto, Dudu Azevedo e Luciane Malaquias.

Como poeta popular, cordelista e membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel gostaria de parabenizar a Acadêmicos do Salgueiro por escolher um enredo que verdadeiramente aborde uma das maiores riquezas da nossa cultura popular brasileira.
E uma bela parceria está se iniciando entre estas duas academias: a do samba e a da literatura de cordel.
Confiram abaixo a sinopse na íntegra:

Salgueiro 2012
(Cheio de poesia, imaginação e encantamento)

Minha "fia", meu senhor
Deixa eu me apresentar
Sou poeta e meu valor
Vai na avenida passar
Basta imaginação
Um "cadim" de inspiração
Que eu começo a versar

Vou cantar a minha arte
Que nasceu bem lá distante
Num lugar que hoje é parte
Da nossa origem errante
Vim das bandas da Europa
Nas feiras, a boa trova
Era demais importante!

Foi assim que o mar cruzei
Na barca da encantaria
Chegou por aqui um Rei
Com bravura e poesia
Carlos Magno e o os doze pares
Desfilando pelos mares
Da mais real fidalguia

E veio toda a nobreza
Que um dia eu imaginei
Rainha, duque, princesa
E até quem eu não chamei:
Um medonho de um dragão
Irreal assombração
Dessa corte que eu sonhei

Também tem causo famoso
Que nasceu lá no Oriente
De um tal misterioso
Pavão alado imponente
Que cruza o céu de relance
Dois jovens, e um só romance
Vencendo o Conde inclemente

Todas essas histórias
Renasceram no sertão
Onde vive na memória
O eterno Lampião
E não houve um brasileiro
Que de Antônio Conselheiro
Não tivesse informação

Pra viajar no meu verso
É preciso ter "corage"
Vai que um bicho perverso
Surge que nem "visage"?
Nas matas sertão afora
Lobisomem, caipora
Que medo dessas "image"!!

Pra findar esse rebuliço
Rezar é a solução!
Valei-me meu "padim" Ciço!
Vá de retro, tentação!
Nossa Senhora eu não quero
(Tô sendo muito sincero)
Cair nas garras do cão!

E não é que meu santo é forte?
Cheguei ao céu divinal
É tamanha a minha sorte
A minha vitória afinal
É cantar com alegria
Fazer verso todo dia
Na terra do carnaval

Ao ver chegar a tal hora
Da minha "alegre" partida
Saudade, palavra agora
Tem posição garantida
Mas não se avexe meu irmão
Que hoje a coroação
Acontece é na avenida

Pois eles hão de herdar
Todo esse sertão sonhado
Monarcas que vão reinar
Na corte do Sol dourado
Poetas de tradição
Recebam de coração
Um cordel Branco e Encarnado

E agora eu vou sem medo
Fazer festa "de repente"
Vai nascer um samba-enredo
Pra animar toda a gente
Afinal, não sou melhor
Muito menos sou pior
Só um poeta diferente!


Renato Lage, Márcia Lage, Departamento Cultural
Fotos: Vicente Almeida e Gustavo Mello
Saiba mais notícias sobre a literatura de cordel no carnaval do Salgueirono site: www.carnavalesco.com.br

MESTRES DO CORDEL - V

JOSÉ PACHECO DA ROCHA


Costumo dizer sempre que as maiores influências que recebi como poeta cordelista vêm da infância, dos versos que ouvia meu pai recitar a caminho do roçado e dos folhetos de Leandro Gomes de Barros e José Pacheco que minha avó lia à luz de lampião após o jantar. A intriga do cachorro com o gato, do mestre José Pacheco, era um dos meus favoritos. Sátira deliciosa, com tom de fábula.  Este poema foi declamado em 2002 nos salões da Academia Cearense de Letras pelo saudoso pesquisador Ribamar Lopes para uma platéia embevecida. É que Ribamar sabia dar as tintas certas à narrativa, entremeando-a com seus ótimos comentários. Por exemplo: Ribamar achava muita graça do machismo do bichano, que, mesmo de porre, bota moral na mulher:



Quando o cachorro falava
Gato falava também
Gato tinha uma bodega
Como hoje os homens têm
Onde vendia cachaça
Recostado ao armazém.

Rei Leão mandou Cachorro
Efetuar uma prisão
E o cachorro passando
Na venda do gato então
Pediu pra beber fiado
O gato disse: - Pois não!


Subiu-se na prateleira
Uma garrafa desceu
Um cruzado de aguardente
O cachorro ali bebeu
Botou fumo no cachimbo
Pediu fogo e acendeu.


(...)

Embebedaram-se ambos
Garrafas secaram três
Cachorro fez um discurso
Falando bastante inglês
Gato embolava no chão
Discursando em francês...

A gata mulher do gato
Saiu de lá, veio cá,
E disse um tanto agastada
Vocês dois procedem "má"
O gato disse: - Mulher,
Da porta do meio pra lá!

(...)

Detalhe: essa raríssima fotografia do poeta José Pacheco foi extraída da capa de um folheto que trata de sua peleja com João Martins de Athayde.


BIOGRAFIA DE JOSÉ PACHECO
Por Leonardo Vieira de Almeida

José Pacheco da Rocha, ou José Pacheco, como é mais conhecido, nasceu no Município de Corrientes, em Pernambuco, residindo algum tempo na cidade de Caruaru, naquele mesmo estado.

Viveu muitos anos em Maceió, Alagoas, vindo a falecer naquela cidade, provavelmente em 1954. Folhetos de sua autoria foram publicados pela Luzeiro Editora, de São Paulo. Recentemente, a Editora Queima-Bucha, de Mossoró (RN), publicou o folheto A intriga do cachorro com o gato. Além disso, há edições de suas obras pela Catavento, de Aracaju (SE); Lira Nordestina, de Juazeiro do Norte (CE); Coqueiro, de Recife (PE), e por outras editoras.

Seus folhetos mais importantes são História da princesa Rosamunda ou a morte do gigante e A chegada de Lampião no inferno. As histórias de gracejos são um dos aspectos marcantes dos cordéis de José Pacheco, considerado um dos maiores cordelistas satíricos do Brasil. Mas o poeta se dedicou também a outros temas, como histórias de bichos, religião e romances.

Referências

▪ GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Secretaria do Estado de Ciência e Cultura e Departamento de Cultura – INEPAC/Divisão de Folclore. O cordel no Grande Rio. Rio de Janeiro: 1978.

▪ LOPES, Ribamar. Literatura de cordel: antologia. Fortaleza (CE): 1983, BNB.

▪ PROENÇA, Manoel Cavalcanti (Org.). Literatura popular em verso: antologia. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1986.

▪ CARDOSO, Tânia Maria de Souza Cardoso. Cordel, cangaço e contestação: uma análise dos cordéis "A chegada de Lampião no inferno" (José Pacheco da Rocha) e "A chegada de Lampião no céu" (Rodolfo Coelho Cavalcante). Rio Grande do Norte: Coleção Mossoroense, 2003.


Fonte - site da CASA DE RUI BARBOSA


* * *



EM TEMPO: O folheto A intriga do cachorro com o gato está incluído na caxinha do Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula. Esta caixa vem acompanhada de um livro e um CD. Custo total do KIT = R$ 60,00. Maiores informações:  acordacordel@ig.com.br

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O ECLIPSE EM CORDEL

JOÃO GRILO E O ECLIPSE LUNAR

 João Grilo - Desenho: JÔ OLIVEIRA

Neste 15 de junho, todos os brasileiros terão o privilégio de observar um belíssimo fenômeno celeste: o eclipse total da Lua. Neste dia, logo após o pôr-do-Sol, a Lua nascerá em sua fase cheia (condição fundamental para a ocorrência de um eclipse do gênero), e já nascerá sendo "engolida" pela sombra projetada do nosso planeta. Se as condições climáticas de sua cidade permitirem um céu sem nuvens, vale muito a pena dar um tempo de suas atividades e se dar ao prazer de ficar uma hora olhando para a Lua. Se você tem crianças em casa, leve-as para ver o fenômeno. É algo que marca, que fica como boa lembrança e instiga à curiosidade pelo estudo de Ciências.

E para a Astrologia, o que significa um eclipse lunar?

Para os antigos, não era um bom sinal, mas por motivos que eram mais supersticiosos do que dignos de nota. Atualmente, há uma tendência de boa parte dos astrólogos em reavaliar o significado dos eclipses, compreendendo-os como um momento especial de hipersensibilização de determinadas áreas do mapa astrológico de cada pessoa. Esta hipersensibilização não é necessariamente negativa, mas se o indivíduo não tiver muita consciência do processo, pode passar por dias complicados.
O próximo eclipse lunar do dia 15 de junho ocorrerá no eixo Gêmeos-Sagitário, próximo a 25 graus, afetando portanto de modo mais poderoso as pessoas que nasceram no terceiro decanato destes signos.


O eclipse lunar na Literatura de Cordel

Para o poeta popular e astrólogo João Ferreira de Lima, que editou por muito tempo o Almanaque de Pernambuco, um dos mais conceituados do gênero, o eclipse lunar era sinal de mau agouro. Pelo menos é o que se deduz dos versos que escreveu no célebre folheto AS PROEZAS DE JOÃO GRILO:

João Grilo foi um cristão
Que nasceu antes do dia
Criou-se sem formosura
Mas tinha sabedoria
E morreu depois das horas
Pelas artes que fazia

Na noite que João nasceu
Houve um eclipse na lua
E detonou um vulcão
Que ainda hoje continua
Naquela noite correu
Um lobisomem na rua...

Por influência de seu nascimento, no momento do eclipse, João Grilo cresceu irreverente e endiabrado. Vejamos o que aprontou com o vigário do povoado onde nasceu:

...
Um dia a mãe de João Grilo
foi buscar água à tardinha
deixando João Grilo em casa
e quando deu fé, lá vinha
um padre pedindo água
nessa ocasião não tinha

João disse; só tem garapa;
disse o padre; donde é?
João Grilo lhe respondeu;
é do engenho catolé;
disse o padre: pois eu quero;
João levou uma coité.

O padre bebeu e disse:
oh! que garapa boa!
João Grilo disse: quer mais?
o padre disse: e a patroa
não brigará com você?
João disse: tem uma canoa.

João trouxe uma coité
naquele mesmo momento
disse ao padre: beba mais
não precisa acanhamento
na garapa tinha um rato
tava podre e fedorento.

O padre disse: menino
tenha mais educação
e por que não me disseste?
oh! natureza do cão!
pegou a dita coité
arrebentou-a no chão.

João Grilo disse: danou-se!
misericórdia, São Bento!
com isto mamãe se dana
me pague mil e quinhentos
essa coité, seu vigário,
é de mamãe mijar dentro!

O padre deu uma popa
disse para o sacristão:
esse menino é o diabo
em figura de cristão!
meteu o dedo na goela
quase vomita um pulmão.

...