quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Arievaldo na Bienal de Pernambuco

IX Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
 


 

O escritor cearense Arievaldo Viana participou da IX Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, nos dias 4 e 5 de outubro, onde fez uma palestra sobre cordel, no ‘Espaço Além das Letras’ (Auditório do Brum) e o lançamento do livro “O REI DO BAIÃO, DO NORDESTE PARA O MUNDO”, no estande da Editora Planeta.
 

A programação oficial do evento conta com 192 convidados, entre eles 130 escritores, que participam de 94 mesas de debate e atividades de estímulo à leitura, além de 90 lançamentos de livros. Considerado o terceiro maior evento literário do país, a feira homenageia Antônio Maria, Gilvan Lemos, Eurico de Barros e Silva, José Cortez, Cancão e Tarcísio Pereira. O tema desta edição é Literatura, futebol e identidades nacionais. É realizada de 4 a 13 de outubro, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda. O orçamento é de R$ 3,8 milhões.


O rei do baião – Do Nordeste para o mundo
O Rei do Baião - Do Nordeste para o  mundo" apresenta a vida de Luiz Gonzaga às crianças em forma de literatura de cordel

Escrito pelo cordelista Arievaldo Viana, o novo lançamento da Planeta Infantil celebra o centenário do "rei do baião" e vem ricamente ilustrado com gravuras de Jô Oliveira.

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em 1912, no município de Exu, Pernambuco. E, se estivesse vivo em 2012, o “rei do baião”, autor de clássicos da música brasileira como Asa branca, Assum preto, Juazeiro e Xote das meninas, completaria 100 anos no dia 13 de dezembro.
Além de divulgar suas músicas com temas sobre o sertão, o homem sertanejo e as festas juninas, o “velho Lua”, como era carinhosamente chamado pelos amigos e admiradores, apresentou a cultura brasileira para os quatro cantos do Brasil e do mundo. Gêneros musicais tipicamente nordestinos, como xote, baião, forró e xaxado, tornaram-se conhecidos e influenciaram outros ritmos, criando novas gerações de cantores e compositores.

Em O rei do baião – Do Nordeste para o mundo (Planeta Infantil, 40 págs., R$ 29,90), o poeta cearense Arievaldo Viana “cordeliza” a vida de Luiz Gonzaga, desde sua infância até sua morte, passando por seus amores e seu enorme sucesso popular, e para isso escreve todo o texto usando versos de estrutura típica da literatura de cordel. A história ganha textura e sensibilidade por meio das cores e formas das gravuras do pernambucano Jô Oliveira, um dos mais atuantes artistas gráficos do país dedicados a esse estilo.
Gracioso e musical como a obra de seu homenageado, o texto possibilita uma leitura fluente para os pequenos leitores e apresenta a eles, também, um vocabulário rico e colorido, celebrando a riqueza e a sonoridade da língua portuguesa. Além disso, apresenta às crianças personagens célebres de nossa cultura, que, de alguma forma, conviveram com Gonzagão. Ary Barroso, Zé Dantas, Humberto Teixeira, Gilberto Gil, Tom Zé, Caetano Veloso e o cantor Gonzaguinha, filho do Gonzagão, são alguns deles.

Leia, abaixo, um pequeno trecho do livro:


Na sua infância matuta
Gonzaga viveu feliz
Brincando com seus irmãos
Teve a vida que bem quis
E aprontou travessuras
Conforme a história diz.

Quando seu pai, Januário,
Deixava a sua oficina
E seguia pro roçado,
Gonzaga então se destina
Pra lá, a fim de aprender
Tocar uma concertina.


Sobre o autor

Arievaldo Viana nasceu em Quixeramobim (CE), em 1967, e hoje vive em Fortaleza (CE), onde trabalha como ilustrador em jornais e boletins do movimento sindical cearense. É radialista, publicitário, chargista, xilogravador e poeta popular.
Um dos mais conhecidos cordelistas brasileiros, é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, eleito no ano 2000 e ocupando a cadeira de número 40. Agitador cultural, divulga a literatura de cordel em todo o país. Tem cerca de 30 livros e mais de 100 livretos de cordel publicados.

Sobre o ilustrador

Jô Oliveira nasceu na ilha de Itamaracá (PE), em 1944, e hoje vive entre Brasília (DF) e Rio de Janeiro (RJ). Jornalista e professor universitário, é atualmente um dos mais importantes ilustradores brasileiros, da mesma geração de Rui de Oliveira e de outros que estudaram na Rússia e só retornaram ao Brasil com o fim da ditadura. Possui mais de 60 livros publicados.
É um dos mais atuantes artistas brasileiros. Ganhou os mais importantes prêmios da área de literatura infantojuvenil, como o Altamente Recomendáveis (FNLIJ), e é um dos ilustradores oficiais da ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telegráfos, já tendo feito selos comemorativos muito disputados entre colecionadores.

Informações – Lu Fernandes Comunicação e Imprensa
Tel.: (11) 3814-4600
Atendimento: Fabio Rigobelo

O Rei do Baião - Do Nordeste para o mundo
Autor: Arievaldo Viana
Editora: Planeta
Páginas: 40

Preço: R$ 29,90 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

IMPRASTIFIQUE!!!


 
Dizem que o poeta Luiz Campos, grande expoente da cantoria, recentemente falecido, tinha um irmão que elegeu-se vereador por Mossoró. Chamava-se Vicente e era chegado a uma farra. Quem me repassou o episódio em questão foi o poeta Kydelmir Dantas, durante agradável libação no ‘Sêbado’ de Mossoró. O Sêbado é uma mistura de bar e sebo de livros e discos que funciona preferencialmente aos sábados, daí a originalidade de seu nome. O vereador fora convidado para um animado leilão de Santa Luzia, padroeira de Mossoró e aboletou-se numa mesa disposto a comer e beber do bom e do melhor. Toda vez que um adversário dava um lance no leilão ele dobrava a oferta, só para inflacionar.
Ao arrematar uma grade de cerveja e uma galinha cheia a preço exorbitante, o padre ficou deveras animado com a sua generosidade e até aconselhou algumas paroquianas solteiras e de procedência duvidosa a fazer companhia a Vicente, prevendo, com sobrada razão, que a presença feminina seria um poderoso estímulo para abertura desregrada das torneiras de sua generosidade. Não deu outra! Animado pela presença das meninas, Vicente gastou o que tinha e o que não tinha. No final da festa, estava devendo mais de cinco mil reais à paróquia, tudo devidamente anotado pelo vigário numa caderneta. Ao ser apresentada a ‘dolorosa’, Vicente não se fez de rogado e sacou imediatamente de seu talão de cheques do Banco do Brasil, arredondando a cifra para R$ 6 mil. Datou, assinou e entregou ao sacerdote, que não cabia em si de tanta felicidade.
No dia seguinte, por volta das 10 e meia da manhã, via-se o padre caminhar visivelmente nervoso e agitado rumo à casa de Vicente. Ao bater na porta deparou com uma cena previsível… Calças penduradas nos armadores, calcinhas femininas espalhadas pelo chão e o Vicente de ressaca, só de cueca numa rede, com uma de suas paroquianas. O padre foi direto ao assunto:
 
- Vicente, rapaz, como é que você faz uma coisa dessa criatura?! Isso é um completo absurdo!
 
- O que foi, padre? Num tô lhe entendendo… Num foi o sinhô mesmo que me apresentou as meninas?!
 
- Eu lá tô falando de menina, rapaz... Tô falando é da conta de ontem!
 
- Eu num lhe dei o cheque, home de Deus?
 
- Deu… mas deu um cheque cruzado, predatado para o ano que vem e NOMINAL à Santa Luzia! O que é que eu faço com o diabo desse cheque???
 
Vicente bocejou, espreguiçou-se na fianga, enquanto a jovem que o acompanhava fugia enrolada no lençol para o banheiro, com cerimônia do vigário. O malandro demorava-se na resposta. O padre insistiu:
 
- Me diga, homem de Deus, o que diabo eu vou fazer com a porra desse cheque?
Vicente deu-lhe uma resposta fulminante:
 
- Imprastifique!… Imprastifique senão o senhor perde!
 
(Do livro SERTÃO GAIATO, de Arievaldo Viana)
 
 
 
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domingo, 22 de setembro de 2013

COBLA PLETA

OU A CORAGEM DO TOTONHO

cobra
 
 
Luiz Gonzaga dizia que todo menino que nasce no sertão e não é vitima da opressão de senhores arrogantes tem uma infância feliz. Mesmo que passe privações tem diante de si o recanto mais lúdico e encantado de todo o Universo. Quem sou eu para contrariar essa afirmativa do saudoso Rei do Baião… Tive uma infância parecida com a dele nas brincadeiras, nos folguedos, na religiosidade. Talvez um pouco mais farta e despreocupada, pela condição econômica de meu avô que era comerciante e pequeno agropecuarista. Guardo desse período as mais gratas lembranças, relicário de imagens, saberes e lições que moldaram a minha personalidade pelo resto da vida, desde o gosto literário e musical até a minha postura diante dos desafios da vida. Quando trabalhei como redator e designer gráfico em agencias de propaganda de Fortaleza os colegas costumavam brincar:
 
- Ô bicho matuto… Este cabra saiu do sertão, mas o sertão não saiu dele!
 
Diziam em tom de mofa, cobrando uma urbanização, uma pasteurização de costumes que eu jamais almejei, por isso a minha resposta era sempre a mesma:
 
- Eu sou o Sertão! Matuto, graças a Deus!
 
Prosear no alpendre, depois da janta, era um costume secular no sertão de outrora, coisa que foi desaparecendo gradativamente com a chegada da eletricidade, dos aparelhos de TV e das antenas parabólicas, gigantescas “urupemas” que infestam desde as opulentas casas-sede de fazenda até os casebres mais simplórios. Com o advento do Funrural, instituído no início da década de 1970 e os programas sociais do Governo, todo mundo possui moto, geladeira, aparelho de TV, telefone celular (mesmo que não pegue), computador e as indefectíveis parabólicas. É como diz o Gilberto Gil na canção ‘Parabolicamará’:
 
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena
Parabolicamará…
 
ftb
Foto: Blog do Macário Batista
 
Se há um lado positivo, pela melhoraria da qualidade de vida das pessoas e acesso ao consumo, por outro lado as tradições estão escoando pelo ralo e as novas gerações sertanejas, em muitas localidades, são compostas por jovens indolentes, alienados, arrogantes em sua maioria e, de certo modo, parecidos com os malandros da periferia das grandes cidades. Copiam a roupa, o modo de andar, as gírias, o (des)gosto musical e outros hábitos menos recomendáveis.
 
velhinha - parecida com a BASTIANAMas voltemos ao alpendre de meu avô; deixemos tais elucubrações para os historiadores e sociólogos de plantão. À noitinha, depois da ceia, filhos, netos, vizinhos reuniam-se no alpendre da casa de meus avós para um animado bate-papo, onde não faltavam histórias de caçadas, viagens, relembranças de tempos distantes, amenidades do dia-a-dia e novidades que chegavam pelo rádio. Mas a modalidade mais aterradora de todas (pelo menos para mim) eram as histórias de assombração, cobras venenosas e discos voadores. Eu tinha muito medo de alma, de coisa do outro mundo, mas tinha mais medo ainda do tal disco voador, que os matutos descreviam como uma luz que perseguia as pessoas para chupar o sangue e as cobras venenosas, cascavéis principalmente, que ficaram nas veredas enrodilhadas a espreita de uma vítima. E tinha a história de um ateu cujo caixão pesara meia tonelada na hora do enterro e que ainda por cima virara um bicho, depois de sepultado, sendo necessário colocar uma jaula sobre a catacumba. A velha Bastiana, torradeira de café, jurava que era verdade. Quem ousava duvidar?
Que tortura, ir deixar um cavalo no cercado à noite, mesmo que houvesse lua cheia. Essas lembranças logo vinham à tona, o serviço era feito às pressas, sob clima de terror. Na ida, montado no animal, até que restava um pouco de coragem, mas a volta eram outros quinhentos. O cabra vinha correndo em desabalada carreira e quando chegava no terreiro de casa, sentava um pouco para serenar a respiração e não denunciar o medo que sentia.
Sabendo que eu era medroso confesso, meu avô raramente me incumbia de tarefas como esta. Cabia geralmente aos primos Dário José e Walberto, que tinham fama de corajosos, mas que certamente também tinham medo de tais marmotas. Eles ficavam felizes e empavonados quando meu avô lhes gabava a coragem:
- Cabra macho! Esse é homem mesmo! Foi sozinho deixar o cavalo no cercado e voltou nas mesmas pisadas…
O velho sabia como mexer com os brios do suposto corajoso. Éramos, ao todo, morando na casa grande ou nas imediações, mais de vinte netos, além de sobrinhos e agregados. Menino como o diabo, como dizia Luiz Gonzaga. Só o tio José Oswaldo tinha dez! De todos, o mais medroso era o Totonho. Se assustava até com a própria sombra, era raquítico, miúdo, embora fosse um dos mais velhos da turma. Tinha a fala meio atrapalhada e batia os olhos em sistema pisca-pisca, quando estava aperreado. Foi vítima de uma das muitas travessuras que aprontei na infância.
Remexendo pelo armazém da casa velha, onde dormia o João, empregado de meu avô, encontrei uma velha câmara de ar de pneu de bicicleta, a qual, de tanto remendo, havia sido descartada. De parelha com meu primo Dário José resolvi pregar uma peça no Totonho, que morria de medo de cobras. Cortamos o pneu, enchemos de ar e amarramos com liga nas duas pontas, de modo a parecer uma serpente, uma cobra preta, para ser mais preciso. E colocamos a danada na vereda que o Totonho palmilhava toda noite, por volta das seis meia, para vir tomar uma coalhada que a vovó lhe oferecia. Dito e feito. Eu já estava meio esquecido da armadilha quando ouvi um grande alarido, um terrível alvoroço no alpendre, que já estava cheio de gente. O menino chegou branco dar cor de um finado e levou uns três minutos para recuperar a fala, aterrado, transido de susto. Depois de beber sofregamente alguns goles de garapa de açúcar resolveu abrir o par de queixos:
 
lampião
- Vo- Vovô! Ali tem uma cobla pleta! Um cobla medonha, vovô!
 
Mané Lima levantou-se de um salto, deu de garra de um cacete de jucá e foi logo perguntando:
 
- Aonde menino? Cadê essa cobra?
 
- A- acolá vovô, na valeda… (vereda)
 
- Pois vamos me mostrar!
 
A ordem era imperiosa. Mesmo morrendo de medo o Totonho sujeitou-se a ir apontar o local onde havia avistado o gigantesco ofídio. Na sua descrição media mais de três metros de comprimento! O Gabriel Lopes, marido de minha tia Heliodoria, seguiu com eles conduzindo um lampião a querosene. Chegando ao local, depararam com a tira de pneu e vovô não contou pipoca, desceu o pau na suposta serpente, com toda força do braço, a torto e a direito. Atoleimado, como costumava ser em situações desse tipo. Quanto mais ele batia, mas o pneu pulava e se retorcia, simulando os movimentos de uma cobra.
O Gabriel talvez até já tivesse percebido o engano, pois estava com o lampião e tinha a visão perfeita, mas divertindo-se com a situação, conseguia disfarçar o riso e dava corda no meu avô, para levar a cena adiante:
 
- Ô cobra dura de morrer, ‘seu’ Manoel, taca o pau nessa danada! Abarca essa bicha, arrocha, ‘seu’ Manoel!
 
Vendo os pulos da cobra, Totonho foi o primeiro a correr, de volta para o alpendre. Quando a farsa foi descoberta, todos riram a bandeiras despregadas, até mesmo meu avô, que tinha sido uma das vítimas do logro. O resto da noite foi só de “elogios” à coragem do Totonho.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

UM BRINDE À VIDA

 
Arievaldo Viana
 
Cheguei aos quarenta e seis
Anos de minha existência
Pleno de graça e vivência
Felicidade, talvez...
Por isso digo à vocês
Que nunca estive sozinho:
Dos filhos tenho o carinho
E os beijos da companheira
E ao longo da vida inteira
Tenho Deus no meu caminho.
 
Passei vereda de espinho
Galguei ladeira tirana
Muita casca de banana
Puseram no meu caminho
Porém eu sou como o vinho
Envelhecido na adega
Saio melhor da refrega
Venci com fé em Jesus
Quem busca a trilha da Luz
Não cai em qualquer bodega.
 
Mas minha alma sossega
Lembrando do que plantei
Das sementes que deixei
Nos momentos de entrega
Quando Deus fizer a sega
E ceifar os meus terrenos
Só tem pecados pequenos
Não sei quanto vou pagar
Talvez não queira cobrar
Muito de quem peca menos.
 
Peço sempre ao Nazareno
Pra me dar paz e saúde
Ter fé é uma virtude
O resto é café pequeno
Neste momento sereno
De ventos celestiais
Eu busco cada vez mais
Sair da trilha de espinho
E agradecer o carinho
Dos meus amigos leais.
 
Escrito entre 18 e 19 de setembro de 2013
 
 
 * * *

Relendo o livro Fulô do Mato, do poeta potiguar Renato Caldas (Editora Queima-Bucha) encontrei essa pérola: "Toda sodade é assim", que reproduzo a seguir...



TODA SODADE É ASSIM
 

Meu patrão, eu reconheço
E sei cuma é caro o preço
De uma arrescordação...
- O prazê da mocidade,
Pra se pagar com sodade...
Hai muita expiloração!
 

Às vez, a gente lucrou-se
De tão pouco, qui acabou-se
Sem o gosto do bom senti.
Depois dos tempos passados
Os gostos vão ser cobrados
Com juros – sempre a subi.
 

As contas sempre são véia,
Só é nova a churrutéia
Se as lembranças vem cobrá.
O freguês paga tudinho...
Mas, fica sempre um rabinho,
Pra conta continuá.
 

Um namoro atrás do muro,
Um passeio no escuro...
Uma bestêra quarqué.
Só sei qui na tramunhada,
Tem uma história embruiada
Na saia de uma muié.
 

Patrão, tô véio e cansado,
Arrescordo o meu passado...
Num sô um véio chorão.
Mas fico desmilinguido
Se dentro do meu sentido
Passeia a rescordação.
 

- A sodade é buliçosa.
É renitente. É teimosa,
Num tem acomodação...
Noite e dia trabaiando,
Bulindo, cascaviando,
No baú do coração.

 
Vê minha mãe remendando
Minha rôpa... Fuxicando...
Eu junto dela, no chão
Brincando c’uma boiada
De osso de panelada...
Sodade é isso, patrão!
 

Sodade é rescordação!
É dô... É satisfação.
É estrepe de mel de abeia,
É luz, qui a gente apagando
Fica pru dentro, queimando
O pavio da candeia.
 
 


RENATO CALDAS 

Por: Rostand Medeiros

 
O poeta Renato Caldas nasceu na cidade de Assú no dia 8 de outubro de 1902, sendo considerado o maior representante da poesia matuta no Rio Grande do Norte.

Ficou conhecido como o “poeta das melodias selvagens”, por seus versos apresentarem de maneira simple e espontânea, para alguns até mesmo rude, mas sempre original, aspectos do amor, da simplicidade da vida do homem do campo, da natureza sertaneja e da beleza feminina.

Homem expansivo, o poeta Renato Caldas era um grande boêmio e um apreciador das cantigas populares. A sua obra mais conhecida é o livro de poesias “Fulô do Mato”.
 

domingo, 15 de setembro de 2013

O RATO VEM E CARREGA

 
O poeta Paiva Neves publicou esta foto no facebook, retratando sua banca de folhetos no Dragão do Mar. Sem o rato, é claro. Tive a idéia de provocá-lo para um debate, do qual participaram também os poetas Rouxinol do Rinaré e Stélio Torquato:
 
O RATO VEM E CARREGA

(Reflexões sobre a Literatura de Cordel)

 

ARIEVALDO:

Quem vive da poesia
Tem que fazer uma entrega
Entregar seus sentimentos
Sem entregar o colega
Depois que fizer sonetos
Se agarre com seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
PAIVA NEVES:

Manterei o olho vivo
Na banquinha do cordel,
Meu amigo menestrel
De versejar criativo
Paiva Neves é cativo
De sua obra e não nega,
Enfrenta qualquer refrega
De dez pés até tercetos
Se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega

 
STÉLIO TORQUATO:

Para que, em absoluto,
Aniquile-se o perigo,
Importa, meu bom amigo,
Vigiar bem seu produto.
Assim, com olhar astuto,
Não se descuide, colega:
Enquanto um olho sossega,
Vela o outro os livretos.
E se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega.

 
ARI

Aqui em casa já deu
Uma praga de cupim
Um inseto muito ruim
Por aqui apareceu
E na coleção comeu
Folhetos do meu colega
Depois de grandes refregas
Os matei com carburetos
Se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega!
 

STÉLIO:

A tal praga de cupim
É realmente cruel:
Ingere livro, cordel
E tudo que é afim.
Voracidade assim
A rataria congrega.
Todo poeta “arrenega”...
Logo, o amigo dos versetos
Deve agarrar os folhetos
Ou vem o rato e carrega.

 
ARI

O rato não pesa um quilo
Mas é bicho interesseiro
Quando vê um folheteiro
Agarra logo o ‘João Grilo’
‘Malazartes’, seu pupilo
E ‘Cancão’, seu bom colega
Sendo gatuno ele agrega
Os leva como amuletos
Se agarre com seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
STELIO

Cabras de todas as partes
Junto a Paiva estão,
Como João Grilo, Cancão
E o tal Pedro Malazartes.
Cuidado com suas artes,
Que a desatenção nos cega.
Quem em bons mares navega
Não tem no armário esqueletos.
Se agarre com seus folhetos
Se não o rato carrega!

 
ARI

Na cidade de Iguatu
Eu vendia os meus cordéis
Quando chegou, de revés
Um tremendo guabiru
Mesmo sem trazer tutu
Remexeu minha ‘bodega’
Tudo que vê, logo pega,
Saiu a custa de espetos!
Se agarre com seus folhetos
Se não o rato carrega.
 

STÉLIO

Encerro, dupla amada,
Minha ação nesta peleja,
Pois é mister que eu esteja
Em breve em plena estrada.
Volta pra sua morada
Este que a estrada pega.
A lição não desapega
Dos olhos míopes e pretos:
Se agarre com seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
PAIVA

Eu cheguei nesse momento
Da cidade de Horizonte,
Na estrada tinha um monte
De animal, e um jumento
Lá daquele ajuntamento
Relinchou, me deu esbrega
Dizendo: vê se sossega
Rime lenha com gravetos
Se agarre com os folhetos
Se não o rato carrega.

 
ROUXINOL

Hoje o cordel tá na moda
Ta chovendo “cordelista”
Gente que “parou na pista”
Com uma poética “foda”
Vamos fazer uma poda
Dá nesses tais um “esbrega”
Senão todo esse mal pega
Nos vilarejos e guetos
Segurem bem seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
ARI

É igual couro de pica
O papangu de quaresma
Esse poeta-abantesma
Que o verso desmetrifica
Se remenda, pior fica
Entretanto não sossega
Vai na praia, vai no brega
Berrando seus poemetos
Segurem bem seus folhetos
Senão o rato carrega!

 
ROUXINOL:

Esses ratos do cordel
Estão tendo muito espaço
Pondo os incautos no laço
Com um versejar infiel
Amarga igualmente o fel
E engana essa gente “cega”
Se essa moda ruim pega
Vou usar mil amuletos
Segurem bem seus folhetos
Senão o rato carrega!
 

ARI:

Tem poeta sem respaldo
Metido a pesquisador
Tem cordelista impostor
Que o verso não dá um caldo
Essa semente eu escaldo
E não guardo em minha adega
Porque joio em minha sega
Tem o valor dos gravetos
Segurem bem seus folhetos
Senão o diabo carrega!
 

* * *
 


O DIABO VEM E CARREGA
 

Esta aconteceu ali pras bandas dos sertões de Madalena, e é coisa bem recente. A precaução e o bom senso nos mandam omitir o nome dos personagens, mas o caso em si não pode passar em branco. Tem que ser relatado.
Certo matuto, filho de um abastado fazendeiro da região, velava o corpo do pai recém-falecido e se mostrava inconformado com os desígnios divinos, embora o mesmo já fosse de idade avançada. No auge de suas queixas, saiu-se com esta pérola: 

- Isso é que é... Tanta gente ruim nesse mundo e não morre. Já o papai, uma pessoa tão boa, podendo ainda estar vivo, aqui mais nós... O diabo vem e carrega!

 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

É FEIO, MAS É BOM!

 
CAMPINAS DE SEU ZUQUINHA 

Por: Arievaldo Viana
 

Campinas de ‘seu’ Zuquinha
Homem branco de respeito
Cu-do-mundo da Lili
Repuxo do Barrão Preto... 

Zuca Idelfonso  ou 'Seu' Zuquinha das Campinas,  homem branco de respeito,  como ele próprio se autodenominava, foi um personagem inteligente, espirituoso, desbocado e pra lá de autêntico. Nasceu e se criou nos sertões adustos de Quixeramobim, em território posteriormente desmembrado com a emancipação do distrito de Madalena. Ultimamente tenho ido amiúde às comunidades de Macaóca, Sabonete, Cacimbinha e Vila Campos, locais onde o Zuca ainda hoje é lembrado pela sua irreverência. Seus filhos Chaguinha e Manoel, parentes indo e voltando (tanto pela parte do meu avô Manoel Barbosa Lima, quanto pela de minha avó Alzira de Sousa Viana) sempre me visitam e enriquecem o repertório anedótico com novas histórias.

Minha parenta Auri Araújo, que anda empenhada em montar a árvore genealógica das famílias Sousa, Viana, Araújo, Crisóstomo, dentre outras daquela região, tem obtido em suas andanças um precioso material inconográfico que vem postando regularmente numa página da internet, criada especialmente para este fim. Foi de lá que resgatamos estas duas preciosidades: uma foto do Zuca, já idoso e da casa onde morava, na localidade de Alegre. 

 

QUEM ERA MESMO
‘SEU’ ZUQUINHA?

 

José de Sousa Araújo, o Zuquinha, não tinha papa na língua, nem mandava recado. Dizia o que bem queria em qualquer hora e lugar. É o tipo da figura que extrapola qualquer comentário, que excede qualquer anedotário e que não cabe nas páginas de livro algum, tamanha é quantidade de "causos" que lhe são atribuídos, alguns dos quais impublicáveis.

Everardo Lima, comerciante na Fazenda Ouro Preto (hoje Madalena, antigamente Quixeramobim), teve o prazer de conviver com este singular personagem sem contudo captar a íntegra de seu "tirocínio". "O Zuca me contou mil histórias, mas eu perdi mais da metade" - admite.  A verdade é que, apesar de falecido, o Zuca continua sendo lembrado freqüentemente pelas pessoas que o conheceram, graças a inegável qualidade do anedotário que lhe é atribuído. Se é verdade ou mentira o que dele contam, isso é outra estória, as anedotas do Zuca já se tornaram de domínio público, como as de Quintino Cunha, Manezim do Bispo, 'Seu' Lunga e tantas outras figuras folclóricas do Ceará. Uma particularidade: adorava questão. Contam que ele dava um boi para entrar numa briga e depois da confusão formada não consta que corresse com a cangalha!

Falava  de uma maneira bastante singular, trocando o "s" pelo "x" - anos luz antes do surgimento da Xuxa  -  e a letra "v" pelo "g".  A propósito desse seu distúrbio de linguagem, é notório o caso do Presidente Dutra  (1945  a 1951), que também falava "imprialzim" ao Zuca, conforme constatou a historiadora cearense Isabel Lustosa em seu livro "Histórias de Presidentes  A República no Catête", obra fartamente ilustrada com desenhos de J. Carlos e outros chargistas da época. O capítulo dedicado ao Marechal Dutra intitula-se "Voxê qué xabê?". Por conta dessa particularidade, Dutra foi "massacrado" pelos chargistas seus contemporâneos.

O forte do Zuca era o seu poder mordaz de satirizar situações. Troçava com a ordem estabelecida, a moral e os bons costumes. Sertanejo astuto, feroz observador, não poupava nem a própria sombra. Em muitas de suas ações  como na vez em que amarrou um pedaço de xique-xique sob a cauda de uma rês que lhe invadira o roçado -  ele lembra o "Baixim", o Fradim sacana do cartunista Henfil.

Gostava de implicar com todo mundo, inclusive os parentes. Os Vianas eram seu alvo predileto: "Giana é igual a pelo de hortênsia, desgraxa uma bebida!". Também teria afirmado, em outra ocasião: "Giana é um bicho muito parexido com gente... pé de Giana é como picarete, do tanto que tem pra frente, tem pra trás!"

Fazia pouco caso da polícia e do clero. Quando foi buscar uma parteira para assistir o primeiro parto de sua mulher, Zuca fez o seguinte comentário:

- Padre, Parteira e Xoldado... ô três classe de gente xem futuro!!!

É ilustrativo o seu comentário sobre a candidatura do ex-deputado Barros dos Santos. Almoçando na residência do Sr. Neles Secundino, de quem era parente e amigo fiel, Zuca foi admoestado pelo anfitrião a aderir à candidatura do Sr. Barros dos Santos à Assembléia Legislativa.  Seu Neles caprichou na boca de urna:

- Compadre Zuca, este aqui é o grande advogado Barros dos Santos, pessoa da nossa estima, da nossa amizade e consideração. Ele disputa uma cadeira de deputado, por isso esperamos contar com o seu valioso apoio... 

Dr. Barros era um mulato e Zuca, como a maioria das pessoas de sua geração, era meio racista. Depois de analisar detidamente o candidato, Zuca  que não tinha papa na língua nem falava pelas costas  mostrou-se muito decepcionado e detonou a candidatura:

- Cumpade Neles, voxê num tem gergonha de me xeduzir pra votar no diabo d'um nêgo???

- Ma- mas Zuca, o Dr. Barros...

- E ainda por xima Dotô??? É por ixo que num chove!!!  arrematou o Zuca.

 

HÁ VIDA APÓS A MORTE?

 

O velho Chico de Sousa -  o Fitico do Castro -, foi um dos homens mais religiosos de que se teve notícia em Quixeramobim. Ele e seu genro Mané Aderaldo eram praticamente uns beatos, de tanto que rezavam, além do respeito imensurável por tudo que se relacionava com as coisas da Igreja Católica. Tal sentimento jamais foi partilhado pelo Zuca, sujeito irreverente e livre pensador, anarquista por pura intuição, uma vez que jamais deve ter lido livro algum que o doutrinasse neste sentido.
 
Francisco de Assis de Souza, o Fitico do Castro

O certo é que Zuca costumava zombar deste apego desmedido às coisas do outro mundo, a ponto de imaginar um Inferno repleto de maravilhas terrenas, sanfoneiros, dançadeiras seminuas e bebida da melhor qualidade, enquanto o Céu seria um lugar monótono, sem qualquer atrativo, onde as almas bocejavam de tédio sobre brancas nuvens de algodão azul.

Acerca dessa questão, um sobrinho do Zuca, o Albani, afirma que o viu comentar certa vez:

" - Já penxou quando nós tiver tudim no 'inxerno', danxando com as nêga e bebendo xerveja... ô que beleza! Já o pobre do Mané Aderaldo, coitado,  tão triste, lá em xima, trepado naquelas nuvens xem graça, doidim prá cair na gandaia e num pode...!"

De certo modo, seu jeito irreverente lembra as peripécias de Cancão de Fogo, o célebre "amarelinho" criado por Leandro Gomes de  Barros  - de quem voltaremos a falar  no terceiro capítulo deste livro - que  também zombava da morte:

 
"Quando ele viu que morria
Chamou a mulher pra junto
E disse: - Minha mulher
Não precisa chorar muito
Não há tempo mais perdido
Do que chorar por defunto.

 
A pessoa que tomar
Remédio pra não morrer
É como quem salga carne
Depois dela apodrecer,
É rezar para São Bento
Depois da cobra morder.
 

Chegou um frade e lhe disse:
- Venho ajudá-lo a morrer...
Respondeu Cancão de Fogo:
- Tenho que lhe agradecer,
Deite-se aí para um canto
Cuide logo em se torcer.
 

- Torcer como? Disse o frade,
Disse o Cancão: - Meu amigo,
O senhor não vem morrer
Para ir junto comigo?
O frade responde: - Vôtes!
Um burro é quem vai contigo!
 

Disse o Cancão de Fogo:
- Se eu não estivesse prostrado
Você tinha que sair
Cortês e civilizado
E só entraria em casa
Depois que fosse chamado. 
 

- Meu irmão, lhe disse o frade
Eu vim aqui exortá-lo,
O inferno está aberto
O diabo a esperá-lo
As chamas do purgatório
Estão prontas pra queimá-lo.
 

- Se entrei na tua casa
Foi para te confessar,
Pois levas grandes pecados
Para o leito tumular
Vim salvar-te do diabo,
Pra ele não te levar.
 

Disse-lhe o Cancão de Fogo:
- Frade, quero que me dê
explicação do Inferno,
Lhe peço como mercê,
No Inferno inda haverá,
Um diabo como você?
 

O frade saiu dali
Se benzendo amedrontado
Dizendo: - Aquilo é o Cão
Em um ente transformado
Me valha rosário bento
E o madeiro sagrado."
 

A FESTA DO ZUCA
 

Certa feita o Zuca resolveu fazer uma festa em sua casa. Já diz um velho adágio popular que festa é muito bom... na casa dos outros. Festa no sertão termina sempre em briga, em candeeiro apagado, em fole furado e outras desavenças do gênero. Prevendo tais contratempos e temeroso de que os brigões puxassem estacas de sua cerca, Zuca mandou cortar 50 cacetes de jucá e os empilhou no terreiro. Todo convidado que chegava ele dava o aviso:

- Olhe xeu xela da puta, se quigé brigá ali tem caxête de xobra! Num é prexijo arrancá as vara da minha cerca!

A festa  que por sinal não tinha alvará de licença  foi das mais bagunçadas. Briga por cima de briga, araca por cima de araca... um verdadeiro pandemônio.

No dia seguinte, como já era de se esperar, o Zuca foi intimado a comparecer perante o delegado de Quixeramobim, onde registrou-se o seguinte diálogo:

- Senhor José de Sousa Araújo...

- Xou eu!!!

- Soube que o senhor fez uma festa sem licença e  que a mesma resultou em muita briga...

- Menos a verdade! Em primeiro lugá eu num prexijo de lixença pra fazer festa na minha casa, porque lá quem manda xou eu. Em segundo lugá, xó houve uma briga... comexou a boca da noite e terminou de manhã!

 

ZUCA NAMORADOR

 

Tudo que se disser do Zuca é possível. Toda vez que passava pela Vila Campos, seu amigo Neles Secundino gostava de "dar corda" para ver o Zuca se soltar... De uma feita, estava hospedado na casa do amigo quando chegou um conhecido fazendeiro, filho de família rica e respeitada, que era o supra-sumo da elite rural do interior de Canindé, naqueles tempos idos. Seu Neles apressou-se em apresentar-lhe o rapaz, certo de que o Zuca soltaria uma das suas. Só não imaginava é que a brincadeira fosse tão pesada:

- Zuca, este aqui é o fulano, filho de fulano de tal...

- Ah! É 'xilho' de fulano? Namorei muito com a xinhora  xua mãe!

- Quando ela era solteira...?

- Depois de 'cajada" também!

 

(In ‘O Baú da Gaiatice’, Editora Assaré, 3ª. Edição, 2012)

 

A HERANÇA DO PARAÍBA (É feio, mas é bom...)
 

Chico Paraíba foi um caboclo velho do oco do mundo que apareceu certo tempo na Fazenda Cacimbinha puxando apenas uma corda... a cachorra havia morrido de fome no caminho. Trabalhador e extremamente usurário, um pirangueiro de peso e medida, não lhe foi difícil amealhar alguns cobres depois de alguns meses de extenuante trabalho. Chico aplicava suas economias comprando cabeças de gado e jumentos que criava nas capoeiras do patrão. Trabalhou noutras fazendas da região, tangeu comboios no rumo da serra do Baturité e, ao cabo de alguns anos, já era possuidor de 14 cabeças de gado, um lote de jumentos e um capital avaliado em mais de dois contos de réis.

Mas não há bem que sempre dure... Mal alimentado, já que não usufruía de seus haveres da maneira devida, acabou contraindo uma infecção intestinal, uma fraqueza crônica ou outra moléstia mais grave que lhe desfigurou o corpo e consumiu-lhe as forças. Tocado pela mão negra do destino, resolveu procurar abrigo na casa de seu antigo patrão, o velho Olímpio Viana, proprietário da Fazenda Cacimbinha.

 “Pai” Viana o tratou com benevolência e a caridade digna de um verdadeiro cristão, fornecendo-lhe um quartinho isolado da casa para abrigar-se e uma pessoa para tratar de sua doença, que julgava-se contagiosa. O velho possuía um verdadeiro “putufu” de dinheiro nos dois bolsos da calça, pois havia passado o seu rebanho bovino nos cobres, ficando apenas com alguns jumentos. Não se apartava de suas economias por nada. Dormia agarrado com os bolsos. Um dia, sentindo que ia morrer, chamou seu Viana e pediu-lhe que pagasse algumas contas que devia, mandasse celebrar algumas missas em intenção de sua alma e fizesse bom proveito do dinheiro que sobrasse. O velho morreu, as missas foram celebradas, as dívidas foram pagas e uma parte do dinheiro foi convertida em esmolas.  Viana não queria ficar com aquele dinheiro impregnado do suor do moribundo e ganho a duras penas. Resolveu levar o restante para o Juiz de Quixeramobim  dar-lhe o destino que melhor aprouvesse à Justiça. Nesta dita viagem, levou o seu genro Caboclo Viana, para casar no civil com a  Aurinha, e trouxe uns sacos de cal para caiar o oitão da casa.

Foi o bastante para o maledicente Zuca Idelfonso, falador por natureza, poeta ocasional, aproveitar o ensejo para fazer o “testamento” do falecido Chico  Paraíba, dizendo quem havia lucrado com os bens por ele deixados. Eis alguns trechos do irreverente poema:

 
REFRÃO:

É xeio, mas é bom
Deixe quem quigé falar...

 
- A morte do Paraíba
Causou grande rejultado
“Giana” pintou a casa
Caboclo xaiu cajado,

E até o Chico Lobo
Que era xeu axilhado (afilhado)
Entrou no xeu testamento
Ganhou um par de calxado:
Uma chinela de pneu
Com o calcanhar furado...

É xeio, mas é bom,
Deixe quem quigé falá! 

Os  chinelos deixados pelo finado Paraíba eram de pneu, com buracos em forma de meia lua no calcanhar e outros profundos sulcos no local dos dedos. Zé Viana assegura que na marca do dedão cabia um ovo de capota. 
 
 

Tempos depois recolhi aleatoriamente uma outra estrofe, que se encaixa dentro da mesma melodia (algo parecido com a música Calango da Lacraia, de Luiz Gonzaga), onde o Zuca vergasta o meu tio Dica Viana e outros vizinhos. Provavelmente não faz parte da versalhada sobre a herança do Paraíba: 

O Dica ta no Inxerno
E o Zé Gomes nas profundas
O Zé Chole também vai
Com um bode ‘alei’ nas cacundas... 

É xeio, mas é bom,
Deixe quem quigé falá! 

(In ‘A mala da cobra’, livro inédito)