quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CENTENÁRIO DO REI DO RITMO



Jackson do Pandeiro a caminho dos 100 anos

Quem visita Alagoa Grande, situada na região do brejo paraibano, Serra da Borborema, não pode deixar de visitar um casarão azul construído em 1898, na Rua Apolônio Zenaide, centro da cidade. No prédio está a memória e os restos mortais de um dos artistas mais representativos da cultura brasileira: José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro.


O Memorial Jackson do Pandeiro, criado em 2008, possui um grande acervo composto por discos, documentos, vestimentas, imagens e os indefectíveis chapéus usados pelo cantor, que nasceu em 31 de agosto de 1919 e morreu em Brasília, em 10 de julho de 1982.
 “O memorial já foi visitado por mais de 100 mil pessoas vindas de várias partes do país. “Foi um artista que nunca cantava duas vezes uma música da mesma maneira, sabia dividir os compassos da música nordestina com maestria”, afirma o jornalista e historiador da música brasileira Rodrigo Faour, curador da recém-lançada caixa Jackson do Pandeiro — O Rei do Ritmo (Universal Music).

 “Há anos, eu queria relançar esse repertório. Quando a Universal veio com essa ideia, eu, na mesma hora, vesti a camisa e revisei o levantamento que eu já tinha feito. Pedi ajuda a alguns amigos e cheguei à seleção final”, destaca Faour sobre a obra com clássicos como Chiclete com banana e O canto da ema.

Em entrevista, o pesquisador lista os empecilhos que teve de enfrentar para a composição da caixa que contém 235 músicas. Ao todo, são 15 discos agrupados em nove CDs. Esses álbuns (compactos e long plays) foram lançados originalmente nos anos 1960 e 1970.
 “Esbarrei com um monte de problemas: canções não editadas, autores falecidos, autores que não deixaram herdeiros oficiais, capas originais dificílimas de conseguir... Por isso demorou anos e anos para a caixa sair”, lamenta.



Fonte: http://www.neyvital.com.br/2016/08/31-de-agosto-jackson-do-pandeiro.html

sábado, 2 de fevereiro de 2019

VIOLA DE LUTO:




MORREU O POETA JOÃO FURIBA

Morreu de causas naturais, aos cem anos, nesta quinta-feira, 31, em Cajazeiras, onde estava internado em um hospital da cidade, o poeta repentista João Bernardo, mais conhecido como João Furiba. Faria 101 anos em julho.

João Furiba nasceu em Taquaritinga do Norte-PE e viveu boa parte da vida em Sumé, no Cariri Paraibano. Ultimamente vivia com a terceira esposa na cidade de Triunfo-PB.

Foi discípulo de Pinto do Monteiro, com quem viajou por mais de 15 anos e faz parte da galeria dos maiores repentistas do Brasil, brilhando na mesma constelação onde brilham Geraldo Amâncio, Ivanildo Vila Nova, Os Batistas, Os Bandeiras, Moacir Laurentino, Valdir Teles, Oliveira de Panelas e Sebastião da Silva. “João Furiba e Louro Branco foram os cantadores que mais fizeram a plateia sorrir com seus versos jocosos e suas mentiras engraçadas”, disse Jomaci Danta, o Lola, poeta e organizador de festivais de repente pela Paraíba afora.

No ano passado, quando completou cem anos, ele recebeu diversas homenagens. O empresário João Claudino, seu compadre e grande apreciador e incentivador da viola, esteve presente nas homenagens.

Há cerca de 16 anos João Furiba aposentou a viola, não se apresentava mais, mas seu nome continua vivo na memória dos apreciadores do repente e suas “tiradas” continuam sendo reprisadas e lembradas nos festivais. “Furiba era uma lenda viva da viola, um ícone da cultura nordestina, tinha raciocínio rápido e era dotado de um humor peculiar. Cantoria em que ele estivesse presente era garantia de muitas risadas”, finalizou Lola.

Wandecy Medeiros | Folha Patoense – folhapatoense@gmail.com

FURIBA NAMORADOR

O poeta Geraldo Amâncio me contou que viajava certa vez pelos sertões pernambucanos, na companhia de JOÃO FURIBA, quando uma morena escultural subiu no ônibus conduzindo uma mala bastante pesada.
Furiba, velho namorador, correu ao seu encontro e pegou logo a dita mala, que pesava uns trinta quilos ou mais. Indicou uma cadeira, do lado janela, onde a moça se acomodou e ele, de  imediato, sentou ao lado dela, na cadeira do corredor.
Aí haja conversa... Furiba não cansava o par de queixos, tentando puxar assunto com a mulher que olhava distraída pela janela do ônibus, sem responder nada e sem lhe dar a mínima atenção.
Quando desceram em Salgueiro, para o almoço, Geraldo provocou o companheiro:
— Eita Furiba véi namorador!
E o Furiba:
— Poeta, a mulher só tem imagem... Não tem som!
Por conta disso escrevi esta glosa no dia de sua morte:

Eu não conheci FURIBA
Cantando pessoalmente
Guardo um relato decente
De GERALDO e de CAPIBA
Geikio Amâncio, não proíba,
Eu vou dizer, sim senhor
Além de bom cantador
Grande poeta, inspirado
FURIBA era festejado
Como um “véi” NAMORADOR.
(Arievaldo Vianna)

FURIBA X PINTO DO MONTEIRO

O poeta César Barreto, em sua página no facebook, informou o seguinte:
A morte do grande cantador pernambucano JOÃO FURIBA (João Batista Bernardo) na quinta feira passada (lamentável ainda que ele tenha vivido seus 100 anos), me fez lembrar uma estória que ele contou no programa Violas no Vale (Rádio Vale, Limoeiro do Norte), do qual eu participava com Valdir Teles e Zé Cardoso. Furiba gostava de aperrear o juízo do Pinto do Monteiro só pra atiçar a "cascavel do repente". E aí dava nisso:


Clique na imagem para ampliar.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Klévisson Vianna nas PAGINAS AZUIS


"Minha arte sempre estará a serviço dos mais fracos"

| TRAJETÓRIA | Artista multilinguagens, o cearense Klévisson Viana relembra momentos de sua carreira e reafirma seu compromisso com a arte como canal de transformação social


Foto: Alex Gomes

"O artista nunca tá satisfeito". Assim resume Klévisson Viana quando perguntado acerca de seu metiê. Caçula de cinco irmãos, sendo todos crescidos na zona rural de Quixeramobim, o menino - de rebelde na escola a falador que só a mulher da cobra, como diz o ditado - sempre soube qual seria seu destino: "Pra quem acredita em reencarnação, não tem outra explicação. Sempre quis ser desenhista", não titubeia em dizer. O ano de 2018 serviu de mote para que o cearense celebrasse três décadas de trajetória, que lhe renderam popularidade, respeito e inúmeros prêmios.
Aos 46 anos de idade "com carinha de 30", Klévisson já perdeu a conta de quantos livros vendeu. "Mas já passou de um milhão", garante. Em entrevista ao O POVO, numa tarde do início de dezembro, concedida em sua casa - que também serve de lojinha - na Parquelândia, o escritor, quadrinista, editor, cordelista e, acima de tudo, "um contador de histórias", trouxe à tona seus primeiros rabiscos, a mudança definitiva para a capital cearense, sua Tupynanquim Editora, mas também uma certa apreensão em relação ao futuro, sobretudo da cultura.

OP - O menino Klévisson, lá em Quixeramobim, era uma exceção entre os demais por conta desse interesse pelos livros, desenhos, etc?

Klévisson Viana - Esse menino tinha uma característica: lá em casa, a gente não dispunha de material de desenho; essas coisas eram muito escassas. A gente tinha algum material dos meus irmãos - eu era o caçula de cinco. Então uma das características desse menino era ficar desenhando com o dedo. Ficava contornando as pessoas por horas ou então me deitava e ficava contornando as coisas no céu; se eu via uma paisagem, ficava sempre contornando com os dedos. Era uma coisa que, mesmo antes de eu me entender por gente, eu já queria fazer isso. Pra quem acredita em reencarnação, não tem outra explicação. Sempre quis ser desenhista. Agora o lance da poesia sempre esteve presente na minha vida porque o meu pai (Evaldo Lima, 78 anos) é agricultor e poeta. Chegava do roçado e lia literatura de cordel e declamava verso pra gente. Ele é uma enciclopédia da poesia popular, tem muito conhecimento! Nunca publicou nada, mas sempre foi uma pessoa que gostou de escrever e tem a mania de receber as pessoas sempre com estrofe. E isso é uma herança porque o avô dele, Fitico, já tinha esse costume. Então essa coisa da poesia veio do meu pai. Mas o desenho, não. Meu irmão mais velho, Ari (Arievaldo Vianna), veio muito cedo morar em Maracanaú pra estudar, mas nós não tínhamos quase contato. Então a gente desenvolveu esse gosto morando em lugares distintos. E foi uma surpresa! Uma vez ele veio de férias e chegou lá em casa com uma revista em quadrinhos do Pernalonga, e eu não sabia o que era uma história em quadrinhos. Eu conhecia alguns personagens da Disney porque, nos anos 1970, circularam os personagens numas tampinhas de refrigerante - se eu não me engano, era Pepsi, Teem e Guaraná Wilson. Televisão, a gente não sabia nem o que era! Ele chegou lá com uma história em quadrinhos e eu me apropriei e não deixei mais ele levar embora. Mas o que mais me fascinava, em se tratando de desenho, era um primo que meu pai tinha chamado Zé Miguel, que era vaqueiro, e a casa dele era aquela casa sertaneja, cheia de alpendres, mas era cheia de desenhos as paredes! Ele desenhava aquelas cenas dele do cotidiano, da lida com o gado e tal, e ele reproduzia. E todo dia, não sei por qual razão, eu fiquei indo durante algum tempo, e o que me motivava de ir à casa dele era olhar pra esses desenhos.

OP - Foi em Canindé que você completou os estudos?

Klévisson - Em Canindé, eu fui matriculado no Colégio Frei Policarpo, que ficava mais próximo da minha casa. Aí eu tinha uma dificuldade tremenda de ficar na escola. Era que nem aquela música do Raul Seixas: "Ao chegar do interior/ Inocente, puro e besta..." (risos) É porque eu era matuto demais, era selvagem demais! Então minha mãe tinha que ir e ficar me pastorando porque eu chorava... Mas isso foi só nos primeiros meses, depois eu fui me ambientando. Mas lá eu fiz até o Fundamental.

OP - Hoje em dia, o Klévisson é muita coisa: cordelista, ilustrador, quadrinista, editor, etc. Como você gosta de ser chamado? Melhor, como você gostaria de ser lembrado?

Klévisson - Como um contador de histórias. Porque eu acho que tudo que você faz que lida com a Comunicação é contação de histórias. Quando você vem aqui pra conversar comigo e quer saber da minha vida, você está querendo saber pra contar a minha história. Quando eu assisto a um filme, é uma história que está sendo contada. O objetivo da maioria das músicas é contar uma história e por aí vai.


VER MATÉRIA COMPLETA AQUI: https://www.opovo.com.br/jornal/paginasazuis/2019/01/minha-arte-sempre-estara-a-servico-dos-mais-fracos.html?fbclid=IwAR3IY5XTtUCJ-EARzrmlevid7yYLJyg04ZUVeMZYLM9PAbAJMh9P78arOiU

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

JOÃO BRÍGIDO DOS SANTOS

UM PALADINO DA IMPRENSA CEARENSE




João Brígido dos Santos (1829 – 1921), jornalista, cronista, historiador e político, nasceu no dia 3 de dezembro de 1829 na Vila de São João da Barra, na época pertencente a Província do Espírito Santo, depois Estado do Rio. Sua família migrou em 1831 com destino ao Ceará onde estabeleceu- se na cidade de Icó. João Brígido tomou suas primeiras aulas em Quixeramobim, quando conheceu o garoto Antônio Vicente Mendes Maciel, futuro líder messiânico trucidado por forças do Governo Federal nos confins da Bahia no triste episódio de Canudos. Consta que um dia, João Brígido salvou o petiz Antônio Vicente de um afogamento num rio em Quixeramobim.
Em 1855 João Brígido funda na cidade de Crato o jornal “ O Araripe “ dando início a uma longa trajetória triunfante na Imprensa do Ceará. Na época, com o pseudônimo de “ KKK “ colaborava com outros jornais cearenses, incluindo um de propriedade do temível Padre Verdeixa, apodado, imaginem, de “ Canoa Doida “.
Em 1861 João Brígido foi nomeado Professor de Português no afamado Colégio Liceu do Ceará e em 1903 funda o Jornal O Unitário, trincheira onde terçava armas com adversários reais ou imaginários feito um Quixote matuto. Foi Deputado Provincial (1864- 1867), Deputado Geral (1878 – 1881), Senador do Estado (1892), Deputado Estadual (1893 – 1894).
Publicou “ Apontamentos para a História do Cariri “ (1888) ,” Miscelânea Histórica” ( 1889 ) , “ O Ceará – lado cômico” (1899) e “ Ceará – homens e fatos “ ( 1919 ) , sua mais destacada obra.

UM BURRO DISCURSANDO

Do seu quartel – general, o combativo jornal” O Unitário” partiram rumo a história pérolas como estas:
“ Ontem, às treze horas os admiradores de G. Falcão prestaram-lhe uma homenagem numa refeição no Café Riche. À sobremesa, em nome dos presentes, falou o C.L. Em seguida, o homenageado ergueu- se nas patas traseiras, firmou-se nas dianteiras, murchou as orelhas e gaguejou um discurso, curto e ruim “.

 João Brígido , certa feita ,espinafrava um pobre chefete político sertanejo em seu pasquim: “ – Fulano de tal, há muito devia estar na cadeia pelos monstruosos crimes que impunemente tem cometido à sombra de governos que se sucedem “. Aparece então, Miguel Xavier um bem informado correligionário afirmando que o tal fulano acabara de aderir ao partido de João Brígido. O velho jornalista apenas corrigiu: “ – Não corte nada e ponha tudo entre aspas. E em seguida, sem aspas:  - Que ele devia estar na cadeia, por ser criminoso, dizem os seus inimigos peçonhentos. Nós, porém, que o temos na justa conta, consideramo-lo um dos homens de bem entre quantos que ainda vivem no sertão.

No governo do Comendador Nogueira Acioli, o Jornal O Unitário assim comentou uma tertúlia palaciana: “ Estiveram ontem, à noitinha em palácio, com Acioli, o Coronel Paulino, de Quixeramobim, e mais nove criaturas de idade avançada. Eram dez os visitantes. Mas ... quem os visse, contava quinze olhos e onze dentes “.

O FERREIRO DA MALDIÇÃO



Encerrando, seguem trechos de uma crônica do Jornal O Unitário com a data de 20 de maio de 1903, com a marca registrada de João Brígido: “ O Ferreiro da Maldição “:

“ O Ceará é o ferreiro maldito, de quem fala a lenda popular: quando tem ferro falta carvão. É nadador contra a corrente, que nunca chega; o caranguejo que anda e desanda; o eco a repetir a pregunta sem lhe dar resposta; o nó sem ponta; o sonho que promete em sombras que não se distinguem bem, a vaga esperança, enfim, para a qual nunca chega o dia.
Há cem anos um povo gigante, a mover-se, não adianta um passo, como frágil esquife sobre as ondas, que a corrente impele, e o vento faz recuar. Não lhe falta a alma. São os deuses, que o condenam à pena de Tântalo – morrer de sede à beira do regato. Os diretores mentais do Ceará morreram ou foram longe procurar um teatro para exibição de sua intelectualidade; e crestam na penúria os rebentos da capacidade cearense, a disputarem um pouco de ar, que aliás lhe mata o estímulo; o ar mefítico das baixas regiões oficiais...
Que seja para os netos de nossos netos, não importa. O mundo não é tão curto, que acabe em nós; e cem anos, na ordem dos tempos, é muito menos de um til nos lábios“.

Esta crônica foi publicada n’O Unitário, edição de 20.05.1903.

Fonte: http://astrilhasdavida.blogspot.com/2016/01/joao-brigido-paladino-da-imprensa-do.html


* * *

O Quixeramobim do cronista 
João Brígido


João Brígido dos Santos foi indiscutivelmente um intelectual múltiplo, destacando-se como: político, advogado, cronista, jornalista e historiador. Segundo o poeta Jáder de Carvalho, um de seus maiores admiradores, João Brígido foi antes de tudo um grande contador de histórias.
Tendo nascido a 3 de dezembro de 1829, em São João da Barra, então da província do Espírito Santo, faleceu a 14 de outubro de 1921, em Fortaleza.  Chegou menino ao Ceará, e residiu em Quixeramobim parte significativa de sua infância, onde aprendeu latim, no velho sistema dos jesuítas.
Foi contemporâneo e amigo de Antônio Conselheiro, moraram na mesma rua, e segundo relatou em texto memorialístico, junto de outros amigos, os dois quase morriam afogados, pois certo dia fugiram de casa para “tomar banho num furo, que a enchente do rio tinha cavado numa das suas margens”. Então, quando estavam mergulhando, um tal Cândido Sabóia lançou sobre eles uma tarrafa por diversão e “com o peso das chumbadas” afundaram.  Brígido conseguiu voltar à tona com Conselheiro agarrado ao pescoço dele e assim salvaram-se.  
“Meio anfíbio, nadador afoito e jogador de cambapé, eu vivia nos rios cheios e nos poços”, era assim que o jovem João Brígido definia-se nesse tempo.
Anos mais tarde já consolidado no jornalismo cearense e na condição de arguto observador, destacou João Brígido, naCrônica de Quixeramobim uma curiosidade histórica sobre o mais antigo templo religioso da cidade: “A matriz de Quixeramobim, hermeticamente fechada e com assoalhos laterais, tornou-se, no correr dos anos, uma igreja mal-assombrada. É que ali se fazia a inumação dos cadáveres da freguesia, como de costume em todo Ceará”.
 Por fim, é importante destacar que o escritor também se debruçou sobre a trágica e sangrenta luta entre Os Maciéis e os Araújos, a famosa guerra entre famílias que abalou o sertão do Ceará no começo do século XIX. E assim sendo, sabe-se que João Brigido foi uma referência certa para Euclides da Cunha escrever anos depois sobre esse episódio no clássico Os Sertões.

Bruno Paulino é escritor.


Fonte: https://alpendresertao.blogspot.com/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

POEMA MALICIOSO DE BILAC





MEDICINA

 Olavo Bilac

Rita Rosa, camponesa,
Tendo no dedo um tumor,
Foi consultar com tristeza
Padre Jacinto Prior.

O Padre, com gravidade
De um verdadeiro doutor,
Diz: “A sua enfermidade
Tem um remédio: o calor...

Traga o dedo sempre quente...
Sempre com muito calor...
E há-de ver que, finalmente,
Rebentará o tumor!”

Passa um dia. Volta a Rita,
Bela e cheia de rubor...
E, na alegria que a agita,
Cai aos pés do confessor:

“ - Meu padre! estou tão contente!...
Que grande coisa o calor!
Pus o dedo em lugar quente...
E rebentou o tumor...”

E o padre: “É feliz, menina!
Eu também tenho um tumor...
Tão grande, que me alucina,
Que me alucina de dor...

“ - Ó padre! mostre o dedo,
(Diz a Rita) por favor!
Mostre! porque há-de ter medo
De lhe aplicar o calor?

Deixe ver! eu sou tão quente!....
Que dedo grande! que horror!
Ai! padre... vá... lentamente...
Vá gozando... do calor...

Parabéns... padre Jacinto!
Eu... logo... vi... que o calor...
Parabéns, padre... Já sinto
Que rebentou o tumor...”

(In Contos para velhos, BOB - Pseudônimo de Olavo Bilac)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

ALMANAQUES POPULARES



Almanaque O JUÍZO DO ANO (Coleção Arievaldo Vianna)

AS PROFECIAS DE MANOEL CABOCLO

Por Eliézer Rodrigues (jornalista)

Em dias tão turbulentos e apreensivos e sem imaginação, nada criativos, pelos quais estamos vivendo, como faz falta o almanaque “O Juízo do Ano”, publicação de Manoel Caboclo, editada, em Juazeiro do Norte. Caboclo pressagiava, também, muitas revoltas, crimes misteriosos, assaltos e vinganças terríveis. Tudo em versos de cordel.

Semelhantes ao formato dos folhetos de cordel, distribuídos em todo Nordeste com tiragem que chegava a 40 mil exemplares, entre 1959 e 1996, os almanaques eram disputadíssimos, principalmente pela criatividade na abordagem dos temas.

Além das indicações meteorológicas, tendo o sertanejo nordestino como alvo predileto, a publicação trazia conselhos favoráveis ao cultivo, além de previsões astrológicas, parapsicologia, numerologia e até ciências ocultas.

Tive a felicidade de entrevistá-lo (Jornal Diário do Nordeste/ edição 20/12/1992), em sua residência, em Juazeiro do Norte, pouco anos antes dele falecer, em 1996. Após a sua morte, o almanaque “O Juízo do Ano”, já em crise, deixou de circular.


Foto: Manoel Caboclo editava o almanaque, na sua gráfica, instalada na casa dele.



Os ALMANAQUES POPULARES e a LITERATURA DE CORDEL

MANOEL CABOCLO E SILVA foi também um conhecido poeta e editor de CORDEL. Essa ligação da Literatura de Cordel com os almanaques é muito antiga… Na primeira metade do século passado já circulava em todo o Nordeste o famoso ALMANAQUE DE PERNAMBUCO, do poeta e editor João Ferreira de Lima (foto), que era um verdadeiro livro de cabeceira dos matutos de outrora. Basicamente eram informações sobre a quadra invernosa, os melhores dias para o plantio, receitas caseiras, plantas medicinais, astrologia, tábua das marés e curiosidades. A matriz parece ter sido o famoso LUNÁRIO PERPÉTUO que, segundo Câmara Cascudo, era uma das leituras prediletas do povo nordestino no século XIX, exercendo grande influência sobre os cantadores e poetas populares que exerciam o ofício de “cantar Ciência”, modalidade muito apreciada nos primórdios da cantoria.

João Ferreira de Lima foi sócio de Manoel Caboclo, durante a década de 1960. Caboclo era colaborador e distribuidor do Almanaque de Pernambuco no Ceará. Depois disso, Manoel Caboclo resolveu criar o seu próprio almanaque, batizado O JUÍZO DO ANO, que circulou até a década de 1990.

No seu rastro surgiram outros almanaques similares, escritos e editados por poetas populares, como é o caso de Costa Leite, Vicente Vitorino de Melo e Manoel Caboclo e Silva. Destes, o único que ainda se encontra em atividade é Costa Leite, editando seu vetusto almanaque pela Editora Coqueiro. (A.V.)

domingo, 13 de janeiro de 2019

CONTISTAS DO CEARÁ (5)



SECA

Rachel de Queiróz

Era hora do almoço dos trabalhadores. Enquanto os homens comiam lá dentro, o fazendeiro velho sentava-se na rede do alpendre, à frente de casa espiando o sol no céu, que tinia como vidro; procurando desviar os olhos da água do açude, lá além, que dentro de mais um mês estaria virada de lama. Os dois cabras se aproximaram sem que ele pressentisse. Era um alto e um baixo; o baixo grosso e escuro, vestido numa camisa de algodãozinho encardido. O alto era alourado e não se podia dizer que estivesse vestido de coisa nenhuma, porque era farrapo só. O grosso na mão trazia um couro de cabra, ainda pingando sangue, esfolado que fora fazia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos. O velho até se assustou e bruscamente se pôs a cavalo na rede, a escutar a voz grossa e áspera, tal e qual quem falava:

– Cidadão, vim lhe vender este couro de bode.

Aquele “cidadão”, assim desabrido, já dizia tudo. Ninguém chega de boa atenção em terreno alheio sem dar bom-dia. E tratando o dono da casa de cidadão. Assim, o fazendeiro achou melhor fingir que não ouvira e foi-se pondo de pé.

– O quê? Que é que você quer?

O homem escuro botou o couro em cima do parapeito e o sangue escorreu num fio pelo cal da parede:

– Estou arranchado com minha família debaixo daquele juazeiro grande, ali. Essa cabra passou perto – não sei de quem era. Matei, e a mulher está cozinhando a carne para comer. Agora, o couro – o senhor ou me dá dinheiro por ele, ou me dá farinha.

– E de quem é essa cabra? É minha? Quem lhe deu ordem para matar?

O velho estava tão furioso que o dedo dele, espetado no ar, tremia. E o loureba esfarrapado chegou perto e deu a sua risadinha:

– Ninguém perguntou a ela o nome do dono…

Mas o outro, sempre sério, olhou o velho na cara:

– Matei com ordem da fome. O senhor quer ordem melhor?

Nesse meio, os homens que almoçavam lá dentro escutaram as vozes alteradas e vieram ver o que havia. Eram uns doze – foram aparecendo pelo oitão da casa, de um em um, e se abriram em redor dos estranhos no terreiro. Aí o velho se vendo garantido, começou a gritar:

– Na minha terra só eu dou ordem! Vocês são muito é atrevidos – me matarem o bicho e ainda me trazerem o couro pra vender, por desaforo! Chico Luís, veja aí de quem é o sinal dessa criação.

O feitor largou a foice no chão, puxou as orelhas do couro, e virou-se achando graça para um dos companheiros:

– Era a sua cabrinha, não era mesmo, compadre Augusto? Está aqui o sinal…

O Augusto veio olhar também e ficou danado:

– Seus perversos, a cabra era da minha menina beber leite, estava de cabrito novo!



Mas o olho do homem escuro era feio, se ele se assustara vendo-se cercado pelos cabras da fazenda, não deu parecença. O loureba é que virava a cara de um lado para outro, procurando saída; ainda levou a mão ao quadril, tateou o cabo da faca – mas cada um dos homens tinha uma foice, um terçado, um ferro na mão . Nesse pé o fazendeiro, para acabar com a história, resolveu mostrar bom coração; e gritou para o corredor:

– Menina! Manda aí uma cuia com um bocado de farinha!

Depois, retornando ao homem:

– Eu podia mandar prender vocês, para aprenderem a não matar bicho alheio! Mas têm crianças, não é? Tenho pena das crianças. Leve essa farinha, comam e tratem de ir embora. Daqui a uma hora quero o pé de juazeiro limpo e vocês na estrada. Podem ir!

O homem recebeu a cuia, não disse nada, saiu sem olhar para trás. O outro acompanhou, meio temeroso, tirou ainda o chapéu em despedida, e pegou no passo do companheiro. O velho reclamava, em voz alta – cabra desgraçado, além de fazer o malfeito, recebe o favor e nem sequer abana o rabo. Os trabalhadores, calados, acompanhavam com os olhos os dois estranhos que marcavam um atrás do outro, na direção do juazeiro, do qual só se avistava a copa alta ali no terreiro.

Ninguém sabe o que pensavam; o dono da cabra deu de mão no couro e foi com ele para trás da casa. Aí a sineta bateu e os homens saíram para o serviço. Passando pelo juazeiro, lá viram a família ao redor do fogo, os meninos procurando pescar pedaços da carne que fervia numa lata. Mas o homem escuro, encostado ao tronco, via-os passar, de braços cruzados, sem baixar os olhos. Ainda foi o dono da cabra que baixou os seus; explicou depois que não gostava de briga.

MORALIDADE:
Este caso aconteceu mesmo. Faz mais de trinta anos escrevi uma história de cabra morta por retirante, mas era diferente. Então, o homem sentia dor de consciência, e até se humilhou quando o dono do bicho morto o chamou de ladrão. Agora não é mais assim. Agora eles sabem que a fome dá um direito que passa por cima de qualquer direito dos outros. A moralidade da história é mesmo esta: tudo mudou, mudou muito.

Fonte:
QUEIROZ, Rachel de. Cenas brasileiras São Paulo: Ática, 1997.