domingo, 18 de junho de 2017

DO BAÚ DAS LEMBRANÇAS


RETALHOS DA INFÂNCIA

Pra ter animação na festa, 
São João só presta puxando fogo!
(Elino Julião)


Estou puxando pelo FOGO da memória. Lembranças que ardem sem se queimar, paixão que se consome sem arder, fogueira que jamais se apagará da minha coivara de lembranças, ventos que sempre soprarão favoráveis na queima de meu roçado e chuvas que sempre cairão benfazejas em cada coisa que eu plantar durante os dias de peregrinação nesse planeta.

O cordel foi minha leitura de primeira hora, literatura que vislumbrei da soleira das janelas de minha infância, linguagem corriqueira que utilizávamos no dia-a-dia com a vantagem de ser rimada e metrificada. Antes mesmo de aprender o beabá eu já me deliciava com a leitura de minha avó Alzira, corrida e desembaraçada, na toada mais adequada para os folhetos e romances de cordel. Desfilavam diante de mim reis, princesas encantadas, castelos de ouro e cristal, gigantes descomunais, dragões flamejantes, guerreiros medievais, amarelinhos sabidos, o diabo logrado, as fábulas repletas de bichos da fauna nordestina e a saga dos cangaceiros audaciosos. Universo mais lúdico é impossível.



DIFUSORA DRAGÃO DO MATO
(A voz de ouro das Capembas Rajadas)

Depois do Cordel, o rádio era a minha grande paixão. Cheguei mesmo a brincar de radialista, quando menino. A Difusora Dragão do Mato, ZYH 1967 operava num estúdio feito de varas de marmeleiro, coberto de sacos plásticos e galhos de mofumbo, numa capoeira que principiava logo após o monturo da casa de meus avós. O microfone era uma lata de sardinha ligado por fios de arame a uma velha bacia de alumínio, colocada na extremidade de uma longa vara que servia de antena. Eu destruía velhos cadernos escolares para retirar o arame dos espirais e construir os equipamentos da minha emissora de brinquedo. Além de atuar como disk-jóquei e sonoplasta, eu também era o único cantor da emissora, interpretando desde os clássicos de Luiz Gonzaga, o nosso imortal Rei do Baião, às cantigas safadas de Genival Lacerda, João Gonçaves e Messias Holanda:

— Ô lapa de minhoca, eita que minhocão / com uma minhoca dessas se pesca até tubarãããããoooo!

E ainda tinha aquele clássico do comecinho da carreira do grande forrozeiro cearense:

— Ouvi cantar o sabiá na bananeira, amor. Na bananeira ouvi um sabiá cantar... til, til, til, til, canta, canta, sabiá...


A construção do estúdio da Difusora Dragão do Mato principiou meio às escondidas. Vovô não gostava que a gente andasse pelos matos armados de foices e facões derribando moitas de marmeleiro e cavando buracos com alavancas para instalação dos pilares (forquilhas) que sustinham o teto da construção. Para tarefas dessa natureza eu contava sempre com a colaboração dos primos Totonho e Oswaldo, mais velhos do que eu, que ajudavam a pegar as ferramentas no quarto da casa velha, quando vovô tirava uma sesta após o almoço. Com um machado conseguimos cortar quatro forquilhas mais grossas e o restante foi feito com barbante, prego, arame e varas de marmeleiro. Tábuas de velhos caixotes e engradados vazios serviram para montar os móveis do estúdio, um verdadeiro luxo para os meus olhos de criança.
Por trás da emissora ficava o meu curral de gado. Gadinho de osso, feito com as articulações do mocotó das reses e o osso do chambari (foto postada por Carlos Flaubert Patrício de Almeida). Eu brincava também com vagens de Pereiro, que se assemelhavam com uma sela de montaria. O cavalinho podia ser um fruto de mandacaru com quatro patas de cipó... Ali funcionava também a minha olaria, onde eu fabricava tijolos um pouco maiores que uma caixa-de-fósforo, com a ajuda de uma pequena grade que eu mesmo havia construído. Chegamos mesmo a fazer caieiras e botar fogo nesses pequenos tijolos, com o risco de incendiar toda a capoeira. Um dia o Totonho chegou com um plano mirabolante:

— Vamos fazer um açude? Nunca vi fazenda sem açude.
— Um açude? Aonde?
— Nessa grota que passa aqui por trás da rádio. Dá um açude que é uma beleza!
Começamos no mesmo dia. Fizemos um barreiro que dava para nadar, quando muito, meia dúzia de patos. Vovô às vezes se incomodava com aquela movimentação, o sumiço de ferramentas que esquecíamos no lugar da “obra” e aquela brincadeira incessante que lhe parecia uma coisa inútil e ociosa. Naquele tempo, menino sertanejo tinha suas obrigações. Os meus primos, por exemplo, botavam água e lenha, cuidavam de animais e trabalhavam no roçado. Só me ajudavam nessas brincadeiras quando não tinham o que fazer. Eu me dedicava mais ao estudo e à leitura e às vezes ajudava na bodega ou dava água a algum animal. Raríssimas vezes fui recrutado para o roçado. Minha avó, principalmente, achava que meu futuro estava nos estudos e não no cabo de uma enxada. Por isso ria embevecida quando escutava meus programas radiofônicos na Difusora Dragão do Mato, ZYH 1967, a Voz de Ouro das Capembas Rajadas.

* * *


Desde menino eu sonhava em me tornar radialista. O velho rádio de casa era ligado direto, das cinco da manhã até a hora de dormir, sintonizado nas rádios mais populares da época: Difusora Cristal de Quixeramobim, Tupinambá de Sobral, Uirapuru, Assunção e Dragão do Mar, de Fortaleza. Eram todas AM, com repertório eclético e comunicadores que ficaram na história da radiofonia cearense. Aurélio Brasil, Wilson Machado, Guajará Cialdini, Cid Carvalho, Narcélio Limaverde, José Lisboa e Jurandi Mitoso estavam entre os mais populares.
Eu me inspirava, principalmente, no Guajará Cialdini, forrozeiro da melhor cepa, que gostava de intercalar a programação com anedotas, chistes e poemas matutos como A estátua do Jorge, de Alberto Porfírio, Confissão de Caboclo, de Zé da Luz e Mulher super-teimosa, de Jota Amaro. Além desses, eu sabia de cor A chegada de Lampião no Inferno, As proezas de João Grilo e outros cordéis que eu lera desde que me alfabetizara. Os deuses que regem o destino da humanidade prestam muita atenção no que faz uma criança, tanto é que me tornei radialista profissional (redator, produtor, comunicador e radioator) algum tempo depois. Tornei-me também publicitário, ilustrador, escritor, poeta popular e declamador, do jeitinho que havia sonhado quando criança. Mas até hoje, nenhum microfone me deu tanto prazer quanto a velha lata de sardinha da Difusora Dragão Mato de Ouro Preto.

Para concluir, apresento um cordel feito recentemente para o Instituto C&A, que me encomendou um texto sobre brincadeiras e folguedos de um menino sertanejo a fim de inserir numa de suas publicações. Lembrei-me, é claro, da minha infância lúdica e feliz na fazendola de meus avós:



MEUS BRINQUEDOS DE CRIANÇA
 Arievaldo Vianna Lima

— Vou falar das brincadeiras
Do meu tempo de criança
Porque não posso olvidar
Tanta bem-aventurança
Um tempo lúdico, encantado,
Que não me sai da lembrança.

Eu nasci e me criei
Nos sertões do Ceará
Lá em Quixeramobim
Pertinho de Quixadá
E meu primeiro brinquedo
Foi um tosco maracá.

Ouvi canções de ninar
Que a minha mãe cantava
Numa rede de varandas
A noite ela me botava
E solfejando cantigas
Com prazer me embalava.

Três monólitos gigantes
No final da cordilheira
Dominavam a paisagem
Nessa terra hospitaleira
Onde vivi com prazer
A minha infância primeira.

Nesse lugar encantado
Onde só reina alegria
No meio dos meus parentes
Como num sonho eu vivia
Lá, a própria natureza
Só respira poesia.

As aves cantam nos galhos
Trina a cigarra na mata
Os cristais resplandecentes
Parecem de ouro e prata
E o olho d'água da fonte
Jorra em suave cascata.

No sopé da cordilheira
Que se ergue abruptamente
O sabiá laranjeira
Canta sublime e plangente
O sol dardeja os seus raios
Tocando a alma da gente.

Preás se escondem nas locas
Com medo dos predadores
Inhambus arrulham nas matas
Atraindo os caçadores
Abelhas zumbem na relva
Sugando o néctar das flores.

No sopé dos três serrotes
Tudo é encanto e beleza
Seus habitantes convivem
Em paz com a natureza
E os monólitos ostentam
O seu porte de nobreza.

No ano sessenta e sete
Do outro século passado
Nasci naquele recanto
E fui por Deus inspirado
A beber daquela fonte
Perto do reino encantado.

Ao completar oito anos
Meu pai, um agricultor,
(Também um iniciado
Na arte de trovador),
Levou-me pra ver de perto
Aquele grande esplendor.

Todo esse imaginário
Ficou na minha lembrança
Jamais vivi nada igual
Ao longo de minha andança
Como as lindas brincadeiras
Dos meus tempos de criança.

A criança hiperativa
Era chamada “malina”...
Construindo meus brinquedos
Eu gastava adrenalina
Porque sou um sertanejo
Do tempo da lamparina.

Fui crescendo curioso
E muito observador
Lá eu vi bumba-meu-boi,
Sanfoneiro e tocador
De viola em desafio
Na gesta do trovador.

Raramente eu ganhava
Brinquedo industrializado
Meu pai era agricultor
E tinha um belo roçado
Juntei cabelos de milho
De pelo fino, alourado.

E mesmo sem conhecer
Lobato, o grande escritor
Com a palha e os sabugos
Eu também fui inventor
Construindo o meu 'Visconde'
Mas não era falador...

Quando era tempo de inverno
Eu saia com certeza
Procurando borboletas
E via tanta beleza
Que deitava sobre a relva
Em paz com a natureza.

Posso dizer que vivi
Felicidade notória...
Agora, o momento mágico,
Que não me sai da memória
Era quando a minha avó
Nos contava alguma estória.

Quando eu era pequenino
Nos alpendres do sertão
Que ouvia: “ Era uma vez...”
Ficava de prontidão:
Já sabia que as estórias
Jorravam em profusão.

Os meninos do sertão
Bebiam a nossa cultura;
Os mais velhos transmitiam,
Em prosa franca e segura
As estórias de Trancoso
Em oralidade pura.

Belos romances rimados
(Os folhetinhos de feira)
Eram lidos em voz alta
No alpendre e na bagaceira
Dos engenhos de açúcar
Para toda cabroeira.

O Fiscal e a Fateira
Os Cabras de Lampião
A Vida de Pedro Cem
Testamento de Cancão
O Crente e o Cachaceiro
Numa grande discussão.

Martírios de Genoveva
E a Donzela Teodora
São romances que o povo
Guarda, conserva e adora
E a criança inteligente
Lê, admira e decora...

Cancão de Fogo e João Grilo
Aderaldo e Zé Pretinho
Juvenal e o Dragão
Eu li tudo com carinho,
No alpendre, em voz alta,
Rodeado de vizinho.

Mas hoje em dia o sertão
Está se modificando,
De uns trinta anos pra cá
A cultura está mudando
Nosso povo regredindo
Pensa que está avançando.

As crianças de hoje em dia,
Depois da televisão,
Só gostam de vídeo-game,
Internet e “Malhação”,
São os sintomas maléficos
Da tal globalização.

No meu tempo de menino
O tempo corria lento,
A gente matava o tempo
Sorvendo cada momento...
A tudo que acontecia
Eu sempre ficava atento.

Brinquei de gado-de-osso,
De carrapeta e pião,
Em cavalinhos de pau
Corria pelo sertão...
Com prego, lata e madeira
Fazia o meu caminhão.

Um parque de diversão
Só raramente chegava
Nas festas do padroeiro
E pouco tempo ficava
Porém depois que partia
Muita saudade deixava.

Quando cheguei na cidade
Ainda estou bem lembrado
Na pracinha principal
Chegou um circo afamado
Eu passei o dia inteiro
Vendo o circo ser montado.

Acompanhar o palhaço
E cantar o seu refrão
Nos garantia um ingresso
Para a grande diversão...
São coisas que eu não vejo
Hoje em dia, no sertão.

Mas, de toda diversão,
Do meu tempo de criança
O contador de estórias
Jamais me sai da lembrança
Essa figura encantada
Renova a minha esperança.

Eu tenho muita saudade
Dos saberes e cantares
Vovô sabia narrar
Muitas lendas populares
Tinha o urubu e o sapo
Numa festa, pelos ares.

Tinha o macaco e a onça
A raposa e o “cancão”
Dois gênios da esperteza
Como reza a tradição;
No fim da fábula, a moral,
Trazendo alguma lição.

Por tudo quanto vivi
Me tornei um menestrel
Penso rimas, traço trovas
Em pedaços de papel
Eis o que me transformou
Num poeta de cordel.

Nessa teia do passado
Foi bom desatar os nós,
Reviver em poesia
Usando a pena e a voz,
Sem retirar da lembrança
A casa dos meus avós.

FIM 


As vagens do PEREIRO eram selas de montaria, na nossa imaginação infantil.
(Foto Carlos Flaubert Patrício de Almeida)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

ANIVERSÁRIO DO MESTRE



Ilustração: Jô Oliveira

16 de junho é uma data especial. É o aniversário de nascimento do grande ARIANO SUASSUNA. Ariano Vilar Suassuna nasceu na cidade de Nossa Senhora das Neves na Paraíba, atual João Pessoa, no dia 16 de junho de 1927, filho de Rita de Cássia Vilar Suassuna e JoãoSuassuna. ... Para curar-se de doença pulmonar, viu-se obrigado a mudar-se de novo para Taperoá, na Paraíba.




A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU

Por Klévisson Viana e Bule-Bule

Nos palcos do firmamento
Jesus concebeu um plano
De montar um espetáculo
Para Deus Pai Soberano
E, ao lembrar de um dramaturgo,
Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite,
Mas Ariano não leu.
Estava noutro idioma,
Ele num canto esqueceu,
Nem sequer observou
Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou
Uma segunda missiva.
A secretária do artista
Logo a dita carta arquiva,
Dizendo: — Viagem longa
A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta
Disse torcendo o bigode:
— Eu vejo que Suassuna
É teimoso igual a um bode.
Não pode, mas ele pensa
Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma,
Apelou pra outro suporte.
Para cumprir a missão,
Autorizou Dona Morte:
— Vá buscar o escritor,
Mas vê se não erra o corte!



A morte veio ao País
Como turista estrangeiro,
Achando que o Brasil
Era só Rio de Janeiro.
No rastro de Suassuna,
Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo,
Sofreu um constrangimento
Passando em Copacabana,
Um malfazejo elemento
Assaltou ela levando
Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo
E murmurou dessa vez:
— Pra não perder a viagem
Vou vender meu picinez
Para comprar outra foice
Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove
A dita foice comprou.
Passando a mão pelo aço,
Viu que ela enferrujou
E disse: — Vai essa mesma,
Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando,
Sem direção e sem tino,
Perguntando a um e a outro
Pelo escritor nordestino,
Obteve informação,
Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo,
Viu naufragar o seu plano,
Se lembrando da imagem
Disse: — Aqui há um engano.
Perguntou para João
Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo,
Quase ficando maluco,
Tomou um susto arretado,
Quando ali tocou um cuco,
Mas, gaguejando, falou:
—Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se
Dinheiro não tenho mais
Para viajar tão longe,
Mas Ariano é sagaz.
Escapou mais uma vez,
Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu
Com o escritor baiano,
Cristo lhe deu uma bronca:
— Já foi baldado o meu plano.
Pedi um da Paraíba
E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso,
Porém não escreve tudo.
“Viva o Povo Brasileiro”
É sua obra de estudo,
Mas quero peça de humor,
Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos
Pra ressuscitar João,
Mas achou desnecessário,
Pois já era ocasião
Pra ele vir prestar contas
Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte
E disse assim: — Serafina,
Vejo não és mais a mesma.
Tu já foste mais malina,
Tá com pena ou tá com medo,
Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar
Que preciso de dinheiro.
Ariano mora bem
No Nordeste brasileiro.
Disse o Cristo: —Tenho pressa,
Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor.
Pra outro, juro não ia.
Ele que se conformasse
Com o escritor da Bahia.
Se dependesse de mim,
Ariano não morria.

A morte na internet
Comprou passagem barata.
Quase morria de susto
Naquela viagem ingrata.
De vez em quando dizia:
— Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe
Duas barras de cereais.
Diz ela: — Estou de regime.
Por favor, não traga mais,
Porque se vier eu como,
Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife,
Ficou ela de plantão
Na porta de Ariano
Com sua foice na mão,
Resmungando: — Qualquer hora
Ele cai no alçapão!

A morte colonizada,
Pensando em lhe agradar,
Uma faixa com uma frase
Ela mandou preparar,
Dizendo: “Welcome Ariano”,
Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano
Ficou muito revoltado.
Começou a passar mal,
Pediu pra ser internado
E a morte foi lhe seguindo
Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano
Morreu de raiva ou de medo.
Que era contra estrangeirismos,
Isso nunca foi segredo.
Certo é que a morte o matou
Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano,
Tava a porta escancarada.
São Pedro quando o avistou
Resmungando na calçada,
Correu logo pra o portão,
Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado
Foi chamar o Soberano,
Dizendo: - O Senhor agora
Vai concretizar seu plano.
São Pedro mandou dizer
Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado,
Apertando o nó da manta
E disse assim: — Vou lembrar
Dessa data como santa
Que a arte de Ariano
Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão
Recebeu bem Ariano,
Que chegou meio areado,
Meio confuso e sem plano.
Ao perceber que morreu,
Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha
Chegou Ascenso Ferreira,
O grande Câmara Cascudo,
Zé Pacheco e Zé Limeira.
João Firmino Cabral
Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo
(Que foi pra lá por engano)
Veio de braços abertos
Para abraçar Ariano.
E esse falou: - Ubaldo,
Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado
E o ator Paulo Goulart.
Veio também Chico Anysio
Que começou a contar
Uma anedota engraçada
Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo,
Com seu rosto bronzeado.
Veio de braços abertos,
Suassuna emocionado
Disse assim: — Esse é o Mestre,
O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida,
Sonhou em ser imortal,
Entrou para Academia,
Mas percebeu, afinal,
Que imortal é a vida
No plano celestial.

Jesus explicou seus planos
De fazer uma companhia
De teatro e ele era
O escritor que queria
Para escrever suas peças,
Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde:
— Senhor, eu me sinto honrado,
Porém escrever uma obra
É serviço demorado.
Às vezes gasto dez anos
Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou
E disse: — Fique à vontade.
Tempo aqui não é problema,
Estamos na eternidade
E você pode criar
Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino
Com chapeuzinho banzeiro,
Com um singelo instrumento,
Tocou um coco ligeiro
Falando da Paraíba:
Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga,
Lindu do Trio Nordestino,
E apontou Dominguinhos
Junto a José Clementino
E o grande Humberto Teixeira,
Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês
Com Abdias de lado
E Waldick Soriano,
Com um vozeirão impostado,
Cantou “Torturas de Amor”,
Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero
Com Catulo da Paixão,
Suassuna enxugou
As lágrimas de emoção
E Catulo, com seu pinho,
Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros
Junto a Leonardo Mota,
Chegou Juvenal Galeno,
Otacílio Patriota.
Até Rui Barbosa veio
Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado,
Tocada de emoção,
Juntinho de Ariano,
Veio e beijou sua mão
E disse: — Na sua peça
Quero participação.

Ariano dedicou-se
Àquele projeto novo.
Ao concluir sua peça,
Jesus deu o seu aprovo
E a peça foi encenada
Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano
Só participa alma pura.
Ariano virou santo,
Corrigiu sua postura.
Lá no Céu ganhou o título
Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele
Já nutriam grande encanto
Agora estando em apuros,
Residindo em qualquer canto,
Lembra de Santo Ariano
E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote
Que lutou de alma pura.
Contra a arte descartável
Vestiu a sua armadura
Em qualquer dia do ano
Eu digo: viva Ariano

Padroeiro da Cultura!

terça-feira, 13 de junho de 2017

REVISTAS E RECORTES


MINHA COLABORAÇÃO NA 
REVISTA NORDESTE VINTEUM

Tempos atrás, acho que em 2011, fui convidado pelo escritor Barros Alves e pelo jornalista Francisco Bezerra a começar uma colaboração voluntária na excelente revista NORDESTE VINTE UM. Comecei com uma série de artigos sobre o Centenário de Luiz Gonzaga - o Rei do Baião (12 ao todo) de janeiro a dezembro de 2012. Fiz também algumas capas bem legais, como a que trata do centenário de Maria Bonita, a rainha do Cangaço, ocorrido em 8 de março de 2011.
Nessa edição sobre Maria Bonita, consta o meu perfil biográfico traçado pelo Barros Alves:


Outra capa que adorei ter feito foi a do Padre Cícero Romão Batista, em xilogravura:



quarta-feira, 7 de junho de 2017

NA CACIMBA DOS SABERES


MISSA DO VAQUEIRO EM CARIDADE, PREPARAÇÃO DE PAMONHA E MELADINHA DO VELHO JEITO SERTANEJO E ESCALADA AO TOPO DO SERROTE DOS TRÊS IRMÃOS


Texto: Arievaldo Vianna
Fotos: Autemar

Considero-me um escritor sintonizado com a nova realidade do mercado editorial, com as modernas técnicas de impressão e divulgação virtual dos textos (e-book, internet), com os eventos literários que acontecem Brasil afora, mas não quero esquecer o caminho da cacimba dos saberes, da fonte inesgotável, do manancial sagrado que sempre alimentou a minha imaginação, que em algum de meus folhetos aparece com o nome de “Fonte das Coronhas”, um lugar real, situado no sopé do serrote dos Três Irmãos, na divisa dos municípios de Canindé, Quixeramobim e Quixadá. Foi ali que eu nasci e era ali, naquela fonte, que meu pai colhia água potável e a conduzia no lombo de dois jumentos, cantando folhetos de cordel em voz alta, para encurtar o nosso caminho.

No último final de semana resolvi saciar minha sede nas velhas cacimbas de saberes sertanejos. Primeiro fui à tradicional Missa do Vaqueiro, no município de Caridade-CE, na abertura dos festejos de Santo Antônio, padroeiro do município. Para ali me desloquei na companhia dos poetas Geraldo Amâncio e Zé Vicente, que abrilhantaram a celebração do Padre Tula, cantando um mote inspirado no Evangelho: "Simão Pedro, tu me amas? / Apascenta o meu rebanho", pelo que foram largamente aplaudidos.



Tradicional Missa do Vaqueiro, em Caridade-CE

No sábado desloquei-me para a comunidade de Sabonete-Macaóca, município de Madalena, onde me empenhei na mistura de uma gostosa "meladinha", bebida feita a base de cachaça, limão e mel de abelha, muito popular na região. Em outros lugares leva o nome de "cachimbo". A mistura tem que ser feita na medida exata. Meio copo de cachaça, duas colheres de mel e uma banda de limão. Depois de mexer e deixar descansar por alguns minutos, torna-se um néctar tão apreciado quanto a "ambrosia" dos deuses do Olimpo. Não pode é se exceder, porque além de gostosa, a bebida pega ligeiro e bota o cabra para dormir mais cedo. Nesse ínterim, recebi a visita do primo Francisco Vianna, o popular Chico Pipa, que me trouxe algumas espigas de milho verde, nata e um saco de frutos de cajá. Com a sua habilidade de sertanejo curioso, foi quem nos ensinou a fazer a casaca das pamonhas usando as palhas do próprio milho, do jeitinho que minha avó e minha mãe faziam. Ele sabe dois modelos então aproveitamos a diferença para produzir pamonhas doces e salgadas, temperadas com nata, queijo de coalho e algumas pitadas de sal ou açúcar, conforme o gosto de cada um.



Esticamos a prosa e a baladeira tarde afora, ouvindo algumas cantigas juninas de Luiz Gonzaga e quando me dei conta já havia passado da bitola, bebendo além da conta. Nem me lembrava do compromisso assumido com o mano Autemar e os primos Erasmo e Renê Sousa, para escalar a serra dos Três Irmãos, um sonho remoto acalentado desde a infância. Prejudicado pela ressaca, tive de suar um bocado na subida da montanha, mas com paciência e perseverança chegamos ao topo, de onde vislumbramos uma das mais belas paisagens que o sertão cearense pode oferecer.





EXPEDIÇÃO OURO PRETO | TRÊS IRMÃOS

Três monólitos de pedra
De assombrosa semelhança
Ocultaram os três castelos
Dos quais só resta a lembrança
No verso dos trovadores
Do reino da Esperança.

(O Marco Cibernético do Reino dos Três Monólitos)

Desde criança eu tinha o desejo de acompanhar um grupo de pessoas que escalava a serra dos Três Irmãos, situada ao nascente da fazenda Ouro Preto, porém nunca obtive autorização dos meus familiares. Nessa época, meu pai ia sempre ao sopé do primeiro serrote, buscar água no açude dos Calixtos ou na Fonte das Coronhas, um olho d'água perene, de rara beleza, que também fica nas imediações.

O vento soprava uma bela sinfonia nas palhas das carnaubeiras, mangueiras frondosas davam uma boa sombra e coqueiros espigados balançavam sua copa ao sabor do vento, nas imediações do açude onde íamos sempre em busca do precioso líquido. Eu aproveitava essas ocasiões para tomar banho, embora não soubesse nadar. Desde menino eu sempre fui astucioso como o Cancão de Fogo e afoito como Oliveiros, um dos Doze Pares de França, heróis de folhetos que meu pai cantava em voz alta pelas estradas sertanejas. Algumas vezes eu conseguia burlar o olhar sempre atento e vigilante de meu pai. Mas de pouco adiantava... Ele nos proibia o banho no açude, caso não estivesse presente. Subir a velha trilha, nem pensar. Nos períodos de estiagem dava para observar bem os vestígios de uma velha vereda. Mas papai não desgrudava o olho e até ameaçava de nos dar umas chineladas - em mim e no mano Itamar, meu companheiro predileto de travessuras, caso teimássemos em desobedecê-lo.


Somente agora, prestes a completar 50 anos de idade, é que pude realizar esse velho desejo da infância. Acabo de chegar de uma expedição aos confins do sertão onde fui nascido e criado. Esse pedaço de chão fica na divisa dos municípios de Madalena, Canindé e Choró Limão. Antigamente, Madalena pertencia a Quixeramobim e Choró desmembrou-se do território de Quixadá.  Escalamos o primeiro serrote do conglomerado chamado Três Irmãos, cuja altitude ultrapassa 550 metros. É uma tradição antiga fazer essa trilha e, dentre outras coisas, celebrar um terço no dia de Pentecoste. A data foi escolhida pelo saudoso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel.

Na verdade, a tradição vem desde a década de 1950, quando a família Calixto Cavalcante e alguns vizinhos resolveram erguer um cruzeiro no topo da primeira montanha, a que fica do lado do poente. Um dos responsáveis por essa empreitada foi Raimundo Calixto, que depois se tornaria frade franciscano. Após ingressar na Ordem, adotou o nome de Frei Paulo e foi viver no Pará, como missionário de uma tribo indígena. Diz a tradição local que ele próprio se encarregou de transportar os tijolos até o local onde foi erguido o cruzeiro, que é de difícil acesso, com lances bem íngremes, difíceis de escalar com as mãos ocupadas.


Casa do Ouro Preto, construída por meus avós paternos
Manoel Barbosa Lima e Alzira Sousa.


Às vezes eu não entendo como é que a pessoa nascida e criada num paraíso como esse resolve se mudar para a cidade grande, com o intuito de arranjar emprego e educar os filhos. Nessa terra em que doutores se formam com o intuito de dominar e explorar o semelhante e políticos se ocupam em sabotar e subtrair as riquezas da nação, eu preferia viver nessas locas de pedras, tal e qual um preá ou um mocó, sem rádio e sem notícias de terras civilizadas. O problema é que nessa mesmíssima década de 1950, quando foi erguido o tal cruzeiro, o governo brasileiro permitiu um teste nuclear nessa cordilheira, segundo afirma o Padre Richard Cornwall, em seu livro AMARGOR, ao qual nos reportamos em SERTÃO EM DESENCANTO - I VOLUME DE MEMÓRIAS. Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!

O sacerdote encarregado de benzer o cruzeiro foi o então vigário de Choró-Limão, Padre José Bezerra do Vale, natural de Boa Viagem, que assumira essa paróquia em 1952, segundo informa o historiador Eliel Rafael da Silva Junior, do blog História de Boa Viagem.* Segundo testemunhas, o Padre Zé Bezerra escalou o serrote montado num jumento. Uma pessoa que também subira levando uma quartinha d'água para o sacerdote saciar a sede e aspergir água sobre o cruzeiro acabou quebrando acidentalmente a dita moringa, sendo obrigado a descer em busca de outra vasilha com água.

Tempos depois, uma pessoa da família Calixto (Irmã Tereza) que fora para o Rio Grande do Norte com o intuito de ordenar-se freira, converteu-se ao protestantismo e retornou aos Três Irmãos com o firme propósito de destruir o cruzeiro, o que fez, segundo dizem, com a ajuda de um irmão. Para tanto utilizaram foice, machado e até querosene, para transformá-lo em cinzas. Estivemos ontem no local e ainda encontramos tijolos espalhados e pedaços do velho cruzeiro destruído.

Alguns membros da caravana que escalou a velha trilha no dia de ontem (04 de junho de 2017) mostraram-se interessados na restauração do cruzeiro, o que talvez ocorra no ano que vem.

* Sobre o Padre José Bezerra, ver: http://www.historiadeboaviagem.com.br/pe-jose-bezerra-do-vale-filho/


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quarta-feira, 10 de maio de 2017

ANIVERSÁRIO DE LEOTA


HÁ 126 ANOS NASCIA LEONARDO MOTA

Leonardo Mota (Leonardo Ferreira da Mota), jornalista e folclorista, nasceu em Pedra Branca CE, em 10/5/1891, e faleceu em Fortaleza CE, em 2/1/1948. Formou-se pela Faculdade de Direito do Ceará, em 1916.
Colaborou na imprensa cearense e do Sul do país. Publicou alguns volumes com farto documentário sobre o sertão nordestino, principalmente com referência à literatura oral — poesia, anedotário e adagiário:
 Cantadores, Rio de Janeiro, 1921 (2ª. ed., Rio de Janeiro, 1953; 3ª. ed., Fortaleza, 1961); Violeiros do Norte, São Paulo, 1925 (2ª. ed., Rio de Janeiro, 1955; 3ª. ed., Fortaleza, 1962); Sertão Alegre, Belo Horizonte, 1928 (2ª. ed., Fortaleza, 1965; 3ª. ed., Rio de Janeiro, 1976); No tempo de Lampião, Rio de Janeiro, 1930; Prosa vadia (Palestras lítero-humorísticas), Fortaleza, 1932; A padaria espiritual, Fortaleza, 1939.



Leota na defesa 
do folclore nordestino

Nos cafés existentes na antiga Fortaleza, onde intelectuais e poetas se reuniam diariamente, uma figura se destacava nas conversas, nas histórias bem humoradas sobre o homem do sertão: Leonardo Mota. Com o poder incomum de declamação, atraia sempre a atenção geral, divulgando através de sua memória prodigiosa os mais belos versos do cancioneiro popular. No Café Riche, Maison Art Noveau e Bar do Majestic, palcos tradicionais da sociedade cearense da época, ele brilhava na poesia. Um autêntico boêmio que legou ao Brasil os maiores estudos sobre o folclore. Um escritor que alcançou, em vida, a fama, o sucesso.
Rachel de Queiroz, da Academia Brasileira de Letras, lembra que o livro de estréia de Leonardo Mota, "Cantadores", conseguiu ser naquele tempo um "best-seller": "Sucesso difícil para um gênero considerado árido - pois quem, senão eruditos, lê folcloristas? Mas Leonardo Mota - ou antes Leota, o seu pseudônimo predileto - era lido com avidez e entusiasmo não só pelos seus colegas especialistas, como também pelo público em geral, dada a apresentação deliciosa dos temas, a inteligência na escolha do Material posto nos livros, a par da fidelidade exemplar com que ele reproduzia o falar sertanejo em toda a sua pura autenticidade e riqueza".
A autora do romance "O Quinze" observa que tais estudos não calam nos exageros e ridículos do chamado "falar caipira", que é uma contrafação posta em voga pelo teatro de revista, com fins de comicidade fácil". Diz que a seriedade de seus trabalhos era de tal forma surpreendente que "os cantadores profissionais consideravam a inclusão de seus versos num dos livros de Leonardo, como a consagração suprema, e a disputavam com afinco".
- E olha que não se tratava - complementa Rachel - de "cantadores" dessa fauna pobre e poluída pelo rádio, que anda hoje por ai, era o tempo dos gigantes, dos mestres ainda não superados e até agora imitados, que deixaram marca indelével no cancioneiro nordestino.

Sânzio de Azevedo, professor de Literatura na Universidade Federal do Ceará, destaca a importância de Leonardo Mota: "Ele se aprofundou nas pesquisas sobre o folclore, sendo imenso o número de trovas, desafios e anedotas que colheu diretamente do povo, em longas viagens ao interior, o que lhe valeria a fama de um dos maiores folcloristas do Brasil em todos os tempos". Além de recolher trabalhos que eram dispersos pelo tempo, Leota se dedicava também à poesia. O soneto "Pedra" um exemplo:

- Pedra que eu amo, pedra confidente/
De todo o mal que o coração tortura,/
Tu, que tens a serena compostura/
De quem da vida a inquietação não sente,

Tu, que vives de todo indiferente/
Ao lodaçal desta charneca impura/
Que nós chamamos mundo, pedra escura/
Que eu te cobice a placidez consente!

Pudesse eu ter a calma soberana/
Que tens, em vez de agitação insana/
A sacudir meu peito de precito ... 

Faze-me, pedra à tua semelhança:/ 
- Dá-me o sossego, a plácida confiança,/
Faze desta alma um bloco de granito!.

Leota e Luiz Dantas Quezado

O escritor Florival Seraine, do Instituto Histórico do Ceará, afirma que nenhum pesquisador de folclore no Brasil pode prescindir de consulta à obra de Leonardo Mota: "Ele realizou trabalho de extrema importância para a preservação da cultura popular. Realmente é impossível o desenvolvimento de qualquer pesquisa sem antes verificar as contribuições de Leota sobre os estudos nordestinos". O poeta Cláudio Martins, Presidente da Academia Cearense de Letras, manifesta-se admirador de Leota:

- Foi o homem mais vocacionado de todos os que se dão ao luxo do trabalho intelectual no Pais. Leota desfez-se do seu cartório para fazer pesquisa no plano da literatura natural, popular. Mesmo sendo ótimo poeta, preferiu dedicar-se à divulgação dos mais importantes versos populares brasileiros. Revelou ao Brasil a grandeza existente na poesia nordestina. Se não fosse seu esforço, muito da cultura popular estaria hoje perdida.
Leonardo Ferreira da Mota nasceu em Pedra Branca, em 10 de maio de 1891, filho de Leonardo Ferreira da Mota e Maria Cristina da Silva Mota. Terminou os preparatórios no Liceu do Ceará (1909), depois de Ter estudado em escolas primarias de Quixadá, no Seminário de Fortaleza (1903) e no “Colégio São José” na Serra do Estevão (1904 a 1908). Bacharel pela Faculdade de Direito do Rio de janeiro, em 1916, foi redator de jornal "Correio do Ceará" e diretor da "Gazeta Oficial". Foi notário público, tendo vendido o cartório para, com o dinheiro, custear as suas excursões folclóricas. Conhecido pelo pseudônimo de "Leota" assinava crônicas na imprensa cearense sobre os mais variados assuntos. Em 1921, publicou um de seus mais importantes livros: ''Cantadores''.

Dedicado totalmente ao folclore, reuniu depois suas pesquisas nos volumes "Violeiros do Norte" (1925), "Sertão Alegre" (1928), "No Tempo de Lampião" (1930), "Prosa Vadia" (1932) e "A Padaria Espiritual" (1938). Pela relevância de sua obra, foi eleito para a Academia Cearense de Letras e Instituto do Ceará. Considerado o "príncipe dos folcloristas nacionais", faleceu em Fortaleza, em 2 de janeiro de 1948.
No dia da morte de Leonardo Mota, os originais do livro "Adagiário Brasileiro” sumiram misteriosamente. Até hoje não se sabe de seu paradeiro. Graças ao trabalho persistente de seus filhos Moacir e Orlando Mota, aquele documento foi reconstituído numa tarefa que levou quinze anos, através de manuscritos, rascunhos e recortes de jornais, Com seiscentas páginas, "Adagiário" reúne dez mil ditados, locuções, modismos, ditos e comparações matutas.
O escritor Moreira Campos compartilha da opinião geral de que Leonardo Mota é o nosso maior folclorista: "Sem dúvida que neste campo uma grande autoridade do Nordeste e do Brasil, do ponto de vista da interpretação dos fenômenos folclóricos, é a Câmara Cascudo. Mas ele não excedeu a Leonardo Mota no que este pode recolher em relação sobretudo ao Nordeste". E acrescenta:
- De resto, destaque-se a graça com que escrevia. A força com que sabia transmitir os fatos. E isto está não só nos seus livros, como nas conferências que pronunciou. Conferências aliciantes, pelo seu jeito de narrar, pelos efeitos que tirava de sua exposição. Ele esqueceu todos os bens materiais para perseguir seu objetivo que foi o folclore.
Otacílio Colares, no livro "Lembrados e esquecidos" (Vol. 11), traça o perfil de Leonardo Mota: "Ledor incansável, periodista de têmpera, "causeur" inimitável, possuidor de extraordinária memória e de uma "verve" somente igualável aos seus talentos expressionais, alcançou, no Brasil, ao tempo em que seu nome começou a projetar- se, fora do Ceará, como o de um dos mais dedicados soldados de pesquisa folclórica, à época, justamente, do fastígio da conferência artístico-literária. A época em que, no Sul, os escritores mais populares tinham na tribuna do conferencista (conferente, como se dizia, então) o veículo, maior de sua popularidade".
Em conferência proferida no antigo Clube Iracema, em Fortaleza, Leonardo Mota falou sobre sua paixão "pela observação e estado dos costumes, da linguagem e da poesia das nossas gentes do sertão". Interessado desde menino pelo assunto, foi seduzido pela "vaidade de ser no nosso País, uni arauto da inteligência do brasileiro nordestino". "Realmente, Leonardo Mota mostrava toda a revolta contra a marginalização imposta aos nordestinos, ao desrespeito por sua cultura e folclore. Em "Musa Matuta", um dos capítulos do livro "Violeiros do Norte", revela a postura assumida em sua peregrinação pelo Brasil:
- Fui intransigente na defesa do sertão esquecido, do sertão ridicularizado, do sertão caluniado e só lembrado quando dele se quer o imposto nos tempos de paz ou o soldado nos tempos de guerra. E foi, sobretudo, contra o labéu de cretinice do sertanejo nordestino que orientei a minha documentada contradita: em todo o meu "Cantadores" e nas conferências que proferi, de Norte e Sul, pus o melhor dos meus empenhos em fazer ressaltar a acuidade, a destreza de espírito, a vivacidade da desaproveitada inteligência sertaneja, de que os menestréis plebeus são a expressão bizarra e esquecida, apesar de digna de estudos.
Em todos as capitais que Leonardo Mota visitava, ouvia-se a sua voz contra o preconceito existente em relação ao sertanejo: "Todo me devotei a uma campanha de morigerado nacionalismo, refutando a velha injustiça de as populações litorâneas ou citadinas só exergarem no sertanejo ou o cangaceiro "de alma, de lama e de aço", a que se reporta Gustavo Barroso, ou o ser desfibrado e lerdo que "magina de cócoras" e tão inexoravelmente caricaturado por Monteiro Lobato. Protestei contra essa mania de autodesmoralização que tristemente nos singulariza".
Existe ainda outra característica de Leonardo Mota muito conhecida entre seus amigos: a da improvisão de versos espontâneos, elaborados de forma jocosa, humorística. Entre as dezenas de casos vividos pelo poeta, um dos mais conhecidos é sempre contado nas rodas boêmias. A história se originou quando, em viagem pelo interior, Leota recebeu um bilhete no hotel em que estava hospedado. O proprietário, de nome "Maleta", pedia que ele "quitasse" a divida de alguns dias de permanência. Em resposta, escreveu o seguinte bilhete:

- "Meu caro amigo Maleta, 
tenha pena do poeta.
Eu vejo a coisa tão preta
que não quero ser profeta. 
Posso lá dizer-lhe a data
em que eu terei a dita
de pagar-lhe esta maldita
conta que tanto me mata.

Eu não sou homem de fita
e por isso evito a rata
de dizer-lhe a data exata
em que esta conta se quita
Veja bem a minha luta.
A paciência se esgota.
Que vida filha da p ... 

Saudações, Leonardo Mota".


Fontes: Leonardo Ferreira da Mota - Vithor.cjb.net; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora - Publifolha - 2a. Edição - 1998 - São Paulo