terça-feira, 13 de junho de 2017

REVISTAS E RECORTES


MINHA COLABORAÇÃO NA 
REVISTA NORDESTE VINTEUM

Tempos atrás, acho que em 2011, fui convidado pelo escritor Barros Alves e pelo jornalista Francisco Bezerra a começar uma colaboração voluntária na excelente revista NORDESTE VINTE UM. Comecei com uma série de artigos sobre o Centenário de Luiz Gonzaga - o Rei do Baião (12 ao todo) de janeiro a dezembro de 2012. Fiz também algumas capas bem legais, como a que trata do centenário de Maria Bonita, a rainha do Cangaço, ocorrido em 8 de março de 2011.
Nessa edição sobre Maria Bonita, consta o meu perfil biográfico traçado pelo Barros Alves:


Outra capa que adorei ter feito foi a do Padre Cícero Romão Batista, em xilogravura:



quarta-feira, 7 de junho de 2017

NA CACIMBA DOS SABERES


MISSA DO VAQUEIRO EM CARIDADE, PREPARAÇÃO DE PAMONHA E MELADINHA DO VELHO JEITO SERTANEJO E ESCALADA AO TOPO DO SERROTE DOS TRÊS IRMÃOS


Texto: Arievaldo Vianna
Fotos: Autemar

Considero-me um escritor sintonizado com a nova realidade do mercado editorial, com as modernas técnicas de impressão e divulgação virtual dos textos (e-book, internet), com os eventos literários que acontecem Brasil afora, mas não quero esquecer o caminho da cacimba dos saberes, da fonte inesgotável, do manancial sagrado que sempre alimentou a minha imaginação, que em algum de meus folhetos aparece com o nome de “Fonte das Coronhas”, um lugar real, situado no sopé do serrote dos Três Irmãos, na divisa dos municípios de Canindé, Quixeramobim e Quixadá. Foi ali que eu nasci e era ali, naquela fonte, que meu pai colhia água potável e a conduzia no lombo de dois jumentos, cantando folhetos de cordel em voz alta, para encurtar o nosso caminho.

No último final de semana resolvi saciar minha sede nas velhas cacimbas de saberes sertanejos. Primeiro fui à tradicional Missa do Vaqueiro, no município de Caridade-CE, na abertura dos festejos de Santo Antônio, padroeiro do município. Para ali me desloquei na companhia dos poetas Geraldo Amâncio e Zé Vicente, que abrilhantaram a celebração do Padre Tula, cantando um mote inspirado no Evangelho: "Simão Pedro, tu me amas? / Apascenta o meu rebanho", pelo que foram largamente aplaudidos.



Tradicional Missa do Vaqueiro, em Caridade-CE

No sábado desloquei-me para a comunidade de Sabonete-Macaóca, município de Madalena, onde me empenhei na mistura de uma gostosa "meladinha", bebida feita a base de cachaça, limão e mel de abelha, muito popular na região. Em outros lugares leva o nome de "cachimbo". A mistura tem que ser feita na medida exata. Meio copo de cachaça, duas colheres de mel e uma banda de limão. Depois de mexer e deixar descansar por alguns minutos, torna-se um néctar tão apreciado quanto a "ambrosia" dos deuses do Olimpo. Não pode é se exceder, porque além de gostosa, a bebida pega ligeiro e bota o cabra para dormir mais cedo. Nesse ínterim, recebi a visita do primo Francisco Vianna, o popular Chico Pipa, que me trouxe algumas espigas de milho verde, nata e um saco de frutos de cajá. Com a sua habilidade de sertanejo curioso, foi quem nos ensinou a fazer a casaca das pamonhas usando as palhas do próprio milho, do jeitinho que minha avó e minha mãe faziam. Ele sabe dois modelos então aproveitamos a diferença para produzir pamonhas doces e salgadas, temperadas com nata, queijo de coalho e algumas pitadas de sal ou açúcar, conforme o gosto de cada um.



Esticamos a prosa e a baladeira tarde afora, ouvindo algumas cantigas juninas de Luiz Gonzaga e quando me dei conta já havia passado da bitola, bebendo além da conta. Nem me lembrava do compromisso assumido com o mano Autemar e os primos Erasmo e Renê Sousa, para escalar a serra dos Três Irmãos, um sonho remoto acalentado desde a infância. Prejudicado pela ressaca, tive de suar um bocado na subida da montanha, mas com paciência e perseverança chegamos ao topo, de onde vislumbramos uma das mais belas paisagens que o sertão cearense pode oferecer.





EXPEDIÇÃO OURO PRETO | TRÊS IRMÃOS

Três monólitos de pedra
De assombrosa semelhança
Ocultaram os três castelos
Dos quais só resta a lembrança
No verso dos trovadores
Do reino da Esperança.

(O Marco Cibernético do Reino dos Três Monólitos)

Desde criança eu tinha o desejo de acompanhar um grupo de pessoas que escalava a serra dos Três Irmãos, situada ao nascente da fazenda Ouro Preto, porém nunca obtive autorização dos meus familiares. Nessa época, meu pai ia sempre ao sopé do primeiro serrote, buscar água no açude dos Calixtos ou na Fonte das Coronhas, um olho d'água perene, de rara beleza, que também fica nas imediações.

O vento soprava uma bela sinfonia nas palhas das carnaubeiras, mangueiras frondosas davam uma boa sombra e coqueiros espigados balançavam sua copa ao sabor do vento, nas imediações do açude onde íamos sempre em busca do precioso líquido. Eu aproveitava essas ocasiões para tomar banho, embora não soubesse nadar. Desde menino eu sempre fui astucioso como o Cancão de Fogo e afoito como Oliveiros, um dos Doze Pares de França, heróis de folhetos que meu pai cantava em voz alta pelas estradas sertanejas. Algumas vezes eu conseguia burlar o olhar sempre atento e vigilante de meu pai. Mas de pouco adiantava... Ele nos proibia o banho no açude, caso não estivesse presente. Subir a velha trilha, nem pensar. Nos períodos de estiagem dava para observar bem os vestígios de uma velha vereda. Mas papai não desgrudava o olho e até ameaçava de nos dar umas chineladas - em mim e no mano Itamar, meu companheiro predileto de travessuras, caso teimássemos em desobedecê-lo.


Somente agora, prestes a completar 50 anos de idade, é que pude realizar esse velho desejo da infância. Acabo de chegar de uma expedição aos confins do sertão onde fui nascido e criado. Esse pedaço de chão fica na divisa dos municípios de Madalena, Canindé e Choró Limão. Antigamente, Madalena pertencia a Quixeramobim e Choró desmembrou-se do território de Quixadá.  Escalamos o primeiro serrote do conglomerado chamado Três Irmãos, cuja altitude ultrapassa 550 metros. É uma tradição antiga fazer essa trilha e, dentre outras coisas, celebrar um terço no dia de Pentecoste. A data foi escolhida pelo saudoso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel.

Na verdade, a tradição vem desde a década de 1950, quando a família Calixto Cavalcante e alguns vizinhos resolveram erguer um cruzeiro no topo da primeira montanha, a que fica do lado do poente. Um dos responsáveis por essa empreitada foi Raimundo Calixto, que depois se tornaria frade franciscano. Após ingressar na Ordem, adotou o nome de Frei Paulo e foi viver no Pará, como missionário de uma tribo indígena. Diz a tradição local que ele próprio se encarregou de transportar os tijolos até o local onde foi erguido o cruzeiro, que é de difícil acesso, com lances bem íngremes, difíceis de escalar com as mãos ocupadas.


Casa do Ouro Preto, construída por meus avós paternos
Manoel Barbosa Lima e Alzira Sousa.


Às vezes eu não entendo como é que a pessoa nascida e criada num paraíso como esse resolve se mudar para a cidade grande, com o intuito de arranjar emprego e educar os filhos. Nessa terra em que doutores se formam com o intuito de dominar e explorar o semelhante e políticos se ocupam em sabotar e subtrair as riquezas da nação, eu preferia viver nessas locas de pedras, tal e qual um preá ou um mocó, sem rádio e sem notícias de terras civilizadas. O problema é que nessa mesmíssima década de 1950, quando foi erguido o tal cruzeiro, o governo brasileiro permitiu um teste nuclear nessa cordilheira, segundo afirma o Padre Richard Cornwall, em seu livro AMARGOR, ao qual nos reportamos em SERTÃO EM DESENCANTO - I VOLUME DE MEMÓRIAS. Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!

O sacerdote encarregado de benzer o cruzeiro foi o então vigário de Choró-Limão, Padre José Bezerra do Vale, natural de Boa Viagem, que assumira essa paróquia em 1952, segundo informa o historiador Eliel Rafael da Silva Junior, do blog História de Boa Viagem.* Segundo testemunhas, o Padre Zé Bezerra escalou o serrote montado num jumento. Uma pessoa que também subira levando uma quartinha d'água para o sacerdote saciar a sede e aspergir água sobre o cruzeiro acabou quebrando acidentalmente a dita moringa, sendo obrigado a descer em busca de outra vasilha com água.

Tempos depois, uma pessoa da família Calixto (Irmã Tereza) que fora para o Rio Grande do Norte com o intuito de ordenar-se freira, converteu-se ao protestantismo e retornou aos Três Irmãos com o firme propósito de destruir o cruzeiro, o que fez, segundo dizem, com a ajuda de um irmão. Para tanto utilizaram foice, machado e até querosene, para transformá-lo em cinzas. Estivemos ontem no local e ainda encontramos tijolos espalhados e pedaços do velho cruzeiro destruído.

Alguns membros da caravana que escalou a velha trilha no dia de ontem (04 de junho de 2017) mostraram-se interessados na restauração do cruzeiro, o que talvez ocorra no ano que vem.

* Sobre o Padre José Bezerra, ver: http://www.historiadeboaviagem.com.br/pe-jose-bezerra-do-vale-filho/


FOTOS DA EXPEDIÇÃO - CLIQUE PARA AMPLIAR






quarta-feira, 10 de maio de 2017

ANIVERSÁRIO DE LEOTA


HÁ 126 ANOS NASCIA LEONARDO MOTA

Leonardo Mota (Leonardo Ferreira da Mota), jornalista e folclorista, nasceu em Pedra Branca CE, em 10/5/1891, e faleceu em Fortaleza CE, em 2/1/1948. Formou-se pela Faculdade de Direito do Ceará, em 1916.
Colaborou na imprensa cearense e do Sul do país. Publicou alguns volumes com farto documentário sobre o sertão nordestino, principalmente com referência à literatura oral — poesia, anedotário e adagiário:
 Cantadores, Rio de Janeiro, 1921 (2ª. ed., Rio de Janeiro, 1953; 3ª. ed., Fortaleza, 1961); Violeiros do Norte, São Paulo, 1925 (2ª. ed., Rio de Janeiro, 1955; 3ª. ed., Fortaleza, 1962); Sertão Alegre, Belo Horizonte, 1928 (2ª. ed., Fortaleza, 1965; 3ª. ed., Rio de Janeiro, 1976); No tempo de Lampião, Rio de Janeiro, 1930; Prosa vadia (Palestras lítero-humorísticas), Fortaleza, 1932; A padaria espiritual, Fortaleza, 1939.



Leota na defesa 
do folclore nordestino

Nos cafés existentes na antiga Fortaleza, onde intelectuais e poetas se reuniam diariamente, uma figura se destacava nas conversas, nas histórias bem humoradas sobre o homem do sertão: Leonardo Mota. Com o poder incomum de declamação, atraia sempre a atenção geral, divulgando através de sua memória prodigiosa os mais belos versos do cancioneiro popular. No Café Riche, Maison Art Noveau e Bar do Majestic, palcos tradicionais da sociedade cearense da época, ele brilhava na poesia. Um autêntico boêmio que legou ao Brasil os maiores estudos sobre o folclore. Um escritor que alcançou, em vida, a fama, o sucesso.
Rachel de Queiroz, da Academia Brasileira de Letras, lembra que o livro de estréia de Leonardo Mota, "Cantadores", conseguiu ser naquele tempo um "best-seller": "Sucesso difícil para um gênero considerado árido - pois quem, senão eruditos, lê folcloristas? Mas Leonardo Mota - ou antes Leota, o seu pseudônimo predileto - era lido com avidez e entusiasmo não só pelos seus colegas especialistas, como também pelo público em geral, dada a apresentação deliciosa dos temas, a inteligência na escolha do Material posto nos livros, a par da fidelidade exemplar com que ele reproduzia o falar sertanejo em toda a sua pura autenticidade e riqueza".
A autora do romance "O Quinze" observa que tais estudos não calam nos exageros e ridículos do chamado "falar caipira", que é uma contrafação posta em voga pelo teatro de revista, com fins de comicidade fácil". Diz que a seriedade de seus trabalhos era de tal forma surpreendente que "os cantadores profissionais consideravam a inclusão de seus versos num dos livros de Leonardo, como a consagração suprema, e a disputavam com afinco".
- E olha que não se tratava - complementa Rachel - de "cantadores" dessa fauna pobre e poluída pelo rádio, que anda hoje por ai, era o tempo dos gigantes, dos mestres ainda não superados e até agora imitados, que deixaram marca indelével no cancioneiro nordestino.

Sânzio de Azevedo, professor de Literatura na Universidade Federal do Ceará, destaca a importância de Leonardo Mota: "Ele se aprofundou nas pesquisas sobre o folclore, sendo imenso o número de trovas, desafios e anedotas que colheu diretamente do povo, em longas viagens ao interior, o que lhe valeria a fama de um dos maiores folcloristas do Brasil em todos os tempos". Além de recolher trabalhos que eram dispersos pelo tempo, Leota se dedicava também à poesia. O soneto "Pedra" um exemplo:

- Pedra que eu amo, pedra confidente/
De todo o mal que o coração tortura,/
Tu, que tens a serena compostura/
De quem da vida a inquietação não sente,

Tu, que vives de todo indiferente/
Ao lodaçal desta charneca impura/
Que nós chamamos mundo, pedra escura/
Que eu te cobice a placidez consente!

Pudesse eu ter a calma soberana/
Que tens, em vez de agitação insana/
A sacudir meu peito de precito ... 

Faze-me, pedra à tua semelhança:/ 
- Dá-me o sossego, a plácida confiança,/
Faze desta alma um bloco de granito!.

Leota e Luiz Dantas Quezado

O escritor Florival Seraine, do Instituto Histórico do Ceará, afirma que nenhum pesquisador de folclore no Brasil pode prescindir de consulta à obra de Leonardo Mota: "Ele realizou trabalho de extrema importância para a preservação da cultura popular. Realmente é impossível o desenvolvimento de qualquer pesquisa sem antes verificar as contribuições de Leota sobre os estudos nordestinos". O poeta Cláudio Martins, Presidente da Academia Cearense de Letras, manifesta-se admirador de Leota:

- Foi o homem mais vocacionado de todos os que se dão ao luxo do trabalho intelectual no Pais. Leota desfez-se do seu cartório para fazer pesquisa no plano da literatura natural, popular. Mesmo sendo ótimo poeta, preferiu dedicar-se à divulgação dos mais importantes versos populares brasileiros. Revelou ao Brasil a grandeza existente na poesia nordestina. Se não fosse seu esforço, muito da cultura popular estaria hoje perdida.
Leonardo Ferreira da Mota nasceu em Pedra Branca, em 10 de maio de 1891, filho de Leonardo Ferreira da Mota e Maria Cristina da Silva Mota. Terminou os preparatórios no Liceu do Ceará (1909), depois de Ter estudado em escolas primarias de Quixadá, no Seminário de Fortaleza (1903) e no “Colégio São José” na Serra do Estevão (1904 a 1908). Bacharel pela Faculdade de Direito do Rio de janeiro, em 1916, foi redator de jornal "Correio do Ceará" e diretor da "Gazeta Oficial". Foi notário público, tendo vendido o cartório para, com o dinheiro, custear as suas excursões folclóricas. Conhecido pelo pseudônimo de "Leota" assinava crônicas na imprensa cearense sobre os mais variados assuntos. Em 1921, publicou um de seus mais importantes livros: ''Cantadores''.

Dedicado totalmente ao folclore, reuniu depois suas pesquisas nos volumes "Violeiros do Norte" (1925), "Sertão Alegre" (1928), "No Tempo de Lampião" (1930), "Prosa Vadia" (1932) e "A Padaria Espiritual" (1938). Pela relevância de sua obra, foi eleito para a Academia Cearense de Letras e Instituto do Ceará. Considerado o "príncipe dos folcloristas nacionais", faleceu em Fortaleza, em 2 de janeiro de 1948.
No dia da morte de Leonardo Mota, os originais do livro "Adagiário Brasileiro” sumiram misteriosamente. Até hoje não se sabe de seu paradeiro. Graças ao trabalho persistente de seus filhos Moacir e Orlando Mota, aquele documento foi reconstituído numa tarefa que levou quinze anos, através de manuscritos, rascunhos e recortes de jornais, Com seiscentas páginas, "Adagiário" reúne dez mil ditados, locuções, modismos, ditos e comparações matutas.
O escritor Moreira Campos compartilha da opinião geral de que Leonardo Mota é o nosso maior folclorista: "Sem dúvida que neste campo uma grande autoridade do Nordeste e do Brasil, do ponto de vista da interpretação dos fenômenos folclóricos, é a Câmara Cascudo. Mas ele não excedeu a Leonardo Mota no que este pode recolher em relação sobretudo ao Nordeste". E acrescenta:
- De resto, destaque-se a graça com que escrevia. A força com que sabia transmitir os fatos. E isto está não só nos seus livros, como nas conferências que pronunciou. Conferências aliciantes, pelo seu jeito de narrar, pelos efeitos que tirava de sua exposição. Ele esqueceu todos os bens materiais para perseguir seu objetivo que foi o folclore.
Otacílio Colares, no livro "Lembrados e esquecidos" (Vol. 11), traça o perfil de Leonardo Mota: "Ledor incansável, periodista de têmpera, "causeur" inimitável, possuidor de extraordinária memória e de uma "verve" somente igualável aos seus talentos expressionais, alcançou, no Brasil, ao tempo em que seu nome começou a projetar- se, fora do Ceará, como o de um dos mais dedicados soldados de pesquisa folclórica, à época, justamente, do fastígio da conferência artístico-literária. A época em que, no Sul, os escritores mais populares tinham na tribuna do conferencista (conferente, como se dizia, então) o veículo, maior de sua popularidade".
Em conferência proferida no antigo Clube Iracema, em Fortaleza, Leonardo Mota falou sobre sua paixão "pela observação e estado dos costumes, da linguagem e da poesia das nossas gentes do sertão". Interessado desde menino pelo assunto, foi seduzido pela "vaidade de ser no nosso País, uni arauto da inteligência do brasileiro nordestino". "Realmente, Leonardo Mota mostrava toda a revolta contra a marginalização imposta aos nordestinos, ao desrespeito por sua cultura e folclore. Em "Musa Matuta", um dos capítulos do livro "Violeiros do Norte", revela a postura assumida em sua peregrinação pelo Brasil:
- Fui intransigente na defesa do sertão esquecido, do sertão ridicularizado, do sertão caluniado e só lembrado quando dele se quer o imposto nos tempos de paz ou o soldado nos tempos de guerra. E foi, sobretudo, contra o labéu de cretinice do sertanejo nordestino que orientei a minha documentada contradita: em todo o meu "Cantadores" e nas conferências que proferi, de Norte e Sul, pus o melhor dos meus empenhos em fazer ressaltar a acuidade, a destreza de espírito, a vivacidade da desaproveitada inteligência sertaneja, de que os menestréis plebeus são a expressão bizarra e esquecida, apesar de digna de estudos.
Em todos as capitais que Leonardo Mota visitava, ouvia-se a sua voz contra o preconceito existente em relação ao sertanejo: "Todo me devotei a uma campanha de morigerado nacionalismo, refutando a velha injustiça de as populações litorâneas ou citadinas só exergarem no sertanejo ou o cangaceiro "de alma, de lama e de aço", a que se reporta Gustavo Barroso, ou o ser desfibrado e lerdo que "magina de cócoras" e tão inexoravelmente caricaturado por Monteiro Lobato. Protestei contra essa mania de autodesmoralização que tristemente nos singulariza".
Existe ainda outra característica de Leonardo Mota muito conhecida entre seus amigos: a da improvisão de versos espontâneos, elaborados de forma jocosa, humorística. Entre as dezenas de casos vividos pelo poeta, um dos mais conhecidos é sempre contado nas rodas boêmias. A história se originou quando, em viagem pelo interior, Leota recebeu um bilhete no hotel em que estava hospedado. O proprietário, de nome "Maleta", pedia que ele "quitasse" a divida de alguns dias de permanência. Em resposta, escreveu o seguinte bilhete:

- "Meu caro amigo Maleta, 
tenha pena do poeta.
Eu vejo a coisa tão preta
que não quero ser profeta. 
Posso lá dizer-lhe a data
em que eu terei a dita
de pagar-lhe esta maldita
conta que tanto me mata.

Eu não sou homem de fita
e por isso evito a rata
de dizer-lhe a data exata
em que esta conta se quita
Veja bem a minha luta.
A paciência se esgota.
Que vida filha da p ... 

Saudações, Leonardo Mota".


Fontes: Leonardo Ferreira da Mota - Vithor.cjb.net; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora - Publifolha - 2a. Edição - 1998 - São Paulo

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Do blog MUNDO FANTASMO


DESCOBERTO UM PRECURSOR 
DO CORDEL NORDESTINO

Por: Bráulio Tavares

“Parem as máquinas!..” – gritaria o editor de um jornal, naqueles filmes policiais dos anos 1940. Parem de imprimir o jornal de amanhã, que já está quase pronto! Surgiu uma notícia tão sensacional que vale a pena jogar no lixo esse Corcovado de papel agora inútil, e começar tudo de novo. O furo de reportagem vale a despesa.

Os pesquisadores cearenses Arievaldo Vianna (cordelista, biógrafo de Leandro Gomes de Barros) e Stélio Torquato Lima (cordelista, professor de Literatura na Universidade Federal do Ceará) anunciam agora uma descoberta que vai fazer reescrever boa parte das histórias da literatura de cordel (ou Romanceiro Popular Nordestino, como gostava de chamar Ariano Suassuna).

Todos nós que estudamos o assunto consideramos que o primeiro a escrever e publicar folhetos de feira no Nordeste foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918), e que o teria feito a partir de meados da década de 1890.  Fala-se também no grande poeta Silvino Pirauá de Lima, mas ao que parece não há folhetos seus, impressos, que comprovem atividade editorial nesse período.

Agora, Arievaldo e Stelio trazem a figura de Santaninha, poeta popular, recitador, rabequeiro, nascido em Touros (RN), criado em Fortaleza, e que teve uma parte importante de sua carreira poética no Rio de Janeiro. A pesquisa está no recém-lançado Santaninha – Um Poeta Popular na Capital do Império (Fortaleza: Editora IMEPH, 2017).

Por ter publicado no Rio, e não no Nordeste, Santaninha foi sempre um nome obscuro. Os cronistas cariocas registravam sua atividade; os autores do livro citam numerosas menções a ele e aos seus versos na imprensa da época. Mas nenhum usa o termo “cordel”, nem parece atribuir maior importância ao “pequeno poeta”, como ele se auto-denominava.

Por outro lado, a maioria dos pesquisadores de cordel devem ter feito o que eu fiz, quando me meti a estudar o assunto: procurava menções nos jornais, catálogos e almanaques das grandes capitais nordestinas, e não do Rio. E assim Santaninha não foi alcançado pelo radar.

Santaninha (João Sant’Anna de Maria, 1827-?) parece ter sido um tipo muito carismático, que cantava acompanhando-se de uma rabeca (que chamava de “Paraibinha”, “Sombrinha” ou “Profetinha”) e vendia folhetos, tanto pessoalmente quanto em pontos de venda fixos, no centro da cidade.

Já no Rio de Janeiro, eis um anúncio típico de sua atividade (Gazeta de Notícias, 5 e 16 de junho de 1881):

[Os folhetos] acham-se à venda na estação da estrada de ferro D. P. II, no quiosque do Luiz de Camões, no largo de São Francisco de Paula, na praça da Harmonia n. 31, no ponto das barcas, num quiosque em Botafogo, no ponto dos bondes e na rua do Resende n. 107.

Os primeiros registros ao seu respeito estão em jornais de Fortaleza em 1873, quando ele é descrito como “bem conhecido e popular”. Nessa época, teria possivelmente cantado para José de Alencar, que estava em visita a sua terra pesquisando para o romance O Sertanejo.

De 1881 em diante ele já aparece na imprensa carioca, anunciando vendas de livretos e até de partituras.

O cantador e cordelista Crispiniano Neto observa em seu prefácio:

[Santaninha] não tinha com quem trocar idéias sobre a Poética desse tipo de poesia do povo, pois estava deslocado no centro efervescente que partia da Serra do Teixeira e invadia o Pajeú, os Cariris e as Borboremas, forjando uma Escola Literária, a mais produtiva e mais variada de todas.

Os autores reproduzem capa de um folheto de Santaninha, do acervo da Biblioteca Nacional, impresso pela Livraria Editora Quaresma, contendo o que são talvez os seus quatro poemas mais conhecidos, publicados originalmente entre 1879-1881:

1) “Guerra do Paraguai”
2) “Imposto do vintém”
3) “O célebre chapéu de sol”
4) “A Seca do Ceará”

Os quatro poemas vêm transcritos integralmente na segunda parte do livro de Arievaldo e Stelio. São poemas em sextilhas, com todas as características que viriam a aparecer 10 ou 12 anos depois nos folhetos de Leandro Gomes de Barros. Há erros ocasionais de ortografia, de rima ou de métrica (que encontramos também em Leandro).  Mas o perfil do Romanceiro está ali, inconfundível e inegável.

Não se tem notícia certa do ano da morte do poeta, mas os autores supõem que ele teria morrido antes de 1888-1889. Sabe-se que ele manifestou (na imprensa do Rio) a intenção de voltar a sua terra natal, e não se tem notícia de obra sua sobre dois fatos como a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, sobre os quais um “poeta repórter” como ele não teria deixado de se manifestar poeticamente.

Aqui, um anúncio típico dos que ele fazia publicar na imprensa. É do jornal Monitor Campista (Campos dos Goytacazes-RJ, 4-9-1881):

O pequeno poeta João Sant’Anna de Maria, que toca e canta excelente[sic] versos ao som de sua rabeca Sombrinha, faz tenção, no hoje 4 do corrente, [de] divertir [pela] segunda vez no Hotel da Coroa, por isso faz saber ao respeitável público desta cidade que o divertimento principiará às 4 horas da tarde, e cantará outras variedades. Espera, pois, a muito digna coadjuvação do muito hospitaleiro e ilustrado povo campista. Faz ciente mais que o divertimento será no jardim do mesmo Hotel: a entrada de cada pessoa será de 500 rs. Se não chover.

E algumas sextilhas de A Seca do Ceará, que fala da seca de 1877:

Chegam os pobres arrastados
com a fome com que vêm,
pedindo esmolas aos ricos,
muitos dizem que nada têm;
responde: “Eu estou de saída
para ir pedir também”.

Nsta seca em que nós estamos,
que traz os pobres arrastados,
não pedem só as viúvas,
nem cegos, nem aleijados;
pedem os homens sadios
robustos, moços e barbados.

Não pedem só os caboclos,
negros, pardos e mulatos;
também pede gente branca
que comia em finos pratos,
já hoje come nas cuias
bravas comidas dos matos.

A publicação é da Editora Imeph, de Fortaleza: www.imeph.com.br / imeph@imeph.com.br.

Santaninha foi aquilo que se costuma dizer agora “o ponto fora da curva”, um exemplo que se desvia notavelmente do comportamento mediano dos demais exemplos. Escrevia seus poemas, fazia imprimi-los e os vendia pessoalmente, cantando-os em público. Arievaldo Vianna e Stelio Torquato afirmam que lhe dão o nome de “Precursor e não de ‘Pai da Literatura de Cordel’, que julgamos ter sido merecidamente associado à figura do bardo de Pombal”.

De fato, Santaninha foi um agente isolado, embora, a partir de agora, nomes semelhantes ao seu possam surgir de novas pesquisas agora direcionadas para o ambiente de onde ele surgiu. O papel crucial de Leandro não foi apenas a escritura de folhetos (outros os escreveram antes dele), mas a ação constante e incansável que acabou deixando de ser apenas a iniciativa de um indivíduo, e sim um “processo de consagração da poesia popular como mercadoria rentável e altamente popular”.


Santaninha criou a própria obra, mas Leandro criou, com sua tenacidade e seu exemplo, gerações inteiras de – olha que ironia num país como o nosso – poetas que viveram da própria poesia.

FONTE: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2017/05/4231-descoberto-um-precursor-do-cordel.html

terça-feira, 11 de abril de 2017

CORDEL NA BIENAL DO LIVRO DO CEARÁ


HOJE 18/04, na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará: Mesa Redonda sobre o poeta JOÃO SANTANA DE MARIA e AMANHÃ, 19/04, lançamento do livro SANTANINHA - UM POETA POPULAR NA CAPITAL DO IMPÉRIO, de Arievaldo Vianna e Stélio Torquato Lima.
A obra retrata a incrível saga de um retirante da Seca de 1877 que fez sucesso como CORDELISTA em pleno Rio de Janeiro! Embora seja desconhecido pela maioria dos pesquisadores atuais, João Santana de Maria - O SANTANINHA é citado por Sílvio Romero, Mello Moraes Filho, Barão de Studart e José Calazans (dentre outros) como um dos precursores da Literatura de Cordel. É citado também por JOSÉ DE ALENCAR numa caderneta de anotações que utilizou para composição do romance O SERTANEJO e para o livro O NOSSO CANCIONEIRO!
A pesquisa de Arievaldo Vianna e Stélio Torquato abrange citações em livros do século XIX e primórdios do século XX, notas publicadas em dezenas de jornais e revistas do Ceará, Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro e narra a saga desse poeta potiguar, natural da Vila de Touros-RN, nascido em 1827, autor de, pelo menos, 10 folhetos de cordel publicados entre 1873 e 1883. Com muito esforço os autores obtiveram também o texto integral de quatro poemas de Santaninha, todos em sextilhas!



XII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO CEARÁ, de 14 a 23 de abril, no Centro de Eventos do Ceará. 
Estamos lá, mais uma vez, no 
ESPAÇO DO CORDEL E DO REPENTE!

Referência no calendário cultural nacional, a XII Bienal Internacional do Livro do Ceará é um grande espaço de encontros entre diversos públicos e grandes autores e convidados do Ceará, do Brasil e do mundo, promovendo a reinvenção da vida por meio da arte, do conhecimento, da palavra em seus múltiplos meios e possibilidades. Com o tema "Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca", esta nova edição da Bienal, com o renomado escritor Lira Neto assinando a coordenação da curadoria, da também integrada por Kelsen Bravos e Cleudene Aragão, é um momento de culminância da política estadual de livro, leitura, literatura e bibliotecas, de acordo com as diretrizes  de democratização do acesso à cultura e à arte, valorização da produção cearense e diálogo com o Brasil e o mundo. Sempre com grande participação popular.

PARA SABER TUDO SOBRE A BIENAL, CLIQUE AQUI: 

http://www.secult.ce.gov.br/index.php/latest-news/46106-xii-bienal-internacional-do-livro-do-ceara-anuncia-novos-convidados-e-detalha-programacao-e-espacos


Com o parceiro Stélio Torquato. Lançaremos este ano
a biografia do poeta SANTANINHA

quinta-feira, 30 de março de 2017

SANTANINHA, O PRECURSOR


Um poeta popular na Capital do Império

PESQUISA JOGA NOVAS LUZES SOBRE OS PRIMÓRDIOS DO CORDEL BRASILEIRO

Alguém já ouviu falar do Santaninha? Os pesquisadores Arievaldo Vianna e Stélio Torquato seguiram as pegadas desse poeta popular citado por Sílvio Romero, Mello Moraes Filho, Barão de Studart e José Calazans (dentre outros) como um dos precursores da Literatura de Cordel. A pesquisa abrange citações em livros do século XIX e primórdios do século XX, notas publicadas em dezenas de jornais e revistas do Ceará, Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro e narra a saga desse poeta potiguar, natural da Vila de Touros-RN, nascido em 1827, autor de, pelo menos, 10 folhetos de cordel publicados entre 1873 e 1883. Com muito esforço os autores obtiveram também o texto integral de quatro poemas de Santaninha, todos em sextilha!
Trata-se de uma biografia e alentado estudo sobre a obra de Santaninha, acompanhado de uma Antologia com os quatro poemas já mencionados, a saber: O Imposto do Vintém, A Guerra do Paraguai, A Seca do Ceará e o Célebre Chapéu de Sol.  O livro sairá em breve pela META EDITORIAL. Lançamento previsto para a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO CEARÁ.


Folhetos de trovas populares, publicados pela Livraria Quaresma

O OVO E A GALINHA: UM ESTUDO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA DE CORDEL

Quem surgiu primeiro? A grande polêmica entre alguns pesquisadores é saber quem publicou folhetos primeiro, se Leandro Gomes de Barros, considerado o ‘pai da Literatura de Cordel’, ou se tal primazia coube a Silvino Pirauá de Lima, ambos paraibanos. Contando em desfavor do segundo está o fato de não terem se conservado seus folhetos mais antigos, ao passo que boa parte da produção de Leandro está preservada no acervo da Casa de Rui Barbosa e na Biblioteca Átila de Almeida, em Campina Grande, com folhetos datados da primeira década do século XX. Antes desses pioneiros, entretanto, um bardo e também rabequista veio a publicar folhetos populares em sextilhas, através da Livraria do Povo, de Pedro Quaresma, no Rio de Janeiro, com formato muito aproximado do autêntico cordel nordestino, quase duas décadas antes de Leandro.
Trata-se do poeta João Sant’Anna de Maria, o Santaninha, autor do folheto O Imposto do Vintém, publicado em 1880. Antes desse cordel, já havia publicado um poema sobre a Guerra do Paraguai. Santaninha revendia seus folhetos no centro da então Capital do Império, cantando-os ao som da rabeca. Parte do conteúdo desses folhetos encontra-se registrada nos Anais do Museu Histórico Nacional. Também tivemos acesso a um folheto integralmente preservado, com quatro poemas de Santaninha, no acervo da Biblioteca Nacional, publicados entre 1879-1881.
Os cronistas daquela época e até mesmo alguns editores classificavam a produção de Santaninha e outros poetas populares como livretos de “modinhas” à falta de melhor definição, pois o termo Literatura de Cordel, trazido de Portugal, ainda não havia se popularizado no Brasil. Essa, aliás, era prática comum, como ratifica Vicente Sales, informando que a editora Guajarina, de Belém-PA, ao divulgar, por volta de 1920, um catálogo de 35 títulos de autores como Leandro Gomes de Barros, João Melchíades Ferreira e Firmino Teixeira do Amaral (entre outros), classifica os folhetos como “literatura sertaneja” ou “coleção de modinhas”. (SALLES, 1985, p. 152)
Sílvio Romero, contudo, já classifica a produção de Santaninha como Literatura de Cordel. Desde a primeira edição do livro Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil, publicada em 1879-1880, Silvio Romero já faz uma leve referência ao “pequeno poeta”:

A literatura ambulante e de cordel no Brasil é a mesma de Portugal. Os folhetos mais vulgares nos cordéis de nossos livreiros de rua são: A história da Donzela Theodora, A Imperatriz Porcina, A Formosa Magalona, O Naufrágio de João de Calais – a que juntam-se Carlos Magno e os Doze Pares de França, O testamento do Galo e da Galinha, e agora bem modernamente – as Poesias do Pequeno Poeta João Sant’Anna de Maria sobre a Guerra do Paraguay [ROMERO, 1977, p. 257]

Da biografia de Santaninha, muitos dados eram desconhecidos até recentemente, a começar pela data e lugar de seu nascimento. O que nunca foi questionado foi o fato que viveu no Ceará, onde acompanhou atentamente o desenrolar da Guerra do Paraguai (1864-1870), escrevendo um longo poema que era uma espécie de carro-chefe de suas apresentações, antes de se mudar definitivamente para o Rio de Janeiro. Sabe-se a data em que teria se fixado na Capital do Império: 1877, como informa o célebre Dicionário Biobibliográfico Cearense, do Barão de Studart, no qual se registram outros dados sobre o autor:

João Sant’Anna de Maria – É o celebre Santaninha, afamado improvisador e tocador de rabeca. Foi trabalhador de um sitio da família Sombra em Maranguape, onde era muito popular, e, tendo se retirado para o Rio em 1877, ali faleceu alguns anos depois, após ter granjeado larga fama como rabequista popular. Publicou: — Guerra do Paraguai. Imposto do vintém. O Célebre Chapéu de Sol. A Seca do Ceará, folheto de pp., Rio de Janeiro, Livraria do Povo, Quaresma & C.a, Rua de S. José, 65 e 67. Além dessas suas afamadas cantigas, há mais Outras Poesias, que vi citadas em um catálogo da antiga livraria de Serafim José Alves, Rio. (STUDART, 1910-1915, verbete “João Sant’Anna de Maria”).



A Revolta do Vintém, tema de um folheto de Santaninha

JUSTIÇA PARA SANTANINHA
(trecho do prefácio do livro, assinado pelo pesquisador Marco Haurélio)

Os esforços envidados pelos poetas e pesquisadores Arievaldo Vianna e Stelio Torquato Lima para trazer à baila a fascinante e fugidia personagem Santaninha, pseudônimo de João Santana de Maria, pioneiro da literatura de cordel brasileira, representam um salto qualitativo poucas vezes visto nos estudos da poesia popular. A certeza fulminante advinda da pesquisa, agora transformada em livro, é a de que a cronologia do cordel precisa ser urgentemente revista. Santaninha antecede, em pelo menos duas décadas, Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o paraibano genial que nos legou alguns dos maiores clássicos do gênero.
Por que, então, seu nome não consta ou é citado marginalmente por uma reduzida gama de pesquisadores? Por que não há qualquer referência a ele no Dicionário Biobibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, de Átila Almeida e José Alves Sobrinho?

Bem, são muitas as perguntas, e os autores deste livro respondem à maior parte delas com a desenvoltura de quem foi além das fontes primárias. À parte a conhecida e repisada citação de Sílvio Romero em seus Estudos da poesia popular, Arievaldo e Stelio recorreram a acervos, recortes de jornal e obras de referência há muito fora de circulação. Se Santaninha, a princípio, era uma personagem distante, quase evanescente, a pesquisa criteriosa, deu-lhe um rosto, esboçou traços de sua personalidade e reconstruiu sua trajetória de migrante que deixou o Ceará e se instalou no Rio de Janeiro, tornando-se, na capital federal, um cronista popular. Citei-o brevemente, reproduzindo, em nota, o verbete do Barão de Studart que também consta deste volume. Sabia de sua importância, mas não fazia ideia de como inseri-lo no universo da literatura de cordel, tal como se estabeleceu a partir do modelo legado principalmente por Leandro Gomes de Barros. Este livro faz isso muito bem e vai além. (...)


Página de rosto de um folheto de Santaninha, 
todo escrito em SEXTILHAS

* * *
SERVIÇO: Lançamento dia 18 de abril (terça-feira), na Praça do Cordel, a partir das 15 horas. Palestra com Stélio Torquato, Arievaldo Vianna, Gilmar de Carvalho e Crispiniano Neto.

Ver programação completa aqui: https://issuu.com/secultceara/docs/programacao_bienal2

terça-feira, 21 de março de 2017

SONETO


Pierre Mignard - Clio (Musa da História)

A HISTÓRIA, MÃE DA VERDADE

Desde os tempos de Mauá e de Delmiro
Que a suprema e vil sanha estrangeira
Prejudica a economia brasileira
E abate o nosso avanço com um tiro.

Eu conheço a História e não deliro,
Sobrenado nessa onda de besteira...
Sei filtrar as notícias na peneira
E não venham me dizer que eu conspiro!

Não me iludo com o discurso de um fascista,
E nem assumo a postura imbecil,
De quem vive acostumado a lamber chão.

Pois eu cá, não me curvo a entreguista!
Quem conhece a história do Brasil
Não aceita andar mais na contramão.

Arievaldo Vianna
21.03.2017


Irineu Evangelista de Sousa - O Visconde de Mauá


O pioneiro da indústria nordestina Delmiro Gouveia

SOBRE CLIO, A MUSA DA HISTÓRIA
Da união de Zeus e Mnemósine nasceram as nove musas, personificando as artes e ciências. Clio (ou Arauto) é a musa grega da História.
Clio junto com as irmãs, habita o monte Hélicon. As musas reúnem-se, sob a assistência de Apolo, junto à fonte Hipocrene, presidindo às artes e às ciências, com o dom de inspirar os governantes e restabelecer a paz entre os homens. Clio é a musa da história e da criatividade, aquela que divulga e celebra as realizações. Preside a eloquência, sendo a fiadora das relações políticas entre homens e nações. É representada como uma jovem coroada de louros, trazendo na mão direita uma trombeta e, na esquerda, um livro Intitulado "Thucydide" (Tucídides). Outras representações apresentam-na segurando um rolo de pergaminho e uma pena, atributos que, às vezes, também acompanham Calíope. Clio é considerada a inventora da guitarra. Em algumas de suas estátuas traz esse instrumento em uma das mãos e, na outra, um plectro (palheta). Um dos nove livros de Heródoto leva o nome de Clio em homenagem à deusa.
Metaforicamente, Clio simboliza que o conhecimento é fruto da leitura e do estudo e, nas lendas gregas, a musa é referida como aquela que legou o alfabeto aos homens.


FONTE: http://speglich.blogspot.com.br/2008/03/clio-musa-da-histria.html