domingo, 25 de dezembro de 2016

O dia em que não vi PAPAI NOEL


São Nicolau e o Krampus

O KRAMPUS SERTANEJO
(PAPAI NOEL ÀS AVESSAS)

Pelos idos de 1973 ou 74 deu-se um fato curioso: o dia em que não vi Papai Noel. Lembro-me de uma única vez em minha infância em que amanheceu um brinquedo debaixo da rede, na manhã de Natal. Disseram-me que era o Papai Noel que o havia deixado. Mesmo desconfiado, fingi acreditar naquela farsa. Tempos depois aconteceu um episódio que me fez perder inteiramente a crença no velhote.  Eu voltava da escola certo dia, quando nosso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel, me chamou muito animado e perguntou:

— Arievaldo, você já viu o Papai Noel?

— Vi não, Zé Miguel. Ano passado apareceu um brinquedo debaixo da minha rede e disseram ter sido o Papai Noel quem botou, mas eu desconfio que foi mesmo obra da vovó ou de alguma de minhas tias.

— Que nada, rapaz! Papai Noel existe! Está aqui em casa passando uns dias. Quer ver?


José Rodrigues de Sousa, o saudoso "Zé Miguel"

A Marta, minha prima, andava comigo e também ficou curiosa para ver o “bom velhinho”. O Chico Bastião, devidamente combinado com o Zé Miguel, começou a cantar velhas cantigas natalinas invocando o Papai Noel, enquanto o nosso ardiloso parente nos preparava uma surpresa. Entrou apressadamente para o quarto, vestiu uma velha roupa de estopa, botou uma máscara horrenda de papangu e apareceu no alpendre de supetão, trajando essa estranha indumentária e sapateando em nossa direção.
Nem é preciso dizer o que se seguiu. Arrancamos em desabalada carreira, botando o coração pela boca, com medo daquela aparição. Entretanto deu-me na veneta voltar discretamente por dentro do mato e verificar a coisa de perto, para contar de certo. Ora, não deu outra. Presenciamos o Zé Miguel às gargalhadas, juntamente com seu cúmplice, despindo a máscara e a estranha indumentária. Criei coragem e voltei para desmascará-lo, dizendo que já sabia de tudo, desde o começo.

— E por que foi que correram?

— Corremos para ver o Papai Noel achando graça!

Eu tinha resposta para tudo, nessas situações.




* * *

Sem o saber, o Zé Miguel encarnou o Krampus, o antinoel dos contos russos. Reza a lenda que o Krampus seria uma criatura mitológica que acompanhava São Nicolau durante a época do Natal. E essa crença difundiu-se em várias regiões do mundo.
A palavra Krampus vem de Krampen, palavra para "garra" do alto alemão antigo. Nos Alpes, Krampus é representado por uma criatura semelhante a um demônio. Enquanto o Pai Natal dá presentes para as crianças boas, o Krampus avisa e pune as crianças más. Tradicionalmente, rapazes se vestem de Krampus nas duas primeiras semanas de dezembro, particularmente no anoitecer de 5 de dezembro, e vagam pelas ruas assustando crianças com correntes e sinos enferrujados. Em algumas áreas rurais, a tradição também inclui surras aplicadas pelo Krampus.
As fantasias modernas de Krampus consistem em uma Larve (máscaras de madeira), pele de ovelha e chifres. A manufatura das máscaras artesanais demanda um esforço considerável, e vários jovens em comunidades rurais competem nos eventos do Krampus. O “Papai Noel” encarnado pelo primo Zé Miguel nada mais era que uma imitação desse personagem lendário, que aqui no Nordeste possui o nome de “Papa-figo” ou “Véi do Saco”.  
Foi bom perder a crença no Papai Noel porque, ao mesmo tempo, deixei também de acreditar nesse outro personagem que usavam para intimidar as crianças, o “Véi do Saco”.

* * *

 Com relação aos “caretas” ou “papangus” do Bumba-meu-boi, a primeira vez que vi uma representação desse tipo  foi no Iguaçu, distrito de Canindé-CE.
Os participantes do reisado não assumem a pecha de “papangus”. Eles dizem que papangus são os meninos da plateia. Os brincantes são os caretas.
A criançada empolgada com esse folguedo não falava noutra coisa. Os meninos do Antônio Tobias e outros garotos da localidade entenderam de fazer um reisado mirim.
 Tiramos vergônteas de mofumbo, para fazer a armação do boi, arranjamos um velho lençol de chita para cobri-lo e a cara do bicho foi pintada num grosso papelão. Faltava agora aprender as cantigas do boi. Foi quando alguém nos deu a ideia de visitar o velho José João (ou João José), que morava nos arredores. O bom ancião nos atendeu prontamente e repetiu dezenas de quadrinhas até que nós decoramos a maior parte e nos munimos de um estoque de glosas para a encenação do folguedo. Lembro-me perfeitamente dessas duas:

“Eu me chamo Chico Torto
Revesso, quebra-machado,
Cavo cacimba no seco
Depressa dá no molhado.

Só não quero que me mandem
Na rua, comprar fiado,
Que fiado me dá pena
E pena me dá cuidado.”


A apresentação do grupo foi no terreiro do Toinho Tobias, cunhado de minha tia Augediva. Apesar do amadorismo do grupo e dos inevitáveis improvisos, foi sucesso total. Retrato de um Sertão não tão distante, que foi tragado pelas mandíbulas da tal globalização.

Arievaldo Vianna (de O LIVRO DAS CRÔNICAS)
Todos os direitos reservados ao autor.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A FARSA DO PAPAI NOEL




Um velho ridículo, vestido de vermelho, montado num trenó puxado por renas voadoras usurpou a Festa Magna da Cristandade em nome do capitalismo selvagem. Os poetas GERALDO AMÂNCIO e OLIVEIRA DE PANELLAS, em mote inspiradíssimo, fizeram esse belo protesto:


SEM NOEL E SEM NATAL

"Criancinha do mocambo
Teu Papai Noel não vem
Pra te trazer um He-man
Ou um boneco do Rambo
Quando você, por um bambo
Vê um no comercial
Deseja pegar o tal
Porém teme aos seguranças
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal

Ou Papai Noel, por que
O senhor nunca visita
O guri da palafita
Que procura e não lhe vê
Ouvi tanto de você
'Tudo pelo social'
Chegou seu tempo, afinal
Restam amargas lembranças
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal

Criancinha magricela
Cadê teu Papai Noel
Esse homem de papel
Que entra pela janela?
Será que pela favela
Papai Noel passa mal
Por pensar que o marginal
Rouba as suas alianças?
Trinta milhões de crianças
Sem Noel e sem Natal"



O blog ACORDA CORDEL deseja a todos os seus seguidores um NATAL de LUZ e PAZ, com a presença de JESUS MENINO e sem velho farsante criado pela mídia.




terça-feira, 13 de dezembro de 2016

104 ANOS DO REI DO BAIÃO


Ilustrações: Arievaldo Vianna (Todos os Direitos Reservados)


TREZE DE DEZEMBRO
Música: Luiz Gonzaga / Zedantas
Letra: Gilberto Gil

Bem que essa noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando e ao longe
Ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava pra acontecer na região

Quando o galo cantou
Que o dia raiou
Eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro
E a treze de dezembro nasceu nosso rei

O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de Dom Sebastião
Como fruto do matrimônio do cometa Januário
Com a estrela Sant'Ana
Ao romper da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás

É desse treze de dezembro que eu me lembrarei

E sei que não esquecerei jamais.






domingo, 11 de dezembro de 2016

DO LIVRO DAS CRÔNICAS

TIO ZIZÓ E O PADRE CICERO

Há bem poucos dias meu tio José Oswaldo completou 79 anos de idade e continua lúcido e na ativa, apesar de ter quase perdido a visão. Tio Zizó, como o chamam a maioria dos sobrinhos, é baixinho, disposto e macho que só preá de balseiro. Vovô costumava dizer a respeito do seu primogênito:
Aquele é inteirado. É homem sobrando. O que tem de pequeno tem de disposto. É macho nos quatro aceiros!
E, realmente, quando criança, eu ficava impressionado quando via o meu tio saindo da capoeira, calçado num par de galochas, com um facão na cintura e um feixe de capim na cabeça que era o dobro do seu tamanho. Quando os filhos – 10 ao todo –, chegaram à idade escolar mudou-se com a prole para Canindé, onde montou um bar e depois uma mercearia.
Certa feita foi com a família ao Juazeiro do Norte e por lá adquiriu uma imagem do Padre Cícero, de mais um menos 50 centímetros de altura, com a batina e o chapéu de um preto vivo e brilhante, tendo de branco apenas o rosto e as mãos, e a colocou na prateleira mais alta de sua bodega.
Certa feita um crente chegou-se ao pé do balcão e começou a desfazer do sacerdote. Primeiramente se fez de ingênuo e perguntou:
Seu Zé, aquilo acolá, em riba da última prateleira, é uma garrafa de Coca-Cola?
Largue de ser besta! Você não está vendo que é um Padre Cícero? Respondeu o meu tio, já perdendo as estribeiras... O crente poderia ter se calado com essa, mas foi adiante. E balançando a cabeça, num ar de desalento acrescentou:
Padim Ciço! Sem futuro...
Titio pulou o balcão num piscar de olhos, sem triscar os pés, agarrou o evangélico pelas bitacas e gritou furioso:
Sem futuro o quê, seu corno. Sem futuro é a pobre de uma mãe que passa nove meses com uma fela-da-gaita como você na barriga! Vá passando, se não quiser levar uns tabefes agora mesmo!

    Nem é preciso dizer que o crente se escafedeu no ato e saiu vendendo azeite às canadas. Vai, bichão, falar mal do Padre Cícero perto de um devoto.

(De “O livro das Crônicas”)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

JESUS SERTANEJO




Ilustração: JÔ OLIVEIRA

É próprio do Nordestino
Carregar a sua cruz
Num cenário Palestino
Tal e qual o de Jesus
Ao Senhor pedir clemência,
E sofrer com paciência
Qual um jumento andaluz.

(Arievaldo Vianna)

Ilustração: Arievaldo Vianna


JESUS SERTANEJO
Luiz Gonzaga

Jesus, Meu Jesus sertanejo
Presença maior, minha crença
Nestas terras sem ninguém

Silêncio, Na serra, nos campos
Ai desencanto que a gente tem
E o vento que sopra, ressoa
Ai sequidão que traz desolação.

Ô ô Jesus razão
Tão sertanejo
Que entende até de precisão.

De sol vou sofrer ou morrer
E as pedras resplandem
A dureza, a pobreza desse chão
João, um menino, um destino
Ai nordestino, de arribação
Cenário de dor e de calvário
Ai muda a face desta provação.

Do céu há de vir solução
Na terra, a semente agoniza
Preconiza solidão
E a tarde que arde, acompanha
Ai tanta sanha de maldição
Aqui vou ficar, vou rezar
Ai vou amar a minha geração.

Ô ô Jesus razão
Tão sertanejo

Que entende até de precisão.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

MOTE DE MARCONDES TAVARES



Um fogão cheio de brasa
Cabaça no pé dum pote
Pato, peru e capote
Um galo riscando asa
Mãe no terreiro da casa
Jogando "mi" pra galinha
Fumaça bem "azusinha"
Saindo da chaminé
E pai coando o café
Na janela da cozinha.

(Marcondes Tavares Poesias)

Uma cadela parida
Lá debaixo do jirau
E um travesso pica-pau
Dando bicada aguerrida
A rede branca estendida
No centro da camarinha
A mãe cosendo uma linha
Na camisa do José
E o pai coando café
Na janela da cozinha.


(Arievaldo Vianna)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

UM MOTE PRA QUIXADÁ




Esses versos são uma parceria com o poeta Caririzeiro Pedro Nunes Filho, parente do famoso Leandro Gomes de Barros. Pedro encantou-se com as paisagens de Quixadá e teceu esse mote que eu completei na mesma pisada:



PEDRO NUNES FILHO:

Eita recorte bonito
Com terras de aluvião
Na distância um matacão
Desafia o infinito
Não se ouve nenhum grito
Ecoar no abandono
A paisagem dorme um sono
Que não tem noutro lugar
Nas terras do Quixadá
A beleza não tem dono.

O céu com nuvens escuras
Começa a derramar água
O sertanejo sem mágoa
Esquece suas amarguras
Olhando as primícias puras
Que recebe como abono
De Deus sentado no trono
Do Reino do Ceará
Nas terras de Quixadá
Beleza é coisa sem dono.

ARIEVALDO:

A galinha até parece
Que agasalha u’a ninhada
Protegendo a pintarada
Quando o céu se escurece
O mato reza uma prece
Ao Criador, no seu trono
Tudo desperta do sono
Se chove no Ceará...
Nas terras do Quixadá
A beleza não tem dono.

E o forte mandacaru
Candelabro sertanejo
Se sobressai, no ensejo
O pau branco, o mulungu
Paca, mocó, caitetu
No meu verso adiciono
Cada vez mais me apaixono
Pelo sabor do cajá
Nas terras do Quixadá
A beleza não tem dono.