quinta-feira, 27 de junho de 2013

NO TEMPO DA LAMPARINA

Foto: Antonio Carlos Alves
 
Hoje, 27 de junho, participei em Caucaia de um treinamento pedagógico dos monitores do projeto MOVA BRASIL, coordenado pelo Sindipetro-CE/Instituto Paulo Freire. Fiz um recital de poesia matuta, estrofes engraçadas recolhidas da cantoria e, claro, muita literatura de cordel. Uma das professoras presentes, Marineide (acho que é esse o seu nome) pediu-me para postar aqui no blog o poema "da Cunceição minha véia", cujo título ela não lembrava. Disse-lhe que o poema em questão é "NO TEMPO DA LAMPARINA", uma das melhores obras da lavra do mestre Alberto Porfírio. Eis o poema:

NO TEMPO DA LAMPARINA
Autor: Alberto Porfírio
 
A Cunceição minha véia
A fia do véio Joaquim
Ela nunca foi bonita,
Era a feiúra sem fim
Mas acho que só a mamãe
Era tão boa pra mim.
 
A Cunceição era dessas
Da boca cuma gamela
Cangote cuma de touro
E os quadri junto as custela.
 
Mas se eu vinha d’uma viagem
E pisava no terreiro
Na porta da nossa casa
Era o que via primêra
Ela vindo me abraçá
Cum seu amô verdadeiro
Inté lavava os meus pés
E dispois butava chêro.
 
Passemo assim muntos anos
Nós vivia munto bem.
Ela era munto feia!
Mas eu era feio tombem!
Fumo assim inté o capeta
Vim de lá cum suas paiêta
Pra mexê nosso xerém.
 
Um dia eu fui a uma festa
Na casa do Zé Romeu
Lá eu vi uma cabôca
Qui nunca mais me esqueceu...
Eu oiei pros  zóio dela
Ela oiou pros zóio meu
Minhas mão ficaro gelada
Meu corpo todo tremeu...
Quem nunca teve paixão
Diga que nunca sofreu!
 
Nhô moço, preste atenção,
Numa coisa qui eu dei fé
Pode um home ser valente
Cuma foi o Josué,
Num tem medo dôto hoje
Mas tem medo da muié!
Só dá dessas dezoiada
Adonde ela num tive.
 
Entonce num é preciso
Dizer o qui se deu mais,
Num sei qual o fuxiqueiro
Levado do Satanás
Que vai contá as muié
Tudo que os home faz.
Só sei que cheguei em casa
Meu rancho num tava em paz.
 
A muié, cuma uma doida,
Falando em meus procedê
Chorava, se lastimava,
Falava inté em morrê
Eu tombem, arripindido,
Sem tê nada qui fazê
Só pruquê num tinha jeito
Pra mode mim defendê.
 
Ela dizia: - Seu cabra!
Eu lhe trato munto bem
E ocê, lá pelas festas,
Faz da sua muié ninguém!...
 
Vou lhe dizer uma coisa:
Se ocê num prometê
Qui num faz mais u’a desta
Num vivo mais cum ocê
Vou pra casa dos meus pais
Nunca mais você me vê!
 
Eu iscuitava essas coisa
E ficava arrependido
Mas num podia disfazê
O que já tinha fazido!
 
Inté que eu dixe pra ela:
- Meu bem, vou lhe prometê
Haja festa adonde houve
Só vou se levá você
E se eu assim num cumpri
Pode aí tudo fazê
Pode inté me açoitá
Qui eu num tenho o que dizê.
 
Ela cum essas promessa
Se tornou mais consolada
Mas num falou mais cum eu
Sempre entusiarmada
Butava o almoço na mesa
E ia cumê separada
E de noite, foi drumi
Lá noutro quarto, apartada!
 
Agora, ói, meu senhô,
Cuma foi meu sofrimento,
Passava as noite acordado
Sem madorná um momento
Sintindo no coração
A dor do arrependimento.
 
Qui muié alpiniosa!
Me butou nas agonia
Se eu chegasse na cozinha
Ela pra sala saía
Se eu voltava pra sala
Ela ficá num queria
Eu, já quage sem juízo
Ia drumi, num podia,
Cuma qui dois intrigado
Passemo assim oito dia!
 
Agora, nhô moço, agora
Mim dê licença qui eu diga
O qui foi qui eu inventei
O que foi qui eu pratiquei
Mode acabar cum a intriga.

 Ilustração: Arievaldo/Klévisson Viana
 
Toda muié neste mundo
Tem medo de assombração
Sabe o quê qui eu me lembrei?
Foi de inventá uma visão.
 
Garrei logo a lamparina
E fui botá lá na cunzinha
Mermo no pé da parede
E amarrei cum u’a linha.
 
Eu cá de fora puxando
Ela vinha se arrastando
E cum a zuada qui fazia
A muié de lá ouvindo
Mermo estando drumindo
Ficá só num arresistia.
 
Foi mermo cuma eu pensei,
A lamparina rolava
Ela chamava por mim
Eu de cá me levantava
Agarrava a lamparina
E no mermo canto botava.
 
Assim, nas duas ou três vez
Ela cum medo, a tremê,
Já perguntava: - Neguim!
Eu vou drumi mais ocê?...
 
- Num sinhora! ...Num sinhora!
Eu de cá arrespondia,
Era dizendo num venha
Mas só eu mermo sabia...
Ela chorava cum medo
A lamparina tinia,
Eu dava tanto suspiro
Que inté sem querê gemia...
 
Quando o medo apertou mermo
Ela a intriga esqueceu
Vei pelo pé da parede
Sentou na beira da rede
E passou a noite mais eu!!!

 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Texto de LEONARDO MOTA

 
São donos cantadores da palavra
"Se vocês querem poesia de verdade, entrem no povo, passem uma noite por aí, por esses rincões, à beira do fogo, entre violeiros, ouvindo trovas de desafios. Chamem um cantador sertanejo, um desses caboclos distorcidos, de alpercatas e chapéu de couro, e peçam-lhe uma cantiga. Então, sim!" (palavras de Sílvio Romero no discurso de recepção de Osório Duque Estrada na Academia Brasileira de Letras).
 
Os "cantadores" são uma característica do Nordeste. Poetas populares, perambulam pelos sertões cantando seus próprios versos (ou de terceiros), acompanhando-se à viola ou à rabeca. Curioso é que encontram sempre auditório numeroso e interessado — desejoso de assistir aos famosos "desafios" em que cada um procura, pela sua inteligência, vivacidade e senso de improvisação, sobrepujar o adversário.
 
Sem dúvida é o "desafio" que consolida a reputação do cantador. Utilizando a sextilha, o poeta popular quase sempre é de ironia contundente. Como o improviso pode durar horas intermináveis, nesses casos o remédio para evitar a monotonia dos torneios é o cantador entoar seus versos em ritmo especial. Em verdade eles constituem autênticos comentaristas da nossa vida primitiva.
 
Em suas andanças pelo Nordeste, recolhendo material folclórico dos mais variados poetas populares, Leonardo Mota (1891-1948) conseguiu juntar um farto material que transformou em livros, numa admirada homenagem à sabedoria humilde e à filosofia toda pessoal dos cantadores. Sua dedicação era tanta que, certa feita, um repentista paraibano lhe disse depois de um acirrado torneio em que sobrepujara todos os adversários e do qual Leonardo Mota tomara apontamentos taquigráficos: "Bem se diz nesse mundo, sinhô doutô, que tem gente prá tudo e inda sobra. Ora, vossenhoria — um doutô! — pra quê avera de dá! Prá juntar as besteiras que a gente canta e andá fazendo discursos com elas".
 
Leonardo Mota, que foi um apaixonado pesquisador dos cantadores que produzem prosa sertaneja, estudou-os  em sua intimidade, em seu próprio ambiente, convivendo com eles de igual para igual. Nessas ocasiões ele não representava o advogado, o jornalista, o secretário do governador do estado. Era, antes de tudo, um amigo que tratava de viver em contato com aquela gente humilde, esquecido dos títulos e de sua condição social.
 
Foi Leonardo Mota quem, com a sua autoridade, no livro intitulado Cantadores, apontou os por ele considerados como os mais expressivos, naturais e completos improvisadores da poesia do sertão: Anselmo, Passarinho, Sinfrônio e Aderaldo. Os dois últimos eram cegos e tocadores de rabeca. Manejavam o instrumento como os menestréis medievais, ou seja, colocavam-no à altura do peito e não sob o queixo. Os dois primeiros eram violeiros, mas todos tinham muitas características em comum, inclusive uma memória extraodinária.
 
Anselmo, por exemplo, foi o mais famoso vate matuto da região do norte do Ceará e alegava jamais haver vivido do "ufiço", com o que queria dizer que não levava a vida nômade dos cantadores de profissão. Analfabeto, sempre fez versos influenciados pelos desafios e cantigas que ouvira em sua meninice, quando os poetas sertanejos de então passavam pelo lugar onde ele morava. Alguns dos seus versos característicos:

Tem duas coisa no mundo
Que eu nunca pude entendê;
É pade i pro inferno,
Outra é doutô morrê.

Avoa, meu caboré,
Penera, meu gavião,
Palmatora quebra dedo,
Palmatora faz vergão,
Quebra os ossos e quebra a carne
Mas não quebra opinião!...
..............

Preu cantá na sua casa,
Meu patrão, me dê licença!
Se a cantiga não fô boa,
Desculpe, vossa incelença
Que, às vez, as coisa não sai
Do jeito que a gente pensa.

Não tem outro cantadô
Pra me ajudá um tiquim.
O cantá de dois é bom,
O ruim é cantá sozim;
A gente, andando de dois
Encurta mais os camim...

Passarinho é outro da lista dos "grandes". Seu nome de guerra: Jacó Passarinho. Cearense de Mutamba, localidade perto de Aracati, sua maior glória era saber ler e escrever. Ágil repentista, memória terrível, tinha uma deficiência: não ser exímio tocador de viola. Mas isso ficava esquecido quando cantava versos assim:

De amor a gente não muda.
De ano em ano, mês em mês!
Amor é que nem bexiga:
Só dá na gente uma vez...
.............

Cantador que dá-se a preço
Não se areia nem faz troça:
Sujeito de bom calibre
Depois de velho remoça;
 Quem beija a boca de um filho
A boca de um pai adoça.

Nossa Senhora é mãe nossa,
Jesus Cristo é nosso pai
Na minha boca repente
É tanto que sobra e cai...
Quem beija a boca de um filho
Adoça a boca de um pai

Mostro a quem vem e a quem vai,
Mostro a todos da jornada:
Mais vale quem Deus ajuda
Do que quem faz madrugada.
Quem beija a boca de um filho
Deixa a de um pai adoçada.

Este mundo é uma charada...
Ai de mim, se Deus não fosse!
Repente em minha cabeça
Ainda não acabou-se:
Quem beija a boca de um filho
Deixa a boca de um pai doce.

Foi o inverno quem trouxe
Ao Ceará a fartura.
Eu, em casa de homem rico,
Gosto de fazer figura...
Quem beija a boca de um filho
Deixa a de um pai com doçura.

O cego Sinfrônio, natural de Jabuti, perto de Messejana, pode ser considerado como um dos cantadores mais espontâneos do Nordeste.
Cegou quando tinha apenas um ano de idade e, apesar disso, devido a sua extraordinária memória, tornou-se um verdadeiro cabedal de romances, cantigas e desafios. Sua mulher lia pacientemente os manuscritos e folhetos até que ele os conseguisse decorar. Sua maior qualidade: ser maravilhoso improvisador. Nômade por natureza, admirável profissional do canto. Sinfrônio foi o tipo do cantador reconhecidamente respeitado por todos os demais. Uma filosofia pessoal marcava toda a inspiração do cego Sinfrônio:

Anda já em quarenta ano
Que eu vivo somente disso...
Achando quem me proteja.
Eu sou bom nesse serviço:
Eu faço a vez de machado
Em tronco de pau mucisso...

Esta minha rabequinha
É meus pés e minhas mão,
Minha foice e meu machado,
É meu mio e meu feijão,
É minha planta de fumo,
Minha safra de algodão...
................
Eu andei de déu em déu
E desci de gaio em gaio...
Jota a Já, queira ou não queira,
Eu não gosto é de trabaio...
Por três coisa eu sou perdido
Muié, cavalo e baraio!

Aderaldo foi, sem dúvida, o cantador de melhor voz, entre os quatro mais famosos, e além disso possuía uma apreciável veia poética. Natural do Crato, no Ceará, cegou aos 18 anos, quando maquinista num desastre ferroviário que sofreu sua composição na Estrada de Ferro Baturité. Ao contrário de Sinfrônio, que não gosta de versos de amor, Aderaldo é um lírico. Em todos os seus "desafios" não deixa de lado o seu sentimentalismo:

Meu benzinho, diga, diga,
Por caridade confesse
Se você já encontrou
Quem tanto bem lhe quisesse.

Meu bem, que mudança é esta
Neste teu rosto adorado?
Acabou-se aquele agrado
Com que me fazia festa?

Eu juro que nunca quis
Ofender teu peito nobre!
Fala, meu anjo, descobre.
Diga, meu bem, que te fiz?

Todo passarinho canta
Quando vem rompendo a aurora;
Só a pobre mãe da lua
Quando canta — logo chora...
Assim eu faço também,
Quando meu bem vai se embora!
("São donos cantadores da palavra". Revista Esso. Rio de Janeiro, fevereiro de 1963)
Fonte: http://www.jangadabrasil.com.br/revista/julho68/cn68007a.asp

domingo, 23 de junho de 2013

Cordel de Cacá Lopes


Gonzagão - ilustração de Jô Oliveira

SÃO JOÃO DOS MEUS SONHOS

Autor: CACÁ LOPES
Fonte: http://www.araripina.com.br/sao-joao-dos-meus-sonhos


O São João dos meus sonhos
Tem que ter a tradição,
Das cantigas de Luiz
Gonzaga, Rei do Baião,
O do Trio Nordestino
Que era pura animação.

Músicas de Alceu Valença
E de Jackson do Pandeiro,
Elba, Jorge de Altinho
E de Alcymar Monteiro,
Flávios:Leandro e José
Dominguinhos, forrozeiro.

Não pode faltar a cultura
Dos Trios de Pé de Serra,
Uma fogueira em cada casa
Tradições da nossa Terra,
Muita fartura da roça
Saudade no peito emperra.

Milho verde e pamonha,
Canjica, batata assada,
Bolo e pé de muleque,
Nas noites “enluarada”
Bombinha, traque, chuvinha
E muita gente animada.

Pra amenizar um pouco a saudade,
Trechos de algumas músicas tradicionais
Dos Folguedos Juninos.

AI QUE SAUDADES QUE EU TENHO
DAS NOITES DE SÃO JOÃO
DAS NOITES TÃO BRASILEIRAS
DAS FOGUEIRAS / SOB O LUAR DO SERTÃO…
TEM TANTA FOGUEIRA
TEM TANTO BALÃO
TANTA BRINCADEIRA
TODO MUNDO NO TERREIRO
FAZENDO ADVINHAÇÃO…
É NOITE DE SÃO JOÃO
VAI AMANHECER O DIA
É MADRUGADA
E NÃO VEIO QUEM TANTO EU QUERIA…
FAGULHAS, PONTAS DE AGULHAS
BRILHAM ESTRELAS DE SÃO JOÃO
BABADOS, XOTES E XAXADOS
SEGURA AS PONTAS, MEU CORAÇÃO…
CORAÇÃO BOBO, CORAÇÃO BOLA
CORAÇÃO BALÃO, CORAÇÃO SÃO JOÃO
A GENTE SE ILUDE
DIZENDO JÁ NÃO HÁ MAIS/ CORAÇÃO.
SÃO JOÃO DOS MEUS SONHOS

(...)

domingo, 16 de junho de 2013

O SOM DE SÃO JOÃO

Severino Januário – Xaxadinho das Alagoas






Um dos melhores discos de Severino januário, destaque para a faixa título “Xaxadinho das Alagoas”, de sua autoria e Polca Fogueteira, onde se ouve a voz de seu irmão Luiz Gonzaga.

Severino Januário – Xaxadinho das Alagoas
1961 – RCA Victor


01. Xaxadinho das Alagoas (Severino Januário)
02. Timorante (Severino Januário)
03. Polca fogueteira (Luiz Gonzaga)
04. Marambaia (Miguel Lima / Claudino Lima)
05. Moxotó (Severino Januário)
06. Xamego das meninas (Severino Januário)
07. Arrasta-pé no Cariri (Severino Januário)
08. Mineirinho (Miguel Lima)
09. Rancheira da vovó (Miguel Lima / Aguiar Filho)
10. Balaio da Bahia (Severino Januário / Nivaldo Nunes)
11. Porto Novo (Severino Januário)
12. Xamego de sinhá (Severino Januário)

Para baixar esse disco, clique aqui.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

SANTO ANTONIO NO FOLCLORE BRASILEIRO


 
Por Marisa Lira (In Jangada Brasil: http://www.jangadabrasil.com.br/junho/cn10060b.htm)
 
Não há exagero na quadrinha popular que diz:


São João a vinte e quatro
São Pedro a vinte e nove
E Santo Antônio a treze
Por ser o santo mais nobre


Na realidade Fernando Bulhões nasceu do casal Marins-Bulhões Taveira, da nobreza de Portugal. Mas o que ficou dessa nobreza, para os fiéis foram as graças sobrenaturais que frei Antônio espalhou pelo caminho terreno e que o fez galgar a glória celeste sob a invocação de Santo Antônio.
A sua intercessão miraculosa é reclamada sob inúmeros aspectos. O maior de seus milagres foi, sem dúvida o que se deu quando, já famoso orador, pregava em Pádua (Itália). Avisado durante um sermão de que, em Portugal, o seu pai, condenado, caminhava para a forca, pousou por momentos a mão sobre a fronte e, milagrosamente desdobrou-se, foi à Lisboa e salvou-o.

Nem os ouvintes de Pádua perceberam que, durante aquela rápida parada em que o pregador parecia coordenar um pensamento, em pensamento havia realizado o até hoje discutido milagre do desdobramento da personalidade! Daí, a dupla invocação do seu nome Santo Antônio de Lisboa, para aquele que nasceu em Lisboa em 1195, e Santo Antônio de Pádua, porque aí faleceu em 1232.

O prestígio do milagre de Santo Antônio alcançou as Índias, chegou ao Brasil e a todos os pontos onde existe um católico. Santo Antônio, porém, sempre foi o santo do lar, dos nichos e barraquinhas. Adorado com fervor é
o orago das povoações, dos soldados, o santo familiar, o desvendador de perdidos, o protetor dos casamentos que o sincretismo das religiões populares levou aos candomblés da Bahia, confundindo com Ogum, santo guerreiro dos negros. É festejado a treze de junho, dia de preceito em toda a América por determinação da bula de 1722, do papa Inocêncio XVIII.

Por muito tempo foi esse dia feriado no Brasil. O milagroso santo desde os tempos coloniais que vem estendendo suas bençãos às nossas batalhas, garantindo vitória aos brasileiros. A libertação de Pernambuco é atribuída à sua milagrosa intervenção. Santo que os fiéis pernambucanos proclamam:

Milagroso Santo Antônio
Nosso padroeiro
Enche de alegria
Pernambuco inteiro

A defesa da colônia do Sacramento, ao Sul, esteve também entregue à milagrosa intervenção de Santo Antônio, que após a vitória recebeu um custoso bastão do governador Veiga Cabral. Durante a invasão de Duclerc e Duguay-Trouin, no Rio de Janeiro, em 1710, o governador Castro Morais pediu a proteção de Santo Antônio. O provincial do convento de Santo Antônio, no largo da Carioca, enviou o rico bastão do santo ao governador, que apenas tocou a cabeça dele para iluminá-la, pedindo também que colocasse a imagem na muralha do convento, com uma
lâmpada votiva acesa. Travou-se a batalha. Os franceses foram derrotados.

Desde então, na frente do convento, em um nicho, fica a imagem de Santo Antônio e há sempre uma lamparina acesa. O povo carioca tem grande fé nessa imagem, que chama Santo Antônio do Relento. Por essas e outras vitórias alcançadas no norte e sul do Brasil, Santo Antônio atingiu altos postos militares, sendo condecorado pelo próprio dom João VI, que também lhe conferiu o posto de tenente coronel do Exército Brasileiro.

Com a proclamação da República e a conseqüente separação da igreja do estado, Santo Antônio perdeu o soldo que até então era pago ao superior do convento. A ordem de Santo Antônio, porém, a cada novo governo que sucedia, reiterava requerimentos sem resultado. Foi o ministro da Guerra, general Dantas Barreto que num curioso despacho deferiu o pedido, com uma cláusula explícita: "que o pagamento fosse próprio ou ao seu procurador…"

Os devotos de Santo Antônio pintam sua figura em objetos de barro, de louça, de madeira, trazem-no em bentinhos e breves e antigamente até
por cepilhos da sela. Daí o aviso ao meu cavaleiro:

"Segura-te no Santo Antônio!"

Também era em uso tempos idos colocar-se nas cartas as iniciais, S.A.t.g. (Santo Antônio te guie), hábito motivado por um milagre do santo realizado nas Astúrias, em 1729. Mas ninguém desconhece a proteção de Santo Antônio para achar coisas perdidas, que surgem mal
reza o responso:

Quem milagres quer achar
Contra os males e o demônio
Busque logo o Santo Antônio
Que aí o há de encontrar

A confiança em Santo Antônio é ilimitada.

Mas o seu maior prestígio é entre as moças que querem casar. A filosofia popular retrata esses anseios na quadrinha pitoresca:

Santo Antônio me case já
Enquanto sou moça e viva
Porque o milho colhido tarde
Não dá palha nem espiga

A crendice aconselha às pretendentes ao matrimônio, como meio infalível, o furto do menino de Santo Antônio, tanto que a rima popular afirma:

Não quero Santo Antônio grande
Dentro do meu oratório
Eu quero é o meu pequenino
Que ouve o meu peditório

Às vezes o candidato tarda,
ou é recalcitrante, e então vem o recurso extremo: penduram a imagem de cabeça para baixo e surram-na a valer!

Minha avó tem lá em casa
Um Santo Antônio velhinho
Em os moços não me querendo
Dou pancadas no santinho

Alucinadas, chegam a tirar o resplendor da imagem e
sobre a tonsura pregam, com cera, uma moeda qualquer, que só sairá dali e será convertida em velas, no dia do casamento.

Chegam até a mergulhar a imagem dentro d’água!

Conta-se que certa solteirona amarrou a imagem numa corda e jogou-a num poço.

Correu o tempo. O barro da imagem dissolveu-se e o noivo não apareceu.

Na época da escravidão, mau grado os milagres e as virtudes do santo, os negros confessavam: "Escravos, nem de Santo Antônio", e diziam meio incrédulos:

Santo Antônio foi bom santo
Pois livrou seu pai da morte
Mas, não livrou pai João
Das penas
de calabrote

E chegavam a fazer promessas irreverentes:

Me peguei com Santo Antônio
Pra casá com uma criôla
As almas ganha uma saia
Santo Antônio uma ceroula

A tradição popular guarda sempre a malícia mais que tudo e por isso repete-se por aí:

Fui ao mato cortar lenha
Santo Antônio me chamou
Quando o santo chama a gente
Que fará os pecadô

As virtudes
do taumaturgo, porém, estão registradas no populário brasileiro, em rimas simples mas expressivas como esta:

Santo Antônio foi tentado
Quando pelo mundo andou
Não resistiu do pecado
Morreu, foi ao céu e gozou

(Marisa Lira. ‘Folclore carioca; Santo Antônio no folclore brasileiro’. Correio da Manhã, 18/08/1950. Extraído do Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore (IBECC), Florianópolis, Ano II, junho de 1951, nº 8. In APOCALYPSE, Mary.
Estórias e lendas e Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

SIMPATIAS DE SANTO ANTONIO

Santo Antônio é o primeiro santo festejado nas chamadas FESTAS JUNINAS
 
Dando sequencia às nossas postagens JUNINAS, falaremos hoje de Santo Antônio, que é reverenciado no dia 13 de junho. Quem ainda não ouviu falar nas famosas simpatias de Santo Antônio, o santo casamenteiro? Decantado em prosa e verso por desencalhar solteironas e encontrar objetos desaparecidos, o Taumaturgo português é um dos santos mais populares no Brasil.
 
Minha avó Alzira era devota fervorosa do santo e todos os anos rezava a sua TREZENA. Sim, o novenário de Santo Antônio dura treze dias, daí o nome 'trezena'. Dentre as muitas simpatias que os devotos realizam, existe uma bem curiosa que é praticada no sertão nordestino. Consiste em amarrar a imagem do santo de cabeça para baixo para fazer chover. Ouvi falar de casos assim, quando menino.
 
Dizem que as simpatias evocadas em seu nome dão certo. Claro que tudo isso faz parte das supertições bem características do povo brasileiro. Talvez pela mistura de raças e crenças, não sabemos, mas a posição que temos diante dessas brincadeiras, vamos chamar assim, é a grande necessidade das pessoas conseguirem uma fórmula para tudo na vida. 
  
 1 – Quem deseja descobrir o nome do futuro companheiro deve comprar um facão e, à meia-noite do dia 12 de junho, cravá-lo numa bananeira. O líquido que escorrer da planta deve formar a letra do futuro amor.
 2 – Uma das mais antigas tradições diz que, para descobrir o futuro companheiro, é preciso escrever os nomes dos candidatos em vários papéis. Um deles deve ser deixado em branco. À meia-noite do dia 12 de junho, eles devem ser colocados em cima de um prato com água, que passará a madrugada ao relento. No dia seguinte, o que estiver mais aberto indicará o escolhido.
3 – Aqueles que têm pressa em arranjar um namorado devem comprar uma pequena imagem do santo. E para agilizar a conquista do pedido, fazer dois procedimentos: tirar o Menino Jesus do colo do religioso, dizendo que só devolverá quando conseguir um namorado, ou ainda, virar o Santo Antônio de cabeça para baixo.
 4 – O mais afoito tem ainda outro recurso. Deve ir a um casamento e dar de presente aos noivos uma imagem de Santo Antônio, sem o Menino Jesus. Depois, pedir no altar para se casar com alguém, especial ou não. Assim que a graça for alcançada, deve retornar à igreja e lá depositar a imagem do Menino Jesus.
 5 – Os que já estão acompanhados, mas ainda não subiram no altar, também possuem práticas específicas. A pessoa deve amarrar um fio de cabelo seu ao do namorado. Eles devem ser colocados aos pés do santo, que, logo, logo, resolve a questão.
 6 – À meia-noite do dia 12 de junho, quebre um ovo dentro de um copo com água e o coloque no sereno. No dia seguinte, interprete o desenho que se formou. Se aparecer algo semelhante a um vestido de noiva, véu ou grinalda, o casamento está próximo.
7 – Para a pessoa saber se o futuro companheiro será jovem ou mais velho, é preciso arranjar um ramo de pimenteira. De olhos fechados, ela deve pegar uma das pimenteiras. Se a escolhida for verde, ele será jovem. Caso contrário, o casamento acontecerá com alguém de idade avançada.
8 – A tradição popular acredita que há uma forma especial de fazer as pazes entre casais brigados. Para isso, é preciso um cravo e uma rosa. Os talos devem ser amarrados juntos com uma fita verde, na qual serão dados 13 nós. Durante o procedimento, o devoto deve pensar que Santo Antônio vai uni-los outra vez.
 9 – Para descobrir se falta muitos anos para a grande data, na véspera do dia 13 de junho, à meia-noite, amarre uma aliança – que pode ser de qualquer parente – numa linha ou num fio. Coloque um copo sobre a mesa e segure o fio de modo que a aliança esteja dentro do copo. Pergunte, então, quantos anos faltam para o casório. O número de batidas informa quantos anos ainda restam para o Dia D.
 
Ilustrações de ARIEVALDO VIANNA, baseadas em gravuras de José Guadalupe Posada

quarta-feira, 5 de junho de 2013

FESTAS JUNINAS


 
Chegou o mês de junho! Mês que o povo Nordestino costuma chamar também de 'fins d'água', período em que os primeiros frutos da safra são colhidos (quando há bom inverno). Época em que se realizam as famosas FESTAS DO MILHO. Luiz Gonzaga, nosso cancioneiro maior, dedicou boa parte de seu repertório à louvação dos três santos festejados nesse período: Santo Antonio, São João e São Pedro. Aliás, as festas juninas continuam sendo o maior suporte do forró tradicional aqui no Nordeste. As quadrilhas andam meio descaracterizadas, as bandas de forró estão fazendo uma música descaracterizada, mas a alegria permanece. Mês de junho é motivo de alegria!
Para os fãs do verdadeiro forró nordestino e da boa música junina, a partir de hoje faremos postagens relacionadas ao cancioneiro de Gonzagão, Marinês, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Severino Januário, Zé Gonzaga e outros artistas nordestinos que contribuíram para abrilhantar essa grande festa do povo Nordestino.
 
Jackson do Pandeiro e Almira Castilho trajados a rigor para os festejos de São João.