domingo, 16 de junho de 2013

O SOM DE SÃO JOÃO

Severino Januário – Xaxadinho das Alagoas






Um dos melhores discos de Severino januário, destaque para a faixa título “Xaxadinho das Alagoas”, de sua autoria e Polca Fogueteira, onde se ouve a voz de seu irmão Luiz Gonzaga.

Severino Januário – Xaxadinho das Alagoas
1961 – RCA Victor


01. Xaxadinho das Alagoas (Severino Januário)
02. Timorante (Severino Januário)
03. Polca fogueteira (Luiz Gonzaga)
04. Marambaia (Miguel Lima / Claudino Lima)
05. Moxotó (Severino Januário)
06. Xamego das meninas (Severino Januário)
07. Arrasta-pé no Cariri (Severino Januário)
08. Mineirinho (Miguel Lima)
09. Rancheira da vovó (Miguel Lima / Aguiar Filho)
10. Balaio da Bahia (Severino Januário / Nivaldo Nunes)
11. Porto Novo (Severino Januário)
12. Xamego de sinhá (Severino Januário)

Para baixar esse disco, clique aqui.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

SANTO ANTONIO NO FOLCLORE BRASILEIRO


 
Por Marisa Lira (In Jangada Brasil: http://www.jangadabrasil.com.br/junho/cn10060b.htm)
 
Não há exagero na quadrinha popular que diz:


São João a vinte e quatro
São Pedro a vinte e nove
E Santo Antônio a treze
Por ser o santo mais nobre


Na realidade Fernando Bulhões nasceu do casal Marins-Bulhões Taveira, da nobreza de Portugal. Mas o que ficou dessa nobreza, para os fiéis foram as graças sobrenaturais que frei Antônio espalhou pelo caminho terreno e que o fez galgar a glória celeste sob a invocação de Santo Antônio.
A sua intercessão miraculosa é reclamada sob inúmeros aspectos. O maior de seus milagres foi, sem dúvida o que se deu quando, já famoso orador, pregava em Pádua (Itália). Avisado durante um sermão de que, em Portugal, o seu pai, condenado, caminhava para a forca, pousou por momentos a mão sobre a fronte e, milagrosamente desdobrou-se, foi à Lisboa e salvou-o.

Nem os ouvintes de Pádua perceberam que, durante aquela rápida parada em que o pregador parecia coordenar um pensamento, em pensamento havia realizado o até hoje discutido milagre do desdobramento da personalidade! Daí, a dupla invocação do seu nome Santo Antônio de Lisboa, para aquele que nasceu em Lisboa em 1195, e Santo Antônio de Pádua, porque aí faleceu em 1232.

O prestígio do milagre de Santo Antônio alcançou as Índias, chegou ao Brasil e a todos os pontos onde existe um católico. Santo Antônio, porém, sempre foi o santo do lar, dos nichos e barraquinhas. Adorado com fervor é
o orago das povoações, dos soldados, o santo familiar, o desvendador de perdidos, o protetor dos casamentos que o sincretismo das religiões populares levou aos candomblés da Bahia, confundindo com Ogum, santo guerreiro dos negros. É festejado a treze de junho, dia de preceito em toda a América por determinação da bula de 1722, do papa Inocêncio XVIII.

Por muito tempo foi esse dia feriado no Brasil. O milagroso santo desde os tempos coloniais que vem estendendo suas bençãos às nossas batalhas, garantindo vitória aos brasileiros. A libertação de Pernambuco é atribuída à sua milagrosa intervenção. Santo que os fiéis pernambucanos proclamam:

Milagroso Santo Antônio
Nosso padroeiro
Enche de alegria
Pernambuco inteiro

A defesa da colônia do Sacramento, ao Sul, esteve também entregue à milagrosa intervenção de Santo Antônio, que após a vitória recebeu um custoso bastão do governador Veiga Cabral. Durante a invasão de Duclerc e Duguay-Trouin, no Rio de Janeiro, em 1710, o governador Castro Morais pediu a proteção de Santo Antônio. O provincial do convento de Santo Antônio, no largo da Carioca, enviou o rico bastão do santo ao governador, que apenas tocou a cabeça dele para iluminá-la, pedindo também que colocasse a imagem na muralha do convento, com uma
lâmpada votiva acesa. Travou-se a batalha. Os franceses foram derrotados.

Desde então, na frente do convento, em um nicho, fica a imagem de Santo Antônio e há sempre uma lamparina acesa. O povo carioca tem grande fé nessa imagem, que chama Santo Antônio do Relento. Por essas e outras vitórias alcançadas no norte e sul do Brasil, Santo Antônio atingiu altos postos militares, sendo condecorado pelo próprio dom João VI, que também lhe conferiu o posto de tenente coronel do Exército Brasileiro.

Com a proclamação da República e a conseqüente separação da igreja do estado, Santo Antônio perdeu o soldo que até então era pago ao superior do convento. A ordem de Santo Antônio, porém, a cada novo governo que sucedia, reiterava requerimentos sem resultado. Foi o ministro da Guerra, general Dantas Barreto que num curioso despacho deferiu o pedido, com uma cláusula explícita: "que o pagamento fosse próprio ou ao seu procurador…"

Os devotos de Santo Antônio pintam sua figura em objetos de barro, de louça, de madeira, trazem-no em bentinhos e breves e antigamente até
por cepilhos da sela. Daí o aviso ao meu cavaleiro:

"Segura-te no Santo Antônio!"

Também era em uso tempos idos colocar-se nas cartas as iniciais, S.A.t.g. (Santo Antônio te guie), hábito motivado por um milagre do santo realizado nas Astúrias, em 1729. Mas ninguém desconhece a proteção de Santo Antônio para achar coisas perdidas, que surgem mal
reza o responso:

Quem milagres quer achar
Contra os males e o demônio
Busque logo o Santo Antônio
Que aí o há de encontrar

A confiança em Santo Antônio é ilimitada.

Mas o seu maior prestígio é entre as moças que querem casar. A filosofia popular retrata esses anseios na quadrinha pitoresca:

Santo Antônio me case já
Enquanto sou moça e viva
Porque o milho colhido tarde
Não dá palha nem espiga

A crendice aconselha às pretendentes ao matrimônio, como meio infalível, o furto do menino de Santo Antônio, tanto que a rima popular afirma:

Não quero Santo Antônio grande
Dentro do meu oratório
Eu quero é o meu pequenino
Que ouve o meu peditório

Às vezes o candidato tarda,
ou é recalcitrante, e então vem o recurso extremo: penduram a imagem de cabeça para baixo e surram-na a valer!

Minha avó tem lá em casa
Um Santo Antônio velhinho
Em os moços não me querendo
Dou pancadas no santinho

Alucinadas, chegam a tirar o resplendor da imagem e
sobre a tonsura pregam, com cera, uma moeda qualquer, que só sairá dali e será convertida em velas, no dia do casamento.

Chegam até a mergulhar a imagem dentro d’água!

Conta-se que certa solteirona amarrou a imagem numa corda e jogou-a num poço.

Correu o tempo. O barro da imagem dissolveu-se e o noivo não apareceu.

Na época da escravidão, mau grado os milagres e as virtudes do santo, os negros confessavam: "Escravos, nem de Santo Antônio", e diziam meio incrédulos:

Santo Antônio foi bom santo
Pois livrou seu pai da morte
Mas, não livrou pai João
Das penas
de calabrote

E chegavam a fazer promessas irreverentes:

Me peguei com Santo Antônio
Pra casá com uma criôla
As almas ganha uma saia
Santo Antônio uma ceroula

A tradição popular guarda sempre a malícia mais que tudo e por isso repete-se por aí:

Fui ao mato cortar lenha
Santo Antônio me chamou
Quando o santo chama a gente
Que fará os pecadô

As virtudes
do taumaturgo, porém, estão registradas no populário brasileiro, em rimas simples mas expressivas como esta:

Santo Antônio foi tentado
Quando pelo mundo andou
Não resistiu do pecado
Morreu, foi ao céu e gozou

(Marisa Lira. ‘Folclore carioca; Santo Antônio no folclore brasileiro’. Correio da Manhã, 18/08/1950. Extraído do Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore (IBECC), Florianópolis, Ano II, junho de 1951, nº 8. In APOCALYPSE, Mary.
Estórias e lendas e Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

SIMPATIAS DE SANTO ANTONIO

Santo Antônio é o primeiro santo festejado nas chamadas FESTAS JUNINAS
 
Dando sequencia às nossas postagens JUNINAS, falaremos hoje de Santo Antônio, que é reverenciado no dia 13 de junho. Quem ainda não ouviu falar nas famosas simpatias de Santo Antônio, o santo casamenteiro? Decantado em prosa e verso por desencalhar solteironas e encontrar objetos desaparecidos, o Taumaturgo português é um dos santos mais populares no Brasil.
 
Minha avó Alzira era devota fervorosa do santo e todos os anos rezava a sua TREZENA. Sim, o novenário de Santo Antônio dura treze dias, daí o nome 'trezena'. Dentre as muitas simpatias que os devotos realizam, existe uma bem curiosa que é praticada no sertão nordestino. Consiste em amarrar a imagem do santo de cabeça para baixo para fazer chover. Ouvi falar de casos assim, quando menino.
 
Dizem que as simpatias evocadas em seu nome dão certo. Claro que tudo isso faz parte das supertições bem características do povo brasileiro. Talvez pela mistura de raças e crenças, não sabemos, mas a posição que temos diante dessas brincadeiras, vamos chamar assim, é a grande necessidade das pessoas conseguirem uma fórmula para tudo na vida. 
  
 1 – Quem deseja descobrir o nome do futuro companheiro deve comprar um facão e, à meia-noite do dia 12 de junho, cravá-lo numa bananeira. O líquido que escorrer da planta deve formar a letra do futuro amor.
 2 – Uma das mais antigas tradições diz que, para descobrir o futuro companheiro, é preciso escrever os nomes dos candidatos em vários papéis. Um deles deve ser deixado em branco. À meia-noite do dia 12 de junho, eles devem ser colocados em cima de um prato com água, que passará a madrugada ao relento. No dia seguinte, o que estiver mais aberto indicará o escolhido.
3 – Aqueles que têm pressa em arranjar um namorado devem comprar uma pequena imagem do santo. E para agilizar a conquista do pedido, fazer dois procedimentos: tirar o Menino Jesus do colo do religioso, dizendo que só devolverá quando conseguir um namorado, ou ainda, virar o Santo Antônio de cabeça para baixo.
 4 – O mais afoito tem ainda outro recurso. Deve ir a um casamento e dar de presente aos noivos uma imagem de Santo Antônio, sem o Menino Jesus. Depois, pedir no altar para se casar com alguém, especial ou não. Assim que a graça for alcançada, deve retornar à igreja e lá depositar a imagem do Menino Jesus.
 5 – Os que já estão acompanhados, mas ainda não subiram no altar, também possuem práticas específicas. A pessoa deve amarrar um fio de cabelo seu ao do namorado. Eles devem ser colocados aos pés do santo, que, logo, logo, resolve a questão.
 6 – À meia-noite do dia 12 de junho, quebre um ovo dentro de um copo com água e o coloque no sereno. No dia seguinte, interprete o desenho que se formou. Se aparecer algo semelhante a um vestido de noiva, véu ou grinalda, o casamento está próximo.
7 – Para a pessoa saber se o futuro companheiro será jovem ou mais velho, é preciso arranjar um ramo de pimenteira. De olhos fechados, ela deve pegar uma das pimenteiras. Se a escolhida for verde, ele será jovem. Caso contrário, o casamento acontecerá com alguém de idade avançada.
8 – A tradição popular acredita que há uma forma especial de fazer as pazes entre casais brigados. Para isso, é preciso um cravo e uma rosa. Os talos devem ser amarrados juntos com uma fita verde, na qual serão dados 13 nós. Durante o procedimento, o devoto deve pensar que Santo Antônio vai uni-los outra vez.
 9 – Para descobrir se falta muitos anos para a grande data, na véspera do dia 13 de junho, à meia-noite, amarre uma aliança – que pode ser de qualquer parente – numa linha ou num fio. Coloque um copo sobre a mesa e segure o fio de modo que a aliança esteja dentro do copo. Pergunte, então, quantos anos faltam para o casório. O número de batidas informa quantos anos ainda restam para o Dia D.
 
Ilustrações de ARIEVALDO VIANNA, baseadas em gravuras de José Guadalupe Posada

quarta-feira, 5 de junho de 2013

FESTAS JUNINAS


 
Chegou o mês de junho! Mês que o povo Nordestino costuma chamar também de 'fins d'água', período em que os primeiros frutos da safra são colhidos (quando há bom inverno). Época em que se realizam as famosas FESTAS DO MILHO. Luiz Gonzaga, nosso cancioneiro maior, dedicou boa parte de seu repertório à louvação dos três santos festejados nesse período: Santo Antonio, São João e São Pedro. Aliás, as festas juninas continuam sendo o maior suporte do forró tradicional aqui no Nordeste. As quadrilhas andam meio descaracterizadas, as bandas de forró estão fazendo uma música descaracterizada, mas a alegria permanece. Mês de junho é motivo de alegria!
Para os fãs do verdadeiro forró nordestino e da boa música junina, a partir de hoje faremos postagens relacionadas ao cancioneiro de Gonzagão, Marinês, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Severino Januário, Zé Gonzaga e outros artistas nordestinos que contribuíram para abrilhantar essa grande festa do povo Nordestino.
 
Jackson do Pandeiro e Almira Castilho trajados a rigor para os festejos de São João.
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

90 ANOS DO PAVÃO MISTERIOSO

No blog CORDEL ATEMPORAL, do poeta Marco Haurélio, encontramos a seguinte notícia: 2013 marca os 90 anos do maior êxito da literatura de cordel brasileira: o Romance do Pavão Misterioso, de autoria de José de Camelo de Melo Resende.*
 
A data passaria em branco não fosse o empenho do pesquisador e apologista José Paulo Ribeiro, de Guarabira (PB), e do professor e historiador Vicente Barbosa, idealizador da 1ª Exposição de Cordel de Guarabira, chamando a atenção para a importância deste gênero literário para o município, berço de grandes cordelistas e cantadores. 
O texto abaixo, de Vicente Barbosa, conta um pouco dessa história começada pelos idos de 1923:
 
"Preservar e divulgar as riquezas das Tradições Populares configura-se em um sentimento que deve ser exaltado por cada povo, como forma de garantir a sobrevivência e a plenitude de sua própria identidade. O Nordeste brasileiro é destaque quando se trata do tema Cultura Popular e suas diversas formas de manifestações, dentre elas destacamos a Literatura de Cordel.


Essa forma de narrativa oriunda da Península Ibérica, que aqui chegou pelas mãos dos colonizadores portugueses, ganhou alma e corporificou-se através dos Folhetos de Cordel, que, viajando de mão em mão,  espalhou-se por toda Região Nordeste levando em seu conteúdo os mais variados e múltiplos temas como: o amor, o ódio, a vingança, a tragédia, a religiosidade, o cangaço, as crenças e seus mistérios.
 
Dentre todos os Cordéis até hoje impressos, um deles teve destaque e, e tornou-se um grande best-seller do gênero. Trata-se do Romance do Pavão Misterioso, obra do cordelista guarabirense José Camelo de Melo Rezende (1885-1964) que ganhou fama no Brasil e no Mundo. O Romance do Pavão Misterioso já foi adaptado para o Teatro, Cinema, Literatura, Música e Televisão, com seu texto simples, aliado à fluência dos versos e às referências aos contos das Mil e Uma Noites alcançou a espantosa tiragem de mais de dez milhões de cópias, vendidas em todo o País.
 
Neste ano de 2013 a obra completa exatos 90 anos desde a sua primeira edição, datada de 1923. Aproveitando o ensejo e reconhecendo a importância histórica da data, o Serviço Social do Comércio - SESC, na Paraíba, presta uma justa homenagem através da realização da 1ª Exposição de Cordel de Guarabira, uma vez que esta cidade detém o orgulho de ser berço de nascimento do Autor e da Obra. Parabéns ao Pavão Misterioso, glória e honra de nossa Literatura popular."
 
 
* Há uma versão reescrita por João Melchíades Ferreira que tornou-se a mais popular. O original de José Camelo era publicado com 40 páginas. O maior clássico do cordel é também o pivô da maior polêmica desse gênero literário no Brasil.
 
SAIBA MAIS SOBRE ESSA FAMOSA POLÊMICA DA LITERATURA DE CORDEL, AQUI MESMO, NO BLOG ACORDA CORDEL: http://acordacordel.blogspot.com.br/2012/02/maior-polemica-do-cordel.html

segunda-feira, 3 de junho de 2013

CORDEL NO JORNAL 'O ESTADO DE SÃO PAULO'

'História de Juvenal e o Dragão', de Leandro Gomes de Barros e Eduardo Azevedo (Editora Volta-e-Meia) Reprodução

segunda-feira, 27 de maio de 2013

CERVANTES EM CORDEL


 
A LITERATURA DE CORDEL NO BRASIL
VAI MUITO BEM, OBRIGADO!

 
Célia Navarro Flores
Universidade Federal de Sergipe
 

O crítico literário Díaz-Maroto, em seu livro Panorama de la Literatura de Cordel española, de 2000, diz que a literatura de cordel desapareceu na Espanha por volta dos anos 70 e, em Portugal, por volta dos anos 80, e que, "no Brasil continua relativamente viva nos noventa; assim é possível que conheça o século XXI". Felizmente, nosso cordel chegou ao século XXI e com muita vitalidade, graças à iniciativa de cordelistas que não apenas produzem cordel, mas que lutam por sua sobrevivência.
Nesse sentido, devemos parabenizar a iniciativa da criação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), a qual congrega cordelistas de todas as partes do Brasil. Dirigida pelo simpaticíssimo mestre Gonçalo Ferreira, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, a academia comercializa cordéis e mantém um vasto acervo, parte do qual já está catalogado.
Outro fator que contribui para a divulgação e sobrevivência de nosso cordel é a mudança na perspectiva da produção cordelística no Brasil, que se observa atualmente. Embora ainda existam os poetas de corte tradicional, ou seja, aqueles oriundos do campo, que produzem um cordel bastante popular, hoje há uma nova geração de cordelistas: homens letrados, que além do cordel, exercem outras atividades como o jornalismo, a propaganda etc. Os pontos de vendas dessas obras também se diversificaram. No nordeste, ainda são encontrados os folhetos pendurados em barbantes, vendidos em praças e feiras populares. Entretanto, hoje, eles podem ser adquiridos também nas livrarias locais ou nas virtuais. Com essa nova geração de cordelistas, o formato dos folhetos também mudou. Hoje, ao lado dos folhetos tradicionais, encontram-se cordéis em edições de luxo, profusamente ilustrados, em formatos maiores. Outra mudança interessante foi com relação à função dos cordéis e seu público alvo. Se antes os cordéis tinham apenas a função de entretenimento e eram destinados ao público em geral ‑ muitas vezes, pouco letrado ‑, hoje, além dessas atribuições, ele passou a ser pensado e utilizado como recurso didático nas escolas brasileiras, destinado a um público infanto-juvenil, o que levou os cordelistas a adaptar grande quantidade de obras literárias brasileiras e estrangeiras para a literatura de cordel, como, por exemplo: Memórias póstumas de Brás Cubas e O alienista, do escritor brasileiro Machado de Assis, A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, As aventuras de Robson Crusoé, de Defoe, Os miseráveis, de Vitor Hugo, Dom Quixote, de Cervantes, entre muitos outros.
Ao lado da criação da ABLC e da mudança na perspectiva de produção do cordel, há um terceiro elemento que pode ser considerado um propagador da literatura cordelística: o pesquisador; a publicação de artigos e a apresentação de comunicações em congressos sobre tema relacionado ao cordel colaboram para sua valorização. Em algumas universidades brasileiras já podemos encontrar estudiosos do tema.
A Península Ibérica pode até não produzir mais literatura de cordel, mas deve-se reconhecer que há um esforço para preservação dos folhetos existentes e para colocar esse acervo à disposição de pesquisadores, principalmente na Espanha. No Brasil, ainda há grande dificuldade em conseguir os cordéis. A ABLC, por exemplo, não disponibiliza ainda o catálogo de seu acervo, tampouco as bibliotecas públicas das cidades nordestinas, nas quais, geralmente, há uma seção de cordéis. Um acervo digitalizado, entretanto, pode ser encontrado no site do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro.
Meu interesse pelo cordel surgiu, inicialmente, quando, já morando em Aracaju, deparei-me com alguns cordéis com tema cavalheiresco, com personagens da história de Carlos Magno e os doze pares de França. Pareceu-me inacreditável que tais personagens sobrevivessem no Brasil. Posteriormente, encontrei dois cordéis sobre o Quixote, de Cervantes, livro que foi meu objeto de estudo no mestrado e doutorado. Porém, meu interesse definitivo pelo cordel foi despertado pela leitura do Romance d'A pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de Ariano Suassuna. Em 2010, iniciei um projeto sobre Cervantes na obra de Suassuna e li muito sobre o escritor paraibano e sua obra. Em meados do ano passado, iniciei uma pesquisa sobre o Quixote na literatura popular. Minha intenção é estudar essa obra na literatura de cordel espanhola e na brasileira. Entretanto, como 2013 é o ano em que se comemoram os 400 anos das Novelas Exemplares, de Cervantes, decidi ampliar minha pesquisa: além do Quixote, resolvi investigar também as Novelas Exemplares na literatura popular.
O livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha, mais conhecido no Brasil como Dom Quixote, foi escrito por Cervantes em duas partes: a primeira publicada em 1605 e a segunda em 1615. Na época, a obra foi considerada cômica e seus personagens obtiveram grande sucesso, tanto que nas festas mascaradas apareciam pessoas fantasiadas de Dom Quixote e Sancho Pança, os protagonistas da obra. Temos notícias de um primeiro "pliego suelto" (como se chamavam os cordéis na época) datado de 1657, de autor anônimo, no qual dialogam Dom Quixote e Sancho.
No Brasil, em 2005, em comemoração aos 400 anos da primeira parte do Quixote, foram publicados dois cordéis sobre a obra: As aventuras de Dom Quixote em versos de cordel, de Klévison Viana, ilustrado pelo próprio autor, e Dom Quixote em cordel, de J. Borges, com ilustrações de Jô Oliveira. Trata-se de duas edições comemorativas, de luxo, em formato grande. Ainda não nos debruçamos sobre essas obras para uma análise mais detida; por isso, por enquanto, vamos nos limitar a tecer alguns comentários sobre as adaptações das Novelas exemplares, para as quais dedicamos dois artigos, que ainda estão no prelo.
As Novelas exemplares foram escritas por Cervantes em 1613. Trata-se de doze contos, os quais foram publicados integralmente, no Brasil, apenas em 2012, pela editora Arte e Letra. Todas as edições brasileiras anteriores são incompletas. Assim como o Quixote, alguns contos dessa obra de Cervantes foram adaptados, na Espanha, para a literatura de cordel, isto é, para ser vendido em "pliegos sueltos" (expressão que poderíamos traduzir por "folhas soltas" ou "folhas avulsas"). Encontrei uma referência a três contos publicados no século XIX: A espanhola inglesa (1847), A ciganinha (1863) e A senhora Cornélia (1863).
 
No Brasil, deparei-me com dois contos das Novelas exemplares adaptados para o cordel: Rodolfo e Leocádia ou a força do sangue de Arievaldo Viana e A espanhola inglesa, de Manoel Monteiro. O primeiro foi editado por ocasião do IX Congresso Brasileiro de Professores de Espanhol, em 2001, e reeditado em 2006, com o título A força do sangue e uma capa bem mais elaborada para compor o kit do projeto "Acorda Cordel na Escola". O segundo foi escrito a pedido da Editora Scipione para ser utilizado como material paradidático. Infelizmente, embora tenhamos entrado em contato diversas vezes com a editora, ela não nos facilitou o guia didático do cordel A espanhola inglesa. Curiosamente, as duas adaptações têm pontos em comum. O fato de serem pensados para um público-alvo letrado A força do sangue para os professores de espanhol que participaram do congresso e A espanhola inglesa para a sala de aula os dois cordéis apresentam uma preocupação com a língua portuguesa, sem, no entanto perder seu sabor popular. O cordel A espanhola inglesa é amplamente ilustrado por um artista de renome como Jô Oliveira. São 18 ilustrações, além da capa, sendo que muitas delas são duas cenas na mesma página. Esse recurso torna o folheto bastante atrativo para seu público-alvo: os jovens estudantes.
Quando falamos em adaptação, sempre há certo preconceito. Isso se nota mais facilmente quando se trata da adaptação de um romance para o cinema. É comum ouvirmos o comentário: "o livro é melhor". Entretanto, a adaptação, para ser boa, não tem necessariamente de ser fiel ao original, porque toda adaptação é uma recriação e é exatamente nesse processo de recriação que podemos avaliar a criatividade e a competência do artista que adapta. No caso das adaptações para o cordel, devemos levar em consideração o fato de que o cordelista tem de realizar um esforço de condensação das obras originais, pois os contos de Cervantes adaptados são bastante longos. O poeta deverá selecionar os momentos da história que parecem mais significativos para seu entendimento ou mesmo alterar partes do relato, sem, no entanto, descaracterizar totalmente a história contada. São exatamente nos momentos de divergência entre o texto adaptado e o original que o adaptador imprime suas marcas pessoais, as quais muitas vezes nos levam a intuir uma possível interpretação do original. Isso pode ser notado no caso dos cordéis em questão. Para ilustrar, vou citar dois exemplos. Arievaldo Viana modifica o horário de um determinado acontecimento: no original de Cervantes, a família volta de um passeio ao rio às 11 da noite; no cordel, a família volta do passeio no final da tarde: "A tarde se derramava/ Nos montes do ocidente/ A lua já despontava/ Taful e resplandecente/ Iluminando a passagem/ Dessa família inocente" (p. 02). Na Espanha, os dias são muito longos no verão, até às 22 horas é dia, por isso é natural que uma família volte de um piquenique à beira de um rio às 23 horas. No Brasil, entretanto, e principalmente no Nordeste, anoitece muito cedo, por volta das 18 horas; portanto, é muito mais verossímil que uma família de bem retorne de um passeio no final da tarde. Esse exemplo nos mostra como Arievaldo Viana procura adaptar (não sabemos se conscientemente) o tempo, levando em consideração o contexto brasileiro. 
O segundo exemplo retiro do cordel de Manoel Monteiro. Ao contar que a menina Isabel foi raptada na Espanha, aos sete anos, pelos corsários ingleses, Manoel Monteiro faz um comentário que não tem nada a ver com o livro de Cervantes: "Grande potência é assim/ No passado e no presente/ Rouba, mata e escraviza/ Com cara de boa gente/ A história se repete/ No "reino" de Bush e "Beth"/ Com o mesmo filme indecente" (p. 6). Entretanto, com esse comentário, Manoel Monteiro nos deixa entrever sua crítica pessoal às grandes potências atuais, a qual, provavelmente, é compartilhada por muitos dos leitores do cordel.
Particularmente, eu não saberia avaliar a eficácia da utilização dos cordéis em sala de aula, mas, como professora de literatura, afirmo que a adaptação das obras literárias para o cordel assume duas funções importantes: por um lado, divulga a obra literária adaptada; por outro, colabora para a sobrevivência da literatura cordelística. Respondendo ao comentário do crítico espanhol Díaz-Maroto, o qual parece duvidar da sobrevivência do cordel no Brasil do século XXI, podemos dizer: "Sim, a literatura de cordel chegou ao século XXI no Brasil. Ela vai muito bem, obrigado".