domingo, 29 de maio de 2011

CORDEL EM JUAZEIRO

José Bernardo da Silva - Xilogravura de João Pedro Neto

Homenagem a José Bernardo da Silva

Por Maria do Rosário Pinto

Acredito não ser possível falar de José Bernardo da Silva sem marcar a figura de Padre Cícero Romão Batista e sua unanimidades na cidade de Juazeiro do Norte (CE) e, em todo o Nordeste. Ir aos festejos do dia do romeiro em Juazeiro é algo absolutamente estarrecedor, nos tira o fôlego... nos deixa perplexos diante de um mito que permanece vivo na memória popular há mais de 100 anos, a figura do Padre Cícero Romão Batista (1844-1934).

A pesquisadora Rosilene Alves de Melo narra, em sua tese vencedora do 1º Prêmio no Concurso Sílvio Romero, 2003, intitulada Memórias impressas: trajetória da literatura de folhetos em Juazeiro do Norte, relata o nascimento e a prosperidade da Tipografia São Francisco, evidenciando a saga de um homem que de vendedor ambulante conquistou o patamar de um dos maiores editores de folhetos de cordel no Nordeste brasileiro.

Juazeiro do Norte permanece como um mito vivo até nossos dias, guiado pela imponente figura do pequenino homem, Cícero Romão Batista. As histórias que rondam a memória popular são fielmente descritas pelos poetas populares, artistas responsáveis, em grande parte, pela aura que envolveu os grandes acontecimentos da cidade. Poetas que empenharam seus talentos na permanência do conhecimento oral: o mistério do milagre da hóstia – o encontro do Padre Cícero com o sangue de Jesus, pela boca da beata Maria de Araújo; a passagem de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva e seu bando de cangaceiros pela região (1926). Foram estes os assuntos mais “cantados” e publicados naquela ocasião.

Ao assumir a cadeira de José Bernardo da Silva – nascido em Palmeira dos Índios (AL), em 02 de novembro de 1901, patrono da Cadeira nº 18, da Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC, poeta popular e um dos maiores editores de folhetos de cordel do Nordeste, cujo centenário de seu nascimento foi celebrado em 2001, o fiz com alguns receios, por não me acreditar poeta. Entretanto, me vali de citação do saudoso acadêmico Francisco Siva Nobre, que na página 81, vol. 5, da Antologia Brasileira de Literatura de Cordel, publicada pela ABLC, em 1998, consta a afirmação:

A ABLC tem como finalidade reunir não apenas aqueles que se dedicam à literatura de cordel propriamente dita mas, também, outras pessoas que, não a cultivando diretamente, a admiram e se dedicam ao seu estudo e divulgação.

Zé, ou Zé Bernardo viveu no município de Vitória (PE), antes de radicar-se em Juazeiro do Norte, em 1926, atraído pela figura de Padre Cícero Romão Batista. Chega ao Juazeiro, como vendedor ambulante, que fazia o percurso das feiras nordestinas, inclui entre os produtos comercializados alguns folhetos de cordel. A iniciativa tem grande receptividade. Decide, então, tornar-se impressor. Adquire uma máquina de pedal e inicia os trabalhos de tipógrafo. Posteriormente, instala a Tipografia São Francisco. Ressaltamos, aqui, versos nos quais José Bernardo nos fala de seu ofício de tipógrafo, mas já, evidenciando-se como poeta de cordel:

"Não sou poeta vos digo
Mas com rimas arranjo o pão.
Sou chapista e impressor,
Sou bom na composição.
O meu saber se irradia,
Conheço com perfeição
Agradeço esta opulência
À Divina Providência
E ao Padre Cícero Romão."

José Bernardo torna-se um dos maiores editores de folhetos de cordel, especialmente, após ter adquirido milhares de títulos de propriedade de João Martins de Athayde, em 1949. A Tipografia São Francisco, torna Juazeiro do Norte um dos maiores polos editoriais de folhetos de cordel. O trio Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde e José Bernardo da Silva consolidaram o tripé que norteou a criação, produção, distribuição e venda da literatura de folhetos no Nordeste. Suas identidades acabaram por misturar-se, deixando para os pesquisadores de literatura o estudo sobre a originalidade de cada autor; e, para os documentalista, o cuidado de não inferir critério de avaliação autoral, restringindo-se às notas tipográficas evidenciadas no corpo da publicação. De todas as formas, o trabalhos destes homens foi de grande contribuição social e cultural para a região do Crato. Cabe aqui, lembrar que toda essa movimentação editorial, que durou décadas, foi definitiva na geração digna de renda para várias famílias em toda a região e para além dela. Foi com grande produção de folhetos que empregos foram gerados: auxiliares de tipografia (na composição gráfica); artesãos (na confecção de capas); cantadores e distribuidores de revenda (na comercialização em feiras, mercados e praças públicas). Os cantadores tiveram papel relevante, à medida em que emprestavam seus talentos na arte de cantar, extraindo dos versos os segredos que incitavam à compra.
José Bernardo e família

Franklin Maxado Nordestino, em O cordel do cordel, 1982, informa sobre os primeiros editores e suas preferências por temas de caráter noticioso e pelos romances:
(...)

Seus poetas são também
Editores e vendedores.
Saem lendo e cantando,
Procurando os leitores
Que gostam das novidades
E versos de mil amores.”

A exemplo de João Martins de Athayde, com a finalidade de preservar os seus direitos autorais, publicava as estórias constando apenas seu nome como Editor proprietário, o que nos dificulta a identificação precisa da autoria dos versos – se de Leandro Gomes de Barros, cujo acervo foi adquirido por Athayde, após a sua morte; se de Athayde (de quem comprou o acervo, que já veio mesclado com as obras de Leandro); e, os de sua própria autoria, conforme nos indica Sebastião Nunes Batista em Antologia da Literatura de Cordel, de 1977.
No folheto História da literatura de cordel, José Antônio dos Santos, assinala o papel de Athayde como editor proprietário, quando da compra do acervo de Leandro, adquirido em 1921:
João Martins de Athayde
Quando Leandro morreu
De sua esposa comprou
Parte do acervo seu
Dos direitos autorais
Fez o que bem entendeu”

Delarme Monteiro da Silva também nos mostra sua preocupação e nos dá notícias da evolução da literatura de cordel através de seus poetas, cantadores, editores e distribuidores, em seu folheto Nordeste, cordel, repente e canção [19--]. Evidencia a importância social da literatura de cordel, conforme citação abaixo:
           
 (...) 
            Dos poetas de cordel
            Foi Leandro, o pioneiro
            Aqui dento do Recife
            Assim foi ele o primeiro
            A distribuir folhetos
            Por este Nordeste inteiro

            Leandro Gomes de Barros
            Homem que tinha pujança
            Na feitura dos seus versos
            Com beleza e segurança
            Morreu só deixando rimas
            Pra viúva como herança

            Com a morte de Leandro
            A viúva precisando
            Vendeu tudo a Athayde
            Que já vinha se entrosando
            Com versos de sua lavra
            Aos poucos se levantando

             Na direção do Athayde
            A poesia cresceu
            O acervo de Leandro
            Ele juntou com o seu
            O cordel em pouco tempo
            Atingiu o apogeu

            Athayde adoecendo
            Vendeu a tipografia
            A José Bernardo da Silva
            Que do ramo conhecia
            Levando pro Ceará
            Toda a nossa poesia

O poeta João José da Silva, fundador da Luzeiro do Norte, Recife, PE, também iniciou-se como revendedor/distribuidor, como nos informa o poeta Delarme Monteiro no folheto Nordeste, cordel, repente e canção, [19--]:
(...)
Certo dia em meu balcão
Surgiu um tal João José
Numa roupinha “sambada”
Tamanco velho no pé
Perguntou pro meu irmão
O seu Delarme, quem é ?

Então eu me aproximei
A ele fui atender
João José me perguntou
- O senhor pode dizer
Se aqui vende folheto
Para a gente revender”

Outros poetas foram também editores, xilógrafos e vendedores, como Minelvino Francisco Silva (1926-1999), conforme a citação abaixo:
Fascinado pela arte da composição e da impressão tipográfica, adquiriu uma impressora manual onde confeccionava seus folhetos, inclusive as capas”, conforme mostra nos versos:
(...)
Eu mesmo escrevo a estória
eu mesmo faço o clichê
eu mesmo faço a impressão
            Eu mesmo vou vender
            e canto na praça pública
            para todo mundo ver.”

Seu interesse o fez mudar para uma impressora elétrica, mas em 1979 sofreu um acidente, perdendo três dedos. Este fato não o impediu de continuar no ofício, pelo contrário, sua técnica foi aperfeiçoada, referindo-se ao episódio nos versos:

No dia dez de outubro
Compus uma oração
Botei na máquina impressora
Para fazer a impressão
Em vez de imprimir o papel
Errei e imprimi a mão”.

Editou em várias tipografias e editoras como a Tipografia São Francisco, em Juazeiro do Norte, CE, a Prelúdio e a Luzeiro em São Paulo, SP.”
José Bernardo da Silva faleceu em 23 de outubro de 1972. A Tipografia São Francisco encerrou suas atividade em 1982, quando seu acervo e todo o equipamento foram vendidos para o Governo do Estado do Ceará.

Bibliografia

Silva, Minelvino Francisco. Minelvino Francisco Silva. São Paulo: Hedra, 2000. 234 p. :il. (Biblioteca de cordel).

Silva, Minelvino Francisco. Peleja do filho do Cego Aderaldo com o filho de Zé Pretinho. São Paulo: Luzeiro Editora, 1957. 32 p.

Melo, Rosilene Alves de. Memórias impressas: trajetória da literatura de folhetos em Juazeiro do Norte. Rio de Janeiro, 2003. 209 f. Bibliografia: f. 190-209; 1º Prêmio no Concurso Sílvio Romero, 2003

Literatura popular em verso: estudos. São Paulo; Belo Horizonte: Ed. da Universidade de São Paulo; Itatiaia, 1986. 468 p. il. (Reconquista do Brasil. Nova Série, v. 94).

Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Antologia brasileira de literatura de cordel. Rio de Janeiro: Gonçalo Ferreira Studio Gráfico, 1998. v. 5 : il.

Batista, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal : Fundação José Augusto, 1977. xxvi, 395 p. il.

Franklin Maxado Nordestino [Franklin de Cerqueira Machado]. O cordel do cordel. São Paulo : [s.n.], 1982. 8 p.

Silva, Delarme Monteiro da. Nordeste, cordel, repente, cancão. Bezerros: [s.n., 19--]. 16 p.


Texto: Rosário Pinto
Imagem: Enciclopédia Nordeste
Acesse:
http://rosarioecordel.blogspot.com/

* * *

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sábado, 28 de maio de 2011

CHAGAS BATISTA


DIMAS, O BOM LADRÃO
na Literatura de Cordel


O Evangelho fala pouco deste Santo. Nem mesmo o nome, os evangelistas fixaram. O que sabemos foi trazido pela tradição que são os nomes: Dimas, o Bom Ladrão e Simas, o mau ladrão. Sem dúvida alguma, se trata de um santo original, único, privilegiado, que mereceu a honra de ser canonizado em vida por Jesus Cristo, na hora solene de nossa Redenção.
Os outros santos só foram solenemente reconhecidos, no outro milênio, a partir do ano 999. A Igreja comemorava os mártires e confessores, mas sem uma declaração oficial e formal. Enquanto que, a de São Dimas quem proclamou foi o próprio Fundador da Igreja. Dimas foi o operário da última hora, o que nos fez ver o mistério da graça derradeira. O mau ladrão resistiu, explodiu em blasfémias. Rejeitou a graça, visivelmente dada pelo Redentor.
O Bom Ladrão, depois de vacilar (Mt 27,44 -Mc 15,32), confessou a própria culpa, reclamou da injustiça contra Aquele que só fez o bem, reconheceu-O como Rei e lhe pediu que se lembrasse dele, quando estivesse no seu Reino. Segundo a tradição, Dimas não era judeu, mas sim egípcio de nascimento. Dimas e Simas praticavam o banditismo nos desertos de passagem para o Egipto. Lá a Sagrada Família, que fugia da perseguição do rei Herodes, foi assaltada por dois ladrões e um deles a protegeu. Era Dimas. Naquela época, entre os bandidos havia o costume de nunca roubar, nem matar, crianças, velhos e mulheres. Assim, Dimas deu abrigo ao Menino Jesus protegendo a Virgem Maria e São José. Dimas foi um bandido muito perigoso da Palestina. E isso, realmente pode ser afirmado pelo suplício da cruz que mereceu. Essa condenação horrível era reservada somente aos grandes criminosos e aos escravos.
O Martirológio Romano diz apenas no dia 25 de Março: “Em Jerusalém comemoração do Bom Ladrão que na cruz professou a fé de Jesus Cristo”. E no mundo todo São Dimas passou a ser festejado neste dia. O Bom Ladrão ou São Dimas foi o primeiro que entrou no céu: “inda hoje estarás comigo no Paraíso”. (Lc 23,43). Ele passou a ser popularmente considerado o “Padroeiro dos pecadores arrependidos da hora derradeira, dos agonizantes, da boa morte”. Morreu sacramentado pela absolvição do próprio Cristo, e por Ele conduzido ao Paraíso.

Francisco das Chagas Batista, poeta paraibano contemporâneo e amigo de Leandro Gomes de Barros, escreveu a História de Dimas, o bom ladrão em cordel, baseado na versão de Enrique Pérez Escrich, contida em sua obra “O mártir do Gólgota”. Vejamos alguns trechos:


Trato da biografia
De Dimas, o Bom Ladrão
De se fazer assassino
Qual a sua precisão
Como morreu e salvou-se
Teve de Deus o perdão.

Era filho dum ourives
Que havia em Jerusalém
Moço versado nas letras
E bom ourives também
Graças a seu pai honrado
Que lhe desejava o bem.

Era obediente aos pais
Aos mais velhos respeitava
Acariciava as crianças
Aos mortos ele enterrava
Naquela alma de Deus
Caridade não faltava.

Porém quando ele contava
Dezoito anos de idade
Morreu seu pai de repente
Foi uma fatalidade
Dimas pranteou-lhe a morte
Chorou que fez piedade.

Chorando exclamava ele
Não há mais prazer comigo
Foi procurar um pedreiro
Que fizesse um jazigo
Para sepultar seu pai
Seu idolatrado amigo.

Cento e cinquenta óbulos
Foi mais ou menos a quantia
Que o pedreiro pediu
E por menos não fazia
Dimas não fez dúvida alguma
Até por mais lhe servia.

(...)

Vieram três fariseus
Um centurião e um malsin
Dimas com a tal surpresa
Entrou perguntando assim:
- O que fazem em minha casa?
Estão atacando a mim?

- Te enganas, disse o mais velho
Repara o que estás fazendo
Eu estou embargando os bens
É só o que estou fazendo
De conformidade a lei
Teu pai morreu me devendo.

Era uma cilada, armada por um judeu ganancioso, que inventou tal história para confiscar a herança de Dimas. Por conta disso, o corpo do seu pai foi jogado na vala comum. Dimas se vinga, matando o homem que tomou a sua herança e em seguida refugia-se no deserto, onde junta-se a um bando de ladrões. Quando a Família Sagrada fugiu de Belém para o Egito, com medo de Herodes, acabou se hospedando no castelo que servia de abrigo aos ladrões capitaneados por Dimas.

Capa do folheto, com autoria atribuída erroneamente
a João Martins de Athayde

Para o lado aonde estavam
Apareceu de momento
Um venerável ancião
Com um manto pardacento
Vencendo a temeridade
De chuva, trovão e vento.

Sustentava o velho as rédeas
De uma cavalgadura
Na qual vinha uma mulher
Moça, de boa estatura,
E uma criança nos braços
Cheia de graça e candura.

Pelas feições parecia
Que vinha muito chorosa
Além dos grandes tormentos
Dessa noite tenebrosa,
Dimas gritou: - Para ou morre!
Com uma voz horrorosa.

Era a Família Sagrada
A quem Dimas diriga
Aquelas duras palavras
Com tão grande tirania
Ameaçando matar
Jesus, José e Maria.

(...)

São José disse ao primeiro
Inquirindo os outros mais:
- Que mal vos fez essa pobre
Que vós outros ameaçais?
Por vida dela e do filho
Suspendei vossos punhais!

- Tens muita razão, meu velho
(respondeu uma voz forte)
Qualquer um que te ofender
Tem que pagar com a morte
Não tem esse nem aquele
É o que tocar de sorte!

Era Dimas, certamente,
Que tais palavras dizia
- Desculpe eu ter vos falado
Com tão grande tirania
Essas vossas barbas brancas
Vos dão toda garantia.

(...)

Agora é bom que demore
Disse Dimas novamente
Vamos até meu castelo
Até que o tempo esquente
2 ou 3 dias, que queiram
Não é um dia somente.


 
O bom oferecimento
Os viajantes aceitaram
Seguiam juntos com Dimas
E os mais os acompanharam
Como o castelo era perto
Em pouco tempo chegaram.

(...)

A virgem deu-lhe o menino
Alvo de olhos azuis
Dimas o beijou nas faces
Sem saber que era Jesus
Sentiu uma comoção
Fruto da Divina Luz.

(...)

Dimas fitou o menino
Continuou sempre olhando
Na mesma esplanada estavam
Umas ovelhas pastando
Dimas pegou o menino
E disse assim, gracejando:

- Estás vendo essas ovelhas?
Aquele rebanho é meu
E aquele cordeiro branco
Eu te ofereço, é teu,
Em memória da hospedagem
Que o salteador te deu.

Nisso o menino sorriu
Como quem compreendia
As palavras que o ladrão
Tão comovido dizia
E acariciou-lhe as barbas
Em sinal que agradecia.

A história é comovente, apesar da linguagem singela utilizada por Chagas Batista. O desfecho, como todos já devem imaginar, dá-se no Gólgota, quando Jesus foi crucificado entre dois ladrões, Dimas e Gestas.

Trinta e tres anos depois
Jesus foi crucificado
Justamente o Bom Ladrão
Foi preso e sentenciado
Para morrer com Jesus
Já estava profetizado.

(...)

Minutos depois Jesus
Por nós na cruz faleceu
Dimas do lado direito
Dessa vez também morreu
Dimas morreu e salvou-se
Gestas foi quem se perdeu.

BIOGRAFIA DE CHAGAS BATISTA

BIOGRAFIA
Por José Fernando Souza e Silva
Francisco das Chagas Batista (nasceu na Vila do Teixeira, PB, em 05/05/1882 e faleceu na capital do Estado da Paraíba em 26/01/1930). Em 1900, vendia água e lenha e estudava, em Campina Grande; seu primeiro folheto, Saudades do sertão, é de 1902; em 1905 vendeu folhetos no Recife, e em Olinda passou pouco tempo no seminário; depois, trabalhou na ferrovia de Alagoa Grande.
Em 1907, pioneiramente, versejou o romance Quo vadis, de Henryk Sienkiewicz; em 1909, residiu em Guarabira, onde trabalhou com o irmão, o editor Pedro Batista e casou com a prima Hugolina Nunes - tiveram 11 filhos, dentre eles os poetas populares Paulo, Pedro, Maria das Neves e o folclorista Sebastião Nunes Batista, que produziu obras referenciais do cordel).
Em 1911, vivia na capital da Paraíba e negociava com livros; em 1913 fundou a Livraria Popular Editora, editando paródias, modinhas, novelas, contos, poesia, e se firmou como um dos intelectuais da época. Em 1929 publica o livro Cantadores e poetas populares, imprescindível para a pesquisa em literatura popular em verso por conter as mais antigas e confiáveis informações sobre esta forma poética. Ele foi dos primeiros editores de cordel e imprimiu produções de muitos poetas populares da época, exceto de João Martins de Ataíde.
Conquanto se o tenha como dos maiores autores do cordel, o estágio atual da pesquisa não permite precisar quantos folhetos produziu. Ruth Terra identificou em coleções 45 inquestionavelmente escritos por ele, dentre os quais 19 sobre a nascente gesta do cangaço e clássicos que criou ao dar forma poética à História da Imperatriz Porcina, de Balthazar Dias, Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães e História de Esmeraldina, baseada em novela do Decameron, de Boccaccio.

Referências bibliográficas
▪ BATISTA, Sebastião Nunes. Francisco das Chagas Batista: notícia bibliográfica. Rio: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977. 280p.
▪ _______. PIMENTEL, Altimar. Francisco das Chagas Batista e a tradição poética do Teixeira, in Estudos em literatura popular. João Pessoa: Universidade Federal de Pernambuco, 2004, 663p. p. 71-104.
▪ _______. TERRA, Ruth. Memória de lutas: literatura de folhetos do Nordeste. S.Paulo: Global, 1983. 190 p.

O DISCO DA SEMANA

Documento Sonoro do Folclore Brasileiro Volume 6 (Coleção)




A grande novidade desse CD é a presença de dois vaqueiros de Canindé-CE. Cosme Paulino Viana, de Vila Campos, e dona Dina Martins, Rainha dos Vaqueiros e Mestre da Cultura do Estado do Ceará.


01- Ô é chegado em vossa porta - Grupo Reis-de-Bois de Conceião da Barra
02- Senhora dona da casa - Grupo Reis-de-Bois de Conceião da Barra
03- É hora, é hora, meu bem, é h - Grupo Reis-de-Bois de Conceião da Barra
04- Moreninha do meio do salão - Grupo Reis-de-Bois de Conceião da Barra
05- Risca o dedo na sanfona - Grupo Reis-de-Bois de Conceião da Barra
06- Entremos nesta nobre casa - Grupo de "Chegança" de Lagarto
07- Dia de segunda-feira - Grupo de "Chegança" de Lagarto
08- Embarca, embarca, embarca - Grupo de "Chegança" de Lagarto
09- Mestre piloto - Grupo de "Chegança" de Lagarto
10- Terra, terra boa - Grupo de "Chegança" de Lagarto
11- Quando a aurora vem rompendo (marcha de rua) e Ai adeus que eu já me vou (despedida)- Grupo de "Chegança" de Lagarto
12- A minha caninha-verde (abertura) - Grupo de Cana-Verde
13- Sorri, quá, quá - Grupo de Cana-Verde
14- Eu não vendo - Grupo de Cana-Verde
15- Galo, galo - Grupo de Cana-Verde
16- Menina, tu vai ao baile - Grupo de Cana-Verde
17- Caninha-verde, adeus, adeus (despedida) - Grupo de Cana-Verde
18- Ô gado ô, saudade de gado - José Ferreira da Cruz
19- Ah! é gado manso, ê - Luiz Xavier do Nascimento
20- Ô gado manso, bonito touro - Cosme Paulino Viana
21- Chega uma alma de Deus - Luiz Alves de Souza
22- Sinto cheiro de gado giz - Dina Maria Martins Lima
23- Sou da casca da imburana - Terezinha

Lançamento: 1988, selo: Funarte/Atração Fonográfica/Instituto Itaú Cultural.