quinta-feira, 5 de março de 2020

VIVA PATATIVA!



Foto: Natinho Rodrigues


Livro com poemas de Patativa do Assaré 

é lançado nesta quinta-feira (5) 

na cidade natal do poeta


Por Diego Barbosa, VERSO | DN

Organizado pelo pesquisador cearense Gilmar de Carvalho, a obra reúne mais de 50 poemas do mais celebrado poeta popular do Estado, em comemoração ao 111º aniversário do artista
A obra "O Melhor do Patativa do Assaré" é voltada para estudantes de escolas públicas do Estado e terá distribuição gratuita


Patativa do Assaré (1909-2002) entrou na vida de Gilmar de Carvalho por conta de uma artimanha do pesquisador. Fascinado pelos poemas, quis conhecer o poeta. Fez, assim, de tudo para chegar a ele. "Quando assessorei Paulo Linhares, na Secretaria da Cultura, em 1993, cuidei da parte editorial. Decidimos reeditar os cordéis do Patativa, que ficariam numa caixa. Quando ficou pronta, fui entregá-la em Assaré. Foi nosso primeiro longo papo", conta.
A recordação vem acompanhada da bela parceria firmada logo ali, entre papéis, matéria-prima do afeto. Patativa lhe confiou os originais de "Aqui tem Coisa", penúltimo título do trovador, lançado no ano seguinte.
Gilmar, por sua vez, retribuiu estreitando o laço já firmado de bem-querer e respeito. "Decidi fazer um dia de entrevista com ele e este dia foi 15 de fevereiro de 1996. A conversa foi publicada em livro, com o título de 'Patativa Poeta Pássaro do Assaré', cuja segunda edição tem apresentação de Ria Lemaire".
A partir daí, o caminho foi sem volta. Visitas mensais conferiram mais de 500 páginas de diálogos, demarcando a força política, o compromisso com a terra e a cumplicidade do celebrado artista - um agricultor - com os homens e mulheres que trabalham o solo. Um mergulho profundo que, para além de constituir a epifania da vida de Gilmar de Carvalho, naturalmente concedeu ao pesquisador a propriedade e a expertise necessárias para continuar a perpetuar o legado do mais importante poeta popular cearense.
É com esse intento que o livro "O Melhor do Patativa do Assaré" vem a público hoje (5), às 20h, no memorial que leva o nome do trovador, localizado na cidade natal dele. O lançamento integra as comemorações do 111º aniversário de Patativa, e a obra - coedição das secretarias da Cultura e da Educação do Estado - será distribuída para estudantes de escolas públicas cearenses. Não estará, portanto, à venda.

A atividade é apenas uma das várias realizadas na 16ª edição do evento capitaneado pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult-CE), "Patativa do Assaré em Arte e Cultura", como forma de homenagear o poeta-ave. Além do momento, também acontecem, desde terça-feira (3), cortejos, shows, seminários e mesas-redondas, tudo de forma a chancelar a potência do que produziu Antônio Gonçalves da Silva.


 Gilmar de Carvalho manteve enlace de respeito e bem-querer com o poeta - Foto: Natinho Rodrigues


Hoje, no exato dia do aniversário do cantador, ocorre também, para além do lançamento, a solenidade de entrega da Comenda Patativa do Assaré, que reconhece o trabalho de pesquisadores, artistas, poetas e cantores cujo ofício promove o alcance e a valorização da cultura popular tradicional. Os homenageados deste ano são o cineasta Rosemberg Cariry; o pesquisador e jornalista Gilmar de Carvalho; a cordelista Josenir Lacerda; o cantor e compositor Raimundo Fagner; e o pesquisador e escritor Oswald Barroso.
SELEÇÃO
Gilmar de Carvalho explica que falar em "o melhor do Patativa" é redundante porque tudo o que ele fez é melhor. Não à toa, o sentido da coletânea é exatamente preservar o pensamento do estudioso de que o poeta - apelidado de Patativa porque suas poesias eram comparadas com a beleza do canto da ave nativa da Chapada do Araripe - dizia não o que era melhor, mas o que gostava mais.
"A seleção dos poemas foi feita livro por livro. Ainda que criações migrassem de um livro para outro, temos aí um aspecto cronológico. Também pretendemos incluir os folhetos e o fizemos. Patativa está por inteiro nesta obra", situa.
Ainda assim, não é descartada a possibilidade de que outras antologias possam sair desse legado. Trata-se apenas de uma questão de oportunidade. "Se cada um dos estudiosos e pesquisadores que estão no livro fosse convidado para organizar outros volumes, teríamos pelo menos seis outras coletâneas. A criação dele passa por épocas, não por fases. Patativa manteve uma coerência, uma sinceridade que impressiona", complementa Gilmar.
Uma das provas disso é que o único livro dele, mais temático, é o que contempla os cordéis. Por sinal, não gostava muito de folhetos. Seriam comerciais demais para serem vendidos nas feiras.
"Ele tinha consciência de que seus poemas eram 'biscoitos finos', mas nunca fez alarde de sua genialidade, nem poderia fazer, já que ironizava os 'sábios vaidosos'".
Quanto aos estudiosos que Gilmar menciona como integrantes da obra, são vários a desfilar pelas páginas da publicação reiterando a relevância do poeta, tendo em vista que o conheceram e amaram-lhe. Rosemberg Cariry, cineasta, e Oswald Barroso, pesquisador e teatrólogo; Tadeu Feitosa, do Curso de Ciências da Informação da Universidade Federal do Ceará (UFC), cuja tese foi sobre Patativa; Eleuda de Carvalho, jornalista; Cláudio Henrique Andrade, sociólogo com mestrado e doutorado sobre o trovador; Ria Lemaire, professora; e Daniel Gonçalves, neto do artista.
Junto aos poemas, cada um dos textos assinados por esses profissionais oferece um panorama, abrindo muitas possibilidades de leituras, conferindo ao público-alvo do livro - estudantes de escolas públicas do Estado - um leque de oportunidades para "entrar" na obra de Patativa.
FORÇA
Gilmar de Carvalho destaca ainda que a proposta para idealizar o material veio em 2012, quando integrou a banca de doutorado de Eleuda de Carvalho, em Florianópolis, e visitou um centro de artesanato. Lá, encontrou, num mostruário, vários exemplares da "Poesia", de Cruz e Sousa, um poeta que Santa Catarina cultua.
"Folheei o livro e vi que a tiragem era de 100 mil exemplares. A recepcionista disse que a distribuição era gratuita e que eu poderia pegar quantos exemplares quisesse. Trouxe três. Tive a ideia de que poderíamos fazer algo parecido com o Patativa. O tempo é cruel, corrói as lembranças, e se não atuarmos neste sentido, a fruição da obra dele será comprometida num futuro próximo".
Daí que Fabiano Piúba, secretário da cultura do Ceará, "comprou" a sugestão, de acordo com o organizador, com entusiasmo. Foi motor para que o projeto amadurecesse e estivesse, agora, pronto.


No dia do aniversário do cantador, ocorre também a solenidade de entrega da Comenda Patativa do Assaré - Foto: Fernando Travessoni

Para além dele, ainda haverá um paradidático que manterá o poeta em evidência, com projeto gráfico de Adriana Oliveira, revisão de Kelsen Bravos e fotos de Alexandre Vale e Francisco Sousa. "O livro ganhou fragmentos da fala do Patativa a partir das entrevistas feitas por mim, e que levam os leitores (as) diretamente à fonte, ao poeta maior".
Gigante mesmo. Na própria obra lançada agora, ficam bastante evidentes, especialmente para os não-iniciados na poética, os muitos ritmos trabalhados pelo artista, vitrine da magnitude expressa em versos. Diversidade de temáticas são abordadas tendo em comum a qualidade, uma espinha dorsal que pretende corrigir as mazelas sociais.
Gilmar, enfim, considera que cada criação assume um tom de denúncia capaz de não perder a excelência literária. Trata-se do testemunho e testamento de um homem que se fez poeta na própria aldeia (Serra de Santana), longe de modismos e rejeitando as tentativas de aceitação por parte do poder.
"Como diria minha amiga e orientadora Jerusa Pires Ferreira (falecida em 2019), vejo a produção do Patativa como um 'grande texto'. Como se fosse um mural dos pintores mexicanos, um dazibao chinês, um afresco medieval, um vitral de catedral europeia e uma parede de taipa de uma casa do sertão. Faço força para não segmentá-lo. Não quero colocá-lo em gavetas. A força de Patativa vem desta integridade e precisa ser difundida, levada ao vento para os que não tiveram o privilégio de conhecê-lo enquanto ele esteve entre nós".

POSSIBILIDADES

O livro, portanto, vem para consolidar que o poeta é sempre, ainda mais nestes tempos de obscurantismo. Nesse sentido, Gilmar recorda de alguns atos que vão ao encontro do espírito crítico do trovador.
"Ele ironizou Castelo Branco em uma quadra, também debochou de Collor de Mello, aproximou Collor com FHC, pelo fatos de ambos serem Fernando, e sempre elogiou Lula, a quem não chegou a ver na Presidência da República. Creio que ele estaria indignado com o que ouviria no rádio, na tevê, e com o que leriam para ele dos jornais. Devia estar triste pelo ponto de indigência política ao qual o Brasil chegou".
Ao mesmo tempo, o pesquisador comemora. O livro é chance de alavancar nome e versos muito importantes por entre corredores de escolas e da própria vida de quem terá contato com produções tão sublimes quanto fortes.
"Nossa expectativa é que muitas outras tiragens venham se somar a esta, dando ao livro a importância que ele precisa e merece ter. E penso não apenas na leitura, mas em uma recepção e recodificação que passe pelas tecnologias. Imagino poemas sendo filmados, fotografados, esquetes sendo montadas, instalações visuais sendo desenvolvidas, músicas a partir de Patativa, escrita de folhetos de cordel, cortes de xilogravuras com cenas dos poemas", enumera.
Um cenário feliz, possível de abraçar nobres causas, em conformidade com o espírito de quem espera que o novo rebento ganhe o mundo com as cores da sabedoria do autor sempre em voo. Um tanto do poeta pássaro, solidário aos homens e mulheres de todos os tempos.

PROGRAMAÇÃO

Entrega oficial de Títulos aos novos Mestres da Cultura Assareenses. Dona Inês (guardiã da Cultura Ceci do Assaré), poeta Dona Lúcia (doceira), Dona Marlene (caretas).
Horário: 14h
Local: Memorial Patativa do Assaré Centro, Assaré, Ceará
Mesa-redonda "Os Mestres da Cultura", com Alênio Carlos Noronha Alencar, coordenador de Patrimônio Cultural e Memória da Secult Ceará, e Vagner Gois, Secretário de Cultura de Assaré.
Horário: 15h
Missa em ação de graças pelo aniversário de 111 anos do Poeta Patativa do Assaré.
Horário: 18h
Local: Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores Centro, Assaré, Ceará
Entrega da Comenda Patativa do Assaré do Governo do Estado do Ceará. Agraciados: Rosemberg Cariry (cineasta); Gilmar de Carvalho (jornalista e pesquisador); Josenir Lacerda (cordelista); Raimundo Fagner (cantor e compositor); Oswald Barroso (jornalista e pesquisador).
Horário: 19h
Local: Memorial Patativa do Assaré Centro, Assaré, Ceará
Lançamento do Livro "O Melhor do Patativa do Assaré" - Secult-CE / Organização: Gilmar de Carvalho
Horário: 20h

Entrega do Título de Cidadão Assareense. Agraciados: Luis Gastão e Fabiano Piúba.
Horário: 20h30
Local: Memorial Patativa do Assaré. Centro, Assaré, Ceará


CONHEÇA OS AGRACIADOS DA 

COMENDA PATATIVA DO ASSARÉ


Rosemberg Cariry
Nascido em Farias Brito, estreou em 1986 com o documentário de longa-metragem "O caldeirão da Santa Cruz do Deserto". Também produziu programas culturais e documentários sobre a história e as artes do Nordeste. Foi um dos criadores do movimento Nação Cariri e fez direção artística de vários discos de artistas cearenses, com destaque para a coleção Memória Viva do Povo Cearense. Ainda exerceu o cargo de secretário de Cultura da cidade de Crato (CE) e publicou quatro livros de poesia.

Gilmar de Carvalho
São vários os títulos que o profissional reúne. Natural de Sobral, é bacharel em Direito e Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará; mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo; e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi professor do Departamento de Comunicação Social da UFC, posto que ocupou desde 1984. É pesquisador das tradições e culturas populares com livros publicados.

Josenir Lacerda
Nascida no Crato, tem trabalho alicerçado na cultura popular e publicou vários cordéis. Pioneira, é uma das fundadoras da Academia de Cordelistas do Crato (ACC), na qual ocupa a cadeira n° 03. Em 2014, tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). É de sua expertise versejar em rimas. Dentre suas obras mais importantes estão "O matuto e o orelhão", "O segredo de Marina", "De volta ao Passado", "A Fábula do Peru", "O menino que nasceu falando" e "A danação de Julita".

Raimundo Fagner
Cearense de Orós, Fagner gravou, em 1980, o poema "Vaca Estrela e Boi Fubá", de autoria de Patativa. Amigos, os dois protagonizaram um dos momentos mais emocionantes de suas carreiras quando cantaram juntos, em Assaré, nos 88 anos do maior poeta popular do Brasil. Com projeção nacional e internacional, o cantor e compositor Fagner, cuja carreira começou na década de 1970, teve canções gravadas por grandes nomes da MPB. Um dos maiores sucessos é "Mucuripe", em parceria com Belchior.

Oswald Barroso
Dramaturgo, poeta, jornalista, folclorista e teatrólogo natural de Fortaleza, considera-se um multiartista pesquisador, atuando como uma espécie de griô: vê, ouve, sente e documenta a vida popular. Publicou dezenas de livros, compreendendo artigos, biografias, poesias e textos para teatro. Dentre as homenagens, o Prêmio Estado do Ceará (1985), o título de Cidadão Honorário de Juazeiro do Norte e a Medalha Brasileira Folclorista Emérito (2008), concedido pela Comissão Nacional de Folclore.

Serviço
Lançamento do livro "O Melhor do Patativa do Assaré"
Nesta quinta-feira (5), às 20h, no Auditório do Memorial Patativa do Assaré (Rua Cel. Francisco Gomes, 80, Assaré). Entrada franca. Contato: (88) 99713-2750
O melhor do Patativa do Assaré
Organização: Gilmar de Carvalho
Secretarias de Cultura e de Educação do Estado do Ceará
2020, 234 páginas
Distribuição gratuita

FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

ANIVERSÁRIO DO JOÃO MIGUEL




No último dia 23 de fevereiro (domingo de carnaval), meu caçula João Miguel completou OITO ANOS DE IDADE. Uma idade marcante, que sempre me traz boas recordações da minha própria infância, quando já era leitor do antológico poema de Casimiro de Abreu, cuja métrica é a redondilha maior, a mais utilizada na Literatura de Cordel.

Essa é, sem dúvidas, uma quadra ditosa para qualquer pessoa que tem uma infância saudável, feliz e cercada pelo carinho de seus familiares. E disso o Miguel não tem do que se queixar, pois é muito querido por todos da família. Na foto abaixo, ele aparece com a prima Isabelle e o vovô Policarpo debulhando feijão. A seguir o poema de Casimiro de Abreu, extraído de seu único livro "Primaveras":



Meus oito anos
Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
De despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d´estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias de minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

[…]

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Enciclopédia Itaú Cultural – Literatura Brasileira. Disponível em www.itaucultural.org.br.



Casimiro de Abreu (1839-1860) foi um poeta brasileiro, autor da obra Meus Oito Anos, um dos poemas mais populares da literatura brasileira. Se destacou na Segunda Geração do Romantismo. ... É nesse período que escreve a maior parte dos poemas de seu único livro Primaveras.

LEIA A BIOGRAFIA NA ÍNTEGRA


sábado, 1 de fevereiro de 2020

"POMBA", PALAVRA PROIBIDA!



PORQUE O CEARENSE DEU O NOME DE “AVOANTE” À POMBA DE BANDO

Esta semana caiu-me às mãos um exemplar de um livreto assaz curioso, publicado em 1921, intitulado Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará (128 páginas), da autoria do professor João Gonçalves Dias Sobreira, editado no Rio de Janeiro pela Typ. Desembargador Lima Drummond. Seu autor foi um professor primário e telegrafista*, nascido no Crato, em setembro de 1847, que cursou o seminário da Prainha, em Fortaleza, até a altura dos estudos teológicos.

É autor de várias obras didáticas, inclusive de uma Simplificação da Grammatica Portugueza, de 1885, aprovada pela Secretaria da Instrução Pública do Ceará e de uma Geographia Especial do Ceará, adotadas para servirem de compêndio pelas escolas do Estado.

Nesse opúsculo de 1921 encontra-se uma curiosa explicação para o termo “avoante”, nome pelo qual os cearenses e nordestinos em geral conhecem a pomba de bando (Zenaida Auriculata), ave de arribação oriunda do continente africano.

Segundo o professor J. G. Dias Sobreira, a Câmara Municipal de Quixeramobim, famosa por haver deposto o Imperador D. Pedro I e deflagrado a Confederação do Equador no distante ano de 1824, durante a grande seca de 1845 resolveu censurar o nome “pomba”, certamente por excesso de pudor, já que aqui no Nordeste é um dos muitos sinônimos pelo qual se conhece o órgão sexual masculino. Eis o que diz o texto do escritor cratense:

“Na grande seca de 1845, a Câmara Municipal de Quixeramobim, vendo o nome d'essas aves não lhe soava bem, entendeu de reunir-se em sessão especial, e determinou, sob pena de prisão, que d'ali em diante fossem chamadas “avoantes”, nome pelo qual são elas hoje conhecidas, em todo Ceará.” [p. 24]

Isso nos remete a uma estrofe do cantador Zé Porfírio, que tendo derrotado um repentista da cidade de Pombal, numa peleja realizada em solo cearense, recebeu do oponente uma "intimação" para uma revanche em Pombal, na Paraíba. Zé Porfírio, que não tinha nada de besta, respondeu nesses termos:

À cidade de Pombal?
Eu vou lá é uma pitomba...
O cantador que for lá
Com certeza se arromba;
Que eu não passo dez minutos
num lugar que só tem POMBA!


* NOTA - Segundo o Barão de Studart (Diccionário Bio-bibliográfico Cearense) foi professor do Liceu do Ceará. Em 1893, desgostoso com o magistério, transferiu-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde prestou concurso e exerceu o ofício de telegrafista.



Por conta de tudo isso, recordei-me, então, de um texto que publiquei em junho de 2011 aqui mesmo, no blog “Acorda Cordel”. Postagem essa que bateu record de visitas e comentários, sendo ainda hoje uma das mais acessadas. Ei-la na íntegra, tal e qual foi postada em 21/06/2011:



AVES DE ARRIBAÇÃO

Hoje pela manhã, fazendo o trajeto Fortaleza – Caridade, vi pela janela do ônibus milhares e milhares de avoantes (cujo nome cientifico é Zenaida Auriculata) em migração. O espetáculo é belíssimo e impressiona pela solidariedade de alguns grupos que parecem voar em círculos esperando os retardatários.

Os caçadores, pressentido a sua chegada, que acontece no final da quadra invernosa nordestina entram imediatamente em ação abatendo-as sem piedade e, o que é pior, destruindo os pombais onde as mesmas depositam seus ovos.

Na Revista Brasileira de Zoologia, Vol. 3. Número 7, Curitiba, 1986, encontramos essa informação sobre a presença dessas aves na Caatinga Nordestina:

“Na região da caatinga brasileira, a avoante é novamente encontrada em grandes números, referindo-se a ela vários cronistas do século passado e início deste como um auxílio divino às populações humanas carentes, sempre nidificando no solo em colônias. Somente em meados desse século aparecem os primeiros relatos científicos sobre sua nidificação no solo de caatinga (Ihering, 1935). O primeiro autor a se preocupar mais profundamente com o assunto foi Álvaro Aguirre, produzindo vasta bibliografia sobre as colônias de reprodução e hábitos alimentares. Seu trabalho mais completo foi publicado em 1976, dissecando os conhecimentos existentes sobre a biologia, ecologia e utilização desse recurso natural renovável pelo nordestino (Aguirre, 1976).
Todos esses autores referem-se à população nordestina de Zenaida aureculata como a única a nidificar colonialmente no chão, considerada característica peculiar à subespécie da região (Z. a. noronha). Fora do Nordeste, há notas sobre ninhos isolados no solo no Estado de São Paulo (Aguirre, 1972) e em pequenas colônias no Equador (Marchant in Goodwin, 1970)
Desde 1979, o problema do abate ilegal de avoantes na região Nordeste vem preocupando de perto o Departamento de Parques Nacional do IBDF. A partir daquele ano tem início uma série de trabalhos de campo melhor compreensão do fenômeno e para a conservação desse recurso natural renovável, sobre-explorado e colocado em risco de extinção pela exploração irracional para comércio da carne de avoante salgada. A partir de 1982, o trabalho, que visa principalmente compreender, através de anilhamento, os movimentos da espécie na região conta com o apoio do CNPq.”

Como já foi dito, a avoante é uma ave de imigração que aparece em determinada época do ano no sertão nordestino. A avoante chega na quadra de fins d’água, em bandos, nas caatingas, passando nos lugares onde encontra o capim-milhã, que é a alimentação que prefere. Os caçadores, apesar da forte vigilância do IBAMA, entram em ação e abatem uma quantidade enorme, que são vendidas nas feiras. É um massacre injustificado que ameaça a preservação dessa espécie. O que mais impressiona é a crueldade dos caçadores que, não satisfeitos em abater milhares de aves, ainda se comprazem em pisotear os ninhos (feitos geralmente no chão) pelo simples prazer de destruir os ovos. No nordeste brasileiro a pomba-avoante (“avoante”) parece ter o seu padrão de migração em função ao regime de precipitação pluviométrica. 


* * *
Aproveito o ensejo para publicar também, na íntegra, o texto de J.G. Dias Sobreira, publicado em “Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará” (páginas 22 a 24). Nesse trabalho ele descreve minuciosamente o processo de captura e abate das aves, tal e qual meu avô me contava nos primórdios da minha infância.


AVES DE ARRIBAÇÃO

Um fenômeno, que se manifesta, nas grandes secas, é o número prodigioso de aves de arribação. Nos anos comuns, ninguém dá noticia d'essas aves. Não se sabe de onde procedem; o certo é que elas se aglomeram em tamanhos bandos, que ao passarem voando, não se enxerga o ar do lado oposto, que elas atravessam! Estando pousadas e espantando-se, voam todas a um só tempo, produzindo um forte ruído ou estrondo, como de um trovão longínquo.

Alguns meses, depois do seu aparecimento, chega o tempo da postura. Então afluem todas para um ponto da mata e a esta reunião dão-lhe o nome de pombal. Cada uma põe somente dois ovos, mas a quantidade delas é tamanha que, uma semana depois, juntam-se cargas e mais cargas de ovos, que elas põem a granel, espalhados em toda a extensão ocupada pelo pombal! Juntam-nos e os cozinham duros para não se machucarem e os levam aos mercados. É alimento saborosíssimo e tem o gosto do ovo de galinha.

Só vendo-se (parece fábula) a reunião daquela multidão sem conta, e apesar da destruição, por todos os meios, elas reproduzem-se consideravelmente, nesses pombais! Havendo secado as aguas, elas procuram onde beber, e só a podem encontrar em algum açude. Para lá dirige-se toda aquela imensa quantidade de pombas sequiosas, a beber com grande avidez.

Os moradores julgam-se, então, com a vida ganha; porque não lhes faltará, tão cedo, carne nem dinheiro. Armam barracas ou esperas de ramos bem tapadas, dispondo uma travessa encostada n'agua, sobre a qual as incautas e sequiosas pombas vão pousar afim de saciar a sede. Pousam ali aos montões, aos milhões! Introduzem n'agua o bico até acima dos olhos; tal é o afã, a ansiedade com que elas pousam para beber!

Aquela turba multa não se apercebe que as suas companheiras estão desaparecendo, logo após! O homem, que está escondido na espera ou barraca, metido n'agua, que as pombas vão beber, vai puxando-as pelo bico e estrangulando-as, em tamanha quantidade, que, em um quarto de hora, já tem juntas mais de um milheiro!

Quando julgam já ser bastante, saem do esconderijo e vão prepara-las para o seu sustento e da família; mas, como sobra, em demasia, depois de salgadas, expõem-nas ao secar ao sol. Depois de bem enxutas, levam-nas em cargas e mais cargas aos mercados para vende-las. Negociantes ha que as compram em tanta quantidade, ao ponto de encherem armazéns até ao teto. É o refrigério da pobreza, é o maná, que Deus envia para sustento d'aquela onda sem conta de flagelados, que a grande seca os reduziu à miséria!

Na grande seca de 1845, a Câmara Municipal de Quixeramobim, vendo o nome d'essas aves não lhe soava bem, entendeu de reunir-se em sessão especial, e determinou, sob pena de prisão, que d'ali em diante fossem chamadas “avoantes”, nome pelo qual são elas hoje conhecidas, em todo Ceará. 

(Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará, págs. 22 a 24)


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

HISTÓRIA EXTRAORDINÁRIA



O Super-Homem de Quixeramobim

No distante ano de 1921 foi publicado um interessante opúsculo intitulado Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará (128 páginas numeradas), da autoria do  Professor João Gonçalves Dias Sobreira, editado no Rio de Janeiro pela Typographia Desembargador Lima Drummond. Seu autor foi um professor primário e telegrafista, nascido no Crato, que cursou o seminário da Prainha, em Fortaleza, até a altura dos estudos teológicos. Segundo o Barão de Studart (Diccionário Bio-bibliográfico Cearense) foi professor do Liceu do Ceará. Em 1893, desgostoso com o magistério, transferiu-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde prestou concurso e exerceu o ofício de telegrafista.



É autor de várias obras didáticas, inclusive de uma Simplificação da Grammatica Portugueza, de 1885, aprovada pela Secretaria da Instrução Pública do Ceará e de uma Geographia Especial do Ceará, adotadas para servirem de compêndio pelas escolas do Estado. Nesse livreto de 1921 encontra-se essa história impressionante (páginas 15 a 19), a respeito de um homem que tinha uma força descomunal e quebrava metais com os dentes. Quando menino ouvi referências a essa história, nas conversas narradas por meu avô Mané Lima... Vejamos:


FORÇA PRODIGIOSA

Na comarca de Quixeramobim vivia uma família meio abastada, cujo chefe chamava-se Borges Gomes, casado e tendo três filhos varões.
Uma noite o velho chamou os seus dois filhos mais velhos e ordenou que, no dia seguinte, pela manhã, levassem uma junta de bois a um certo lugar e de lá trouxessem um pau, afim de fazer d'ele um coxo para a casa de farinha.
Com efeito, pela manhã, os dois rapazes pegaram os bois, meteram-nos em um carretão e seguiram para o lugar indicado. Lá estava o tronco, tão grosso e pesado que os bois não o puderam arrastar. Depois de empregarem todos os esforços, desligaram-no do carretão e voltaram sem o levar, dizendo que os bois não puderam com ele.
O filho mais moço, que se achava presente, na ocasião, disse:
Deixem que eu vou buscar o pau. E saiu.
Todos tomaram aquele dito por mera brincadeira.
Mas, qual não foi o assombro e pasmo de todos, quando, algumas horas depois, voltava Bernardo  (assim chamava-se ele) com o pau ao ombro e o lançara ao terreiro da casa, dizendo:
Está aqui o pau.
Todos acorreram a ver o que se passava, exclamando:
Isto é arte do diabo! Não é possível que um menino tenha mais força do que dois bois!
É o diabo!
Gritavam todos! É o diabo!
O velho, tomado de terror, disse com voz espavorida:
Ponha-se fora de minha casa! Eu não quero o diabo aqui!
O pobre mocinho sem culpa, mas obediente, saiu sem destino. Corria o ano de 1872. Algum tempo depois chegou ele a Fortaleza e uma vez ali, divertia-se em praticar algumas proezas admiráveis, que lhe mereceram a alcunha de mandingueiro ou feiticeiro.
Partia ele com os dentes uma moeda de cobre, tirando dela quantos pedaços quisesse. Um dia dirigiu-se ele à loja do Sr. Antônio Gonçalves da Justa e perguntou se tinha machados “Califórnia”.
Eram uns machados americanos, conhecidos por este nome, cujo aço era tão polido que podia servir de espelho. O caixeiro afirmou que sim.
O moço disse: Quero ver e quero bom.
O caixeiro apresentando-lhe o machado, respondeu-lhe o freguês:
Ah! Este não presta: é de cera.
Disse o caixeiro:
Qual de cera! Você não encontra melhores.
O sertanejo continuando a afirmar que era de cera, interviu o patrão e disse que o machado era verdadeiro Califórnia, não existiam melhores.
Afirmo que este machado é de cera; e, si o senhor duvida eu tiro um pedaço com os dentes.
Tire lá, disse o patrão.
O nosso desconhecido, levou o machado á boca e arrancou dele um grande pedaço, deixando-o inutilizado e o patrão e caixeiro pasmados pelo que acabavam de presenciar!
O rapaz saiu deixando-os atônitos, a se olharem sem dizer uma palavra!
O nosso mandingueiro vagou algum tempo pela capital e seus arredores e desapareceu.
Passaram-se os anos, quando manifestou-se a grande e terrível seca de 1877 a 1879. Começa a capital a encher-se de emigrantes famintos e o nosso Bernardo fazendo parte deles, a exibir as suas mandingas, que o povo as tinha como sendo arte do maldito! Arte diabólica!
Já para o fim da seca, o governo que fornecia gêneros em abundancia, começou a escassear; e, para diminuir a população de emigrantes na capital, o Presidente os mandou acampar em Parangaba, oito quilômetros distante dali. Lá estavam eles debaixo do cajueiral, abrigados por palhoças de ramos das arvores.
Uma tarde ouviu-se o apito da locomotiva, que ia da capital.
O povo, na esperança que o trem conduzisse gêneros, acorreu para a estação.
Chegou o trem e nada levou.
Este facto desagradou os emigrantes; e o nosso mandingueiro, que se achava entre eles, disse, referindo-se ao trem:
Pois este diabo não sai daqui, que eu não quero; e aproximou-se da traseira do ultimo vagão.
Alguns minutos depois, a sineta deu sinal de partida. A locomotiva apitou, dando assim o ultimo sinal. Os emigrantes, que esperavam um fiasco da parte do Bernardo, ficaram atentos ao lado do mandingueiro.
Ao terminar o segundo apito, o maquinista deu movimento e as rodas entraram a mover-se, mas como um motor fixo!
Isto causou grande surpresa em todos: ao maquinista, passageiros e aos circunstantes. Parado o movimento estático da locomotiva, todos deixaram seus lugares, ansiosos por saber a causa.
Tudo examinado, nada encontrou de anormal o maquinista. Segunda tentativa, o mesmo fenômeno reproduziu-se. Os emigrantes, vendo que o trem não andava, disseram:
Bernardo, deixa o trem ir embora!
Bem, respondeu ele: Vai-te, diabo!
E, soltando a traseira do último vagão, que ele segurava com uma das mãos, o trem deslizou sobre os trilhos e desapareceu na linha, no meio de uma quantidade, sem conta, de palmas e gritarias dos emigrantes!!
E diziam:
É danado mesmo o diabo deste mandingueiro!!
Nunca pensei que ele fizesse isto! Dizia outro.
Esse excepcional sertanejo, dotado, pela natureza, de um dom tão prodigioso e extraordinário, nunca se utilizou dele, em proveito próprio, senão para se divertir e atrair sobre si o mau pensar dos ignorantes, supondo ser arte diabólica aquele dom natural, do qual nunca se aproveitou, podendo ter-se locupletado e enriquecido!
Morreu pobre e miserável, levando para a sepultura somente a alcunha de mandingueiro, que o povo lhe dera.

"E digam os sábios da Escritura,
Que segredos são esses da Natura".

In SOBREIRA, J. G. Dias. Curiosidades e factos notáveis do Ceará. Rio de Janeiro: Tipografia Desembargador Lima Drummond, 1921.