sábado, 16 de março de 2019

FÉ DEMAIS...



Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, Praça José de Alencar, Fortaleza-CE.


ESTRANHA CONVERSA DE DOIS "CRISTÃOS" 
NA PORTA DE UMA IGREJA


Ontem dei uma passadinha na Igreja do Patrocínio, na Praça José de Alencar, templo que espaçadamente frequento desde que passei a residir por essas bandas, para uma breve conversa com Deus e com meu Anjo da Guarda. Como de costume, peço PAZ, SAÚDE e PROTEÇÃO para mim e para os meus. E em seguida agradeço as graças que tenho recebido.
Ao pisar no batente do templo vetusto, deparei com dois idosos bem vestidos, que conversavam aos berros, dirigindo impropérios aos moradores de rua que pedem esmolas ou praticam pequenos furtos naquele logradouro, desejando-lhes uma morte violenta e cruel:
— O governo devia matar ‘tudim’ e depois tocar fogo nessas desgraças!
E o outro acudiu, de pronto:
— A culpa é do Lula, que colocou o País nesse estado de miséria.
O primeiro, concordando plenamente com o segundo, retrucou, elevando o tom de voz para que todos o ouvissem:
— Ainda bem que a Justiça foi feita e aquele amaldiçoado vai morrer na cadeia! Já pegou mais de sessenta anos de prisão.
Percebendo que eu os fitava com espanto, fizeram uma expressão de ódio incontido e me fuzilaram com os olhos, como quem desafia dizendo:
— Achou ruim?




Achei, mas fiquei calado, porque discutir com esse tipo de gente é a mesma coisa que atirar pedras na lua. É mais fácil receber gentileza e afagos de um cão pit-bull... E saí dali refletindo sobre o Evangelho de Mateus.



Evangelho segundo S. Mateus 25,31-46.

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença, e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; Não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’.
Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’.
E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’.

 E, por conta desse episódio ocorrido ontem, dia 15 de março de 2019, às dez e meia da manhã, na Igreja do Patrocínio, escrevi este soneto:


A VIRTUDE DO PECADO

Não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’.

O pecado se torna uma virtude
Quando afronta a cruel hipocrisia
De quem finge ser criatura pia
E contudo, nem a si mesma ilude.

Tenho visto hipócrita amiúde
Condenando, por pura aleivosia,
Criticando de forma doentia,
Desejando ver alguém no ataúde.

Ontem mesmo, na porta de um templo
Vi um torpe hipócrita desejando
Uma morte cruel a um semelhante.

De Jesus jamais segue o bom exemplo
Vi a cena e saí dali pensando:
— Como faz falta ao INFERNO de DANTE!

Arievaldo Vianna
16.03.2019


CONCLUSÃO: Democraticamente falando, acho que todos têm o sagrado direito de defender o seu ponto de vista, por mais equivocado que possa parecer. O que eu não admito, nem Jesus admitia, é a hipocrisia desses fariseus que ele chamava de "raça de víboras". Se pensa desse modo, não se proclame CRISTÃO nem faça esse tipo de prédica na porta de uma igreja.

quarta-feira, 13 de março de 2019

NO ANIVERSÁRIO DO CONSELHEIRO


CAPA: ARIEVALDO


Há cento e oitenta e nove anos nascia ANTÔNIO CONSELHEIRO. Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Vila Nova de Campo Maior (Quixeramobim), a 13 de março de 1830 — e faleceu em Canudos-BA, a 22 de setembro de 1897. Ficou conhecido na História do Brasil como Antônio Conselheiro, que se autodenominava "o peregrino", foi um líder religioso brasileiro.

Figura carismática, adquiriu uma dimensão messiânica ao liderar o arraial de Canudos, um pequeno vilarejo no sertão da Bahia, que atraiu milhares de sertanejos, entre camponeses, índios e escravos recém libertos, e que foi destruído pelo Exército da República na chamada Guerra de Canudos em 1896.

A imprensa dos primeiros anos da República e muitos historiadores, para justificar o genocídio, retrataram-no como um louco, fanático religioso e contrarrevolucionário monarquista perigoso.

O primeiro folheto de cordel publicado sobre a Guerra de Canudos foi escrito pelo poeta paraibano  João Melchíades Ferreira da Silva, que participou da luta como militar e, naturalmente, defende a versão divulgada pelo Exército Brasileiro. Posteriormente outros poetas retornaram ao tema, fazendo a defesa de Conselheiro e sua gente. Caso do poeta Geraldo Amâncio, que fez um livro magistral. O trabalho mais recente foi escrito por ARIEVALDO VIANNA e BRUNO PAULINO e retrata duas facetas pouco exploradas do beato ANTÔNIO DOS MARES, O PEREGRINO: a visão sebastianista e a sua fama de milagreiro.

Vejam alguns trechos:

Nós vamos contar um fato                       
Que dizem ser verdadeiro
Ocorreu em Monte Santo     
Com um Santo Brasileiro,
(Tudo em versos, se me entendes):
Antônio Vicente Mendes
Maciel,  O Conselheiro.


O poeta popular
Sempre amplia seus estudos
Buscando novas matérias
E melhores conteúdos;
Depois de leituras tantas
Encontramos Paulo Dantas,
E um livro sobre CANUDOS.


Num dos capítulos do livro
Que é “O CAPITÃO JAGUNÇO”
Deparamos com uns fatos
Cujo relato esmiunço
Da fama de milagreiro
Que Antônio Conselheiro
Tinha antes do “furdunço”.


Nessa peregrinação
Passou por muitos lugares
Fazendo igrejas, capelas,
Levando conforto aos lares
Quando o beato pregava
Muita gente o chamava
De Santo Antônio dos Mares.


Antônio Vicente tinha
Uma visão humanista
Pregou contra a escravidão
Com sólido ponto de vista
Devido a esses sermões
Fundou naqueles sertões
Um reino Sebastianista.


Sebastião, o Desejado
Foi um rei de Portugal
Que promoveu uma cruzada
No meio de um areal;
Na batalha se perdeu
Nunca mais apareceu
Foi um drama sem igual.

(...)

LANÇAMENTO EM BREVE, NO CARIRI CANGAÇO

Por e-mail, o professor Gilmar de Carvalho, grande estudioso da cultura popular nordestina, em especial do CORDEL, nos felicitou pela iniciativa:

" Arievaldo e Bruno,

Gostei da ideia de vocês, fazerem um cordel a quatro mãos. O tema não poderia ter sido melhor escolhido. Conselheiro será sempre uma referência. Ótimo que tenham lançado o cordel no dia 13 de março, aniversário do beato. A edição está bem cuidada, com ilustrações do Jô, do Poty e do Arievaldo. Estamos recuperando o tempo perdido. Nenhum cearense escreveu sobre Canudos no calor da hora. Os primeiros folhetos serão tardios.  Este cordel, no entanto, traz a escrita para o sertão de Quixeramobim, atualiza e mantém o tema em evidência. 

Tudo de bom, abraços para vocês.
do amigo Gilmar"


segunda-feira, 11 de março de 2019

A ARTE DE JÔ OLIVEIRA

ANTÔNIO CONSELHEIRO E O SEBASTIANISMO



Duas ilustrações do amigo e parceiro Jô Oliveira, um dos maiores ilustradores desse país.


quarta-feira, 6 de março de 2019

SONETO DAS CINZAS




O VOO DA MORTE

Na parede dos fundos da bodega
Na brancura da cal toda lavada
A rolinha que voava, encandeada,
Cai ferida, ensanguentada e cega.

Ouço a voz animada de um colega
De brinquedos, comigo na calçada:
— Já que nunca as mataste em caçada
Aproveita, come esta, vamos, pega!

Fui menino e não tive a mão certeira
Se algum dia atirei de baladeira
Não me lembro de acertar u’a pedrada.

Pego o pobre pássaro e considero:
— Hoje é quarta de Cinzas, eu não quero.
Saio mudo, dali, não digo nada.

Arievaldo Vianna



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

SAIU NO DN



Capa do Caderno VERSO, do DN




Patativa, xilogravura de Arievaldo Vianna

Patativa do Assaré:
110 anos de palavra viva

Por Melquíades Júnior

Há 110 anos nascia Antônio Gonçalves da Silva, poeta magistral sertanejo que, na forma de Patativa, versou as verdades dos muitos brasis de universal Nordeste. Respeitado por sua genialidade, faz menos falta do que devia, pois sua palavra é viva


A casa onde nasceu Patativa, na Serra de Santana, traz relíquias da história do poeta
Foto: Melquíades Júnior
"Vão na frente que eu vou atrás. Levando as traia". Era o fim da meia-jornada. O agricultor brocou cedo a terra. Saiu cedinho, quando o sol entrou. Belinha coou o café pra viagem do marido com os filhos até o pedaço de roça. Quem vive no sertão brabo de enxada na mão não tem tempo de sentar. A depender do destino, o chão batido vira mesa, cama e até altar, envolto pelo roçado. Sertão só sabe quem vive. Chover é dúvida. Certeza, só na fé. Planta sem saber.
Mas perto da hora do almoço junta tudo, todos, e vai embora.
Inês é encucada:
- Pai toda vida só vai atrás da gente, sozinho. Num quer ir junto, diz, olhando pra trás e vendo o silêncio.
Em menos de meia-légua de pisada no chão da Serra de Santana, Antônio, atrás, parece que voa. Tá ali, mas não tá.
No fim de tarde, todo mundo bota as cadeiras pra fora. A calçada dá justo pro sol, que vai embora. Ele desce e os mosquitos sobem. Mas quem vive no sertão não tem casca fina.


Ilustração: Arievaldo Vianna


Encadeando palavras
Antônio convoca atenção e diz uns dizeres falados como se estivesse cantando. Uma frase atrás da outra. Uma palavra que combina com outra duas frases depois. Eram versos e rimas. "As corra mair linda".
Nesse tempo, o pai já soltava poesia, só não sabia de onde vinha, mas o dia dela saber chegaria.
"Eu nasci ouvindo cantos/ Das aves de minha terra/ E vendo os lindos encantos/ Que a mata bonita encerra/ Foi ali que fui crescendo/ Fui lendo e fui aprendendo/ No livro da Natureza/ Onde Deus é mais visível. O coração mais sensível/ E a vida tem mais pureza".
- De onde pai tira tudo isso?
- É Deus que manda.
Foi daí que Inês percebeu: o pai andava atrás pra ter tempo com o divino. Devia sussurrar no seu ouvido, soprando palavras de semente. No tempo de chegar em casa, crescia e dava fruto. Essa era uma colheita certa.
Desce do céu, sobe a serra
Deus visitando onde quase ninguém vai. Um pedacinho da Serra de Santana, prima pobre, comprida e alta de Assaré. Nunca se lembram dela, a não ser em tempo de eleição. A vantagem, dizem os de lá, é que no outro tempo é menos gente perturbando.
Hoje, o desassossego é outro e bom: "mei mundo de gente vem aqui conhecer onde pai nasceu", diz Inês Batista. Pai é Antônio. E se antes, quem quisesse saber dele, perguntava por Senhorzinho, hoje em dia é só Patativa. Patativa do Assaré.
Se ele já tinha um tempo com Deus, sua morte foi reencontro. Não antes de ver a fama. Primeiro, a de perto, nas andanças pelo Cariri. Depois, bem longe.
Rodou pelas bandas do Norte, conheceu outros Nordestes. Mas foi a radiofonia sua internet. Ouvidos eram atentos à sua passagem pela Rádio Araripe, no Crato. José Arraes era um. Homem importante dos lados de Pernambuco, irmão de Miguel Arraes, este que virou governador daquele Estado. Atento às pelejas sertanejas, criou em sua gestão dois programas para o homem do campo: Vaca na Corda, para financiar gado, e o Chapéu de Palha, pra ajudar o agricultor na entressafra.
Pois foi Zé, irmão de Miguel, um dos grandes financiadores ao primeiro livro do poeta: Inspiração Nordestina (1956), aos 47 anos. Dali já corria mais longe o canto sertanejo. Luiz Gonzaga ouviu no rádio Patativa com João Alexandre, outro artista popular. Queria comprar aquela letra e foi ter com autor, mas o poeta não é de vender.
"Triste Partida" ganhou o mundo na voz do "Rei do Baião". Era retrato do sertanejo retirante nordestino. Viajantes da esperança, ainda que pobreza ambulante. No rincão seco, vai sem querer. Fome é a precisão, Deus é o guia.

Setembro passou/ outubro e novembro/ Ja tamo em dezembro/ Meu Deus, que é de nós?.

Virou hino. Quem vê hoje, pensa que a fama lhe percorreu toda a vida. Mal sabem que, bem dizer chamado 'velho', era um poeta popular pouco reconhecido em suas próprias beiras. Sentava no banco da praça que dá para a Igreja de Nossa Senhora das Dores, em frente de casa. Passava a tarde ali, matutando o tempo (ou com o divino).
Jaqueline, filha de Araci, fez por muito tempo os encarregados dele. Morando no lado oposto da praça, estava sempre a postos pra acompanhar o poeta onde precisasse. Um pagamento, pegar remédio ou dar notícia do que se passa na cidade pequena, mas cheia de histórias. Era mulher de confiança. Serviu-lhe até casar e partir. E fazer falta.

FONTE: Caderno VERSO | DN 
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/editorias/verso/patativa-do-assare-110-anos-de-palavra-viva-1.2067055

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

SAIU NO "ESTADÃO"



Em domínio público, obra de Monteiro Lobato

não deve ser reescrita

Reescrever qualquer parte da obra de Lobato seria 

como fechar o abraço do Cristo Redentor


J. Roberto Whitaker Penteado*, Especial para o Estado

O escritor brasileiro José Bento Monteiro Lobato faleceu em 1948. Decorrem, assim, neste ano, 70 anos de sua partida do mundo dos vivos e - de acordo com a nossa legislação sobre direitos autorais - toda a sua obra passa a ser de alguma coisa chamada “domínio publico”.




Ilustração da personagem Tia Nastácia, protagonista 
de algumas polêmicas sobre Monteiro Lobato

Não é a primeira – e certamente não será a última vez que isso acontece. As obras de muitos outros autores brasileiros e estrangeiros já passaram por isso, e vêm à memoria, rapidamente, nomes como Machado de Assis, Mario de Andrade, José de Alencar, Euclides da Cunha, John Steinbeck, Scott Fitzgerald, Mark Twain, Robert L. Stevenson, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Emile Zola, Maupassant, Stefan Zweig, Kafka, Tolstoi, entre muitos outros...
Só que parece estar ocorrendo, com o nosso Lobato – considerado, com todo mérito, como um dos mais importantes autores de literatura infantil em todo o mundo – um fenômeno bastante inusitado: de acordo com diversas matérias e entrevistas recentemente publicadas pela nossa imprensa, anuncia-se que os seus textos deverão passar por verdadeiras e concretas correções, alegadamente para que se tornem palatáveis às gerações atuais e futuras de jovens leitores. Ou, em outras e mais claras palavras: serão alterados para tornarem-se politicamente corretos...
E não se trata - como se poderia pensar inicialmente - de uma adaptação ou extensão das narrativas ou dos conhecidos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, para histórias em quadrinhos, peças de teatro, programas de televisão ou desenhos animados. Isso já vem ocorrendo, há bastante tempo, em todo o mundo - e os especialistas em Lobato concordam que essas "liberdades" não prejudicaram o legado cultural do autor. Em certos casos, até contribuiram para que as suas criaturas e as obras fossem mais difundidas, recomendadas nas escolas e lidas por um contingente maior de pequenos leitores.


Ilustração: NINO

O que me incomoda é que se fala - e se discute publicamente com desembaraço - em modificar ou cortar ou modificar, no texto original, todas as passagens que possam ser consideradas "racistas", como, por exemplo, as frequentes malcriações da boneca Emília com a sua “fazedora”, a negra, filha de escravos, Tia Nastácia. A Tia quase que aparece em pessoa, turbante e avental, como personagem do famoso filme E o Vento Levou (1939), na figura de Mammy, a empregada da mansão dos O'Hara, que valeu à atriz Hattie McDaniel o primeiro Oscar outorgado a uma pessoa de raça Negra... ou "afro-americana".

Narizinho, ou Lucia - a menina do nariz arrebitado (talvez deficiente física, por isso?) - é criticada por aparecer, (nas inesqueciveis ilustrações de Voltolino, Belmonte e J. U. Campos), segundo os críticos, "como uma inglezinha" - quando Lobato (argumentam) a teria descrito como de pele negra, ao escrever que se rosto tinha a cor do jambo...


Ilustração de Jô Oliveira


Já o garoto Pedrinho, para esses novos críticos, é considerado como um personagem sem graça, de segunda classe, "porque Lobato não gostava de meninos" (sic). Pode-se argumentar que o autor quis reviver, na figura de Pedrinho, sua convivência, na infância, com duas irmãs, Ester e Judite...

De fato, Pedrinho é dos poucos personagens masculinos do Sítio. Mas, longe de ser o que se chama hoje de “machista”, Lobato foi precursor do atual feminismo, ao entregar a liderança do Sítio à avó sábia, Dona Benta, que tudo administrava com Nastácia. A inegável estrela da obra é também feminina: a boneca Emilia, “feita” de panos e trapos pela boa Tia e através de quem ML exprimia as idéias criativas e iconoclastas do seu próprio alter ego. São do gênero masculino, contudo, dois nobres: o Visconde de Sabugosa e o Marquês de Rabicó; sem esquecer o sempre ponderado burro Conselheiro e o fortudo Quindim, o rinoceronte.

Certamente espero que a entrada em domínio público das obras deste grande brasileiro, multifacetado que foi: escritor, jornalista, pintor, empreendedor, diplomata, crítico de arte, editor, publicista e agitador (no bom sentido, de causas geralmente nobres, como o desenvolvimento das nossas produções de ferro e petróleo) venha a resultar em muitas novas edições de suas obras, tanto a literatura infantil como as de ficção, os ensaios, entrevistas, ensaios e palestras – e uma maior difiusão de suas ideias, muitas das quais anda de grande atualidade para o Brasil e os brasileiros, nos momentos difíceis que vivemos.

Mas sem censurar ou mexer em uma vírgula sequer dos mais de 50 livros e quase 100 traduções que publicou, entre 1914 e 1948. Reescrever qualquer parte da obra de Lobato seria como reformar Brasilia, transformar a Asa Branca em Asa Negra ou fechar o abraço do Cristo Redentor.

*É AUTOR DE 'OS FILHOS DE LOBATO' (ED. GLOBO)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CENTENÁRIO DO REI DO RITMO



Jackson do Pandeiro a caminho dos 100 anos

Quem visita Alagoa Grande, situada na região do brejo paraibano, Serra da Borborema, não pode deixar de visitar um casarão azul construído em 1898, na Rua Apolônio Zenaide, centro da cidade. No prédio está a memória e os restos mortais de um dos artistas mais representativos da cultura brasileira: José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro.


O Memorial Jackson do Pandeiro, criado em 2008, possui um grande acervo composto por discos, documentos, vestimentas, imagens e os indefectíveis chapéus usados pelo cantor, que nasceu em 31 de agosto de 1919 e morreu em Brasília, em 10 de julho de 1982.
 “O memorial já foi visitado por mais de 100 mil pessoas vindas de várias partes do país. “Foi um artista que nunca cantava duas vezes uma música da mesma maneira, sabia dividir os compassos da música nordestina com maestria”, afirma o jornalista e historiador da música brasileira Rodrigo Faour, curador da recém-lançada caixa Jackson do Pandeiro — O Rei do Ritmo (Universal Music).

 “Há anos, eu queria relançar esse repertório. Quando a Universal veio com essa ideia, eu, na mesma hora, vesti a camisa e revisei o levantamento que eu já tinha feito. Pedi ajuda a alguns amigos e cheguei à seleção final”, destaca Faour sobre a obra com clássicos como Chiclete com banana e O canto da ema.

Em entrevista, o pesquisador lista os empecilhos que teve de enfrentar para a composição da caixa que contém 235 músicas. Ao todo, são 15 discos agrupados em nove CDs. Esses álbuns (compactos e long plays) foram lançados originalmente nos anos 1960 e 1970.
 “Esbarrei com um monte de problemas: canções não editadas, autores falecidos, autores que não deixaram herdeiros oficiais, capas originais dificílimas de conseguir... Por isso demorou anos e anos para a caixa sair”, lamenta.



Fonte: http://www.neyvital.com.br/2016/08/31-de-agosto-jackson-do-pandeiro.html