quarta-feira, 5 de junho de 2013

FESTAS JUNINAS


 
Chegou o mês de junho! Mês que o povo Nordestino costuma chamar também de 'fins d'água', período em que os primeiros frutos da safra são colhidos (quando há bom inverno). Época em que se realizam as famosas FESTAS DO MILHO. Luiz Gonzaga, nosso cancioneiro maior, dedicou boa parte de seu repertório à louvação dos três santos festejados nesse período: Santo Antonio, São João e São Pedro. Aliás, as festas juninas continuam sendo o maior suporte do forró tradicional aqui no Nordeste. As quadrilhas andam meio descaracterizadas, as bandas de forró estão fazendo uma música descaracterizada, mas a alegria permanece. Mês de junho é motivo de alegria!
Para os fãs do verdadeiro forró nordestino e da boa música junina, a partir de hoje faremos postagens relacionadas ao cancioneiro de Gonzagão, Marinês, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Severino Januário, Zé Gonzaga e outros artistas nordestinos que contribuíram para abrilhantar essa grande festa do povo Nordestino.
 
Jackson do Pandeiro e Almira Castilho trajados a rigor para os festejos de São João.
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

90 ANOS DO PAVÃO MISTERIOSO

No blog CORDEL ATEMPORAL, do poeta Marco Haurélio, encontramos a seguinte notícia: 2013 marca os 90 anos do maior êxito da literatura de cordel brasileira: o Romance do Pavão Misterioso, de autoria de José de Camelo de Melo Resende.*
 
A data passaria em branco não fosse o empenho do pesquisador e apologista José Paulo Ribeiro, de Guarabira (PB), e do professor e historiador Vicente Barbosa, idealizador da 1ª Exposição de Cordel de Guarabira, chamando a atenção para a importância deste gênero literário para o município, berço de grandes cordelistas e cantadores. 
O texto abaixo, de Vicente Barbosa, conta um pouco dessa história começada pelos idos de 1923:
 
"Preservar e divulgar as riquezas das Tradições Populares configura-se em um sentimento que deve ser exaltado por cada povo, como forma de garantir a sobrevivência e a plenitude de sua própria identidade. O Nordeste brasileiro é destaque quando se trata do tema Cultura Popular e suas diversas formas de manifestações, dentre elas destacamos a Literatura de Cordel.


Essa forma de narrativa oriunda da Península Ibérica, que aqui chegou pelas mãos dos colonizadores portugueses, ganhou alma e corporificou-se através dos Folhetos de Cordel, que, viajando de mão em mão,  espalhou-se por toda Região Nordeste levando em seu conteúdo os mais variados e múltiplos temas como: o amor, o ódio, a vingança, a tragédia, a religiosidade, o cangaço, as crenças e seus mistérios.
 
Dentre todos os Cordéis até hoje impressos, um deles teve destaque e, e tornou-se um grande best-seller do gênero. Trata-se do Romance do Pavão Misterioso, obra do cordelista guarabirense José Camelo de Melo Rezende (1885-1964) que ganhou fama no Brasil e no Mundo. O Romance do Pavão Misterioso já foi adaptado para o Teatro, Cinema, Literatura, Música e Televisão, com seu texto simples, aliado à fluência dos versos e às referências aos contos das Mil e Uma Noites alcançou a espantosa tiragem de mais de dez milhões de cópias, vendidas em todo o País.
 
Neste ano de 2013 a obra completa exatos 90 anos desde a sua primeira edição, datada de 1923. Aproveitando o ensejo e reconhecendo a importância histórica da data, o Serviço Social do Comércio - SESC, na Paraíba, presta uma justa homenagem através da realização da 1ª Exposição de Cordel de Guarabira, uma vez que esta cidade detém o orgulho de ser berço de nascimento do Autor e da Obra. Parabéns ao Pavão Misterioso, glória e honra de nossa Literatura popular."
 
 
* Há uma versão reescrita por João Melchíades Ferreira que tornou-se a mais popular. O original de José Camelo era publicado com 40 páginas. O maior clássico do cordel é também o pivô da maior polêmica desse gênero literário no Brasil.
 
SAIBA MAIS SOBRE ESSA FAMOSA POLÊMICA DA LITERATURA DE CORDEL, AQUI MESMO, NO BLOG ACORDA CORDEL: http://acordacordel.blogspot.com.br/2012/02/maior-polemica-do-cordel.html

segunda-feira, 3 de junho de 2013

CORDEL NO JORNAL 'O ESTADO DE SÃO PAULO'

'História de Juvenal e o Dragão', de Leandro Gomes de Barros e Eduardo Azevedo (Editora Volta-e-Meia) Reprodução

segunda-feira, 27 de maio de 2013

CERVANTES EM CORDEL


 
A LITERATURA DE CORDEL NO BRASIL
VAI MUITO BEM, OBRIGADO!

 
Célia Navarro Flores
Universidade Federal de Sergipe
 

O crítico literário Díaz-Maroto, em seu livro Panorama de la Literatura de Cordel española, de 2000, diz que a literatura de cordel desapareceu na Espanha por volta dos anos 70 e, em Portugal, por volta dos anos 80, e que, "no Brasil continua relativamente viva nos noventa; assim é possível que conheça o século XXI". Felizmente, nosso cordel chegou ao século XXI e com muita vitalidade, graças à iniciativa de cordelistas que não apenas produzem cordel, mas que lutam por sua sobrevivência.
Nesse sentido, devemos parabenizar a iniciativa da criação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), a qual congrega cordelistas de todas as partes do Brasil. Dirigida pelo simpaticíssimo mestre Gonçalo Ferreira, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, a academia comercializa cordéis e mantém um vasto acervo, parte do qual já está catalogado.
Outro fator que contribui para a divulgação e sobrevivência de nosso cordel é a mudança na perspectiva da produção cordelística no Brasil, que se observa atualmente. Embora ainda existam os poetas de corte tradicional, ou seja, aqueles oriundos do campo, que produzem um cordel bastante popular, hoje há uma nova geração de cordelistas: homens letrados, que além do cordel, exercem outras atividades como o jornalismo, a propaganda etc. Os pontos de vendas dessas obras também se diversificaram. No nordeste, ainda são encontrados os folhetos pendurados em barbantes, vendidos em praças e feiras populares. Entretanto, hoje, eles podem ser adquiridos também nas livrarias locais ou nas virtuais. Com essa nova geração de cordelistas, o formato dos folhetos também mudou. Hoje, ao lado dos folhetos tradicionais, encontram-se cordéis em edições de luxo, profusamente ilustrados, em formatos maiores. Outra mudança interessante foi com relação à função dos cordéis e seu público alvo. Se antes os cordéis tinham apenas a função de entretenimento e eram destinados ao público em geral ‑ muitas vezes, pouco letrado ‑, hoje, além dessas atribuições, ele passou a ser pensado e utilizado como recurso didático nas escolas brasileiras, destinado a um público infanto-juvenil, o que levou os cordelistas a adaptar grande quantidade de obras literárias brasileiras e estrangeiras para a literatura de cordel, como, por exemplo: Memórias póstumas de Brás Cubas e O alienista, do escritor brasileiro Machado de Assis, A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, As aventuras de Robson Crusoé, de Defoe, Os miseráveis, de Vitor Hugo, Dom Quixote, de Cervantes, entre muitos outros.
Ao lado da criação da ABLC e da mudança na perspectiva de produção do cordel, há um terceiro elemento que pode ser considerado um propagador da literatura cordelística: o pesquisador; a publicação de artigos e a apresentação de comunicações em congressos sobre tema relacionado ao cordel colaboram para sua valorização. Em algumas universidades brasileiras já podemos encontrar estudiosos do tema.
A Península Ibérica pode até não produzir mais literatura de cordel, mas deve-se reconhecer que há um esforço para preservação dos folhetos existentes e para colocar esse acervo à disposição de pesquisadores, principalmente na Espanha. No Brasil, ainda há grande dificuldade em conseguir os cordéis. A ABLC, por exemplo, não disponibiliza ainda o catálogo de seu acervo, tampouco as bibliotecas públicas das cidades nordestinas, nas quais, geralmente, há uma seção de cordéis. Um acervo digitalizado, entretanto, pode ser encontrado no site do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro.
Meu interesse pelo cordel surgiu, inicialmente, quando, já morando em Aracaju, deparei-me com alguns cordéis com tema cavalheiresco, com personagens da história de Carlos Magno e os doze pares de França. Pareceu-me inacreditável que tais personagens sobrevivessem no Brasil. Posteriormente, encontrei dois cordéis sobre o Quixote, de Cervantes, livro que foi meu objeto de estudo no mestrado e doutorado. Porém, meu interesse definitivo pelo cordel foi despertado pela leitura do Romance d'A pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de Ariano Suassuna. Em 2010, iniciei um projeto sobre Cervantes na obra de Suassuna e li muito sobre o escritor paraibano e sua obra. Em meados do ano passado, iniciei uma pesquisa sobre o Quixote na literatura popular. Minha intenção é estudar essa obra na literatura de cordel espanhola e na brasileira. Entretanto, como 2013 é o ano em que se comemoram os 400 anos das Novelas Exemplares, de Cervantes, decidi ampliar minha pesquisa: além do Quixote, resolvi investigar também as Novelas Exemplares na literatura popular.
O livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha, mais conhecido no Brasil como Dom Quixote, foi escrito por Cervantes em duas partes: a primeira publicada em 1605 e a segunda em 1615. Na época, a obra foi considerada cômica e seus personagens obtiveram grande sucesso, tanto que nas festas mascaradas apareciam pessoas fantasiadas de Dom Quixote e Sancho Pança, os protagonistas da obra. Temos notícias de um primeiro "pliego suelto" (como se chamavam os cordéis na época) datado de 1657, de autor anônimo, no qual dialogam Dom Quixote e Sancho.
No Brasil, em 2005, em comemoração aos 400 anos da primeira parte do Quixote, foram publicados dois cordéis sobre a obra: As aventuras de Dom Quixote em versos de cordel, de Klévison Viana, ilustrado pelo próprio autor, e Dom Quixote em cordel, de J. Borges, com ilustrações de Jô Oliveira. Trata-se de duas edições comemorativas, de luxo, em formato grande. Ainda não nos debruçamos sobre essas obras para uma análise mais detida; por isso, por enquanto, vamos nos limitar a tecer alguns comentários sobre as adaptações das Novelas exemplares, para as quais dedicamos dois artigos, que ainda estão no prelo.
As Novelas exemplares foram escritas por Cervantes em 1613. Trata-se de doze contos, os quais foram publicados integralmente, no Brasil, apenas em 2012, pela editora Arte e Letra. Todas as edições brasileiras anteriores são incompletas. Assim como o Quixote, alguns contos dessa obra de Cervantes foram adaptados, na Espanha, para a literatura de cordel, isto é, para ser vendido em "pliegos sueltos" (expressão que poderíamos traduzir por "folhas soltas" ou "folhas avulsas"). Encontrei uma referência a três contos publicados no século XIX: A espanhola inglesa (1847), A ciganinha (1863) e A senhora Cornélia (1863).
 
No Brasil, deparei-me com dois contos das Novelas exemplares adaptados para o cordel: Rodolfo e Leocádia ou a força do sangue de Arievaldo Viana e A espanhola inglesa, de Manoel Monteiro. O primeiro foi editado por ocasião do IX Congresso Brasileiro de Professores de Espanhol, em 2001, e reeditado em 2006, com o título A força do sangue e uma capa bem mais elaborada para compor o kit do projeto "Acorda Cordel na Escola". O segundo foi escrito a pedido da Editora Scipione para ser utilizado como material paradidático. Infelizmente, embora tenhamos entrado em contato diversas vezes com a editora, ela não nos facilitou o guia didático do cordel A espanhola inglesa. Curiosamente, as duas adaptações têm pontos em comum. O fato de serem pensados para um público-alvo letrado A força do sangue para os professores de espanhol que participaram do congresso e A espanhola inglesa para a sala de aula os dois cordéis apresentam uma preocupação com a língua portuguesa, sem, no entanto perder seu sabor popular. O cordel A espanhola inglesa é amplamente ilustrado por um artista de renome como Jô Oliveira. São 18 ilustrações, além da capa, sendo que muitas delas são duas cenas na mesma página. Esse recurso torna o folheto bastante atrativo para seu público-alvo: os jovens estudantes.
Quando falamos em adaptação, sempre há certo preconceito. Isso se nota mais facilmente quando se trata da adaptação de um romance para o cinema. É comum ouvirmos o comentário: "o livro é melhor". Entretanto, a adaptação, para ser boa, não tem necessariamente de ser fiel ao original, porque toda adaptação é uma recriação e é exatamente nesse processo de recriação que podemos avaliar a criatividade e a competência do artista que adapta. No caso das adaptações para o cordel, devemos levar em consideração o fato de que o cordelista tem de realizar um esforço de condensação das obras originais, pois os contos de Cervantes adaptados são bastante longos. O poeta deverá selecionar os momentos da história que parecem mais significativos para seu entendimento ou mesmo alterar partes do relato, sem, no entanto, descaracterizar totalmente a história contada. São exatamente nos momentos de divergência entre o texto adaptado e o original que o adaptador imprime suas marcas pessoais, as quais muitas vezes nos levam a intuir uma possível interpretação do original. Isso pode ser notado no caso dos cordéis em questão. Para ilustrar, vou citar dois exemplos. Arievaldo Viana modifica o horário de um determinado acontecimento: no original de Cervantes, a família volta de um passeio ao rio às 11 da noite; no cordel, a família volta do passeio no final da tarde: "A tarde se derramava/ Nos montes do ocidente/ A lua já despontava/ Taful e resplandecente/ Iluminando a passagem/ Dessa família inocente" (p. 02). Na Espanha, os dias são muito longos no verão, até às 22 horas é dia, por isso é natural que uma família volte de um piquenique à beira de um rio às 23 horas. No Brasil, entretanto, e principalmente no Nordeste, anoitece muito cedo, por volta das 18 horas; portanto, é muito mais verossímil que uma família de bem retorne de um passeio no final da tarde. Esse exemplo nos mostra como Arievaldo Viana procura adaptar (não sabemos se conscientemente) o tempo, levando em consideração o contexto brasileiro. 
O segundo exemplo retiro do cordel de Manoel Monteiro. Ao contar que a menina Isabel foi raptada na Espanha, aos sete anos, pelos corsários ingleses, Manoel Monteiro faz um comentário que não tem nada a ver com o livro de Cervantes: "Grande potência é assim/ No passado e no presente/ Rouba, mata e escraviza/ Com cara de boa gente/ A história se repete/ No "reino" de Bush e "Beth"/ Com o mesmo filme indecente" (p. 6). Entretanto, com esse comentário, Manoel Monteiro nos deixa entrever sua crítica pessoal às grandes potências atuais, a qual, provavelmente, é compartilhada por muitos dos leitores do cordel.
Particularmente, eu não saberia avaliar a eficácia da utilização dos cordéis em sala de aula, mas, como professora de literatura, afirmo que a adaptação das obras literárias para o cordel assume duas funções importantes: por um lado, divulga a obra literária adaptada; por outro, colabora para a sobrevivência da literatura cordelística. Respondendo ao comentário do crítico espanhol Díaz-Maroto, o qual parece duvidar da sobrevivência do cordel no Brasil do século XXI, podemos dizer: "Sim, a literatura de cordel chegou ao século XXI no Brasil. Ela vai muito bem, obrigado".

sábado, 25 de maio de 2013

CASA DE JOSÉ AMÉRICO HOMENAGEIA LEANDRO


José Américo - Ilustração de Jo Oliveira

 
Casa de José Américo inicia
processamento do acervo de Cordel
 

O projeto “Acervo Inicial de Literatura de Cordel Leandro Gomes de Barros”, desenvolvido pela Fundação Casa de José Américo, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura, encontra-se no final da quarta etapa, que corresponde ao processamento técnico do acervo adquirido. O projeto tem o objetivo de formar um acervo especializado em literatura de cordel e obras literárias afins, para preservar a memória da cultura popular regional e disponibilizá-lo ao público.
Elaborado pela equipe da Biblioteca Dumerval Trigueiro Mendes e do Departamento de Pesquisa, ambos setores da Fundação Casa de José Américo, o projeto foi iniciado em julho do ano passado e está sendo desenvolvido em cinco etapas sucessivas: pesquisa, seleção, aquisição, processamento técnico e elaboração de um catálogo.
A etapa atual, que é o processamento técnico, é a parte da indexação ou identificação do assunto dos folhetos. A coordenadora do projeto e diretora da Biblioteca Dumerval Trigueiro Mendes, Nadígila Camilo, explicou que ela é realizada através da leitura textual para definir o assunto de cada folheto.  Os folhetos adquiridos se encontram em variados formatos, tanto nos tradicionais, como também, em forma de revista em quadrinhos, livros de literatura infantil, para o incentivo do hábito de leitura. 
Nadígila explicou que o formato de livro é usado como instrumento pedagógico no ensino de várias disciplinas: Português, História, Geografia e outras. Acrescentou que como objeto de estudo científico, o cordel vem sendo pesquisado nas diversas áreas do conhecimento. Segundo ela, até agora já foram processados tecnicamente 3.048 folhetos e catalogados 554 autores das diversas regiões do Brasil. Foram adquiridos folhetos antigos considerados clássicos e raros e também de novos autores. 
Paralelamente, a equipe de execução elabora um catálogo para divulgar todo o acervo adquirido através do projeto.  O material vai indicar uma dimensão da produção de cada cordelista. Através da realização deste projeto, a Fundação Casa de José Américo pretende recuperar os folhetos de cordel existentes e captar obras que tratam sobre o assunto, organizando-os para guarda permanente, com o objetivo de preservar, divulgar e disponibilizar para a pesquisa e estudos científicos. 
O projeto recebe assessoria científica da professora e pesquisadora do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, Beth Baltar, que desenvolveu um sistema de classificação baseada na semântica discursiva para indexação de folhetos de cordel, objetivando a minimização da subjetividade na recuperação da informação. O sistema está sendo aplicado na indexação dos folhetos que constituem o Acervo de Cordel.
O Acervo de Cordel é organizado na Biblioteca Durmeval Trigueiro Mendes, unidade de informação que integra a Fundação Casa de José Américo. Nadígila informou que os cordelistas podem fazer a doação de exemplares.
Leandro Gomes de Barros
 
A escolha do nome do projeto é uma homenagem ao cordelista paraibano Leandro Gomes de Barros, pioneiro na Literatura de Cordel, no formato impresso. No contexto da História da Cultura Nordestina, é considerado o patrono da literatura popular em verso.
Paraibano de Pombal, ele nasceu em 19 de novembro de 1865, foi o primeiro a publicar, editar e vender seus folhetos. Uma das características marcantes é que seus impressos tratam de uma grande diversidade de temas universais que abordam assuntos variados, desde a descrição da vida nordestina de sua época, reclamações sobre o governo, crítica à carestia, às guerras e ao desregramento da sociedade, sempre em tom de sátira e ironia. Leandro faleceu no Recife, no dia 4 de março de 1918.
 
Fonte: www.paraiba.pb.gov.br


Crédito da imagem: Pintura de FABIANO CHAVES.
Acervo particular de Arievaldo Viana. Todos os direitos reservados.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

MINELVINO FRANCISCO

Folhetos da coleção particular de Arievaldo Viana
 
Na imagem acima, uma foto de alguns folhetos do trovador baiano Minelvino Francisco, um artesão da palavra e da gravura. Alguns me foram enviados pelo poeta Antônio Américo de Medeiros, de Patos-PB. Outros pertenceram ao pesquisador Ribamar Lopes. Hoje em dia é raridade, encontrar um folheto de Minelvino com essas caracteristicas. O poeta fazia suas capas, imprimia em prelo caseiro e revendia nas feiras. Ou seja, acompanhava todo o processo diretamente. Abaixo, resumo biográfico de Minelvino por Maria do Rosário Pinto, elaborado para o site da Casa de Rui Barbosa:
 
BIOGRAFIA
Por Maria do Rosário Pinto
Minelvino Francisco Silva nasceu no povoado de Palmeiral, Município de Mundo Novo (BA), em 1926. Criado em Jacobina (BA), trabalhou como garimpeiro, radicando-se posteriormente em Itabuna (BA). Seu primeiro contato com a literatura de cordel foi com o clássico Romance do pavão misterioso, de João Melquíades Ferreira da Silva (N.E.: até hoje permanece a dúvida, na verdade, sobre quem foi o real autor dessa obra, se Melquíades ou José Camelo de Melo Resende).
Começou a versejar aos vinte e dois anos de idade e sua primeira sextilha, segundo a professora Edilene Matos, foi improvisada durante o I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros (1955) e dedicada a João Martins de Ataíde: “Até eu cheguei na hora / Como humilde trovador / Abracei ele, dizendo: / Parabéns meu Professor / Por todas as suas obras / de grandioso valor.”
Tradição oral
Poeta popular e xilógrafo dos mais talentosos na poesia e no talhe, compôs, basicamente, em sextilhas e setilhas. Viveu intensamente o universo do cordel, passando por todas as modalidades e deixando a marca da qualidade e do rigor em tudo o que escreveu.
Percorreu uma variedade de temas, como contos de encantamento (trazendo para o folheto popular a tradição oral dos contos de fadas), de amor, de animais e fatos políticos e do cotidiano, dentre outros. Publicou o primeiro folheto em 1949 – A enchente de Miguel Calmon e o desastre do trem de Água Baixa -, editado pelo amigo e companheiro de lutas em prol da causa dos poetas populares, Rodolfo Coelho Cavalcante.
Em 1980, venceu o concurso Prêmio Literatura de Cordel, promovido pelo Núcleo de Pesquisa e Cultura da Literatura de Cordel como parte das comemorações do centenário de João Martins de Ataíde, com o folheto Vida, profissão e morte, de João Martins de Ataíde.
Arte da impressão
Fascinado pela arte da composição e da impressão tipográfica, adquiriu uma impressora manual, onde confeccionava seus folhetos, inclusive as capas, conforme mostra nos versos: “Eu mesmo escrevo a estória / eu mesmo faço o clichê / eu mesmo faço a impressão / Eu mesmo vou vender / e canto na praça pública / para todo mundo ver”.
Seu interesse o fez mudar para uma impressora elétrica, mas em 1979 sofreu um acidente, perdendo três dedos. Este fato não o impediu de continuar no ofício, pelo contrário, sua técnica foi aperfeiçoada, referindo-se ao episódio nos versos: “No dia dez de outubro / Compus uma oração / Botei na máquina impressora / Para fazer a impressão / Em vez de imprimir o papel / Errei e imprimi a mão”.
Editou em várias tipografias e editoras como a Tipografia São Francisco, em Juazeiro do Norte (CE), a Luzeiro e a Prelúdio, em São Paulo (SP). Faleceu no dia do seu aniversário, a 29 de novembro de 1999, na mesma rua em que viveu, em Itabuana (BA).
Referências bibliográficas

▪ BANCO DO NORDESTE DO BRASIL: Literatura de cordel: antologia. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 1982. XIX, 704 p.: il. (Monografias; v. 14).

▪ BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977. XXVI, 394 p.: il.

▪ SÁ, Aurenice e outros. Arte popular em terras do cacau. Rio de Janeiro: Funarte, Instituto Nacional do Folclore, 1987. 39 p.: il. (Sala do Artista Popular; 35).

▪ LUYTEN, Joseph Maria. A xilogravura popular brasileira e suas evoluções In:__________. Antologia de folclore brasileiro. São Paulo: EDART, 1982. p. 255-271. Il.

▪ SILVA, Minelvino Francisco. ________ Minelvino Francisco Silva. São Paulo: Hedra, 2000. 234 p.: il. (Biblioteca de cordel).

quinta-feira, 16 de maio de 2013

NOVO CORDEL


 
O PROTESTO DE JOÃO GRILO CONTRA A FOME
 
 
A FOME é um problema secular. Milenar, certamente. A ganância dos poderosos faz com que haja grande desperdício de alimentos na mesa de uns poucos privilegiados e falte o pão na mesa de muitos. A Bíblia se reporta a isso com frequência, na visão crítica incisiva de seus profetas. A ONU, Organização das Nações Unidas, vem propondo, através da FAO o consumo de insetos para resolver definitivamente o problema da fome mundial. Gasta-se bilhões com guerras, armas quimicas e nucleares, projetos espaciais, colônias em Marte, mas o alimento sagrado, o pão nosso de cada dia ainda é um problema para os nossos governantes. Indignados com essa proposta das Nações Unidas, os poetas Arievaldo Viana e Pedro Paulo Paulino imaginaram um bem humorado protesto, dando voz e vez ao irrequieto JOÃO GRILO, o pícaro por excelência, o Anti-Herói "amarelinho" mais querido do Brasil. Vejam alguns trechos do poema. A capa é provisória e utiliza montagem em cima de uma xilogravura do grande artista Stênio Diniz.
 
Todos sabem que João Grilo
É o quengo mais completo.
Há muito tempo que João
Andava bastante quieto.
Mas agora ele voltou,
Depois que a ONU mandou
O povo comer inseto.
 
 
Já sabemos que a ONU,
Um tribunal soberano
Cuja sede está plantada
Lá no solo americano,
A fim de matar a fome
Desse povo que não come,
Desenvolveu mais um plano.
 
 
No continente africano
A fome ainda campeia
Em muitas tribos, coitadas,
A situação é feia:
Têm brisa pra merendar,
Sobejos para almoçar,
Pastel de vento pra ceia.
 
 
Enquanto isso o Japão,
Por escassez de alimento,
E, também, de certo modo
Falta de discernimento,
De dinheiro fez aporte
E quer que o Brasil exporte
Carne de burro e jumento.
 
Até aí, nada novo,
O povo estava tranqüilo.
Porém, depois que a ONU
Recomendou comer grilo,
João Grilo ficou passado,
Anda muito revoltado,
Só se ouve o seu estrilo.
 
 
Voltou fazendo protesto,
Por sinal, muito feroz.
Amolou suas antenas,
Afinou mais sua voz,
E do reinado onde estava,
Com a cuca muito brava,
João Grilo partiu veloz.
 
 
É que João Grilo cantava
Tranquilo dentro da mata,
De repente ouve a notícia
Que de raiva quase o mata:
“A ONU anuncia, enfim,
Que o povo coma cupim,
Besouro, grilo e barata”.
(...) 
LANÇAMENTO EM BREVE! AGUARDEM!!!

QUEM É JOÃO GRILO - O famoso amarelinho que protagoniza a principal obra do dramaturgo brasileiro Ariano Suassua - O auto da Compadecida - é oriundo da Literatura de Cordel mas está presente nos contos populares africanos e europeus. Segundo Théo Brandão, folclorista alagoano, João Grilo aparece em contos populares de mais de 60 países, muitas vezes como um bobalhão que se dá bem graças a sua sorte incomparável. No Brasil ele adquiriu caracteristicas próprias do povo nordestino:

Porém o Grilo criou-se
Pequeno, feio, sambudo
As pernas tortas e finas
Magro, amarelo e beiçudo
No sítio aonde morava
Dava notícia de Tudo.

(In 'As proezas de João Grilo, de João Ferreira de Lima)