quinta-feira, 21 de março de 2013

PAIXÃO DE CRISTO EM CORDEL


Xilogravura de J. Miguel (Escola de Bezerros-PE)

Na Semana Santa do ano passado publicamos aqui a primeira parte do famoso poema 'Jesus, filho de Maria', do poeta Dimas Batista, descrevendo a infância do Salvador (link: http://acordacordel.blogspot.com.br/2012/04/vida-de-jesus-na-literatura-de-cordel.html). Publicamos agora a segunda parte que trata dos milagres realizados por Jesus durante o seu ministério aqui na terra.

JESUS, FILHO DE MARIA
Autor: Dimas Batista

PARTE II - Milagres


Pregando a Santa Idéia
Da lei do Deus verdadeiro,
Fez o milagre primeiro,
Em Caná, de Galiléia!
Na festividade hebréia,
Vinho não mais existia;
Devido a falta que havia
Ao filho a Virgem rogou,
Água em vinho transformou
Jesus, Filho de Maria!
 

Por toda a vasta Judéia,
De aquém e de além Jordão,
Crescia a religião
De Cristo na Galiléia!
Traconites, Ituréia,
Betânia, Hebron, Samaria;
A Nazaré sempre ia,
Cafarnaum, Palestina,
Pregando a nova doutrina
Jesus, Filho de Maria!
 

Um dia, Jesus sentado
Sobre a barca de Simão,
Viu-o sem consolação,
Por peixe algum ter pescado!
Disse Cristo: - “Desse lado,
Faze, Pedro, a pescaria.”
Quase a rede se rompia,
Tanto peixe, ali, pescou;
Um novo milagre obrou
Jesus, Filho de Maria!
 

Disse a Pedro o Redentor:
- Peixe, tu não pesques mais,
Que de hoje em diante serás
Só das almas pescador!
Tiago ouvia, com amor,
Tudo que o Mestre dizia,
João, comovido, sentia
O mesmo que os dois sentiram
Deixaram tudo e seguiram
Jesus, Filho de Maria!
 

Milagre maravilhoso,
Obrou Jesus com ternura,
Operando a grande cura
Dum triste e pobre leproso;
Outra vez, brando e piedoso,
Curava a paralisia
Dum pobre que lhe pedia....
Cheio de fé e emoção
E abismava a multidão,
Jesus, Filho de Maria!
 

Vendo, ali entre os hebreus,
Tais prodígios soberanos
Murmuravam publicanos,
Escribas e Fariseus:
- Será o Filho de Deus?!
- É nada, um respondia,
E outro acolá dizia:
- Seu pai se chama José!
Por fim afirmaram: - É
Jesus, Filho de Maria!

 
Doze apóstolos de fé:
Tiago e o bondoso João,
Judas, de Tiago, irmão,
Mateus e o grande Tomé!
O mano de Pedro, André,
Também dessa companhia,
Aonde o Mestre seguia,
Os doze juntos estavam
Porque, sempre, acompanhavam
Jesus, Filho de Maria!

 
Simão Pedro, o pescador,
Felipe e Bartolomeu,
Tiago, filho de Alfeu,
Também Simão, Zelador,
Judas, infame traidor,
Repleto de hipocrisia,
Era o único que não cria
Em Cristo, e antes zombava
Da doutrina que ensinava
Jesus, Filho de Maria!
 

Seguindo a Mãe Soberana,
Iam, por vontade plena,
A formosa Madalena,
A piedosa Suzana,
A mulher de Chusa, Joana,
Salomé que, também ia,
Fora o povo que surgia
De toda a parte do mundo
Pra ouvir o Juiz Profundo
Jesus, Filho de Maria!

 
“Sede puros e constantes,
Mansos e humildes também
Pagai o mal com o bem
Amai vossos semelhantes,
Instruí os ignorantes;
Deixai o vício e a orgia,
Não usai de hipocrisia.”
Disse, em verdade tamanha
Lá no Sermão da Montanha
Jesus, Filho de Maria!
 

Feliz quem vive em pobreza
Que esta vida é lisonjeira!
Jogo, dança e bebedeira
Paixão, vaidade, riqueza,
Orgulho, pompa, grandeza,
Posto, brasão, fidalguia,
Tudo é mera fantasia
Aqui no globo terrestre;
Assim disse o grande Mestre
Jesus, Filho de Maria!
 

Aonde o Messias passava
Todos gozavam virtude!
Ganhava o enfermo a saúde,
O morto ressuscitava!
O louco se equilibrava,
Coxo andava, cego via,
O ignorante aprendia;
Falava quem era mudo,
Pois socorria isso tudo
Jesus, Filho de Maria!
 

Jesus em Santa Missão
Chegando a Cafarnaum,
Curou o servo de um
Notável centurião.
Movido de compaixão,
Ressuscitou nesse dia,
O único filho que havia
Da viúva de Naim;
Só fez prodígios assim
Jesus, Filho de Maria!
 

Na casa de um fariseu
Que se chamava Simão
Pedindo, a Jesus, perdão,
Madalena apareceu.
Tantas lágrimas verteu
Que Jesus se comovia...
Chorava e se maldizia,
Tristonha e cheia de amor,
Aos pés de Nosso Senhor
Jesus, Filho de Maria!

 
O Mestre, estendendo a mão,
Perdoou a penitente
Enquanto, secretamente,
O censurava Simão!
Cristo, a este, disse então:
“Esta que o pranto vertia,
Em grandes faltas vivia,
Mas, depois, se arrependeu...
Por isso o perdão lhe deu
Jesus, Filho de Maria!

 
Grande multidão depois
Padeceu fome inclemente,
Porque havia, somente,
Cinco pães e peixes, dois!
Cristo, repartir, propôs,
Os cinco pães que trazia;
Juntando aos peixes que havia,
Depois da ração partida,
A cinco mil deu comida,
Jesus, Filho de Maria!
 

Tiago, Pedro e João
Viram, num monte, o Messias,
Junto a Moisés e Elias,
Numa transfiguração!
Com refulgente clarão,
Uma nuvem os envolvia,
Dos céus, uma voz dizia:
“Este é meu Filho querido,
A vossos pais prometido,
Jesus, Filho de Maria!
 

Jesus curou dez leprosos
Em Galiléia passando;
Ali esteve curando,
Cegos, enfermos piedosos,
São seus atos milagrosos
De indescritível quantia;
Certa vez, de hidropisia,
Vivia um homem a sofrer,
Mas curou-se, só em ver,
Jesus, Filho de Maria!

 
A conversão de Zaqueu,
Em Jericó, foi notória,
Cobrindo-se ali de glória
A fama do Galileu!
Uma pobre apareceu,
Que espírito mau possuía,
Era uma moça gentia,
Filha duma Cananéia;
Curou-a, na Galiléia
Jesus, Filho de Maria!

(...)


Dimas Batista Patriota, nasceu no ano de 1921, na então Vila Umburanas, município de São José do Egito, hoje cidade de Itapetim-PE. Filho de Raimundo Joaquim Patriota e Severina Batista Patriota ambos paraibanos. Dotado de uma intelência Privilegiada, aos cinqüenta anos de idade, formou-se em letras clássicas na mesma faculdade de onde seria professor de língua portuguesa. Era considerado o cantador mais culto de todos os tempos. Além de repentista renomeado, era historiador geógrafo e poliglota. Dimas fez a sua primeira cantoria aos quinze anos de idade, na cidade de São José do Egito. Faleceu em Fortaleza em 1986, vítima de acidente vascular cerebral; sepultou-se em Tabuleiro do Norte, local onde residia. Obras: Jesus Filho de Maria; História da CNEC (Em versos); As Três cruzes;Desafio (Dimas e Cabeleira)”

quarta-feira, 20 de março de 2013

CANGACEIRO DIGITAL

 
 
 
por Carol Prado
Foi-se o tempo em que os joguinhos eletrônicos eram terrenos exclusivos de guerreiros medievais, robôs intergaláticos e outros personagens bem distantes da realidade de carne e osso. Sem negar suas origens, a empresa baiana de tecnologia Soterotech decidiu levar figuras típicas do hiperrealista sertão nordestino ao mundo dos bits. Um cangaceiro, um calango e um carcará dão o tom do jogo “Cangaceiro de Badogue*”, apresentado neste sábado (16) e domingo (17) durante o Gamepólitan, evento que transformou o Centro de Convenções da Bahia em um verdadeiro parque de diversões digitais.

Fotos: Carol Prado / Bahia Notícias

O game narra a história de Lino, um destemido personagem inspirado no histórico Lampião, que, depois de ver sua amada raptada por um maléfico carcará, luta contra todos os obstáculos para recuperá-la, sempre acompanhado de seu poderoso badogue. “A ideia surgiu em 2009, antes mesmo do nascimento da empresa, em um grupo de jogadores. Hoje, todos os produtos que a gente desenvolve têm traços dessa cultura regional, que é muito rica e pouco explorada”, explicou Diego de Potapczuk, um dos diretores da Soterotech. Segundo ele, o software desenvolvido para tablets e smartphones ainda está em fase de testes e deve chegar ao mercado no segundo semestre deste ano, quando poderá ser baixado, no mundo todo, através da Apple Store e Google Play, lojas de aplicativos da Apple e Android, respectivamente. “Queremos fazer um lançamento global e levar a cultura nordestina pro mundo inteiro através do game”, almejou, em entrevista ao Bahia Notícias. As expectativas da empresa são boas, principalmente depois do sucesso de Lino no Centro de Convenções. O administrador de empresas, Vítor Carneiro, por exemplo, acompanhava o filho gamer e não tirava os olhos das aventuras do cangaceiro. “Isso é ótimo para tirar um pouco a criançada da linha de jogos japoneses e reforçar nossa cultura regional”, opinou.
 
 
* Aqui no Ceará a gente diz Bodoque ou Baladeira

quinta-feira, 14 de março de 2013

DIA DA POESIA

 
14 de março: DIA NACIONAL DA POESIA. A data foi instituída no dia do aniversário de Castro Alves, o "poeta dos escravos" - pois lutou firmemente contra a escravidão. Em seus poemas "Navio Negreiro", "A Canção do Africano" sua indignação quanto ao preconceito é destaque principal.

Hoje é dia de fazer, ler, enviar poesia. Mas não se esqueça de fazê-los não só hoje, porque TODO DIA É DIA DE POESIA! No painel acima, alguns poetas que admiro, dentre os quais os canindeenses José da Cruz Filho (principe dos poetas cearenses) e o cordelista Gonzaga Vieira.

 

domingo, 10 de março de 2013

MEMÓRIAS

MINHA PRIMEIRA BIBLIOTECA

Arievaldo Viana

Como já disse repetidas vezes, o primeiro tipo de literatura que tive acesso foram os romances de cordel de minha avó, guardados numa maleta empoeirada* que jazia abandonada em cima do caixão da farinha, no quarto grande da casa velha. Uma vez, ao tentar descer desse caixão, acabei escorregando de mal jeito, com as costas contra a parede e, como estava sem camisa, fiquei sem uma tira de couro do espinhaço. Essa casa fora a antiga habitação de meus avós quando vieram do Castro para o ‘Toco preto’, rebatizado oportunamente de Fazenda Ouro Preto, nome que permanece até hoje. Era terreno inóspito, desabitado, quando o casal resolveu desbravá-lo na companhia de uma numerosa prole de filhos ainda pequenos. No terreiro havia um paiol de milho onde, por mais de uma vez, foi avistada uma onça. Ao nascente fica a Serra do Peitão e o serrote dos Três Irmãos, três gigantescos monólitos de feição similar. Ao sopé do primeiro bloco de pedra fica a belíssima fonte das Coronhas, um reservatório de água potável, para onde fui algumas vezes na companhia do meu pai, sempre cantarolando em voz alta antigas canções de viola ou romances de cordel. Descrevo esse cenário em versos, no meu ‘Marco cibernético do Reino dos Três Irmãos’, cordel lançado pela Tupynanquim Editora.

Além desses folhetos e romances, havia também alguns livros que não me era permitido folhear. Dentre os quais, dois volumes do romance O mártir do Gólgota, do escritor espanhol Enrique Pérez Scrich, obra muito popular no Nordeste desde meados do século XIX. A edição era encadernada em capa dura com carneira de couro e fora impressa em Portugal, em 1883, em português arcaico e ilustrada com belas gravuras de metal. Havia ‘A Bíblia das Escolas’, edição de 1912, que pertencera ao meu bisavô Fitico, que apesar do texto em português fora editada na Alemanha. Esse livro desapareceu misteriosamente da minha biblioteca, levado talvez por algum parente ‘saudosista’. Tinha também alguns livros escolares, que pertenceram às minhas tias e na casa dos meus pais os livros escolares de minha mãe, que fora estudante do Ginásio Gustavo Barroso, em Maracanaú, no início da década de 1960. Havia ainda a primeira edição de ‘O sanfoneiro do Riacho da Brígida’, biografia de Luiz Gonzaga escrita por Sinval Sá e um livro curioso, escrito por um frade, intitulado ‘Através das campinas e matagais’ narrando as aventuras deste religioso em pleno sertão de Matogrosso, na companhia de um índio valente chamado Ibituruna. E para meu deleite maior, uma edição de ‘Sertão Alegre’, de Leonardo Mota, que pertencia a meu tio Zé Viana, mas que estava por lá há muito tempo, sem que o dono reclamasse a sua devolução. Estes livros eu só pude ler realmente quando estava beirando os dez anos e já tinha responsabilidade suficiente para não rasgá-los ou colorir suas gravuras com lápis de cor.

Sempre vivi agarrado com livros e folhetos. Depois do almoço, armava uma rede no alpendre e me deliciava com a leitura. Meu avô gracejava me chamando de jacaré: -  ‘Olha aqui, Alzirinha, o jacaré já está de novo na lagoa’. É que os outros meninos da redondeza, meus primos principalmente, não eram muito afeitos à leitura e passavam o dia aprontando reinações numa velha capoeira que começava logo após o quintal dos fundos, onde estava situada a cacimba do gado. Após o almoço livres da escola ou de pequenas tarefas domesticas que desempenhavam desde a mais tenra idade – e isso incluía transportar água em jumentos, cortar capim para dar aos animais, plantar, colher algodão, milho e feijão – eles iam para a cacimba munidos de baladeiras derribar enxuís e matar passarinhos. Raramente eu os acompanhava nessas incursões, preferindo sempre as minhas leituras na redinha de balanço.

Não havia aparelho de TV, nem geladeira, nem qualquer eletrodoméstico por uma questão óbvia: não havia energia elétrica e por isso a gente dormia cedo e acordava cedo, tendo como principais fontes de entretenimento o rádio, os folhetos de cordel e as histórias contadas à luz de lampiões a gás. Meu avô sabia alguns contos de bichos, da raposa sabida que foi lograda pelo canção, das andanças de Jesus e São Pedro pelo mundo, das peripécias de Camões e Pedro Malazartes, da mulher que enganou o diabo. Era um mundo de coisas que desfilava pela sua prosa e simples e envolvente. Já minha avó tinha o hábito de ler em voz alta para os netos, sobretudo folhetos de cordel. Mas havia também um livro de contos da carochinha, de capa colorida e fartamente ilustrado onde havia Cinderela, Guilherme Tell, O rouxinol e a rosa, O gato de botas e outras histórias envolventes que se tornavam mais belas através de sua narrativa, porque ela sempre nos tirava alguma dúvida sobre lugares, objetos e costumes que não conhecíamos. Foi esta a minha primeira biblioteca e dela eu guardo as mais gratas recordações. Esses livros ficavam nas gavetas dos móveis da sala de jantar e estavam sempre à mão. Os livros religiosos ficavam na gaveta de um pequeno oratório, que havia no quarto onde ela costurava. A edição mais luxuosa da Bíblia Sagrada era guardada a sete chaves no seu guarda-roupa. Eu tinha franca predileção pelas histórias do Antigo Testamento: A história de José e seus irmãos, o Êxodo do povo de Israel e suas peregrinações pelo deserto do Sinai, as batalhas de Josué, Sansão e Dalila, Davi e Golias, o livro dos Reis, Esther, Tobias até desaguar na saga dos Macabeus. Li tudo isso antes de completar dez anos de idade, me detendo, inclusive, nas notas de rodapé, numa fonte tão minúscula que hoje eu não seria capaz de decifrar, a não ser com a ajuda de bons óculos ou lente de aumento.

Quando completei dez anos passei a estudar na cidade e a ter contato com outros livros, histórias em quadrinhos e até bolsilivros de faroeste. Nada disso me marcou tanto como os livros e cordéis da velha biblioteca de minha avó. Eu gostava mesmo era quando chegavam as férias de julho ou do fim do ano para reler tudo aquilo que eu já sabia de cor. No mercado de Maranguape, para onde eu me dirigia quase todos os sábados, eu ampliava o meu estoque de folhetos. Havia ali, em 1979, um folheteiro que sempre aparecia nos finais de semana com um grande sortimento de folhetos das tipografias de Juazeiro do Norte e Campina Grande. O dinheiro era curto, pequenas remessas que minha avó mandava de vez em quando dentro das cartas que me escrevia e era destinado à merenda no colégio. Eu preferia poupar esses tostões – numa verdadeira dieta de faquir – para comprar meus folhetos no final de semana. Por esse tempo eu já escrevia meus primeiros versos nos cadernos escolares. É uma pena não haver guardado quase nada dessa produção, pois eu escrevia com muita freqüência. Fazia as capas dos folhetos em papel de embrulho, que nesse tempo era colorido – rosa, verde, laranja... Eu tentava imitar a fonte tipográfica, por isso desde cedo escrevo sempre em letra de forma. Nunca gostei da minha caligrafia, que era miúda e irregular. Invejava a letra de minha avó, sempre correta, exuberante, cheia de arabescos. Quando ficou quase cega, ela não conseguia enxergar a pauta do papel e escrevia pelo prumo, sem ter como corrigir as imperfeições. Lamentava demais não poder ler, aí chegou a minha vez de retribuir a sua dedicação, lendo para ela os folhetos que eu comprava. Tenho, com sobrada razão, muita saudade desses tempos bons da minha infância.


* Quando me entendi por gente, a maletinha de minha avó estava abandonada em cima de um antigo caixão de farinha, no quarto grande da casa velha, para onde minhas tias deportavam tudo aquilo que consideravam quadrado, cafona e obsoleto. Nas paredes só havia lugar para pôsteres de Jerry Adriani, Roberto Carlos e Wanderley Cardoso. No rádio, os programas que tocavam Luiz Gonzaga ou cantoria também eram desdenhados pela 'nova' geração influenciada pela Jovem Guarda. Eu adorava ouvir os programas que minha avó sintonizava e tinha nas veias o germe da poesia. Fui responsável pelo resgate dessa preciosidade - a tal maletinha de 'romances', embora tenha ouvido alguns protestos do tipo: - Esse menino parece um velho, anda agarrado com esses romances 'véi' empoeirados, que só servem para sujar a casa!

 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Dia Internacional da Mulher

 
 
 
Hoje, 8 de março - Dia Internacional da Mulher, resolvi remexer no baú das lembranças e retirar uma bela canção... Uma das mais belas modalidades (ou seria uma toada) da cantoria nordestina é o mote "Mulher nova, bonita e carinhosa / faz o homem gemer sem sentir dor", magistralmente desenvolvido por Otacílio Guedes Patriota (Otacílio Batista), arranjado por Zé Ramalho e gravado por Amelinha. De maneira injusta, Zé Ramalho foi acusado de plágio por assinar esta canção juntamente com Otacílio. Dizem que a melodia é coisa antiga, o que não questiono. Questiono, isto sim, o fato de um artista famoso, no auge da carreira, ser apedrejado porque divulgou uma peça da cantoria nordestina. Mas isto não vem ao caso... estou postando essa letra porque assisti, numa pequena TV preto e branco, a famosa mini-série "Lampião e Maria Bonita", produzida pela TV Globo e dirigida por Daniel Filho. Na época em nem imaginava que meu caminho iria cruzar com D. Expedita (a filha do casal), com Vera Ferreira e com Tânia Alves, a brilhante atriz que interpretou a rainha do cangaço.

 
 
MULHER NOVA, BONITA E CARINHOSA
FAZ O HOMEM GEMER SEM SENTIR DOR
 
Numa luta de gregos e troianos
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história de um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Páris, o grande sedutor
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

Alexandre figura desumana
Fundador da famosa Alexandria
Conquistava na Grécia e destruía
Quase toda a população Tebana
A beleza atrativa de Roxana
Dominava o maior conquistador
E depois de vencê-la, o vencedor
Entregou-se à pagã mais que formosa
Mulher nova bonita e carinhosa
Faz um homem gemer sem sentir dor.

A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentando a procela em seu furor
Se não fosse a mulher mimosa flor
A história seria mentirosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

Virgulino Ferreira, o Lampião
Bandoleiro das selvas nordestinas
Sem temer a perigo nem ruínas
Foi o rei do cangaço no sertão
Mas um dia sentiu no coração
O feitiço atrativo do amor
A mulata da terra do condor
Dominava uma fera perigosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.
 
 

LANÇAMENTO

Irmãos Grimm com sotaque nordestino

 Em João Bocó e o ganso de ouro, novo livro da série "Era uma vez... em cordel", o poeta cearense Arievaldo Viana e Jô de Oliveira apresentam sua versão sertaneja para a famosa fábula alemã

Com um jeito genuinamente brasileiro de apresentar grandes contos e fábulas infantis, a coleção "Era uma vez... em cordel", que foi inaugurada comA peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau e O coelho e o jabuti, ganha um novo título. Agora, o poeta Arievaldo Viana e o ilustrador Jô Oliveira se reúnem e transportam mais uma história clássica para o universo estético do cordel. Bebendo na fonte dos Irmãos Grimm, a dupla traz para os pequenos leitores João Bocó e o ganso de ouro, história que reconta em ritmo de sextilhas (estrofes de seis versos) a fábula do rapaz simplório e de bom coração que tem sua vida transformada quando ganha uma ave mágica com penas de ouro.
Nesta versão sertaneja do conto alemão, o cordelista faz as figuras tradicionais do rei e da princesa dividirem a cena com personagens que remetem ao Nordeste rural – o padre, o sacristão, os camponeses –, enquanto o traço e o colorido das ilustrações de Jô Oliveira sublinham o estilo do Sertão nordestino: chapéu de couro e alpercatas são o uniforme de João Bocó, o herói cordial deste livro que é uma aula de cultura popular brasileira para as crianças.

O autor

Arievaldo Viana nasceu em Quixeramobim em 1967. É poeta, radialista, ilustrador e publicitário. Já publicou mais de 100 histórias em cordel, e junto com Jô Oliveira lançou O coelho e o jabuti (Globinho, 2011) e A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau (Globinho, 2011).
 

O ilustrador

Jô Oliveira nasceu na Ilha de Itamaracá em 1944. É quadrinista e ilustrador, com livros publicados no Brasil, na Argentina, na Grécia e na Itália. Em 2004 foi premiado com o Troféu HQ Mix na categoria “Grande Mestre”.

Outros títulos da série “Era uma vez...em cordel” publicados pela Globinho

O coelho e o jabuti

A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau
 

Ficha técnica

Título: João Bocó e o ganso de ouro
Autor: Arievaldo Viana
Ilustrador: Jô Oliveira
Gênero: infantil
Páginas: 40
Formato: 17,5 x 23 cm
Indicação: a partir de 7 anos
Preço: R$ 34,00
ISBN: 978-85-250-5268-1
Editora: Globinho


Assessoria de imprensa Tatiana Bandeira | Drielle Sá
Tel.: (11) 3767-7819 | 3767-7450

 

segunda-feira, 4 de março de 2013

LEANDRO - 95 ANOS DE ENCANTAMENTO

 
 
Há exatos 95 anos (04 de março de 1918), falecia no Recife-PE o maior expoente da Literatura de Cordel, o paraibano Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865. Foi Leandro quem forneceu 'régua e compasso' para toda uma geração de grandes poetas que veio depois dele: José Camelo de Melo, João Martins de Athayde, José Pacheco, Severino Milanês da Silva, Delarme Monteiro... todos beberam na fonte de Leandro.
 
 
LEANDRO, O GRANDE PIONEIRO
Marco Haurélio

LEANDRO, O GRANDE PIONEIRO - O paraibano Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918) é o maior clássico da poesia popular e uma das maiores glórias da cultura brasileira. Foi poeta prolífico e, embora muitos pesquisadores exagerem na estimativa de sua obra, sabe-se que ele legou à posteridade perto de um milhar de folhetos. A pouca familiaridade com a gramática não lhe foi empecilho para escrever obras-primas, como Os Sofrimentos de Alzira, onde lemos esta estrofe adornada por belas antíteses, que revelam o trágico destino da protagonista: Eu ficarei sobre um túmulo, O senhor num paraíso; Meus olhos gotejam lagrimas Seus lábios brotarão riso. No mais, aceite um adeus. Até o dia do juízo! Em O Cachorro dos Mortos, há a descrição de um crime passional do qual um cachorro é a única testemunha. No início do romance, Leandro deixa patente o seu respeito pela tradição (“antepassados”) e recorre a um expediente que se tornaria lugar-comum entre os poetas populares: o de ilustrar o prólogo da história com um adágio que remete ao motivo central. Vejamos: Os nossos antepassados Eram muito prevenidos Diziam: - Mato tem olhos E paredes têm ouvidos, Os crimes são descobertos, Por mais que sejam escondidos.