segunda-feira, 16 de julho de 2012

JACKSON DO PANDEIRO EM CORDEL


Em julho deste ano completou 30 anos da morte de um dos maiores artistas nordestinos de todos os tempos, o inesquecível JACKSON DO PANDEIRO. Pedro Paulo Paulino, do blog VILA CAMPOS ONLINE, resgatou esse cordel do poeta JUNIOR DO BODE, publicado no blog da FATITA VIEIRA:

JACKSON DO PANDEIRO: BIOGRAFIA EM CORDEL

Autor: Júnior do Bode*

Celebremos o talento
De um artista verdadeiro
Rei do ritmo popular
Imortal no cancioneiro
Vulto de Orfeu no Nordeste
É o Jackson do Pandeiro.

Nasceu José Gomes Filho**
Numa cidade brejeira
De nome Alagoa Grande
Sua mãe foi cantadeira
De coco, e José cresceu
Vendo o cantador de feira.

No Agreste da Paraíba
Onde passou a infância
Desde novo na enxada
Trabalhando numa “estância”
E o sonho de ter sanfona
Acordava-lhe com ânsia.

E quem lhe deu um presente
Foi a mãe, Flora Mourão
Mas não deu o que queria
Pois não tinha condição
Em vez d’um fole, um pandeiro
E houve a conformação.

Sua mãe cantava coco
Pelo folguedo e tocava
Zabumba e também ganzá
Onde José se espelhava
Pra depois formar o Jackson
Que no coco iniciava.

Aos treze anos mudou-se
Com a família pra Campina
Grande, atrás de melhora
Na pobreza nordestina
Sempre, sempre trabalhando
E cantando a sua sina.

Certa vez foi ao cinema
Pra ver um filme com Jack (Jeque)
Um ator de faroeste
Antes que o encanto seque
Adotou Jack pra si
Brincadeira de moleque.

“O meu nome é José Jack”
Jackson se nomeava
Sua mãe achava estranho
Quando o povo lhe chamava
De “Zé Jack” – “Ô Zé Jack”
E umas lapadas, lhe dava.

Mas a vontade de ser
Um artista era mais forte
Cantava coco, rojão
Com samba aumentou o porte
E baião, frevo, xaxado
Todos os ritmos do norte.

(...)

VER POSTAGEM COMPLETA AQUI:

Via BLOG FATITA VIEIRA: http://fatitavieira.blogspot.com.br/

Ou: www.vilacamposonline.blogspot.com

 *O autor do cordel é o sertanejo Junior do Bode, estudante, trabalha no Memorial Luiz Gonzaga, da Prefeitura do Recife. Tem diversos cordéis publicados, já participou de várias coletâneas poéticas e publicou o livro “Cuia de poeta cego / Tem verso de toda cor”.

 **Jackson do Pandeiro nasceu em 31 de agosto de 1919.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

LANÇAMENTOS

Leandro Gomes de Barros e Rouxinol do Rinaré inauguram nova série na Nova Alexandria
A nova série de livros infantojuvenis da Editora Nova Alexandria traz, como títulos inaugurais, dois clássicos da literatura de cordel brasileira: a História de Juvenal e o Dragão, do pioneiro Leandro Gomes de Barros, e O Guarda-Floresta e o Capitão de Ladrões, do poeta contemporâneo Rouxinol do Rinaré. Os dois trabalhos trazem ilustrações em cores de Eduardo Azevedo.
Mais informações abaixo:
História de Juvenal e o dragão

Escrita por Leandro Gomes de Barros, no início do século XX, a História de Juvenal e o dragão tornou-se modelo de narrativas posteriores, como João Terrível e o dragão vermelho, de Antônio Alves da Silva, João Corajoso e o dragão de três cabeças, de Joaquim Batista de Sena, e João Acaba-Mundo e a serpente negra, de Minelvino Francisco Silva. Alguns versos do romance de Leandro tornaram-se coletivos, a exemplo de “Quando foi no outro dia”, “Como um raio abrasador” etc. e são encontrados em outras narrativas do cordel.

A princípio, a inspiração do poeta parece vir do conto Henrique e os três cães, da coletânea de Figueiredo Pimentel, Contos da Carochinha, publicada pela primeira vez em 1896. As raízes do conto, no entanto, são muito antigas e estão presentes no mito de Perseu e Andrômeda e em outras narrativas mitológicas, como exemplifico abaixo. O dragão é, segundo Vladímir Propp, “uma das figuras mais complexas e mais enigmáticas do folclore e das religiões do globo”. Na mitologia grega, é o adversário — derrotado — de heróis como Hércules e Jasão. Ainda na Grécia, Apolo mata a serpente Piton e, no Egito, Hórus, filho de Osíris, derrota Tifon, assassino de seu pai. Alguns mitólogos e estudiosos do folclore interpretam a derrota do dragão por estas divindades como a vitória da luz contra as trevas, isto é, do dia contra a noite. Vale lembrar que, em seus países, Apolo e Hórus eram deuses solares. Daí viriam expressões como “boca da noite”, conservada pela memória popular.

O mesmo Propp, analisando nos contos tradicionais russos o motivo dos tributos do dragão, descreve uma situação bem próxima à narrada por Leandro: “o herói chega um país estrangeiro, vê ‘todas’ as pessoas tão tristes, e de eventuais transeuntes fica sabendo que todos os anos (todos os meses) o dragão exige como tributo uma jovem, e que agora é a vez da filha do rei”. A lenda de São Jorge deriva também deste motivo universalmente difundido. A palavra dragão vem do grego draco e significa “serpente”. Esta palavra aparece quatro vezes na História de Juvenal e o dragão, a exemplo desta estrofe:

O moço era destemido,
Com seu cachorro valente,
Eles dois incorporados,
Lutando com a serpente.
Juvenal no ferro frio
E o cão fiel pelo dente.

Aparecem ainda no romance os auxiliares mágicos do herói, representados por três cachorros, e o impostor que, fazendo-se se passar pelo vencedor do dragão, reivindica a mão da princesa. A publicação deste clássico da literatura de cordel brasileira, enriquecido com ilustrações e vinhetas de Eduardo Azevedo, é uma homenagem que a editora Nova Alexandria, que publica a premiada coleção Clássicos em Cordel, presta a Leandro Gomes de Barros, herói desbravador da seara da poesia popular, homenageado e aplaudido por nomes como Mário de Andrade, Ariano Suassuna e Carlos Drummond de Andrade.
O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões
Rouxinol do Rinaré integra a geração de cordelistas surgida na última década do século passado, responsável pelo ressurgimento do gênero romance na poesia popular. Por romance, os autores de cordel definem as narrativas de fôlego, inspiradas na tradição oral ou criadas pelos artesãos do verso. Alguns cordéis desse gênero têm 16 páginas, a exemplo dos clássicos Romance da princesa do Reino do Mar Sem Fim, de Severino Borges, e Romance de João Cambadinho e a princesa do Reino de Mira-Mar, de Inácio Carioca. Desde Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), o popularizador da tradição dos romances autorais no cordel, passando por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o grande sistematizador e responsável pelo início da editoração profissional, o romance tornou-se o gênero nobre dentre os poetas do povo.
O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões, publicado originalmente em folheto pela Tupynanquim Editora, em 2006, é uma homenagem que Rouxinol presta aos mestres do cordel, em especial ao pernambucano Delarme Monteiro da Silva (1918-1994), sua principal referência. A história é uma versão poética do conto homônimo lido em uma coletânea chamada Pérolas esparsas, sem indicação de autoria, ainda na infância, passada na zona rural de Quixadá, sertão cearense. O enredo gira em torno da atuação de Frede, um Guarda-Florestas implacável no cumprimento de seu dever, conforme lemos nesta estrofe:

Num certo reino da Prússia,
Há muito tempo passado,
Residia um cidadão
Num bosque bem afastado,
Tendo a missão de guardar
As florestas do reinado.

Seu principal inimigo é o Capitão de Ladrões, a quem persegue obstinadamente:

O Capitão de Ladrões,
Como era conhecido,
Atacava com as sombras,
Passava o dia escondido.
Tornou-se questão de honra
Capturar o bandido.

Há ainda outros personagens, como Hilda, esposa de Frede, que desempenhará um papel fundamental nos momentos de maior tensão do romance. À maneira de muitos contos populares, encontramos, nesta obra, o drama da queda — simbolizado pela atitude do ladrão — e da redenção, quando este, enfim, resolve dar um novo sentido à sua existência. No cordel, há similares na História de Roberto do Diabo, de Leandro Gomes de Barros, e em Dimas, o Bom Ladrão, cuja autoria é atribuída a Francisco das Chagas Batista. Rouxinol do Rinaré, portanto, revisita a tradição dos grandes autores, sem perder a originalidade característica de seus versos, que estão entre os melhores de quanto já se publicou na literatura de cordel do Brasil.

FONTE: www.marcohaurelio.blogspot.com  (Cordel Atemporal)
Mais informações: novaalexandria@novaalexandria.com.br

domingo, 1 de julho de 2012

I FEIRA BRASILEIRA DO CORDEL


Acontecerá em Fortaleza-CE dias 17,18 e 19 de julho de 2012, das 16h às 21h30 No Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a I Feira Brasileira do Cordel. Lá estarão as maiores editoras do gênero
A I Feira de Literatura de Cordel terá a participação das maiores editoras do gênero e receberá grandes nomes da nossa cultura popular. Vale apena conferir.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

SETE VEZES RAUL SEIXAS



"Sete dias da semana,
Sete notas musicais,
Sete cordéis publicados
Por poetas geniais,
Que colocam Raulzito
Entre os mitos imortais"
(Rouxinol do Rinaré)

O livro sai com o selo da Conhecimento Editora. Trata-se de uma coletânea com sete cordéis assinados por 7 poetas: Otávio Menezes, Costa Senna, Eliseu Paulino, Antonio Salvino, Arievaldo Viana, Marco Haurélio e Rouxinol do Rinaré.

LANÇAMENTO: dia 30 de junho - Local: Teatro Chico Anysio (Av. da Universidade, Fortaleza_CE)- às 19h

sábado, 23 de junho de 2012

Luiz Gonzaga, o rei da tradição


No ano de comemoração do centenário de Luiz Gonzaga, uma exposição de múltiplas linguagens ressalta a importância do artista

“Ele foi o primeiro artista pop, pop mesmo, popular que o Brasil teve”, crava Bené Fonteles sobre Luiz Gonzaga Nascimento, o Rei do Baião. “Ele foi o parâmetro para tudo o que foi produzido depois”, emenda o curador da mostra O Imaginário do Rei – Visões Sobre o Universo de Luiz Gonzaga, exibida a partir de hoje em duas galerias do Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Compositor, artista plástico e pesquisador da obra de Gonzagão, é sobretudo com a propriedade de um amigo que Bené fala do homenageado. No ano do centenário do mestre da música popular, a relação entre os dois comemora 40 anos. O primeiro encontro aconteceu em 1972, quando Mestre Lua – um dos títulos de Gonzaga – veio a Fortaleza e foi apresentado ao jovem Bené, que havia escrito o espetáculo teatral Luiz Lua, Obrigado.

Era a primeira homenagem ao artista de quem aprendera a gostar ainda na infância, por influência do pai. A admiração de fã foi convertida em intimidade a ponto de Gonzagão adotá-lo como filho postiço, para orgulho de Bené. Muitos anos de convivência depois, a dedicação do curador em resgatar o legado do mestre aparece em obras como o livro O Rei e o Baião, de 2010, organizado por Bené, com incentivo do Ministério da Cultura (Minc), e é consolidada com a exposição, que recebeu o prêmio Centenário Luiz Gonzaga da Fundação Nacional de Artes (Funarte/Minc).

A exposição que Fortaleza recebe a partir de hoje é fruto do livro lançado em 2010 e parte das comemorações que incluem diversas atividades por todo o País. A mostra já passou por Recife e Salvador e recria a obra de Luiz Gonzaga a partir de diferentes linguagens. “Não é simplesmente uma curadoria de uma pessoa sobre o trabalho dele, é uma demonstração de gratidão”, ressalta Bené.

Além das xilogravuras de sete artistas do interior cearense, entre eles Francisco de Almeida, João Pedro do Juazeiro e José Lourenço, a mostra apresenta esculturas em madeira e cerâmica. O público ainda verá de perto as roupas de couro, confeccionadas pelo mestre da cultura de Nova Olinda, Espedito Seleiro, que se tornaram a marca do Rei do Baião. O artista e inventor Narcélio Grud e o músico Tércio Araripe, de Fortaleza, criaram dois instrumentos musicais especialmente para a mostra.

A fotografia tem lugar em grande ensaio sobre o sertão cantado por Gonzaga, assinado pelo fotógrafo Ricardo Moura com a colaboração de outros vinte artistas visuais. Durante toda a mostra, que se estende até o dia 18 de agosto, serão projetados os filmes Viva São João!, de Andrucha Waddington; O Milagre de Santa Luzia, de Sérgio Roizenblitz; O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira e Luiz Gonzaga – A Luz dos Sertões, de Rose Maria.

“A mostra tem uma diversidade de expressão muito grande. Eu queria provocar os artistas e as outras exposições a colocarem outras linguagens”, afirma Bené. De Fortaleza, O Imaginário do Rei segue para João Pessoa, na Paraíba, e volta à capital pernambucana, Recife. De lá, ocupa o Museu da República, em Brasília – coincidindo com o aniversário de Luiz Gonzaga, 13 de dezembro – e vai para São Paulo e Rio de Janeiro.

Por ocasião da abertura da mostra, também será lançado o livro que deu origem ao projeto, O Rei e o Baião. Apesar de não ter sido produzido com propósito de venda, a obra com ensaios de Gilmar de Carvalho e Antônio Risério, entre outros estudiosos da cultura, estará disponível aos interessados por R$ 100.


SERVIÇO
O Imaginário do Rei
O quê: abertura da exposição em homenagem a Luiz Gonzaga e lançamento do livro O Rei e o Baião
Quando: Hoje, às 19 horas. Entrada gratuita.
Onde: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (rua Dragão do Mar 81, Praia de Iracema)
Preço do livro: R$ 100
Outras informações: 3488 8600

FONTE: Vida & Arte, jornal O POVO, 23-06-2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A PRIMEIRA BIOGRAFIA

Luiz Gonzaga e Outras Poesias
Autor: Zépraxedi (O Poeta Vaqueiro) 1ª edição: Continental Artes Gráficas – São Paulo (SP), 1952 71 páginas 14 x 21 cm
Em geral quando se fala de biografia pioneira de Luiz Gonzaga, imagina-se que seja O Sanfoneiro do Riacho da Brígida (1966), livro escrito pelo paraibano Sinval Sá, anterior à obra de Dominique Dreyfus (A Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga (1996). Na verdade, a primeira biografia de Luiz Gonzaga, em versos matutos de tamanhos diferentes de estrofes, é de autoria do poeta-vaqueiro norte-rio-grandense Zépraxedi, lançada em 1952 e jamais reeditada (2009).
 
O livro Luiz Gonzaga e Outras Poesias é introduzido por dois artigos publicados em jornais, publicados em jornais do Rio Grande do Norte e do Rio de Janeiro, à guisa de apresentação da obra: um de autoria do crítico teatral do Diário Carioca, Sábato Magaldi (1951); o outro artigo, de Luiz da Câmara Cascudo, fora publicado na sua coluna Acta Diurna (1948), no Diário de Natal, explica as diferenças entre quem é folclore e o ofício do folclorista.
 
O artigo de Magaldi noticia a noitada de poesia sertaneja de Zépraxedi, no Teatro Copacabana da então capital federal, Rio de Janeiro, sob patrocínio do vice-presidente da República, Café Filho, e das bancadas de políticos do Rio Grande do Norte. O jovem crítico teatral comenta a espontaneidade dos versos do poeta vaqueiro, inspirados na política, no amor, na família, no mundo. “No intervalo entre a primeira e segunda parte do programa, Luiz Gonzaga cantou excelentes baiões de sua autoria”, anota Sábato Magaldi, sem esquecer os entusiásticos aplausos do público aos passos de frevo do trianglista Zequinha.
 
O vínculo dessa biografia pioneira do Rei do Baião, de Zépraxedi, à colônia norte-rio-grandense no Rio de Janeiro é considerado nas estrofes iniciais a Dois Grandes: Duas boas arturidade / Me truveram do sertão / A sigunda do país [o vice-presidente Café Filho] / E a prenmera do baião.
 
Em seguida, Zépraxedi dedica cerca de 160 estrofes, de quatro, seis, oito e até dez versos matutos, à vida e à obra de Luiz Gonzaga, incluindo versos dedicados ao pai Januário, ao casamento com Helena Gonzaga, à sua sanfona e à festa junina. Há ainda dois poemas extras: Noite de Natá e Quatro Coisa. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

BIOGRAFIA DE GONZAGÃO


'Gonzaga é a metáfora do Nordeste rural', diz biógrafa do Rei do Baião

Francesa Dominique Dreyfus está no Recife para debater vida do artista. Projeto 'Jornadas Gonzagueanas' faz parte da agenda junina do Recife.

Luna Markman - Do G1 PE

Dominique Dreyfus - biógrafa de Luiz Gonzaga (Foto: Luna Markman / G1)
Dominique Dreyfus lançou biografia de Gonzaga
em 1997, pela Editora 34 (Foto: Luna Markman / G1)


No São João em que o Recife celebra o centenário de Luiz Gonzaga, o arrasta pé abre espaço para debates com parceiros e estudiosos da história e obra do Rei do Baião. O projeto Jornadas Gonzagueanas acontece nesta sexta-feira (08) e sábado (09), na Livraria Cultura, no Paço Alfândega, com entrada gratuita. Entre os convidados, a francesa Dominique Dreyfus, considerada “autoridade” no assunto por escrever a mais completa biografia do sanfoneiro, onde há várias curiosidades sobre o artista.
A pesquisadora, jornalista e cineasta lançou, em 1997, pela editora paulista 34, o livro “A Vida do Viajante: A saga de Luiz Gonzaga”. Antes que você se pergunte: “o que essa francesa tem a ver com Luiz Gonzaga?”, respeite Dominique! Ela é livre-docente em Letras e Literatura pela Universidade Paris I (Sorbonne), trabalhou como repórter, editora e diretora de revistas e programas especializados em música, colabora para conceituadas publicações de arte sul-americanas e acabou de virar doutora em música popular brasileira.

Á-bê-cê no interior
Além desse gabarito acadêmico e profissional, ela passou a infância e parte da adolescência entre Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, Olinda e Recife. Mudou-se com a família da França para o Brasil para ficar longe da 2° Guerra que assolava a Europa. “A primeira música que eu aprendi a cantar, aos dois anos de idade, foi 'A todo mundo eu dou psiu' [Sabiá], de Luiz Gonzaga. Isso não me sai da memória”, relembra.

Seguindo novamente a família, retornou ao país natal e só colocou de novo os pés no Brasil passada a ditadura militar. Aproveitou e comprou vários discos de Luiz Gonzaga. “Em 1985, ele foi convidado a participar de um festival em Paris, que eu fui cobrir. Na terceira música, pediu para sentar, porque a sanfona pesava. Foi quando eu me dei conta que ele estava ficando velho e não havia nada aprofundado e com impacto nacional escrito sobre ele”, conta.

Óia eu aqui de novo
Dreyfus chamou a responsabilidade para si, arrumou as malas e começou uma série de entrevistas, que renderam mais de 100 horas de gravação. Conversou pessoalmente com Gonzagão, a quem destaca o charme, generosidade e bom humor, além de ter ouvido também outros parentes e amigos. Só lamenta o fato de não ter falado com Gonzaguinha e Sivuca, além de Zé Dantas e Humberto Teixeira, parceiros musicais, e Aluízio, irmão mais velho do sanfoneiro.

Porém, o rico material ficou “mofando” por seis anos na casa da jornalista. “Nenhuma editora francesa comprou a ideia alegando que ninguém na França conhecia Luiz Gonzaga, então me desanimei. Foi quando o [jornalista e crítico musical] Tárik de Souza me convidou para escrever a biografia dentro de uma coleção musical que a [editora] 34 ia lançar”, diz.

O fole roncou
Foram mais três anos para concluir o livro, lançado após a morte de Luiz Gonzaga, em 1989. Soube da notícia por meio de uma ligação do músico João Gilberto. No começo, ela confessa que ficou com medo da reação do público ao fato de uma estrangeira escrever sobre o músico, mas orgulha-se das boas críticas. “Acho que ficaram até com vergonha de nenhum brasileiro ter feito isso antes”, brinca.

"Minha intenção não foi contar a vida dele, mas captar o essencial para fazer o retrato justo daquele homem que era pobre, negro, analfabeto e sertanejo, tudo para não dar certo naquela época, e se tornou, nos anos 1950, a maior figura artística do Brasil, mesmo sem conseguir se despojar dos preconceitos. Ele é a metáfora do Nordeste rural”, complementa.


Dominique Dreyfus - biógrafa de Luiz Gonzaga (Foto: Luna Markman / G1)
Dominique está no Recife para participar de debate
sobre a obra de Gonzaga (Foto: Luna Markman / G1)


Asa branca
A autora contou algumas curiosidades do artista extraídas de suas leituras e observações. “Ele nunca cuidou muito do Gonzaguinha [filho não biológico de Gonzaga]”; “Helena e Rosinha [mulher e filha adotiva de Gonzaga] eram racistas”; “ele não tinha apego ao luxo, dava dinheiro para todo mundo, sua casa era de uma simplicidade sinistra”; e “ele era muito mulherengo, nunca quis se casar, queria mesmo era sair viajando em turnê, jogando charme para todo mundo”, salpicou, durante a entrevista concedida no Recife.

Ela garante, porém, que Gonzaga não a paquerou, “mas se eu quisesse, acho que rolava”, ironizou. Uma passagem que Dominique ri até hoje é a visita de Luiz Gonzaga ao general João Figueiredo, presidente na época da ditadura militar. “Uma vez, consciente de que a asa branca estava sumindo no Nordeste, ele foi vestido todo a caráter e com duas aves nos ombros falar com Figueiredo sobre o assunto, mas foi expulso de lá”, fala.

Olha pro céu
Dominique Dreyfus garante que o sanfoneiro sabia da sua importância no cenário musical brasileiro, mesmo quando ele foi “atropelado” pela bossa nova. “Ele encarava com tranquilidade e até certo humor. Dizia que 'aquela' bossa nova acabou com todo mundo, que ninguém mais queria saber dele, mas que continuaria a fazer música para o povo dele.”

A autora aponta três tipos de legado do Rei do Baião: os clones, que só o copiam; os que pegam a tradição da sanfona e imprimem sua própria impressão, como Dominguinhos; e os que pegam o espírito de Gonzaga e enriquecem com as coisas que existem em sua época, como Renata Rosa e Lenine, de quem é fã. “Acho legal todos os casos. Gosto muito dessa atual geração de músicos nordestinos, como o Silvério Pessoa. Só não gosto desse forró estilizado, que para mim é de uma grande pobreza, não progrediu em nada”, ataca.
Além de Luiz Gonzaga, a autora também escreveu sobre a vida de um dos maiores violonistas brasileiros em “Violão Vadio de Baden Powell”, de 1999, também pela editora 34. Será que ela já tem em mente outro artista para biografar? “Pensei em fazer sobre [Dorival] Caymmi, mas neta dele, Stella, já estava fazendo. Tem pessoas interessantes por aí, mas que ainda não estão velhas o suficiente”, brinca.

Jornadas
Essas e outras histórias curiosas sobre a vida de Luiz Gonzaga vão entrar no repertório de Dominique Dreyfus na conversa que ela terá com o público no sábado (09), às 17h, ao lado do músico e etnomusicólogo Climério de Oliveira (PE). Antes, a partir das 15h, o historiador especializado em música Ricardo Cravo Albin (RJ) e o pesquisador Renato Phaleante (PE) participam da mesa "Baião na cidade grande", com mediação do radialista Saulo Gomes (PE).

Na sexta (08), a partir das 15h, quem abre as Jornadas Gonzagueanas são os músicos pernambucanos João Silva, Marcelo Melo, Onildo Almeida e Jurandy da Feira. Eles compõem a mesa de debate “Memorial dos parceiros”, relembrando os momentos vividos junto ao Rei do Baião.