terça-feira, 28 de junho de 2011

MESTRES DO CORDEL - VI

VICENTE VITORINO DE MELO



No início da década passada, acho que entre 2000 e 2003, correspondi-me com o poeta Vicente Vitorino de Melo, autor e editor do Almanaque do Nordeste e do célebre folheto “Discussão de um crente com um cachaceiro”, um dos melhores do gênero. Imagino que o poeta seja falecido uma vez que se dizia muito doente em suas correspondências, que cessaram bruscamente. Ele era muito atencioso e costumava enviar alguns folhetos de sua autoria, juntamente com alguns originais inéditos. Um deles foi “O príncipe Alípio ou o julgamento de Satanás” que foi lançado pela Tupynanquim Editora. Enviei a porcentagem do poeta e ele me mandou, em seguida, “A filha da peregrina”, texto que venceu um prêmio literário promovido no Estado de Pernambuco. Ele nasceu em Limoeiro-PE no  e residia em Caruaru, no mesmo Estado, no período em que manteve correspondência comigo. Certa feita demonstrei interesse em fazer uma edição do clássico “Discussão de um crente com um cachaceiro” e ele, prontamente, respondeu que não podia me conceder tal autorização por haver negociado os originais do dito folheto com o editor Giuseppi Baccário, da Casa das Crianças de Olinda. Gostei da sua sinceridade, coisa que às vezes não ocorre com outros poetas populares.

Eu viajando este mês
Pela linha do agreste
Fui parar em uma feira
No dia de São Silvestre
A feira é fraca e de tarde
Dá cachaceiro por peste...

Nessa dita feira o poeta presencia a discussão de um crente com um cachaceiro. Tudo começa quando o crente passa na calçada de um bar, com uma bíblia na mão e o bêbado imprudente o convida para uma bicada. O crente condena veementemente o seu proceder, porém o cachaceiro não se dá por vencido e usa diversos argumentos em defesa da aguardente:

Você já leu alguns livros
De fabricar aguardente?
Pinga-fogo, Canta-galo...
- Deus me livre! – Disse o crente,
De eu ler certas misérias
Disse o bêbado: - São matérias
De conteúdo excelente!

E, prossegue o cachaceiro, na sua esdrúxula defesa da “branquinha”, sem dar a mínima atenção aos argumentos do crente. Depois de citar o milagre das Bodas de Caná, onde Jesus transformou água em vinho, diz o embriagado:

Você não bebe e nem fuma
Cigarros da Sousa Cruz
Não dança devido a cota
Um baralho não conduz
Que lucro dá ao país?
Você é um infeliz
Não um membro de Jesus!

Quando eu bebo Serra Grande
Eu me lembro da ladeira
Que subiu Nosso Senhor
Num dia de sexta-feira,
Lá foi muito judiado
Eu também sou arrastado
Bebendo a cana rancheira.

Todo domingo na missa
Eu ouço o padre ensinar
Coma pão e beba vinho
Para poder se salvar
Eu ouvindo este sermão
Compro do vinho São João
Bebo dele até topar!



Vicente Vitorino de Melo
Por: Arievaldo Viana


Vicente Vitorino de Melo nasceu em Limoeiro-PE, em 16 de novembro de 1917. Foi cantador de viola até 1950, a partir daí começou a escrever folhetos e publicar um almanaque anual de astrologia - o Almanaque do Nordeste, que existe desde 1952 e ainda sobrevive nos dias atuais. Seu primeiro folheto data de 1948: "O exemplo da asa branca profetizado por Frei Damião". Reside atualmente em Caruaru-PE e possui alguns originais ainda inéditos. Um deles foi publicado pela Tupynanquim Editora: trata-se de "O príncipe Alípio - ou o julgamento de Satanás", onde Vicente demonstra ser um bom poeta de bancada. Sua obra mais conhecida é "A discussão de um crente com um cachceiro", um dos clássicos do gênero.
São de sua autoria os seguintes folhetos: A filha da peregrina, A firmeza de Alzira e o heroísmo de Zezinho, A morte do Coronel Ludugero, As anedotas do finado Antônio Marinho, Discussão de um crente com um cachaceiro, Exemplo dos quatro conselhos, História de Alexandrino e Aulina, História de Luizinho e o velho feiticeiro, Horrores que a Asa Branca traz, João Sabido e o cacetinho mágico, O horror da carestia, dentre outros.



ROMANCE DO PRÍNCIPE ALÍPIO
OU O JULGAMENTO DE SATANÁS
(Trechos)

Entrei no mundo dos contos
Comecei a dar um visto
Onde encontrei uma lenda
Que creio que se deu isto
Há oito séculos passados
Depois da vinda de Cristo.

Nesse tempo, na Itália
Residia um rei bondoso
Humilde e caritativo
De um espírito generoso
E a rainha seguia
O exemplo de seu esposo.

Daquele casal bondoso
Nasceu uma linda criança
Encheu a casa de risos
Os corações de esperança
Daqueles pais que queriam
Dotá-lo com sua herança.

Naquele tempo as crianças
Quer menino, quer menina,
Com dois anos de idade
Mandavam ler sua sina
Pelo Oráculo da Sorte
Pra ver o que determina...

Dizia o Oráculo assim
Com 15 anos de idade
Viajará sem destino
Por sítio, vila e cidade
Estendendo suas mãos
Praticando a caridade.

É um decreto do Alto
Sua peregrinação
Para ver se assim alcança
De Jesus a salvação
Porque é muito sujeito
A uma condenação.

Renunciar a riqueza
Abandonar o governo
Dá esmola, amar ao próximo
Pedir para Deus Eterno
Defender a sua alma
Das profundas do Inferno.

(...)

Quando Alípio completou
Seus 15 anos de idade
O rei chamou a rainha
Pois tinha necessidade
De ali, perante os três
Se descobrir a verdade.

Sentaram-se os três na sala
O rei lhe disse: - Meu filho
Sua vida é um mistério,
Tem um pouco de empecilho
Que para vencer, precisa
Por na vida um novo brilho!

Olhe o Oráculo da sina
Leia aí a sua sorte
A sua vida terrena
E a vida depois da morte;
Um homem pra vencer isto
Precisa ser muito forte!

Alípio disse: - Eu aceito,
De todo meu coração
Se é decreto de Deus
Não tem mais apelação
Amanhã começarei
Minha peregrinação...

Quando foi no outro dia
O rei, com toda coragem,
Preparou-lhe dois cavalos
Um deles com a bagagem
E outro com uma sela
Para seguir sua viagem.

O jovem príncipe viaja e mete-se numa grande enrascada. Uma velha feiticeira o acusa de haver roubado uma taça de ouro. O caso vai a julgamento e o príncipe é condenado à morte:

O rei entregou a velha
O objeto "roubado"
Sendo feito o julgamento
O caso foi encerrado
E condenaram o príncipe
Para morrer enforcado.

Mas o Diabo que sabia
Que o príncipe era inocente,
Apelou para São Pedro
São Gabriel, São Clemente,
São João, São Severino,
São Joaquim e São Vicente.

Porém, sem ordens de Deus
Santo nenhum nada faz,
Foi aí que ouviram todos
A fala de satanás:
- Se me soltares, Miguel
Eu vou salvar o rapaz!

São Miguel disse: - Estás solto
Satanás com uma voz desta
Disse: - O diabo está solto
Hoje eu faço a minha festa
Nunca pensei de ganhar
Umas férias com esta!

O diabo, transformado em Duque, tomou a defesa de Alípio para si porque este, toda vez que acendia uma vela para o Arcanjo São Miguel, acendia também uma velinha para o diabo, que se achava debaixo de seus pés. O rei explica ao “Duque” o motivo da execução do rapaz:

Na casa de uma velhinha
Onde ele estava arranchado
Sumiu-se um copo de ouro,
Segundo eu fui informado,
Pela velha que o copo
O príncipe o tinha roubado.

Logo imediatamente
Mandei a polícia atrás
Disse à velha: - Espere aí
Par ver o que se faz
E o copo foi encontrado
Na bagagem do rapaz!

Levei-o a julgamento
Depois dele haver jurado
Saiu favorável a velha
E o copo foi entregado
O pobre príncipe sem sorte
Hoje vai ser enforcado.

Disse o Duque: - Se não fosse
Ambos haverem jurado
Se fazia um novo apelo
Para ver o resultado
Poderia até salvar
A vida de um condenado!

Pois eu tenho aqui um livro
De pura realidade
No ato do juramento
Descobre a pura verdade
Será infeliz aquele
Que jurar com falsidade.


(...)


Este romance é uma das melhores produções do poeta Vicente Vitorino de Melo e foi editado pela Tupynanquim em novembro de 2000. Quem quiser saber o desfecho da trama, procure adquiri-lo junto aos revendedores dessa editora.

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Pra começo de conversa...


Meu cumpade Eliseu Joca me mandou esse texto pai d'égua, da jornalista paraibana Sheila Raposo, falando de seu orgulho de ser Nordestina da gema, da gota serena! É que geralmente as pessoas de outras regiões às vezes só conseguem enxergar (falo daqueles que não enxergam um palmo adiante da venta) as coisas negativas de nossa terrinha e de nossa gente: fome, pobreza, falta d'água, analfabetismo etc etc. Te dana! Aqui tá cheio de coisinha bonita pra se ver, negada! Duvidam? Inventem de andar por aqui nessa estação climática que estamos vivendo... pra gente do Sudeste, princípio do INVERNO, pra nós, "FINS D'ÁGUA", começo do que chamamos de VERÃO.  Êta sertão véi bonito da mulésta dos cachorros!

VERGONHA QUE NÃO TENHO,
DE SER NORDESTINA


Sheila Raposo - Jornalista

Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, o meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.
Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri paraibano, correndo de boi brabo, brincando com boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos tapados de remela, desabar pro curral e esperar pacientemente, o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.
Sou nordestina. Falo oxente, vôte e danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria e José! Proseio com minha língua ligeira, que engole silabas e atropela a
ortoépia das palavras. O meu falar é o mais fiel retrato. Os amigos acham até engraçado e dizem sempre que eu “saí do mato, mas o mato não saiu de  mim”. Não saiu mesmo! E olhe: acho que não vai sair é nunca!
Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquela que, quando a gente termina de engolir, o suor já está pingando pelos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. E no outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na orêa de pau com café torrado em casa!
Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a indignação com que ele costurava as suas cantigas e que também são minhas. Também estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi em sua obra que se firmou a minha identidade cultural.
Sou nordestina. Me emociono quando assisto a uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso.. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.
Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som do xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê mais instrumento nesse grupo além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo, um pandeiro ou uma rabeca. Mas dançar ao som desse trio é bom demais. E fico nesse rela-bucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrando e os pés se queimando em brasa.. Ô negócio bom!
Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte do côco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história.
Sou nordestina. E não existe música mais bonita para meus ouvidos do que a tocada por São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita.
Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Só não sou apaixonada por uma pequena parcela dessa mesma gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo, enganando, ludibriando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os próprios bolsos de dinheiro.
Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina, e tenho orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou a dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de sua nordestinidade. Para eles, ofereço estas linhas.


Missa dos Vaqueiros - Caridade-CE


NOTÍCIA

Estamos nos aproximando da marca de 18 mil visitas. O ranking de visitantes, em dois meses e 15 dias de atividades do nosso blog, apresenta o seguinte quadro:


Brasil
 - 14.726
Bélgica
 - 1.788
Estados Unidos
 - 465
Portugal
 - 315
Holanda
 - 125
Alemanha
 - 62
Espanha -
30
Reino Unido
 - 29
Argentina
 - 16
Itália 
- 14

domingo, 26 de junho de 2011

NA FOGUEIRA DE SÃO JOÃO

Fazenda Sabonete - Madalena-CE


Fazia muito tempo que eu não passava um São João nos cafundós do sertão, assando milho nas brasas da fogueira, ouvindo os clássicos de Luiz Gonzaga, João Silva e Trio Nordestino. Este ano pude refazer essa trilha tão marcante em minha infância. Estive na fazenda Sabonete, imediações de São José da Macaóca, no município de Madalena-CE. Lá encontramos o Sr. Raimundo Policarpo, pai de minha companheira Juliana, sempre atencioso e prestativo, a nos ajudar nos preparativos da folia. Milho verde, baião de dois com queijo, costelas de carneiro e uma boa cerveja gelada faziam parte do cardápio improvisado. E, de quebra, Policarpo ainda recitou, de memória, trechos do folheto “O príncipe João Sem Medo e a Princesa da Ilha dos Diamantes”, de Francisco Sales Areda:

João Sem Medo foi um príncipe
Duma coragem sobrada –
Viajou por muitos bosques,
Lutou com coisa encantada
Brigou, desencantou reinos,
Sem nunca temer a nada.

(...)

Estava ali, contemplando
A beleza da paisagem
Ouvindo o vento embalar
Nas árvores, sobre a folhagem
Nisto chegou um gigante
E lhe falou com coragem:

- Quem és tu? De onde vens?
Perguntou-lhe o monstro preto,
Pisando aqui nesse bosque
Nada de bom lhe prometo
Pois quem passar nesta serra
Não tem perdão, eu derreto!

Bem no peito do gigante
Tinha uma caçoleta
Toda de ouro maciço
Em forma de borboleta
João meteu-lhe a espada
Que ela fez pirueta!

Quando a jóia caiu lá
Disse ele: - Eu me garanto,
E o gigante gritou
Berrando, num triste pranto
- Ah miserável infeliz!
Redobraste o meu encanto.

(...)


Sr. Policarpo


UMA TRAVESSURA JUNINA



Quando criança, eu passava essa data tão marcante na fazenda Ouro Preto, onde nasci, rodeado de irmãos, primos e outros companheiros de travessuras. Montar num cavalinho de tala de carnaúba, e passar correndo junto à fogueira, queimando as palhas da ponta da cauda do “cavalo” nas labaredas era uma brincadeira arriscada, mas muito divertida. O rádio velho da minha avó, sintonizado na Difusora Cristal de Quixeramobim dava o tom da alegria:

“Eu este ano vou fazer
Uma fogueira no quintal
Estou sozinho sem ninguém
Mas isso não faz mal...
São João mandou me avisar
Pra fazer a sua festa assim
Muita gente a lhe festejar
Com alegria do princípio ao fim
Eu vou fazer como ele mandou
Pra ser mais feliz no amor...”

(S. João no quintal – Trio Nordestino)
O São João da minha infância, em meados da década de 1970, era um momento marcante, esperado com grande ansiedade. No alpendre do Zé Miguel, nosso vizinho, os sanfoneiros Pedrinho e Vicente Araújo (filhos do Edmundo) entoavam marchinhas juninas, xotes e mazurcas para alegria dos casais. Chegaram mesmo a fazer uma quadrilha marcada pelo Beca do "véi" Zé de Sousa. Uma graça! Eu era tão pequeno que não pude participar da brincadeira, mas lembro bem das saias coloridas dando “rabanadas de fulô de amor” pertinho do rosto da meninada.

Minhas tias, as que ainda não haviam se casado, faziam advinhações com bacias d'água, faca na bananeira, aliança no copo d'água e outras mais. O objetivo de tais advinhações creio que é desnecessário registrar.
Na véspera de São João, logo cedo, vovô acionava seu fiel ajudante João “Lima” (Lima era o sobrenome de meu avô e as pessoas da redondeza chamavam o João desse jeito por ele ser considerado quase um membro da família). Pois bem, João era incumbido de cortar lenha verde e fazer duas cargas que eram transportadas em lombo de jumento até o terreiro da frente. No final da tarde, vovô arrumava a lenha cuidadosamente e fazia a fogueira. Meus primos Totonho, Oswaldo e Marquinhos, companheiros inseparáveis de travessura, tiveram uma idéia bombástica naquele ano de 1976... Botar cabaças verdes na fogueira para escutar o ‘papôco’ das bichas no meio das labaredas. Por detrás da casa grande, junto ao chiqueiro das criações, nasceu uma ramada espessa sobre um pé de mofumbo, carregadinha de cabaças de tamanho e formato variado. Vovô já tinha projetos para a safra da cabaceira. Com as maiores, ele pretendia fazer cuias e vasilhas de carregar água para o roçado. As menores, em formato de “marimba” seriam serradas no fundo e no bico e transformadas em funis para botar nas ancoretas que seguiam para o açude em lombo de jegue.
A ramagem da cabaceira, sobre a moita de mofumbo, mais perecia uma árvore de natal sobrecarregada de bolas e enfeites. Em pleno mês de junho, quando a ramagem já começava a ficar ‘zarolha’, aquele pé de planta carregado de cabaças e pontilhado de flores de mofumbo e melões de São Caetano era mesmo um espetáculo singular, de encher a vista. Vovô amava aquele conjunto, mais por sua beleza natural que pela sua utilidade prática...
Meus primos, sedentos por uma travessura, não pensaram duas vezes. Munidos de foices e facões atacaram o pé de cabaceira depois do meio dia, quando julgavam que o vovô dormia a sua siesta costumeira. Ledo engano... O velho tinha o ouvido apurado. Os golpes de foice na moita de mofumbo, associados com o alarido que o Marquinhos costumava fazer, logo chamaram a sua atenção. Vovô era esquentado, tinha pavio curto, embora tivesse um coração de manteiga. No momento da raiva, contudo, agia impetuosamente. Adivinhando o que se passava, saiu deslizando de mansinho pelo pé da cerca, por detrás do curral, e colheu o trio de peraltas em pleno flagrante. O chiqueirador (também chamado macaca de couro) chiou nas canelas da meninada. Totonho, o mais esperto, correu logo com um saco repleto de cabaças. Oswaldo fez o mesmo, mas o pobre do Marquinhos acabou pagando o pato. Eu me comprazia, não nego, da aflição dos meus companheiros de travessuras, pois haviam me deixado de fora da brincadeira e pretendiam espocar as cabaças sem a minha participação. Todo menino tem um pouco de sadismo nessas horas.
A noite, depois que as fogueiras foram acesas, o pipocar de cabaças no terreiro de meu tio Zé Oswaldo era um espetáculo à parte. Mesmo com as pernas encalombadas pela surra que levou, Marquinhos era o mais animado jogando cabaças verdes na fogueira de São João. Jamais esqueci daquelas cenas, até porque, no dia seguinte, fiz uns versinhos em sextilha narrando o episódio das cabaças. O folheto tinha um título bem sugestivo: “A grande surra dos tiradores da cabaça”. O saudoso pesquisador Ribamar Lopes, que não sabia do caso, mas que já ouvira falar desse texto, imaginava se tratar de um folheto de duplo sentido. Infelizmente não recordo de um trecho sequer desta obra pioneira...

Tudo isso passou numa velocidade assombrosa deixando somente retalhos de lembrança na memória dos antigos meninos do sertão. Hoje, em plena era do “forró de plástico”, haverá muito pouco o que recordar no futuro. Queimou-se tudo tão rápido quanto as fogueiras e os balões de papel seda que a moçada dos Três Irmãos costumava soltar nas noites juninas. Estrelas artificiais que rivalizavam em brilho com os astros do céu, mas que duravam tão pouco tempo...

Arievaldo Viana Lima


Yuri saboreando uma espiga de milho assado na beira da fogueira


CORDÉIS ATEMPORAIS


Quando menino, por volta de 1979, eu estudava no Instituto São José, em Maracanaú. Acabara de chegar dos sertões... Era meu primeiro contato com uma cidade. A distância da família, a mudança brusca de costumes, a presença da TV e das revistas em quadrinhos, que para mim constituíam uma novidade, só fizeram foi aumentar a saudade que eu sentia do meu torrão natal. O que mais me apertava o peito de menino era a lembrança de minha avó Alzira lendo folhetos na sala de jantar. Foi aí que apareceu um colega, residente em Pajuçara, no mesmo município, que também gostava de "romances". Foi um verdadeiro achado. Emprestei alguns folhetos ao colega e ele me trouxe um exemplar de "Vicente, o rei dos Ladrões", de Manoel D'Almeida Filho, garantindo-me que era melhor do que Cancão de Fogo! Confesso que fiquei meio frustrado após a leitura... Apesar de ser um texto bem escrito, verdadeiro clássico do gênero, Vicente, na minha opinião de menino, estava muito longe da irreverência de um Cancão, personagem picaresco que vencia mais pela astúcia e bom humor, do que propriamente pelo roubo. Ao deparar-me com esse texto do poeta Marco Haurélio, relembrei toda a cena passada em Maracanaú há exatos 32 anos:


VICENTE, O REI DOS LADRÕES

Por: Marco Haurélio

Manoel D’Almeida Filho esperava criar um personagem que se imortalizasse, a exemplo do Cancão de Fogo, de Leandro Gomes de Barros. Trata-se de Vicente, o rei dos ladrões, protagonista de um dos campeões de vendagem do autor e um clássico definitivo do gênero picaresco. Em comum com Cancão e com outros amarelinhos, Vicente se vale da esperteza e de certa crueldade no trato com os inimigos. O seu porte físico, conforme a leitura mais atenta indica, todavia, está mais para Cary Grant no filme O ladrão de casaca (de Alfred Hitchcock).

A história, em sua última parte, que envolve o saque ao tesouro do rei, consta de um conto popular egípcio de cerca de 3.000 anos, O tesouro de Ramsés, o qual chegou ao poeta, por meio de uma versão oral que ele habilmente costurou na bem urdida trama do romance. Encontramos episódios como o do sacrifício do parceiro preso numa armadilha e o do ferimento acidental para disfarçar o choro pelo morto, que denunciaria o ladrão. Como boa parte dos espertalhões, Vicente é apresentado, nas primeiras edições impressas como “professor de Cancão de Fogo”, conforme salientado no subtítulo, que foi sensatamente suprimido nas sucessivas edições publicadas pela editora Prelúdio desde 1955. Minelvino Francisco Silva, no mesmo período, deu vida a outro espertalhão, Nicolau Marreteiro, o ladrão misterioso, que se baseia na mesma mesma história egípcia.

Nos estandes que montei já ouvi mais de uma vez, ao reencontrar o lendário Vicente, um leitor declamar, emocionado, as estrofes de abertura.

Todo o mundo traz o dom,
Conforme diz o rifão:
Existe quem traga até
O dom para ser ladrão –
Sendo pra roubar cavalo,
Traz um cabresto na mão

Neste drama, eu apresento
Vicente, o Rei dos Ladrões,
Que, em todos caloteiros,
Ele passava lições –
Até em Cancão de Fogo,
Segundo as opiniões.

Vicente, o rei dos ladrões é um dos clássicos da Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel.

Postado originalmente em: http://marcohaurelio.blogspot.com/2011/06/cordeis-atemporais-vicente-o-rei-dos.html



BIOGRAFIA DO POETA

Vilma Mota Quintela
Manuel d´Almeida Filho nasceu em 1914, no município de Alagoa Grande, próximo a Campina Grande. Era filho de agricultores, tendo vivido exclusivamente no campo até por volta dos oito anos, quando foi levado pela primeira vez à cidade, onde se deu seu encontro decisivo com a literatura de cordel.
Quis aprender o ABC para decifrar as palavras nos folhetos, tornando-se, com isso, leitor habitual do gênero. Já por volta de 1936, vivendo como operário na capital paraibana, publicou seu primeiro folheto: A moça que nasceu pintada, com unhas de ponta e sobrancelhas raspadas, que versava sobre um caso polêmico ocorrido no interior do estado.
Logo depois, tornou-se autor-proprietário e mercador ambulante nas feiras entre Pernambuco e o Estado da Paraíba. Foi admirador declarado de João Martins de Ataíde e da roda de cantadores que se reuniam no Recife, em torno do poeta-editor pernambucano.

VER ESSE TEXTO COMPLETO EM:



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- Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum

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