quarta-feira, 1 de junho de 2011

RARIDADE!

 
Santo Antônio na Literatura de Cordel

Porque Santo Antonio é considerado o Santo Casamenteiro? Esse antigo folheto de João Melchíades Ferreira, o Cantor da Borborema, poeta nascido em 1869 e falecido em 1933 conta uma antiga lenda corrente em Portugal de um milagre atribuído a Santo Antonio que fez uma pobre órfã casar-se com o homem mais rico de Lisboa. Vejamos, a seguir, os principais trechos deste poema:


AS QUATRO ORFÃS DE PORTUGAL
Autor: João Melchíades Ferreira da Silva


Na capital de Lisboa
Havia uma união                                                              
De quatro donzelas órfãs
Sem pai, sem mãe, sem irmão
Servindo a moça mais velha
Como mãe de criação

(...)

A irmã mais velha morre e as outras, ainda menores, ficam desamparadas. Maria, a mais jovem, não agüentando mais a fome sai vagando pelas ruas, disposta a prostituir-se para arranjar o que comer:

Maria arrumou a roupa
E deixou anoitecer
O pedido das irmãs
Em nada quis atender
Se despediu com a noite
Dizendo vou me vender

A noite era muito escura
Porém a moça seguia
Num oitão de uma igreja
Um vulto lhe aparecia
Esse vulto era de um padre
Pegou na mão de Maria

O padre disse: filhinha
A essa hora onde vai?
O que é que tu procura
Que daqui não passa mais
Volta que tuas irmãs
 Ficaram chorando para trás

Padre é porque sou pobre
Uma órfã desvalida
Abandonei minhas manas
Para salvar minha vida
To atrás de uma pessoa
Que me dê roupa e comida

O padre disse: filhinha
Tu precisa é caridade
Então me diz se conhece
Na alta sociedade
Qual é o homem solteiro
Mais rico dessa cidade

Tem o Coronel Paulino
Que é um homem solteiro
Negociante na praça
Capitalista e banqueiro
O governo deve a ele
Grande soma de dinheiro

O padre tirou um lápis
Num papel pôs a escrever
Dirigindo o bilhetinho
De acordo a seu saber
Para o Coronel Paulino
Essa questão resolver

(...)

Quando o dia amanheceu
Maria no mesmo tino
Foi levar um bilhetinho
Ao coronel Paulino
Para saber da resposta
Qual seria o seu destino

No armazém de Paulino
Estava negociando
Uma sessão dos mais ricos
Sobre a negócio tratando
E viram aquela mocinha
Que vinha se aproximando

Eles se combinaram
Cada qual o mais ladino
Maria interrogou-se
Com o seu olhar feminino
Qual é aqui dos senhores
O grande coronel Paulino?

O coronel levantou-se
Chegou-se para Maria
Pronto, sou eu seu criado
Enquanto a moça dizia:
Trago esse bilhetinho
Para vossa senhoria

Dizia assim o bilhete:
 - Meu honrado coronel
Dê para essa moçinha
O valor desse papel
Depois pese na balança
Até chegar ao fiel...”

O coronel ainda riu-se
E disse: hora muito bem
Isto não é precisão
Que se ocupe ninguém
O peso desse bilhete
Só pesa igual um vintém

Ele pegou o bilhetinho
Pois na balança um tostão
E foi botando dinheiro
Como quem pesa algodão
E a concha do bilhetinho
Só pesava para o chão

O coronel botou todo
O ouro que possuía
Botou dinheiro em papel
Que a balança não cabia
E a concha do bilhetinho
Mais pesada não subia    

Ele arredou o dinheiro
Pesou-se com o papel
A concha do bilhetinho
Subiu e mostrou fiel
Era a honra da donzela
Que valia o coronel

O coronel disse: moça
Você é misteriosa
Qual é a sua oração
Na vida religiosa?
Este bilhete foi feito
Por uma mão milagrosa

Coronel, a minha mãe
De criação me ensinava
Santo Antonio é meu padrinho
A ele me entregava
Tomava a benção o santo
De noite quando rezava
          
Coronel essa noite
De casa vinha saindo
No oitão de uma igreja
Um vulto desconhecido
Mandou esse bilhetinho
Conforme vem dirigido

O coronel baixou a vista
E disse quando pensou
Então o bilhete foi
Santo Antonio quem mandou
Pra você casar comigo
Como o santo me apontou

Você é uma mocinha
Que vive em grande pobreza
A sua honra pesou
Mais do que minha riqueza
No dia que nos casar
Sou feliz por natureza

Desde ai o coronel
Tomou conta de Maria
Convidou os seus amigos
Casaram no outro dia
Mandou ver as duas órfãs
Para a sua companhia

FIM

* O exemplar que tenho deste folheto me foi presentado em Brasília, no dia 01 de setembro de 2008, por dona Rita de Oliveira Mota (Rita Salgadeira), cunhada do poeta Cícero Vieira da Silva, o "Mocó". D. Rita foi cozinheira do ex-presidente Costa e Silva e disse-me que o mesmo "morreu de desgosto". Eu perguntei então: - Desgosto de quê, dona Rita? E ela: "Chifre!"
Se isso é verdade eu não sei... apenas estou repassando a história pelo preço que colhi... Na certa o general não era devoto de Santo Antônio.

terça-feira, 31 de maio de 2011

"TRISTE PARTIDA" foi motivo de POLÊMICA

João Alexandre Sobrinho: inventou de tocar e improvisar versos aos dezenove anos e teve uma contenda com Patativa do Assaré por causa de “Triste Partida”

Muita gente desconhece esse fato... Você sabia que “Triste Partida”, obra-prima de Patativa do Assaré, tem um co-autor?
A famosa canção do poeta de Assaré, uma das preferidas de Luiz Gonzaga, pode ter tido a colaboração de um cantador que foi parceiro e amigo de Patativa: JOÃO ALEXANDRE SOBRINHO. É o que veremos nesse artigo publicado pelo professor Gilmar de Carvalho, no Diário do Nordeste, em maio de 2003:

Cantoria

João Alexandre Sobrinho, voz e viola


Publicado no Caderno 3 (Diário do Nordeste) em 12 de maio de 2003

Fotos: FRANCISCO SOUSA/ÁLBUM DE FAMÍLIA

A casa da Avenida Paraíba, esquina com a rua José Paracampos, bairro do Romeirão, em Juazeiro do Norte, esconde João Alexandre Sobrinho, um dos grandes da arte da cantoria, de todos os tempos

No terreno adquirido nos anos 70, quando a cidade começara a se expandir nesta direção (depois da inauguração do estádio), construiu uma vila, cujo aluguel complementa uma aposentadoria insatisfatória.

O pé de jambo do jardim foi cortado por conta dos meninos, em busca dos frutos maduros, que não o deixavam em paz.

A cadela Tila, oportunista, ameaça sair para a calçada. A varanda é abafada, mas ele abre a porta da sala, com móveis estofados, o televisor, fotos da família, inclusive a dele, aos trinta e poucos anos, empunhando a viola.

Mora com a cunhada Priscila, e a filha Matilde. A primeira visita foi marcada pelo telefone. Depois, os contatos se tornaram prazerosos, e os labirintos da casa foram se abrindo, inclusive um quintal, com um frondoso sapoti, onde ele se refugia do ruído da rua.

Abatido pela morte da esposa Francisca, quatro anos atrás, o cantador revolve o baú das relembranças, o que reforça sua importância de mestre da arte da palavra cantada, que ele soube, pelo que ficou na memória da comunidade, trabalhar como poucos.



O CONTEXTO

Em 1928, Lampião espalhava pânico por onde passava, e deixava o Nordeste em polvorosa. As narrativas orais ampliavam as façanhas do bando rebelde, fixados pela literatura de folhetos, que depois ganharam as páginas do romance social, e os planos seqüências do cinema novo.

Foi neste clima de conflagração que os Alexandre decidiram sair de Ouro Branco, no município alagoano de Santana de Ipanema, para buscar refúgio na terra do Padre Cícero.

Na bagagem, veio o menino João, nascido em 1920, na localidade de Olho d´ Água do Chicão. O pai, Tito Alexandre da Silva, que sempre teve preguiça de trabalhar na roça, além de sapateiro, era informante da polícia civil, e temia ser agredido pelo cangaço.

Juazeiro significava, também, a expectativa de uma vida nova, para os romeiros que chegavam à Nova Jerusalém sertaneja, onde Padre Cícero os acolhia, dava a sua bênção, e ainda sugeria uma ocupação.

Os Alexandre foram morar na rua do Limoeiro, no arisco, proximidades da Estação Ferroviária, e o chefe da família foi trabalhar como pedreiro.

A mulher, Felismina Maria da Conceição, impregnada pela cultura tradicional, rimava, embolava, e cantava coco de roda, tocando pandeiro, isto nas Alagoas; no Cariri, contava histórias para um menino deslumbrado com o que ouvia. Ele tem até verso dela, que participou, com umas estrofes, de uma toada de vaquejada que ele compôs: “Adeus serra de Caiçara / serrote da Carié / nós vamos pra Moxotó / pra casa de Manoé / quem pagou o caminhão / foi meu filho Ezequié, ê, ê!.

João teve apenas três meses e poucos dias de banco de escola, saindo de lá, quando já dominava a carta de ABC, na quarta lição do Segundo Livro, de Felisberto de Carvalho, depois da surra de palmatória que levou da professora e madrinha, porque estaria “mangando” de um colega. O pai, indignado, não deixou que ele voltasse à sala de aulas. Ainda magoado, tantos anos depois, diz que ela fez isso “de malvada”.

Os pais estavam no segundo casamento. A mãe teve cinco filhos, da primeira união, e cinco da segunda: Manuel, barbeiro em Arapiraca (AL); Alexandre Tito, artista plástico, na mesma cidade; João Tito, que morreu criança; Emília, morta aos 36 anos, além de João Alexandre. O pai, viúvo, não tivera filhos do primeiro enlace.

Traziam no matulão, esperança, e a certeza da paz. Lampião nunca atacaria a cidade do santo do povo, onde estivera, dois anos antes, para receber a patente de capitão, e ser cooptado para combater a Coluna Prestes, grupo de militares que percorria o país, para conhecê-lo e combater, politicamente, os privilégios das oligarquias.

INICIAÇÃO

O jovem João Alexandre “inventou” de tocar e improvisar versos aos dezenove anos. A mãe, costureira, o incentivou. Foi quem tirou os cinco mil réis do bolso para a compra da primeira viola, a um vizinho que chegara de São Paulo, e queria se desfazer do instrumento que trouxera.

João Alexandre não tinha um tostão, e nem sabia tocar, “era só vontade”, admite, começava o “tirinete”, ele faz o balanço hoje, e “foi o dinheiro mais abençoado que ganhei em toda a minha vida”.

Quem não gostou muito foi o pai, que fechou a cara, e disse, categórico, que todo cantador era irresponsável e cachaceiro, mas terminou por aceitar a decisão do filho. “Não gostava, mas não empatou”. Os parceiros apareciam, em grande número, mas o “velho” tinha o cuidado de evitar que o filho fizesse dupla com cantadores boêmios.

A família ficou num vaivém, entre o Ceará e as Alagoas, depois do desmantelamento do cangaço, com a morte de Lampião e Maria Bonita, em 1938, no sertão de Angicos (SE), e João optou por se fixar no Cariri.

No final das contas, seus pais terminaram por ficar mais tempo no Juazeiro, onde morreram, na década de 60, com uma diferença de dois meses e um dia do marido para a mulher, estando ambos sepultados no cemitério do Socorro.

Aos poucos, ele foi dominando o instrumento, autodidata que era. Seu primeiro baião de improviso foi com o cantador Bezerrinha e, de tão marcante, ele não esquece a data até hoje: 15 de agosto de 1939, nem os quinze mil réis que ganharam.

Cantou muito em “festa de santo”, ou renovação, que comemora, anualmente, a entronização do Coração de Jesus, um ritual forte no catolicismo popular.”Nunca fiquei liso, vivi 52 anos às custas da viola”, ele constata, e pode-se dizer que se saiu bem, tanto do ponto de vista da imagem que cristalizou, como do que amealhou.

Casou, em 1940, com Francisca Pereira Alexandre, e tiveram apenas uma filha, Matilde, que lhe deu dois netos (João Alexandre e Juliana) e uma bisneta (Ana Letícia). Ela era “cuidadosa” com o marido e “não muito ciumenta”.

A perda da mulher, ainda é muito dolorosa para ele, que gravou uma fita com uma elegia à companheira, intitulada “Um ninho de amor que se desfez”.

Relembra o passado, mostra seu Cd “Memórias de um poeta” gravado, domesticamente, pelo neto, e faz planos de publicar uma coletânea de poemas,- o impresso legitimando o oral -, cujos originais estão à espera de um patrocínio.

TRAJETÓRIA

João Alexandre relembra alguns dos grandes nomes da cantoria com quem pelejou: João Pereira, Expedito Passarinho, Severino Pinto, Lino Pedra Azul, Joaquim Vitorino, Amaro Bernardino, Antonio Aleluia, Zé Miguel, Antonio Marinho, e Vicente Landim, ao todo, mais de trezentos rivais.

Ele diz que um cantador aprende com o outro, no calor da hora, e enumera os romances que cantava, como “Coco Verde e Melancia”, “ O Mau Filho e o Bom Pai”, mas gostava mesmo era das pelejas. Não deixou folhetos impressos, como a maioria dos seus parceiros, que se moviam no campo da oralidade.

Ainda solteiro, passou seis meses em Fortaleza, para onde voltou outras vezes, e cantou com os grandes nomes da cantoria da capital, como Siqueira de Amorim, Alberto Porfírio, e o piauiense Domingos Fonseca.

Ele diz que “agüentava o chicote” e por isso nunca levou “pisa” de cantador.

O rival mais famoso foi mesmo o Patativa, com quem cantou durante quase dez anos. A afinidade foi tanta que João Alexandre chegou a comprar um terreno, e a se estabelecer na serra de Santana, onde o poeta morava.

PATATIVA - Caricatura de Arievaldo Viana


Dividindo versos com Patativa

O CANTADOR João Alexandre Sobrinho: em “Triste partida”, parceria reclamada com o poeta de Assaré

FRANCISCO SOUSA/ÁLBUM DE FAMÍLIA
Cantador novo que era, sua viola ficava de pé, na parede da entrada do Mercado de Assaré, na expectativa dos convites para apresentações.

Perto do parceiro e compadre (é padrinho de Afonso) ficava mais fácil arranjar cantorias nos sítios, e assim faziam pequenas viagens, sempre a cavalo, para Mombaça, Cedro, Iguatu, Campos Sales, Potengi, e Araripe.

Um episódio curioso é o do dia em que o violeiro boa pinta, já casado, se engraçou de uma moça que assistia à cantoria. Patativa, quando viu o “enxerimento”, delatou o parceiro: “A família desse João / é maior do que a minha / tem um filho caminhando / tem outro que engatinha / e eu soube que a mulher dele / ficou comendo galinha”, fazendo referência à dieta das mulheres paridas.

As últimas cantorias com o poeta de Assaré foram em 1958, e as controvérsias vieram por conta da toada “Triste Partida”, que Luiz Gonzaga ouviu no rádio, em um programa de violeiros de Cajazeiras (PB), e quis comprar, antes de gravá-la, em 1964.

João Alexandre reclama a autoria da música de “Triste Partida” e Patativa dizia que a composição era só dele. Depois de muita insistência, admitiu que o compadre “contribuiu” com a melodia, que levou para todo o país, na voga da canção de protesto, a denúncia de um “intelectual orgânico”, que ia fundo nos problemas da região, porque tinha vivências do que estava falando. A letra havia sido publicada no livro de estréia de Patativa, “Inspiração Nordestina”, em 1956, o que retira, qualquer influência da seca de 1958 sobre a composição. Seca braba aquela, que deu origem à Sudene, e aumentou o êxodo, agora não mais para a Amazônia, ou para São Paulo, mas para a construção de Brasília, a nova capital, inaugurada em 1960.

Depois desta disputa pela autoria, as relações entre eles nunca foram as mesmas. Deixaram de se visitar, apesar de Patativa vir com freqüência a Juazeiro, e de João Alexandre possuir um carro, e, ainda que tentassem, era impossível disfarçar as mágoas.

VOZ E VIOLA

Sua estréia no rádio foi marcada por uma visita que fez a Dom Vicente, então bispo do Crato, em companhia de Geraldo Menezes Barbosa. Cantou no Palácio, e o bispo gostou tanto que o convidou para se apresentar na Rádio Educadora, da diocese. Lá ele ficou dez anos, enfrentando Antonio Aleluia, Antonio Maracajá, e Zé Magalhães, dentre outros rivais.

A morte do Papa João XIII, o ideólogo da renovação da Igreja Católica, foi assim cantada por ele: “Com a morte do Papa Vinte e Três / enlutaram-se muitos corações / trouxe muita tristeza pras nações / esse golpe fatal que a morte fez”, de acordo com a “Antologia Ilustrada dos Cantadores”, de Francisco Linhares e Otacílio Batista, editada pela Imprensa Universitária, em 1976.

Em Juazeiro, João Alexandre cantou durante sete anos com Pedro Bandeira, que chegou a morar em sua casa, no início da carreira, com quem também se desentendeu, e ficaram vinte anos sem se falar, não por problemas de autoria, mas por questões financeiras.

Faziam dupla, nas apresentações ao vivo, e nos programas de rádio, onde a presença dos violeiros foi ganhando espaço, ao contrário das previsões apocalípticas que previam o fim da cantoria, com a chegada do transistor.

Ao todo, foram vinte anos na rádio Progresso, de Juazeiro do Norte, e quando saiu de lá deixou de cantar, é o que diz, ainda que participasse, eventualmente, dos programas de outros violeiros, como o de Sílvio Granjeiro, na rádio Vale do Cariri, também em Juazeiro.

Relembra o improviso feito para saudar o colega Geraldo Amâncio, que havia deixado o Cariri, em busca de espaços mais amplos: “Meu caro Geraldo Amâncio/como vai de Fortaleza?/aumentou mais o recurso/ou cresceu mais a pobreza?/melhorou da alegria/ou cresceu mais a tristeza?”.

Avalia que a maior parte dos cantadores “faz balaio”, preparando e decorando, antecipadamente, o que vai ser cantado, o que é falso, e abre mão da força do improviso. É exatamente na rapidez e agilidade do argumento, empunhado a palavra como uma arma, que a cantoria ganha importância, ritmo, e empolgação.

O “balaio” é a necrose de um processo da prevalência da voz, que vigora desde tempos imemoriais, acompanhada, na maioria das vezes, pela viola.

Considera Ivanildo Vilanova o maior cantador, dos que estão na ativa, vindo, em seguida, Geraldo Amâncio.

Também se refere a Moacir Laurentino, a Sebastião da Silva, e diz que Oliveira de Panelas faz “balaio”, prática que ele tanto abomina.

Em relação aos repentistas do Cariri, ele não ameniza o comentário ácido: “são violeiros de sopapo, meio lá e meio cá”.

Relembra fragmentos de improvisos que se perderam no tempo, como a toada de aboio que cantou numa vaquejada em Juazeiro: “Quem gosta de vaquejada / faz da maneira que eu faço / tanto pega boi com a mão / como pega boi de laço / e cada garrote que apanha / tem que deixar um pedaço, ô, ô.”
É um grande narrador de episódios, do tempo em que vendia cavalos, ouro de Juazeiro, e “lambe-lambe”, tirava retratos com a “mão no saco”.
Fez de tudo um pouco, mas sua grande contribuição foi dada à transmissão oral, e à riqueza do imaginário sertanejo, no ponteio da viola, manifestação fugaz, mesmo no tempo do registro e da reprodução técnica, porque é impossível captar a entonação, as nuances da voz emitida, e a performance, quando o corpo todo expressa.

Gilmar de Carvalho - Especial para o Caderno 3


* * *
NOTÍCIA - Hoje nosso blog chega aos 45 dias de atividades com a marca de quase 8 mil visitas! Obrigado a todos que visitaram e difundiram o blog ACORDA CORDEL.



segunda-feira, 30 de maio de 2011

ARTIMANHAS DE JOÃO GRILO


NOVO TRABALHO DA DUPLA
ARIEVALDO VIANA - JÔ OLIVEIRA

Trechos:

TODOS conhecem João Grilo
Um menino diferente
Pequeno, feio e franzino
Porém muito inteligente,
Uma mente talentosa,
Bem dotada e engenhosa,
Sagaz e irreverente.

Quando nasceu esse ente
Caiu neve em Teresina
E detonou um vulcão
Pras bandas de Petrolina
De Fortaleza a Belém
Os carros correram sem
Precisar de gasolina!

Ele tinha a perna fina
E a boca de 'Mãe-da-lua'
Nunca gostou de cantar
A cantiga da perua,
Tudo na vida enfrentava
E satisfeito gritava:
- Manda brasa! Senta a pua!

Foi um quengo muito fino
Legítimo cabra da peste
Existiu outro na Europa
Esse viveu no Nordeste
O de lá era um lesado
O daqui era um danado
E não há quem me conteste.

O João Grilo português
Meteu-se a decifrador
Rei das adivinhações
E só saiu vencedor
Devido um golpe de sorte
Assim escapou da morte
Recebendo algum louvor.

Nosso Grilo foi criado
Com tareco e mariola
Nunca se viu outro cabra
Com tão medonha cachola
Encantou até sultões
Pois nas adivinhações
Foi ele quem fez escola.

Nasceu lá na Paraíba
Criou-se em Taperoá
Foi camelô em Sergipe
Fez carimbó no Pará
E foi encontrar a sorte
No Rio Grande do Norte
Fronteira com o Ceará.

Com cinco anos já era
Sagaz, astuto e ladino
A mãe não se descuidava
Daquele cabra “malino”
Às vezes lhe castigava
Pois ninguém agüentava
As “artes” do pequenino.

(...)



MESTRES DA XILOGRAVURA II



Sabem que é o rapaz da foto, em cabelo estilo BLACK POWER, típico dos anos 1970? É nada mais, nada menos que o xilogravador STENIO DINIZ, neto do editor JOSÉ BERNARDO DA SILVA, da famosa Tipografia São Francisco (depois rebatizada com o nome de LIRA NORDESTINA), de JUAZEIRO DO NORTE-CE. Stênio recriou, em xilogravura, as capas dos maiores clássicos da LITERATURA DE CORDEL, dentre os quais citaríamos: PROEZAS DE JOÃO GRILO, DONZELA TEODORA, BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRAS, A VIDA DE PEDRO CEM, CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO, dentre outros.
Segundo o pesquisador Jeová Franklin, a xilogravura passou a ser utilizada na capa dos folhetos de cordel a partir de 1907. O registro mais antigo e comprovado, é uma xilogravura de ANTONIO SILVINO, que aparece nas capas de folhetos dos pioneiros FRANCISCO DAS CHAGAS BATISTA e LEANDRO GOMES DE BARROS, ambos de 1907.
Stênio é uma grande figura humana, um verdadeiro arquivo vivo da história do cordel no Ceará.
JOSÉ STÊNIO SILVA DINIZ - Natural de Juazeiro do Norte, Stênio Diniz nasceu em 1953. Neto de José Bernardo da Silva, proprietário da Tipografia São Francisco, hoje, Lira Nordestina, Stênio, aos 15 anos, seduzido por Mestre Noza e Walderêdo Gonçalves, deu início à sua trajetória na gravura. Os primeiros trabalhos foram capas para cordéis. Já fez exposições no Brasil e no exterior.


domingo, 29 de maio de 2011

FOLHETOS DIGITALIZADOS

Cordéis digitalizados para DOWNLOAD

Os amantes da Literatura de Cordel podem consultar diversos folhetos, em domínio público, no acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Os textos estão digitalizados e podem ser baixados gratuitamente. São folhetos de LEANDRO GOMES DE BARROS, JOÃO MELCHÍADES FERREIRA E CHAGAS BATISTA, pioneiros do cordel nordestino.
Eis o link:
http://digitalizacao.fundaj.gov.br/fundaj2/modules/busca/listar_projeto.php?cod=12&from=35

CORDEL EM JUAZEIRO

José Bernardo da Silva - Xilogravura de João Pedro Neto

Homenagem a José Bernardo da Silva

Por Maria do Rosário Pinto

Acredito não ser possível falar de José Bernardo da Silva sem marcar a figura de Padre Cícero Romão Batista e sua unanimidades na cidade de Juazeiro do Norte (CE) e, em todo o Nordeste. Ir aos festejos do dia do romeiro em Juazeiro é algo absolutamente estarrecedor, nos tira o fôlego... nos deixa perplexos diante de um mito que permanece vivo na memória popular há mais de 100 anos, a figura do Padre Cícero Romão Batista (1844-1934).

A pesquisadora Rosilene Alves de Melo narra, em sua tese vencedora do 1º Prêmio no Concurso Sílvio Romero, 2003, intitulada Memórias impressas: trajetória da literatura de folhetos em Juazeiro do Norte, relata o nascimento e a prosperidade da Tipografia São Francisco, evidenciando a saga de um homem que de vendedor ambulante conquistou o patamar de um dos maiores editores de folhetos de cordel no Nordeste brasileiro.

Juazeiro do Norte permanece como um mito vivo até nossos dias, guiado pela imponente figura do pequenino homem, Cícero Romão Batista. As histórias que rondam a memória popular são fielmente descritas pelos poetas populares, artistas responsáveis, em grande parte, pela aura que envolveu os grandes acontecimentos da cidade. Poetas que empenharam seus talentos na permanência do conhecimento oral: o mistério do milagre da hóstia – o encontro do Padre Cícero com o sangue de Jesus, pela boca da beata Maria de Araújo; a passagem de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva e seu bando de cangaceiros pela região (1926). Foram estes os assuntos mais “cantados” e publicados naquela ocasião.

Ao assumir a cadeira de José Bernardo da Silva – nascido em Palmeira dos Índios (AL), em 02 de novembro de 1901, patrono da Cadeira nº 18, da Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC, poeta popular e um dos maiores editores de folhetos de cordel do Nordeste, cujo centenário de seu nascimento foi celebrado em 2001, o fiz com alguns receios, por não me acreditar poeta. Entretanto, me vali de citação do saudoso acadêmico Francisco Siva Nobre, que na página 81, vol. 5, da Antologia Brasileira de Literatura de Cordel, publicada pela ABLC, em 1998, consta a afirmação:

A ABLC tem como finalidade reunir não apenas aqueles que se dedicam à literatura de cordel propriamente dita mas, também, outras pessoas que, não a cultivando diretamente, a admiram e se dedicam ao seu estudo e divulgação.

Zé, ou Zé Bernardo viveu no município de Vitória (PE), antes de radicar-se em Juazeiro do Norte, em 1926, atraído pela figura de Padre Cícero Romão Batista. Chega ao Juazeiro, como vendedor ambulante, que fazia o percurso das feiras nordestinas, inclui entre os produtos comercializados alguns folhetos de cordel. A iniciativa tem grande receptividade. Decide, então, tornar-se impressor. Adquire uma máquina de pedal e inicia os trabalhos de tipógrafo. Posteriormente, instala a Tipografia São Francisco. Ressaltamos, aqui, versos nos quais José Bernardo nos fala de seu ofício de tipógrafo, mas já, evidenciando-se como poeta de cordel:

"Não sou poeta vos digo
Mas com rimas arranjo o pão.
Sou chapista e impressor,
Sou bom na composição.
O meu saber se irradia,
Conheço com perfeição
Agradeço esta opulência
À Divina Providência
E ao Padre Cícero Romão."

José Bernardo torna-se um dos maiores editores de folhetos de cordel, especialmente, após ter adquirido milhares de títulos de propriedade de João Martins de Athayde, em 1949. A Tipografia São Francisco, torna Juazeiro do Norte um dos maiores polos editoriais de folhetos de cordel. O trio Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde e José Bernardo da Silva consolidaram o tripé que norteou a criação, produção, distribuição e venda da literatura de folhetos no Nordeste. Suas identidades acabaram por misturar-se, deixando para os pesquisadores de literatura o estudo sobre a originalidade de cada autor; e, para os documentalista, o cuidado de não inferir critério de avaliação autoral, restringindo-se às notas tipográficas evidenciadas no corpo da publicação. De todas as formas, o trabalhos destes homens foi de grande contribuição social e cultural para a região do Crato. Cabe aqui, lembrar que toda essa movimentação editorial, que durou décadas, foi definitiva na geração digna de renda para várias famílias em toda a região e para além dela. Foi com grande produção de folhetos que empregos foram gerados: auxiliares de tipografia (na composição gráfica); artesãos (na confecção de capas); cantadores e distribuidores de revenda (na comercialização em feiras, mercados e praças públicas). Os cantadores tiveram papel relevante, à medida em que emprestavam seus talentos na arte de cantar, extraindo dos versos os segredos que incitavam à compra.
José Bernardo e família

Franklin Maxado Nordestino, em O cordel do cordel, 1982, informa sobre os primeiros editores e suas preferências por temas de caráter noticioso e pelos romances:
(...)

Seus poetas são também
Editores e vendedores.
Saem lendo e cantando,
Procurando os leitores
Que gostam das novidades
E versos de mil amores.”

A exemplo de João Martins de Athayde, com a finalidade de preservar os seus direitos autorais, publicava as estórias constando apenas seu nome como Editor proprietário, o que nos dificulta a identificação precisa da autoria dos versos – se de Leandro Gomes de Barros, cujo acervo foi adquirido por Athayde, após a sua morte; se de Athayde (de quem comprou o acervo, que já veio mesclado com as obras de Leandro); e, os de sua própria autoria, conforme nos indica Sebastião Nunes Batista em Antologia da Literatura de Cordel, de 1977.
No folheto História da literatura de cordel, José Antônio dos Santos, assinala o papel de Athayde como editor proprietário, quando da compra do acervo de Leandro, adquirido em 1921:
João Martins de Athayde
Quando Leandro morreu
De sua esposa comprou
Parte do acervo seu
Dos direitos autorais
Fez o que bem entendeu”

Delarme Monteiro da Silva também nos mostra sua preocupação e nos dá notícias da evolução da literatura de cordel através de seus poetas, cantadores, editores e distribuidores, em seu folheto Nordeste, cordel, repente e canção [19--]. Evidencia a importância social da literatura de cordel, conforme citação abaixo:
           
 (...) 
            Dos poetas de cordel
            Foi Leandro, o pioneiro
            Aqui dento do Recife
            Assim foi ele o primeiro
            A distribuir folhetos
            Por este Nordeste inteiro

            Leandro Gomes de Barros
            Homem que tinha pujança
            Na feitura dos seus versos
            Com beleza e segurança
            Morreu só deixando rimas
            Pra viúva como herança

            Com a morte de Leandro
            A viúva precisando
            Vendeu tudo a Athayde
            Que já vinha se entrosando
            Com versos de sua lavra
            Aos poucos se levantando

             Na direção do Athayde
            A poesia cresceu
            O acervo de Leandro
            Ele juntou com o seu
            O cordel em pouco tempo
            Atingiu o apogeu

            Athayde adoecendo
            Vendeu a tipografia
            A José Bernardo da Silva
            Que do ramo conhecia
            Levando pro Ceará
            Toda a nossa poesia

O poeta João José da Silva, fundador da Luzeiro do Norte, Recife, PE, também iniciou-se como revendedor/distribuidor, como nos informa o poeta Delarme Monteiro no folheto Nordeste, cordel, repente e canção, [19--]:
(...)
Certo dia em meu balcão
Surgiu um tal João José
Numa roupinha “sambada”
Tamanco velho no pé
Perguntou pro meu irmão
O seu Delarme, quem é ?

Então eu me aproximei
A ele fui atender
João José me perguntou
- O senhor pode dizer
Se aqui vende folheto
Para a gente revender”

Outros poetas foram também editores, xilógrafos e vendedores, como Minelvino Francisco Silva (1926-1999), conforme a citação abaixo:
Fascinado pela arte da composição e da impressão tipográfica, adquiriu uma impressora manual onde confeccionava seus folhetos, inclusive as capas”, conforme mostra nos versos:
(...)
Eu mesmo escrevo a estória
eu mesmo faço o clichê
eu mesmo faço a impressão
            Eu mesmo vou vender
            e canto na praça pública
            para todo mundo ver.”

Seu interesse o fez mudar para uma impressora elétrica, mas em 1979 sofreu um acidente, perdendo três dedos. Este fato não o impediu de continuar no ofício, pelo contrário, sua técnica foi aperfeiçoada, referindo-se ao episódio nos versos:

No dia dez de outubro
Compus uma oração
Botei na máquina impressora
Para fazer a impressão
Em vez de imprimir o papel
Errei e imprimi a mão”.

Editou em várias tipografias e editoras como a Tipografia São Francisco, em Juazeiro do Norte, CE, a Prelúdio e a Luzeiro em São Paulo, SP.”
José Bernardo da Silva faleceu em 23 de outubro de 1972. A Tipografia São Francisco encerrou suas atividade em 1982, quando seu acervo e todo o equipamento foram vendidos para o Governo do Estado do Ceará.

Bibliografia

Silva, Minelvino Francisco. Minelvino Francisco Silva. São Paulo: Hedra, 2000. 234 p. :il. (Biblioteca de cordel).

Silva, Minelvino Francisco. Peleja do filho do Cego Aderaldo com o filho de Zé Pretinho. São Paulo: Luzeiro Editora, 1957. 32 p.

Melo, Rosilene Alves de. Memórias impressas: trajetória da literatura de folhetos em Juazeiro do Norte. Rio de Janeiro, 2003. 209 f. Bibliografia: f. 190-209; 1º Prêmio no Concurso Sílvio Romero, 2003

Literatura popular em verso: estudos. São Paulo; Belo Horizonte: Ed. da Universidade de São Paulo; Itatiaia, 1986. 468 p. il. (Reconquista do Brasil. Nova Série, v. 94).

Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Antologia brasileira de literatura de cordel. Rio de Janeiro: Gonçalo Ferreira Studio Gráfico, 1998. v. 5 : il.

Batista, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal : Fundação José Augusto, 1977. xxvi, 395 p. il.

Franklin Maxado Nordestino [Franklin de Cerqueira Machado]. O cordel do cordel. São Paulo : [s.n.], 1982. 8 p.

Silva, Delarme Monteiro da. Nordeste, cordel, repente, cancão. Bezerros: [s.n., 19--]. 16 p.


Texto: Rosário Pinto
Imagem: Enciclopédia Nordeste
Acesse:
http://rosarioecordel.blogspot.com/

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