quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

ROMANCE DA ÍNDIA IRACEMA


A VIRGEM DOS LÁBIOS DE MEL

O folheto em questão é uma bela adaptação do célebre romance de José de Alencar, vertido para o cordel, provavelmente na década de 1930. O Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada (Volume 2) de Átila de Almeida e José Alves Sobrinho, publicado pela Editora Universitária de João Pessoa-PB, em 1978, atribui a autoria deste romance a Alfredo Pessoa de Lima (pág 610). Já o volume 3 da Coleção Povo e Cultura, intitulado A Literatura Popular em Questão, lançado pelo Centro de Referência Cultural da Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, em 1982, diz que a adaptação do célebre romance de José de Alencar “é atribuída a Luís Gomes de Albuquerque (PB, 1905 - 1959), e também a Alfredo Pessoa de Lima, outro poeta paraibano.” 
Existem edições, como a que serviu de base para composição deste opúsculo, editada em Juazeiro do Norte-CE aos 08 de outubro de 1981 pela tipografia “Lira Nordestina”, onde figura como autor João Martins de Athayde.
Acreditamos que o verdadeiro autor seja Alfredo Pessoa de Lima, poeta de formação erudita, considerado “um grande orador” por Roberto C. Benjamim, em entrevista que realizou (em parceria com Mário Souto Maior) com Dona Sofia, viúva de João Martins de Athayde. 

Iracema, na visão de um designer gráfico moderno

No volume 1 do Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, José Alves Sobrinho e Átila de Almeida dão as seguintes informações sobre o poeta: 
“Alfredo Pessoa de Lima (Solânea-PB - João Pessoa-PB), advogado, magistrado, temperamento forte, agressivo, polêmico, mas poeta popular. Quando estudante de direito em Recife, escreveu alguns romances que vendeu a João Martins de Athayde. Escreveu folhetos políticos, de ataque pessoal, ou transformando em vítimas réus que ia defender no júri. Deixou vários livros escritos, todos polêmicos ou sobre questões jurídicas. Usou o acróstico CALUNGUINHA.”
No folheto O Neto de Cancão de Fogo, também de sua autoria, temos o acróstico ALFREDO, na última estrofe.

TRECHOS:

O Ceará é a terra
Prometida a humanidade
Para a alegria do amor
Para a angústia da saudade
Terra bendita onde Deus
Deixou com os carinhos seus
O fruto da liberdade.

Terra da Luz, onde outrora,
Como um doirado vergel
Brotaram as lendas da raça
Sob o estrelado do céu
Onde o arco e a tangapema
Fazem lembrar Iracema
Virgem dos Lábios de Mel.

Recanto de minha terra
Que Alencar tanto amor
Eu vou traduzir em trovas
O que ele em prosa falou
É meu tributo e homenagem
À raça bruta e selvagem
Que o tempo a correr levou.

Nas terras do Ceará
Habitava antigamente
Tribos de índios selvagens
Raça bravia e valente
Entre os quais os Pitiguaras
E os valentes Tabajaras
Brigavam constantemente.

Na branca areia da praia
Sombreada de coqueiros
Nunca se encontrou um rastro
Marca de pés estrangeiros
Só os índios pitiguaras
Nas suas toscas iguaras
Cruzavam os mares ligeiros.

Desta nação brava e forte
A fama corria as terras
Seus artifícios guerreiros
Eram ouvidos pelas serras
Poty, seu chefe temido,
Cem vezes tinha vencido
Nos combates de cem guerras.

Jacaúna era outro chefe
Daquele povo guerreiro
Depois do chefe Poty
Seu tacape era ligeiro
Era o mais forte e temido
Tinha o corpo parecido
Com o vulto dum coqueiro.

Nunca a nação Pitiguara
Fora derrotada em guerra
O grito dos seus guerreiros
Reboava além da serra
O gavião nas alturas
Não tinha as asas seguras
Como os seus pés sobre a terra.

(...)

Aqui apresentamos outra adaptação de IRACEMA, feita pelo poeta Stélio Torquato, para a coleção ALENCAR NAS RIMAS DE CORDEL, da editora Armazém da Cultura...


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

UM CORDEL DO MEU BISAVÔ


O CICLO DO BOI NA LITERATURA DE CORDEL

Dizia o saudoso professor Laurismundo Marreiro, de Canindé, que a genética não faz curvas. Seguindo essa premissa, poderíamos dizer que a minha veia poética vem de longe. Remontando às raízes avoengas, descobri que meu bisavô Francisco de Assis — o Fitico do Castro —, fazia testamentos de Judas e segundo alguns teria escrito também A Onça da mão torta, A Vaca Tigre e O Boi Vermelhinho, cordéis que tiveram certa repercussão no limiar do século XX, mas que circularam somente de forma manuscrita em cadernos de família.
O texto a seguir foi publicado em 2002, na primeira caixa de folhetos do projeto ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA.




Os primeiros folhetos da Literatura Popular em Versos só foram publicados na segunda metade do Século XIX. O   grande folclorista Luís da Câmara Cascudo faz referências a um folheto intitulado “Testamento de um Macaco”, de autor desconhecido, publicado por volta de 1864. Ele assinala, contudo, que os mais antigos versos de nossa poesia popular descrevem cenas e episódios da pecuária. São poemas de glorificação do boi que, se finalmente foi domado e trazido ao curral, só o foi após grande trabalho, depois de reduzir a fama e humilhar muitos vaqueiros.
O romancista cearense José de Alencar foi o primeiro a publicar um desses poemas, “O Rabicho da Geralda” que conta a história em quadras (estrofes de quatro versos) de um boi famanaz que existiu em Quixeramobim-CE.
O maior expoente da Literatura de Cordel,  Leandro Gomes de Barros, nasceu em Pombal-PB aos 19 de novembro de 1865. Ele começou a publicar sistematicamente centenas de histórias rimadas a partir de 1893. É considerado portanto o pioneiro da Literatura de Cordel nordestina. Dentre os romances de sua autoria, destaca-se “O Boi Misterioso”, um dos mais importantes poemas deste ciclo.

Luiz da Costa Pinheiro, poeta potiguar radicado em Fortaleza, escreveu e publicou em dois volumes de 32 páginas a história do “Boi Mandigueiro e o Cavalo Misterioso”, obra-prima desse gênero.

Gustavo Barroso, escritor aclamado com incursões por vários gêneros literários também deu enorme contribuição ao folclore brasileiro recolhendo e publicado diversos poemas da Gesta do Gado. Ele ressalta em sua obra “Ao som da viola” que todo o sertão nordestino, aliás todo o interior do Brasil, está cheio de canções que perpetuaram desta ou daquela forma os principais fatos da áspera vida dos criadores de gado, especialmente daqueles que exercem a profissão de pastorear manadas e rebanhos, os vaqueiros. O notável folclorista registra ainda poemas de onças e bodes famosos recolhidos nos sertões nordestinos, especialmente no Ceará.

Bráulio do Nascimento, em Literatura Popular em Verso - Estudos, publicado pela Casa de Rui Barbosa, aponta pelo menos 25 poemas do chamado Ciclo do Boi, dos quais se destacam Boi Surubim, Rabicho da Geralda, Boi Pintadinho, Boi do Quixelô, Boi Barroso etc.
Para nós, foi uma grata surpresa encontrarmos uma cópia manuscrita da História do Boi Vermelhinho, versos compostos nas primeiras décadas do século passado por autor inicialmente desconhecido. Depois de publicado viemos a saber que o provável autor era ninguém menos que o nosso bisavô Francisco de Assis de Sousa, o velho Fitico, da Fazenda Castro. O fato não foi surpresa, pois Fitico versejava com facilidade e fazia os famosos “Testamentos de Judas”.  As personagens que figuram na história, entretanto, são bastante conhecidas, principalmente o Major Cosme das Chagas, proprietário da Fazenda Várzea Grande (hoje município de Madalena-CE), bisavô de minha mãe. Esta obra não figura em nenhuma antologia nem foi recolhida ou divulgada por folcloristas, apesar de ainda hoje ser bastante conhecida na região que compreende os municípios de Madalena, Itatira, Canindé e Quixeramobim.
O senhor Manoel Messias Barbosa, responsável pela cópia manuscrita que chegou às nossas mãos, informa que ouviu essa narrativa da boca dos antigos e resolveu transcrevê-la. Os Bastiões, família responsável por um animado grupo de reizado - ou caretas -, como se diz comumente em nossa região, cantavam versos do “Vermelhinho” em suas apresentações. Existe até um baião intitulado “Baião Vermelho” ou “Vermêi”, executado geralmente na sanfona, que remonta à essa tradição. Sanfoneiros como Pedro do Edmundo e Nélson Araújo conhecem e executam a sua melodia.
A publicação do “Boi Vermelhinho” é por demais oportuna e resgata uma bela história oral dos nossos sertões.


Arievaldo Viana Lima

Francisco de Assis e Sousa, o FITICO

História do Boi Vermelhinho da Fazenda Lages dos Lessas
Texto atribuído a Francisco de Assis e Sousa (Fitico)

TRECHOS...

Caros amigos leitores
Todos me prestem atenção
Que agora eu vou contar
A história de um barbatão
Que aconteceu algum tempo
Aqui no nosso sertão

"Nasci nas Lages dos Lessas
Debaixo de um juazeiro
Minha mãe me disse um dia
Que eu ia ser cangaceiro
E eu prometi a ela
De nunca entrar em chiqueiro

No dia em que eu nasci
A vinte e sete do mês,
Num dia de sexta-feira
Foi esta a primeira vez,
Que houve um eclipse total
Em novecentos e seis.

Minha mãe me batizou
Com o nome de Vermelhinho
E o velho José Félix
Tomei ele por padrinho
Enquanto o velho for vivo
Eu sempre corro sozinho.

No pé do Serrote Branco
Fizemos nossa morada
Por ser lugar esquisito
E que não tinha zoada
Se aparecesse vaqueiro
A carreira era danada.

Em novecentos e nove
Comecei a passear
Minha mãe me encomendava
Para eu deixar de andar
Ela achava que eu andando
Podia me prejudicar

Eu dali saí andando
Fui sempre dar um passeio,
Ia com muito cuidado
Com medo e muito receio,
Por muita falta de sorte
Vi o seu Gino, encontrei-o.

Esse caso aconteceu
É triste, mas vou contar,
Eu ia sempre andando
Sem nada desconfiar
Quando encontrei com seu Gino
Ali no Maracajá...

(...)

O FITICO

Francisco de Assis e Sousa, o Fitico, era um danado… Possuía uma pequena, porém ótima biblioteca com livros editados no Brasil, Portugal e até Alemanha, quase todos de temática sacra e gostava muito de escrever, em bom português e ótima caligrafia. Era assinante de alguns jornais e revistas e ficava muito feliz quando recebia algum impresso ou correspondência de amigos e parentes. Olympio de Sousa Viana (o Pai Viana da Cacimbinha), um de meus bisavós maternos, também tinha o hábito de ler e anotar tudo quanto acontecia de importante ao seu redor. Fitico deixou centenas de sextilhas rabiscadas a pena ou a lápis e gostava de recitá-las de memória, para as pessoas que o visitavam. Numa casa de poucos móveis, a escrivaninha e o oratório ocupavam lugar de destaque, na sala principal.

Naqueles tempos remotos, em que a educação não era muito cultuada pela gente das fazendas e que às mulheres era privado o direito ao saber, Francisco de Assis contratava professores e montava escolinhas em sua própria casa para ensinar filhos e filhas, netos e netas em idade escolar. Quando algum se destacava e mostrava inteligência acima da média ele fazia questão de matricular na cidade. Foi assim com minha avó Alzira, que estudou em Quixeramobim e também com o Zezinho, falecido precocemente, que foi destaque no internato do professor Mundinho Martins, em Canindé.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

MAIS UM POETA QUE PARTE...


Através da seção de comentários deste blog tomei conhecimento da morte do poeta ANTÔNIO AMÉRICO DE MEDEIROS, com quem mantive intensa e proveitosa correspondência desde o longínquo ano de 1999. Ele me deu muitas dicas preciosas para um poeta "iniciante" que estava também se lançando como editor de sua própria obra e da obra de outros poetas. Tive a honra de fazer a capa do único folheto que Américo publicou pela Editora LUZEIRO, sob a orientação do poeta Marco Haurélio...

A informação é do leitor ANCHIETA FRANÇA:

"Faleceu hoje na cidades de Patos -Pb, o poeta Sabugiense, Antônio Américo de Medeiros,conosco fica seu legado e a admiração ao grande Mestre do cordel e da viola... Fica nossos sentimentos a família enlutada ...
Soube da notícia através do Poeta Israel Galvão e que o Poeta Cícero Nascimento nos confirmou!

Antônio Américo de Medeiros

Era natural de São João do Sabugi-RN, onde nasceu a 7 de fevereiro de 1930. cantador profissional, começou a percorrer o Nordeste com sua viola aos 15 anos, em 1945. Criou um programa de violeiros na Rádio Espinharas, de Patos-PB, em 1960, permanecendo 23 anos no ar. Em 1977 escreveu seu primeiro romance História completa da Cruz da Menina, do qual já publicou diversas edições. Mesmo durante a maior crise da Literatura de Cordel, que aconteceu no período de 1988 a 1998, manteve sua banca de folhetos no Mercado Público de Patos, sempre com um estoque acima de 200 títulos, inclusive obras de autores consagrados como Leandro Gomes de Barros, José Pacheco e José Camelo de Melo Resende. Nessa atividade, permanece até os dias de hoje.
Antônio Américo segue a linha dos velhos mestres, escrevendo histórias longas e bem feitas, geralmente de 48 páginas. São de sua autoria os seguintes títulos: A moça que mais sofreu na Paraíba do Norte , A vida de Antônio Silvino, Lampião e a sua história contada em cordel, Os mestres da Literatura de Cordel, O marco do Sabugi, História da Guerra de Juazeiro do Padre Cicero em 1914, A fada do Bosque Negro e a Princesa de Safira, O fracassado ataque de Lampião a Mossoró, A vida de Lampião - intriga, luta e cangaço, História completa da Cruz da Menina."


Estudo em nanquim para capa do folheto A MOÇA QUE MAIS SOFREU...

sábado, 11 de janeiro de 2014

AGENDA DA SEMANA





Amanhã, dia 12/01 - entrevista no programa NORDESTE CABOCLO, do Carneiro Portela, na TV Diário.

Terça-feira, 14 de janeiro - FEIRA DO CORDEL no Dragão do Mar, espaço Rogaciano Leite Filho.

Sexta-feira, 17 de janeiro - Oficina de CORDEL e Recital, em Água Nova-RN.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

HOJE É DIA DE SANTOS REIS

Desenho do artista plástico cearense RONALDO CAVALCANTI (bico de pena)

 
 
Bumba-meu-boi - desenho de Arievaldo Viana
 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

TROVAS NATALINAS



Geraldo Amancio 
Trovas Natalinas

CRISTO EM SEU PLANO DIVINO,
FEZ DE NÓS TODOS SEUS ALVOS,
SENDO DEUS SE FEZ MENINO
PARA OS HOMENS SEREM SALVOS.

NA CELEBRAÇÃO DO AMOR 
QUE AS MÃOS OPOSTAS SE DÊEM,
E A LUZ DA FÉ DO SENHOR
ILUMINE OS QUE NÃO CRÊEM.

OH CRISTO DEUS FEITO CRIANÇA
QUE A SUBLIME ESTRELA TUA,
ENCHA DE PAZ E ESPERANÇA
OS MORADORES DE RUA.

LIVRAI NOSSOS SEMELHANTES
MEU JESUS DE NAZARÉ
DOS PREGADORES FARSANTES
EXPLORADORES DA FÉ.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

VIVA GONZAGÃO




O amigo do Rei


Sinval Sá teve a honra de escrever a primeira biografia sobre Gonzagão. O sanfoneiro do Riacho da Brígida — Vida e andanças de Luiz Gonzaga foi lançado em 1966. Agora, por conta do centenário de nascimento do mestre, a ser comemorado em 13 de dezembro, o livro chega à 9ª edição. Sá estará presente na solenidade comemorativa, em Recife, apresentando a nova versão de seu rebento. “Na época, o lançamento em Fortaleza teve a presença do próprio Luiz”, relembra o escritor, orgulhoso, aos 90 anos. Sinval vive em Brasília há 46 anos e já publicou outros dois romances e dois livros de contos.

Segundo o autor, foi o próprio Gonzaga quem tratou de divulgar a biografia: levava para os shows Brasil afora e a vendia em suas andanças. Na época, os 10 mil exemplares se esgotaram rapidamente. Paraibano de Conceição, filho de pais pernambucanos, Sá morava no Ceará quando escreveu o retrato do sanfoneiro, no começo dos anos 1960. “Eu ia ao Rio, onde ele morava, e passava algumas temporadas na casa dele. A convivência era muito boa. Era uma pessoa maravilhosa, bem educada. Vinha à minha casa quando estava em Brasília. Me chamava de ‘doutorzão do Ceará’”, diverte-se.

O sanfoneiro... é contado de forma fiel aos relatos de Gonzaga, com pitadas de ficção. Sá até tentou romancear um pouco, mas o biografado não aprovou e pediu que o escritor se ativesse ao que haviam conversado. Ele assistiu à cinebiografia que está nos cinemas e notou que algumas passagens são parecidas com as retratadas em seu livro. “Sei que eles se basearam no Gonzaguinha e Gonzagão, da Regina Echeverria, mas ela me consultou para fazer o livro dela e, inclusive, me cita”, destaca. Na película de Silveira, entretanto, Sinval não teve nenhuma participação — pelo menos não diretamente. (Gabriel Sá - Correio Brasiliense)