quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PEGANDO O BONDE

 
Post - Ferrocarril BHO motorneiro (nº 1) e o condutor (nº 2), transportando elegantes passageiros, no início do século XX.
 

No meu livro O BAÚ DA GAIATICE eu apresento algumas ‘pérolas filosóficas’ pertencentes ao adagiário do Filósofo da Praça Azul, personagem criado na década de 1980 pelo poeta Gonzaga Vieira. O Filósofo tinha coluna fixa na revista TRAMELA, um fanzine que eu publicava no início da minha atividade como cartunista, um periódico meio artesanal feito com nanquim, letrasete e máquina de escrever, com tiragem de até 300 exemplares feitos em Xerox. Uma dessas tiradas diz o seguinte:  

“Neste mundo velho tudo é passageiro, menos motorista e trocador”. 

O jornalista Eduardo de Paula, criador do blog SUMIDOIRO’S (http://sumidoiro.wordpress.com) desenvolveu essa página, principalmente, para resgatar a história de seus antepassados, a família SOUZA VIANNA de Minas Gerais. Curiosamente, sou descendente por parte de pai e mãe da família Souza Vianna de Quixeramobim, daí o interesse em manter contato com Eduardo, para saber se havia algum grau de parentesco entre os dois ramos familiares. Chegamos a conclusão que ambas as famílias (ou ambos os troncos) tem raízes na cidade de Vianna do Castelo, em Portugal (ou seria em Viena, na Áustria?) Bom, ele é que o genealogista e sabe mais do que eu.

Ao deparar com a máxima do Filósofo da Praça Azul ele alertou-me que nos idos das primeiras décadas do século XX o ditado já existia, porém referia-se a CONDUTOR e MOTORNEIRO, empregados do transporte de bondes. Eis aqui trechos de um brilhante artigo que escreveu sobre o tema:
 

PEGANDO BONDE
 

Nem tudo é passageiro… 

Assim não pode! Andam jogando poeira na história, dizendo que “na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o trocador.” Nada disso! Inverdade do tamanho de um bonde(1). E os personagens são outros, de um tempo em que todo mundo andava na linha, ou nos trilhos. 

Ouve-se com frequência o antigo dito de forma errada, referindo-se a motorista e trocador, mas não era assim. Quem movimentava o bonde chamava-se motorneiro, porque acionava o motor, usando uma manivela apropriada. Quem comandava as partidas era o condutor, através de um apito. Os pontos principais de embarque e desembarque ficavam nos chamados abrigos, que eram coberturas em alvenaria, onde haviam espaços destinados a pequeno comércio de jornais, cigarros, bilhetes de loteria, balas, bombons e outras miudezas. As demais paradas, no percurso das linhas, eram assinaladas por uma faixa branca pintada nos postes. Para descer, os passageiros faziam a solicitação puxando uma cordinha, que acionava uma sineta. 

O condutor percorria o veículo, de ponta a ponta, sobre dois estribos laterais, agarrado aos balaustres(2). Cobrava as passagens pré-pagas − ou passes − e as picotava com um perfurador, mas também recebia em espécie. Logo em seguida, puxava uma alça, que ficava conectada a um contador de números de passageiros, denominado relógio. Havia também o fiscal, que aparecia de vez em quando, fazendo o controle de usuários em uma ficha. O bonde não possuía buzina, o alerta era feito através de um sino, acionado com o pé. Na pacata Belo Horizonte, era preciso ter cuidado para não ser atropelado por um bonde, que voava a vinte ou, às vezes, a absurdos trinta quilômetros por hora, nesse caso infringindo a lei.(3)

No fim da linha, tudo tinha que ser invertido. O motorneiro trocava seu posto de comando para a outra extremidade. Também alternava-se de lado o cabo conector de energia − denominado lança −, existente sobre o teto do bonde, em cuja extremidade havia um contato, que corria ao logo do fio eletrificado. Os encostos dos bancos eram girados a cada viagem, para o passageiro andar sempre de frente. Recolhiam-se os estribos de um lado e a guarda protetora − trava de contramão − era baixada, fechando o acesso. Na lateral em uso, fazia-se o inverso. As providências de isolar um lado eram muito importantes, porque os postes que levavam os fios eletrificados ficavam no centro das ruas e, geralmente, o lado esquerdo do veículo corria junto a eles. Uma topada num poste poderia se fatal ao passageiro.

Além dos serviços inerentes à função, muitos condutores presenteavam os passageiros com belas coreografias nos estribos ou quando saltavam do bonde andando, com uma alavanca na mão (chave), para deslocar os trilhos nos entroncamentos das linhas. Tudo rápido e no ritmo certo, porque o bonde não podia atrasar. Evidentemente, quando o condutor era negro, a exibição ganhava colorido, pois é sabido que os afro-descendentes têm a dança no sangue. Não há dúvida que trabalho pesado era o do condutor, mas quem ganhava mais era o motorneiro. Segundo os maliciosos, havia consequência: quando o condutor registrava as passagens e o “relógio” soava din-din, a melodia queria dizer: “- Din-din, dois pro relógio; din-din, um pra mim…”

Foi por tudo isso e mais alguma coisa que alguém mais inspirado filosofou:

“Na vida tudo é passageiro, menos o condutor e o motorneiro.”


(...)

 
VER POSTAGEM COMPLETA AQUI: http://sumidoiro.wordpress.com/

sexta-feira, 26 de julho de 2013

DOMINGUINHOS ENCONTRA GONZAGÃO

 

Caricaturas de Nei Lima (enviadas pelo autor)
 
O poeta Stélio Torquato Lima nos envia em primeira mão seu novo folheto intitulado O ENCONTRO DE GONZAGÃO E DOMINGUINHOS NO CÉU, um trabalho muito bom, como tudo o que ele tem produzido ultimamente. Não vamos publicá-lo na íntegra para não prejudicar a venda do folheto. Seguem alguns trechos do referido cordel:
 
 
Enquanto o Nordeste chora
A morte de Dominguinhos,
No céu há uma grande festa,
Pois um coro de anjinhos
Dá ao mestre as boas-vindas,
Em meio a canções tão lindas,
Qual som de mil passarinhos.
  

Zé Domingos de Morais,
O arretado sanfoneiro,
Nascido em 41,
A 12 de fevereiro,
Agradeceu com emoção
Aquela recepção,
Que o comoveu por inteiro.
 

O filho de Garanhuns
Viu passar logo em sequência
Um filme em sua mente
De toda a existência.
Viu seu pai, mestre Chicão,
Afinando acordeão
Com bastante competência.
 

Infância humilde, mas boa,
Vivida com os dois manos.
A sanfona de oito baixos
Que ele ganhou aos seis anos.
O estudo do instrumento,
Já demonstrando talento
Junto aos pernambucanos.
 

Deslizando os seus dedos
Pela extensão do teclado,
O menino demonstrava
Que estava vocacionado
Para a vida estradeira,
E ia, de feira em feira,
A lutar por um trocado.
 

Junto com os dois irmãos,
Logo um grupo formou.
Foi assim que “Os três pinguins”,
Como o trio se chamou,
Conseguiu algum dinheiro,
Um reforço financeiro
Que aos seus pais alegrou.
 

Dominguinhos, com esforço  
E com grande disciplina,
Foi dominando o instrumento,
A adorável concertina.
E, dominando a sanfona,
Tirou os seus pais da lona,
Mudando deles a sina.
 

Foi tocando em um hotel
Que ele conheceu Gonzaga,
Um encontro decisivo,
Que traçaria a saga
Do talentoso guri.
Que tivera, até ali,
Uma existência aziaga
 

Um funcionário do hotel
Mandou que ele entrasse
E pediu que o garotinho
Para um hóspede tocasse.
Dominguinhos não sabia
Que Gonzaga é que queria
Que ele o talento mostrasse.
 
(...)
 
 
Nessa viagem no tempo
Dominguinhos se entretém.
De repente, ouviu uma voz
Que ele conhecia bem:
“Meu Jesus de Nazaré!
Aquele cabra não é
Meu conterrâneo Neném?”
 
Ouvindo o apelido
Que vinha lá da infância,
Dominguinhos se virou,
Vendo, a pequena distância
Daquela celeste plaga,
A figura de Gonzaga,
Que ria em abundância.
 
Sem qualquer tempo a perder,
Dominguinhos caminhou
Na direção de seu mestre,
A quem logo abraçou.
Ao reencontro dos dois,
Uma festa, logo depois,
Lá no céu se iniciou.
 
Assim, naquelas paragens
De paz e grande sossego,
Logo uma melodia linda,
De agradar troiano ou grego,
Fez Domingos sorrir,
Pois se estava a ouvir
“De volta pro aconchego”.
 
(...)
 
 
Dessa forma é que ocorreu,
Sem drama nem escarcéu,
O encontro de Gonzagão
E Dominguinhos no céu.
Digo a quem não crê em mim:
“Eu só sei que foi assim”,
E saio, rindo ao léu.
PARABÉNS, PROFESSOR STÉLIO!
 
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

UM ADEUS AO SEU DOMINGOS


Uma das músicas mais bonitas gravadas por Dominguinhos, parceria sua com o piauiense Climério, é RISO CRISTALINO. Eis a sua letra, nesse momento da sua passagem para outro plano:
 
O Meu olhar não leva jeito de chorar
quando vê o teu sorriso derramar
esse sorriso cristalino de alegria
quando vejo que a praia deu no mar
 
É melhor ser triste assim como eu estou
do que ser feliz na vida como estais
pois felicidade em mim é teu amor
que é mais claro que uma noite de luar

Quando a brisa desta noite te abraçar
vai sentir o frio forte da paixão
o meu braço abraça o corpo de outro amor
Como o beijo que essa praia deu no mar.
 
 
Em seguida, uma singela homenagem da poetisa cearense DALINHA CATUNDA, extraída do seu blog CORDEL DE SAIA:

MESTRE DOMINGUINHOS
*
 O Dominguinhos partiu
Deixando bonita história
Que guardarei com carinho
No meu baú da memória.
A sanfona foi seu destino
Tocava desde menino
Com ela alcançou a glória.
 
*
E quando um astro se vai
Tomando o rumo do céu
Sua glória não se esvai
Não se esfacela ao léu
Para o mestre Dominguinhos
Que ganha novos caminhos
Tiro sempre o meu chapéu!
 
*
Texto de Dalinha Catunda (blog CORDEL DE SAIA)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

LANÇAMENTO

O escritor Gilmar de Carvalho e o xilogravador João Pedro do Juazeiro convidam:

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terça-feira, 16 de julho de 2013

CRÔNICA DE PADRE ANTONIO VIEIRA

FUTEBOL
 

No Brasil, só há três cousas que se levam realmente a sério: carnaval, jogo do bicho e futebol. Tudo o mais cai na rotina e passa pra o rol das cousas sem importância e sem atração. A própria política empolga apenas a poucos e ainda assim sofre os seus altos e baixos.
Carnaval, porém, tem as cores nacionais. Enche o Brasil inteiro e se perlonga além-mar. Lá fora somos conhecidos como o País do Carnaval. Carnaval aqui é turismo. É atração. É glória nacional. Embora tenha a duração de três dias, seu clima domina os 365 dias do ano.
Jogo do bicho cria fascínios populares porque a um povo em desespero, sem líderes e sem mitos, a ilusão da sorte é o único apanágio que lhe galvaniza a alma e lhe entusiasma o coração.
Futebol empolga o País, desde os arranha-céus de Copacabana até às palhoças do alto sertão, desde o Presidente da República ao molecote de fundilhos rasgados que chuta bolas de pano nas pontas de rua.
Enquanto o progresso, o destino e acultura de outros povos e de outros países se decidem pelo cérebro dos seus homens, que estudam, que pensam, que se especializam, que fazem da técnica ou das investigações científicas seu ideal supremo, nós vamos escrevendo o nosso futuro, a nossa sorte, com os pés. Pés de jogadores! Pés de dançarinos!
Chegará um dia, e este não custará muito, que, quando os nossos professores falarem sobre as figuras históricas de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Rio Branco que defenderam a nossa pátria nos altos prélios internacionais, nossos alunos se levantarão entusiasmados para perguntar: – professor, em que time eles jogaram?
Pergunte-se a qualquer aluno das nossas escolas primárias as capitais dos Estados do Brasil. Pergunte-se as capitais dos Estados do Brasil. Pergunte-se aos alunos das nossas escolas secundárias quais foram as capitanias donatárias do Brasil. E eles não saberão responder. Indague-se porém a que time pertencem ou pertenceram Ademir, Pavão, Índio, Baltazar, Escurinho, Pelé, Garrincha, Castilho e a resposta, talvez, saia primeiro do que a pergunta.
Vasculhe-se a carteira de um estudante e nos seus cadernos não se encontrará nenhum apontamento escolar, nenhuma redação literária ou problema para resolver, mas todos os seus cadernos trazem colado o retrato dos craques de futebol ou revistas especializadas em esporte.
O mal é universal. Basta reparar para sentir como se trata de uma paranóia coletiva ou  nacional. Há mais interesse por uma partida de futebol do que pelos contratos comerciais do País no estrangeiro. Liga-se mais importância à escolha de uma seleção de futebol que à eleição dos homens que hão de nos governar. Até nas repartições públicas se faculta o ponto quando há um jogo importante. E nenhum funcionário público comparece à sua repartição quando o seu time vai jogar uma partida decisiva.
Nenhum funcionário público, nenhum catedrático de nossas universidades, nem mesmo o presidente da República ganha tanto como um profissional de futebol. São tratados como crianças mimadas. Vivem cercados de médicos, ortopedistas, dentistas, enfermeiros, massagistas, nutricionistas, especialistas em todos os eteceteras. Se lhes acontece alguma cousa, um pequeno acidente, se lhes cai uma unha do pé, o mundo inteiro sabe e acompanha nervoso os dramas do jogador e a luta insana da medicina para salvar aquela important~issima peça da mais importante parte do organismo de um jogador, a pessoa mais importante daquele país. Possuem casas, cadilaques, geladeiras, televisão, o diabo a catorze. Recebem milhões para assinar um contrato, gratificações assombrosas por cada jogo, pingues ordenados e mais vantagens fabulosas.
Diante desses homens que apenas possuem um bom par de pernas, que não estudaram, que não levam consigo nenhum mérito do esforço e do trabalho, as multidões deliram como se estivessem diante de deuses descidos do Olimpo.
Não sou inimigo do futebol. Até gosto de assistir a umas peladas. Mas sou contra os exageros, a deificação dos jogadores, a inversão de valores, a transformação d eum esporte em causa nacional mais importante do que os mais importantes problemas do país.

Mas isso é o Brasil! Razões de sobra tinha vigário do sertão, apoquentado com a garotada que jogava futebol nas calçadas da sua igreja, a exclamar indignado: – Este país não pode ir pra frente, pois, só se dá valor, hoje em dia, a futebol, à futilidade e ao fute.
_________
Do livro "Sertão Brabo", de autoria do escritor cearense Padre Antônio Vieira.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

POLÊMICA BENÉFICA

 
 
Ontem a noite, passeando pelo facebook, deparei com uma postagem do meu parente e amigo virtual ORLANDO PATRICIO, a favor da pena de morte para políticos corruptos. Não houve uma discussão no sentido lato do termo, houve um debate educado no qual surgiu a frase: DO MUNDO EU SÓ QUERO A VIDA. Depois de ter dito isso, vi que o mote poderia render um poema simples, casual e despretencioso. Ei-lo, com muito orgulho, pois saiu acima da medida que eu desejava, coisa muito rara de acontecer no mundo da poesia:


DO MUNDO EU SÓ QUERO A VIDA

Dedicado a Orlando Patrício de Almeida, que involuntariamente deu o mote.
 

Do mundo eu só quero a vida:
Da abelha eu só quero o mel
Da poesia o CORDEL
Da rede quero a dormida
(Com minha esposa querida
Eu quero sexo também!)
De mil eu só quero cem
Do milho eu quero a pamonha
Do homem quero a vergonha
Cada qual dá o que tem.
 

Da Ciência a descoberta
Que nos traga algum progresso
Pois ninguém quer retrocesso
Nem morrer de boca aberta
Por isso é que vivo alerta
De todos quero a verdade
Dos pais eu quero a bondade
Cada qual dá o que tem
Difícil é querer também
Do político, honestidade.

 
Eu quero a música do disco
De um cantor que me agrada
Do FUNK eu não quero nada
Valei-me, meu São Francisco
Não quero correr o risco!
Do mar eu quero o segredo
Do romance o seu enredo
Da mulher, sinceridade
Eu quero PAZ na cidade
Pois vivo sempre com medo.
 

Do dia eu quero a aurora
Da noite quero o sossego
Do trabalho eu quero emprego
(Que ninguém me mande embora)
Jesus e Nossa Senhora
Protegendo a minha lida
Não quero coisa perdida
Nada que não me pertença
Nem que valente me vença
Quero DEUS na minha VIDA.

 
Eu não quero as ilusões
De uma vida passageira
E nem dar crença a besteira
No torpe mar dos senões
Eu não desejo os porões
Da terrível ditadura
Dos filhos quero a doçura
E dos parentes, respeito
A vida assim desse jeito
Honra qualquer criatura.
 

Do Santo espero o milagre
Do sábio a filosofia
Do trovador, cantoria,
Ou algo que o consagre
Do açude, não quero bagre
Quero da escola o estudo
Da garrafa, o conteúdo
Se a bebida for boa
Do cantador quero a loa
Mas de DEUS eu quero TUDO!


Arievaldo Viana Lima – 15 de julho de 2013.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

DEBATENDO O PRECONCEITO NO CORDEL


 
Uma das obras selecionadas pelo projeto ACORDA CORDEL é o polêmico folheto "Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum". Sugerimos a realização de debates, em torno de folhetos “polêmicos”, levando-se em consideração a época em que foram escritos e os valores vigentes na sociedade daquele tempo. É o caso de Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum (escrita por Firmino Teixeira do Amaral, em 1916), em cujo texto estão presentes duas formas de preconceito social - o preconceito de cor e a rejeição ao deficiente (no caso de Aderaldo, deficiência visual). Se o leitor observar atentamente, em alguns momentos o preconceito contra o Cego é ainda maior do que contra o Negro:

“O dono da casa disse:
—  Zé Preto, pelo comum,
Dá em dez ou vinte cegos
Quanto mais sendo só um!
Mando já ao Tucumanzeiro,
Chamar o Zé do Tucum.

(...)  Levaram o negro pra sala
E depois para a cozinha;
Lhe ofereceram um jantar
De doce, queijo e galinha,
Para mim veio um café
E uma magra bolachinha.

Depois trouxeram o negro,
Colocaram no salão,
Assentado num sofá
Com a viola na mão,
Junto duma escarradeira,
Para não cuspir no chão.

Ele tirou a viola
De um saco novo de chita,
E cuja viola estava
Toda enfeitada de fita.
Ouvi as moças dizendo:
— Oh, que viola bonita!

Então, para eu me sentar,
Botaram um pobre caixão,
Já velho, desmantelado,
Desses que vêm com sabão.
Eu sentei-me, ele vergou
E me deu um beliscão.

Eu tirei a rabequinha
De um pobre saco de meia,
Um pouco desconfiado
Por estar em terra alheia;
Aí as moças disseram:
— Meu Deus, que rabeca feia!

Uma disse a Zé Pretinho:
— A roupa do cego é suja!
Botem três guardas na porta,
Para que ele não fuja,
Cego feio, assim de óculos,
Só parece uma coruja.”