sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Lançamento na BIENAL DO CEARÁ




Instituto Horácio Dídimo lança coletânea 
“100 SONETOS DE CEM POETAS”

O Instituto Horácio Dídimo de Arte, Cultura e Espiritualidade tem a grata satisfação de convidar a todos para o lançamento da coletânea "100 Sonetos de 100 Poetas" que acontecerá às 17h30min do dia 25/08/2019 no Espaço Juvenal Galeno da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Eventos do Ceará, na Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz - Fortaleza-CE.


A coletânea, que conta com participação de 100 poetas sonetistas de todo o Brasil,  foi organizada por Luciano Dídimo com a colaboração dos professores Bôscoly Morais e Carlos Gildemar Pontes, sendo enaltecida com o  prefácio de Sânzio de Azevedo, um dos maiores especialistas cearenses em  Teoria do Verso!

Na ocasião o livro poderá ser adquirido pelo preço promocional 

de R$20,00 a unidade, com desconto de 25% 

na compra de 10 unidades (R$150,00).

Confira abaixo a lista dos 100 poetas participantes:

1.      
Adriano de Alvarenga Azevedo – Ideal de Paz
Airton Uchoa Neto – Andropausa
Alana Girão de Alencar – A… calma
Alan Bezerra Torres – Metanoia
Ana Maria Nascimento – Presença de Outono
Ana Néo – Antissoneto
Antônio Francisco Pereira – A Travessia
Antônio Ortiz – Soneto de meu pai
Arievaldo Vianna – Dilemas de Ícaro
Arlindo Tadeu Hagen – O Breu da Ausência
Batista de Lima – Outonal
Bôscoly Morais – Ninho Vazio
Bruno Paulino – Poema do Peregrino
Caio Fraga – Soneto Resoluto
Carlos Gildemar Pontes – Na luz da tua imagem
Carlos Vargas – Cristo: Alimento da Igreja
Carlos Vazconcelos – Em defesa do soneto
Célia de Paula – Entardecer
Daniel Perroni Ratto – Soneto da Busca
Décio Romano – Soneto 113
Diana Balis – Verdade
Dimas Carvalho – O Espelho
Diogo Fontenelle – Soneto ao Eu-Menino
Edir Pina de Barros – Confissões
Edmar Freitas – O Tempo
Elimax de Andrade – Solidão
Elvira Drummond – O Muro e a Ponte
Estela da Paz – Soneto à Rainha do Carmelo
Eugênia Carra’h – As Pérolas da Vida
Fabiana Guimarães – Primeiro Soneto
Fernando Saboia – Soneto para a Alma
Francisco Lopes Neto – Cânticos, 6
Francisco Silvino – O Tempo
Gilliard Santos da Silva – Soneto de Esperança
Giselda Medeiros – Insanidade
Gonzaga Mota – Sentido da Vida
Guiomar Frota – Saudade
Henrique Beltrão – Soneto Torto
Inês Carolina Rilho – Ecoando n’alma
Isabel Furini – Batalha Poética
Ismar Dias de Matos – Diamantina
Israel Batista de Sousa – Rosemary
Izaíra Silvino – Sonho Alentado
Jader Soares – Vira-lata
João de Arimateia de Melo – Líquidas Palavras
José Feldman – Mistérios da Vida
José M. M. Pedro – Antes que surja o amor
Josenir Lacerda – Anseio
José Valdivino – Carmelitas
J. Udine – A Morte do Velho Monge
Júlio César Martins Soares – A mulher nasce do sonho
Júnior Bonfim – Eu Sou
Karla Karenina – Soneto do Amor Passado
Kléber Cação – Tentativas Vazias
Leo Rocha – Sinestesia da Fome
Linhares Filho – À Amada do Octogenário
Luciano Dídimo – Sonetos e Sonatas
Lucineide Souto – Então
Magna Maricelle – Terra à vista
Manoel Virgílio – Nada
Márcio Catunda – O Filho Pródigo
Marcos Antônio de Abreu – Soneto do Amor 
Marisa Maria Ribeiro – Morada Poética
Marli Voigt – Palco das Flores
Mary Nascimento – Renascimento
Michelle Gomes Moreira – Detalhados Segredos
Mihai Eminescu (Tradução de Luciano Maia) – Veneza
Nádya Gurgel – Redondilhas Menores Doridas
Nahor Lopes de Souza Junior – Não sou poeta
Nealdo Zaidan – Prova Irreal
Nicodemos Napoleão – Filosofia
Nilze Costa e Silva – Navegando
Oliveira de Castela – Sonito
Oswald Barroso – Amor sem medida
Oswaldo Francisco Martins – Amor e Bem Verdadeiros
Paulo Roberto Coelho Ximenes – Magia no Mundaú 
Paulo Roberto de Oliveira Caruso – Soneto Decassilábico de Guia
Pedro Bezerra de Araújo – Caminhar, Errar, Perdoar
Pedro Francisco Alves – Força do Equilíbrio
Pedro Ernesto – Os Falsos Heróis da Modernidade
Pedro Sampaio – Soneto à Liberdade
Roberto Coelho – Onde florescem os sonhos?
Roberto Ferrari – Paixão Sentida
Rosanni Guerra – Quartos Vazios
Sânzio de Azevedo – Versos ao Sono
Sônia Cardoso – Manhã
Sônia Nogueira – Serenidade
Stélio Torquato Lima – Fugaz
Tetê Macambira – Soneto do Querer
Tito de Andréa – Para Lyria
Totonho Laprovitera – Feliz e Satisfeito
Túlio Monteiro – E há pó de estrelas pelas estradas
Vianney Mesquita – Espirituosidade Comedida
Vicente Delgado Carreto – Razone tendrá la muerte
Vicente de Paula Maia Santos Lima – Sorriso de Criança
Vicente Freitas – Soneto ao meu pai morto
Vicente Vieira – Louco Poeta
Virgílio Maia – Soneto de Iracema e de Martim
Wilamy Carneiro – Soneto de Amor!
Xico Torres – Ide

sábado, 27 de julho de 2019

LANÇAMENTO EDITORA IMEPH


Lucília Garcês lança livro sobre Ariano 
Suassuna com ilustrações de Jô Oliveira



Credito: Reprodução. Ilustração de Jô Oliveira para o livro Ariano Suassuna, 
de Lucília Garcez.

Por: Severino Francisco

Ariano Suassuna era um personagem em busca de um autor ou de autores que o apresentassem às crianças. Não é mais. Ele encontrou a escritora Lucília Garcez e o ilustrador Jô Oliveira, uma mineira e um pernambucano que se rebrasileirizaram em Brasília. Eles escreveram uma encantadora biografia de Ariano para as crianças (Editora Imeph), mas, que, como toda obra de qualidade pode ser lida por pessoas de qualquer idade.


Ilustração de Jô Oliveira: o real e o mítico entrelaçados na vida de Ariano Suassuna.

A narrativa de Lucília e Jô evolui como um cortejo de maracatu, numa sintonia perfeita entre palavra e imagem. Nos joga, de maneira sensorial, no mundo de Ariano, com sensibilidade e delicadeza: o cotidiano em Taperoá,cidadezinha do sertão da Paraíba; as feiras, as festas populares, os teatrinhos, as cantorias, a chegada do circo. Na precariedade, era possível garimpar um universo cultural riquíssimo. Ariano puxou o fio da tradição medieval transplantada para o nordeste brasileiro.
Como bem diz Flávia Suassuna na apresentação, a biografia revela não apenas os elementos que fizeram Ariano ser Ariano, mas, também, as formas, os sons e as cores. É, ao mesmo tempo, uma biografia e uma fábula.
Ele parece um personagem saído diretamente de um folheto de cordel para a realidade.

Quando era garoto, quis fugir com o circo e só não conseguiu porque levou uma tremenda bronca da mãe. Ficou a frustração de ser palhaço, mas, na fase final da vida, Ariano realizou a vocação plenamente com as suas aulas-espetáculos, em que mistura a erudição de professor de estética com a verve popular de João Grilo paraibano. Ao arrancar o riso das plateias ele ficava com o brilho nos olhos de menino encantado, comemorava cada gargalhada como se fosse um gol.


 Capa do livro Ariano Suassuna; de Lucília Garcez, com ilustrações de Jô Oliveira.

Antonio Candido disse que os grandes homens desapareceram, pois eles dependem das utopias. E Ariano é dessa linhagem, é um Quixote paraibano de múltiplos talentos, mas, antes de tudo, poeta. O Quixote é um herói moral, tem um ideal tão alto que as derrotas não o desmerecem; as derrotas o engrandecem.

A biografia escrita por Lucília e ilustrada por Jô nos revela que a história de Ariano se entrelaça de maneira indivisível com a história brasileira e com a história da cultura popular nordestina. Ele é um personagem épico. E, neste momento, nós estamos precisando, dramaticamente, de brasileiros que nos engrandeçam.
Imagino que, onde estiver, ao folhear o livrinho de Lucília e Jô, Ariano deve estar chorando as lágrimas de esguicho de que fala Nelson Rodrigues, lágrimas da mais pura alegria.



Ilustração de Jô Oliveira: Ariano tinha múltiplos talentos, mas era, antes de tudo, poeta

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE

quinta-feira, 25 de julho de 2019

MENDIGOS TROVADORES


Antiga estampa do padroeiro de Canindé

NOTAS FOLCLÓRICAS SOBRE OS FESTEJOS DE SÃO FRANCISCO DE CANINDÉ


Santuário de São Francisco


O poeta, prosador e jornalista José da Cruz Filho (foto ao lado), nascido em Canindé, aos 16 de outubro de 1884 – e falecido em Fortaleza, a 24 de agosto de 1974, foi príncipe dos poetas cearenses, e membro da Academia Cearense de Letras. Como jornalista, fundou o primeiro jornal que circulou em sua terra natal (O Canindé, de 1903) e colaborou em outros que surgiram posteriormente. Num artigo extraído do jornal A IMPRENSA, do qual foi redator, temos um curioso artigo onde o poeta se diz “folclorista”.

As oficinas gráficas do Convento de Canindé-CE lançaram, a 22 de junho de 1913, um semanário chamado A IMPRENSA, mantido pela Casa de São Francisco e redigido pelo poeta Cruz Filho. A direção do estabelecimento tipográfico naquele tempo coube a Tomás Barbosa. Apareceram ao todo trinta números deste órgão, até 11 de janeiro de 1914. No livro “São Francisco das Chagas de Canindé” Frei Venâncio Willeke destaca um artigo publicado num dos números daquele semanário, possivelmente escrito por Cruz Filho, seu principal redator. Eis a transcrição de um artigo da IMPRENSA de 4-10-1913 referindo-se aos cantadores cegos ou aleijados que esmolavam durante os festejos do padroeiro de Canindé:

“NOTAS FUGACES”

Ele veio de longe, dos sertões altos de S. João do Rio do Peixe, no Estado da Paraíba do Norte... Apoiado às muletas frágeis, vencendo as areias ardentes, transpondo as duras charnecas, com uma imensa desventura nos olhos tristes e uma radiosa esperança no coração, viu, numa clara manhã de alegre sol, brancas e fulgindo no azul, as torres prestigiosas de São Francisco de Canindé.
Fugira o aleijadinho às mãos sábias dos médicos, que lhe quiseram amputar a perna chagada, num hospital do Recife, e viera, vingando as ásperas charnecas, sentar-se à sombra magnânima do templo prestigioso e unir a sua voz, numa ardente súplica rimada à confusa voz de outros náufragos da vida, – cegos, leprosos e aleijados – que a mesma ingrata vaga dos negros destinos humanos lançara e fraternizara nos mesmos estreitos palmos de terra. E ali no burburinho tumultuoso dos pregões festivos, no profuso rumor das multidões complexas, implorando a caridade das turbas felizes, o bando sinistro dos desgraçados, para quem a vasta noite da vida não tem esperança de aurora, procura chamar a atenção indiferente dos ditosos e estranhos para a sua imensa desventura sem remédio...
A festa de São Francisco de Canindé reúne a mais variada coleção de tipos sociais. São vastas ondas humanas que afluem, sôfregas, a presenciar os festejos celebérrimos do grande Santo dos doces milagres.
E o folclorista, curioso e deslumbrado, vê abrir-se ante os seus pasmos olhos de psicólogo amador uma estranha flora da emoção do vago sentimento da rude alma popular. E‟ a parte dolorosa da poesia do povo. São rudes almas de poetas que dizem cantando a sua imensa desdita. Ponteando os brados alegres, surtem como tristes ais doloridos, essas vozes mendigas de desgraçados sem lar que cantam e que imploram:

Meu irmão me dê uma esmola,
Que eu lhe peço, é por amor
Pelo cálice, pela hóstia
Que hoje se levantou! . . .

E as multidões param assombradas, diante desses poetas maltrapilhos, e as moedas caem sonoras nas bacias minúsculas de folha de flandres, acompanhadas pela aflita voz implorativa que agradece em ingênuas rimas sinceríssimas:

A quem me deu sua esmola,
Deus acrescente seu bem;
Que de um produza dez,
Que de dez produza cem...


Poeta Bentevi Neto


Cantadores se apresentavam nessas barracas, construídas no leito do Rio Canindé


Vai nessas rimas toda a psicologia desses simples, toda a sua arte de mover, com as angustiadas estrofes, o duro coração humano:

Quando Deus andou no mundo,
A São Pedro disse assim:
Quem não quer pobre na porta,
Também não me quer a Mim...

A luta amarga pela vida lhes ensinou, a eles, que nunca viveram os caminhos amáveis do coração e os meios ardilosos de prender e comover a fugitiva caridade das turbas:

Meus irmãos, me deem uma esmola,
Por Jesus de Nazaré,
Por São Francisco das Chagas,
Padroeiro do Canindé...

E ele, esse poeta de treze anos que viera pelos duros caminhos sertanejos, das longes terras da Paraíba do Norte, erguia também, no confuso tumulto das cantigas trêmulas, a sua fina voz de criança, dizendo toda a infinita amargura da sua triste primaveras sem botões:

Meus irmãos, me deem uma esmola,
E queiram me proteger,
Que eu perdi minha saúde,
Não tenho mais que perder...
Perdi os gostos da vida;
Vivo triste até morrer...

Aquela voz de mendigo justificava perante a desatenta caridade humana o seu amargurado e angustioso pedido em versos ingenuamente impressionadores:

Meus irmãos, me deem uma esmola;
Tenham dó do meu penar
Que eu perdi minha saúde,
Não posso mais trabalhar.

Se eu tivesse minha saúde,
Como todos têm a sua,
Não ia de porta em porta,
Pedindo esmola na rua,
Comendo fora de horas...
Ai meu Deus, que sorte crua!...

E as moedas, os níqueis, os cobres caíam, choviam na bacia de folhas de flandres estendida à caridade dos transeuntes e, de novo, a triste voz magoada se elevava, sonora e agradecida:

A quem me deu sua esmola,
Deus o leve num andor,
Acompanhado de anjos,
Circulado de fulô...
Nossa Senhora o proteja
Quando deste mundo for...

“É uma vasta classe, digna do estudo de um amador perspicaz, essa classe dos mendigos – possuindo o seu argot particular, mantendo a sua solidariedade, também a sua rivalidade feroz de oficiais do mesmo ofício”.

In WILLEKE, Frei Venâncio - São Francisco das Chagas de Canindé, Editora Vozes, 1973

terça-feira, 23 de julho de 2019

POEMA DE ALBERTO PORFÍRIO



Em 1978 meu pai apareceu em casa com um livro maravilhoso que marcou a nossa infância: "POETAS POPULARES E CANTADORES DO CEARÁ", de Alberto Porfírio. Ouço, portanto, falar de Alberto Porfírio desde a minha primeira infância, pois na casa de meus avós aconteciam cantorias e dentre os poetas convidados estavam Alberto, seu irmão José Porfírio e o cantador Antônio Ribeiro Maciel, de Quixeramobim. Minha avó, Alzira de Sousa Lima, colecionava folhetos de cordel e tinha prodigiosa memória. 

Meu avô, Manoel Barbosa Lima, também apreciava os cantadores e os folhetos de Cordel. Mas não era de seu agrado que meu pai se tornasse um repentista, pois considerava a profissão incerta. Na verdade ele não queria que meu pai botasse uma viola nas costas e ganhasse o “oco do mundo”, como se dizia na época, longe de suas vistas e de sua proteção paternal. 

Em 1978 eu tinha entre 10 e 11 anos de idade, quando meu pai apareceu com uma grande novidade: um livro que marcou profundamente a minha infância e se tornou companheiro inseparável da nossa família até os dias de hoje. Era o Poetas Populares e Cantadores do Ceará, de Alberto Porfírio (Horizonte Editora, 1978), poeta que eu já conhecia de nome e de versos. As rádios costumavam divulgar seus escritos, sobretudo os poemas matutos “A estátua do Jorge” e “Cantiga da Dourinha”, que faziam sucesso na voz do saudoso radialista Guajará Cialdini, fã do poeta e divulgador incansável de sua obra. Outro poema de grande sucesso tinha o curioso título de "Eu gostei mais foi do Cão" e conta a história de um matuto que foi vítima de traição e levou seu único filho, ainda bebê, para ser criado nos matos, para que nunca na vida visse uma mulher!

Guajará declamava com encanto e desembaraço, fazendo com que nos tornássemos, cada vez mais, admiradores da lira maviosa do mestre Porfírio. O escritor Luciano Barreira, autor de Os cassacos, referindo-se à primeira parte de Poetas Populares e Cantadores do Ceará diz que a mesma “é composta de criações poéticas moldadas na simplicidade e na grandeza da poesia mais pura, essa que brota quase sempre de improviso, à sombra do alpendre ou da latada sertaneja. Versos cheios de lirismo e ao mesmo tempo de lições de elevado cunho humano”. 

Esse livro, de pouco menos de 150 páginas, é uma obra essencial para todos que amam a poesia popular. Além de apresentar uma série de poemas matutos da lavra do autor, traz ainda dados biográficos de vários cantadores e saborosos fragmentos de cantorias realizadas por outros poetas cearenses.

A seguir trechos do poema EU GOSTEI MAIS FOI DO CÃO:


EU GOSTEI MAIS FOI DO CÃO
Poema matuto de Alberto Porfírio

Já faz mais de doze anos
Qui eu me intriguei com muié
Pois o que a minha me fez
Véve com ela outra vez
Quem vergonha num tivé.

Agarrei meu fio Zé
E entrei pros mato com ele
Pois quero que ele se crie
Sem cunhincê a mãe dele.

A gente véve nas mata
Plantando e fazendo roça
Quando eu saio pro trabaio
Ele fica na paioça
Dando di cumê aos bicho
Fazendo a comida nossa.

De tempo em tempo
Pra cidade do Coité*
A fim de compra o fumo
A farinha e o café
Mais eu vou mermo sozinho
Em casa eu deixo o Zé
Pois quero que ele se crie
Sem vê diabo de muié!

Doutô, a minha muié,
Era Maria Chiquinha,
Cumo eu era só dela
Pensei que fosse só minha
Mas ela num tinha amô
Do jeito que eu lhe tinha.

(...)

Um dia, lá numa festa
Um sujeitim atrevido
Chegou e perguntô a ela
Se eu era o seu marido
E ela respondeu baixim:
- Ele é só meu cunhicido!

Qui cunhicido, que nada,
Agarrei no braço dela,
Tangi logo ela pra casa
Dei um bom ensino a ela
E ainda amiacei
De entregá-la ao pai dela.

Mais tombém essa muié
Mim pediu tanto perdão
Jueiada nos meus pés
Cuma quem faz oração
Qui inté que eu dixe pra ela:
- Num qué dizer nada não!...

Num faça mais ôta dessas
Qui tá tudo perdoado;
No ôto dia bem cedo
Fui trabaiá no roçado,
Cheguei em casa mei-dia
Cum fome e munto cansado
Ui! Seu dotô, pois estava,
Meu rancho desocupado...

Tinha ela deixado o Zé
Dento da rede, incuído
E tinha ido simbora
Cum aquele mermo enxerido
Que ela dixe, em minha frente,
Qui eu num era o seu marido.

Foi aí qui eu cunhicí
Que as muié tem mandinga,
Quando a gente qué dá nelas
Elas geme e churuminga
Mais dento do coração
É dizendo que se vinga!

Tá vendo, que muié ruim?
Deixou um fio inocente
Cum oito meses de idade
Sozinho, e cum eu ausente,
Pra ir simbora com um cabra
Um malandro, certamente,
Só pruquê tinha gravata
E tinha ouro nos dente.

Por isso é que hoje im dia
Eu indo à povoação
Num entro numa bodega
Qui tem muié no barcão
Eu fasto logo prá trás
Arrodeio o quarteirão
Por causa dela eu penso
Qui todas fazem treição!


(...)

sábado, 20 de julho de 2019

50 anos da Conquista da Lua



O cordel conta a lua

(18 de Julho de 2009) CADERNO 3


Os astronautas trajavam
Calça, culote e colete
Um guarda peito de aço
Desenhado um ramalhete
E cada um tinha uma estrela
De prata no capacete.
(José Soares – O homem na lua)


A viagem do homem à lua, em julho de 1969, foi parar no folheto de feira porque o cordel é um conjunto de histórias que fala de nossos sonhos, medos e anseios

Uma fala mítica que ganhou o impresso como forma de aproveitar as tecnologias disponíveis e assim poder permanecer.

Mesmo quando denunciamos como superada a velha dicotomia entre sagrado e profano, não podemos perder de vista a oposição entre o alto e o baixo, o céu e a terra, o sublime (mágico e misterioso) e o banal do cotidiano que precisa ser suportado.

Velhas narrativas sempre deram conta de festas no céu com a presença de animais. Foi assim que se estilhaçou o casco do cágado, numa queda desastrada, provavelmente por conta do excesso de bebidas. O ´trancoso´ reforçou estes relatos nas noites mágicas, ao pé das fogueiras, nos terreiros das fazendas, onde estivesse um narrador com o fôlego de Scheerazade para nos enlevar, nos meter medo ou nos deixar curiosos pela estória que não poderia ser estancada.



São Jorge reina, altaneiro, no mundo da Lua, montado em seu cavalo branco.

O guerreiro que ganhou no sincretismo brasileiro o codinome de Ogun, onipresente nas lojas de produtos religiosos e nas paredes das casas do povo, anima a torcida do Flamengo e come vatapá de camarão seco, com amendoim e muito dendê.

São Jorge parece ser nosso, de tão bem aclimatado, mas é cultuado na Geórgia, na Turquia, e, no final dos anos 1960, foi cassado pela Igreja oficial que não comprovou sua existência histórica, como se o mito não pudesse também ser canonizado.

O santo é o guardião do satélite da Terra. A presença da Lua na literatura e na música popular reforçou essa importância no imaginário coletivo.

A atualização do cordel passou por essa permanente abertura para a incorporação de novos temas. Os relatos míticos que nos situavam diante do amor e da morte, foram dando lugar a narrativas mais bem focadas e de acordo com a expectativa da média dos leitores.

Pode-se pensar numa adequação entre a mitopoética e a indústria cultural que se reforça com a publicação dos folhetos, no caso brasileiro, nos instantes de folga dos parques gráficos dos jornais.

Foi assim, que conseguimos juntar a musicalidade do nosso cantar improvisado, com as rimas, a observância da métrica, e essas histórias ganharam o suporte do papel.

Leandro Gomes de Barros cantou, em 1910, a passagem do Cometa Halley pelos céus da Paraíba. Um ´alumbramento´, como disse o pernambucano Manuel Bandeira, que se apaixonou pelos cantadores e os colocou como os grandes poetas do Brasil.



O cordel passou a funcionar como um jornal popular: feito de acordo com o que se pensava ser mais consumido e obedecendo a outra lógica, descolada dos manuais de redação dos jornais que passavam a ser empresas jornalísticas, superada a fase de defesa de postulados e de ligação mais evidente com os partidos políticos.

Passamos a ter muitos episódios importantes como tema dos folhetos, como o reforço da figura de Padre Cícero; as andanças e peripécias de Lampião e seu bando de ´rebeldes primitivos´; relatos de secas; denúncias de carestia e outras crônicas. Os folhetos de cordel, aparentemente frágeis e perecíveis, tinham impacto na formação da visão de mundo da gente do sertão.

Este aspecto de jornal se reforçou com guerras, mazelas, denúncias de injustiças e atinge seu ápice com o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. Nunca o cordel tinha sido tão importante como possibilidade de uma leitura que fugia ao padrão da mídia oficial, comprometida com a desestabilização do Presidente nacionalista, versão revista e atualizada do outro Vargas (1937/ 1945).

Tecnologia

Chegamos aos anos 1960 com a crise anunciada do cordel. Não exatamente por conta da ditadura militar, mas pela crise do papel no mercado internacional que elevou os custos da produção dos folhetos.

A modernização do País levava a outros valores e a industrialização era uma meta.

Nesse mesmo tempo, a televisão trouxe novas formas de lazer e de sociabilidade. O mundo descobriu, estarrecido, o poder hipnótico do tubo azul que emitia uma mistura de rádio, cinema, teatro, história em quadrinhos e, principalmente, de circo.

O projeto militar passava pela construção de uma hegemonia que recorria às mídias e pela construção de uma rede de comunicação que envolvia o País através de satélites, torres, antenas e micro-ondas. Integrar era uma forma de controlar para dominar.

Foi assim que se constituiu a Embratel (Empresa Brasileira de Telecomunicações) e tivemos a possibilidade das transmissões instantâneas e da constituição das redes de televisão. A parafernália estava sendo experimentada antes do Jornal Nacional, que foi ao ar, pela primeira vez em setembro de 1969.

A viagem dos astronautas norte-americanos que chegaram à Lua em 20 de julho de 1969 testou o alcance da receptividade não só da engrenagem, mas das possibilidades de cobertura de um evento que tinha todo o toque de ficção científica.

Tudo isso vinha com a Guerra Fria, desencadeada pela vitória das Forças Aliadas contra o nazi-fascismo, em 1945, e trouxe a dicotomia entre Estados Unidos e Rússia.

O sonho da conquista da Lua estava presente desde os tempos mais remotos. A possibilidade ganhava forma com a disputa entre norte-americanos e russos pela supremacia espacial. Foi assim que o satélite Sputinik batizou um bloco que desfilou no carnaval cearense do final dos anos 1950 e a cadela Laika foi ao ar numa viagem sem volta. A disputa pela tecnologia era, na verdade, a luta ideológica transplantada para outro ´front´.



Versão no cordel

Depois de muita espionagem, contra-informação e factóides, o homem chegaria à Lua e o poeta de cordel estava atento ao acontecimento. Mais que uma forma de interferir no real, era uma possibilidade de vender mais folhetos e dar conta da expectativa do leitor em relação à versão legitimada de um líder da comunidade que dava seu aval à efeméride.

Havia dúvidas em relação à chegada do homem à lua, como deixou claro o baiano Rodolfo Coelho Cavalcante: ´Muita gente por aí / anda bancando o palhaço/ dizendo que os astronautas / não conquistaram o espaço´. Mesmo a presença da televisão, mostrando o ´pequeno passo´ de Armstrong (e o grande passo da Humanidade), não apaziguou a todos.

Eram tantas as possibilidades de simulações, que a descida do módulo na Lua, a escavação para trazer amostra de pedras, o ´enfincamento´ da bandeira norte-americana no solo e as pisadas desajeitadas que inspirariam, anos depois, o ´moonwalker´ (ou caminhada na Lua) do ´astronauta´ Michel Jackson (1958/2009), pareciam ficção.

A voz do poeta


O pesquisador Gilmar de Carvalho


A Terra parou para ver o homem pisar o solo da Lua. Os céticos e renitentes ainda desconfiavam do que estavam vendo. O poeta nem sempre reforçava esta desconfiança. Não era bom para as vendas. Melhor trabalhar com o ufanismo da conquista, com o tom de vitória e de superação da Humanidade que dava um salto para frente, pelo menos em termos de tecnologia.

A produção de folhetos foi importante como registro do fato. Muitos folhetos estão na Biblioteca Amadeu Amaral, do Museu do Folclore, no Rio, dirigida pela bibliotecária cearense Maria Rosário Pinto. Outros na Comissão Pernambucana de Folclore, presidida pelo professor Roberto Benjamim. Vale recorrer à Casa de Rui Barbosa e ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Nomes importantes da literatura de folhetos se envolveram na cobertura, como o ´poeta-repórter´ pernambucano José Soares, o baiano Rodolfo Coelho Cavalcante e João José dos Santos, o Azulão, paraibano radicado no Rio de Janeiro, dentre outros.

Prevalecia o tom oficial. Os poetas não se inibiam de dizer que tinham tido os jornais e a televisão como fontes. José Soares, por exemplo, escreveu que ´Num jornal de Pernambuco / eu li numa reportagem´ e logo depois retoma a necessidade da legitimação pela mídia ao fazer uma variação do verso, desta vez com uma ´folha´ (com o ´f´ minúsculo) de São Paulo. Rodolfo cantou: ´A sombra de Armstrong / via-se na televisão´. Azulão ia além na ´pegada´ ideológica, com entusiasmo e ufanismo: ´E todos lances ao vivo/ com a EMBRATEL mostrando´.

As capas trazem, em sua maioria, fotos da cobertura jornalística. A capa cega seria pouco atraente e a xilogravura precisava de uma referência para ser escavada na madeira.

O tom eloqüente não impedia o recurso ao humor. Outra vez o poeta-repórter do Recife aproveitava para aproximar a Lua de seu Pernambuco: ´Lá não se canta Rojão / xaxado, xote ou ciranda´. A crítica ia além ao comparar os buracos da Lua com os do Recife deste tempo. Depois de levar um coice do cavalo de São Jorge, Armstrong ainda é questionado pelo santo: ´A Lua falta uma banda / foi você quem carregou?´.

A cor local se evidencia quando o poeta introduz um grande líder religioso na narrativa: ´Eu mesmo estava lembrado / Que Padre Cícero dizia / A Ciência eleva o homem / Mas não dá autonomia / Se faz o que Deus consente / O resto é hipocrisia´.

Outra vez as ideologias vêm à tona quando Rodolfo fala mal da Rússia e toma partido ao declarar num verso: ´Ó grande América do Norte / aliada do Brasil´.

Assim, quarenta anos depois, por meio das páginas amarelecidas dos folhetos ou através da consulta ´on line´ dos acervos digitalizados, é possível evocar a euforia provocada pela conquista da Lua. O cordel testemunhou este momento. Não é difícil rememorar o range-range onomatopaico das velhas máquinas impressoras, o pregão das feiras e a magia do vendedor analfabeto que aprendia o folheto de cor.

O mundo mudou, o cordel mudou, talvez não tenha mudado a nossa necessidade da fabulação. E assim o homem se prepara para Marte. Quem sabe, um dia, a poesia se torne profecia de Azulão: ´Os sábios que descobriram / Satélite, estrela e luneta / Disseram que o homem ainda / Inventaria cometa / Onde se transportaria / da Terra a outro planeta´.

GILMAR DE CARVALHO
Especial para o Caderno 3

BIOGRAFIA

Por Marcelo Soares 
José Francisco Soares, ou como ele preferia ser chamado, Zé Soares, nasceu em Alagoa Grande, Paraíba, em 5 de janeiro de 1914, e faleceu em 9 de janeiro de 1981, em Timbaúba, Pernambuco.
Ainda menino, se encantara com os desafios entre violeiros-repentistas, emboladores de côco e com os folhetos de feira que os poetas declamavam. Em 1928, publicou seu primeiro folheto Descrição do Brasil por estados. Fez biscates como agricultor e almocreve e, em 1934, foi para o Rio de Janeiro trabalhar como pedreiro, sem jamais deixar de publicar suas obras.
Voltou ao Recife em 1940, quando montou uma banca de folhetos no oitão do Mercado de São José, onde vendia suas obras e as de outros poetas. Nas décadas de 1940 e 1950, publicou grande parte de seus folhetos na Gráfica Medeiros.
Nos anos 1960, tornou-se proprietário da Gráfica Tricolor. Ver texto completo: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/JoseSoares/joseSoares_biografia.html#


terça-feira, 16 de julho de 2019

NOVO CORDEL


O PRESENTE DE NATAL DE LAMPIÃO
Autor: Arievaldo Vianna | baseado num conto de Gustavo Barroso


(Trechos)

Das histórias do Cangaço
Esta é a mais singular
Na crônica dos cangaceiros
É bem difícil encontrar
Relato tão pitoresco
Não sendo um tema burlesco
Em versos quero narrar.

Quando Lampião reinava
No Cangaço, absoluto,
Percorreu vários estados
Sempre firme e resoluto
Mas, em meio à violência,
Também praticou clemência
Provando não ser tão bruto.

Aqui, acolá, escuto
E pra que ninguém desminta
Vou narrar esse episódio,
Deu-se na década de trinta;
No final da narração
Veremos que Lampião
Não é mau como se pinta.

Quem registrou esse fato
De modo criterioso
Foi o grande folclorista
Gustavo Dodt Barroso
A título de passatempo
No livro “Cinza do Tempo”
Relato maravilhoso.

Lampião, um certo dia,
Visitando um povoado,
Vinha com dor de cabeça
Doente e muito enfadado,
E procurava um lugar
Para poder descansar
Tranquilo e bem sossegado.

Era véspera de Natal
E ele desejava trégua
Esquadrinhou toda a vila
Sem usar compasso ou régua;
Falou, de cara fechada:
– Eu  não quero ouvir zoada
De nem um 'fie-duma-égua!”

A cidade estava cheia
Pois era dia de feira
E Lampião, carrancudo,
Ordenou à cabroeira:
– Quero essa feira acabada
Depois 'pastorem' a entrada
Não fiquem aqui de bobeira!


(...)

Este folheto será lançado na BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO CEARÁ, pela Editora CORDELARIA FLOR DA SERRA, do poeta Paiva Neves. AGUARDEM!