terça-feira, 23 de julho de 2019

POEMA DE ALBERTO PORFÍRIO



Em 1978 meu pai apareceu em casa com um livro maravilhoso que marcou a nossa infância: "POETAS POPULARES E CANTADORES DO CEARÁ", de Alberto Porfírio. Ouço, portanto, falar de Alberto Porfírio desde a minha primeira infância, pois na casa de meus avós aconteciam cantorias e dentre os poetas convidados estavam Alberto, seu irmão José Porfírio e o cantador Antônio Ribeiro Maciel, de Quixeramobim. Minha avó, Alzira de Sousa Lima, colecionava folhetos de cordel e tinha prodigiosa memória. 

Meu avô, Manoel Barbosa Lima, também apreciava os cantadores e os folhetos de Cordel. Mas não era de seu agrado que meu pai se tornasse um repentista, pois considerava a profissão incerta. Na verdade ele não queria que meu pai botasse uma viola nas costas e ganhasse o “oco do mundo”, como se dizia na época, longe de suas vistas e de sua proteção paternal. 

Em 1978 eu tinha entre 10 e 11 anos de idade, quando meu pai apareceu com uma grande novidade: um livro que marcou profundamente a minha infância e se tornou companheiro inseparável da nossa família até os dias de hoje. Era o Poetas Populares e Cantadores do Ceará, de Alberto Porfírio (Horizonte Editora, 1978), poeta que eu já conhecia de nome e de versos. As rádios costumavam divulgar seus escritos, sobretudo os poemas matutos “A estátua do Jorge” e “Cantiga da Dourinha”, que faziam sucesso na voz do saudoso radialista Guajará Cialdini, fã do poeta e divulgador incansável de sua obra. Outro poema de grande sucesso tinha o curioso título de "Eu gostei mais foi do Cão" e conta a história de um matuto que foi vítima de traição e levou seu único filho, ainda bebê, para ser criado nos matos, para que nunca na vida visse uma mulher!

Guajará declamava com encanto e desembaraço, fazendo com que nos tornássemos, cada vez mais, admiradores da lira maviosa do mestre Porfírio. O escritor Luciano Barreira, autor de Os cassacos, referindo-se à primeira parte de Poetas Populares e Cantadores do Ceará diz que a mesma “é composta de criações poéticas moldadas na simplicidade e na grandeza da poesia mais pura, essa que brota quase sempre de improviso, à sombra do alpendre ou da latada sertaneja. Versos cheios de lirismo e ao mesmo tempo de lições de elevado cunho humano”. 

Esse livro, de pouco menos de 150 páginas, é uma obra essencial para todos que amam a poesia popular. Além de apresentar uma série de poemas matutos da lavra do autor, traz ainda dados biográficos de vários cantadores e saborosos fragmentos de cantorias realizadas por outros poetas cearenses.

A seguir trechos do poema EU GOSTEI MAIS FOI DO CÃO:


EU GOSTEI MAIS FOI DO CÃO
Poema matuto de Alberto Porfírio

Já faz mais de doze anos
Qui eu me intriguei com muié
Pois o que a minha me fez
Véve com ela outra vez
Quem vergonha num tivé.

Agarrei meu fio Zé
E entrei pros mato com ele
Pois quero que ele se crie
Sem cunhincê a mãe dele.

A gente véve nas mata
Plantando e fazendo roça
Quando eu saio pro trabaio
Ele fica na paioça
Dando di cumê aos bicho
Fazendo a comida nossa.

De tempo em tempo
Pra cidade do Coité*
A fim de compra o fumo
A farinha e o café
Mais eu vou mermo sozinho
Em casa eu deixo o Zé
Pois quero que ele se crie
Sem vê diabo de muié!

Doutô, a minha muié,
Era Maria Chiquinha,
Cumo eu era só dela
Pensei que fosse só minha
Mas ela num tinha amô
Do jeito que eu lhe tinha.

(...)

Um dia, lá numa festa
Um sujeitim atrevido
Chegou e perguntô a ela
Se eu era o seu marido
E ela respondeu baixim:
- Ele é só meu cunhicido!

Qui cunhicido, que nada,
Agarrei no braço dela,
Tangi logo ela pra casa
Dei um bom ensino a ela
E ainda amiacei
De entregá-la ao pai dela.

Mais tombém essa muié
Mim pediu tanto perdão
Jueiada nos meus pés
Cuma quem faz oração
Qui inté que eu dixe pra ela:
- Num qué dizer nada não!...

Num faça mais ôta dessas
Qui tá tudo perdoado;
No ôto dia bem cedo
Fui trabaiá no roçado,
Cheguei em casa mei-dia
Cum fome e munto cansado
Ui! Seu dotô, pois estava,
Meu rancho desocupado...

Tinha ela deixado o Zé
Dento da rede, incuído
E tinha ido simbora
Cum aquele mermo enxerido
Que ela dixe, em minha frente,
Qui eu num era o seu marido.

Foi aí qui eu cunhicí
Que as muié tem mandinga,
Quando a gente qué dá nelas
Elas geme e churuminga
Mais dento do coração
É dizendo que se vinga!

Tá vendo, que muié ruim?
Deixou um fio inocente
Cum oito meses de idade
Sozinho, e cum eu ausente,
Pra ir simbora com um cabra
Um malandro, certamente,
Só pruquê tinha gravata
E tinha ouro nos dente.

Por isso é que hoje im dia
Eu indo à povoação
Num entro numa bodega
Qui tem muié no barcão
Eu fasto logo prá trás
Arrodeio o quarteirão
Por causa dela eu penso
Qui todas fazem treição!


(...)

sábado, 20 de julho de 2019

50 anos da Conquista da Lua



O cordel conta a lua

(18 de Julho de 2009) CADERNO 3


Os astronautas trajavam
Calça, culote e colete
Um guarda peito de aço
Desenhado um ramalhete
E cada um tinha uma estrela
De prata no capacete.
(José Soares – O homem na lua)


A viagem do homem à lua, em julho de 1969, foi parar no folheto de feira porque o cordel é um conjunto de histórias que fala de nossos sonhos, medos e anseios

Uma fala mítica que ganhou o impresso como forma de aproveitar as tecnologias disponíveis e assim poder permanecer.

Mesmo quando denunciamos como superada a velha dicotomia entre sagrado e profano, não podemos perder de vista a oposição entre o alto e o baixo, o céu e a terra, o sublime (mágico e misterioso) e o banal do cotidiano que precisa ser suportado.

Velhas narrativas sempre deram conta de festas no céu com a presença de animais. Foi assim que se estilhaçou o casco do cágado, numa queda desastrada, provavelmente por conta do excesso de bebidas. O ´trancoso´ reforçou estes relatos nas noites mágicas, ao pé das fogueiras, nos terreiros das fazendas, onde estivesse um narrador com o fôlego de Scheerazade para nos enlevar, nos meter medo ou nos deixar curiosos pela estória que não poderia ser estancada.



São Jorge reina, altaneiro, no mundo da Lua, montado em seu cavalo branco.

O guerreiro que ganhou no sincretismo brasileiro o codinome de Ogun, onipresente nas lojas de produtos religiosos e nas paredes das casas do povo, anima a torcida do Flamengo e come vatapá de camarão seco, com amendoim e muito dendê.

São Jorge parece ser nosso, de tão bem aclimatado, mas é cultuado na Geórgia, na Turquia, e, no final dos anos 1960, foi cassado pela Igreja oficial que não comprovou sua existência histórica, como se o mito não pudesse também ser canonizado.

O santo é o guardião do satélite da Terra. A presença da Lua na literatura e na música popular reforçou essa importância no imaginário coletivo.

A atualização do cordel passou por essa permanente abertura para a incorporação de novos temas. Os relatos míticos que nos situavam diante do amor e da morte, foram dando lugar a narrativas mais bem focadas e de acordo com a expectativa da média dos leitores.

Pode-se pensar numa adequação entre a mitopoética e a indústria cultural que se reforça com a publicação dos folhetos, no caso brasileiro, nos instantes de folga dos parques gráficos dos jornais.

Foi assim, que conseguimos juntar a musicalidade do nosso cantar improvisado, com as rimas, a observância da métrica, e essas histórias ganharam o suporte do papel.

Leandro Gomes de Barros cantou, em 1910, a passagem do Cometa Halley pelos céus da Paraíba. Um ´alumbramento´, como disse o pernambucano Manuel Bandeira, que se apaixonou pelos cantadores e os colocou como os grandes poetas do Brasil.



O cordel passou a funcionar como um jornal popular: feito de acordo com o que se pensava ser mais consumido e obedecendo a outra lógica, descolada dos manuais de redação dos jornais que passavam a ser empresas jornalísticas, superada a fase de defesa de postulados e de ligação mais evidente com os partidos políticos.

Passamos a ter muitos episódios importantes como tema dos folhetos, como o reforço da figura de Padre Cícero; as andanças e peripécias de Lampião e seu bando de ´rebeldes primitivos´; relatos de secas; denúncias de carestia e outras crônicas. Os folhetos de cordel, aparentemente frágeis e perecíveis, tinham impacto na formação da visão de mundo da gente do sertão.

Este aspecto de jornal se reforçou com guerras, mazelas, denúncias de injustiças e atinge seu ápice com o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. Nunca o cordel tinha sido tão importante como possibilidade de uma leitura que fugia ao padrão da mídia oficial, comprometida com a desestabilização do Presidente nacionalista, versão revista e atualizada do outro Vargas (1937/ 1945).

Tecnologia

Chegamos aos anos 1960 com a crise anunciada do cordel. Não exatamente por conta da ditadura militar, mas pela crise do papel no mercado internacional que elevou os custos da produção dos folhetos.

A modernização do País levava a outros valores e a industrialização era uma meta.

Nesse mesmo tempo, a televisão trouxe novas formas de lazer e de sociabilidade. O mundo descobriu, estarrecido, o poder hipnótico do tubo azul que emitia uma mistura de rádio, cinema, teatro, história em quadrinhos e, principalmente, de circo.

O projeto militar passava pela construção de uma hegemonia que recorria às mídias e pela construção de uma rede de comunicação que envolvia o País através de satélites, torres, antenas e micro-ondas. Integrar era uma forma de controlar para dominar.

Foi assim que se constituiu a Embratel (Empresa Brasileira de Telecomunicações) e tivemos a possibilidade das transmissões instantâneas e da constituição das redes de televisão. A parafernália estava sendo experimentada antes do Jornal Nacional, que foi ao ar, pela primeira vez em setembro de 1969.

A viagem dos astronautas norte-americanos que chegaram à Lua em 20 de julho de 1969 testou o alcance da receptividade não só da engrenagem, mas das possibilidades de cobertura de um evento que tinha todo o toque de ficção científica.

Tudo isso vinha com a Guerra Fria, desencadeada pela vitória das Forças Aliadas contra o nazi-fascismo, em 1945, e trouxe a dicotomia entre Estados Unidos e Rússia.

O sonho da conquista da Lua estava presente desde os tempos mais remotos. A possibilidade ganhava forma com a disputa entre norte-americanos e russos pela supremacia espacial. Foi assim que o satélite Sputinik batizou um bloco que desfilou no carnaval cearense do final dos anos 1950 e a cadela Laika foi ao ar numa viagem sem volta. A disputa pela tecnologia era, na verdade, a luta ideológica transplantada para outro ´front´.



Versão no cordel

Depois de muita espionagem, contra-informação e factóides, o homem chegaria à Lua e o poeta de cordel estava atento ao acontecimento. Mais que uma forma de interferir no real, era uma possibilidade de vender mais folhetos e dar conta da expectativa do leitor em relação à versão legitimada de um líder da comunidade que dava seu aval à efeméride.

Havia dúvidas em relação à chegada do homem à lua, como deixou claro o baiano Rodolfo Coelho Cavalcante: ´Muita gente por aí / anda bancando o palhaço/ dizendo que os astronautas / não conquistaram o espaço´. Mesmo a presença da televisão, mostrando o ´pequeno passo´ de Armstrong (e o grande passo da Humanidade), não apaziguou a todos.

Eram tantas as possibilidades de simulações, que a descida do módulo na Lua, a escavação para trazer amostra de pedras, o ´enfincamento´ da bandeira norte-americana no solo e as pisadas desajeitadas que inspirariam, anos depois, o ´moonwalker´ (ou caminhada na Lua) do ´astronauta´ Michel Jackson (1958/2009), pareciam ficção.

A voz do poeta


O pesquisador Gilmar de Carvalho


A Terra parou para ver o homem pisar o solo da Lua. Os céticos e renitentes ainda desconfiavam do que estavam vendo. O poeta nem sempre reforçava esta desconfiança. Não era bom para as vendas. Melhor trabalhar com o ufanismo da conquista, com o tom de vitória e de superação da Humanidade que dava um salto para frente, pelo menos em termos de tecnologia.

A produção de folhetos foi importante como registro do fato. Muitos folhetos estão na Biblioteca Amadeu Amaral, do Museu do Folclore, no Rio, dirigida pela bibliotecária cearense Maria Rosário Pinto. Outros na Comissão Pernambucana de Folclore, presidida pelo professor Roberto Benjamim. Vale recorrer à Casa de Rui Barbosa e ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Nomes importantes da literatura de folhetos se envolveram na cobertura, como o ´poeta-repórter´ pernambucano José Soares, o baiano Rodolfo Coelho Cavalcante e João José dos Santos, o Azulão, paraibano radicado no Rio de Janeiro, dentre outros.

Prevalecia o tom oficial. Os poetas não se inibiam de dizer que tinham tido os jornais e a televisão como fontes. José Soares, por exemplo, escreveu que ´Num jornal de Pernambuco / eu li numa reportagem´ e logo depois retoma a necessidade da legitimação pela mídia ao fazer uma variação do verso, desta vez com uma ´folha´ (com o ´f´ minúsculo) de São Paulo. Rodolfo cantou: ´A sombra de Armstrong / via-se na televisão´. Azulão ia além na ´pegada´ ideológica, com entusiasmo e ufanismo: ´E todos lances ao vivo/ com a EMBRATEL mostrando´.

As capas trazem, em sua maioria, fotos da cobertura jornalística. A capa cega seria pouco atraente e a xilogravura precisava de uma referência para ser escavada na madeira.

O tom eloqüente não impedia o recurso ao humor. Outra vez o poeta-repórter do Recife aproveitava para aproximar a Lua de seu Pernambuco: ´Lá não se canta Rojão / xaxado, xote ou ciranda´. A crítica ia além ao comparar os buracos da Lua com os do Recife deste tempo. Depois de levar um coice do cavalo de São Jorge, Armstrong ainda é questionado pelo santo: ´A Lua falta uma banda / foi você quem carregou?´.

A cor local se evidencia quando o poeta introduz um grande líder religioso na narrativa: ´Eu mesmo estava lembrado / Que Padre Cícero dizia / A Ciência eleva o homem / Mas não dá autonomia / Se faz o que Deus consente / O resto é hipocrisia´.

Outra vez as ideologias vêm à tona quando Rodolfo fala mal da Rússia e toma partido ao declarar num verso: ´Ó grande América do Norte / aliada do Brasil´.

Assim, quarenta anos depois, por meio das páginas amarelecidas dos folhetos ou através da consulta ´on line´ dos acervos digitalizados, é possível evocar a euforia provocada pela conquista da Lua. O cordel testemunhou este momento. Não é difícil rememorar o range-range onomatopaico das velhas máquinas impressoras, o pregão das feiras e a magia do vendedor analfabeto que aprendia o folheto de cor.

O mundo mudou, o cordel mudou, talvez não tenha mudado a nossa necessidade da fabulação. E assim o homem se prepara para Marte. Quem sabe, um dia, a poesia se torne profecia de Azulão: ´Os sábios que descobriram / Satélite, estrela e luneta / Disseram que o homem ainda / Inventaria cometa / Onde se transportaria / da Terra a outro planeta´.

GILMAR DE CARVALHO
Especial para o Caderno 3

BIOGRAFIA

Por Marcelo Soares 
José Francisco Soares, ou como ele preferia ser chamado, Zé Soares, nasceu em Alagoa Grande, Paraíba, em 5 de janeiro de 1914, e faleceu em 9 de janeiro de 1981, em Timbaúba, Pernambuco.
Ainda menino, se encantara com os desafios entre violeiros-repentistas, emboladores de côco e com os folhetos de feira que os poetas declamavam. Em 1928, publicou seu primeiro folheto Descrição do Brasil por estados. Fez biscates como agricultor e almocreve e, em 1934, foi para o Rio de Janeiro trabalhar como pedreiro, sem jamais deixar de publicar suas obras.
Voltou ao Recife em 1940, quando montou uma banca de folhetos no oitão do Mercado de São José, onde vendia suas obras e as de outros poetas. Nas décadas de 1940 e 1950, publicou grande parte de seus folhetos na Gráfica Medeiros.
Nos anos 1960, tornou-se proprietário da Gráfica Tricolor. Ver texto completo: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/JoseSoares/joseSoares_biografia.html#


terça-feira, 16 de julho de 2019

NOVO CORDEL


O PRESENTE DE NATAL DE LAMPIÃO
Autor: Arievaldo Vianna | baseado num conto de Gustavo Barroso


(Trechos)

Das histórias do Cangaço
Esta é a mais singular
Na crônica dos cangaceiros
É bem difícil encontrar
Relato tão pitoresco
Não sendo um tema burlesco
Em versos quero narrar.

Quando Lampião reinava
No Cangaço, absoluto,
Percorreu vários estados
Sempre firme e resoluto
Mas, em meio à violência,
Também praticou clemência
Provando não ser tão bruto.

Aqui, acolá, escuto
E pra que ninguém desminta
Vou narrar esse episódio,
Deu-se na década de trinta;
No final da narração
Veremos que Lampião
Não é mau como se pinta.

Quem registrou esse fato
De modo criterioso
Foi o grande folclorista
Gustavo Dodt Barroso
A título de passatempo
No livro “Cinza do Tempo”
Relato maravilhoso.

Lampião, um certo dia,
Visitando um povoado,
Vinha com dor de cabeça
Doente e muito enfadado,
E procurava um lugar
Para poder descansar
Tranquilo e bem sossegado.

Era véspera de Natal
E ele desejava trégua
Esquadrinhou toda a vila
Sem usar compasso ou régua;
Falou, de cara fechada:
– Eu  não quero ouvir zoada
De nem um 'fie-duma-égua!”

A cidade estava cheia
Pois era dia de feira
E Lampião, carrancudo,
Ordenou à cabroeira:
– Quero essa feira acabada
Depois 'pastorem' a entrada
Não fiquem aqui de bobeira!


(...)

Este folheto será lançado na BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO CEARÁ, pela Editora CORDELARIA FLOR DA SERRA, do poeta Paiva Neves. AGUARDEM!

segunda-feira, 8 de julho de 2019

CORDEL NA FLIP


A CONVITE DO IPHAN, CORDELISTAS PARTICIPAM DA FEIRA DO LIVRO DE PARATY-RJ

Cordelistas de diversas partes do Brasil receberam convite do IPHAN, através de Maria Elisabeth de Andrade Costa, chefe da Divisão de Pesquisa do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, para participar da FLIP Paraty 2019, divulgando a nossa Literatura de Cordel, que foi reconhecida em 2018 como Patrimônio Imaterial do Povo Brasileiro.

Participam desse grupo os poetas Arievaldo Vianna (CE), Anilda Figueiredo (da Academia de Cordelistas do Crato-CE), Klévisson Viana (Tupynanquim Editora-CE), Bráulio Tavares (PB), Chico Feitosa (CE), Severino Honorato (PB) Paola Torres (CE), Moreira de Acopiara (CE), Varneci Nascimento (BA), Ana Ferraz (Editora Coqueiro - PE), Cacá Lopes (PE), Dalinha Catunda (CE) e muitos outros.

* * *


Professora Luitgarde Cavalcanti


PALESTRA SOBRE O MUNDO BEATO

O espaço do cordel contará também com a presença da professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, antropóloga, estudiosa da cultura nordestina, envolvendo aspectos do messianismo. Ela fará uma palestra sobre os BEATOS, com destaque para as figuras do Padre Ibiapina e Antônio Conselheiro, com apresentação de quase desconhecida, porém essencial bibliografia sobre a Guerra de Canudos. Luitgarde pretende relançar o seu livro "Pelos Sertões do Nordeste", uma coletânea de artigos sobre análises do Mundo Beato, Migrações, Cangaço, Planejamento Econômico e outras reflexões sobre o sertão, num total de  618 páginas.

ARIEVALDO VIANNA

segunda-feira, 1 de julho de 2019

SAIU NO CADERNO VERSO DO DN

Prosas, rimas, trocas: cearenses na Flip 2019 alargam olhares sobre a produção literária do Estado
Por Diego Barbosa

Com a proximidade da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 10 a 14 de julho, o Verso destaca a participação de cearenses neste que é um dos principais eventos no segmento do País


 Erivelto de Sousa, Arievaldo Viana, Jarid Arraes, Mailson Furtado e Klévisson Viana: amostra potente do Ceará em letras | Fotos: Fabiane de Paula/ Fernanda Siebra/ Dani de Costa Russo/ Helene Santos/ Erika Fonseca


Demarcar o lugar e relevância da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta altura do campeonato é exercício redundante. Cravada no calendário cultural do País desde 2003 como um dos mais importantes eventos no segmento, a iniciativa torna a charmosa e prestigiada cidade do litoral fluminense um inspirado polo de encontros, tendo como pilar a troca sempre urgente de debates e fazeres no campo das letras.

Nesta 17ª edição, as características que, pouco a pouco, fizeram-na ganhar as vistas do público não perdem o rumo. Pelo contrário: seguem rastro certo ao alargar as possibilidades de conexão, sobretudo com a região em que o Ceará está inserido.

O grande homenageado deste ano, Euclides da Cunha (1866-1909), é autor de uma das obras seminais da literatura nacional, "Os Sertões", cuja paisagem narrativa, para além de contar um relevante capítulo da história do Brasil, reverbera aspectos intrínsecos à regionalidade encontrada aqui e em todo o Nordeste.



Guia Flip: pontos que merecem destaque no principal evento literário do País

Pluralidade sentida também, de modo intenso, nos cearenses que ocuparão os espaços da festa. De malas prontas para vivenciar os dias de maratona literária, de 10 a 14 de julho, cada um e cada uma tratará de oportunizar novas perspectivas de apreciação e leitura das estéticas inseridas em contos, cordéis, poesias e ficções. Há muito para se discutir e comentar.

A começar por Jarid Arraes. Nascida no Cariri e radicada em São Paulo, foi confirmada como uma das atrações oficiais da Flip ainda em maio, munida de destaque: é a primeira mulher cordelista a integrar a seleta programação do evento.


Em entrevista recente concedida ao Verso, a escritora juazeirense explicou que a curadora da festa, Fernanda Diamant, queria uma "visão refrescante do sertão" pelos olhos de alguém como a autora, conhecida por promover interseções entre a literatura e temas como gênero e raça.

Exemplo presente em "As Lendas de Dandara", "Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis" e "Redemoinho em dia quente" - primeiro livro de contos dela, publicado pelo selo Alfaguara, destaque na mesa que participará ao lado de Carmen Maria Machado, no dia 13.

Independente

Estando pela primeira vez na festa no ano passado, como apreciador, o também cearense Mailson Furtado volta a transitar pelas ruas de Paraty, agora com a conceituada marca de ser o mais recente vencedor do Prêmio Jabuti. Desta vez, o retorno promete: a convite da Kindle Direct Publishing, plataforma da Amazon, o poeta estará na Casa Libre & Santa Rita de Cássia no dia 13 para conversar sobre autopublicação no Dia do autor independente.


Do município de Varjota, o ganhador do Prêmio Jabuti Mailson Furtado falará no evento sobre literatura independente | Foto: Helene Santos

"Além disso, terei outros momentos em alguns espaços para conversa sobre poesia e literatura independente", sublinha.

"Levarei na bagagem minha experiência enquanto autor sertanejo de uma cidade do interior e as possibilidades de se fazer e consumir arte por estas bandas; também os caminhos necessários da independência editorial e a importância da pulsação sertaneja".
Para o criador do premiado “à cidade”, fica a oportunidade para o público de acompanhar de perto os diferentes espaços de troca e afirmações sobre o fazer artístico no Brasil, embora pondere: “Infelizmente, por inúmeras questões (geográficas, econômicas) é um evento direcionado a quem pode ir, e não a quem deseja ir, coisas que refletem nosso país marcado por desigualdades”.

Tradição

Quem igualmente está se organizando para marcar presença na Flip são os irmãos Arievaldo e Klévisson Viana. O primeiro estreou na festa como convidado especial da Flipinha, em 2014. Neste ano, por meio do convite de Maria Elisabeth Costa - chefe da Divisão de Pesquisa do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - ocupará um espaço mantido pela instituição divulgando a literatura de cordel, reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro em setembro de 2018.


Arievaldo Viana estará junto a outros representantes do cordel no espaço mantido pelo Iphan, difundindo a tradição local | Foto: Fernanda Siebra

"Além de mim, o Iphan convidou os poetas Moreira de Acopiara, Klévisson Viana e outros autores ligados ao cordel e à xilogravura", enumera.

"Conosco, estará a escritora, antropóloga e professora aposentada da UFRJ, Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, uma autoridade sobre estudos do Messianismo no Nordeste. É claro que falaremos da importância do patrono da feira, mas também nos debruçaremos sobre outros autores que se ocuparam do tema Canudos", completa.
Arievaldo elucida ainda que, na ocasião, seu último livro, "Os milagres de Antônio Conselheiro", ganhará amplitude.

Klévisson Viana, por sua vez, estreando por lá, tratará de dedicar falas envolvendo o cordel deixando entrever um detalhe pertinente: "Creio que nossos autores terão muito a acrescentar à Flip. No meu entendimento, nossa presença nada mais é que o reconhecimento a essa grande contribuição que o Estado do Ceará tem dado para as artes e letras do País e universalmente".

Além disso, não dissocia a envergadura da festa com a necessidade de se pensar a literatura e a sociedade na contemporaneidade. "Nesse momento que o Brasil padece de tantos problemas sociais e políticos, é importante que façamos uma infusão na nossa história, refaçamos caminhos, recuperemos um pouco da trajetória do nosso povo e da nossa verdadeira identidade nacional", considera.


Ao estrear na Flip, Klévisson Viana, autor de quase duas centenas de folhetos de cordel, atualizará temáticas nossas | Foto: Erika Fonseca

Ainda na seara do cordel, duas artistas do Crato, Anilda Figueiredo e Dalinha Catunda, ligadas à Academia dos Cordelistas da cidade, lançarão um folheto de peleja entre as duas.

O escritor, jornalista, professor e cientista político Erivelto de Sousa também participará da festa. Filho de nosso chão, lançará o livro "O Fantasma do Padre", editado pela Autografia.

"A literatura e o livro precisam de sempre mais espaço, e terão. Ler é sempre importante, pois significa descobrir e revelar mundos, essência da vida", ressalta.

Com ênfase na ficção, Erivelto de Sousa lançará "O Fantasma do Padre", romance ambientado no interior do Ceará
Foto: Fabiane de Paula
Completando o time, o cearense radicado no Mato Grosso, Felipe Holloway, ganhador do Prêmio Sesc de Literatura neste ano na categoria Romance, estará no evento pelo estande do Sesc. No total, o espaço terá cerca de 100 atrações, entre intervenções artísticas, cafés literários, oficinas e exposições.

Fomento

Presidente da Associação Cearense de Escritores (ACE), Silas Falcão organizou um grupo de 20 pessoas para a Flip do ano passado. Neste ano, contudo, por conta da crise financeira de uma empresa aérea, não será possível repetir o feito.

Para ele, de modo a fomentar a presença na Flip, há possibilidades a serem buscadas.

"Seria muito aplaudida a colaboração das secretarias da cultura, do Estado e de Fortaleza, quanto à participação mais efetiva da literatura cearense no evento. Até lá, estamos analisando o aluguel de uma casa própria para esse segmento".
Que a vontade ressoe, e ainda mais forte, porque temos muito a oferecer.

Serviço
17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)
De 10 a 14 de julho em diferentes espaços da cidade de Paraty, Rio de Janeiro. Ingressos: R$ 55, cada mesa. Mais informações pelo site oficial do evento.


quinta-feira, 27 de junho de 2019

CORDEL EM PARATY-RJ


Feira do Livro de Paraty-RJ homenageia Euclides da Cunha e terá um espaço dedicado ao CORDEL





Em 2019, a Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá de 10 a 14 de julho,  irá celebrar o escritor Euclides da Cunha. Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, Euclides fez história ao escrever sobre a Guerra de Canudos no livro Os Sertões e apresentar aquela realidade para o Brasil e o mundo. Estaremos nesse período em Paraty, a convite do IPHAN, lançando o livro "Os milagres de Antônio Conselheiro", que escrevi em parceria com Bruno Paulino.

Estive pela primeira vez em Paraty como convidado oficial da FLIPINHA, ao lado do também cordelista Fábio Sombra. Fiz palestras, recitais e visitei escolas divulgando o projeto ‘Acorda Cordel na Sala de Aula’. Naquele ano, o patrono da Feira era Millôr Fernandes e participei da Mesa de Debates ao lado de outros autores. Para mim, que sou apaixonado por história, foi uma bela oportunidade conhecer uma das mais belas cidades históricas do Brasil.


Ano passado (2018) fiz parte de uma caravana da Associação Cearense de Escritores, capitaneada pelo escritor João Silas Falcão. Participamos de atividades paralelas e tivemos a oportunidade de expor o nosso material. O melhor de tudo foi o bate-papo que rolou entre a gente, o estreitamento de relações e o intercâmbio de autores cearenses, que geralmente só se encontram em lançamentos, sem tempo para um papo mais prolongado.

Este ano recebemos um convite do IPHAN, através de Maria Elisabeth de Andrade Costa, chefe da Divisão de Pesquisa do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, para ocupar um espaço destinado ao IPHAN, na FLIP Paraty, divulgando a nossa Literatura de Cordel, que foi reconhecida em 2018 como Patrimônio Imaterial do Povo Brasileiro.

Participam desse grupo os poetas Arievaldo Vianna, Anilda Figueiredo (da Academia de Cordelistas do Crato), Klévisson Viana (Tupynanquim Editora), Victor Lobisomem, Erivaldo Ferreira da Silva, Dalinha Catunda e muitos outros. Em breve voltaremos ao assunto.




PALESTRA DA PROFESSORA
LUITGARDE OLIVEIRA CAVALCANTI BARROS

O espaço do cordel contará também com a presença da professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, antropóloga, estudiosa da cultura nordestina, envolvendo aspectos do messianismo. Ela fará uma palestra sobre os BEATOS, com destaque para as figuras do Padre Ibiapina e Antônio Conselheiro, com apresentação de quase desconhecida, porém essencial bibliografia sobre a Guerra de Canudos. Luitgarde pretende relançar o seu livro "Pelos Sertões do Nordeste", uma coletânea de artigos sobre análises do Mundo Beato, Migrações, Cangaço, Planejamento Econômico e outras reflexões sobre o sertão, num total de  618 páginas.

ARIEVALDO VIANNA

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O Trovador João Melchíades


A SAGA AVENTUROSA 

DO CANTOR DA BORBOREMA

Arievaldo Viana*


Ilustração: Jô Oliveira

No dia 7 de setembro de 1869, nascia mais um patriota no município de Bananeiras-PB: o menino João Melchíades Ferreira da Silva, que se auto-intitularia, no futuro, O Cantor da Borborema. No folheto "Os homens da cordilheira" (há um exemplar catalogado nos Fundos Villa Lobos, organizado por Mário de Andrade), João Melchíades diz que seu avô materno, o beato Antônio Simão, construiu uma igreja na serra, a pedido do padre Ibiapina. Ele teria fundado também uma escola para educar crianças, onde o próprio Melchíades aprendeu as primeiras letras. No terrível triênio de seca que foi de 1877 a 1879, já órfão de pai e criado sob a tutela desse avô, o menino João Melchíades foi raptado por um grupo de ciganos. Dizem que ele teria se encantado pela música e resolveu acompanhá-los. Sua mãe só foi resgatá-lo de volta cerca de dois anos depois.

De espírito inquieto e aventureiro, sua sina era correr o mundo. Aos 18 anos sentou praça no Exército, ainda na Monarquia. Em 1897 João Melchíades, integrante do 27º Batalhão de Infantaria das Forças Armadas, foi convocado para combater na Guerra de Canudos, onde quase perdeu a vida. Após a guerra, foi promovido a Sargento-Mor. Lembranças familiares, recolhidas num velho manuscrito por sua neta Lela Melchíades, a partir dos relatos de sua avó Senhorinha, informam que ele voltou traumatizado da Guerra e não gostava de tocar no assunto. Ficou muito chocado ao ver os cadáveres de mães carbonizados e abraçadas aos filhinhos, naquilo que Euclides da Cunha batizou de "a nossa Vendeia" ou "Troia sertaneja". Ele participou ativamente da tomada das trincheiras às margens do rio Cocorobó, uma das refregas mais sangrentas daquela luta fratricida.

Informa a pesquisadora Ruth Brito Lêmos Terra que a atividade poética de Melchíades é anterior a 1898. Ela baseia-se no poema "Melchíades escreve a Cícero de Brito Galvão, no Rio de Janeiro, sobre a açudagem do Seridó", onde o poeta faz referência a um açude de propriedade do cangaceiro Silvino Ayres, mentor de Antônio Silvino. O ano de 1898 foi o mesmo em que Silvino Ayres foi preso e, por conta disso, sucedido por seu êmulo no comando do cangaço.

Em 1903, João Melchíades foi designado para combater na fronteira do Acre com a Bolívia, onde contraiu a febre béri-béri, que quase o vitimou. Nesse período, o poeta andava na companhia do cantador Joaquim Jaqueira e chegou a fazer apresentações em Manaus e em Belém do Pará, ao som da viola. No ano seguinte, segundo apurou o pesquisador baiano José Calasans, Melchíades resolveu publicar, em cordel, suas memórias sobre Canudos. É possível que tenha sido escrito ainda no século XIX, após o término da guerra. Sua visão é alinhada com a propaganda difamatória que se fazia contra o beato Antônio Conselheiro, por meio de libelos divulgados na imprensa, sob a orientação do Ministério da Guerra. Mas nem por isso ele deixa de reconhecer a bravura dos conselheiristas em estrofes antológicas como esta: 

"Escapa, escapa, soldado
Quem tiver perna que corra
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra
Há de nascer duas vezes
Quem sair desta gangorra".

Na opinião de Calasans, Melchíades era poeta de reconhecida capacidade, como podemos comprovar nesses versos que consignam um instante dramático da fuga dos soldados da terceira expedição. Na década de 1970, a pesquisadora Ruth Terra entrevistou uma filha do poeta, Santina, e teve acesso a uma carta de 1914, dirigida à sua esposa, Senhorinha (mãe de seus quatro filhos), falando sobre o folheto do Matador de Onças ("História do Capitão Cazuza Sátyro"). Nessa correspondência, o poeta fala também de outras obras e de seus filhos. O pesquisador Mário de Andrade considerou esse poema excelente ("Cazuza Sátyro, o Matador de Onças") e anotou isso, de próprio punho, num exemplar que se encontra na coleção dos Fundos Villa-Lobos. Diz Mário de Andrade: "Estupendo! Não porque esteja feito com espírito, mas pelo interesse extraordinário de quanto conta pelo realismo, às vezes duma firmeza homérica, com que conta. É admirável e vale mais que qualquer espírito". 

Outro folheto muito elogiado, que tornou-se um dos maiores clássicos da chamada Literatura de Cordel é a "História do Valente Sertanejo Zé Garcia", assim avaliado por mestre Câmara Cascudo, em seu "Vaqueiros e Cantadores": "Retrata deliciosamente o sertão de outrora, com as pegas de barbatão, escolhas de cavalos para montar, rapto de moças, assaltos de cangaceiros, chefes onipotentes e vaqueiros afoitos, cantadores famosos e passagens românticas. Pertence bem ao ciclo social que terminou no século XX e que durara até o século XIX".

O PAVÃO MISTERIOSO

Entre 1925 e 1929, circula a primeira edição impressa do folheto "O Pavão Misterioso", assinada por João Melchíades Ferreira da Silva. Alguns pesquisadores asseguram que já havia uma versão do poema, escrita anteriormente pelo paraibano José Camelo de Melo Rezende (1885 - 1964) mas que ainda não fora publicada, mas cantada ao vivo. José Camelo era um autor imaginoso e brilhante, de grandes recursos poéticos. Ao que parece, a polêmica em torno da autoria só ganhou repercussão após a morte de Melchíades, em 1933. Depois que o folheto se consolidou como um estrondoso sucesso, tornou-se objeto de cobiça de vários editores, que incitavam a polêmica para facilitar a sua publicação sem pagar direitos autorais a nenhum dos dois poetas.

Segundo Átila de Almeida e José Alves Sobrinho, autores do Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, nesse período, José Camelo vinha sofrendo perseguições e havia se afastado da Paraíba e se refugiado no Rio Grande do Norte. Essa situação nunca foi devidamente esclarecida. Aroldo Camelo de Melo, sobrinho do poeta, assegura que ele estava preso, em João Pessoa, por causa de dinheiro falso que recebera de um editor no Recife (PE). O pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira-PB, encontrou cópia de um folheto escrito e publicado por José Camelo narrando esse episódio do dinheiro falso, dos seus percalços perante à Justiça e de como conseguiu se livrar da acusação. Vale ressaltar que o mais importante editor de cordel da época, atuando no Recife-PE, era ninguém menos que João Martins de Athayde, com quem José Camelo mantinha negócios. Entretanto, no folheto intitulado "A prisão e soltura de José Camelo" o poeta afirma que recebeu as cédulas falsas de um rapaz que lhe comprou quatrocentos folhetos para revenda. O mesmo rapaz apareceu à noite na cantoria que realizava em companhia de um colega. Parecendo cortês e generoso, colocou uma cédula graúda na bandeja e pegou outras menores, verdadeiras, como troco. O caso do dinheiro falso veio a ser descoberto por um policial, a quem um amigo do poeta comprara um carneiro gordo com uma das cédulas recebidas na dita cantoria. Daí em diante começa o seu calvário, a fim de provar a sua inocência. É um caso que precisa ser melhor apurado, já que chegou aos tribunais da Justiça paraibana.

Em seus livros, a pesquisadora Ruth Terra apresenta uma lista completa (ou quase) de todos os poetas populares que haviam publicado folhetos entre 1898 e 1930. Na Casa de Rui Barbosa e outras coleções pesquisadas pela autora, aparecem diversos folhetos de João Melchíades, mas nenhum de José Camelo, até o ano de 1930. 

Segundo o testemunho do poeta Antônio Ferreira da Cruz, que escreveu um folheto intitulado "A morte de João Melchíades - O Cantor da Borborema", publicado pela tipografia da Popular Editora, de João Pessoa, Melchíades era uma espécie de "professor de cantoria" e tinha muitos discípulos. Um de seus parceiros era justamente o cantador José Camelo de Melo, com quem viajava fazendo apresentações. Aroldo Camelo informa que, durante uma dessas apresentações, a questão da autoria do "Pavão Misterioso" veio à baila, mas em clima amistoso. Camelo terminou uma estrofe dizendo: "O pavão tem duas asas / pode voar com nós dois". Melchíades respondeu com outra estrofe, no mesmo tom. Eis o que diz Antônio Ferreira da Cruz, na página 4 do folheto já mencionado, falando inicialmente de uma polêmica (poética) que Melchíades (católico fervoroso) mantinha com os evangélicos: "Era um cantor educado/ Na regra de divertir/ Não bebia, não jogava,/ Nem gostava de mentir;/ Com qualquer pastor da crença/ Gostava de discutir./ Em toda zona brejeira/ Mostrava bem seu emblema/ Era muito conhecido/ Por Cantor da Borborema/ Desde o Pico do Jabre/ Ao Boqueirão da Jurema./ Ensinou muitos cantores,/ Era um escritor de fé/ Andou com José Camelo/ Ensinou Antônio Thomé/ Ensinou José Thomás/ Lecionou Josué./ Em toda escala de versos/ Ele sabia cantar/ Ensinou a cantador/ Que não sabia falar/ Ainda que alguém lhe desse/ A paga de o difamar".

No romance "A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta", de Ariano Suassuna, João Melchíades Ferreira aparece como padrinho de crisma e mestre de cantoria de Quaderna e de seu parceiro Lino Pedra Verde. Pelo visto, mestre Ariano tinha ciência dessa atividade de Melchíades. A saga do Cantor da Borborema deverá virar livro. Para isso estamos iniciando uma cuidadosa pesquisa a fim de contar a sua história sem acirrar, ainda mais, essa polêmica infrutífera que ainda hoje norteia os voos do Pavão Misterioso.

* Arievaldo Viana  nasceu nos Sertões de Quixeramobim (Ceará), em 1967. É poeta, cordelista, escritor e ilustrador. Seu livro mais recente é a biografia "Leandro Gomes de Barros - Vida e Obra" (2014)