quinta-feira, 11 de abril de 2019

“ - PRETO NÃO ENTRA!”



PERCALÇOS E PRECONCEITOS ENFRENTADOS POR LUIZ GONZAGA NA SUA ESCALADA PARA A FAMA

Por: Arievaldo Vianna*

Negro, pobre, Nordestino (ou nortista, como se dizia na época) e semianalfabeto. Era esse o perfil de Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), que viria a ser aclamado Rei do Baião, depois de enfrentar toda sorte de afrontas e preconceitos. Forte, determinado, inteligente e obstinado, ele foi vencendo todas as barreiras que impediam a sua trajetória, se afirmando como gênio da música brasileira. Foi uma carreira cheia de percalços, de proibições, de afrontas que fariam com que muitos na sua condição desanimassem na metade do caminho. Mas o ‘Lua’ superou tudo isso com seu talento e também com a sua teimosia.
Fugido de casa em 1930, com 18 anos incompletos, devido o preconceito do pai de sua namorada, que não queria a filha branca namorando com um negro, Luiz Gonzaga sentou praça no 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza. Para tanto, teve que aumentar a idade a fim de ser aceito como recruta, sem a devida autorização de seus pais. No Exército ele percorreu vários Estados do Brasil. Depois de servir as Forças Armadas por uma década, deu baixa em 1940 e resolveu se apresentar no Mangue, zona boêmia do Rio de Janeiro, então Capital da República, passando um pires depois das apresentações para recolher donativos, com os quais tentava sobreviver modestamente. Morava na casa de outro músico, Xavier Pinheiro, que juntamente com Dina, sua esposa, se tornaria responsável pela criação do filho Gonzaguinha.
Luiz Gonzaga era um danado. Nunca foi acomodado. Tentou a sorte em vários programas de calouros, sendo “gongado” em alguns ou tirando notas medíocres noutros, sem jamais desistir de seu intento. Um grupo de estudantes cearenses pediu-lhe que deixasse de tocar valsas, polcas e tangos que costumava apresentar nas boates, para tocar a música regional do Nordeste, aquela melodia dos sambas de latada, dos pés-de-serra do sertão. A dica foi preciosa. Com “Vira e Mexe”, “Xamego” e “Pé-de-Serra”, três solos genuinamente sertanejos, conseguiu se projetar e acabou tirando nota máxima no programa de auditório do exigente Ary Barroso. Daí por diante o sucesso começou a lhe sorrir e o sanfoneiro do Araripe foi contratado pela RCA Victor, uma gravadora multinacional responsável pelo lançamento de grandes nomes como Orlando Silva e Nélson Gonçalves.
Mas logo veio o diabo do preconceito. Os diretores da gravadora diziam que ele tinha “voz de taboca rachada” e o proibiam de cantar. Também foi proibido de cantar no rádio, a grande vitrine da época,  o que o levou a entregar suas composições a outros intérpretes, como Manezinho Araújo, o Rei da Embolada, e o conjunto Quatro Ases e Um Coringa, formado por jovens músicos do Ceará.  Foram eles os responsáveis pela primeira gravação de Baião, que teve um sucesso estrondoso. Na opinião dos entendidos, a voz de Luiz Gonzaga estava longe de corresponder aos padrões estéticos da época, em que predominavam os vozeirões de Vicente Celestino, Francisco Alves e Orlando Silva. Usando da sua astúcia habitual, Gonzaga blefou, dizendo que iria gravar na concorrente Odeon, usando o pseudônimo de Januário, nome de seu pai. Victório Lattari, diretor da RCA, acabou consentindo. Nessa época os discos 78 rpm traziam apenas duas gravações, uma em cada face. A condição era continuar gravando um ‘solo’ no lado A e uma composição cantada no lado B. Aos poucos Luiz Gonzaga foi agradando e conquistando uma legião de admiradores. O sucesso foi tão grande, que a sua cota de direitos autorais praticamente dobrou. O diretor balançava a cabeça e dizia:

“— Há gosto para tudo nesse mundo!”
Mas preconceito pior ainda estava por vir...  Foi um verdadeiro pandemônio quando ele tentou se apresentar no auditório da Rádio Nacional usando um chapéu e assessórios de couro na sua vestimenta, lembrando dois tipos característicos do Nordeste: o vaqueiro e o cangaceiro. Sua intenção era explicitar a sua condição de Nordestino, a exemplo do que fazia outro sanfoneiro, o gaúcho Pedro Raymundo, que entrava no palco trajando o chapelão, as bombachas e a cuia de chimarrão, traje típico do Sul do País. Floriano Faissal, diretor artístico da Rádio Nacional, ficou possesso quando o viu caracterizado daquela maneira e decretou:
“— Enquanto eu mandar nesta rádio, não permitirei que você apareça diante de nosso público vestido de bandido de Lampião”.
Em 1951, após dez anos de uma carreira sempre ascendente, apesar do sucesso e da fama que experimentava em todo o País, ainda teria de enfrentar outras agruras e humilhações ao longo de sua carreira. A pior delas aconteceu em São Paulo,  quando foi barrado na portaria da Rádio Gazeta, então conhecida como “a emissora da elite”, que não permitia a entrada de pretos em seu auditório.


Luiz Gonzaga, Marinês e Pedro Sertanejo, num forró em São Paulo.

Revista do Rádio, número 81 - março de 1951

(Acervo da Biblioteca Nacional)

Numa matéria intitulada “PRETO NÃO ENTRA – LUIZ GONZAGA TEVE SUA ENTRADA BARRADA NA PORTA DA RÁDIO GAZETA, DE SÃO PAULO”, a Revista do Rádio, edição de número 81, de 27 de março de 1951, lemos o seguinte:

“O assunto já havia sido tratado, e bem tratado, pelos nossos colegas paulistas de “Radar”: Luiz Gonzaga tivera sua entrada impedida nas dependências da Rádio Gazeta, capital bandeirante, semanas atrás, apenas porque era preto. Incrível que pareça, isso acontece em pleno Brasil, em plena capital de um dos nossos maiores Estados! E eis agora, dias passados, o acaso nos põe diante de Luiz Gonzaga, lá mesmo em São Paulo, no aeroporto. E ainda o acaso nos traz o assunto à baila.
— É isso mesmo, Luiz, que a Gazeta proibiu sua entrada no estúdio por ser você de cor?
E, atendendo o nosso pedido, para que nos detalhe o caso tal qual se passou, Luiz Gonzaga começou:
— Uma artista da Rádio Gazeta, aliás senhora de um amigo meu, convidou-me para assistir ao seu programa. Trata-se aliás de uma grande acordeonista e eu, por laços de amizade com o casal e também por apreciar imenso o acordeón, acedi ao convite. À hora marcada cheguei à porta de entrada da Rádio Gazeta. Veio o porteiro ao meu encontro e disse:
— O senhor não pode entrar.
— Mas... eu sou artista. Sou Luiz Gonzaga.
— Sem convite não entra!
— Mas onde apanhar um convite? Ou mesmo comprar?
— Com ninguém. Não tem mais.
— Percebi então, pois não sou tolo, (Luiz Gonzaga recomeça a palestra conosco) que não se tratava de convite, mas sim de preconceito de cor. Pedi ao porteiro que me deixasse entrar para falar com um diretor da rádio. Nada. Insisti. Nada ainda. Resolvi então entrar por minha conta e peguei o elevador. No primeiro andar, porém, ele e outros já me esperavam. E diante da minha insistência foram então sinceros e explicaram a razão pela qual eu não podia entrar. Questão de cor. Em outras palavras eles queriam dizer: PRETO NÃO ENTRA.
— E que fez você, Luiz Gonzaga?
— Mandei chamar o meu amigo, o esposo da artista que aliás já tinha até iniciado o programa.
— E tudo se resolveu?
— Ele foi ao diretor da Rádio Gazeta. Explicou quem eu era, um artista brasileiro, um intérprete da música nacional, um cantor, um compositor, um homem do Brasil, enfim! Pouco depois o caso estava resolvido. Consegui entrar, mas que luta!
— E o que você diz a isso, Luiz? Que acha você dessa atitude da Gazeta, tentando implantar o preconceito de cor em seus domínios.
— Prefiro não dizer nada. O que narrei foi o que se passou realmente. O público agora que tire as suas conclusões e que julgue como melhor entender.
E aí terminou a palestra sobre o assunto.”

Fiz questão de colocar em negrito essa última frase de Luiz Gonzaga para mostrar o quanto ele era sensato em relação a casos dessa natureza. Em vez de abrir as baterias contra a Rádio Gazeta ou mesmo xingar o porteiro que impediu, obstinadamente, o seu ingresso na emissora paulista, ele limitou-se a dizer que narrara apenas o fato do modo que acontecera e que o julgamento caberia ao público. Ora, a essa altura Luiz Gonzaga já era uma grande atração em São Paulo, para onde viajava toda semana, cantando às vezes na marquise da rádio, já que não havia espaço para a multidão que se comprimia nas ruas dentro do auditório da emissora. Curiosamente, foi nesse mesmo ano, 1951, que aconteceu o terrível acidente automobilístico, no qual o Rei do Baião e seus músicos Zequinha e Catamilho quase perderam a vida. Eles viajavam para São Paulo... Quanto ao preconceito contra preto e Nordestino, fica a pergunta: — Será que mudou alguma coisa de 1951 para cá???

* Autor dos livros “O Rei do Baião – do Nordeste para o mundo” (Editora Planeta, 2012) e “O be-a-bá do Sertão na voz de Gonzagão”, parceria com Arlene Holanda (Armazém da Cultura).

quarta-feira, 3 de abril de 2019

VACINA CONTRA A BESTEIRA

O VELHO FEBÊAPÁ



O amigo José Augusto Moita comentava hoje de manhã, nas redes sociais, que até para ser BESTA é preciso ter talento e preparo. Por mais besta que o cara seja, não é todo dia que está disposto a dizer sandices por aí. Conversei sobre o assunto com minha "CONGE" e ela me aconselhou a consultar a comadre LUZIA, esposa do CAMONGE.

Praticar a besteira dia após dia é uma arte... Somente o PALERMA, o PAPANGU, o PACÓVIO e o PASCÁCIO de berço é que podem exercitar essa curiosa arte de forma espontânea, natural e convincente. 

O mercado da BESTEIRA está alta, e disso não podemos nos queixar. Ultimamente, a besteira anda tão em moda que o saudoso Sérgio Porto, melhor dizendo, Stanislaw Ponte Preta, autor do FEBÊAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) teria um excesso de material tão grande que, certamente, teria uma estafa se tentasse compilar em livros tudo que se produz em matéria de ASNEIRA atualmente.



Há cerca de 15 anos, escrevi e publiquei um folheto chamado VACINA CONTRA A BESTEIRA, que, no meu entender, continua atualíssimo. Vejamos as estrofes a seguir. O texto integral será republicado brevemente pela RINARÉ EDITORA.

Arievaldo Vianna, caricatura de Válber

“VACINA CONTRA A BESTEIRA”

Stanislaw Ponte Preta,
Grande cronista, nos diz:
O que atrasa o Brasil
Tornando o povo infeliz
É o Festival de Besteira
Que assola o nosso país.


Formiga acaba uma roça
Neblina acaba uma feira
A bomba atômica arrasou
Uma metrópole inteira
No Brasil não há quem possa
Dar vencimento à besteira...

A besteira tem crescido
Numa escala de milhão
Do Oiapoque ao Chauí
A besteira é o refrão
Tomou conta de jornal
De rádio e televisão.


A besteira é um veneno
Pior que a estriquinina
Curar doença tão grave
Desafia a medicina
Na cultura popular
Talvez se ache a vacina.

A defesa da cultura
É uma necessidade
Para que o nosso povo
Não perca a identidade
Se afirme como nação
A atinja a prosperidade.

Somente valorizando
A popular tradição
O reisado, a cantoria.
Xote, xaxado e baião.
Pode-se achar um caminho
No rumo da salvação.

O folheto de cordel
O coco de embolada
A nossa xilogravura
Que na madeira é talhada
Também são ingredientes
Dessa vacina sagrada.

O teatro de Ariano
A música de Gonzagão
Xaxado e outras cantigas
Dos cabras de Lampião
Podem curar a besteira
Que assola nossa nação.

O trovador do Rio Grande
Com sua gaita fagueira
Cavalhadas de Goiás
E uma ciranda praieira
São remédios eficazes
Para se curar a besteira.

O frevo, o maracatu.
E o samba de raiz
São reflexos da cultura
De um povo bom e feliz
Basta beber dessa fonte
E zelar essa matriz.

O calango, o tatu-bola.
E a embolada mineira
As estórias encantadas
Dos folhetinhos de feira
São excelentes vacinas
Pra se curar a besteira.

A cultura popular
Não tem contra-indicação
Contém nacionalismo
E doses de tradição
Tem vários ingredientes
Que vitalizam a nação.

Pois esse lixo enlatado
Da cultura ocidental
Que nós somos obrigados
Consumir, por bem ou mal.
Só pode ser combatido
Se usarmos nosso arsenal.

Uma bomba de forró
Do legítimo “pé-de-serra”
Um torpedo de repente
Faz estremecer a terra
Vamos usar a cultura
Para vencer essa guerra.

Dominar, esse é o lema.
Dos povos conquistadores
Escravizar os mais fracos
Subtrair seus valores...
Negar a nossa cultura
É a marca dos opressores.

Neste século vinte e um
A besteira anda a mil
E reina de ponta a ponta
Sob um céu azul anil;
Educação e cultura
Podem salvar o Brasil...

(...)



quarta-feira, 27 de março de 2019

UM CABRA DE LAMPIÃO



O irreverente ZUCA IDELFONSO, personagem do livro O BAÚ DA GAIATICE

A HERANÇA DO PARAÍBA
(É feio, mas é bom...)


Há cerca de 15 anos eu realizava uma pesquisa sobre o anedotário dos sertões de Canindé e Quixeramobim, em especial da nossa família, para dar sequência ao trabalho iniciado no livro O Baú da Gaiatice, que tivera ótima aceitação junto ao público.
Foi aí que o tio José Bruno Vianna me contou a curiosa história do caboclo Chico Paraíba e de umas glosas feitas pelo Zuca Idelfonso, após a morte do sujeito, tratando de suposta herança deixada por ele. Chico Paraíba foi um andarilho, um camarada do oco do mundo que apareceu em meados da década de 1920 na Fazenda Cacimbinha puxando apenas uma corda... a cachorra havia morrido de fome no caminho. Como se não bastasse, vinha doente de sezão, impossibilitado de trabalhar, porém conseguiu pousada na casa de meu bisavô Olympio Vianna, onde se restabeleceu e mostrou ser homem disposto e trabalhador. Ontem, dia 25 de março de 2019, fui novamente à terra de meus antepassados com o objetivo de entrevistar meu tio Luiz Gonzaga Vianna (Tio Liu) já nonagenário, porém com a memória em perfeito estado e a dicção impecável. Ele é um verdadeiro guardião da história de nossa família e dentre os assuntos abordados na entrevista, veio à baila o curioso episódio do Chico Paraíba.
Aliás, não foi bem uma entrevista, mas uma conversa descontraída entre parentes, onde puxei pela memória do meu interlocutor, relembrando assuntos dos quais ele foi testemunha ou soube através de informações colhidas junto aos antigos.


Casa da Cacimbinha, construída por meu bisavô Olympio Vianna


Várzea do Riacho Cacimbinhas


Com minha mãe Hathane e meu tio-avô Luiz Gonzaga Vianna

Parte desse relato encontra-se no livro Mala da Cobra – Almanaque Popular, obra que ainda permanece inédita, apesar de ter sido escrita em 2003. Na época eu escrevi esse texto intitulado A herança do Paraíba (É feio, mas é bom), do qual apresento alguns trechos:

Segundo o relato do tio José Bruno, Chico Paraíba era trabalhador e extremamente usurário, um pirangueiro de peso e medida, portanto não lhe foi difícil amealhar alguns cobres depois de alguns meses de extenuante trabalho. O caboclo aplicava suas economias comprando cabeças de gado e jumentos que criava nas capoeiras do Pai Vianna, seu protetor. Trabalhou noutras fazendas da região, tangeu comboios no rumo da serra do Baturité e, ao cabo de alguns anos, já era possuidor de 14 cabeças de gado, um lote de jumentos e um capital avaliado em mais de três contos de réis.
Mas não há bem que sempre dure... Mal alimentado, já que não usufruía de seus haveres da maneira devida, constantemente exposto ao sol e à chuva, acabou contraindo uma infecção intestinal, uma fraqueza crônica ou outra moléstia mais grave que lhe desfigurou o corpo e consumiu-lhe as forças. Tocado pela mão negra do destino, resolveu procurar abrigo na casa de seu antigo patrão, o velho Olímpio Viana, proprietário da Fazenda Cacimbinha. Segundo o Tio Liu, as mazelas do Paraíba podem ter se agravado pelo fato dele não gostar de tomar banho. Ele exalava forte mau-cheiro e o suor não saía direito porque os poros estavam tapados pela sujeira.
 “Pai” Viana o tratou com benevolência e a caridade digna de um verdadeiro cristão, fornecendo-lhe um quartinho isolado na casa velha para abrigar-se e uma pessoa para tratar de sua doença, que todos julgavam ser contagiosa. Quem cuidava do enfermo era o Antônio Bento, evitando que morresse à míngua, sem alguém que pelo menos lhe fizesse um chá ou lhe pusesse uma vela acesa nas mãos.
O Paraíba possuía um verdadeiro “putufu” de dinheiro nos dois bolsos da calça, pois havia passado o seu rebanho bovino nos cobres, ficando apenas com alguns jumentos. Não se apartava de suas economias por nada. Dormia agarrado com os bolsos. Um dia, sentindo que ia morrer, chamou ‘seu’ Vianna e pediu-lhe que liquidasse algumas contas pendentes, mandasse celebrar algumas missas em intenção de sua alma e fizesse bom proveito do dinheiro que sobrasse. O Paraíba morreu, as missas foram celebradas, as dívidas foram pagas e uma parte do dinheiro foi convertida em esmolas.  Viana não queria ficar com aquele dinheiro impregnado do suor do moribundo e ganho a duras penas. Resolveu levar o restante para o Dr. Josias, Juiz de Quixeramobim, para dar o destino que melhor aprouvesse à Justiça. Nesta dita viagem, levou o seu genro Caboclo Vianna, para casar no civil com a minha avó Aurinha, e trouxe umas sacas de cal para caiar o oitão da casa.

Foi o bastante para o maledicente Zuca Idelfonso, falador por natureza, poeta ocasional, aproveitar o ensejo para fazer o “testamento” do falecido Chico Paraíba, dizendo quem havia lucrado com os bens por ele deixados. Quem já leu O Baú da Gaiatice sabe que o personagem em questão tinha um modo peculiar de falar, trocando algumas letras. Eis alguns trechos do irreverente poema:

REFRÃO:
É xeio, mas é bom
Deixe quem quigé falar...

— A herança do Paraíba
Causou grande rejultado
“Giana” pintou a casa
Caboclo xaiu cajado,
E até o Chico Lobo
Que era xeu axilhado (afilhado)
Entrou no xeu testamento
Ganhou um par de calxado:
Uma chinela de pneu
Com o calcanhar furado...
É xeio, mas é bom,
Deixe quem quigé falá!

Os chinelos deixados pelo finado Paraíba eram de pneu, com buracos em forma de meia lua no calcanhar e outros profundos sulcos no local dos dedos. Zé Viana assegurava que na marca do dedão cabia um ovo de capota.



Lampião - desenho de Arievaldo (Direitos Reservados)


A CONFISSÃO DO PARAÍBA
(EX-CABRA DE LAMPIÃO)


Agora vamos à parte mais interessante da história, que foi confirmada por tio Luiz Gonzaga na entrevista gravada na manhã de ontem (25/03). Apesar de ter vivido nos sertões cearenses por mais de dez anos, pouco se sabia sobre a origem do caboclo, que não gostava de falar do seu passado. Também nunca apareceu parente nem aderente do mesmo. Quando estava às portas da morte, meu bisavô Olympio, que era muito religioso, mandou um portador a cavalo no Quixeramobim buscar o padre Jaime Felício, vigário da paróquia, para confessar o moribundo.
Chico Paraíba nunca havia se confessado, em toda a sua existência, mas sentindo a aproximação da morte consentiu em ser ouvido em confissão pelo dito sacerdote. Apontando o local onde o padre se sentara, após a confissão, tio Liu me repetiu o que já fora dito anteriormente pelo Zé Vianna:
“— O padre Jaime disse ao papai que o Paraíba teria um fim de vida bem-aventurado, porque fora ouvido em confissão e se arrependera de seus pecados. E disse que o havia instruído para pedir bênçãos para todos da casa, quando chegasse no outro mundo. Foi então que o padre Jaime fez a grande revelação. Chico Paraíba confirmou, durante a confissão, o que já dissera a amigos mais chegados: havia pertencido ao bando de Lampião em determinado período da sua vida, e que resolvera viver incógnito nos sertões do Ceará, onde não seria perseguido por seus inimigos dos tempos do cangaço.”
Eu dou total credibilidade a essa história por dois fatores importantíssimos: primeiro, o relato do Tio Luiz Vianna não destoa em nada do que me foi dito quinze anos antes por José Vianna, já falecido. Ambas as versões são de uma linearidade impressionante, nos menores detalhes. Em segundo lugar, devemos levar em consideração que o caboclo só fez essa revelação já às portas da morte, no momento de sua confissão. Foi um segredo confiado a um sacerdote. Certamente que o Padre Jaime não revelou outros detalhes da confissão, que deviam ser mantidos em segredo, segundo manda a Igreja, porém não viu mal nenhum em revelar ao protetor de Chico Paraíba a sua verdadeira origem. Cangaceiro, ex-cabra de Lampião, falecido em 1940 na fazenda Cacimbinha, o cabra do ôco do mundo só não levou este segredo para o túmulo devido a confissão que fez antes de receber a extrema unção.
Ao longo de sua atividade como chefe supremo do cangaço, Lampião recrutou centenas, talvez mais de um milheiro de cabras. Muitos morreram em combate, outros foram capturados pelas volantes. E, como em toda atividade guerreira, certamente também existiram os desertores. Cabras que fugiram durante uma refrega com os macacos e resolveram dar novo rumo às suas vidas, bem distantes do teatro da luta, onde ninguém soubesse de suas origens. Seria esse o caso do paraibano que morreu na Cacimbinha? Qual seria o seu codinome durante o período em que pertenceu ao bando do famoso Virgulino Ferreira da Silva?







sábado, 23 de março de 2019

UMA DATA MEMORÁVEL





Meus pais, Evaldo Lima e Hathane Vianna


OS 70 ANOS DE MAMÃE

Não gostaria de começar esse texto com uma frase óbvia, dizendo que a data de hoje – 23 de março de 2019 —, é um dia muito especial, mas não há outra maneira. Há 70 anos nascia Hathane Maria Vianna, na fazenda  Cacimbinha, propriedade de seu avô materno Olympio Vianna, que todos da família chamavam ‘Pai Vianna’, velho austero, inteligente, verdadeiro exemplo dos sertanejos de fibra que o Nordeste de hoje já não produz. Filha de Miguel de Assis Vianna (Caboclo Vianna) e Áurea de Sousa Vianna, ele nascido a 13 de dezembro de 1913, ela a 14 de julho de 1912.


Áurea e Caboclo Vianna, pais de Hathane


Mamãe tem um nome bastante raro no Brasil — HATHANE. Nome escolhido por seu avô, Olympio Vianna, que era muito dado a leituras. Ficou órfã de mãe aos 9 anos de idade e passou a viver na casa de parentes, em Maracanaú, onde permaneceu até os 15 anos. Aos 16 conheceu meu pai e depois de um rápido namoro, casaram-se no dia 8 de dezembro de 1966, dia em que se celebravam os 30 anos de casamento dos meus avós paternos Manoel Barbosa Lima e Alzira Vianna de Sousa Lima.

Os filhos foram nascendo logo em seguida, todos homens, e ela, muito jovem, participava das nossas brincadeiras como se fosse uma criança. A sua única filha é temporã... a Vandinha nasceu em 1985, quase vinte anos depois do seu casamento. Ela banhava todos nós de uma vez, em cima de uma grande pedra que havia no terreiro de casa. Despejava cuias d'água na cabeça de cada um e depois mandava a gente se escorrer. Que eu me lembre, não havia toalha. A gente tinha que se secar ao sabor do sol e do vento.

Muito habilidosa, mamãe é também muito inventiva. Em matéria de costura é mestra no ofício e na cozinha também cria suas próprias receitas, sempre variadas e apetitosas. Acredito que o dom da poesia, que floresceu em mim e no mano Klévisson Vianna é herança do lado paterno, desde o bisavô Fitico, passando por minha avó Alzira e meu pai, Francisco Evaldo de Sousa Lima. Já os pendores para o desenho e outras artes visuais seguramente herdamos de nossa mãe. Mamãe foi sempre muito carinhosa comigo e incentivava minhas incursões pelo desenho e outras artes. Era muito habilidosa como costureira e aproveitava retalhos de suas costuras para fazer colchas, tapetes e até lençóis. Eu gostava de brincar ao pé de sua máquina de costura, ouvindo o rádio Semp, que era nossa principal fonte de lazer e informação. Na sala havia também uma escrivaninha de meu pai, com uma gaveta repleta de livros e folhetos. Ali eu me sentava sempre para ler ou desenhar, sendo imitado posteriormente por meu irmão caçula, Klévisson Viana.

Uma das recordações mais marcantes que tenho dos nossos primeiros dias em Canindé era o cuidado extremado de minha mãe para que não atravessássemos a pista, como medo que fossemos atropelados. Escrevi, com tinta guache, numa das paredes: 5º  Distrito Policial... Realmente era uma prisão, sobretudo para mim, que passara o ano anterior solto na buraqueira, lá no Maracanaú. Vivíamos então enclausurados e quando a porta estava aberta saíamos correndo sem olhar para nada, ouvindo muitas vezes a freada brusca dos veículos bem nos pés da gente. Escapamos todos pela graça e a infinita misericórdia de Deus, só pode. A vizinhança se comprazia em trazer as más notícias. Dona Betiza, uma velha gorda e muito vermelha, chegava soprando e dizendo aos gritos:

— Chega, Tiana! Acode aqui, teu menino quase foi atropelado! Escapou fedendo!

Além da queda, o coice. Não bastasse o susto do quase atropelamento ainda levávamos boas chineladas e carões quilométricos de mamãe.

Aos domingos ela arrumava todos, e íamos para a missa na Basílica. Não era bem pela devoção e sim pela vontade de sair que fazíamos aquele passeio com grande alegria. Na volta assistíamos ao programa televisivo dos “Trapalhões” na casa do meu tio José Oswaldo. Naquele tempo não tínhamos aparelho de TV. Durante a semana éramos “televizinhos” na janela da casa do José Elias, pai do atual prefeito de Canindé, Celso Crisóstomo, nosso parente pelo ramo Sousa-Paulino (da Vila Campos). Na missa, mamãe ficava disputando os primeiros bancos da igreja com  umas velhotas beatas e de vez em quando nos cutucava para mangar de alguém. Sempre teve um senso de humor muito apurado.


Mamãe e seu padrinho tio Luiz Vianna


Depois de alguns meses nesse regime de reclusão, nosso alvará de soltura veio no período do verão de 1980, com a aproximação dos festejos de São Francisco. Todos nós tínhamos aptidão para o comércio e fomos trabalhar como camelôs, uns vendendo balas e doces, outros com bijuterias e artigos religiosos. Percorríamos os hotéis e pousadas do Alto do Custódio, Rua João Pinto Damasceno e até a distante Rua da Palha, onde ficava o Abrigo dos Romeiros. Foi um tempo bom, em que aprendemos muito da cultura popular e dos costumes do povo nordestino de outros estados. Para ser sincero, tenho uma boa recordação daqueles tempos difíceis, mas felizes.
Portanto, nessa data tão especial, quero brindar minha mãe com um singelo soneto de minha lavra:



UM SONETO PARA MAMÃE

Como uma abelha rainha na colmeia
Vejo a faina de minha mãe querida
Com seu carinho adoça o mel da vida
Sem cobrar os aplausos da plateia

Como a Virgem Maria, a Santa Hebreia
Dá conforto e segurança, dá guarida,
Mas se enxerga a sua prole perseguida
Vira uma loba e defende a alcatéia.

Não é Santa, dessas santas de igreja
Mas à ela digo os versos da Peleja
De Gustavo com Maria Roxinha

Nesse mundo de vileza e de pecado
Dentre as mães eu só tenho encontrado
Sem defeitos, a de Cristo e a minha.

Canindé, 23 de março de 2019.




HOJE SOU EU QUEM DIZ: - DEUS TE ABENÇOE, MINHA MÃE!







quinta-feira, 21 de março de 2019

UM SONHO COLETIVO



Xilogravura: ERIVALDO

OPERAÇÃO PAVÃO MISTERIOSO
AUTOR: MARCUS LUCENNA

EU VOU CONTAR A HISTÓRIA
DO PAVÃO MISTERIOSO
QUE DECOLOU DE UM CORDEL
NUMA ESTÓRIA DE TRANCOSO
PARA NUM SONHO DE UM BARDO
O CANTADOR EDNARDO
CUMPRIR DESTINO EXITOSO


O PAVÃO MISTERIOSO
DEU NOME À OPERAÇÃO
CUMPRIDA POR UM COMANDO
COM UMA HONROSA MISSÃO
RESGATAR URGENTEMENTE
UM LÍDER, UM BOM PRESIDENTE
DA CELA DE UMA PRISÃO


ELE FORA CONDENADO
SEM PROVAS,  INJUSTAMENTE,
E ERA MANTIDO PRESO
EMBORA FOSSE INOCENTE
E PARA SER LIBERTADO
TINHA QUE SER RESGATADO
NUMA   AÇÃO INTELIGENTE


SEUS PIORES INIMIGOS
PARA CHEGAREM AO PODER
MENTIRAM, TRAPACEARAM
TIVERAM QUE LHE PRENDER
E TENDO AO PODER CHEGADO
QUERIAM VÊ-LO TRANCADO
ATÉ O DIA DE MORRER


SEM PODER SE DEFENDER
SÓ RESTOU UMA SOLUÇÃO
SER RETIRADO DE LÁ
DE DENTRO DESSA PRISÃO
OS QUE NELE ACREDITAVAM
UMA   FORMA  IMAGINAVAM
DE CUMPRIR ESSA MISSÃO


MAS NINGUÉM CONTAVA NÃO
PARA ELE O PLANEJADO
SABENDO-SE  INOCENTE
APESAR DE APRISIONADO
ELE QUERIA PROVAR
SUA INOCÊNCIA E MOSTRAR
SER DIGNO, HONESTO E HONRADO


MAS DIANTE DESSE ESTADO
DA MAIS COMPLETA EXCEÇÃO
ELE JAMAIS PROVARIA
A INOCÊNCIA EM QUESTÃO
POIS PARA LHE CONDENAR
SÓ PRECISARAM TROCAR
PRÊMIOS BONS,  POR DELAÇÃO


UNS COVARDES APONTARAM
P’RA ELE  COM DEDOS SUJOS
UNS MAIS COVARDES  JULGARAM
 E CONDENARAM,  ESSES CUJOS
NUM LAMAÇAL CHAFURDARAM
SERVINDO AOS QUE LHES USARAM
IGUAIS CACHORROS SABUJOS

  
AGIRAM COMO OS MARUJOS
QUE QUISERAM ELIMINAR
O COMANDANTE COLOMBO
QUE ESTANDO A NAVEGAR
NO RUMO DE UM MUNDO NOVO
FOI VISTO COMO UM ESTORVO
QUISERAM LHE ASSASSINAR

NO SONHO DO EDNARDO
UM COMANDO ORIGINAL
FORMADO  POR BEM TREINADOS
FILHOS DO POVO EM GERAL
LEVARAM A CABO A MISSÃO
DE RETIRAR DA PRISÃO
ESSE LÍDER ESPECIAL

NO PAVÃO MISTERIOSO
BELO PÁSSARO  DE METAL
UM PODEROSO HELICÓPTERO
EMBARCA ESSE PESSOAL
ENQUANTO UMA MULTIDÃO
FAZ UMA MANIFESTAÇÃO
COMO NUNCA VIU-SE IGUAL


ESTOU SOMENTE A NARRAR
O SONHO DE UM GRANDE ARTISTA
PORÉM QUEM TEM CONSCIÊNCIA
TEM ESSE PONTO DE VISTA
NOSSO MELHOR PRESIDENTE
É PRESA DE INCONSEQUENTE
PERSEGUIÇÃO ARRIVISTA


HOMENS, MULHERES,  MENINOS
FIRMES, NÃO TINHAM SENÕES
BRADAVAM: JUSTIÇA URGENTE!
DIZENDO EM MANTRAS,  REFRÕES
NOSSO LÍDER É INOCENTE
QUEREMOS  ELE SOMENTE
PRESO EM NOSSOS CORAÇÕES


O PAVÃO MISTERIOSO
PAIROU POR SOBRE A PRISÃO
OS GUARDAS NÃO REAGIRAM
PARADOS NA EMOÇÃO
DE VER  TANTA GENTE UNIDA
P’RA MENTIRA SER RENDIDA
MESMO COM ARMAS NA MÃO


DO HELICÓPTERO DESCERAM
COM A TÉCNICA DO RAPEL
UNS HOMENS E UMA MULHER
ELA CUMPRIA O PAPEL
DE TIRAR O PRESIDENTE
ALI DAQUELE AMBIENTE
MISTO DE CELA E QUARTEL


ELA SE CHAMAVA CREUZA
ERA LINDA E SENSUAL
MAS LUTANDO ERA UMA FERA
NO MUNDO NÃO TINHA IGUAL
NO TIRO, FACÃO , PERNADA
A MOÇA ERA ENDIABRADA
EM TODA ARTE MARCIAL


MAS NEM PRECISOU USAR
SEUS DOTES NA OCASIÃO
OS GUARDAS  COLABORARAM
GUIARAM ELA AO  SALÃO
ONDE ESTAVA APENADO
O LÍDER INJUSTIÇADO
ALVO DA SUA MISSÃO


ELA DISSE: “PRESIDENTE
 VIM AQUI LHE RESGATAR
EU VOU LEVÁ-LO COMIGO
O SENHOR VAI DESCANSAR
DEIXAR DE CORRER PERIGO
ACABAR  ESSE CASTIGO
QUE NÃO MERECES PAGAR”


ELE RESPONDEU: “NÃO DÁ
NÃO PENSO EM FUGIR ASSIM
VOU SAIR INOCENTADO
LIMPO, TIMTIM,  POR TINTIM
PROVANDO QUE SOU HONRADO
QUERO MEU POVO AO MEU LADO
PRONTO P’RA  VOTAR EM MIM”.


ELA RETRUCOU: “ MEU LÍDER
VEM COMIGO, VAI POR MIM
NÃO ESPERE POR JUSTIÇA
VINDO DESSA CORJA RUIM
PRESIDENTE,  ESSA MUNDIÇA
QUE ESSA BESTA FERA ATIÇA
SÓ QUER  VER O VOSSO  FIM”


OS GUARDAS GRITARAM  ASSIM
PRESIDENTE VÁ S’IMBORA
NÓS FACILITAMOS TUDO
TEM MUITA GENTE LÁ FORA
UMA MULTIDÃO VIBRANDO
CANTANDO, RINDO E  CHORANDO
NA EMOÇÃO DESSA HORA.


“DESCULPE MEU PRESIDENTE
MESMO QUE O SENHOR NÃO QUEIRA
EU VOU LEVAR O SENHOR
ELA TIROU DA ALGIBEIRA
UM SPRAY, NELE APLICOU
O PRESIDENTE INALOU
E CAIU NUMA SONEIRA.


JUNTANDO-SE AOS COMPANHEIROS
DAQUELA OUSADA MISSÃO
LEVARAM ELE DORMINDO
DALÍ DAQUELE SALÃO
PARA O PAVÃO VOADOR
QUE GIRANDO SEU ROTOR
VOOU PARA A AMPLIDÃO.


FORAM EMBORA P’RA BEM LONGE
PARA UM PAÍS BEM LEGAL
PODEROSO E RESPEITADO
O TERRAL LAND OU TERRAL
FICANDO  ALÍ  EXILADO
PARA UM DIA SER JULGADO
NUMA CORTE IMPARCIAL.


EDNARDO ACORDOU
DESSE SONHO INUSITADO
E POSTOU NO FACEBOOK
TUDO QUE TINHA SONHADO
EU QUE SEMPRE VIVO ATENTO
VERSEI NO MESMO MOMENTO
ESSE CORDEL INSPIRADO


L UCENNA É UMA LUZ QUE ANDA
U M LUME NA ESCURIDÃO
C OM O LUME  DESSA LUZ
E NCHE DE LUZ A AMPLIDÃO
N A BUSCA PARA ENCONTRAR
N ALGUMA ESTRELA A BRILHAR
A LUZ DA INSPIRAÇÃO.



Biografia


Marcus Lucenna (foto: Arievaldo)


Marcus Lucenna
O CANTADOR DOS QU4TRO CANTOS

Cantor, compositor, poeta e músico por profissão, Marcus Lucenna é conhecido como “O Cantador dos Qu4tro Cantos” pela  sua trajetória no ramo artístico e andanças pelo Brasil. Marcada pelo ecletismo, sua jornada musical passa pelo pé-de-serra e segue pelo brega, cantoria de viola, tango, rumba, lambada, chorinho e tudo mais que representa a alma do povo brasileiro e latino-americano.

Natural da cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, adquiriu gosto pela música por influência do pai, que, além de radialista, era poeta, repentista e cordelista. E também do seu “heroivô”, como costuma chamar seu avô, com quem ouviu, em um showmício na cidade natal, em 1968, “Asa Branca” pela primeira vez. A música vinha diretamente da voz daquele que viria ser a sua principal inspiração: Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião.

CHEGADA AO RIO – Em 1977, aos 16 anos, desembarcou no Rio de Janeiro com o sonho de fazer carreira na vida artística. Além de Luiz Gonzaga, sua inspiração vinha dos cantadores-repentistas, dos emboladores de coco, dos cordelistas e de nomes como Jackson do Pandeiro, Raul Seixas, Belchior, Fagner, Ednardo, no Brasil, e Bob Dylan, Charles Aznavour e Jaques Brel, no exterior.

Começou cantando no calçadão de Copacabana, onde com seu carisma e qualidade musical encantou cariocas e turistas. Ali conheceu gente influente do meio musical e da sociedade carioca. Entre eles, os atores e cantores Mário Lago e Zezé Mota, Zé do Norte – o autor de “Mulher Rendeira”, trilha do filme O Cangaceiro, premiado em Cannes – e Jaguar, editor dO Pasquim, jornal que lhe prestou os primeiros louros da carreira.

PRODUÇÃO FONOGRÁFICA – O primeiro LP (Cantolínia Psicordélica) veio em 1989, pela Polygram, uma das maiores gravadoras do mundo à época. O álbum foi gravado na companhia de grande artistas da MPB, como Joca de Natal, Zé Américo e Severo do Acordeon. O disco foi o pontapé inicial para uma produção fonográfica que envolve 4 vinis e 11 CDs.

PARCERIAS – Embora se considere um artista um tanto solitário, acumula na carreira diversas parcerias importantes. Musicou letras ou teve poemas musicados por nomes como Luiz Vieira, Mirabô, Capinam, Mario Lago Filho, Maria Rio Branco, Vicente Telles, Zé Lima, Roque da Paraíba, Edson Show, Chico Pessoa  e Zé do Norte.

No mais recente CD, Marcus Lucenna na Corte do Rei Luiz, que será lançado dia 18 de agosto, contou com a companhia do poeta-cantador Maciel Melo, autor do grande sucesso Caboclo Sonhador, que Lucenna acrescentou ao disco; do maestro Adelson Viana, considerado sucessor de Dominguinhos; Marcelo Mimoso, que interpretou Luiz Gonzaga no teatro; e Chambinho do Acordeon, que viveu o Rei do Baião no cinema. As vozes de Neidinha Rocha, integrante da Orquestra Sanfônica do Rio, e do cantor, compositor, radialista, produtor cultural e coordenador do Forum Forró de Raiz RJ, Jadiel Guerra, também podem ser ouvidas no novo álbum.

Muitos desses artistas já dividiram palco com Marcus Lucenna, assim como fizeram músicos como Fagner, Elba Ramalho, Ednardo, Geraldo Azevedo e Tânia Alves.

Mas além da trajetória musical, Marcus Lucenna se destaca pelo engajamento em ações que valorizam e dão visibilidade ao seu ofício – a música e a poesia – e a cultura popular.


NA MÍDIA – No rádio, dirigiu e apresentou os primeiros programas regulares de forró em horário nobre no Rio, em emissoras como Imprensa FM e Tropical FM. Também esteve à frente dos programa “Nação Nordeste”, na Rádio Viva Rio, do Sistema Globo, e “Marcus Lucenna – a Voz do Povo”, na Rádio Carioca AM. Na TV, dirigiu, produziu e apresentou  “Marcus Lucenna De Repente”, programa da NGT (canal 17 da NET). E em jornal, assinou a coluna “Canto do Povo Nordestino”, do Povo do Rio, e fundou o “Nação Nordeste”. Também esteve “do outro lado do balcão”, como entrevistado e artista convidado em importantes programas televisivos, como Jô Soares e Domingão do Faustão, da TV Globo.


Novo CD de Marcus Lucenna - Na Corte do Rei Luiz.


FEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO – Idealizador de projetos de valorização da cultura popular e em defesa das causas do migrante nordestino, ocupou por 6 anos o cargo de gestor do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, a famosa feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Não só impediu que a Feira fosse retirada do bairro por força da especulação imobiliária, como liderou o movimento que a levou para dentro do Pavilhão de São Cristóvão, onde está localizada até hoje.

Amante das letras, principalmente das manifestações literárias nordestinas, Marcus Lucenna ocupa a cadeira número 7 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Morador do bairro do Flamengo, no Rio, foi condecorado com os títulos de Cidadão Fluminense, pela Assembléia Legislativa, e Cidadão Carioca, pela Câmara de Vereadores.

Aos 59 anos, é pai de cinco filhos, avô de quatro netos e um súdito fiel do Rei Luiz Gonzaga, levando seu legado artístico e de vida aos qu4tro cantos do país.