segunda-feira, 11 de março de 2019

A ARTE DE JÔ OLIVEIRA

ANTÔNIO CONSELHEIRO E O SEBASTIANISMO



Duas ilustrações do amigo e parceiro Jô Oliveira, um dos maiores ilustradores desse país.


quarta-feira, 6 de março de 2019

SONETO DAS CINZAS




O VOO DA MORTE

Na parede dos fundos da bodega
Na brancura da cal toda lavada
A rolinha que voava, encandeada,
Cai ferida, ensanguentada e cega.

Ouço a voz animada de um colega
De brinquedos, comigo na calçada:
— Já que nunca as mataste em caçada
Aproveita, come esta, vamos, pega!

Fui menino e não tive a mão certeira
Se algum dia atirei de baladeira
Não me lembro de acertar u’a pedrada.

Pego o pobre pássaro e considero:
— Hoje é quarta de Cinzas, eu não quero.
Saio mudo, dali, não digo nada.

Arievaldo Vianna



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

SAIU NO DN



Capa do Caderno VERSO, do DN




Patativa, xilogravura de Arievaldo Vianna

Patativa do Assaré:
110 anos de palavra viva

Por Melquíades Júnior

Há 110 anos nascia Antônio Gonçalves da Silva, poeta magistral sertanejo que, na forma de Patativa, versou as verdades dos muitos brasis de universal Nordeste. Respeitado por sua genialidade, faz menos falta do que devia, pois sua palavra é viva


A casa onde nasceu Patativa, na Serra de Santana, traz relíquias da história do poeta
Foto: Melquíades Júnior
"Vão na frente que eu vou atrás. Levando as traia". Era o fim da meia-jornada. O agricultor brocou cedo a terra. Saiu cedinho, quando o sol entrou. Belinha coou o café pra viagem do marido com os filhos até o pedaço de roça. Quem vive no sertão brabo de enxada na mão não tem tempo de sentar. A depender do destino, o chão batido vira mesa, cama e até altar, envolto pelo roçado. Sertão só sabe quem vive. Chover é dúvida. Certeza, só na fé. Planta sem saber.
Mas perto da hora do almoço junta tudo, todos, e vai embora.
Inês é encucada:
- Pai toda vida só vai atrás da gente, sozinho. Num quer ir junto, diz, olhando pra trás e vendo o silêncio.
Em menos de meia-légua de pisada no chão da Serra de Santana, Antônio, atrás, parece que voa. Tá ali, mas não tá.
No fim de tarde, todo mundo bota as cadeiras pra fora. A calçada dá justo pro sol, que vai embora. Ele desce e os mosquitos sobem. Mas quem vive no sertão não tem casca fina.


Ilustração: Arievaldo Vianna


Encadeando palavras
Antônio convoca atenção e diz uns dizeres falados como se estivesse cantando. Uma frase atrás da outra. Uma palavra que combina com outra duas frases depois. Eram versos e rimas. "As corra mair linda".
Nesse tempo, o pai já soltava poesia, só não sabia de onde vinha, mas o dia dela saber chegaria.
"Eu nasci ouvindo cantos/ Das aves de minha terra/ E vendo os lindos encantos/ Que a mata bonita encerra/ Foi ali que fui crescendo/ Fui lendo e fui aprendendo/ No livro da Natureza/ Onde Deus é mais visível. O coração mais sensível/ E a vida tem mais pureza".
- De onde pai tira tudo isso?
- É Deus que manda.
Foi daí que Inês percebeu: o pai andava atrás pra ter tempo com o divino. Devia sussurrar no seu ouvido, soprando palavras de semente. No tempo de chegar em casa, crescia e dava fruto. Essa era uma colheita certa.
Desce do céu, sobe a serra
Deus visitando onde quase ninguém vai. Um pedacinho da Serra de Santana, prima pobre, comprida e alta de Assaré. Nunca se lembram dela, a não ser em tempo de eleição. A vantagem, dizem os de lá, é que no outro tempo é menos gente perturbando.
Hoje, o desassossego é outro e bom: "mei mundo de gente vem aqui conhecer onde pai nasceu", diz Inês Batista. Pai é Antônio. E se antes, quem quisesse saber dele, perguntava por Senhorzinho, hoje em dia é só Patativa. Patativa do Assaré.
Se ele já tinha um tempo com Deus, sua morte foi reencontro. Não antes de ver a fama. Primeiro, a de perto, nas andanças pelo Cariri. Depois, bem longe.
Rodou pelas bandas do Norte, conheceu outros Nordestes. Mas foi a radiofonia sua internet. Ouvidos eram atentos à sua passagem pela Rádio Araripe, no Crato. José Arraes era um. Homem importante dos lados de Pernambuco, irmão de Miguel Arraes, este que virou governador daquele Estado. Atento às pelejas sertanejas, criou em sua gestão dois programas para o homem do campo: Vaca na Corda, para financiar gado, e o Chapéu de Palha, pra ajudar o agricultor na entressafra.
Pois foi Zé, irmão de Miguel, um dos grandes financiadores ao primeiro livro do poeta: Inspiração Nordestina (1956), aos 47 anos. Dali já corria mais longe o canto sertanejo. Luiz Gonzaga ouviu no rádio Patativa com João Alexandre, outro artista popular. Queria comprar aquela letra e foi ter com autor, mas o poeta não é de vender.
"Triste Partida" ganhou o mundo na voz do "Rei do Baião". Era retrato do sertanejo retirante nordestino. Viajantes da esperança, ainda que pobreza ambulante. No rincão seco, vai sem querer. Fome é a precisão, Deus é o guia.

Setembro passou/ outubro e novembro/ Ja tamo em dezembro/ Meu Deus, que é de nós?.

Virou hino. Quem vê hoje, pensa que a fama lhe percorreu toda a vida. Mal sabem que, bem dizer chamado 'velho', era um poeta popular pouco reconhecido em suas próprias beiras. Sentava no banco da praça que dá para a Igreja de Nossa Senhora das Dores, em frente de casa. Passava a tarde ali, matutando o tempo (ou com o divino).
Jaqueline, filha de Araci, fez por muito tempo os encarregados dele. Morando no lado oposto da praça, estava sempre a postos pra acompanhar o poeta onde precisasse. Um pagamento, pegar remédio ou dar notícia do que se passa na cidade pequena, mas cheia de histórias. Era mulher de confiança. Serviu-lhe até casar e partir. E fazer falta.

FONTE: Caderno VERSO | DN 
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/editorias/verso/patativa-do-assare-110-anos-de-palavra-viva-1.2067055

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

SAIU NO "ESTADÃO"



Em domínio público, obra de Monteiro Lobato

não deve ser reescrita

Reescrever qualquer parte da obra de Lobato seria 

como fechar o abraço do Cristo Redentor


J. Roberto Whitaker Penteado*, Especial para o Estado

O escritor brasileiro José Bento Monteiro Lobato faleceu em 1948. Decorrem, assim, neste ano, 70 anos de sua partida do mundo dos vivos e - de acordo com a nossa legislação sobre direitos autorais - toda a sua obra passa a ser de alguma coisa chamada “domínio publico”.




Ilustração da personagem Tia Nastácia, protagonista 
de algumas polêmicas sobre Monteiro Lobato

Não é a primeira – e certamente não será a última vez que isso acontece. As obras de muitos outros autores brasileiros e estrangeiros já passaram por isso, e vêm à memoria, rapidamente, nomes como Machado de Assis, Mario de Andrade, José de Alencar, Euclides da Cunha, John Steinbeck, Scott Fitzgerald, Mark Twain, Robert L. Stevenson, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Emile Zola, Maupassant, Stefan Zweig, Kafka, Tolstoi, entre muitos outros...
Só que parece estar ocorrendo, com o nosso Lobato – considerado, com todo mérito, como um dos mais importantes autores de literatura infantil em todo o mundo – um fenômeno bastante inusitado: de acordo com diversas matérias e entrevistas recentemente publicadas pela nossa imprensa, anuncia-se que os seus textos deverão passar por verdadeiras e concretas correções, alegadamente para que se tornem palatáveis às gerações atuais e futuras de jovens leitores. Ou, em outras e mais claras palavras: serão alterados para tornarem-se politicamente corretos...
E não se trata - como se poderia pensar inicialmente - de uma adaptação ou extensão das narrativas ou dos conhecidos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, para histórias em quadrinhos, peças de teatro, programas de televisão ou desenhos animados. Isso já vem ocorrendo, há bastante tempo, em todo o mundo - e os especialistas em Lobato concordam que essas "liberdades" não prejudicaram o legado cultural do autor. Em certos casos, até contribuiram para que as suas criaturas e as obras fossem mais difundidas, recomendadas nas escolas e lidas por um contingente maior de pequenos leitores.


Ilustração: NINO

O que me incomoda é que se fala - e se discute publicamente com desembaraço - em modificar ou cortar ou modificar, no texto original, todas as passagens que possam ser consideradas "racistas", como, por exemplo, as frequentes malcriações da boneca Emília com a sua “fazedora”, a negra, filha de escravos, Tia Nastácia. A Tia quase que aparece em pessoa, turbante e avental, como personagem do famoso filme E o Vento Levou (1939), na figura de Mammy, a empregada da mansão dos O'Hara, que valeu à atriz Hattie McDaniel o primeiro Oscar outorgado a uma pessoa de raça Negra... ou "afro-americana".

Narizinho, ou Lucia - a menina do nariz arrebitado (talvez deficiente física, por isso?) - é criticada por aparecer, (nas inesqueciveis ilustrações de Voltolino, Belmonte e J. U. Campos), segundo os críticos, "como uma inglezinha" - quando Lobato (argumentam) a teria descrito como de pele negra, ao escrever que se rosto tinha a cor do jambo...


Ilustração de Jô Oliveira


Já o garoto Pedrinho, para esses novos críticos, é considerado como um personagem sem graça, de segunda classe, "porque Lobato não gostava de meninos" (sic). Pode-se argumentar que o autor quis reviver, na figura de Pedrinho, sua convivência, na infância, com duas irmãs, Ester e Judite...

De fato, Pedrinho é dos poucos personagens masculinos do Sítio. Mas, longe de ser o que se chama hoje de “machista”, Lobato foi precursor do atual feminismo, ao entregar a liderança do Sítio à avó sábia, Dona Benta, que tudo administrava com Nastácia. A inegável estrela da obra é também feminina: a boneca Emilia, “feita” de panos e trapos pela boa Tia e através de quem ML exprimia as idéias criativas e iconoclastas do seu próprio alter ego. São do gênero masculino, contudo, dois nobres: o Visconde de Sabugosa e o Marquês de Rabicó; sem esquecer o sempre ponderado burro Conselheiro e o fortudo Quindim, o rinoceronte.

Certamente espero que a entrada em domínio público das obras deste grande brasileiro, multifacetado que foi: escritor, jornalista, pintor, empreendedor, diplomata, crítico de arte, editor, publicista e agitador (no bom sentido, de causas geralmente nobres, como o desenvolvimento das nossas produções de ferro e petróleo) venha a resultar em muitas novas edições de suas obras, tanto a literatura infantil como as de ficção, os ensaios, entrevistas, ensaios e palestras – e uma maior difiusão de suas ideias, muitas das quais anda de grande atualidade para o Brasil e os brasileiros, nos momentos difíceis que vivemos.

Mas sem censurar ou mexer em uma vírgula sequer dos mais de 50 livros e quase 100 traduções que publicou, entre 1914 e 1948. Reescrever qualquer parte da obra de Lobato seria como reformar Brasilia, transformar a Asa Branca em Asa Negra ou fechar o abraço do Cristo Redentor.

*É AUTOR DE 'OS FILHOS DE LOBATO' (ED. GLOBO)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CENTENÁRIO DO REI DO RITMO



Jackson do Pandeiro a caminho dos 100 anos

Quem visita Alagoa Grande, situada na região do brejo paraibano, Serra da Borborema, não pode deixar de visitar um casarão azul construído em 1898, na Rua Apolônio Zenaide, centro da cidade. No prédio está a memória e os restos mortais de um dos artistas mais representativos da cultura brasileira: José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro.


O Memorial Jackson do Pandeiro, criado em 2008, possui um grande acervo composto por discos, documentos, vestimentas, imagens e os indefectíveis chapéus usados pelo cantor, que nasceu em 31 de agosto de 1919 e morreu em Brasília, em 10 de julho de 1982.
 “O memorial já foi visitado por mais de 100 mil pessoas vindas de várias partes do país. “Foi um artista que nunca cantava duas vezes uma música da mesma maneira, sabia dividir os compassos da música nordestina com maestria”, afirma o jornalista e historiador da música brasileira Rodrigo Faour, curador da recém-lançada caixa Jackson do Pandeiro — O Rei do Ritmo (Universal Music).

 “Há anos, eu queria relançar esse repertório. Quando a Universal veio com essa ideia, eu, na mesma hora, vesti a camisa e revisei o levantamento que eu já tinha feito. Pedi ajuda a alguns amigos e cheguei à seleção final”, destaca Faour sobre a obra com clássicos como Chiclete com banana e O canto da ema.

Em entrevista, o pesquisador lista os empecilhos que teve de enfrentar para a composição da caixa que contém 235 músicas. Ao todo, são 15 discos agrupados em nove CDs. Esses álbuns (compactos e long plays) foram lançados originalmente nos anos 1960 e 1970.
 “Esbarrei com um monte de problemas: canções não editadas, autores falecidos, autores que não deixaram herdeiros oficiais, capas originais dificílimas de conseguir... Por isso demorou anos e anos para a caixa sair”, lamenta.



Fonte: http://www.neyvital.com.br/2016/08/31-de-agosto-jackson-do-pandeiro.html

sábado, 2 de fevereiro de 2019

VIOLA DE LUTO:




MORREU O POETA JOÃO FURIBA

Morreu de causas naturais, aos cem anos, nesta quinta-feira, 31, em Cajazeiras, onde estava internado em um hospital da cidade, o poeta repentista João Bernardo, mais conhecido como João Furiba. Faria 101 anos em julho.

João Furiba nasceu em Taquaritinga do Norte-PE e viveu boa parte da vida em Sumé, no Cariri Paraibano. Ultimamente vivia com a terceira esposa na cidade de Triunfo-PB.

Foi discípulo de Pinto do Monteiro, com quem viajou por mais de 15 anos e faz parte da galeria dos maiores repentistas do Brasil, brilhando na mesma constelação onde brilham Geraldo Amâncio, Ivanildo Vila Nova, Os Batistas, Os Bandeiras, Moacir Laurentino, Valdir Teles, Oliveira de Panelas e Sebastião da Silva. “João Furiba e Louro Branco foram os cantadores que mais fizeram a plateia sorrir com seus versos jocosos e suas mentiras engraçadas”, disse Jomaci Danta, o Lola, poeta e organizador de festivais de repente pela Paraíba afora.

No ano passado, quando completou cem anos, ele recebeu diversas homenagens. O empresário João Claudino, seu compadre e grande apreciador e incentivador da viola, esteve presente nas homenagens.

Há cerca de 16 anos João Furiba aposentou a viola, não se apresentava mais, mas seu nome continua vivo na memória dos apreciadores do repente e suas “tiradas” continuam sendo reprisadas e lembradas nos festivais. “Furiba era uma lenda viva da viola, um ícone da cultura nordestina, tinha raciocínio rápido e era dotado de um humor peculiar. Cantoria em que ele estivesse presente era garantia de muitas risadas”, finalizou Lola.

Wandecy Medeiros | Folha Patoense – folhapatoense@gmail.com

FURIBA NAMORADOR

O poeta Geraldo Amâncio me contou que viajava certa vez pelos sertões pernambucanos, na companhia de JOÃO FURIBA, quando uma morena escultural subiu no ônibus conduzindo uma mala bastante pesada.
Furiba, velho namorador, correu ao seu encontro e pegou logo a dita mala, que pesava uns trinta quilos ou mais. Indicou uma cadeira, do lado janela, onde a moça se acomodou e ele, de  imediato, sentou ao lado dela, na cadeira do corredor.
Aí haja conversa... Furiba não cansava o par de queixos, tentando puxar assunto com a mulher que olhava distraída pela janela do ônibus, sem responder nada e sem lhe dar a mínima atenção.
Quando desceram em Salgueiro, para o almoço, Geraldo provocou o companheiro:
— Eita Furiba véi namorador!
E o Furiba:
— Poeta, a mulher só tem imagem... Não tem som!
Por conta disso escrevi esta glosa no dia de sua morte:

Eu não conheci FURIBA
Cantando pessoalmente
Guardo um relato decente
De GERALDO e de CAPIBA
Geikio Amâncio, não proíba,
Eu vou dizer, sim senhor
Além de bom cantador
Grande poeta, inspirado
FURIBA era festejado
Como um “véi” NAMORADOR.
(Arievaldo Vianna)

FURIBA X PINTO DO MONTEIRO

O poeta César Barreto, em sua página no facebook, informou o seguinte:
A morte do grande cantador pernambucano JOÃO FURIBA (João Batista Bernardo) na quinta feira passada (lamentável ainda que ele tenha vivido seus 100 anos), me fez lembrar uma estória que ele contou no programa Violas no Vale (Rádio Vale, Limoeiro do Norte), do qual eu participava com Valdir Teles e Zé Cardoso. Furiba gostava de aperrear o juízo do Pinto do Monteiro só pra atiçar a "cascavel do repente". E aí dava nisso:


Clique na imagem para ampliar.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Klévisson Vianna nas PAGINAS AZUIS


"Minha arte sempre estará a serviço dos mais fracos"

| TRAJETÓRIA | Artista multilinguagens, o cearense Klévisson Viana relembra momentos de sua carreira e reafirma seu compromisso com a arte como canal de transformação social


Foto: Alex Gomes

"O artista nunca tá satisfeito". Assim resume Klévisson Viana quando perguntado acerca de seu metiê. Caçula de cinco irmãos, sendo todos crescidos na zona rural de Quixeramobim, o menino - de rebelde na escola a falador que só a mulher da cobra, como diz o ditado - sempre soube qual seria seu destino: "Pra quem acredita em reencarnação, não tem outra explicação. Sempre quis ser desenhista", não titubeia em dizer. O ano de 2018 serviu de mote para que o cearense celebrasse três décadas de trajetória, que lhe renderam popularidade, respeito e inúmeros prêmios.
Aos 46 anos de idade "com carinha de 30", Klévisson já perdeu a conta de quantos livros vendeu. "Mas já passou de um milhão", garante. Em entrevista ao O POVO, numa tarde do início de dezembro, concedida em sua casa - que também serve de lojinha - na Parquelândia, o escritor, quadrinista, editor, cordelista e, acima de tudo, "um contador de histórias", trouxe à tona seus primeiros rabiscos, a mudança definitiva para a capital cearense, sua Tupynanquim Editora, mas também uma certa apreensão em relação ao futuro, sobretudo da cultura.

OP - O menino Klévisson, lá em Quixeramobim, era uma exceção entre os demais por conta desse interesse pelos livros, desenhos, etc?

Klévisson Viana - Esse menino tinha uma característica: lá em casa, a gente não dispunha de material de desenho; essas coisas eram muito escassas. A gente tinha algum material dos meus irmãos - eu era o caçula de cinco. Então uma das características desse menino era ficar desenhando com o dedo. Ficava contornando as pessoas por horas ou então me deitava e ficava contornando as coisas no céu; se eu via uma paisagem, ficava sempre contornando com os dedos. Era uma coisa que, mesmo antes de eu me entender por gente, eu já queria fazer isso. Pra quem acredita em reencarnação, não tem outra explicação. Sempre quis ser desenhista. Agora o lance da poesia sempre esteve presente na minha vida porque o meu pai (Evaldo Lima, 78 anos) é agricultor e poeta. Chegava do roçado e lia literatura de cordel e declamava verso pra gente. Ele é uma enciclopédia da poesia popular, tem muito conhecimento! Nunca publicou nada, mas sempre foi uma pessoa que gostou de escrever e tem a mania de receber as pessoas sempre com estrofe. E isso é uma herança porque o avô dele, Fitico, já tinha esse costume. Então essa coisa da poesia veio do meu pai. Mas o desenho, não. Meu irmão mais velho, Ari (Arievaldo Vianna), veio muito cedo morar em Maracanaú pra estudar, mas nós não tínhamos quase contato. Então a gente desenvolveu esse gosto morando em lugares distintos. E foi uma surpresa! Uma vez ele veio de férias e chegou lá em casa com uma revista em quadrinhos do Pernalonga, e eu não sabia o que era uma história em quadrinhos. Eu conhecia alguns personagens da Disney porque, nos anos 1970, circularam os personagens numas tampinhas de refrigerante - se eu não me engano, era Pepsi, Teem e Guaraná Wilson. Televisão, a gente não sabia nem o que era! Ele chegou lá com uma história em quadrinhos e eu me apropriei e não deixei mais ele levar embora. Mas o que mais me fascinava, em se tratando de desenho, era um primo que meu pai tinha chamado Zé Miguel, que era vaqueiro, e a casa dele era aquela casa sertaneja, cheia de alpendres, mas era cheia de desenhos as paredes! Ele desenhava aquelas cenas dele do cotidiano, da lida com o gado e tal, e ele reproduzia. E todo dia, não sei por qual razão, eu fiquei indo durante algum tempo, e o que me motivava de ir à casa dele era olhar pra esses desenhos.

OP - Foi em Canindé que você completou os estudos?

Klévisson - Em Canindé, eu fui matriculado no Colégio Frei Policarpo, que ficava mais próximo da minha casa. Aí eu tinha uma dificuldade tremenda de ficar na escola. Era que nem aquela música do Raul Seixas: "Ao chegar do interior/ Inocente, puro e besta..." (risos) É porque eu era matuto demais, era selvagem demais! Então minha mãe tinha que ir e ficar me pastorando porque eu chorava... Mas isso foi só nos primeiros meses, depois eu fui me ambientando. Mas lá eu fiz até o Fundamental.

OP - Hoje em dia, o Klévisson é muita coisa: cordelista, ilustrador, quadrinista, editor, etc. Como você gosta de ser chamado? Melhor, como você gostaria de ser lembrado?

Klévisson - Como um contador de histórias. Porque eu acho que tudo que você faz que lida com a Comunicação é contação de histórias. Quando você vem aqui pra conversar comigo e quer saber da minha vida, você está querendo saber pra contar a minha história. Quando eu assisto a um filme, é uma história que está sendo contada. O objetivo da maioria das músicas é contar uma história e por aí vai.


VER MATÉRIA COMPLETA AQUI: https://www.opovo.com.br/jornal/paginasazuis/2019/01/minha-arte-sempre-estara-a-servico-dos-mais-fracos.html?fbclid=IwAR3IY5XTtUCJ-EARzrmlevid7yYLJyg04ZUVeMZYLM9PAbAJMh9P78arOiU