quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

JOÃO BRÍGIDO DOS SANTOS

UM PALADINO DA IMPRENSA CEARENSE




João Brígido dos Santos (1829 – 1921), jornalista, cronista, historiador e político, nasceu no dia 3 de dezembro de 1829 na Vila de São João da Barra, na época pertencente a Província do Espírito Santo, depois Estado do Rio. Sua família migrou em 1831 com destino ao Ceará onde estabeleceu- se na cidade de Icó. João Brígido tomou suas primeiras aulas em Quixeramobim, quando conheceu o garoto Antônio Vicente Mendes Maciel, futuro líder messiânico trucidado por forças do Governo Federal nos confins da Bahia no triste episódio de Canudos. Consta que um dia, João Brígido salvou o petiz Antônio Vicente de um afogamento num rio em Quixeramobim.
Em 1855 João Brígido funda na cidade de Crato o jornal “ O Araripe “ dando início a uma longa trajetória triunfante na Imprensa do Ceará. Na época, com o pseudônimo de “ KKK “ colaborava com outros jornais cearenses, incluindo um de propriedade do temível Padre Verdeixa, apodado, imaginem, de “ Canoa Doida “.
Em 1861 João Brígido foi nomeado Professor de Português no afamado Colégio Liceu do Ceará e em 1903 funda o Jornal O Unitário, trincheira onde terçava armas com adversários reais ou imaginários feito um Quixote matuto. Foi Deputado Provincial (1864- 1867), Deputado Geral (1878 – 1881), Senador do Estado (1892), Deputado Estadual (1893 – 1894).
Publicou “ Apontamentos para a História do Cariri “ (1888) ,” Miscelânea Histórica” ( 1889 ) , “ O Ceará – lado cômico” (1899) e “ Ceará – homens e fatos “ ( 1919 ) , sua mais destacada obra.

UM BURRO DISCURSANDO

Do seu quartel – general, o combativo jornal” O Unitário” partiram rumo a história pérolas como estas:
“ Ontem, às treze horas os admiradores de G. Falcão prestaram-lhe uma homenagem numa refeição no Café Riche. À sobremesa, em nome dos presentes, falou o C.L. Em seguida, o homenageado ergueu- se nas patas traseiras, firmou-se nas dianteiras, murchou as orelhas e gaguejou um discurso, curto e ruim “.

 João Brígido , certa feita ,espinafrava um pobre chefete político sertanejo em seu pasquim: “ – Fulano de tal, há muito devia estar na cadeia pelos monstruosos crimes que impunemente tem cometido à sombra de governos que se sucedem “. Aparece então, Miguel Xavier um bem informado correligionário afirmando que o tal fulano acabara de aderir ao partido de João Brígido. O velho jornalista apenas corrigiu: “ – Não corte nada e ponha tudo entre aspas. E em seguida, sem aspas:  - Que ele devia estar na cadeia, por ser criminoso, dizem os seus inimigos peçonhentos. Nós, porém, que o temos na justa conta, consideramo-lo um dos homens de bem entre quantos que ainda vivem no sertão.

No governo do Comendador Nogueira Acioli, o Jornal O Unitário assim comentou uma tertúlia palaciana: “ Estiveram ontem, à noitinha em palácio, com Acioli, o Coronel Paulino, de Quixeramobim, e mais nove criaturas de idade avançada. Eram dez os visitantes. Mas ... quem os visse, contava quinze olhos e onze dentes “.

O FERREIRO DA MALDIÇÃO



Encerrando, seguem trechos de uma crônica do Jornal O Unitário com a data de 20 de maio de 1903, com a marca registrada de João Brígido: “ O Ferreiro da Maldição “:

“ O Ceará é o ferreiro maldito, de quem fala a lenda popular: quando tem ferro falta carvão. É nadador contra a corrente, que nunca chega; o caranguejo que anda e desanda; o eco a repetir a pregunta sem lhe dar resposta; o nó sem ponta; o sonho que promete em sombras que não se distinguem bem, a vaga esperança, enfim, para a qual nunca chega o dia.
Há cem anos um povo gigante, a mover-se, não adianta um passo, como frágil esquife sobre as ondas, que a corrente impele, e o vento faz recuar. Não lhe falta a alma. São os deuses, que o condenam à pena de Tântalo – morrer de sede à beira do regato. Os diretores mentais do Ceará morreram ou foram longe procurar um teatro para exibição de sua intelectualidade; e crestam na penúria os rebentos da capacidade cearense, a disputarem um pouco de ar, que aliás lhe mata o estímulo; o ar mefítico das baixas regiões oficiais...
Que seja para os netos de nossos netos, não importa. O mundo não é tão curto, que acabe em nós; e cem anos, na ordem dos tempos, é muito menos de um til nos lábios“.

Esta crônica foi publicada n’O Unitário, edição de 20.05.1903.

Fonte: http://astrilhasdavida.blogspot.com/2016/01/joao-brigido-paladino-da-imprensa-do.html


* * *

O Quixeramobim do cronista 
João Brígido


João Brígido dos Santos foi indiscutivelmente um intelectual múltiplo, destacando-se como: político, advogado, cronista, jornalista e historiador. Segundo o poeta Jáder de Carvalho, um de seus maiores admiradores, João Brígido foi antes de tudo um grande contador de histórias.
Tendo nascido a 3 de dezembro de 1829, em São João da Barra, então da província do Espírito Santo, faleceu a 14 de outubro de 1921, em Fortaleza.  Chegou menino ao Ceará, e residiu em Quixeramobim parte significativa de sua infância, onde aprendeu latim, no velho sistema dos jesuítas.
Foi contemporâneo e amigo de Antônio Conselheiro, moraram na mesma rua, e segundo relatou em texto memorialístico, junto de outros amigos, os dois quase morriam afogados, pois certo dia fugiram de casa para “tomar banho num furo, que a enchente do rio tinha cavado numa das suas margens”. Então, quando estavam mergulhando, um tal Cândido Sabóia lançou sobre eles uma tarrafa por diversão e “com o peso das chumbadas” afundaram.  Brígido conseguiu voltar à tona com Conselheiro agarrado ao pescoço dele e assim salvaram-se.  
“Meio anfíbio, nadador afoito e jogador de cambapé, eu vivia nos rios cheios e nos poços”, era assim que o jovem João Brígido definia-se nesse tempo.
Anos mais tarde já consolidado no jornalismo cearense e na condição de arguto observador, destacou João Brígido, naCrônica de Quixeramobim uma curiosidade histórica sobre o mais antigo templo religioso da cidade: “A matriz de Quixeramobim, hermeticamente fechada e com assoalhos laterais, tornou-se, no correr dos anos, uma igreja mal-assombrada. É que ali se fazia a inumação dos cadáveres da freguesia, como de costume em todo Ceará”.
 Por fim, é importante destacar que o escritor também se debruçou sobre a trágica e sangrenta luta entre Os Maciéis e os Araújos, a famosa guerra entre famílias que abalou o sertão do Ceará no começo do século XIX. E assim sendo, sabe-se que João Brigido foi uma referência certa para Euclides da Cunha escrever anos depois sobre esse episódio no clássico Os Sertões.

Bruno Paulino é escritor.


Fonte: https://alpendresertao.blogspot.com/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

POEMA MALICIOSO DE BILAC





MEDICINA

 Olavo Bilac

Rita Rosa, camponesa,
Tendo no dedo um tumor,
Foi consultar com tristeza
Padre Jacinto Prior.

O Padre, com gravidade
De um verdadeiro doutor,
Diz: “A sua enfermidade
Tem um remédio: o calor...

Traga o dedo sempre quente...
Sempre com muito calor...
E há-de ver que, finalmente,
Rebentará o tumor!”

Passa um dia. Volta a Rita,
Bela e cheia de rubor...
E, na alegria que a agita,
Cai aos pés do confessor:

“ - Meu padre! estou tão contente!...
Que grande coisa o calor!
Pus o dedo em lugar quente...
E rebentou o tumor...”

E o padre: “É feliz, menina!
Eu também tenho um tumor...
Tão grande, que me alucina,
Que me alucina de dor...

“ - Ó padre! mostre o dedo,
(Diz a Rita) por favor!
Mostre! porque há-de ter medo
De lhe aplicar o calor?

Deixe ver! eu sou tão quente!....
Que dedo grande! que horror!
Ai! padre... vá... lentamente...
Vá gozando... do calor...

Parabéns... padre Jacinto!
Eu... logo... vi... que o calor...
Parabéns, padre... Já sinto
Que rebentou o tumor...”

(In Contos para velhos, BOB - Pseudônimo de Olavo Bilac)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

ALMANAQUES POPULARES



Almanaque O JUÍZO DO ANO (Coleção Arievaldo Vianna)

AS PROFECIAS DE MANOEL CABOCLO

Por Eliézer Rodrigues (jornalista)

Em dias tão turbulentos e apreensivos e sem imaginação, nada criativos, pelos quais estamos vivendo, como faz falta o almanaque “O Juízo do Ano”, publicação de Manoel Caboclo, editada, em Juazeiro do Norte. Caboclo pressagiava, também, muitas revoltas, crimes misteriosos, assaltos e vinganças terríveis. Tudo em versos de cordel.

Semelhantes ao formato dos folhetos de cordel, distribuídos em todo Nordeste com tiragem que chegava a 40 mil exemplares, entre 1959 e 1996, os almanaques eram disputadíssimos, principalmente pela criatividade na abordagem dos temas.

Além das indicações meteorológicas, tendo o sertanejo nordestino como alvo predileto, a publicação trazia conselhos favoráveis ao cultivo, além de previsões astrológicas, parapsicologia, numerologia e até ciências ocultas.

Tive a felicidade de entrevistá-lo (Jornal Diário do Nordeste/ edição 20/12/1992), em sua residência, em Juazeiro do Norte, pouco anos antes dele falecer, em 1996. Após a sua morte, o almanaque “O Juízo do Ano”, já em crise, deixou de circular.


Foto: Manoel Caboclo editava o almanaque, na sua gráfica, instalada na casa dele.



Os ALMANAQUES POPULARES e a LITERATURA DE CORDEL

MANOEL CABOCLO E SILVA foi também um conhecido poeta e editor de CORDEL. Essa ligação da Literatura de Cordel com os almanaques é muito antiga… Na primeira metade do século passado já circulava em todo o Nordeste o famoso ALMANAQUE DE PERNAMBUCO, do poeta e editor João Ferreira de Lima (foto), que era um verdadeiro livro de cabeceira dos matutos de outrora. Basicamente eram informações sobre a quadra invernosa, os melhores dias para o plantio, receitas caseiras, plantas medicinais, astrologia, tábua das marés e curiosidades. A matriz parece ter sido o famoso LUNÁRIO PERPÉTUO que, segundo Câmara Cascudo, era uma das leituras prediletas do povo nordestino no século XIX, exercendo grande influência sobre os cantadores e poetas populares que exerciam o ofício de “cantar Ciência”, modalidade muito apreciada nos primórdios da cantoria.

João Ferreira de Lima foi sócio de Manoel Caboclo, durante a década de 1960. Caboclo era colaborador e distribuidor do Almanaque de Pernambuco no Ceará. Depois disso, Manoel Caboclo resolveu criar o seu próprio almanaque, batizado O JUÍZO DO ANO, que circulou até a década de 1990.

No seu rastro surgiram outros almanaques similares, escritos e editados por poetas populares, como é o caso de Costa Leite, Vicente Vitorino de Melo e Manoel Caboclo e Silva. Destes, o único que ainda se encontra em atividade é Costa Leite, editando seu vetusto almanaque pela Editora Coqueiro. (A.V.)

domingo, 13 de janeiro de 2019

CONTISTAS DO CEARÁ (5)



SECA

Rachel de Queiróz

Era hora do almoço dos trabalhadores. Enquanto os homens comiam lá dentro, o fazendeiro velho sentava-se na rede do alpendre, à frente de casa espiando o sol no céu, que tinia como vidro; procurando desviar os olhos da água do açude, lá além, que dentro de mais um mês estaria virada de lama. Os dois cabras se aproximaram sem que ele pressentisse. Era um alto e um baixo; o baixo grosso e escuro, vestido numa camisa de algodãozinho encardido. O alto era alourado e não se podia dizer que estivesse vestido de coisa nenhuma, porque era farrapo só. O grosso na mão trazia um couro de cabra, ainda pingando sangue, esfolado que fora fazia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos. O velho até se assustou e bruscamente se pôs a cavalo na rede, a escutar a voz grossa e áspera, tal e qual quem falava:

– Cidadão, vim lhe vender este couro de bode.

Aquele “cidadão”, assim desabrido, já dizia tudo. Ninguém chega de boa atenção em terreno alheio sem dar bom-dia. E tratando o dono da casa de cidadão. Assim, o fazendeiro achou melhor fingir que não ouvira e foi-se pondo de pé.

– O quê? Que é que você quer?

O homem escuro botou o couro em cima do parapeito e o sangue escorreu num fio pelo cal da parede:

– Estou arranchado com minha família debaixo daquele juazeiro grande, ali. Essa cabra passou perto – não sei de quem era. Matei, e a mulher está cozinhando a carne para comer. Agora, o couro – o senhor ou me dá dinheiro por ele, ou me dá farinha.

– E de quem é essa cabra? É minha? Quem lhe deu ordem para matar?

O velho estava tão furioso que o dedo dele, espetado no ar, tremia. E o loureba esfarrapado chegou perto e deu a sua risadinha:

– Ninguém perguntou a ela o nome do dono…

Mas o outro, sempre sério, olhou o velho na cara:

– Matei com ordem da fome. O senhor quer ordem melhor?

Nesse meio, os homens que almoçavam lá dentro escutaram as vozes alteradas e vieram ver o que havia. Eram uns doze – foram aparecendo pelo oitão da casa, de um em um, e se abriram em redor dos estranhos no terreiro. Aí o velho se vendo garantido, começou a gritar:

– Na minha terra só eu dou ordem! Vocês são muito é atrevidos – me matarem o bicho e ainda me trazerem o couro pra vender, por desaforo! Chico Luís, veja aí de quem é o sinal dessa criação.

O feitor largou a foice no chão, puxou as orelhas do couro, e virou-se achando graça para um dos companheiros:

– Era a sua cabrinha, não era mesmo, compadre Augusto? Está aqui o sinal…

O Augusto veio olhar também e ficou danado:

– Seus perversos, a cabra era da minha menina beber leite, estava de cabrito novo!



Mas o olho do homem escuro era feio, se ele se assustara vendo-se cercado pelos cabras da fazenda, não deu parecença. O loureba é que virava a cara de um lado para outro, procurando saída; ainda levou a mão ao quadril, tateou o cabo da faca – mas cada um dos homens tinha uma foice, um terçado, um ferro na mão . Nesse pé o fazendeiro, para acabar com a história, resolveu mostrar bom coração; e gritou para o corredor:

– Menina! Manda aí uma cuia com um bocado de farinha!

Depois, retornando ao homem:

– Eu podia mandar prender vocês, para aprenderem a não matar bicho alheio! Mas têm crianças, não é? Tenho pena das crianças. Leve essa farinha, comam e tratem de ir embora. Daqui a uma hora quero o pé de juazeiro limpo e vocês na estrada. Podem ir!

O homem recebeu a cuia, não disse nada, saiu sem olhar para trás. O outro acompanhou, meio temeroso, tirou ainda o chapéu em despedida, e pegou no passo do companheiro. O velho reclamava, em voz alta – cabra desgraçado, além de fazer o malfeito, recebe o favor e nem sequer abana o rabo. Os trabalhadores, calados, acompanhavam com os olhos os dois estranhos que marcavam um atrás do outro, na direção do juazeiro, do qual só se avistava a copa alta ali no terreiro.

Ninguém sabe o que pensavam; o dono da cabra deu de mão no couro e foi com ele para trás da casa. Aí a sineta bateu e os homens saíram para o serviço. Passando pelo juazeiro, lá viram a família ao redor do fogo, os meninos procurando pescar pedaços da carne que fervia numa lata. Mas o homem escuro, encostado ao tronco, via-os passar, de braços cruzados, sem baixar os olhos. Ainda foi o dono da cabra que baixou os seus; explicou depois que não gostava de briga.

MORALIDADE:
Este caso aconteceu mesmo. Faz mais de trinta anos escrevi uma história de cabra morta por retirante, mas era diferente. Então, o homem sentia dor de consciência, e até se humilhou quando o dono do bicho morto o chamou de ladrão. Agora não é mais assim. Agora eles sabem que a fome dá um direito que passa por cima de qualquer direito dos outros. A moralidade da história é mesmo esta: tudo mudou, mudou muito.

Fonte:
QUEIROZ, Rachel de. Cenas brasileiras São Paulo: Ática, 1997.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

CONTISTAS DO CEARÁ (4)



Juliana Paes como Gabriela (Remaker)

ALMA BÁRBARA
Herman Lima

A Leão de Vasconcelos

Pois foi assim, meu amo. Nesse tempo, nós andávamos pelo sertão, a serviço do coronel Feitosa, do Icó, por via de uns negócios de política. O Pedro, o patrão deve estar lembrado dele. Negro famanaz, vivedor como trinta, baixo e grosso como um toro de aroeira, com uns beiços revirados, e umas ventas rombudas, como amassadas de murro. Contador de quantos casos de amor e de briga ouvi neste mundo, toda cabocla ele dizia que podia possuir, não achava homem que o fizesse voltar atrás. E, a propósito, deixe contar-lhe.

Uma noite de lua, num forró de casamento, lá na Barreira Preta, no Aracati, quando ainda era, a bem dizer, meninote, o Pedro, encontrando a Ritinha da Venância, uma morena de papoco, falou pra cabeça dela, e foram os dois passear de bote, escondidos, no lagamar confronte. No princípio, o negro ainda se lembrou dos remos, e remou até o meio do rio. O rio estava uma prata. No brejal escuro das margens, berrava a saparia do inverno, assim, zôôôm… Só de longe em longe, um vulto de pescador aparecia, tarrafeando nos baixios. E a cabocla, na proa, olhando o lume do luar tremer nas águas, cantava como uma sereia encantada, dessas que tentam os marinheiros no alto mar. Depois, o negro pegou a se queixar dos braços, descansou os remos atravessados na beirada do barco, e foi sentar-se mais a moça. E tantas coisas fez e achou, meu amo, que quando sentiu foram as pancadas do mar no casco da canoa. Num pulo, deixando a morena quase desmaiada no fundo do bote, o Pedro atirou-se para os remos. Mas, qual. Logo que o barco entrou nas ondas, os remos tinham rolado na água. De forma que o preto botou as mãos na cabeça, assuntando, porque o caso estava mesmo feio. Mirando o céu, ele viu, pelo Cruzeiro grande, que havia de ser meia-noite, pelo menos. Nessa hora, naquelas alturas, só Deus com um gancho lhe podia valer. Assim, não assuntou muito tempo, e tratou de espertar a mulata. Mandou que ela se despisse e fizesse uma trouxa da roupa, que ele amarrou nas costas. E, tomando a pobre nos braços, atirou-se ao mar, nadou até a praia. Como a moça não podia voltar pro baile, por via da distância e das roupas ensopadas de água, o negro achou melhor levá-la pra casa de uma tia, que morava ali perto, no Fortim. No dia seguinte, toda a gente sabia do acontecido. O Pedro mesmo não negou o passeio. E a Ritinha, assim, caiu na boca do mundo. Mas, daí a uns tempos, como a mulata era mesmo um mimozinho deveras, não tardou em acender uma paixão de louco no coração de um cabra fornido, passador de gado nos sertões do Limoeiro, que andava há coisa de três semanas por ali. Quando o Pedro viu o cabra todo derretido pela Ritinha, tratou de ajudar-lhe o xodó, enquanto preparava a pobrezinha, dando de um tudo a ela. Até umas bichas de ouro, em forma de meia lua, ele deu.


Rio Aracati


Mas, aí, como sempre, não faltou um malvado, que foi contar o passeio do rio ao boiadeiro. Mas o cabra, que estava mesmo de beiço pela morena, desprezou a conversa, ainda disse o diabo ao intrigante. Pra encurtar a história, o homem casou sempre com a Ritinha. Pois o Pedro, um dia, meteu na cabeça que devia contar-lhe tudo, e contou.

— E ele?

— Pra lhe falar verdade, meu amo, eu não acreditei muito no que o negro me disse a respeito. Mas ele jurou pela fé em Deus, fazendo cruz na boca, que o outro não fez coisíssima nenhuma. O certo é que uma feita, conversando muito distraído, o preto me falou numa sentença sofrida na cadeia do Aracati; e, num domingo, quando nos banhávamos no açude do João Lopes, na Fortaleza, descobri, lá nele, aqui, embaixo da pá, um risco de faca de dois palmos. Quando lhe mostrei aquilo, o Pedro fechou a cara, disse de mau modo que não era nada, tinha sido uma chifrada de marruá, no tempo dele menino. Deus me perdoe, patrão, mas só me parece que ali andava obra do cabra da Ritinha, e ninguém me tira da ideia que o Pedro tenha feito alguma a ele.

Mas, bom. Como ia dizendo, o caso foi assim. Nós tínhamos chegado no Crato, numa quinta-feira, devendo voltar na outra semana. Quando foi no domingo, como não tivesse serviço, arreamos os cavalos de manhãzinha e nos atiramos no mundo, cada qual no seu rumo. Eu tombei pra venda do Zé Bacurau, onde fiquei até a boca da noite, mais uns freteiros de folga, numa partida de – vinte-e-um, que me limpou os cobres. Na volta, chegando em casa, já com a lua de fora, encontrei o Pedro estirado na tipoia, com uma ponta de mata-rato no queixo. Quando me viu, o preto fez ar de alegria, foi logo dizendo que tinha uma história pra contar. Aí, eu fui coar um gole de café com rapadura, e bebi pelo pires, soprando, danado, pra ouvir o negro. Porque o diabo do homem, patrão, sabia mesmo enrabichar a gente com as falas. Com pouco, eu estava outra vez junto dele, na minha rede, mascando minha felpa de mapinguim. E, metido na tipoia, com um pé no chão pra dar o balanço, o Pedro contou que tinha ido pras bandas do Salgado, chegando num ponto em que foi preciso romper o mato, pra alcançar o rio. A manhã estava bonita, não havia hora melhor para um banho. E já ele tinha desapeado, quando avistou, mais pra cima um pedaço, uma cabocla novinha, nuazinha, trepada numa pedra, mirando-se na água serena que passava. Vendo que a mulatinha não tinha dado por ele, o negro, muito de manso, prendeu o cavalo num buritizeiro, e foi rastejando, rastejando, pelo mato, num piso de sussuarana, até que topou com as roupas da moça escondidas numas moitas. O preto logo assentou um plano. Mais que depressa, agarrou nos vestidos e de repente apareceu à morena. A pobrezinha, como se tivesse visto o Maligno, soltou um grito tamanho, e mergulhou como pecapara assustada. O rio aí já era de nado. Com pouco mais, adiante, ela botou a cabecinha de fora, olhando muito agoniada, sem saber o que fazer. Enquanto o Pedro, muito bem sentado na ribanceira, mostrava-lhe as roupas, rindo para ela, e chamando-lhe quantos nomes de amor sabia. E disse que não tivesse medo, viesse buscar os paninhos, que ele não lhe fazia mal, queria só um beijo dela dado assim nua como estava. Isso ele dizia, meu amo, mas só dos dentes pra fora. Deus me perdoe. Pois alguém acredita que o negro não tivesse má tenção, armando aquele mundéu à coitadinha? No mais, o patrão faça de contas que era ele numa hora dessas, e veja lá se tinha coragem de resistir… Pois a verdade é que a mulatinha pareceu adivinhar os desejos do preto, e desatou a chorar, disposta a morrer, mais antes do que se apresentar despida a ele. Nessa ideia, fez o pelo-sinal, e se soltou no rio. Aí, o Pedro mediu toda a ruindade da ação que estava praticando, e sentiu os olhos cheios de água, com pena e dó da criança. Atirando as roupas no chão, despiu a camisa, e jogou-se na correnteza. A moça, nesse tempo, já ia longe, enrolada nos cabelos, arrastada pelo rio. O negro mergulhou, e nadando por baixo da água, como um peixe, foi tomar fôlego já nos calcanhares da cabocla. Com duas braçadas mais, emparelhou com ela, e, agarrando-a pela cintura, nadou com força pra terra, como tinha feito com a outra, lá no Aracati.

Garanto, meu amo, que o negro, me contando isso, ficava ainda com os olhos afogados de pranto, como quem atravessa a fumaça de um incêndio… Coisas do coração, moço, mas não é? Pois, quando vinha trazendo a moça pro seco, apertando contra o peito aquele corpinho novo, macio e cheiroso, que nem uma fruta do mato, o preto me disse que só sentia uma bondade tão grande, uma pena tão esquisita, como se fosse Nossa Senhora que ele tivesse salvado das águas. Acredite se quiser, meu patrão, mas o negro botou a caboclinha na beira do rio, com o mesmo amor de uma mãe, deitando o filhinho na rede. Quando viu que ele não lhe fazia maldade, a mulata descruzou os braços que escondiam o peito tentador, e num jeito de onça enrolou-se toda nas roupas. Aí, o Pedro enfiou a camisa, e foi-s’embora, sem mesmo olhar pra trás.

No fim da semana, estávamos de viagem. Tínhamos deixado o Crato de madrugada, no segundo canto do galo. Os cavalos eram bons, bralhadores famosos, de forma que às onze horas tínhamos tirado oito léguas. Aí, fizemos uma parada, pro almoço, na sombra de uma oiticica verde, que ficava mesmo cobrindo a picada. Os animais ali por perto babujavam o capinzinho da vereda. Acabando de comer meu bocado de paçoca e rapadura, fiz da carona travesseiro, e me deitei no chão, disposto a dormir um minutozinho. A mata, nessa hora, estava quieta, que nem capela vazia. Só se ouvia o chio-chio de uma cigarra cantadeira nas folhas e um ou outro sopro de venta dos cavalos cansados, roendo a erva. Ainda me lembro que estava dorme-não-dorme, quando o Pedro, que também tinha acabado de almoçar, levantou-se bocejando e se afastou pela estrada. Não sei dizer se tive tempo de dormir um cochilo, quando de repente um berro medonho encheu todo o mato. Num instante, me vi de pé, correndo como um doido, no rastro do negro, que fui achar pouco adiante, agarrado com um cabra moço e entroncado, como um mourão. Pelos modos, meu camarada tinha sido atacado de surpresa, nem teve tempo de se defender. E, antes de sair de meu assombro, o curiboca recuou num pulo, com os olhos relampeando, como uma onça acuada, e uma faca que era isto, encarnada de sangue, no punho. O Pedro se bambeou, com as mãos na barriga, como quem sofria uma grande dor. Aí, acudi com meu punhal desembainhado, e avistei uma coisa, patrão, que me tirou o sono muitas noites. O negro tinha levado uma estocada no vão do umbigo, que era mesmo uma barbaridade, as tripas tinham espocado, pois assim mesmo, quase de cócoras, procurando aguentar os bofes que escorriam para o chão, o preto arrancou a garrucha do quarto, e – ah! negro bom mesmo na hora! – levou um pé adiante, fazendo mira no assassino. Quando viu a arma alumiando, o cabra atirou-se pra cima dele, batendo o queixo que nem caititu furioso, mas já o tiro tinha estrondado por aquele sertão a fora. Aí, o homem deu um salto para o ar, como cabrito assustado, e caiu de bruços na estrada, sem bulir. Vendo-o derrubado, corri para o Pedro, que também tinha rolado na areia. Tomei a cabeça dele nas mãos, quis ver se ainda o levantava. Mas o pobre pegou a revirar os olhos, gemendo como doente de “puxado” no inverno. Só teve tempo de chegar a boca no meu ouvido, e disse, apontando o outro: – “É o irmão daquela diaba!”. – A cabeça pendeu pra trás, o corpo amoleceu nos meus braços. Estava morto, meu patrão!

Por causa disto, tive de andar no mato, fugido como cangaceiro, dois anos e tanto. Hoje, ninguém fala mais no caso, posso estar por aqui, sem medo. Mas, pra acabar a história direito, voltando uma vez no Crato, todo barbado e diferente, pra não me conhecerem, soube que o assassino do Pedro era um irmão da mulatinha do rio. Um comboieiro tinha encontrado os dois corpos na estrada, galopou como um doido até a cidade, e tudo se descobriu.

— Já vê, meu amo, que não serviu de nada a boa ação do preto, não tocando num cabelo da morena. Se ele tivesse feito mal a ela, talvez que nem a descarada contasse o caso aos parentes. Como o pobre a tratou como uma santa do altar, achou bom vingar-se.

  Mulheres?!… Pode crer, patrão. Uma tira pelas outras. E é tudo uma pouca vergonha.

 (Herman Lima, Tigipió, 7ª ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1976)

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

Herman de Castro Lima - (Fortaleza11 de maio de 1897 — Rio de Janeiro21 de julho de 1981) foi um contistamemorialista e crítico de arte brasileiro.


Seu pai, Antônio da Silva Lima, era de família sertaneja da região do Aracati; e sua mãe, Julieta Demarteau de Castro Lima, belga. Inicialmente, trabalhou como auxiliar de fotógrafo e, posteriormente, como feitor da rodovia em construção, que ligava o porto de Aracati aos sertões do Jaguaribe. De volta a Fortaleza, foi funcionário da Delegacia Fiscal. Neste posto, em 1922, transferiu-se para Salvador, onde diplomou-se em medicina e seguiu para clinicar no distrito diamantino de Lençóis, interior da Bahia. De suas experiências em Lençóis, escreveu Garimpos (1930), coletânea de contos, que posteriormente foi traduzida para o espanhol por Benjamin Garay.[1]
Em seguida, rumou para o Rio de Janeiro, então capital federal. Ali, foi auxiliar da Presidência da República entre 1933 e 1937, assumindo logo em seguida a Delegacia do Tesouro Brasileiro em Londres.[1] De volta ao Rio, em 1940, dedicou-se com afinco ao estudo da caricatura no Brasil, da qual já era meticuloso colecionador desde tenra idade. Dessa pesquisa resultou uma obra em quatro volumes que é até hoje uma referência-chave no assunto.[2] Foi um dos principais biógrafos de Cândido Aragonez de Faria.[3]
Lima traduziu vários autores, predominantemente do francês e do inglês. Também publicou livros de memória que, em geral, evocam seus tempos de juventude no Ceará e são marcados por um profundo senso de paisagem, nostalgia, aspectos etnológicos e certo pendor para a anedota.
Na literatura, começou a publicar artigos e charges na imprensa de Fortaleza sob o incentivo de Gustavo Barroso, ao final da década de 1910. Entre suas obras mais conhecidas, figuram Tigipió (1924), contos, seu livro de estréia, que mereceu menção honrosa da Academia Brasileira de Letras e teve o conto título adaptado para o cinema em 1986;[4]Variações Sobre o Conto (1952), crítica literária; Imagens do Ceará (1958) e Poeira do Tempo (1967), memórias; e História da Caricatura no Brasil (em 4 vols.), história e crítica de arte.
FONTE: Wikipedia

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

CONTISTAS DO CEARÁ (3)



“As Corujas” – Conto de Moreira Campos

Ele conversa muito consigo mesmo, repete-se, os olhos no chão e metido no dólmã de brim listrado, os pés redondos nas alpercatas. Resmunga, insistente. Fecha as janelas do velho necrotério. Apanha os pedaços de lona e, com eles, cobre os mortos sobre a lousa. Deixa-lhes apenas os pés de fora. A mulher sem chinelas, com sangue coagulado entre os dedos abertos; as grandes botas gastas e de cadarços do alemão andarilho, que amanheceu morto no oitão do armazém da praia, onde se alojara: o enorme saco e o livro de impressões, folheado por muitos dedos, foram recolhidos à delegacia. É preciso cobrir os mortos, proteger-lhes as cabeças. As corujas descem pela clarabóia. Têm voo brando, impressentido, num cair de asas leves, como num sopro de morte. De repente, dá-se conta de sua presença, das asas de pluma sem ruído. Alteiam-se e pousam sobre o peito dos mortos, arranhando-lhes os olhos parados, que fulgem na noite, divididos no meio.
– Xô, praga!
Os pedaços de lona ficam dobrados a um canto da sala escura, e ele os puxa sempre, curtos, deixando à mostra os pés inertes. Indispensável fazê-lo; depois fechar a luz triste da lâmpada, que desce pelo fio longo com teias de aranha. O facho da lâmpada de pilhas ainda percorre o teto de travejamento antigo. Crescem e oscilam as sombras: as botas de cadarço do alemão contra a parede – umas botas de muitas viagens. As corujas rasgam mortalha a noite toda na copa das altas árvores do terreno. O facho de luz tenta a densidade das folhas, corre cinzentos telhados, passa pela torre da capela, detém, ao longe, na janela de vidro do nosocômio. Em qualquer parte, na noite, estarão as corujas. Elas rasgam mortalha, agourentas, cortam o silêncio, sacudindo a vigília dos doentes. Recolhem-se, de dia, ao sótão da capela, onde pegam os ratos, que guincham nas suas garras. Necessário subir ao sótão, desfazer-lhes os ninhos. Falará com Irmã Jacinta, diretora do nosocômio, quando ela vier para a ala dos indigentes, ativa, tilintando as chaves no bolso do hábito. Ela mandará que Antero, jardineiro, trepe ao sótão. Ele é moço e divertido. Torcerá o pescoço das corujas, com os cabelos cheios de teia de aranha, e as atirará ao pátio do alto da torre, pilheriando com as enfermeiras. É preciso exterminar as malditas, que rasgam mortalha na noite, enquanto o facho de luz as procura na sombra densa das árvores:
– Xô, praga!
Resmunga, conversa sozinho, repete-se. Torna a experimentar as trancas das janelas, teima em ajeitar os pedaços de lona, que modelam saliências rígidas. O pedaço de lono do alemão ficou curto como uma camisa: têm presença apenas as botas. Resmunga. Se pudesse, ele próprio poria uma teia de arame na clarabóia. Já falou a Dr. Joca, que ele trata por você, porque foram criados juntos, e um xinga o outro. O bisturi do Joca corta sem pressa, profissionalmente. Luvas ensaguentadas, bigode branco amarelecido pelo fumo, ele apanha o cigarro com a boca no cinzeiro sobre o peitoril da janela. Secciona pedaços:
– Leva o balde.
O velho o recolhe, e conversa consigo mesmo, o corpo atarracado mal contido no dólmã de mescla.
Quando o homem que chegou do interior e se hospedou no quarto da pensão veio fazer velório ao corpo descarnado do filho, ele lhe deu a lâmpada de pilhas e o advertiu para as corujas. Elas desciam pela clarabóia, mesmo com a luz da lâmpada. Era preciso manter as velas acesas nos castiçais. Só assim as desgraçadas não vinham: temiam queimar as asas nas chamas. Ficavam rasgando mortalha no alto das velhas árvores ou na torre da capela. Sem a presença das velas, elas surgem sempre, impressentidas, como num sopro de mort: alteiam-se leves, pousam sobre o peito dos mortos e com o bico arranham-lhes os olhos, que fulgem parados e indefesos na noite.



Moreira Campos
O cearense José Maria MOREIRA CAMPOS (Senador Pompeu-CE, 06 de janeiro de 1914 – Fortaleza-CE, 06 de maio de 1994) é considerado um dos melhores contistas brasileiros. Alguns de seus contos estão traduzidos para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol e o alemão. Publicou sete livros de contos: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Veem Coisas (1987). E o livro de poesia, Momentos, de 1976.
  http://www.jornaldepoesia.jor.br/mcampos.html#bio

– Este conto faz parte da coletânea Contos Escolhidos de Moreira Campos, edição da Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1971.

Fonte: http://www.c7s.com.br/acade7/leitura-2/as-corujas-conto-de-moreira-campos/