quinta-feira, 3 de maio de 2018

Um poema de Evaristo Geraldo




Poeta Evaristo Geraldo na companhia de Chico Pedrosa, Marcelo Soares
e Arievaldo Viana, em Fazenda Melancia - município de Paulista-PB, terra
natal de Leandro Gomes de Barros.

No sertão de antigamente
Autor: Evaristo Geraldo

No sertão de antigamente
Tudo era mais salutar:
Rios e açudes limpos,
Sem Poluição no ar.
As florestas tropicais
Cercavam nossos quintais,
Era lindo o comtemplar!

Na casa do camponês
Entrava comida pura.
Na merenda sempre tinha
Leite, cuscuz, rapadura,
Água fresquinha no pote,
No almoço capão, capote
Com feijão verde e fuçura.

O jantar do sertanejo
Era farinha e coalhada.
Após o jantar ficavam
No alpendre ou latada.
Ali com muita atenção
Falavam de assombração,
De reinos, príncipes e fada.

Naquelas bocas de noite
Sempre faziam leitura
De romances de princesas,
Ou folhetos de bravura
E o leitor, pouco letrado,
Lá recitava empolgado
Versos com desenvoltura

As crianças do passado
Não desenhava em Corel.
Muitas nunca receberam
A visita do Noel
E por serem mui carentes
Nunca ganhavam presentes,
Nem brincavam em carrossel.

Mesmo sem ganhar presentes
As crianças eram felizes.
Faziam os próprios brinquedos,
As mais belíssimas matrizes.
Com ossos velhos de gados
Faziam bandos, soldados,
Conforme suas raízes.

Antigamente os meninos,
Que moravam no sertão
Para brincar precisavam
Forçar a imaginação
Uns fingiam ser soldados
Ou cangaceiros malvados
Do bando de Lampião.

Quem viveu naquela época
Traz tatuado na mente
Boas lembranças vividas
Ao lado de sua gente,
Cenas que o tempo apagou,
Mas que o cérebro preservou
Lá no subconsciente!

Da infância nós trazemos
Esses referenciais,
São estigmas que conduzem
Pelas veredas atuais.
Memórias, belas lembranças
Vividas, quando crianças,
Junto dos manos, dos país!

Fim


EVARISTO GERALDO


terça-feira, 1 de maio de 2018

Relembrando BELCHIOR



Caricatura: Gervásio


UM ANO SEM BELCHIOR, 

UM COMPOSITOR ALÉM DE SEU TEMPO

Transcrito do blog 247

Gustavo Conde(*), 247

A música popular brasileira tem em Belchior um de seus momentos mais densos. O compositor cearense impôs ao cancioneiro brasileiro uma temática complexa, ousada e de forte apelo popular. As letras de Belchior ultrapassam a força da própria canção e invadem o regime das citações sociais de maneira fragmentária e destacada.
É uma organização discursiva espontânea e singular, muito pouco comum para um letrista pertencente ao universo da indústria fonográfica e à cultura popular das narrativas urbanas. Belchior ultrapassa fronteiras formais, instala uma voz poderosa na cena musical e cria um discurso filosófico repleto de intertextos que violenta a percepção do ouvinte tradicional da canção, sugerindo uma ação crítica deste ouvinte, seja com relação a sua existência enquanto sujeito da história, seja com relação à própria canção, numa dialética complexa e de caráter mobilizador.
Belchior escolhe com muita precisão a temática que vai servir de condutor para esta pletora de sentidos. Ele faz uso, em primeiro plano, da história. Suas canções são fortemente contextualizadas no tempo e no espaço. O Brasil dos anos 70 está lá como em poucos outros lugares: as migrações internas, o preconceito, a utopia, a opressão, a cultura como fonte de resistência, a plurivocalidade da canção popular (que se desdobra em tema), a cena familiar e passional típicas de um regime de exceção e exclusão, a amizade revolucionária, a sutileza avassaladora das metáforas que driblam a censura do próprio ‘eu’, enfim, uma organização temática que vai produzir um significado muito peculiar de unidade formal, porque, dentro da sua multiplicidade, vai servir sempre a um sentido fundador e onipresente: o sujeito que não se enquadra nas convenções sociais mas que ao mesmo tempo as respeita e as investe de delicadeza e humanidade.
Em um segundo plano formal, Belchior constrói scripts que conduzirão toda a sua obra de maneira quase obsessiva. Ele lida com dicotomias retoricamente muito poderosas e geradoras de energia narrativa: o velho e o novo, o passado e o presente, o conhecido e o desconhecido, o contemplado e o contemplador, o cantor e o ouvinte, a origem e o fim, o popular e o erudito e a urgência e o vagar.
Todos esses contrários são as molas narrativas que lançam em cena um sujeito tomado por uma tensão filosófica incessante, que estabelece um regime de temporalidades psicológicas vertiginoso, em que os espaços para distensão serão os momentos de resolução das canções, em geral seus finais, em que o eu cancional consegue respirar em meio às suas infinitas indagações existenciais.
Belchior também postula um eu cancional dotado de extrema personalidade, persuasivo, invocador, mobilizador, atentador. Um eu que quer o tempo todo tocar e invadir o espaço de seu outro, seja o objeto desejado na canção, seja o próprio ouvinte da canção. Isso se materializa numa dicção fortemente interpelativa, interlocutória, dialógica. O eu belchioriano é invasivo, revolucionário e dotado de extrema energia simbólica e física – pois ele busca e se debruça via sub narrativas nesse ‘outro’ que habita a canção.
O eu belchioriano, no entanto, vai além. Ele se estilhaça e promove um discurso polifônico, distribuindo a voz múltipla que habita o coração do compositor. A potência de um eu tão complexo e, por vezes, difuso acaba por configurar uma voz extremamente inquieta, como sói acontecer, por exemplo, em Dostoiévski. O eu cancional de Belchior adentra essa sofisticação literária e possibilita essa multiplicidade vocal que, como em Dostoiévski, pode, às vezes, ceder espaço autoral às próprias criações que emanam de uma mente concreta e localizável no mundo (Antonio Carlos Belchior e/ou Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski). Em suma, em alguns momentos um dos vários eus coadjuvantes de Belchior toma posse da narrativa cancional e joga o protagonista para uma posição narrativa secundária (isso acontece em “Paralelas”).
Belchior, portanto, não propõe um eu cancional onipresente apenas: ele propõe um regime de eus. Outra consequência dessa formalização enunciativa é uma voz concreta do intérprete de si mesmo Belchior que acabou por se tornar uma referência estética de projeção vocal. Belchior fala enquanto canta. Ele discursa, acelera os tempos, comprime a prosódia, amplifica a métrica, modula a colocatura, busca a “falha” como expressão, adensa o timbre, manipula o curso natural das resoluções rítmicas, raspa a glote em busca de profundidade passional, alterna coloquialismos, inverte posições sintáticas – aqui, já numa contaminação de sua própria concepção intelectiva das canções como unidades de sentido e de tensão.
Por fim, Belchior inaugura um ethos cancional peculiar, comum aos desbravadores de sentido, por assim dizer. Um ethos é um modo de dizer, uma dicção específica dotada de um tom específico que produz um efeito novo com relação ao conteúdo ali propagado. A título de ilustração, eu colocaria entre os desbravadores de sentido, Darwin, Freud e Marx. Esse autores não foram só autores: eles fundaram discursividades, com suas respectivas maneiras de narrar as próprias descobertas científicas.
À sua maneira, Belchior é um fundador de discursividade. Ele planeja sua peça cancional dentro de um rigor estético muito evidente, mas ao interpretar a si mesmo com sua voz única, ele intensifica ainda mais o sentido geral de seu enunciado.
Belchior é até mais que um intérprete de si mesmo no sentido estrito. Sua própria vida foi tomada pela força de sua obra. Como suas letras já relatavam uma autobiografia fragmentária que se confundia com sua própria vida de compositor e cantor celebrado na cena musical, o desdobramento de ambas, vida e obra, tomou o destino de assalto.
Belchior que amou viajar pelo Brasil e fez disso um tema recorrente em suas canções, acabou ele mesmo confinado em um país vizinho – o Uruguai – para viver seus momentos finais como indivíduo de carne e osso. Projetos interrompidos, legado mal resolvido, legiões de fãs órfãs antes mesmo de sua despedida, tudo isso poderia muito bem compor um desdobramento de sua temática cancional. Aliás, de uma certa maneira, tudo isso está lá, edificado em versos premonitórios e de raríssima beleza e força.

(*) Gustavo Conde é músico, linguista e professor. Lida com teorias do humor e com os processos de produção do sentido político. É autor do Blog do Conde, espaço de discussão de temas políticos, acadêmicos e literários.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

TIÃO SIMPATIA NA ABLC



Sebastião Félix de Oliveira Jucá

O Poeta Popular Tião Simpatia foi alfabetizado aos 15 anos de idade por meio da Literatura de Cordel na Zona Rural de Granja-Ceará. Concluiu seus estudos em Camocim, mudando-se para Fortaleza em 2006, onde reside atualmente.
Com 24 anos de estrada, mesclando música, cordel e cidadania, o artista tem vários CDs lançados e dois DVDs”, além de vários cordéis dentre eles o mais conhecido “A Lei Maria da Penha em Cordel ”, traduzido para o inglês, espanhol, braile, e apresentado para 60 mil alunos da Rede Municipal de Ensino de Teresina, entre os anos de 2014 a 2017.
Viaja por todo o Brasil se apresentando ao lado de Maria da Penha e foi quatro vezes à África: duas vezes a Cabo Verde e duas vezes a São Tomé e Príncipe. Sua trajetória internacional começou em 2011 quando foi convidado pela Organização das Nações Unidas-ONU, para participar de uma oficina sobre violência doméstica, com 26 artistas Latino-Americanos na Cidade do Panamá.
Em 2011 passou a integrar a Red de Artistas ÚNETE da Campanha Global do então Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC; Sócio Efetivo da Academia de Ciências, Artes e Letras de Camocim-ACCAL; parceiro do Instituto Maria da Penha e Presidente da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência – APAVV.

Contatos:

Whatsapp: (85) 9.9949.1338 / 9.8187.8899

segunda-feira, 16 de abril de 2018

UM ANO SEM GONZAGA



RELEMBRANDO O POETA
GONZAGA VIEIRA

Conheci o poeta José Maria GONZAGA VIEIRA em 1980, no Salão Arte Canindeense, que funcionava nas imediações do zoológico de Canindé. A princípio eu não sabia que ele era cordelista e muito menos que já tinha algumas obras publicadas. A atividade por ele exercida, que me despertou interesse, era o ofício de artesão. Gonzaga trabalhava com um material bem variado: sementes de mucunã e mulungu, couro de porco curtido, talos de carnaúba, fios elétricos, arame, lã, cola de sapateiro, pedaços de madeira e usava tinta e verniz para o acabamento final de suas peças. Eram pequenos bonecos, sozinhos ou em dupla, sobre um pequeno pedestal de madeira, representando figuras típicas do Nordeste como o vaqueiro, a dupla de violeiros, Lampião e Maria Bonita, dentre outros. Esses pequenos calungas eram de uma expressividade ímpar e praticamente nunca mais vi algo parecido. Além de montá-los sobre um pedestal, Gonzaga também os fazia em formato reduzido e os pendurava em chaveiros. Tinham ótima aceitação junto aos romeiros. Além do artesanato, que aprendera com um hippie em Fortaleza, no início da década de 1970, Gonzaga também se dedicava à pintura num estilo próximo ao surrealismo.
Certa feira ele me viu com uma pequena tábua nas mãos, tentando fazer uma matriz de xilogravura. Era coisa puramente intuitiva, porque eu nunca vira ninguém trabalhar com essa técnica. Apenas umas fotos de matrizes do Mestre Noza numa matéria de jornal. Foi somente aí que ele me disse ser poeta popular, com folhetos publicados. Suas obras iniciais foram O ABC do Consumidor e O ABC dos Tubarões. No momento escrevia folhetos sobre São Francisco das Chagas, padroeiro da cidade, cujo oitavo centenário de nascimento se aproximava. Apresentou essa obra na SECULT-CE e levou até um desenho feito pelo Lisboa, para servir de capa. Seu texto não foi publicado e a capa foi utilizada em outro cordel escrito pelo Padre Matusalém de Sousa, com a mesma temática escolhida por Gonzaga. Isso lhe despertou um sentimento de revolta que ele externou por longo tempo.
Certa tarde apareci no Salão Arte Canindeense e ele estava com um caderno nas mãos, escrevendo um cordel. Dei alguns palpites, de rima e métrica e ele me propôs a parceria. “Vamos fazer a quatro mãos, poeta” – disse-me ele. Sentamos num banco do zoológico, próximo à jaula dos leões e começamos a nossa parceria. Era um folheto intitulado “Um dia de eleição no país da bicharada”, daí a escolha do zoológico para pesquisar costumes dos que se encontravam ali, sobretudo os macacos, que eram personagens de destaque nessa trama imaginária. Subitamente chegou um funcionário do zoológico trazendo a carcaça de um jumento morto e esfolado num carrinho de mão, para servir de repasto aos leões. Admiradores de Padre Vieira e Luiz Gonzaga e defensores naturais do jumento, nos revoltamos com aquilo e começamos, de imediato, outro cordel intitulado “O massacre do Jumento Nordestino”, cujas estrofes iniciais diziam o seguinte:

O jumento nosso irmão
Cantado em prosa e verso
Que um dia transportou
O Autor do Universo
Vive hoje maltratado
Sendo até eliminado
Num atentado perverso.

Na fuga para o Egito
Jesus, José e Maria
Optaram pelo jegue
Por ser boa montaria
E a Família Sagrada
Viu-se assim transportada
Com conforto e garantia.

(...)

Nos circos e zoológicos
É comida de leão
Repasto de outras feras
É o nosso pobre irmão;
Há tempos Luiz Gonzaga
Denunciava esta saga
Em inspirada canção.

Esse caderno, contendo uns dez originais que produzimos entre 1981 e 82, perdeu-se, irremediavelmente, por ocasião de um dos porres que o poeta costumava tomar. Às vezes passava semanas inteiras mergulhado na bebida. Tempos depois resolveu ingressar num grupo de Alcóolicos Anônimos, onde perseverou por algum tempo, abolindo completamente o uso da bebida. Porém, tinha recaídas e, quando menos se esperava, retornava ao álcool. A princípio, era vinho e cachaça. Já nos últimos anos de vida, dava preferência à cerveja.
Fizemos muita coisa em parceria... Escrevemos mais de 20 cordéis, dentre os quais: "O massacre do jumento nordestino", "Um dia de eleição no país da bicharada", "As peripécias da Vaqueira Rozadina", "A lida de Conrado e a honradez sertaneja", dentre outros. Editamos, no final da década de 1980 um fanzine chamado TRAMELA, com tiragem de, aproximadamente, 500 exemplares mensais. Publicamos um álbum de HQ em cordel, um dos primeiros desse gênero, intitulado Canindé – Cidade da Fé, com tiragem de 10 mil exemplares, que esgotaram em menos de um ano!
Atuamos juntos nas rádios Jornal de Canindé AM e São Francisco AM, participamos de feiras e palestras sobre cordel e, um ano antes de sua morte, gravei o seu depoimento para o IPHAN. Mais de uma hora em áudio e vídeo falando da sua atuação como poeta popular e folheteiro. Por ocasião de sua morte, em abril deste ano (2017), publiquei essa homenagem ao poeta no blog “Mala de Romances”:



ENCANTOU-SE O POETA GONZAGA DE CANINDÉ
(Texto publicado em abril de 2017)

Faleceu na madrugada do último domingo (16/04), no Hospital Regional São Francisco de Canindé, vítima de úlcera no estomago, o cordelista José Maria Gonzaga Vieira (Gonzaga Vieira), 70 anos, nascido aos 20 de setembro de 1946. (...)
O corpo do poeta Gonzaga de Canindé foi velado na sede da Associação da Cultura de Canindé, ao lado da Policlínica, na Av. Francisco Cordeiro Campos, no bairro do Monte. Juntamente com seu primo Lisboa e outros artistas canindeenses, lutava pela criação de uma entidade para congregar os artistas de sua terra, sendo que as primeiras tentativas foram o Salão Arte Canindeense, e depois a PROARTCA - Projeção Artística Canindeense, que infelizmente nunca se consolidou. Mais tarde, esse mesmo grupo fundaria a Associação de Artesãos de Canindé, que existe até os dias de hoje.
José Maria Gonzaga Vieira era artesão, radialista, cordelista, escritor, poeta popular e representante regional da Associação Cearense de Jornalistas do Interior ACEJI. Seus trabalhos mais conhecidos como cordelista eram O ABC do Consumidor, Assim era São Francisco, Canindé da Lenda à Realidade, Peripécias da Vaqueira Rozadina, A lida de Conrado ou a honradez sertaneja e História de Aparecida, a Menina Perdida nas Matas do Amazonas, A vida de Alan Kardec em cordel, dentre outras. Muitas dessas obras foram publicadas pela Tupynanquim Editora, do poeta e editor Klévisson Viana.
De acordo com pessoas mais próximas a Gonzaga, ele vinha lutando contra uma enfermidade na próstata, inclusive já marcara uma cirurgia, que não chegou a se realizar. Porém, não foi esse o motivo de sua morte; de acordo com levantamentos feitos junto aos parentes de Gonzaga, ele passou mal no dia 14 de abril, sendo socorrido na Unidade de Pronto Atendimento - UPA 24 Horas, e depois encaminhado ao Hospital São Francisco, onde veio a falecer por volta das 4 horas da madrugada de domingo, 16 de abril. Conforme o laudo médico, vítima de complicações em úlcera no estômago, a qual já se encontrava em estágio bastante avançado. O sepultamento de Gonzaga Vieira aconteceu no Cemitério São Miguel, em Canindé, às 16 horas de domingo, 16 de abril de 2017.
José Maria Gonzaga Vieira nasceu em Canindé no dia 20 de setembro de 1946, filho de Francisco Barbosa Vieira e Bernardete Maria Gonzaga, filha do mestre Luiz Gonzaga de Maria (Luiz Fabiano), que foi, segundo o poeta, aluno do Liceu de Artes e Ofícios fundado pelos frades Capuchinhos, que administraram a Paróquia de Canindé no período de 1896 a 1923. Luiz Fabiano foi construtor de vários prédios em Canindé, inclusive a ermida do Monte ou Igreja de Cristo Rei.

* * *

(Do livro NO TEMPO DA LAMPARINA, ainda inédito)

sexta-feira, 6 de abril de 2018

MUSEU LUIZ GONZAGA E O SERTÃO


Ilustração: Arievaldo Vianna

Em 1934, após uma viagem de 1.307 quilômetros pelos sertões do Rio Grande do Norte, numa comissão governamental, o grande folclorista Luís da Câmara Cascudo publicou uma série de artigos no jornal A República que foram enfeixados, logo a seguir, num livro intitulado “Viajando o Sertão”, um misto de reportagem, crônica e ensaio, abordando os mais palpitantes temas da vida sertaneja. Nessa obra, da qual possuo um exemplar da terceira edição, presente do amigo Carlos Alberto, de Natal,  o mestre potiguar faz uma análise do comportamento dos velhos sertanejos diante da Natureza e da arte, fazendo a seguinte assertiva: “o sertanejo não tem sentimento decorativo nem ama sensorialmente a Natureza. Seu encanto é pelo trabalho realizado por suas mãos. Nisso reside seu manso orgulho de vencedor da terra”. Cascudo se refere àqueles sertanejos nordestinos da primeira metade do século XX, que viviam enclausurados em suas fazendas, distantes do litoral e da chamada civilização.
E arremata: “Só deparamos um sertanejo extasiado ante a Natureza quando esta significa para ele a roçaria virente, a vazante florida, o milharal pendoando, o algodoal cheio de capulhos. Árvore por si só nada quer dizer. A oiticica vale pela sombra que dá nos meio-dias de queimada. O verde úmido dos juazeiros lembra sempre forragem fácil e segura. A noção de Beleza para ele é a utilidade, o rendimento imediato, pronto e apto a transformar-se em função.” Parafraseando Oscar Wilde, conclui citando a sua frase irônica “a arte é perfeitamente inútil”, dizendo que ela poderia ter sido proferida por um comentador sertanejo.

A música de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, representa tudo isso que foi dito por Cascudo: o roçado, o milho pendoando, o algodão carregado de capulhos, o juazeiro, a oiticica, a vazante florida, mas representa também o que há de mais belo na Natureza: o sabiá, a asa-branca, o mandacaru que ‘fulora’ durante a seca pressagiando um bom inverno, o coaxar da saparia na lagoa e até mesmo canto triste da Acauã. A poesia de Humberto Teixeira e Zedantas, dois sertanejos de boa cepa, está recheada de tudo isso. Essa música tão rica de sentimento, tão impregnada das belezas da Nação Nordestina, foi a trilha sonora de minha infância. 



MADALENA GANHA MUSEU 
EM HOMENAGEM À GONZAGÃO

Matéria publicada no jornal FOLHA DO POVO, de Canindé-CE

A música de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, foi a trilha sonora de minha infância. Logo cedo, ao acordar, o rádio de minha avó já estava ligado nos programas sertanejos recheados de boa música e poesia. Qual foi o menino sertanejo da década de 1970 que não se encantou com a prosa faceira de Karolina com K e Samarica Parteira?

Certa feita o apresentador Carneiro Portela, criador do Ceará Caboclo, fez um programa especial em homenagem a Luiz Gonzaga, onde afirmava que a música do Rei do Baião representa a alma do Nordeste e, para enfatizar ainda mais a sua teoria, concluiu do seguinte modo: “ Se, por uma fatalidade, o Nordeste fosse destruído por uma hecatombe, seria possível reconstruir a sua história a partir das canções de Gonzagão e seus parceiros. Está tudo ali  o lavrador, o vaqueiro, o cangaceiro, a parteira, o tropeiro, a fauna, a flora, os costumes, a casa de farinha, o engenho, as festas juninas, os animais domésticos.” É interessante notar que em todas as canções, sem exceção, está presente a marca da cultura e das tradições do povo Nordestino. Por esta razão, em 2012  ano do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga do Nascimento , lancei pela Editora Armazém da Cultura, em parceria com Arlene Holanda, o livro “O beabá do Sertão na voz de Gonzagão”, adotado pelo MEC, através do PNBE (Programa Nacional da Biblioteca da Escola), no ano seguinte.


Disco raro do acervo de Gilvan Sales

Norteado por esse mesmo sentimento, o vereador Gilvan Sales, de Madalena-CE, fã “gonzagueano” desde a adolescência, implanta naquele município o museu LUIZ GONZAGA E O SERTÃO, onde disponibilizará um vasto e precioso acervo composto de discos de cera e vinil, CD's, livros, revistas, cartazes, recortes de jornal e objetos relacionados com a fulgurante carreira do Rei do Baião. Afora esse material, o museu reunirá também centenas de objetos do Nordeste de outrora, muitos já em desuso, como bolandeiras, objetos de cerâmica, artesanato em couro e madeira, além de apetrechos da agricultura e da pecuária que remetem ao sertão cearense dos séculos XIX e XX. Gilvan adquiriu também aviamentos de casa de farinha e um engenho para fabricação de mel e rapadura.
“— Inicialmente eu me interessava apenas pela música e passei a adquirir todos os LP's de Gonzaga, dando preferência aos originais, embora não descartasse os relançamentos. Depois disso passei a comprar discos de cera, LP's de 10 polegadas, CD's e outras mídias contendo a obra do Rei do Baião. Sertanejo que sou, filho, neto e bisneto de fazendeiros da região de Madalena e Quixeramobim, sempre me interessei por esse universo e quando nasceu a idéia de criar o museu, passei a adquirir outros objetos que reforçam essa ligação da música de Gonzaga com o sertão”, conta Gilvan Sales.
Ele relembra que, em meados da década de 1960, Luiz Gonzaga esteve em Madalena, a convite do vigário de então, Padre Gotardo Lemos, lançando o livro “O sanfoneiro do Riacho da Brígida” do escritor Sinval Sá. Padre Gotardo é autor da canção “Obrigado João Paulo II”, feita por ocasião da primeira visita do Santo Padre ao Brasil, gravada por Luiz Gonzaga em compacto RCA, no ano de 1980.


Luiz Gonzaga na Missa do Vaqueiro, em Canindé-CE

Por outro lado, Madalena é berço de grandes sanfoneiros, com destaque para as famílias Araújo (Mário, Nelson, João, Gilberto, Edmundo e Pedrinho), e Carloto (do patriarca Carloto Costa, pai de Raimundo Carloto, Valnir e seus manos), além do conhecido Zé do Norte, instrumentista respeitado e produtor de artistas consagrados, do chamado forró pé de serra.
O pesquisador Reginaldo Silva, que foi secretário particular de Luiz Gonzaga por quase duas décadas, já esteve visitando as instalações do museu, ainda em construção, e orientou Gilvan Sales acerca da catalogação do acervo. O próprio Reginaldo tem uma exposição itinerante sobre a vida e a obra de Luiz Gonzaga, que vem percorrendo o Brasil inteiro, em especial os Estados da Região Nordeste, onde se concentra a maior parte da legião de admiradores do sanfoneiro do Araripe. 


Vereador Gilvan Sales, idealizador do MUSEU


Reginaldo Silva, ladeado por Gilvan Sales e sua esposa


Em conversa com Reginaldo Silva, tomamos conhecimento de um fato interessante a respeito dessa visita à Madalena. Padre Gotardo foi buscar Gonzagão e seus músicos em Fortaleza e, durante o trajeto, o Rei do Baião queixou-se de fome:
— Eu sei que padre gosta de jejuar, mas eu estou com uma fome da gôta, padre Gotardo. Vamos parar para comer alguma coisa.
Pararam justamente em Canindé. Procuraram um restaurante próximo à Basílica e Gonzaga perguntou:
 — Esta cidade é Canindé?
 — É sim, respondeu o padre Gotardo.
 — Vixe, rapaz! Eu não posso andar aqui não. Eu e Humberto (Teixeira) fizemos uma música homenageando a romaria (Estrada de Canindé), mas parece que as elites locais não gostaram muito, porque na canção a gente diz que o povo daqui não sabe o que é “automove”.
E caiu na gargalhada, com aquele bom humor que lhe era peculiar.


Prédio que irá abrigar o acervo do museu


MUSEU E CORDELTECA EM MADALENA


O Museu Luiz Gonzaga e o Sertão está sendo construído na fazenda Treme, que fica há poucos quilômetros após o Açude Umari. Esse reservatório também vem se afirmando como um ponto turístico no município de Madalena. A fazenda de Gilvan é herança de seus antepassados: seu bisavô Francisco de Assis de Sousa Filho, sua avó Aldamir Sousa e seu avô Zizi. Parte da propriedade encontra-se coberta pelas águas da represa do açude Umari. Muitas casas da localidade foram tragadas pelo açude. Porém, antes da inundação, Gilvan fez uma pesquisa no local e recolheu muitos objetos como moinhos, pilões, ferros de engomar a brasa, ferros de marcar gado, lampiões a gás, telhas e tijolos bastante antigos. É uma iniciativa privada, feita com recursos próprios.
Paralelo à implantação do museu, que terá uma sala dedicada à história e tradições culturais do município, Madalena receberá também uma biblioteca de cordel  a Cordelteca Alzira Vianna de Sousa Lima, iniciativa do escritor Arievaldo Vianna, neto da homenageada. O acervo será constituído de 800 folhetos, de diversos autores, e cerca de 100 livros sobre Literatura de Cordel, cantoria e cultura popular em geral. A implantação da cordelteca conta com total apoio da prefeita Sônia Costa e do vereador Gilvan Sales. 

Por Arievaldo Vianna

domingo, 25 de março de 2018

NO TEMPO DA LAMPARINA


Capa de Maércio Siqueira / Caricatura: Jô Oliveira

PREFÁCIO
O sertão das nossas memórias

Como nas antigas estórias de Trancoso, em que fabulosos tesouros são desenterrados, Arievaldo Viana abre, nesta obra, os baús da própria memória, e tira de lá um mundo de vivências que retratam não apenas suas experiências individuais, mas todo o quadro de um sertão desconhecido das novas gerações.
Já para os que, como ele, nasceram naquela parte do mundo nos anos 1960 – e que, portanto, viveram no mesmo cenário e em circunstâncias semelhantes – este livro tem o condão de os transportar instantaneamente para aquela realidade de cores fortes e sons marcantes...
Foi assim que ao ler avidamente cada página pisei novamente na areia fria do riacho à sombra dos pés de oiticica, ouvi os bandos de capotes no terreiro, senti o cheiro do ferro a brasa, da folha verde de marmeleiro e da cinza de fogão a lenha que se misturava aos objetos do precioso monturo... ouvi o tilintar dos chocalhos pesados das vacas, e dos mais delicados, das ovelhas, sendo tangidas nas capoeiras, pelo familiar aboio dos vaqueiros...
Percorri o corredor da casa de fazenda, abri o caixão da farinha e vi, na despensa, a prateleira dos queijos e os baús de redes lavadas e cheirando a sol, prontas para receber hospitaleiramente qualquer viajante que chegasse, a qualquer hora do dia ou da noite.
O valor de obras como esta ultrapassa em muito o papel de reavivar memórias familiares. Este livro é o retrato histórico de uma época, o que enriquece o conhecimento que se tem a respeito da humanidade, cuja jornada é a somatória de cada vivência, cada saber particular e de grupos ou comunidades.
Assim, nas memórias bem-humoradas de um menino atento ao mundo à sua volta, vêm à tona tradições e práticas que se perderam completamente ou estão em vias de desaparecer, como o trabalho artesanal do curtidor de couro.
São muitas histórias, boas de contar, de ler e de ouvir, pelos que as viveram e pelos que nunca imaginaram que tal mundo possa ter existido.

Ana Rita Araújo
(jornalista)




NO TEMPO DA LAMPARINA
Memórias de um menino sertanejo

A sombra que me move
Também me ilumina
Me leve nos cabelos
Me lave na piscina
(...)
O pêlo do cavalo
O vento pela crina
O hábito no olho
Veneno lamparina.
(Galope Razante – Zé Ramalho)

Na infância eu considerava as histórias de encantamento dos folhetos de cordel como verdadeiras ou, pelo menos, plausíveis. Por estarem impressas no papel me pareciam mais dignas de crédito que as histórias de Trancoso contadas oralmente pela velha Bastiana e sua neta Rita Maria. A própria Bíblia, tida como o mais sagrado e verdadeiro dos livros, não encerrava a história da jumenta de Balaão, que adquirira voz humana e falara fluentemente? Moisés não abrira o Mar Vermelho para que os israelitas o atravessassem a pé enxuto, com a mesma facilidade com que se corta uma talhada de melancia? O profeta Elias não fizera cair fogo do céu? Não havia dividido as águas do Rio Jordão com o simples toque de sua capa? O profeta Eliseu, seu sucessor, não multiplicara milagrosamente o azeite da viúva em cuja casa se hospedara? O combate do pequeno Davi contra o gigante Filisteu não poderia ser a própria Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de que nos fala o livro de Carlos Magno e dos Doze Pares de França? Se São Jorge, um santo reconhecido pela Igreja Católica, combatera um dragão, por quê Juvenal, personagem do folheto do poeta Leandro Gomes de Barros, não poderia ter realizado um feito similar?
Para completar esse universo místico e encantado, eu ouvia constantemente, no alpendre da casa de meus avós, histórias de botijas, de alma penada, de lobisomens e até de discos voadores como coisa absolutamente real, palpável e natural. Nascidos e criados no “tempo da lamparina”, os meninos de minha geração não dispunham de outras diversões que não fossem as cantigas de roda, a audição de velhos contos de fadas adaptados à linguagem sertaneja, os folhetos de cordel e o rádio de pilha. Some-se a isso, cantorias, vaquejadas, forrobodós, leilões, reisados e novenas.

Ouro Preto

Eu gostava mesmo era de escutar a prosa dos adultos, à sombra dos alpendres, em noites de lua cheia ou sob a luz do candeeiro. Tudo isso era projetado pelo caleidoscópio de uma imaginação fértil e prodigiosa, da qual sempre fui dotado. De modo que, quando me via sozinho no meio do mato, imaginava encontrar um desses entes fabulosos descritos pelos adultos e registrados nas páginas dos cordéis. Dentre todos, o que eu mais       ansiava encontrar era o gênio da lâmpada, das histórias de Alladim, a fim de realizar os três pedidos. O primeiro deles, sem dúvidas, seria um passeio no tapete voador, elevando-se do pátio da fazenda de meu avô com destino a serra dos Três Irmãos, Serra do Peitão, Serrinha do Teixeira e Serra da Cacimba Nova. Desde a mais tenra idade eu nutria verdadeiro encanto pelas serras, lugar de onde me parecia vir a chuva. E, como toda criança, eu queria voar. Nessa fase da vida quantas vezes não sonhei voando?
Complementando tudo isso, havia as histórias mirabolantes do Chico Pavio, filho da velha Bastiana, que também possuía uma imaginação prodigiosa. Às vezes ele fazia parte do adjunto de trabalhadores que auxiliavam meu pai na sua lavoura. No próprio eito ele desfiava alguns causos interessantes, que eram intercalados pela voz do Chico Cazuza, o Cazuzinha, fã de cantorias, que sabia de memória muitas glosas atribuídas aos famosos Bentevi Neto e Cego Aderaldo. Papai dava larga preferência ao segundo, eu gostava, também, das lorotas do primeiro. Eis um causo contado pelo Chico Pavio: segundo ele, os serrotes dos Três Irmãos eram três reinos encantados, erguidos em remotas eras, por uma raça nobre e desconhecida, exuberante e rica. Mas os três castelos foram encantados pelo poder de gênios do espaço e transformados em três gigantescos blocos de pedra. Quando eu ia buscar água na companhia de meu pai, na Fonte das Coronhas, que fica no sopé do primeiro serrote, ansiava encontrar alguma princesa encantada, avistar a lendária Mãe D’água e até mesmo o dragão que guardava a porta de entrada do Reino Encantado. Dei asas à imaginação e descrevi tudo isso em um poema chamado “O Marco Cibernético do Reino dos Três Monólitos”, que se encontra reproduzido integralmente neste livro.
Quando eu era menino havia um cruzeiro no topo do primeiro serrote, erguido pelo Sr. Lauro Calixto, com a ajuda do padre José Bezerra. As pessoas escalavam aquela subida íngreme, de aproximadamente 540 metros de altitude, para rezar terços, ladainhas e pedir um bom inverno. Um desses devotos era o nosso parente José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel, que chegava descrevendo as maravilhas da subida. Eu ansiava por fazer parte dessa comitiva, mas nunca me permitiram. Até que um dia, por obra de uma “Nova Seita”, o velho cruzeiro veio abaixo a golpes de foice e machado.
Somente no dia 4 de junho de 2017 é que pude realizar o meu intento de escalar o serrote e vislumbrar a belíssima paisagem que se descortina nas quatro direções. Ao Leste fica o açude do Saco da Serra e a comunidade de Esperança, bem como a ladeira do Pitanguá, que impressionou o arcebispo Dom Antônio de Almeida Lustosa em seu livro ‘Notas a lápis’, publicado na década de 1940. Ao Norte, as terras do Mofumbo, Pau D’arcal, Serrinha dos Paulinos e Cachoeira dos Barbosa. À Noroeste, fica a Várzea Grande e a Oeste, Cacimbinha, União e São José da Macaóca. À Sudoeste avistam-se contornos das serras que ficam próximas à cidade de Madalena e, ao Sul, a exuberante Serra da Cacimba Nova, inegavelmente a mais bela de todo o conjunto dessa muralha de pedra que parece ser uma continuação da mesma cordilheira que engloba os monólitos de Quixadá. Finalmente, ao Sudeste, a Serrinha do Teixeira que, segundo dizem, teria sido o cenário de um teste nuclear na década de 1950.
Há quase 300 anos os troncos familiares que deram origem à minha raça habitam este pedaço de chão. Todos os descendentes dos clãs Sousa-Vianna, Sousa-Araújo, Barbosa-Severo, Lobo, Chagas, Martins, Maciel, Paulino etc. têm raízes fincadas nesse pedaço de chão. A história desses clãs é minunciosamente descrita no primeiro livro desta série, cujo título é “Sertão em Desencanto – I Volume de Memórias”, obra de menor teor poético, porém fortemente embasada em documentos, daí o seu valor como relato histórico.
Por quê “Sertão em Desencanto”? Dentre muitos outros motivos e explicações eu diria que aquele encantamento pelo maravilhoso, pelo heroico e pelo fantástico que acalentei na infância foi quebrado pelo rude martelo da realidade. Foi minado pelos espinhos e dissabores que inevitavelmente nos agridem ao longo de nossa caminhada. Mas também pela descaracterização de nossa cultura, pelo desaparecimento de velhas tradições, pelo aniquilamento de nossos costumes mais simples e fraternos. O sertão de hoje em dia está muito modificado!
Por isso tomei a iniciativa de escrever estes livros de memórias, permeados de causos, de sonhos e encantamentos, para que as gerações futuras não percam o fio da meada e saibam que o nosso sertão nem sempre foi assim, displicente, desleixado, alienado e ignorante de suas matrizes culturais. Subam comigo, a bordo desse tapete voador, e retornemos ao sertão dos tempos da lamparina, fazendo de conta que o velho candeeiro é a lâmpada de Alladim.

Arievaldo Vianna