domingo, 25 de março de 2018

NO TEMPO DA LAMPARINA


Capa de Maércio Siqueira / Caricatura: Jô Oliveira

PREFÁCIO
O sertão das nossas memórias

Como nas antigas estórias de Trancoso, em que fabulosos tesouros são desenterrados, Arievaldo Viana abre, nesta obra, os baús da própria memória, e tira de lá um mundo de vivências que retratam não apenas suas experiências individuais, mas todo o quadro de um sertão desconhecido das novas gerações.
Já para os que, como ele, nasceram naquela parte do mundo nos anos 1960 – e que, portanto, viveram no mesmo cenário e em circunstâncias semelhantes – este livro tem o condão de os transportar instantaneamente para aquela realidade de cores fortes e sons marcantes...
Foi assim que ao ler avidamente cada página pisei novamente na areia fria do riacho à sombra dos pés de oiticica, ouvi os bandos de capotes no terreiro, senti o cheiro do ferro a brasa, da folha verde de marmeleiro e da cinza de fogão a lenha que se misturava aos objetos do precioso monturo... ouvi o tilintar dos chocalhos pesados das vacas, e dos mais delicados, das ovelhas, sendo tangidas nas capoeiras, pelo familiar aboio dos vaqueiros...
Percorri o corredor da casa de fazenda, abri o caixão da farinha e vi, na despensa, a prateleira dos queijos e os baús de redes lavadas e cheirando a sol, prontas para receber hospitaleiramente qualquer viajante que chegasse, a qualquer hora do dia ou da noite.
O valor de obras como esta ultrapassa em muito o papel de reavivar memórias familiares. Este livro é o retrato histórico de uma época, o que enriquece o conhecimento que se tem a respeito da humanidade, cuja jornada é a somatória de cada vivência, cada saber particular e de grupos ou comunidades.
Assim, nas memórias bem-humoradas de um menino atento ao mundo à sua volta, vêm à tona tradições e práticas que se perderam completamente ou estão em vias de desaparecer, como o trabalho artesanal do curtidor de couro.
São muitas histórias, boas de contar, de ler e de ouvir, pelos que as viveram e pelos que nunca imaginaram que tal mundo possa ter existido.

Ana Rita Araújo
(jornalista)




NO TEMPO DA LAMPARINA
Memórias de um menino sertanejo

A sombra que me move
Também me ilumina
Me leve nos cabelos
Me lave na piscina
(...)
O pêlo do cavalo
O vento pela crina
O hábito no olho
Veneno lamparina.
(Galope Razante – Zé Ramalho)

Na infância eu considerava as histórias de encantamento dos folhetos de cordel como verdadeiras ou, pelo menos, plausíveis. Por estarem impressas no papel me pareciam mais dignas de crédito que as histórias de Trancoso contadas oralmente pela velha Bastiana e sua neta Rita Maria. A própria Bíblia, tida como o mais sagrado e verdadeiro dos livros, não encerrava a história da jumenta de Balaão, que adquirira voz humana e falara fluentemente? Moisés não abrira o Mar Vermelho para que os israelitas o atravessassem a pé enxuto, com a mesma facilidade com que se corta uma talhada de melancia? O profeta Elias não fizera cair fogo do céu? Não havia dividido as águas do Rio Jordão com o simples toque de sua capa? O profeta Eliseu, seu sucessor, não multiplicara milagrosamente o azeite da viúva em cuja casa se hospedara? O combate do pequeno Davi contra o gigante Filisteu não poderia ser a própria Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de que nos fala o livro de Carlos Magno e dos Doze Pares de França? Se São Jorge, um santo reconhecido pela Igreja Católica, combatera um dragão, por quê Juvenal, personagem do folheto do poeta Leandro Gomes de Barros, não poderia ter realizado um feito similar?
Para completar esse universo místico e encantado, eu ouvia constantemente, no alpendre da casa de meus avós, histórias de botijas, de alma penada, de lobisomens e até de discos voadores como coisa absolutamente real, palpável e natural. Nascidos e criados no “tempo da lamparina”, os meninos de minha geração não dispunham de outras diversões que não fossem as cantigas de roda, a audição de velhos contos de fadas adaptados à linguagem sertaneja, os folhetos de cordel e o rádio de pilha. Some-se a isso, cantorias, vaquejadas, forrobodós, leilões, reisados e novenas.

Ouro Preto

Eu gostava mesmo era de escutar a prosa dos adultos, à sombra dos alpendres, em noites de lua cheia ou sob a luz do candeeiro. Tudo isso era projetado pelo caleidoscópio de uma imaginação fértil e prodigiosa, da qual sempre fui dotado. De modo que, quando me via sozinho no meio do mato, imaginava encontrar um desses entes fabulosos descritos pelos adultos e registrados nas páginas dos cordéis. Dentre todos, o que eu mais       ansiava encontrar era o gênio da lâmpada, das histórias de Alladim, a fim de realizar os três pedidos. O primeiro deles, sem dúvidas, seria um passeio no tapete voador, elevando-se do pátio da fazenda de meu avô com destino a serra dos Três Irmãos, Serra do Peitão, Serrinha do Teixeira e Serra da Cacimba Nova. Desde a mais tenra idade eu nutria verdadeiro encanto pelas serras, lugar de onde me parecia vir a chuva. E, como toda criança, eu queria voar. Nessa fase da vida quantas vezes não sonhei voando?
Complementando tudo isso, havia as histórias mirabolantes do Chico Pavio, filho da velha Bastiana, que também possuía uma imaginação prodigiosa. Às vezes ele fazia parte do adjunto de trabalhadores que auxiliavam meu pai na sua lavoura. No próprio eito ele desfiava alguns causos interessantes, que eram intercalados pela voz do Chico Cazuza, o Cazuzinha, fã de cantorias, que sabia de memória muitas glosas atribuídas aos famosos Bentevi Neto e Cego Aderaldo. Papai dava larga preferência ao segundo, eu gostava, também, das lorotas do primeiro. Eis um causo contado pelo Chico Pavio: segundo ele, os serrotes dos Três Irmãos eram três reinos encantados, erguidos em remotas eras, por uma raça nobre e desconhecida, exuberante e rica. Mas os três castelos foram encantados pelo poder de gênios do espaço e transformados em três gigantescos blocos de pedra. Quando eu ia buscar água na companhia de meu pai, na Fonte das Coronhas, que fica no sopé do primeiro serrote, ansiava encontrar alguma princesa encantada, avistar a lendária Mãe D’água e até mesmo o dragão que guardava a porta de entrada do Reino Encantado. Dei asas à imaginação e descrevi tudo isso em um poema chamado “O Marco Cibernético do Reino dos Três Monólitos”, que se encontra reproduzido integralmente neste livro.
Quando eu era menino havia um cruzeiro no topo do primeiro serrote, erguido pelo Sr. Lauro Calixto, com a ajuda do padre José Bezerra. As pessoas escalavam aquela subida íngreme, de aproximadamente 540 metros de altitude, para rezar terços, ladainhas e pedir um bom inverno. Um desses devotos era o nosso parente José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel, que chegava descrevendo as maravilhas da subida. Eu ansiava por fazer parte dessa comitiva, mas nunca me permitiram. Até que um dia, por obra de uma “Nova Seita”, o velho cruzeiro veio abaixo a golpes de foice e machado.
Somente no dia 4 de junho de 2017 é que pude realizar o meu intento de escalar o serrote e vislumbrar a belíssima paisagem que se descortina nas quatro direções. Ao Leste fica o açude do Saco da Serra e a comunidade de Esperança, bem como a ladeira do Pitanguá, que impressionou o arcebispo Dom Antônio de Almeida Lustosa em seu livro ‘Notas a lápis’, publicado na década de 1940. Ao Norte, as terras do Mofumbo, Pau D’arcal, Serrinha dos Paulinos e Cachoeira dos Barbosa. À Noroeste, fica a Várzea Grande e a Oeste, Cacimbinha, União e São José da Macaóca. À Sudoeste avistam-se contornos das serras que ficam próximas à cidade de Madalena e, ao Sul, a exuberante Serra da Cacimba Nova, inegavelmente a mais bela de todo o conjunto dessa muralha de pedra que parece ser uma continuação da mesma cordilheira que engloba os monólitos de Quixadá. Finalmente, ao Sudeste, a Serrinha do Teixeira que, segundo dizem, teria sido o cenário de um teste nuclear na década de 1950.
Há quase 300 anos os troncos familiares que deram origem à minha raça habitam este pedaço de chão. Todos os descendentes dos clãs Sousa-Vianna, Sousa-Araújo, Barbosa-Severo, Lobo, Chagas, Martins, Maciel, Paulino etc. têm raízes fincadas nesse pedaço de chão. A história desses clãs é minunciosamente descrita no primeiro livro desta série, cujo título é “Sertão em Desencanto – I Volume de Memórias”, obra de menor teor poético, porém fortemente embasada em documentos, daí o seu valor como relato histórico.
Por quê “Sertão em Desencanto”? Dentre muitos outros motivos e explicações eu diria que aquele encantamento pelo maravilhoso, pelo heroico e pelo fantástico que acalentei na infância foi quebrado pelo rude martelo da realidade. Foi minado pelos espinhos e dissabores que inevitavelmente nos agridem ao longo de nossa caminhada. Mas também pela descaracterização de nossa cultura, pelo desaparecimento de velhas tradições, pelo aniquilamento de nossos costumes mais simples e fraternos. O sertão de hoje em dia está muito modificado!
Por isso tomei a iniciativa de escrever estes livros de memórias, permeados de causos, de sonhos e encantamentos, para que as gerações futuras não percam o fio da meada e saibam que o nosso sertão nem sempre foi assim, displicente, desleixado, alienado e ignorante de suas matrizes culturais. Subam comigo, a bordo desse tapete voador, e retornemos ao sertão dos tempos da lamparina, fazendo de conta que o velho candeeiro é a lâmpada de Alladim.

Arievaldo Vianna


















segunda-feira, 19 de março de 2018

UM ABC DO PADRE VERDEIXA



Entre os nomes verdadeiramente legendários e inapagáveis na tradição oral dos cearenses, o Padre Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa é um dos raros vultos cuja sobrevivência se alicerça sobre anedotas. Uma fama perpetuada por facécias e diabruras, muitas delas autênticas, 
outras tantas incrivelmente exageradas, e ainda outras, talvez mais numerosas, 
de pura invencionice dos pósteros.  
(Leonardo Mota, in "Quando e onde nasceu o Padre Verdeixa" 
- Revista do Instituto do Ceará)


ABC DE JOÃO ANDRÉ – O “CANELA PRETA”

(Padre Verdeixa)


João Brígido, no livro CEARÁ, LADO CÔMICO (1894), fala de um ABC escrito pelo Padre Verdeixa, que foi lido pelo próprio autor numa sessão do júri na cidade do Icó, na década de 30 do século XIX. O poema em quadras foi preservado (e muito deturpado pela tradição oral). Na opinião de João Brígido, trata-se de “uma versalhada péssima e bandalha, desde o A até o TIL,” que o autor teria lido acompanhada de trejeitos, momices e falsetas. Verdeixa era o tipo do declamador que sabia prender a atenção da plateia. Começava em tom baixo, rouco e pausado, para ir subindo de clave, em trote progressivo, até a voz em grita, de tão estridente, e rápida emissão, que as palavras por fim mal se desprendiam umas das outras. Segundo Brígido, chamavam a isto falar de carretilha.
Eis os versos do famoso ABC, retidos de memória pelo povo e reproduzidos por João Brígido, com todas as variantes e deturpações que o povo costuma dar nesses casos:

A muitos anos vivia
João André fazendo morte,
Deixando órfãos e viúvas
Lastimando a sua sorte.

Basta ver, em vinte e quatro,
O que ele praticou,
Quatro livres brasileiros
Que ele aqui fuzilou.

Carregado de tormentos
É mui bom que pague agora,
Entregando a sua vida
Numa forca, sem demora.

Da morte do Cavalcante,
Um pobre velho aleijado,
Puni, Justiça Divina,
Este assassino malvado!

Eu me chego a horrorizar
Dos crimes deste malvado;
E como seja assassino
Deve morrer enforcado.

Foi o mesmo João André,
Pois que tudo ele supunha,
Que mandou Manoel Vicente
Matar a Manoel da Cunha.

Graças aos Céus, que já temos
Um Governo Imperial
Que, com justas providências,
Evitou do Icó o mal.

Huma víbora infernal
Este João André Teixeira,
Chegou a dar bofetadas
No sobrinho do Bandeira.

Isto mesmo, João André
Foi do pai ‘maldiçoado’
Pelos crimes que já tem
Merece ser fuzilado.

(Falta a letra J)

Ladrão ele sempre foi
Nesse tanto, sem parelha,
Não só roubava as vidas,
Também a fortuna alheia.

Morto vi este malvado
De cacete, no Icó,
Por mão de quatro curingas
Que o moeram sem dó.

Não vias, Canela Preta,
Que a tua enorme culpa
Havia de ser punida
Com o grau de pena última?

Olha a sorte que já teve
O Joaquim Pinto Madeira,
Que no júri lá do Crato
Teve a sua derradeira...

Porém o crime do Pinto
Foi só de rebelião,
E os teus, Canela Preta,
São de assassino e ladrão.

Quer ver que João André
É um imbecil pintista,
Que apanhou com um chicote
No sítio da Boa Vista.

Ralhava contra seu pai,
Pobre velho de capelo,
E mandou surrar-lhe a fêmea
E cortar o seu cabelo.

Sabendo que o “Cagaé”
Já vinha da Capital,
Mandou seus cabras sangrá-lo,
Lhe queria muito mal.

Tendo ido a Pernambuco
Mandou seu genro primeiro
Que matasse o Cavalcante
A poder do seu dinheiro.

Vendo este réu malvado
Que da morte do Tenente
Por via de ‘habeas-corpus’
Passeava livremente.

Xamou pelos guarda-costas
Que lhe faziam parelha
E mandou fosse matar
O Cavalcante, da Telha.

Zombem todos icoenses
De João André dar carreira,
E querer também capar
O pulha Manoel Ferreira.

~ (TIL) não fique de fora!
Sem ter mais dilatação,
Enforquem o João André
E degradem a geração.

FIM






quarta-feira, 7 de março de 2018

CONSELHEIRO VIVO 2018



PALESTRAS, OFICINAS DE CORDEL E LANÇAMENTO DE "SANTANINHA - UM POETA POPULAR NA CAPITAL DO IMPÉRIO" NO CONSELHEIRO VIVO 2018, EM QUIXERAMOBIM


Terá início neste dia 7 de março, em Quixeramobim, a 14ª edição do evento “Conselheiro Vivo”, movimento dedicado à preservação da memória e da histórica de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro. Em 2018 o tema central em discussão será:  Preservando a Cultura, a História e Fortalecendo a Democracia. A programação terá continuidade durante sete dias e contará com fechamento das ações em 13 de março, feriado municipal na cidade em alusão ao beato cearense.

Ao longo dos últimos meses diversas entidades discutem o fortalecimento de uma programação que envolve palestras, apresentações culturais e artísticas, lançamento de livros e homenagens a pessoas que contribuíram para a difusão da história e da memória de Conselheiro. O evento é realizado pela Ong. Iphanaq, Sesc e Prefeitura Municipal de Quixeramobim, por meio das Secretarias de Educação e Cultura. São parceiras do evento as entidades: Câmara Municipal de Quixeramobim, AQUILetras, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Quixeramobim, CETRA, MST, Escolas Estaduais e Particulares do município. Todo evento é gratuito.



LANÇAMENTO DO "SANTANINHA"

O escritor Arievaldo Vianna, membro da AQUILETRAS, estará em Quixeramobim nos dias 09 e 10 de março realizando palestras, oficinas de Literatura de Cordel e também o lançamento de seu livro mais recente "SANTANINHA - UM POETA POPULAR NA CAPITAL DO IMPÉRIO", escrito em parceria com o professor Stélio Torquato Lima, do curso de Letras da UFC.
Nascido na Vila de Touros-RN, em 1827, Santaninha veio para o Ceará ainda jovem e aqui se destacou como poeta e rabequeiro, sendo citado por diversos jornais da época. Escreveu poemas sobre a Guerra do Paraguai, a Alta e a Baixa do Algodão, A seca de 1877-79, O imposto do Vintém, O chapéu de Sol do Imperador, dentre outros, textos que foram publicados em folhetos pela Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro, a partir de 1879. São folhetos tradicionais, impressos em oitavo de página, com capa cega e mais de um poema em cada folheto, como era de costume nos primórdios do cordel brasileiro. Santaninha teve uma intensa atividade na Capital do Império, sendo citado em diversos jornais e também em livros e revistas, por autores como Mello Moraes Filho. Poeta carismático, dialogava com sua rabeca "Sombrinha" em suas apresentações. O nome da rabeca era uma homenagem à família SOMBRA, de Maranguape, onde Santaninha viveu por longos anos. Foi no sítio da família Sombra que o poeta conheceu o romancista José de Alencar, quando o mesmo recolhia informações para compor dois de seus livros: O nosso cancioneiro e O Sertanejo. Em suas cadernetas de anotações, preservadas no Museu Histórico Nacional, encontram-se referências à colaboração de Santaninha. 
A partir de 1883, alegando problemas de saúde, Santaninha deixa a "Corte" e resolve retonar ao Nordeste. Então desaparece completamente dos noticiários, o que nos leva a supor que teria falecido logo em seguida.
Mesmo assim é citado nos estudos do professor José Calazans, sobre o Romanceiro de Canudos, como um dos pioneiros na publicação de folhetos de Cordel no país. É que seu poema sobre a Guerra do Paraguai reaparece em nova edição ao lado de um folheto de João Cunegundes sobre a Guerra de Canudos, por volta de 1896. Santaninha, um poeta-repórter de nomeada, se vivo fosse em 1896 teria, com toda certeza, deixado o seu testemunho em versos sobre a maior tragédia ocorrida durante a República Velha.


Conselheiro - xilogravura de Arievaldo Vianna


Confira programação do evento:

PROGRAMAÇÃO

Dia 07/03 – quarta-feira
7:30h- Cortejo pelas ruas da cidade com as escolas do município.
19h- Audiência Pública
Câmara Municipal de Quixeramobim (Salão Paroquial).
Tema: Os desafios para uma Cultura sem corte, sem desmonte.

20h- Lambe-lambe na cidade com divulgação de Caminhada Feminista.

Dia 08/03 – quinta-feira
(Conselheiro e a luta das mulheres por direitos, respeito e dignidade)

7:30h – Concentração para Caminhada em frente ao Sindicato dos Trabalhadores
Rua da Cruz, Centro de Quixeramobim

08h- Caminhada com as mulheres e movimentos sociais

09:30h- Recepção da Caminhada na quadra esportiva do Sesc Ler.
Atividades com movimentos sociais

13h –Artes Cênicas Sesc – com o Museu da Boneca de Pano.
Local: Escola de ensino Fundamental Zilá Carneiro.

14h – Palestra: Antônio Conselheiro, a casa e a identidade do a (feto) patrimonial.
Marcélia Marques – Arqueóloga e professora da UECE-FECLESC.
Local: Escola de Tempo Integral Cel. Humberto Bezerra

15h: Artes Cênicas Sesc – com o Museu da Boneca de Pano.
Local: Sesc Ler Quixeramobim

19h – Missa alusiva à História e Memória de Antônio Conselheiro
Local: Igreja Matriz

Dia 09 /03 – Quinta feira
08h – Literatura Sesc- Oficina de Cordel – Cordelista Arievaldo Vianna
Local: Escola Municipal Escola de Ensino Fundamental Alfredo Almeida Machado Localidade de Manituba.

08h – Literatura Sesc – contação de história e oficina literária com as contadora de histórias Lilian e Valéria.
Local: Escola de Ensino Fundamental Vicente de Castro Cardoso do Distrito de Lacerda.

13h Literatura SescOficina de Cordel – Cordelista Arievaldo Vianna.
Local: Veneza Escola Municipal Manoel Farias de Almeida

18h- Performance Literária, com o Poeta José Américo- Canudos-BA.

18:30h -Literatura Sesc –Bazar das Letras – Lançamento do Livro: Santaninha um Poeta Popular na Capital do Império.

20h – Oficina Literária: e o cordelista Arievaldo Viana.
Local: Sesc Ler

20h- Museu Vivo: Os fatos que marcaram a vida de Conselheiro
Local: Casa do Conselheiro

Dia 10/03 – Sábado
7:30h- Concentração

08- Apresentações culturais das escolas enfocando a história de Conselheiro
Local:Quadra Esportiva do SESC.

16:00h–Sessão Solene Conjunta Aquiletrase Câmara Municipal de Quixeramobim
*Lançamento das produções dos alunos
*Palestra com professor Pedro Vasconcelos – Box. Conselheiro por ele mesmo
* Entrega da comenda Antônio Conselheiro: Prof. João Arruda, Maria Lima- agricultora e líder comunitária- Paus Brancos – Assentamento 25 de maio – MST; João Batista S. Lima – Guia Turístico de Canudos-Ba.
Local: Escola de Educação profissional Doutor José Alves da Silveira.

11/03 – Domingo
20:30h – Apresentações Artísticas e Feira Cultural Literária
Local: Praça da Matriz

Dia 12/03 – Segunda Feira
9:30h – Cine-Debate: Exibição do documentário: Três vezes Canudos. Seguido de mesa redonda com o tema: A importância da preservação da história e memória de Conselheiro para Canudos e Quixeramobim. Debatedores: João Batista, João Ferreira Damião – Canudos-BA e Ailton Brasil- Quixeramobim-CE.
Local- Auditório do Liceu de Quixeramobim

18:30h- Homenagem do Sesc Ler: A Senhora Hilda do Carmo de Queiroz artesã e moradora da rua 14 de Agosto, em reconhecimento a sua importância como memória viva da história local.

19h – Roda de conversa intitulada em: “As vidas que ninguém ver,o Conselheiro e as mulheres que resistem”, com depoimentos que significam a história da mulher .
Local: SESC

20h- Mesa Redonda com João Batista e Poeta Zé Américo- Canudos-BA e entidades: A importância da história e da memória de Conselheiro para o fortalecimento da democracia
Local – Casa de Antônio Conselheiro

Dia 13/03 – Terça-feira (Feriado Municipal)
16h – Desfile temático das escolas pelas Ruas de Quixeramobim

Atividades Permanentes:
Das 08 às 11h / 13h às 17 – Visitação e contação de história na Biblioteca Sesc Antônio Conselheiro.

Serviço
Conselheiro Vivo 2018 – em Quixeramobim
Período: 7 a 13 de março
Gratuito

Informações
(88) 3441-1402 – SESC
(88) 9.98645220 / 9.92200056 – Ong. Iphanaq

domingo, 4 de março de 2018

Centenário de morte de Leandro



ENTREVISTA

A jornalista GISA CARVALHO entrevista o escritor ARIEVALDO VIANA sobre os 100 anos de morte do poeta LEANDRO GOMES DE BARROS (Pombal-PB, 19/11/1865 – Recife-PE, 04/03/1918) para a revista Suplemento Cultural, vinculado ao Diário Oficial do governo de Pernambuco

1 - Como conheceu a obra de Leandro Gomes de Barros?
ARIEVALDO – Conheci a obra de Leandro na mais tenra idade, antes mesmo de ser alfabetizado. Minha avó Alzira tinha o hábito de ler folhetos em voz alta e, em torno dela, formava-se uma roda de adultos e crianças, sob a luz da lamparina. Foi assim que travei contato com Cancão de Fogo, Soldado Jogador, Juvenal e o Dragão, Donzela Teodora, Princesa da Pedra Fina e tantos outros textos maravilhosos da autoria desse grande poeta. Leandro Gomes de Barros é um dos mais importantes e ao mesmo tempo um dos menos conhecidos poetas do Brasil. A partir de influências do trovadorismo ibérico e da poesia oral brasileira, ele destacou-se por formatar e popularizar um gênero literário que hoje se denomina Cordel. Todos os poetas ditos populares que vieram depois dele beberam na sua fonte e aproveitaram-se de seus ensinamentos.

2 - De que forma ele inspira sua produção?
ARIEVALDO – Fui alfabetizado a partir dos cinco anos e aos sete eu já lia folhetos desembaraçadamente. Aos dez comecei a dar os meus primeiros passos como poeta popular, e meus principais inspiradores foram Leandro Gomes de Barros e José Pacheco, o autor da famosa “Chegada de Lampião no Inferno”. De Leandro eu absorvi a diversidade dos temas e algumas pitadas de erudição, que o velho mestre bebia na “Literatura Oficial”. De Pacheco, a métrica e o gracejo. Nesses dois quesitos, Pacheco era imbatível. Ninguém metrificava tão bem quanto ele e poucos conseguiam ser engraçados como ele foi. Pode se dizer o mesmo de Leandro com relação ao humor. Ele próprio se considerava humorista. Então, quando comecei a levar o cordel a sério e fazer os meus primeiros folhetos visando a publicação, o principal modelo que vislumbrei para a minha produção foi a obra desses dois mestres, sem esquecer José Camelo de Melo, Delarme Monteiro e o nosso Patativa do Assaré, que já foi uma influência de outra monta, sobretudo no que diz respeito aos temas sociais.

3 - Com que frequência você lê obras de Leandro?
ARIEVALDO – Eu tenho a obra de Leandro na cabeça. O que aprendi na infância continua aqui, indelével. Costumo recitar páginas e páginas do Cancão de Fogo, do Padre Jogador, do Testamento do Cachorro, tudo de memória. Já os romances mais longos eu gosto de reler com calma, nos fins de semana. A obra de Leandro, orçada em mais de 600 títulos, não sobreviveu à ação inclemente do tempo. Restam hoje uns 50 títulos que ainda estão em circulação e são reeditados pela Luzeiro, de São Paulo, pela Tupinanquim Editora, pela Editora Queima-Bucha, de Mossoró e por editoras de universidades, mais das vezes em coletâneas ou Antologias.
Desenho de JÔ OLIVEIRA

4 - É fácil para você ter acesso a essas obras? Onde encontra?
ARIEVALDO – Eu tenho uma coleção particular com mais de 10 mil folhetos e cerca de 6 mil títulos. Tenho, praticamente, todos os clássicos do gênero, num período que vai da primeira década do século XX até os nossos dias. E também grande parte da produção dos novos autores, que se destacaram nos últimos 30 anos. Da geração imediatamente anterior à nossa, tive (e tenho) contato com quase todos: José Costa Leite, Gonçalo Ferreira, Lucas Evangelista, Chico dos Romances, Raimundo Santa Helena; e os já falecidos Mestre Azulão, Antônio Américo de Medeiros, Manoel Monteiro, Antônio Alves da Silva, Minelvino Francisco, Vicente Vitorino de Melo (com esses mantive farta correspondência). Na verdade, eu adquiri, juntamente com meu irmão Klévisson Viana, o acervo que pertenceu ao saudoso pesquisador Ribamar Lopes, uma das maiores autoridades sobre cordel. Então, a obra de Leandro Gomes de Barros veio nesse bojo. O que eu não tenho no meu acervo pessoal, pesquiso no site da Casa de Rui Barbosa ou na Biblioteca Amadeu Amaral, da FUNARTE, que digitalizaram mais de 200 obras de Leandro e estão disponíveis para consulta.
Para quem quer conhecer a obra do mestre, tenho duas dicas: 1) adquirir o meu livro Leandro Gomes de Barros – Vida e Obra (biografia) e os folhetos que foram relançados nos últimos 10 anos por editoras do Nordeste e de São Paulo. 2) Visitar o site Literatura de Cordel, da Casa de Rui Barbosa e a coleção de folhetos da FUNDAJ (Fundação Joaquim Nabuco), que disponibilizou vários títulos no formato pdf, já de domínio público, fáceis de acessar e baixar.

5 - Quais temáticas mais interessam?
ARIEVALDO – Eu navego em todas as direções. O gracejo e o romance mais elaborado estão entre os meus prediletos, mas gosto também de pelejas, motes, debates, folhetos de bravura, adaptações de clássicos da literatura universal e até da chamada poesia matuta. Nesse campo, minhas influências são Alberto Porfírio e Patativa. Foram eles que conseguiram um linguajar mais aproximado daquele que os matutos falavam antigamente. Eu uso o termo “antigamente” porque gostava muito de escutar as conversas de meus avós com outros parentes já idosos e ia recolhendo uma série de termos que estão totalmente em desuso e que vejo com frequência nos poemas de Patativa e Alberto Porfírio.

6 - A partir de suas pesquisas, quem é Leandro Gomes de Barros para você?
ARIEVALDO – Um gênio. Indiscutivelmente, o maior expoente da Literatura de Cordel em todos os tempos. Leandro Gomes de Barros representa para o cordel o que José de Alencar representa para a literatura considerada “erudita”. Além de ter sido um pioneiro, foi o primeiro a pegar o romanceiro ibérico e diluir em nosso meio com uma linguagem abrasileirada. No caso de Alencar, os romances indianistas, no caso de Leandro o uso de uma linguagem e de temas cem por cento nordestinos. O pioneirismo de Leandro Gomes de Barros e os mecanismos que ele desenvolveu para que houvesse a transição da poesia popular oral para o folheto impresso é uma coisa de gênio. A arte do trovadorismo veio da Península Ibérica e floresceu tanto na América Espanhola quanto na América Portuguesa. Houve um tipo de literatura popular em verso no México, Chile, Nicarágua e Argentina, muito parecido com o folheto nordestino... Até a gravura popular usada para ilustrar os corridos é muito parecida com a nossa, sem falar que muitos dos temas aproveitados pelos autores da Literatura de Cordel nordestina também floresceram nesses países. De certo modo, a Literatura de Cordel brasileira surgiu de maneira tardia, porque antes da vinda da Corte Portuguesa em 1808, era proibida a existência de prelos aqui no Brasil. Então, a poesia popular oral, que já existia desde os tempos de Agostinho Nunes da Costa, Hugolino do Sabugi, Inácio da Catingueira e Romano da Mãe D’água ganhou um novo alento quando Leandro mudou-se da Vila do Teixeira, na Paraíba, para Vitória de Santo Antão e passou a editar os primeiros folhetos nas tipografias de Recife. Leandro não se limitou a reaproveitar os temas correntes, como a gesta do boi (Boi Misterioso), o cangaço (já existiam cópias manuscritas dos ABCs de Jesuíno Brilhante e Lucas da Feira) ou temas europeus como o Ciclo de Carlos Magno e os Doze Pares de França, Imperatriz Porcina e Roberto do Diabo. Ele foi mais longe. Criou um tipo de poesia cem por cento brasileiro, destacou-se sobretudo pela sua sátira mordaz e instigante. O estilo de Leandro é inconfundível. Ele teve fôlego para transitar em todos os gêneros e modalidades correntes: Peleja, Romance, Gracejo, Crítica Social e o fez com maestria. Poucos conseguiram igualar-se. No geral, ninguém o superou até hoje.


7 - Qual a importância de Leandro para a literatura?
ARIEVALDO - A obra de Leandro, aparentemente simples (desprovida de lavores artísticos, como disse Drummond) e impressa em folhetos de baixo custo, abordava temas que eram realmente do agrado de todas as camadas sociais. Até mesmo intelectuais de renome, que supostamente torciam o nariz para esse tipo de literatura, acabavam comprando também, certamente levados pela curiosidade. É o caso de Rui Barbosa, que foi flagrado lendo avidamente alguns desses folhetos e ficou meio sem graça, dizendo que “naquilo” não havia literatura. Pessoas que não frequentavam escolas, que não tinham nenhuma intimidade com as letras, acabaram se alfabetizando através dos folhetos de Leandro ou se tornaram leitores ouvintes, porque esses textos eram sempre lidos em voz alta, em rodas de 5, 10, até 20 pessoas. Eu mesmo alcancei esse hábito na infância, pois nasci no Sertão Central do Ceará, numa localidade onde não havia energia elétrica e as pessoas formavam rodas de leitura à luz de lampiões.
8 - O que encontramos de Leandro nos dias atuais?
ARIEVALDO – Quando você encontrar um folheto bem feito, um cordel bem elaborado, com métrica, rima e oração, usando uma linguagem popular e agradável, polvilhada de chistes e de filosofia, de riso e de pranto, pode ter certeza que ali está a influência de Leandro. O poeta paraibano, tal e qual Charles Chaplin, sabia dosar muito bem o riso e o drama em seus enredos. Sabia ser lírico e sabia ser engraçado também. Muito de sua produção se perdeu na poeira do tempo, porque Leandro era também um grande glosador, daqueles que fazem versos de improviso ao pé do balcão, sem utilizar qualquer instrumento musical. Leandro reconhece num poema auto-biográfico que tinha a voz fina e pouco sonora, por isso não se aventurou pelo mundo como cantador de viola. Isso foi de grande proveito para poesia impressa, para a chamada Literatura de Cordel, porque ele deu vazão ao seu estro de forma escrita e isso ficou registrado em centenas de folhetos, nas milhares de edições que foram e ainda são feitas de seus clássicos.
9 - De onde surgiu a ideia de escrever a biografia/realizar uma exposição/transformar a casa em museu?
ARIEVALDO – Bem, a ideia da biografia surgiu justamente porque eu queria saber alguma coisa sobre Leandro e todos os pesquisadores que escreveram antes de mim usavam sempre as mesmas fontes e no frigir dos ovos o texto não ultrapassava três laudas. Eram datas desencontradas, nenhuma (ou quase nenhuma) informação sobre os seus antepassados, em suma, uma grande lacuna que precisava ser preenchida. Com muita paciência fui recolhendo documentos, depoimentos, artigos publicados em jornais e revistas, procurando folhetos raros de modo a reconstituir um pouco da vida e obra desse grande poeta. Esses documentos foram localizados em cartórios e livros de tombo das paróquias da Paraíba e Pernambuco, com a ajuda do escritor Pedro Nunes Filho e de Cristina da Nóbrega, ambos parentes de Leandro. Pedro era bisneto de Josefa Xavier de Farias, irmã da mãe de Leandro, dona Adelaide Xavier de Farias. E Cristina, por sua vez, bisneta de Daniel Gomes de Barros, irmão de Leandro. Depois que lancei o meu livro, em 2015, usando recursos do próprio bolso, porque não achei editor que apostasse no projeto, formou-se uma rede de pessoas interessadas em aprofundar o assunto. Eu, por meu lado, tenho contado com a ajuda imprescindível de alguns colaboradores, como o pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira-PB, para destrinchar algumas passagens obscuras da vida de Leandro, fuçando documentos cartoriais e livros da Igreja. Quando sair a segunda edição desta obra certamente virá muito mais alentada, bastante ampliada com novas informações e correção de algumas informações equivocadas.
10 - O que encontrou na pesquisa, que foi uma surpresa, ou que não era conhecido?
ARIEVALDO – Posso lhe assegurar, sem demagogia, que mais de 50% do que eu pesquisei não se encontrava em nenhuma obra anterior à minha. Iniciei essa pesquisa por volta de 2005 e, ingenuamente, andei publicando muita coisa em blogs, o que possibilitou a rapinagem de alguns aproveitadores, que lançaram mão de algumas descobertas e não tiveram o pejo de se arvorar “pais da criança”. Eu, por meu lado, não tenho vaidade e tudo que eu mais queria era resgatar o nome e a obra de Leandro, então não me ocupei em reivindicar a paternidade de nada. Tenho, isto sim, a sensação de haver dado uma grande contribuição, fazendo com que o nome de Leandro fosse relembrado e pesquisado pelas novas gerações. Uma revista publicada pela PUC, onde divulguei um artigo de mais de dez páginas, um caderno especial do jornal Diário de Pernambuco, uma matéria na Revista de História da Biblioteca Nacional e outras publicações anteriores ao meu livro atestam o mérito de meus esforços e bastam, por suas datas de publicação, e pelas referências ao meu trabalho, como documentos irrefutáveis. Diante desse reconhecimento, creio que a minha pesquisa valeu a pena. Mesmo não tendo pleno domínio dos modernos métodos da historiografia, mesmo não sendo um profissional da área, consegui o meu objetivo, como admirador de Leandro e diletante em matéria de história.
11 - Que fatos da vida de Leandro gostaria de destacar?
ARIEVALDO – Há episódios curiosos da sua juventude que só foram preservados pela tradição oral familiar e que eu soube através de depoimentos de Paulo Nunes Batista (filho do compadre e editor Chagas Batista) e de sua sobrinha-bisneta Cristina Nóbrega. Tem o caso da tia “cangaceira”, a Chica Luzia, que é citada por sua filha Julieta, numa entrevista. Aliás, sobre Julieta há um fato bem interessante. Ruth Brito Lemos Terra, que a entrevistou, não sabia, por exemplo, que seu verdadeiro nome era Gilvanetta. É assim que ela se encontra registrada no cartório de Jaboatão e também na sua certidão de batismo. Parece que ela não gostava de ser chamada de Gilvanetta (ou Giovanetta) e preferia ser chamada Julieta. No meu livro tem até foto dessa filha de Leandro.
Outro dado interessante é uma análise que eu fiz do artigo de Carlos Drummond de Andrade, que considera Leandro o verdadeiro Príncipe dos Poetas Brasileiros, título que na verdade foi dado à Olavo Bilac. Em suma, o livro está recheado de histórias desse tipo. E a primeira edição já está quase esgotada. Espero que surja algum editor interessado em fazer a segunda. Ou não, como diria Caetano Veloso. Muito do que eu queria dizer já foi dito.
12 - Como avalia a importância de Leandro para a poesia de cordel contemporânea?
ARIEVALDO – Acho que essa pergunta já foi satisfatoriamente respondida nas minhas intervenções anteriores.
13 - Poderia me falar um pouco sobre a poesia de Leandro? Quais elementos podemos perceber com mais destaque? Quais as temáticas? Quais as principais influências dele? Por que considera que essa poesia tenha permanecido?
ARIEVALDO – Leandro era um autodidata. Um cara que lia bastante, que se informava, que frequentava a redação de jornais, que acompanhava as publicações da Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro, que sabia o nome de todos os periódicos de Recife, que andava para cima e para baixo nos trens da Great Western. O folheto “Juvenal e o Dragão”, por exemplo, é uma adaptação do conto “Os três cães”, do livro Contos da Carochinha, de Figueiredo Pimentel. “A batalha de Oliveiros com Ferrabrás” baseia-se numa edição portuguesa da obra “Carlos Magno e os Doze Pares de França”. Pedro Cem era um texto popular em Portugal, assim como a Donzela Teodora e outros, que Câmara Cascudo considerava “livros do povo”. Leandro sabia o que queria. Ela sabia que tipo de leitura agradava ao povo, então seus temas prediletos eram os romances de amor, a gesta do boi mandingueiro, as pelejas entre grandes cantadores de seu tempo, e, sobretudo, a sátira política e a crítica social. Há quem diga que o folheto “Meia noite no Cabaré” foi inspirado em Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. O que sei, de certo, é que Mário de Andrade bebeu na fonte do Cancão de Fogo da Paraíba do Norte para escrever o seu Macunaíma.
Gisa Carvalho
Jornalista (JP 2603/CE)
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social (UFMG)
Mestre em Estudos da Mídia (UFRN)

quinta-feira, 1 de março de 2018

EU NÃO CORRO COM A CANGALHA

Traduzindo, em bom NORDESTINÊS:

"Nordestino que sou, nascido e criado no meio das caatingas, bebendo leite mugido com tapioca e café, sou daqueles que lutam até o apagar das luzes. Jamais entregarei o couro às varas. Em circunstância alguma, jogarei a toalha sobre o ringue. Só sairei da luta sob nocaute, ou se Deus ordenar."

Do poeta ARIEVALDO VIANNA


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Centenário de morte do poeta

Infogravura: Arievaldo Vianna sobre
pintura de Fabiano Chaves

Leandro Gomes de Barros:
o poeta do sertão

O Centro de Memória e Informação, da Fundação Casa de Rui Barbosa, realizará homenagem alusiva a morte do poeta Leandro Gomes de Barros, ocorrido em 4 de março de 1918. A programação que ocorrerá no dia 5 de março será composta de mesa redonda, mostra sobre o autor e atividades para o público infantil.
Há cem anos morria um dos maiores poetas brasileiros, Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Nascido em Pombal, na Paraíba, e criado em Teixeira - berço dos maiores cantadores do século XIX - fixou-se mais tarde em Recife, onde casou e constituiu família.
Leandro foi um dos poucos poetas, no país, a viver exclusivamente da sua arte: escrevia, editava, imprimia, divulgava e comercializava suas criações. Com estas criou seus filhos, beneficiados pelo seu precioso legado.
A poesia, motivo de sua vida, talvez também tenha sido o motivo de sua morte.O folheto O Punhal e a Palmatória, que pode ser lido como um libelo veemente contra o coronelismo do sertão nordestino, conduziu-o ao cárcere, o que o teria debilitado física e emocionalmente. Neste poema ele relata o assassinato de um senhor de engenho por um homem por ele surrado. No seu tempo e na sua terra, eram os “coronéis” que faziam “justiça”. Para alguns estudiosos, no entanto, Leandro foi vítima da gripe espanhola.
Conhecia como ninguém o sertão por meio das constantes viagens quando vendia suas obras e,principalmente, recolhia, com ouvidos atentos, os relatos de acontecimentos e histórias pitorescas que traduziria em versos.
Calcula-se que escreveu mais de mil obras cuja classificação tornou-se objeto de estudo de muitos pesquisadores, como Câmara Cascudo e Sebastião Nunes Batista, mas sem dúvida, são as sátiras sua marca registrada. Ganhou o título de “Príncipe dos poetas” de Carlos Drummond de Andrade, em 1976, e um bom número de trabalhos acadêmicos.
Muitas vezes ingressamos no universo de Leandro sem nos darmos conta. Nem todos sabem, por exemplo, que os dois primeiros atos do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, foram inspirados nos folhetos de autoria do poeta:Cachorrodos mortos e A história do cavalo que defecava dinheiro.
A Fundação Casa de Rui Barbosa é detentora do maior número de folhetos de Leandro que ainda nos chegaram como doação, pois muito do que produziu perdeu-se ao longo dos anos. São 460 folhetos, boa parte disponíveis no siteCordel: cultura popular em verso e no Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais RUBI.
Embora tenha morrido há um século, Leandro continua entre nós, pois sua poesia continua circulando, especialmente no Nordeste, porque, talvez, ele tenha conseguido como poucos, de forma genial, capturar a alma de um povo engenhoso, espirituoso e criativo.


SERVIÇO:
Data: 5 de março de 2016
Local:  Fundação Casa de Rui Barbosa
Rua São Clemente, 134
Programação:
10h. Cordel para crianças
        Cilene Alves de Oliveira

14h. Mesa redonda
Ana Carolina Carvalho de Almeida Nascimento
Gonçalo Ferreira da Silva
Sylvia Regina Bastos Nemer
Mediadora: Ana Ligia Medeiros

17h. Mostra:

Leandro Gomes de Barros: o poeta do sertão


PARA SABER MAIS: Interessados na biografia do grande poeta paraibano podem adquirir o livro LEANDRO GOMES DE BARROS - VIDA E OBRA, de Arievaldo Vianna. Preço do exemplar: R$ 30,00 + frete. Enviamos para qualquer parte do Brasil.

MAIORES INFORMAÇÕES: acordacordel@hotmail.com / arievaldoviana@gmail.com.br