quarta-feira, 7 de março de 2018

CONSELHEIRO VIVO 2018



PALESTRAS, OFICINAS DE CORDEL E LANÇAMENTO DE "SANTANINHA - UM POETA POPULAR NA CAPITAL DO IMPÉRIO" NO CONSELHEIRO VIVO 2018, EM QUIXERAMOBIM


Terá início neste dia 7 de março, em Quixeramobim, a 14ª edição do evento “Conselheiro Vivo”, movimento dedicado à preservação da memória e da histórica de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro. Em 2018 o tema central em discussão será:  Preservando a Cultura, a História e Fortalecendo a Democracia. A programação terá continuidade durante sete dias e contará com fechamento das ações em 13 de março, feriado municipal na cidade em alusão ao beato cearense.

Ao longo dos últimos meses diversas entidades discutem o fortalecimento de uma programação que envolve palestras, apresentações culturais e artísticas, lançamento de livros e homenagens a pessoas que contribuíram para a difusão da história e da memória de Conselheiro. O evento é realizado pela Ong. Iphanaq, Sesc e Prefeitura Municipal de Quixeramobim, por meio das Secretarias de Educação e Cultura. São parceiras do evento as entidades: Câmara Municipal de Quixeramobim, AQUILetras, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Quixeramobim, CETRA, MST, Escolas Estaduais e Particulares do município. Todo evento é gratuito.



LANÇAMENTO DO "SANTANINHA"

O escritor Arievaldo Vianna, membro da AQUILETRAS, estará em Quixeramobim nos dias 09 e 10 de março realizando palestras, oficinas de Literatura de Cordel e também o lançamento de seu livro mais recente "SANTANINHA - UM POETA POPULAR NA CAPITAL DO IMPÉRIO", escrito em parceria com o professor Stélio Torquato Lima, do curso de Letras da UFC.
Nascido na Vila de Touros-RN, em 1827, Santaninha veio para o Ceará ainda jovem e aqui se destacou como poeta e rabequeiro, sendo citado por diversos jornais da época. Escreveu poemas sobre a Guerra do Paraguai, a Alta e a Baixa do Algodão, A seca de 1877-79, O imposto do Vintém, O chapéu de Sol do Imperador, dentre outros, textos que foram publicados em folhetos pela Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro, a partir de 1879. São folhetos tradicionais, impressos em oitavo de página, com capa cega e mais de um poema em cada folheto, como era de costume nos primórdios do cordel brasileiro. Santaninha teve uma intensa atividade na Capital do Império, sendo citado em diversos jornais e também em livros e revistas, por autores como Mello Moraes Filho. Poeta carismático, dialogava com sua rabeca "Sombrinha" em suas apresentações. O nome da rabeca era uma homenagem à família SOMBRA, de Maranguape, onde Santaninha viveu por longos anos. Foi no sítio da família Sombra que o poeta conheceu o romancista José de Alencar, quando o mesmo recolhia informações para compor dois de seus livros: O nosso cancioneiro e O Sertanejo. Em suas cadernetas de anotações, preservadas no Museu Histórico Nacional, encontram-se referências à colaboração de Santaninha. 
A partir de 1883, alegando problemas de saúde, Santaninha deixa a "Corte" e resolve retonar ao Nordeste. Então desaparece completamente dos noticiários, o que nos leva a supor que teria falecido logo em seguida.
Mesmo assim é citado nos estudos do professor José Calazans, sobre o Romanceiro de Canudos, como um dos pioneiros na publicação de folhetos de Cordel no país. É que seu poema sobre a Guerra do Paraguai reaparece em nova edição ao lado de um folheto de João Cunegundes sobre a Guerra de Canudos, por volta de 1896. Santaninha, um poeta-repórter de nomeada, se vivo fosse em 1896 teria, com toda certeza, deixado o seu testemunho em versos sobre a maior tragédia ocorrida durante a República Velha.


Conselheiro - xilogravura de Arievaldo Vianna


Confira programação do evento:

PROGRAMAÇÃO

Dia 07/03 – quarta-feira
7:30h- Cortejo pelas ruas da cidade com as escolas do município.
19h- Audiência Pública
Câmara Municipal de Quixeramobim (Salão Paroquial).
Tema: Os desafios para uma Cultura sem corte, sem desmonte.

20h- Lambe-lambe na cidade com divulgação de Caminhada Feminista.

Dia 08/03 – quinta-feira
(Conselheiro e a luta das mulheres por direitos, respeito e dignidade)

7:30h – Concentração para Caminhada em frente ao Sindicato dos Trabalhadores
Rua da Cruz, Centro de Quixeramobim

08h- Caminhada com as mulheres e movimentos sociais

09:30h- Recepção da Caminhada na quadra esportiva do Sesc Ler.
Atividades com movimentos sociais

13h –Artes Cênicas Sesc – com o Museu da Boneca de Pano.
Local: Escola de ensino Fundamental Zilá Carneiro.

14h – Palestra: Antônio Conselheiro, a casa e a identidade do a (feto) patrimonial.
Marcélia Marques – Arqueóloga e professora da UECE-FECLESC.
Local: Escola de Tempo Integral Cel. Humberto Bezerra

15h: Artes Cênicas Sesc – com o Museu da Boneca de Pano.
Local: Sesc Ler Quixeramobim

19h – Missa alusiva à História e Memória de Antônio Conselheiro
Local: Igreja Matriz

Dia 09 /03 – Quinta feira
08h – Literatura Sesc- Oficina de Cordel – Cordelista Arievaldo Vianna
Local: Escola Municipal Escola de Ensino Fundamental Alfredo Almeida Machado Localidade de Manituba.

08h – Literatura Sesc – contação de história e oficina literária com as contadora de histórias Lilian e Valéria.
Local: Escola de Ensino Fundamental Vicente de Castro Cardoso do Distrito de Lacerda.

13h Literatura SescOficina de Cordel – Cordelista Arievaldo Vianna.
Local: Veneza Escola Municipal Manoel Farias de Almeida

18h- Performance Literária, com o Poeta José Américo- Canudos-BA.

18:30h -Literatura Sesc –Bazar das Letras – Lançamento do Livro: Santaninha um Poeta Popular na Capital do Império.

20h – Oficina Literária: e o cordelista Arievaldo Viana.
Local: Sesc Ler

20h- Museu Vivo: Os fatos que marcaram a vida de Conselheiro
Local: Casa do Conselheiro

Dia 10/03 – Sábado
7:30h- Concentração

08- Apresentações culturais das escolas enfocando a história de Conselheiro
Local:Quadra Esportiva do SESC.

16:00h–Sessão Solene Conjunta Aquiletrase Câmara Municipal de Quixeramobim
*Lançamento das produções dos alunos
*Palestra com professor Pedro Vasconcelos – Box. Conselheiro por ele mesmo
* Entrega da comenda Antônio Conselheiro: Prof. João Arruda, Maria Lima- agricultora e líder comunitária- Paus Brancos – Assentamento 25 de maio – MST; João Batista S. Lima – Guia Turístico de Canudos-Ba.
Local: Escola de Educação profissional Doutor José Alves da Silveira.

11/03 – Domingo
20:30h – Apresentações Artísticas e Feira Cultural Literária
Local: Praça da Matriz

Dia 12/03 – Segunda Feira
9:30h – Cine-Debate: Exibição do documentário: Três vezes Canudos. Seguido de mesa redonda com o tema: A importância da preservação da história e memória de Conselheiro para Canudos e Quixeramobim. Debatedores: João Batista, João Ferreira Damião – Canudos-BA e Ailton Brasil- Quixeramobim-CE.
Local- Auditório do Liceu de Quixeramobim

18:30h- Homenagem do Sesc Ler: A Senhora Hilda do Carmo de Queiroz artesã e moradora da rua 14 de Agosto, em reconhecimento a sua importância como memória viva da história local.

19h – Roda de conversa intitulada em: “As vidas que ninguém ver,o Conselheiro e as mulheres que resistem”, com depoimentos que significam a história da mulher .
Local: SESC

20h- Mesa Redonda com João Batista e Poeta Zé Américo- Canudos-BA e entidades: A importância da história e da memória de Conselheiro para o fortalecimento da democracia
Local – Casa de Antônio Conselheiro

Dia 13/03 – Terça-feira (Feriado Municipal)
16h – Desfile temático das escolas pelas Ruas de Quixeramobim

Atividades Permanentes:
Das 08 às 11h / 13h às 17 – Visitação e contação de história na Biblioteca Sesc Antônio Conselheiro.

Serviço
Conselheiro Vivo 2018 – em Quixeramobim
Período: 7 a 13 de março
Gratuito

Informações
(88) 3441-1402 – SESC
(88) 9.98645220 / 9.92200056 – Ong. Iphanaq

domingo, 4 de março de 2018

Centenário de morte de Leandro



ENTREVISTA

A jornalista GISA CARVALHO entrevista o escritor ARIEVALDO VIANA sobre os 100 anos de morte do poeta LEANDRO GOMES DE BARROS (Pombal-PB, 19/11/1865 – Recife-PE, 04/03/1918) para a revista Suplemento Cultural, vinculado ao Diário Oficial do governo de Pernambuco

1 - Como conheceu a obra de Leandro Gomes de Barros?
ARIEVALDO – Conheci a obra de Leandro na mais tenra idade, antes mesmo de ser alfabetizado. Minha avó Alzira tinha o hábito de ler folhetos em voz alta e, em torno dela, formava-se uma roda de adultos e crianças, sob a luz da lamparina. Foi assim que travei contato com Cancão de Fogo, Soldado Jogador, Juvenal e o Dragão, Donzela Teodora, Princesa da Pedra Fina e tantos outros textos maravilhosos da autoria desse grande poeta. Leandro Gomes de Barros é um dos mais importantes e ao mesmo tempo um dos menos conhecidos poetas do Brasil. A partir de influências do trovadorismo ibérico e da poesia oral brasileira, ele destacou-se por formatar e popularizar um gênero literário que hoje se denomina Cordel. Todos os poetas ditos populares que vieram depois dele beberam na sua fonte e aproveitaram-se de seus ensinamentos.

2 - De que forma ele inspira sua produção?
ARIEVALDO – Fui alfabetizado a partir dos cinco anos e aos sete eu já lia folhetos desembaraçadamente. Aos dez comecei a dar os meus primeiros passos como poeta popular, e meus principais inspiradores foram Leandro Gomes de Barros e José Pacheco, o autor da famosa “Chegada de Lampião no Inferno”. De Leandro eu absorvi a diversidade dos temas e algumas pitadas de erudição, que o velho mestre bebia na “Literatura Oficial”. De Pacheco, a métrica e o gracejo. Nesses dois quesitos, Pacheco era imbatível. Ninguém metrificava tão bem quanto ele e poucos conseguiam ser engraçados como ele foi. Pode se dizer o mesmo de Leandro com relação ao humor. Ele próprio se considerava humorista. Então, quando comecei a levar o cordel a sério e fazer os meus primeiros folhetos visando a publicação, o principal modelo que vislumbrei para a minha produção foi a obra desses dois mestres, sem esquecer José Camelo de Melo, Delarme Monteiro e o nosso Patativa do Assaré, que já foi uma influência de outra monta, sobretudo no que diz respeito aos temas sociais.

3 - Com que frequência você lê obras de Leandro?
ARIEVALDO – Eu tenho a obra de Leandro na cabeça. O que aprendi na infância continua aqui, indelével. Costumo recitar páginas e páginas do Cancão de Fogo, do Padre Jogador, do Testamento do Cachorro, tudo de memória. Já os romances mais longos eu gosto de reler com calma, nos fins de semana. A obra de Leandro, orçada em mais de 600 títulos, não sobreviveu à ação inclemente do tempo. Restam hoje uns 50 títulos que ainda estão em circulação e são reeditados pela Luzeiro, de São Paulo, pela Tupinanquim Editora, pela Editora Queima-Bucha, de Mossoró e por editoras de universidades, mais das vezes em coletâneas ou Antologias.
Desenho de JÔ OLIVEIRA

4 - É fácil para você ter acesso a essas obras? Onde encontra?
ARIEVALDO – Eu tenho uma coleção particular com mais de 10 mil folhetos e cerca de 6 mil títulos. Tenho, praticamente, todos os clássicos do gênero, num período que vai da primeira década do século XX até os nossos dias. E também grande parte da produção dos novos autores, que se destacaram nos últimos 30 anos. Da geração imediatamente anterior à nossa, tive (e tenho) contato com quase todos: José Costa Leite, Gonçalo Ferreira, Lucas Evangelista, Chico dos Romances, Raimundo Santa Helena; e os já falecidos Mestre Azulão, Antônio Américo de Medeiros, Manoel Monteiro, Antônio Alves da Silva, Minelvino Francisco, Vicente Vitorino de Melo (com esses mantive farta correspondência). Na verdade, eu adquiri, juntamente com meu irmão Klévisson Viana, o acervo que pertenceu ao saudoso pesquisador Ribamar Lopes, uma das maiores autoridades sobre cordel. Então, a obra de Leandro Gomes de Barros veio nesse bojo. O que eu não tenho no meu acervo pessoal, pesquiso no site da Casa de Rui Barbosa ou na Biblioteca Amadeu Amaral, da FUNARTE, que digitalizaram mais de 200 obras de Leandro e estão disponíveis para consulta.
Para quem quer conhecer a obra do mestre, tenho duas dicas: 1) adquirir o meu livro Leandro Gomes de Barros – Vida e Obra (biografia) e os folhetos que foram relançados nos últimos 10 anos por editoras do Nordeste e de São Paulo. 2) Visitar o site Literatura de Cordel, da Casa de Rui Barbosa e a coleção de folhetos da FUNDAJ (Fundação Joaquim Nabuco), que disponibilizou vários títulos no formato pdf, já de domínio público, fáceis de acessar e baixar.

5 - Quais temáticas mais interessam?
ARIEVALDO – Eu navego em todas as direções. O gracejo e o romance mais elaborado estão entre os meus prediletos, mas gosto também de pelejas, motes, debates, folhetos de bravura, adaptações de clássicos da literatura universal e até da chamada poesia matuta. Nesse campo, minhas influências são Alberto Porfírio e Patativa. Foram eles que conseguiram um linguajar mais aproximado daquele que os matutos falavam antigamente. Eu uso o termo “antigamente” porque gostava muito de escutar as conversas de meus avós com outros parentes já idosos e ia recolhendo uma série de termos que estão totalmente em desuso e que vejo com frequência nos poemas de Patativa e Alberto Porfírio.

6 - A partir de suas pesquisas, quem é Leandro Gomes de Barros para você?
ARIEVALDO – Um gênio. Indiscutivelmente, o maior expoente da Literatura de Cordel em todos os tempos. Leandro Gomes de Barros representa para o cordel o que José de Alencar representa para a literatura considerada “erudita”. Além de ter sido um pioneiro, foi o primeiro a pegar o romanceiro ibérico e diluir em nosso meio com uma linguagem abrasileirada. No caso de Alencar, os romances indianistas, no caso de Leandro o uso de uma linguagem e de temas cem por cento nordestinos. O pioneirismo de Leandro Gomes de Barros e os mecanismos que ele desenvolveu para que houvesse a transição da poesia popular oral para o folheto impresso é uma coisa de gênio. A arte do trovadorismo veio da Península Ibérica e floresceu tanto na América Espanhola quanto na América Portuguesa. Houve um tipo de literatura popular em verso no México, Chile, Nicarágua e Argentina, muito parecido com o folheto nordestino... Até a gravura popular usada para ilustrar os corridos é muito parecida com a nossa, sem falar que muitos dos temas aproveitados pelos autores da Literatura de Cordel nordestina também floresceram nesses países. De certo modo, a Literatura de Cordel brasileira surgiu de maneira tardia, porque antes da vinda da Corte Portuguesa em 1808, era proibida a existência de prelos aqui no Brasil. Então, a poesia popular oral, que já existia desde os tempos de Agostinho Nunes da Costa, Hugolino do Sabugi, Inácio da Catingueira e Romano da Mãe D’água ganhou um novo alento quando Leandro mudou-se da Vila do Teixeira, na Paraíba, para Vitória de Santo Antão e passou a editar os primeiros folhetos nas tipografias de Recife. Leandro não se limitou a reaproveitar os temas correntes, como a gesta do boi (Boi Misterioso), o cangaço (já existiam cópias manuscritas dos ABCs de Jesuíno Brilhante e Lucas da Feira) ou temas europeus como o Ciclo de Carlos Magno e os Doze Pares de França, Imperatriz Porcina e Roberto do Diabo. Ele foi mais longe. Criou um tipo de poesia cem por cento brasileiro, destacou-se sobretudo pela sua sátira mordaz e instigante. O estilo de Leandro é inconfundível. Ele teve fôlego para transitar em todos os gêneros e modalidades correntes: Peleja, Romance, Gracejo, Crítica Social e o fez com maestria. Poucos conseguiram igualar-se. No geral, ninguém o superou até hoje.


7 - Qual a importância de Leandro para a literatura?
ARIEVALDO - A obra de Leandro, aparentemente simples (desprovida de lavores artísticos, como disse Drummond) e impressa em folhetos de baixo custo, abordava temas que eram realmente do agrado de todas as camadas sociais. Até mesmo intelectuais de renome, que supostamente torciam o nariz para esse tipo de literatura, acabavam comprando também, certamente levados pela curiosidade. É o caso de Rui Barbosa, que foi flagrado lendo avidamente alguns desses folhetos e ficou meio sem graça, dizendo que “naquilo” não havia literatura. Pessoas que não frequentavam escolas, que não tinham nenhuma intimidade com as letras, acabaram se alfabetizando através dos folhetos de Leandro ou se tornaram leitores ouvintes, porque esses textos eram sempre lidos em voz alta, em rodas de 5, 10, até 20 pessoas. Eu mesmo alcancei esse hábito na infância, pois nasci no Sertão Central do Ceará, numa localidade onde não havia energia elétrica e as pessoas formavam rodas de leitura à luz de lampiões.
8 - O que encontramos de Leandro nos dias atuais?
ARIEVALDO – Quando você encontrar um folheto bem feito, um cordel bem elaborado, com métrica, rima e oração, usando uma linguagem popular e agradável, polvilhada de chistes e de filosofia, de riso e de pranto, pode ter certeza que ali está a influência de Leandro. O poeta paraibano, tal e qual Charles Chaplin, sabia dosar muito bem o riso e o drama em seus enredos. Sabia ser lírico e sabia ser engraçado também. Muito de sua produção se perdeu na poeira do tempo, porque Leandro era também um grande glosador, daqueles que fazem versos de improviso ao pé do balcão, sem utilizar qualquer instrumento musical. Leandro reconhece num poema auto-biográfico que tinha a voz fina e pouco sonora, por isso não se aventurou pelo mundo como cantador de viola. Isso foi de grande proveito para poesia impressa, para a chamada Literatura de Cordel, porque ele deu vazão ao seu estro de forma escrita e isso ficou registrado em centenas de folhetos, nas milhares de edições que foram e ainda são feitas de seus clássicos.
9 - De onde surgiu a ideia de escrever a biografia/realizar uma exposição/transformar a casa em museu?
ARIEVALDO – Bem, a ideia da biografia surgiu justamente porque eu queria saber alguma coisa sobre Leandro e todos os pesquisadores que escreveram antes de mim usavam sempre as mesmas fontes e no frigir dos ovos o texto não ultrapassava três laudas. Eram datas desencontradas, nenhuma (ou quase nenhuma) informação sobre os seus antepassados, em suma, uma grande lacuna que precisava ser preenchida. Com muita paciência fui recolhendo documentos, depoimentos, artigos publicados em jornais e revistas, procurando folhetos raros de modo a reconstituir um pouco da vida e obra desse grande poeta. Esses documentos foram localizados em cartórios e livros de tombo das paróquias da Paraíba e Pernambuco, com a ajuda do escritor Pedro Nunes Filho e de Cristina da Nóbrega, ambos parentes de Leandro. Pedro era bisneto de Josefa Xavier de Farias, irmã da mãe de Leandro, dona Adelaide Xavier de Farias. E Cristina, por sua vez, bisneta de Daniel Gomes de Barros, irmão de Leandro. Depois que lancei o meu livro, em 2015, usando recursos do próprio bolso, porque não achei editor que apostasse no projeto, formou-se uma rede de pessoas interessadas em aprofundar o assunto. Eu, por meu lado, tenho contado com a ajuda imprescindível de alguns colaboradores, como o pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira-PB, para destrinchar algumas passagens obscuras da vida de Leandro, fuçando documentos cartoriais e livros da Igreja. Quando sair a segunda edição desta obra certamente virá muito mais alentada, bastante ampliada com novas informações e correção de algumas informações equivocadas.
10 - O que encontrou na pesquisa, que foi uma surpresa, ou que não era conhecido?
ARIEVALDO – Posso lhe assegurar, sem demagogia, que mais de 50% do que eu pesquisei não se encontrava em nenhuma obra anterior à minha. Iniciei essa pesquisa por volta de 2005 e, ingenuamente, andei publicando muita coisa em blogs, o que possibilitou a rapinagem de alguns aproveitadores, que lançaram mão de algumas descobertas e não tiveram o pejo de se arvorar “pais da criança”. Eu, por meu lado, não tenho vaidade e tudo que eu mais queria era resgatar o nome e a obra de Leandro, então não me ocupei em reivindicar a paternidade de nada. Tenho, isto sim, a sensação de haver dado uma grande contribuição, fazendo com que o nome de Leandro fosse relembrado e pesquisado pelas novas gerações. Uma revista publicada pela PUC, onde divulguei um artigo de mais de dez páginas, um caderno especial do jornal Diário de Pernambuco, uma matéria na Revista de História da Biblioteca Nacional e outras publicações anteriores ao meu livro atestam o mérito de meus esforços e bastam, por suas datas de publicação, e pelas referências ao meu trabalho, como documentos irrefutáveis. Diante desse reconhecimento, creio que a minha pesquisa valeu a pena. Mesmo não tendo pleno domínio dos modernos métodos da historiografia, mesmo não sendo um profissional da área, consegui o meu objetivo, como admirador de Leandro e diletante em matéria de história.
11 - Que fatos da vida de Leandro gostaria de destacar?
ARIEVALDO – Há episódios curiosos da sua juventude que só foram preservados pela tradição oral familiar e que eu soube através de depoimentos de Paulo Nunes Batista (filho do compadre e editor Chagas Batista) e de sua sobrinha-bisneta Cristina Nóbrega. Tem o caso da tia “cangaceira”, a Chica Luzia, que é citada por sua filha Julieta, numa entrevista. Aliás, sobre Julieta há um fato bem interessante. Ruth Brito Lemos Terra, que a entrevistou, não sabia, por exemplo, que seu verdadeiro nome era Gilvanetta. É assim que ela se encontra registrada no cartório de Jaboatão e também na sua certidão de batismo. Parece que ela não gostava de ser chamada de Gilvanetta (ou Giovanetta) e preferia ser chamada Julieta. No meu livro tem até foto dessa filha de Leandro.
Outro dado interessante é uma análise que eu fiz do artigo de Carlos Drummond de Andrade, que considera Leandro o verdadeiro Príncipe dos Poetas Brasileiros, título que na verdade foi dado à Olavo Bilac. Em suma, o livro está recheado de histórias desse tipo. E a primeira edição já está quase esgotada. Espero que surja algum editor interessado em fazer a segunda. Ou não, como diria Caetano Veloso. Muito do que eu queria dizer já foi dito.
12 - Como avalia a importância de Leandro para a poesia de cordel contemporânea?
ARIEVALDO – Acho que essa pergunta já foi satisfatoriamente respondida nas minhas intervenções anteriores.
13 - Poderia me falar um pouco sobre a poesia de Leandro? Quais elementos podemos perceber com mais destaque? Quais as temáticas? Quais as principais influências dele? Por que considera que essa poesia tenha permanecido?
ARIEVALDO – Leandro era um autodidata. Um cara que lia bastante, que se informava, que frequentava a redação de jornais, que acompanhava as publicações da Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro, que sabia o nome de todos os periódicos de Recife, que andava para cima e para baixo nos trens da Great Western. O folheto “Juvenal e o Dragão”, por exemplo, é uma adaptação do conto “Os três cães”, do livro Contos da Carochinha, de Figueiredo Pimentel. “A batalha de Oliveiros com Ferrabrás” baseia-se numa edição portuguesa da obra “Carlos Magno e os Doze Pares de França”. Pedro Cem era um texto popular em Portugal, assim como a Donzela Teodora e outros, que Câmara Cascudo considerava “livros do povo”. Leandro sabia o que queria. Ela sabia que tipo de leitura agradava ao povo, então seus temas prediletos eram os romances de amor, a gesta do boi mandingueiro, as pelejas entre grandes cantadores de seu tempo, e, sobretudo, a sátira política e a crítica social. Há quem diga que o folheto “Meia noite no Cabaré” foi inspirado em Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. O que sei, de certo, é que Mário de Andrade bebeu na fonte do Cancão de Fogo da Paraíba do Norte para escrever o seu Macunaíma.
Gisa Carvalho
Jornalista (JP 2603/CE)
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social (UFMG)
Mestre em Estudos da Mídia (UFRN)

quinta-feira, 1 de março de 2018

EU NÃO CORRO COM A CANGALHA

Traduzindo, em bom NORDESTINÊS:

"Nordestino que sou, nascido e criado no meio das caatingas, bebendo leite mugido com tapioca e café, sou daqueles que lutam até o apagar das luzes. Jamais entregarei o couro às varas. Em circunstância alguma, jogarei a toalha sobre o ringue. Só sairei da luta sob nocaute, ou se Deus ordenar."

Do poeta ARIEVALDO VIANNA


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Centenário de morte do poeta

Infogravura: Arievaldo Vianna sobre
pintura de Fabiano Chaves

Leandro Gomes de Barros:
o poeta do sertão

O Centro de Memória e Informação, da Fundação Casa de Rui Barbosa, realizará homenagem alusiva a morte do poeta Leandro Gomes de Barros, ocorrido em 4 de março de 1918. A programação que ocorrerá no dia 5 de março será composta de mesa redonda, mostra sobre o autor e atividades para o público infantil.
Há cem anos morria um dos maiores poetas brasileiros, Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Nascido em Pombal, na Paraíba, e criado em Teixeira - berço dos maiores cantadores do século XIX - fixou-se mais tarde em Recife, onde casou e constituiu família.
Leandro foi um dos poucos poetas, no país, a viver exclusivamente da sua arte: escrevia, editava, imprimia, divulgava e comercializava suas criações. Com estas criou seus filhos, beneficiados pelo seu precioso legado.
A poesia, motivo de sua vida, talvez também tenha sido o motivo de sua morte.O folheto O Punhal e a Palmatória, que pode ser lido como um libelo veemente contra o coronelismo do sertão nordestino, conduziu-o ao cárcere, o que o teria debilitado física e emocionalmente. Neste poema ele relata o assassinato de um senhor de engenho por um homem por ele surrado. No seu tempo e na sua terra, eram os “coronéis” que faziam “justiça”. Para alguns estudiosos, no entanto, Leandro foi vítima da gripe espanhola.
Conhecia como ninguém o sertão por meio das constantes viagens quando vendia suas obras e,principalmente, recolhia, com ouvidos atentos, os relatos de acontecimentos e histórias pitorescas que traduziria em versos.
Calcula-se que escreveu mais de mil obras cuja classificação tornou-se objeto de estudo de muitos pesquisadores, como Câmara Cascudo e Sebastião Nunes Batista, mas sem dúvida, são as sátiras sua marca registrada. Ganhou o título de “Príncipe dos poetas” de Carlos Drummond de Andrade, em 1976, e um bom número de trabalhos acadêmicos.
Muitas vezes ingressamos no universo de Leandro sem nos darmos conta. Nem todos sabem, por exemplo, que os dois primeiros atos do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, foram inspirados nos folhetos de autoria do poeta:Cachorrodos mortos e A história do cavalo que defecava dinheiro.
A Fundação Casa de Rui Barbosa é detentora do maior número de folhetos de Leandro que ainda nos chegaram como doação, pois muito do que produziu perdeu-se ao longo dos anos. São 460 folhetos, boa parte disponíveis no siteCordel: cultura popular em verso e no Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais RUBI.
Embora tenha morrido há um século, Leandro continua entre nós, pois sua poesia continua circulando, especialmente no Nordeste, porque, talvez, ele tenha conseguido como poucos, de forma genial, capturar a alma de um povo engenhoso, espirituoso e criativo.


SERVIÇO:
Data: 5 de março de 2016
Local:  Fundação Casa de Rui Barbosa
Rua São Clemente, 134
Programação:
10h. Cordel para crianças
        Cilene Alves de Oliveira

14h. Mesa redonda
Ana Carolina Carvalho de Almeida Nascimento
Gonçalo Ferreira da Silva
Sylvia Regina Bastos Nemer
Mediadora: Ana Ligia Medeiros

17h. Mostra:

Leandro Gomes de Barros: o poeta do sertão


PARA SABER MAIS: Interessados na biografia do grande poeta paraibano podem adquirir o livro LEANDRO GOMES DE BARROS - VIDA E OBRA, de Arievaldo Vianna. Preço do exemplar: R$ 30,00 + frete. Enviamos para qualquer parte do Brasil.

MAIORES INFORMAÇÕES: acordacordel@hotmail.com / arievaldoviana@gmail.com.br



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

SALMODIANDO



EU NÃO PROVO NADA DISSO
MAS TENHO CONVICÇÃO

Letra: Frei Mané Mago da Viola
Música: Madre Carochinha de Jesus

JÁ FIZ GELO PEGAR FOGO
FIZ COBRA CALÇAR SAPATO
COM OS BIGODES DE UM GATO
LACEI O CANCÃO DE FOGO
JÁ VI UM PINTO COM GÔGO
DAR UM TAPA NUM LEÃO
SÓ GOSTO DE ENCHER BALÃO
NAS COSTAS DE UM OURIÇO
EU NÃO PROVO NADA DISSO
MAS TENHO CONVICÇÃO.


A TERRA É O CENTRO DE TUDO
E O SOL GIRA EM TORNO DELA
INVENTEI A CARAVELA
DEPOIS DE BASTANTE ESTUDO
DE VIDRO FIZ UM ESCUDO
QUE AGUENTA O ROJÃO
ATÉ BALA DE CANHÃO
JÁ VENCEU NUM REBOLIÇO
EU NÃO PROVO NADA DISSO
MAS TENHO CONVICÇÃO.


SACI PERERÊ EXISTE
E PAPAI NOEL TAMBÉM
E ONTEM EU VI O HE-MAN
COM A SUA ESPADA EM RISTE
DIZENDO: - DESCULPE O CHISTE
ESQUELETO É MEU IRMÃO...
JÁ VI NEVAR NO SERTÃO
VI JUDEU COMER CHOURISSO
EU NÃO PROVO NADA DISSO
MAS TENHO CONVICÇÃO...


JÁ VI MULA SEM CABEÇA
SAINDO DA SACRISTIA
TIREI FOGO EM MELANCIA
(PORTANTO NÃO ESMOREÇA)
PARA QUE O LEITOR CONHEÇA
O PADIM CIÇO ROMÃO
BASTA IR LÁ NO JAPÃO
COM UMA PEDRA NO TOITIÇO
EU NÃO PROVO NADA DISSO
MAS TENHO CONVICÇÃO.


O DIABO ENXUGOU O PRANTO
DE UM DEVOTO QUE SOFRIA
DIZEM QUE SANTA SOFIA
FEZ UM BIQUÍNI DO MANTO
EDUARDO CUNHA É SANTO
NUNCA ROUBOU UM TOSTÃO
VIVE COM A BÍBLIA NA MÃO
REZANDO SEM COMPROMISSO
EU NÃO PROVO NADA DISSO
MAS TENHO CONVICÇÃO.


O VAMPIRÃO NÃO TEM GALHA
(ME DISSE UM BABÃO DAQUI)
CALÚNIA DA TUIUTI
QUE ESSA FOFOCA ESPALHA
MAS ELE NÃO SE ATRAPALHA
E SEGUE O SEU RAMERRÃO
REFORMANDO, À PRESTAÇÃO,
UM GRANDE QUEIJO SUÍÇO
EU NÃO PROVO NADA DISSO
MAS TENHO CONVICÇÃO.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

ROMANCEIRO SERTANEZ


O Afilhado da Virgem e a sina do enforcado

Texto de Paiva Neves


 Em “O afilhado da virgem e a sina do enforcado” o poeta Arievaldo Viana resgata a rica tradição da literatura de cordel em contar histórias. Nesse folheto de fôlego o poeta foi na medida e em 159 estrofes de seis versos reconta o clássico conto “O defunto”, do escritor português Eça de Queirós. É uma obra para ler e reler, pois em cada leitura é possível perceber determinadas nuances que em uma leitura aligeirada pode passar despercebida ao olhar menos atento.
Por exemplo, na minha primeira leitura me deleitei com o aspecto geral da narrativa, com o jogo de cenas da trama do vilão e o ímpeto benevolente do mocinho, e não me apercebi da riqueza no diálogo do mocinho com o cadáver. Sim, estamos falando de personagens totalmente boas e outras totalmente ruins pois essa é uma característica dos clássicos do cordel que tinha como objetivo contemplar leitores menos exigentes, leitores contextualizados e concretos de uma determinada época histórica. Leitores/ouvintes (2000) como bem foi caracterizado por Ana Maria de Oliveira Galvão. Segundo essa autora, no recorte da sua pesquisa de Doutorado, o público leitor de cordel dos anos 30 a 50, em Pernambuco era leito/ouvinte devido aos altos índices de analfabetismos. Dessa forma, os folhetos eram comprados e os poucos leitores alfabetizados liam ou cantavam as histórias rimadas para os demais. Assim, já que o ato de ler é bem mais amplo do que uma simples decodificação da palavra escrita, o público leitor ia além daqueles que de fato estava lendo, passando a abranger a totalidade do público ouvinte.
Nessas leituras coletivas eram lidos e ouvidos textos que iam além dos folhetos de 08 páginas. Os grandes romances da Literatura de Cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros, José Camelo Resende e tantos outros cordelistas de peso foram avidamente consumidos por esses leitores/ouvintes. Com o tempo essa tradição foi sendo extinta tanto pelos leitores/ouvintes como pelos poetas e passou a ser produzidos mais os folhetos com textos menos extensos.
Arievaldo Viana, nesse texto resgata essa tradição, a tradição do romance longo, de 32 páginas. “O afilhado da virgem e a sina do enforcado” é uma história que se Europa medieval. Uma jovem pura e bela, protótipo da mulher submissa, com um casamento arranjado, como era costume à época é casada com um velho perverso e ranzinza. Logo no início do enredo aparece um jovem na história e se apaixona perdidamente pela mocinha. O velho e perverso marido, que mantinha a mulher presa, desconfiando das intenções do rapaz resolve matá-lo, no entanto como o rapaz era devoto e afilhado da virgem termina sendo salvo por o cadáver de um enforcado. A seguir leia o início do romance e trechos da singular conversa do rapaz com o enforcado. Para ler a obra completa faça seu pedido pelo “Email”  cordelriaflordaserra@gmail.com ou pelo WhatsApp (085) 999569091, enviamos pelo correio.

Nossa língua portuguesa
Tem renomados autores
No Brasil ou Portugal
Existem grandes valores
Que lapidam a “Flor do Lácio”
Na função de escritores.

Através dos meus pendores
E pensamento veloz
Quero traçar um poema
Depois soltar minha voz
Tendo por base uma obra
Do grande Eça de Queirós.

“O defunto”, esse é o título
Original desse conto
Já diz um velho ditado
Quem reconta, aumenta um ponto;
Leitor, se for pretensão,
Queira me dar um desconto.

À narrativa remonto
Buscando um novo traçado
A começar pelo título
Que é mais do meu agrado:
“O afilhado da Virgem
E a sina do enforcado.”

Em mil, quatrocentos e
Setenta e quatro, em Castela
Residia uma senhora
Jovem, sábia e muito bela
Tinha o porte de princesa
Numa educação singela.

Tinha o talhe muito esbelto
E os lábios nacarados
Sobre a cabeça brilhavam
Lindos cabelos dourados
A pele branca encantava
Lembrando campos nevados.

Chamava-se Leonor
Essa divina beldade
Contava, por esse tempo,
Dezoito anos de idade
Casara com um fidalgo
Embora contra a vontade.

Com Dom Alonso de Lara
Homem de idade avançada
A belíssima Leonor
Casara quase obrigada,
Morava com o seu marido
Em Segóvia, enclausurada.

Além de velho e ranzinza
Alonso era ciumento
Não a deixava sair
E a tudo estava atento
A vigiava em segredo
Tinha cisma até do vento.

Levava a moça esta vida
Com Dom Alonso de Lara
Sair daquela prisão
Era coisa muito rara
Porém jamais lamentava
Sua sorte tão avara.

Defronte ao seu palacete
Num sobrado de esquina
Morava Dom Rui de Cárdenas
Moço de aparência fina
Sobrinho do Arcebispo
Uma mente cristalina.

(...)

Passando defronte o campo
O seu sombreiro tirou
Fez uma rápida oração
Depois se persignou
Uma voz misteriosa
Nesse momento escutou:

- Oh, cavaleiro, detende-vos,
Vinde cá!  - Assim dizia
A voz que ele escutou
Porém não compreendia
Que fosse de um enforcado
Que a ele se dirigia...

Quis seguir o seu trajeto
Mas logo que ele sai,
A voz lhe diz novamente:
- Oh, cavaleiro, esperai
Pois tenho algo a dizer-te
Peço-lhe então que voltai!


Um leve frio na espinha
Nesse momento sentiu
Porém detendo o cavalo
Aos mortos se dirigiu:
- Quem, dentre vós, me chamou?
Nesse momento ele ouviu:

- Fui eu, senhor! Disse um deles,
Vos peço um grande favor
Cortai depressa essa corda
Quero segui-lo, senhor,
Pois sei que vais a Cabril
Para negócios de amor!

Dom Rui puxou a espada
Sentindo um leve pavor,
Cortou a corda e mostrou-lhe
O sinal do Redentor;
O enforcado ajoelhou-se
Com reverência e temor.

Primeiro Dom Rui pensou
Ser do diabo uma cilada,
Mas o enforcado lhe disse:
- Não tenhas medo de nada,
Quero somente ajudar-te...
Ao longo dessa jornada.

- Pelo favor que agora
Eu pretendo vos prestar
Espero boa indulgência
Que os céus irão me dar...
Dom Rui então consentiu
O homem lhe acompanhar.

Então, com grande surpresa
Percebeu que o enforcado
Sem demonstrar grande esforço
Corria ali, do seu lado,
Disposto a acompanhá-lo
Como havia anunciado.


(...)