Nessa casinha funcionou a escola onde recebi as melhores lições desta vida.
Hoje, 12 de outubro, Dia da Criança, resolvi prestar uma homenagem às minhas professoras da infância, em especial à minha tia Heliodória, responsável pela minha educação entre os anos de 1975 e 1977. Dedico essa crônica a todos os meus companheiros de escola: Oswaldo, Marquinhos, Totonho, Walberto, Dário José, Evaldo, Ana Clara, Vânia, Isabel Cristina, Marly e Joana D'Arc Calixto (in memórian). Vejam se está no prumo:
Minha querida professora, Heliodória de Sousa Lima (Dodóia)
DECIFRANDO O BÊ-A-BÁ
(A ESCOLINHA DA ‘DODÓIA’)
Aprendi em casa as primeiras letras, motivado,
principalmente, pelo desejo de ler ‘versos’ e ‘romances’, nomes pelos quais a
minha avó conhecia os folhetos de Literatura de Cordel. Os meus prediletos eram
Juvenal e o Dragão, Princesa da Pedra
Fina, A vida de Cancão de Fogo e o seu testamento, A chegada de Lampião no
Inferno e As proezas de João Grilo.
Desde os cinco anos (ou antes disso), eu prestava muita atenção nas leituras
que minha avó fazia em voz alta, para uma roda de ouvintes, à luz de um lampião
a gás. De tanto pedir que ela repetisse tais leituras (quase sempre os mesmos títulos)
ela resolveu que já era tempo de me alfabetizar.
Trouxeram uma Carta de ABC daquelas antigas, de
Landelino Rocha, onde se aprende inicialmente o alfabeto maiúsculo, depois o
minúsculo e, finalmente, começa-se a juntar as sílabas. Eu estava tão empenhado
nisso que aprendi em pouco tempo. Minha avó tinha umas técnicas interessantes.
Uma delas era pegar uma folha de papel em branco, fazer um pequeno orifício no
centro, por onde se avistasse somente uma letra da cartilha, para que o menino
a reconhecesse sem associá-la com as letras vizinhas. Mais tarde, quando eu já
estudava com minha tia Heliodória, tinha dificuldade de decorar a sequência
correta dos planetas do Sistema Solar, tendo por base a distância de cada um em
relação ao Astro Rei. Ela me repassou uma fórmula infalível, que aprendera no
colégio das freiras, em Canindé:
— Meu filho, é muito simples. Decore esta
frase: “Minha Velha Traga o Meu Jantar. Sopa, Uva, Noz e Pão. Minha = Mercúrio,
Velha = Vênus, Traga = Terra, Meu = Marte, Jantar = Júpiter, Sopa = Saturno, Uva
= Urano, Noz – Netuno e Pão = Plutão.
Vó Alzira
Hoje em dia os astrônomos acharam por bem retirar
o pão do jantar, certamente para diminuir as calorias da refeição planetária. Ou, quem sabe, por contenção de despesas, já que se fala tanto em crise atualmente. Eu, de minha
parte, não acho que uvas e nozes sejam um bom acompanhamento para um jantar a
base de sopa. Prefiro o pão.
Vovó costurava e dava aulas ao mesmo tempo.
Passava a lição e voltava para a sua máquina de costura. Quando não podia me
acompanhar na tarefa, incumbia minha tia Augediva desse mister. Havia uma
escola na casa velha da Morada Nova mas eu não frequentava, porque além de ser
distante, diziam que por lá ainda persistia o velho castigo da palmatória e
minha tia não queria me expor a esse vexame.
* * *
Pois bem. Depois que “desasnei” nessa escola
caseira e bem informal, fui encaminhado à escola da Terezinha Terceiro de Araújo,
uma moça contratada pela Prefeitura de Quixeramobim para manter uma escola
chamada Ismael Pordeus, historiador nascido em nosso município que fez um ótimo
livro comparativo da obra de Oliveira Paiva, Dona Guidinha do Poço, com um episódio
real ocorrido no século XIX, o crime de Marica Lessa. A Escola Ismael Pordeus
existia de fato, mas não de direito. Não tinha prédio próprio. A professora
ensinava em sua própria casa, no turno da manhã, e a tarde ensinava outra turma
na sala da casa do meu tio José Oswaldo que era bem ampla e espaçosa, iluminada
por duas portas e três janelas. Tal iniciativa devia-se ao fato de que metade
dos alunos eram filhos do meu tio e os demais sobrinhos ou filhos de amigos que
moravam na vizinhança. Isso foi no correr do ano de 1974.
Em 1975 minha tia Heliodória, recém-chegada do
Rio Grande do Norte, onde estivera internada em colégio de freiras, resolveu
abrir uma escola para ensinar os sobrinhos. Primeiramente funcionava na sala da
casa do meu avô, com poucos alunos. Depois passou para uma casinha de taipa que
ainda hoje está de pé. Essa casinha servia de escola e moradia, pois ela era
recém-casada e nascera-lhe a primeira filha, Clara Artures (que eu chamava de
Tuinha), que por sinal é minha afilhada. Digo sem demagogia que foi a melhor
escola que frequentei em toda a minha vida, de onde retirei o maior proveito,
aliado ao fato de estar perto dos meus, cercado de carinho e atenção.
A professora tinha um jeito doce e maternal para
com todos, sem distinção, e pleno domínio das matérias que estudávamos. Tanto
que ela reunia na mesma classe alunos do segundo, terceiro e quarto ano letivo,
distribuindo as tarefas de cada um, sem perder o fio da meada. Eu e o
Marquinhos fomos os únicos que ganhamos apelidos da professora: Dodóia me
chamava de borrego preto e o Marquinhos era o borrego melado. Em 1977, a
Tuinha, que já aprendera a falar e era uma verdadeira pimenta, já aprendera os
nossos apelidos. Também pastorava as pessoas que passavam na estrada para puxar
conversa. Uma vez, flagrei o seguinte diálogo da Tuinha com Vanilda, uma moça
que morava nos Três Irmãos:
— Ei, Vanilda! Vai pra onde?
— Oi Tuinha, vou ali na bodega...
— Vanilda, passe por aqui, venha tomar um
cafezinho.
Ora vejam só, que criança hospitaleira. E olhem
que essa pestinha devia ter, no máximo, uns dois anos quando aprontou essa.
Eis a turma que estudava na “Escolinha da Dodóia”,
em 1976/77: Totonho, Oswaldo e Marquinhos (filhos do José Oswaldo); Dário José
e Walberto (filhos do tio José Viana); Vânia, da tia Mily; Isabel Cristina, da Cleide Viana; Ana Clara e Evaldo
(filhos do primo José Augusto Viana); Marly, do Raimundo Viana e Joana D’arc
Calixto (Era filha do Antônio Calixto. Faleceu precocemente, vítima de um câncer
letal). D'arc era um amor de pessoa, muito simpática, risonha, e tinha um
sinalzinho no rosto. Ela, Ana Clara, Vânia e Marly eram todas pré-adolescentes.
Deviam ter entre 12 e 15 anos na época. Eu só tinha 8 anos, era um inocente,
mas bem que gostava da companhia das meninas. Quantas vezes não suspendi a
minha tarefa para me enlevar com o sorriso da Joana D’arc? Os meninos do tio
José Viana, Dário e Walberto já pensavam em namoro, eram mais velhos que eu. Na
opinião geral, eu ainda fedia a mijo, embora não tivesse o hábito de mijar na
rede. Não obstante, todos admiravam a minha inteligência e ótimo desempenho em
quase todas as matérias, embora fosse o caçula da classe. Foi, sem sombra de dúvidas, o lugar onde estudei com mais prazer e dedicação em toda a minha vida.










