quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

BEM PRA LÁ DO FIM DO MUNDO...


A VIDA SÓ COMEÇA DEPOIS DO CARNAVAL

Baby a estrada é a mesma
Aprendi na quaresma
(depois do Carnaval)
Que a carne é algo mortal
Com multa de avançar sinal.

Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh baby... Oh, baby... 
A gente ainda nem começou!
(Raul Seixas – Cachorro Urubu)

Segundo o Eclesiastes, o livro mais sábio e profundo do Antigo Testamento, há tempo para tudo nessa vida. Eu que o diga... Já trabalhei de caixeiro de bodega, camelô, propagandista, artesão, radialista, redator, produtor de rádio e televisão, chargista, cartunista, ilustrador, diagramador, assessor sindical, folheteiro, editor, xilogravador, poeta e escritor. Já carreguei algumas pedras e já paguei algumas penas. Aliás, é impossível falar de tanta coisa e não lembrar uma estrofe do poeta Oliveira de Panellas, extraída do livro O poeta gozador:

Já fiz muita travessura
Desde os tempos de menino;
Já roubei cuia de cego,
Já cortei corda de sino,
Só nunca fui pederasta
Mas passei tirando um fino.

Vida de operário, de trabalhador é quase impossível conciliar com vida de artista. Mesmo assim eu tenho um pé em casa e outro na estrada. E vou escapando com a graça de Deus. Escapando e criando a filharada. É importante ter o dinheiro da cerveja sem deixar faltar o leite e a rapadura das crianças. Como dizia um velho sertanejo que conheci na infância: " Rapadula pá sobá!"

Há tempo para semear e tempo para se colher. E eu não ambiciono nada além de uma terra que tenha atoleiros de manteiga, barreiras de carne assada, lagoas de vinho do porto e mantas de carne guisada, como dizia o poeta Manoel Camilo dos Santos, autor do folheto Viagem a São Saruê.

É bom experimentar a vida de várias maneiras. Assim como gosto do sossego do meu lar e da minha rede de varandas, dos cafunés da mulher companheira, também gosto da estrada. A vida é assim mesmo. Meu avô Mané Lima já dizia:  Meu filho, quem sabe andar pelo mundo, pisa na folha seca e não chia... Vovó, velha previdente respondia:  Pedra que muito rola não cria lodo. Boa romaria faz quem em sua casa está em paz! E eu escutava os dois e equilibrava tudo na balança do juízo.

Então, hora de descanso é hora de hibernar, de se recolher na toca, de curar as bicheiras e voltar mais forte do que nunca. E quando cessa a tempestade e o sol desponta mais brilhante, é hora de selar o tejo, pisar na folha e ganhar o oco do mundo! Afinal de contas, depois do vendaval vem a bonança. Dizem que a vida no Brasil só começa depois do Carnaval. Mas, este ano, para não fugir da regra, já apareceu um cientista-vidente lá das bandas da Rússia dizendo que terra vai se acabar no próximo dia 16/02, quando um asteroide vagabundo chocar-se com o nosso planeta.

Depois da morte do Ministro Teori eu não estou interessado em nenhuma teoria... Vamos ver o que vai acontecer depois do FIM DO MUNDO. Concluo com o verso atribuído a Zé Limeira, o Poeta do Absurdo e reaproveitado de forma magistral pelo sumido estradeiro Belchior: ANO PASSADO EU MORRI, MAS ESTE ANO EU NÃO MORRO!

Arievaldo Vianna


sábado, 28 de janeiro de 2017

Do blog do Raymundo Netto


O jornal O POVO publicou crônica de Raymundo Netto sobre o pioneirismo do cearense Gustavo Barroso na criação de super-heróis no mundo dos quadrinhos. Oscar, o herói da história, viaja ao Céu para falar com São Pedro montado num cometa.
Interessante a presença de São Pedro como personagem da história. Lembra o cordel de Leandro Gomes de Barros "UMA VIAGEM AO CÉU", onde o herói retorna do Paraíso montado num trovão, trazendo um corisco nas mãos para se defender de ladrões.
Vejamos, a seguir, a crônica de Raymundo Netto e trechos do cordel de Leandro:


Fábulas Sertanejas, Biblioteca do Tico-Tico




Oscar, personagem de Gustavo Barroso em O Tico-Tico (1908)

Dia do Quadrinho Nacional

Gustavo Barroso: herói?

Por Raymundo Netto (O Povo)

No Sul e Sudeste do nosso país, pesquisadores e aficionados do universo dos quadrinhos se perguntam: seria realmente um brasileiro o criador do primeiro super-herói do mundo? Não me interessando em desfiar a polêmica, o que tenho a acrescentar é que esse brasileiro é um cearense e que se chama Gustavo Barroso (1888 – 1959). Sim, um dos escritores que mais produziu obras no país – cerca de 128 –, entre contos, romance, poesia, crítica, estudos, ensaios, além de cenografia, xilogravura, caricatura e... histórias em quadrinhos!
No período em que podemos constatar a participação de Barroso na “O Tico-Tico”, primeira revista em quadrinhos brasileira, esse rapazola de apenas 20 anos, aluno da Faculdade de Direito do Ceará, colaborava em periódicos não apenas em Fortaleza, onde residia, mas no Rio de Janeiro, como ele mesmo nos diz em seu “O Consulado da China” (1941): “Enviava caricaturas e trabalhos literários a jornais e revistas do Rio de Janeiro [...] A ‘Careta’ estampou vários contos humorísticos meus [...], entre 1907 e 1910. De fins de 1908 a princípio de 1909, a primeira página de ‘O Tico-Tico’ foi tomada pela história ‘O Anel Mágico’, ‘textos e ilustrações de João do Norte’ [em vez de ‘João do Norte’, pseudônimo usado por Barroso em algumas composições, vemos a sua assinatura ‘G. Barroso’] que fez as delícias da meninada daquele tempo, segundo o depoimento pessoal de Luís da Câmara Cascudo [...]”
Sua estreia se deu na “O Tico-Tico” nº 161, Ano IV, numa quarta-feira, dia 4 de novembro de 1908, estampando a capa da famosa e popular revista com o seu “O Anel Mágico”, narrativa em capítulos, que, em 1924, seria publicada na íntegra sob o título “O Anel das Maravilhas”, talvez a primeira graphic novel nacional, mais tarde um dos prêmios ofertados em concursos pela própria “O Tico-Tico”.
Mas do que se tratava tal história? Conta o narrador existir num tempo distante um reino dominado pela mais absoluta paz. Ali, as pessoas entravam e saiam com a maior liberdade, bastando atravessar uma pesada ponte levadiça que há anos não se via sair do chão. O seu soberano era o bondoso e justo rei Canuto XXX, pai do casal: Borboleta (19) e Oscar (18).
Entretanto, no entorno do reino, havia outro, tenebroso e horrendo, regido por Higino, um gigante feroz que, sabiam, possuía um anel mágico que lhe conferia grande poder. Um dia, não tão belo, o gigante deu pelo encanto da princesa Borboleta e decidiu tomá-la como esposa, claro, ansiando também pela riqueza do rei Canuto que, certamente, rejeitou a proposta do vilão.
Higino, furioso, convocou toda uma legião de espíritos do mal que, em covarde investida, avançou sobre as muralhas despreparadas do castelo e matou um a um de seus habitantes, com exceção de Borboleta, agora prisioneira na torre, e de Oscar, o nosso herói, que mesmo ferido consegue escapar na densa floresta onde encontra a fada Mariposa. Ela, então, revela ao cavaleiro que a única forma de ele libertar a irmã é conseguir se apoderar do anel mágico de Higino, oculto na torre do cume da montanha Zohnomin, guardada pelo terrível dragão Pyrogrulos. Para tal cruzada, a fada oferece relíquias mágicas: um carbúnculo (talismã), um cavalo (que não se alimenta) – não sei o porquê do cavalo, pois Oscar voa em estrelas, águias gigantes, entre outros seres fantásticos – e uma espada (que nunca perde o fio). Depois, aponta o primeiro de uma série de obstáculos que terá de desafiar para conseguir encontrar a irmã, vingar a morte do pai e derrotar o gigante de uma vez por todas. De posse do carbúnculo, no caminho mostrava-o a seus aliados, como o duque da Prata, guardião da Porta de Ouro, a rainha Batrachia, senhora da Lagoa dos Encantos, São Pedro – que o ensinaria a vencer o dragão –, o rei dos cometas, Volantina, a rainha das águias, entre outros. É curioso perceber que aquele jovem e talentoso jornalista criou e quadrinizou – ilustração, roteiro e história –, há mais de 100 anos, uma narrativa de fantasia que hoje impulsionaria best-sellers e a bilheteria de cinemas...

Fonte: www.raymundo-netto.blogspot.com.br


Gustavo Barroso


UMA VIAGEM AO CÉU
Leandro Gomes de Barros



TRECHOS:

Aí chamou Santa Bárbara,
Esta veio com atenção
São Pedro aí disse a ela:
Eu quero uma arrumação
Este moço quer voltar
Arranje-lhe uma condução.

  • Bote cangalha num raio,
E a sela num trovão
Veja se arranja um corisco
Para ele levar na mão,
Porque daqui para Terra
Existe muito ladrão!

Eu desci do Céu alegre
Comigo não foi ninguém
Passei pelo Purgatório
Ouvi um barulho além –
Era a velha minha sogra
Que dizia: - Eu vou também!

Eu lhe disse: - Minha sogra,
Eu não posso a conduzir
Ela me disse: - Eu lhe mostro
Porque razão hei de ir
E se não for apago o raio
Quero ver você seguir!

Nisso o raio se apagou,
Desmantelou-se o trovão,
O corisco que eu trazia
Escapuliu-se da mão
E tudo quanto eu trazia
Caiu desta vez no chão.

(...)


Capa do folheto de Leandro com o nome 
do editor João Martins de Athayde


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Adeus ao Poeta


PEDRO NUNES FILHO VIAJOU PARA OUTROS SERTÕES

Por Arievaldo Vianna

        Foi com surpresa e pesar que recebi na manhã de hoje (23/01) a infausta notícia do falecimento do escritor Pedro Nunes Filho, um sertanejo apaixonado pela nossa cultura, autor de livros belíssimos como CARIRIS VELHOS - PASSANDO DE PASSAGEM, A SAGA DO GUERREIRO TOGADO, CAATINGA BRANCA, dentre outros. Pedro tinha 73 anos e lutava contra um câncer. Estava internado no Hospital Português, no Recife-PE. 

O homem que conhece o sertão, sabe andar na caatinga: pisa na folha seca e não chia! Esse dito, repetido tantas vezes por meu avô Manoel Lima, pode se enquadrar perfeitamente em Pedro Nunes, um cidadão viajado, que cursou faculdade e fez curso de especialização no estrangeiro, mas que nunca perdeu de vista a alma sertaneja, que tinha conhecimento profundo da fauna e da flora do bioma Caririzeiro. Seu livro "Caatinga Branca", uma coleção de contos narrados por vaqueiros, quase sempre na primeira pessoa, mostra que ele sabia prescrutar o âmago e a essência do homem do sertão. E expressava esse sentimento de forma encantadora, tanto em prosa, quanto em poesia. 

Pedro Nunes Filho nasceu em 18 de abril de 1944, no povoado de Bonfim, São José do Egito, Pernambuco, mas foi criado na Fazenda Mugiqui, distrito da Prata, na época pertencente ao município de Alagoa do Monteiro, na Paraíba. 

Em 2015 tive o prazer de passar uma tarde em sua companhia, num sítio que possuía na Zona da Mata, próximo ao Recife. Na oportunidade entabulamos uma animada conversa sobre o nosso trabalho e algumas influências em comum, passando por José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Leonardo Mota, Gustavo Barroso, Guimarães Rosas e os nossos poetas populares, em especial Pinto do Monteiro e Leandro Gomes de Barros, de quem Pedro Nunes ainda era parente.

Aliás, foi ele quem fez o texto de apresentação da biografia do poeta, que lancei naquele ano. Siga em paz, meu amigo. Que Deus o acolha na sua infinita misericórdia, num recanto do Paraíso chamado SERTÃO... Lá no Cariri celeste.


RESUMO BIOGRÁFICO
Pedro Nunes Filho – Pernambucano de São José do Egito, criador de cabras e ovelhas na Fazenda Mugiqui, Cariri paraibano, onde passou sua infância. Auditor aposentado da Receita Federal do Brasil, fez pós-graduação em Direito Tributário na Faculdade de Direito do Recife, onde se graduou em 1971, e especialização em Tributação Internacional no Japão, em 1995.
Era sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri – IHGC e da Sociedade Paraibana de Arqueologia-SPA.
Autor dos livros: Cariris Velhos – Passando de Passagem; Caatinga Branca; Guerreiro Togado – A saga do Bacharel Augusto Santa Cruz, Mundo-Sertão – Terra não revelada, dentre outros. Era também exímio poeta e escultor, deixando muitas obras talhadas na madeira.

Um dos últimos trabalhos foi a gravação do documentário “Sumé: Personagens de sua História”. O documentário tem os comentários do arqueólogo e historiador Pedro Nunes e apresentação da radialista  Nayde Nunes Alcântara e produção de Renato Morais.


Crédito da foto: Blog Cariri em Ação

TEXTO QUE PEDRO NUNES FILHO escreveu para as orelhas do livro LEANDRO GOMES DE BARROS – VIDA & OBRA, de ARIEVALDO VIANNA


Água de beber

Pedro Nunes Filho


Pesquisa árdua, essa realizada pelo moço Ari. Depois anos, somente agora ganha o formato de livro e chega às mãos dos leitores! Acompanhei passo a passo suas idas e vindas, entrevistando pessoas, colhendo informações e dados disponíveis em registros cartoriais. Por que tanta dificuldade em escrever a biografia do mais famoso dos cordelistas dos Brasil? É simples. Há escritores cuja produção se expande e se populariza de tal forma queos escritos deles se tornam mais importantes que sua trajetória pessoal e familiar. Isso significa que a vida deles passa a ser a própria obra. É o caso de Leandro Gomes de Barros. O levantamento de sua biografia só foi possível porque Arievaldo Viana é também cordelista e tem grande paixão pela literatura popular. Inconformado com a falta de informações sobre a vida do poeta a quem aprendeu a admirar, Ari arregaçou as mangas e partiu para a luta em busca de dados biográficos do famoso menestrel,aqui biografado com precisão. Ari conseguiu seu intento, graças ao imenso labor dispendido e à capacidade de sua mente curiosa e investigativa. Por isso, eis aqui em suas mãos, Leandro completo, de corpo e alma.
Desde pequeno que eu ouvia meu pai dizer que Leandro pertencia à nossa família. Essa informação me enchia de orgulho. Meus tataravós, Antônia e Manoel Xavier de Farias, eram os avós do poeta. Suas obras eram muito conhecidas, lidas e relidas. Vez por outra, ele voltava à cena nas histórias de meu pai e sua figura inteligente me encantava.
Guimarães Rosas afirma que o Sertão está em toda parte. Na minha visão, acha-se inteirinho na obra de Leandro. Embora ele fosse um homem do povo e escrevesse sobre temas populares, era um sujeito afamilhado e de boa aparência. Não se bacharelou, nem tirou carta de doutoração alguma, mas adquiriu saber nos sacolejos da vida e na convivência comas gentes dos sertões que as terras andam. Por isso, conseguia enxergar mais que as pessoas comuns. Cedo, deixou o conforto e o aconchego da casa dos avós, que o acolheram em sua orfandade, e largou-se mundo afora para viver exclusivamente de sua arte. Trajetória difícil, mas o talento garantiu-lhe sempre uma sobrevivência digna.
Seus folhetos revelam que era um homem de muitas virtudes. Bom observador, logo percebeu que o Sertão é lugar onde manda quem é forte. Escrevia com detalhes a vida e os episódios de homens que carregavam sementes da morte em seus embornais, canos de fogo em suas mãos e viviam de tanger guerra.Conhecedor de suas crueldades, descrevia suas festas de guerra sem transformá-los em heróis.Na intimidade, era um homem simpático, conversador, sensível e pacificioso. 
Hoje, quem quer que pretenda estudar o fenômeno da literatura de cordeltem que se debruçar nesta obra sobre Leandro, onde vai encontrar muitas cacimbas e grotas com água da melhor qualidade. Embora sua temática seja popular, Leandro é múltiplo. Não é um dizedor de mensagens, foge dos lugares comuns e nunca repete o repetido. Quando acabava de escrever um romance falando de crimes ou escândalos, caçava logo um tema que falasse de amor. Era de inventar que ele ganhava a vida e suportava o doce peso do existir. Profundamente criativo, sua mente nunca andava escoteira. Só mesmo lendo sua biografia e sua obra é que a gente pode ver o talento e o tamanho do homem que existe naquele homem.


* * *


Sobre o livro Guerreiro Togado, considerado uma das maiores obras de Pedro, inscreve-se entre os melhores estudos municipalistas nordestinos.


A HISTÓRIA DO “GUERREIRO TOGADO”

O promotor Augusto de Santa Cruz Oliveira, acompanhado de 120 homens fortemente armados, acaba de invadir a cidade de Monteiro, no Cariri paraibano. O revoltoso quebrou as portas da cadeia pública, soltou os presos, prendeu os policiais e tomou como reféns várias autoridades, entre elas, o promotor em exercício, Dr. Inojosa, e o prefeito daquela cidade, Coronel Pedro Bezerra da Silveira Leal. Houve resistência, tiroteio e mortes. O juiz e o vigário fugiram.
A população está em pânico. As famílias retiraram-se, abandonando suas casas e seus negócios. Monteiro tornou-se um barril de pólvora. A partir de hoje, ninguém sabe o que pode acontecer.
Este incidente político ocorreu no dia 6 de maio de 1911 e foi noticiado dessa forma pela imprensa da capital.
Há 100 anos, a cidade de Monteiro foi invadida conforme noticiado acima. Aí começou uma guerra que encheu todo o Sertão. Ao mesmo tempo em que Santa Cruz provocava medo, despertava admiração por sua inteligência, oratória, simpatia e, sobretudo, por sua valentia e destemor.
Enfrentou sem medo as forças políticas da oligarquia paraibana, pegou em armas, lutou, tentou mudar, nada conseguiu, a não ser respeito e admiração por enfrentar corajosamente um exército composto por 500 homens das polícias da Paraíba e de Pernambuco que atacaram sua Fazenda Areal, onde havia construído sua fortaleza para resistir, acompanhado de 120 homens e tendo como trunfo cinco autoridades que prendeu e levou consigo em sua fuga para o Juazeiro do Padre Cícero.


Fonte: http://opipoco.com.br/site/diversas/morre-o-escritor-pedro-nunes-filho-autor-do-livro-guerreiro-togado/




terça-feira, 17 de janeiro de 2017

LANÇAMENTO

Lançamento do livro de Bruno Paulino foi de fazer inveja a
Antônio Conselheiro. Saiba porquê, no rodapé da matéria...




ESCRITOR BRUNO PAULO LANÇA NOVO LIVRO COM PERFIS DE POETAS E PROSADORES CEARENSES


Escritor Bruno Paulino, no lançamento de Sertão em Desencanto

PERFIS SERTANEJOS

Traçar perfis jornalísticos com sabor literário foi uma das atividades prediletas do escritor maranhense Humberto de Campos em seus 20 anos de profícua atividade literária. O filho ilustre de Miritiba-MA chegou a reunir boa parte de sua produção jornalística, espalhada em diversos periódicos (jornais e revistas), em livros que obtiveram enorme sucesso à época de seu lançamento. Existe mesmo uma série com esse título singelo “Perfis – por Humberto de Campos”.  Esses perfis jornalísticos, tão em voga desde o Século XIX, visam registrar o cotidiano, o ambiente, a história de vida de pessoas famosas ou anônimas, buscando revelar ao público fatos inéditos ou pitorescos da vida da personalidade retratada. Conclui-se, portanto, que esse estilo de reportagem, que apresenta em sua linguagem traços da literatura, caracteriza o chamado jornalismo literário.
O título deste prefácio – “Perfis Sertanejos” -, remete a um livro raro do folclorista José Carvalho de Brito, cearense do Crato, membro da Padaria Espiritual e primeiro autor a ocupar-se da pessoa e da obra do célebre Patativa do Assaré em livro publicado no Pará, no distante ano de 1930. Por esse tempo o bardo cearense ainda se chamava Antônio Gonçalves e tinha apenas 21 anos de idade. Aliás, reza a tradição que foi José Carvalho quem crismou o poeta Antônio com o codinome Patativa. Agora vamos saber, no parágrafo seguinte, o que esse enorme “arrodeio” tem a ver com o novo livro de Bruno Paulino.
O jovem escritor Bruno Paulino, já consagrado no mundo da crônica após o lançamento de “Lá nas Marinheiras” e “A menina da Chuva”, resolveu aventurar-se também pela poesia, com assumida preferência pelo gênero Cordel. Sempre propenso a novos voos, estreia em novo gênero literário. Reúne agora, no presente volume, uma série de perfis jornalísticos publicados no jornal “Sertão”, informativo produzido lá mesmo no seu amado Sertão Central, mais precisamente em Quixeramobim-CE. O material aqui enfeixado apresenta o melhor de sua produção veiculada naquele informativo no período de 2014 a 2016.
Antigamente, menino sertanejo armava alçapão para pegar passarinhos. E depois de pegá-los, havia o deslumbramento da criança e a adaptação do pássaro cativo que, se abeirando da letra de Humberto Teixeira e Gonzagão, acabava cantando “melhor”. Esses textos de Bruno Paulino surgem depois de uma conversa um tanto informal com a personalidade que deseja retratar. Como um fotógrafo talentoso e detalhista, ele busca flagrar na prosa de seus interlocutores momentos lúdicos e aparentemente banais que acabam produzindo uma ótima impressão nos leitores, a partir de sua abordagem apaixonada e perspicaz. Com seu talento nato de prosador, vai urdindo os fios da conversa como quem tece uma rede de varandas, emprestando a cada peça um colorido novo e diferente. E tem uma vantagem... Ele nem precisa furar os “zói” dos Passarim. Aqui, todo mundo canta melhor!
A jornalista portuguesa Cremilda de Araújo Medina, professora de Comunicação da USP, em seu livro Entrevista: o diálogo possível (Editora Ática - São Paulo, 2008) estabelece que “ao contrário da espetacularização, a entrevista com finalidade de traçar um perfil humano não provoca gratuitamente, apenas para acentuar o grotesco, para “condenar” a pessoa (que estaria pré-condenada) ou para glamourizá-la sensacionalisticamente. Esta é uma entrevista aberta que mergulha no outro para compreender seus conceitos, valores, comportamentos, histórico de vida”.
Passemos agora ao critério utilizado por Bruno Paulino na escolha de seus biografados. Quase todos os personagens aqui retratados têm alguma ligação com o Sertão Central, em especial com Quixeramobim, sua cidade natal. Sob essa ótica é que desfilam por suas páginas nomes como Luiz Gonzaga (visitando a terrinha e cortando o cabelo numa barbearia da cidade natal de Fausto Nilo), Audifax Rios (falando de Antônio Conselheiro), Gordurinha (e suas canções dedicadas ao sertão cearense), Geraldo Amâncio, Diogo Fontenele, Cláudio Portella (trazendo o Cego Aderaldo a tira-colo), João Pedro do Juazeiro, Saraiva Júnior, Luiz Costa, Jards Nobre, João Eudes Costa, Klévisson Viana e o autor dessas linhas.
Ouso afirmar que esse livro do professor Bruno Paulino terá grande repercussão e utilidade no ambiente escolar, recebendo, desde já, o selo “altamente recomendável” deste escriba que vos fala e relata. Boa leitura.

Arievaldo Vianna

Escritor, membro da AQUILETRAS

SERVIÇO
Lançamento dia 26 de janeiro
Na Casa de Antônio Conselheiro
em Quixeramobim-CE
A partir das 19h.

* * *

UM PROFETA EM SUA TERRA

Diz o provérbio bíblico que ninguém é profeta em sua terra. De fato, tal sentença era infalível na Palestina dos tempos de Jesus. E valeu até para Antônio Conselheiro, o filho mais ilustre de Quixeramobim. Mas, por artes do destino, não pode se aplicar ao jovem escritor Bruno Paulino, conterrâneo do beato Antônio Vicente Mendes Maciel.
O lançamento de seu novo livro SERTÃO: POETAS E PROSADORES, justamente na Casa do Conselheiro, foi um tremendo sucesso, coisa muito rara de se ver nesse país onde pouca gente ler, sobretudo depois do advento das redes sociais onde as informações já chegam prontas, mastigadas, digeridas e, na maioria das vezes, distorcidas com o intuito de fazer a massa ignorante seguir em frente (ou se acomodar) tal e qual um rebanho de ovelhas e bodes, tudo misturado, de modo conveniente ao perverso sistema que rege o planeta nos dias de hoje. 
Tá vendo aí, Conselheiro? O Sertão pode até não virar mar, mas o lançamento foi um sucesso absoluto! Confiram, vocês mesmos, as fotos do lançamento de Bruno Paulino, clicado pelas lentes do não menos talentoso Tarcísio Filho:








sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DIA DE REIS NA FORTALEZA ANTIGA


Jean Baptiste Debret: Arrecadação de esmolas para a festa do Rosário

O DIA DE REIS NA FORTALEZA ANTIGA

No livro ‘Scenas e Typos’ do escritor Rodolfo Teófilo há uma bela crônica intitulada Através do passado, que fala de um ritual que ocorria na Fortaleza antiga, antes da abolição dos escravos: a coroação do rei e da rainha dos pretos na vetusta Igreja do Rosário. Repasso, a seguir, os principais trechos da referida crônica:

ATRAVÉS DO PASSADO

Igreja do Rosário (Fortaleza Nobre)

Eu ouvia missa dominical na igreja do Rosário, em que me batizaram, havia mais de meio século. Este pequeno templo, antes de edificada a Sé, servia de matriz.
Frequentavam-no então o governador da capitania e a elite da cidade, composta de portugueses.
Era também a igreja dos escravos, mas isso uma vez no ano. Tinha patrimônio e irmandade. Celebrava-se nela a festa da padroeira, com missa cantada e assistência real. Ainda alcancei esse tempo, que já vai longe. Era o dia dos cativos o dia 6 de janeiro, dia de Reis.
Em seu dia, esses desgraçados eram livres, tanto que tinham pátria como os seus imperantes.
À hora da missa, seguiam para a igreja o rei, a rainha e a corte. O rei era um preto já idoso, de manto, cetro e coroa. A rainha, uma escrava, meio velha, acompanhada de suas damas de honor. Na capela-mor estava armado o trono, em que se deviam sentar suas majestades.
Logo que chegava o rei com a sua corte, entrava a missa, que era cantada, com repiques de sinos e foguetes. O casal de escravos sentava-se no trono com ares de quem estava convencido da realidade da sena, representada também pelos reis dos brancos, tão ou mais ridículos de cetro e coroa do que ele. Acabada a missa, saia o cortejo real de cidade à fora até o ‘palácio’, em que passava o resto do dia a comer, a beber, a dançar, festejando as poucas horas de liberdade que todos os anos lhe concediam os senhores da terra, que primeiro libertou os seus escravos.
(...)
As senhoras de distinção iam à missa em palanquim. Entre elas estava a minha avó paterna, para quem o marido, o português Manoel José Teófilo, negociante abastado, mandaram vir da terra um muito lindo.
Comprara uma parelha de escravos, parecidos, como se fosse cavalos de sege, atrelados, carregando a senhora para a igreja. Quando minha avó me contava esta história, eu, que era tão abolicionista quanto ela escravagista, condenava aquela barbaridade; a velhinha ria-se e dizia-me que o escravo vinha do começo do mundo.
(...)”

(in 'Scenas e Typos', Rodolfo Teófilo - Fundação Waldemar Alcântara, edição fac-similar)


HISTÓRIA DA IGREJA DO ROSÁRIO

Em Fortaleza, vila nascente onde estava instalada a administração da Província do Ceará Grande, como em muitas outras cidades do Brasil, os homens de cor, embora não fossem em grande número, procuraram, desde cedo, ter o seu próprio templo, já que eram discriminados nas igrejas construídas pelos brancos. E, assim como em outras partes, sua devoção dirigia-se a Nossa Senhora do Rosário, considerada sua Padroeira.
A tradição diz que já em 1730, um preto africano construiu, no mesmo local onde está a atual, uma capelinha, de taipa e palha, onde os negros rezavam terços e novenas, na época bastante distante da Vila, centralizada em redor da Matriz de São José.

Debret:  Casamento de negros

A Primeira Festa

A primeira festa dedicada a Padroeira realizou-se ali no dia 27 de outubro de 1747, cobrando os padres que funcionaram nos atos religiosos a quantia de 10$000 pela missa e 7$000 pela música. A partir de então, todos os anos, vinham os pretos, escravos ou forros, nos bandos de congos dançarem na Noite de Natal em frente à Igreja, para festejar a Virgem. Era grande o número de pessoas que vinham prestigiar a solenidade, inclusive autoridades. Em certas ocasiões a festa do Rosário alcançava raro esplendor. Como lembra João Nogueira, em sua "Fortaleza Velha" era festa de pretos, mas levada com grande pompa e luxo, as negras escravas ostentando cordões de ouro, brincos e jóias de valia, que suas bondosas senhoras lhes emprestavam para que se apresentassem como o espavento e brilho exigido pela importância da missa e coroação dos reis.
Assim, era na igrejinha do Rosário, toda caiada de novo, que se procedia ao ritual da coração do rei, do rei dos Congos, do rei do Rosário, com sua rutilante coroa à cabeça, seu vistoso manto de tecido de algodão aveludado, de um vermelho vivo, contrastando com colete verde e calças azuis, e sempre acompanhado de sua corte, de onde se destacavam as figuras do "príncipe" e do "secretário", com seus chapéus de abas largas enfeitados de brilhantes conchas.E pelas ruelas nascidas na beira do mar, rumo ao sul vinha o cortejo, cantando e executando bailados e jogos de agilidade, simulando combates, rumo ao Rosário.
O Secretário, então, perguntava: Os pretinhos dos congos, pra onde vão?
O coro respondia: Nós vamo pro Rosário. Festejá a Maria.
Secretário: Oh! Festeja, oh festeja, oh festeja. Com muita alegria.
Coro: Nós vamo pro Rosário, Festejá a Maria.
Secretário: É de zambi a pumba. É de bambê.
Coro: Miserere, miserere. Misere rê.
Secretário: Papaconha, papaconha. Peneruê.
Coro: É de zambi a ponga. E qui bambê.

Maria Moreira e Joana Rodrigues, filhas de Jorge Rodrigues, atendendo ao seu pai, fizeram doação à Santa, em 28 de novembro de 1748, de terras na estrada que ia para Porangaba no rumo de Porangabuçu, com mais ou menos um quarto de légua de comprimento, por três quartos de largura. Esse patrimônio ainda existe, produzindo renda sob a forma de fóros e laudêmios.
Havia uma Irmandade, com dirigentes negros e um Juiz (Presidente) branco, porém, no início, o grupo tinha dificuldades em manter o imóvel em perfeitas condições, tanto que, em 1753 a igrejinha estava ameaçada de cair e com a permissão das autoridades eclesiásticas, iniciaram-se a reconstrução, em pedra e cal, que em 1755 ficou pronta.
Em 1821, a Matriz de São José estava em ruínas, precisando ser reconstruída. Tendo a vila crescido para o lado da Igreja do Rosário, foram passadas para esta, em procissão, o Santíssimo Sacramento e todas as imagens, passando ela a funcionar como Matriz até 2 de abril de 1854, quando as imagens voltaram à Matriz.
Sendo a Igreja unida ao Estado, os templos eram usados para realização de atos públicos. Ocorrendo um conflito mais grave quando das eleições realizadas em setembro de 1848, resultando em derramamento de sangue dentro do próprio recinto sagrado, a capela foi interditada, sendo posteriormente arrombada pelos líderes de um dos partidos.
Ao tempo em que era presidente da Província o bacharel Francisco Xavier Paes Barreto, o vice-presidente José Antônio Machado mandou proceder nova reforma que terminou em 1855.
Em 1872 o capitão João Francisco dos Santos, procurador dos bens patrimoniais ficou encarregado de limpar, assear e decorar o templo. A Igreja do Rosário sempre foi mantida com recursos próprios, advindo de grande terreno a ela doado em 1748, terrenos esses que se estendiam desde o local da igreja até o sítio Damas. Em 1871, entretanto, seus recursos se esgotaram e o então presidente José Antônio Calazans Rodrigues (Barão de Taquary) encaminhou pedido que só foi atendido na gestão seguinte, de João Wilkens de Mattos, importando na quantia de 2.000$000 (dois contos de réis), da Lei Nº 1440 de 2 de outubro de l871. Mas a verba destinada ao trabalho no templo era insuficiente e o presidente teve de complementar com pagamento de férias por conta da verba "Obras Públicas", ficando a obra concluída ainda em 1872.
O cronista Mozart Soriano Aderaldo, em "Variações em torno da Catedral", revela que a 16 de fevereiro de 1892, na revolta contra o Presidente General José Clarindo de Queiroz, promovida por Floriano Peixoto e executada pelos alunos da Escola Militar, uma bala de canhão, de 11 quilos, das utilizadas no bombardeio do Palácio da Luz - vizinho à igreja - foi arremessada contra a sua porta principal e, penetrando por ali arrebentou o púlpito, 2 balaustres da mesa de comunhão e a parede que dá para o corredor esquerdo; depois, em ricochete, destruiu o altar de Nossa Senhora das Dores e mais 3 balaustres. Outra bala dessas apeou o General Tibúrcio do seu pedestal, em episódio mais conhecido, no qual salientou-se o caráter daquele militar cearense: mesmo nessa hora, ele caiu em pé!
Mas a igreja a que nos referimos até agora não é exatamente esta que hoje lá está, há muito desvinculada dos devotos de cor, relembrando um tempo bem recuado da nossa história. Várias reformas nela foram processadas, além das já citadas. Em março de 1929 abriu-se novas janelas na altura do primeiro andar, em julho de 1935 foram construídos dois nichos, ao lado do sacrário, com Nossa Senhora do Rosário e Santa Teresinha e, por último, em setembro de 1938, repetiu-se o episódio de 1821: a Matriz de São José foi demolida para construção de uma nova e a Igreja do Rosário passou a ter as honras de Catedral, embora muitos atos, mais solenes, viessem a ser realizados na Igreja do Pequeno Grande. Foram necessários, outra vez, trinta anos, para a construção da nossa nova e esplêndida Catedral, durante os quais a Igreja do Rosário funcionou como a principal de toda a Arquidiocese!
A Igreja do Rosário é testemunha de fatos históricos importantíssimos, dentre eles a deposição de Nogueira Accioli em 1912 e as trincheiras de 1914 feitas para receberem os jagunços da "Sedição de Juazeiro".

Fonte: http://irmandadedorosariofortaleza.blogspot.com.br/2011/05/blog-post.html

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PATRIARCAS DO CORDEL

Chico dos Romances (foto: Arievaldo Vianna)

CHICO DOS ROMANCES
E A “ENCANTARIA” DO CORDEL

No princípio da década de 1980, ainda criança, eu trabalhava como camelô nas ruas de Canindé, no período da romaria a São Francisco das Chagas. De agosto a dezembro eu perambulava pelo Bar Canindé, Abrigo dos Romeiros na rua Euclides Barroso (antiga Rua da Palha), Alto do Custódio porém preferia mesmo a rua João Pinto Damasceno, que fica às margens do rio Canindé e dá acesso à Basílica do padroeiro no sentido norte-sul.
Sempre fui admirador incondicional da Literatura de Cordel e numa dessas incursões pela João Pinto deparei com o poeta e folheteiro piauiense Francisco Peres de Sousa, o Chico dos Romances, no saguão do Hotel Santo Antônio, arrumando a sua mala de romances para começar a sua atividade numa das praças da cidade. Acheguei-me do poeta e pedi para ver os títulos que ele trazia. Praticamente não havia nenhum clássico daqueles editados em Juazeiro do Norte ou Campina Grande. Eram folhetos de sua própria lavra e alguns de Lucas Evangelista, que ele conseguia mediante permuta. Gostei de dois títulos e os adquiri: “História de Sete Cidades ou a Deusa da Encantaria” e “O homem que era ateu e uma graça alcançada por São Francisco”. Comecei a ler imediatamente. Mas os versos, lidos em voz baixa, não tinham o mesmo encanto, o mesmo sabor de quando declamados pela voz de seu autor, que é um verdadeiro show-man. Chico dos Romances é um declamador de grandes recursos, que prende a atenção do público com gracejos, inflexões na voz e a magia dos seus olhos azuis e hipnóticos.
Passaram-se os anos. Muito tempo depois ouvi falar novamente de Chico dos Romances num livro do pesquisador Gilmar de Carvalho: “Poetas do Povo do Piauí’. Soube um pouco de sua biografia e fiquei contente ao constatar que ainda estava lúcido e em plena atividade. "Um personagem saído dos livros de Guimarães Rosa!" É assim que o descreve Gilmar de Carvalho em sua obra.
Ao ser convocado pela professora Rosilene Melo para uma pesquisa  patrocinada pelo IPHAN, cujo objetivo era fazer um levantamento dos poetas em atividade para reconhecimento do CORDEL, da CANTORIA e do ABOIO como patrimônio imaterial do povo brasileiro, fiz questão de ir até o Piauí e, na companhia do poeta Raimundo Clementino, fomos até Piripiri onde vive o poeta Francisco Peres de Sousa, atuando nas feiras, declamando e compondo novos folhetos.
Primeiro entrevistei os poetas radicados em Teresina - Joames, Marina Campelo, Ilza Bezerra, mestre José Barbosa, dr. Pedro Ribeiro. Depois fui ao programa de rádio do professor Wilson Seraine que me deu a preciosa dica: "- Rapaz, você precisa ir a Piripiri entrevistar o Chico dos Romances... Um velhinho engraçado dos zóio bem azuzim, que declama bem e conversa pelos cotovelos”.


Foi uma das entrevistas mais rendosas e interessantes. É um dos depoimentos que pretendo peneirar, aprofundar e transformar em livro num futuro próximo. Peres me disse que começou a produzir seus folhetos ainda na adolescência e teve como primeiro editor o saudoso poeta Joaquim Batista de Sena (Tipografia Graças Fátima, situada na Rua Liberato Barroso, em Fortaleza) de quem foi discípulo e companheiro de muitas jornadas pelo Brasil afora. Mas, por enquanto, apresento a vocês tão somente um resumo biográfico de CHICO DOS ROMANCES, extraído de um site de Piracuruca, terra natal do poeta:


Francisco Peres de Souza (Piracuruca, 1 de abril de 1939) - Nascido no local Retiro, município de Piracuruca-PI, em 01 de abril de 1939, filho de Gerviz Rosa de Sousa e Paulo Pereira Neres, Chico do Romance aparenta uma jovialidade na sua narração diária de seus cordéis e na presteza com que atende seus clientes. Se for entrevista se prepare para passar a manhã toda... É que ele se sente orgulhoso aos extremos de sua obra literária.
Perdendo a mãe quando tinha apenas um ano de idade, o futuro cordelista foi morar em com a avó materna, a qual também faleceu cedo, quando Chico tinha apenas seis anos. Mais um golpe na vida do pequeno Francisco Perez. Mas sua predestinação lhe reservava um futuro gratificante.  Sua biografia, que consta em seus “romances” diz:

Pequeno, ajudava seu pai na lavoura, mas logo veio morar em Piripiri, onde começou a cantar folhetos para os amigos, daí surgiu sua paixão pela literatura de cordel, onde descobriu que em si brotava a poesia, morando com sua tia Cecília em Piripiri e cantando nas casas de fazenda. Viajando para Fortaleza, depois com os melhores poetas da época, viajou pelo Piauí, Ceará, Maranhão, Goiás e Pará. Nas estradas de chão tudo isso dos 10 aos 30 anos.
Depois passou uns tempos em Fortaleza-Ceará, onde afirma ter penado muito, sem dinheiro e sem ter onde morar, fazendo bicos para sobreviver.
Redigindo seus textos fantásticos e sempre cativantes, Chico do Romance estreou como cordelista com 15 anos de idade, e hoje já contabiliza mais de 200 obras editadas. A princípio os cordéis eram impressos pelo tradicional método da xilogravura, ou seja, a matriz de impressão eram chapas de madeira esculpidas. É que as impressões tipográficas eram muito caras nos tempos idos.
A partir do início dos anos 1970, com a disseminação do sistema offset, que barateou os custos elevados do sistema tipográfico, Chico do Romance passou a imprimir seus trabalhos na gráfica de Gilberto Mendes (em Campo Maior) e posteriormente, na gráfica do ex-prefeito de Piripiri, Arimatéia Melo. Hoje seus trabalhos são impressos em impressoras de computador.
O cordelista casou-se aos 21 Anos de idade com Luzia Pessoa de Sousa, e criou família com nove filhos em Piripiri, onde reside, sempre tendo como trabalho principal a edição e venda de obras de cordel. Mora hoje no bairro piripiriense do recreio.
Com 75 anos completados em primeiro de abril de 2014 e em pleno vigor para escrever e ministrar palestras, Chico do Romance é sempre requisitado para fazer palestras e declamar suas poesias populares em colégios, academias, centros culturais, além de se fazer sempre solícito para entrevistas de jornais, Tvs, sites, etc.



UM EXEMPLO NOTÁVEL DA CULTURA POPULAR 
DE LITERATURA DE CORDEL DO PIAUÍ
Sua biografia acrescenta ainda, dentre tantas homenagens:

Participou de 17 a 21/08/2009 da I Mostra da cultura Popular, realizada na Casa da cultura em Teresina, recebendo a Comenda Fontes Ibiapina. Nos dias 26 e 27 de novembro de 2009, o poeta participou da II Conferência Estadual de Cultura do Piauí, em Teresina, no Clube Atlantic City. Por último, teve ao dia  24 de abril do ano de 2010 outorgado o título de Sócio Honorário da Casa do Padre Freitas, pela ACALPI (Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri).
Destacam-se, nas suas centenas de obras: História das Sete Cidades e a Deusa da Encantada; Padre Domingos de Freitas e Silva-Fundador de Piripiri; Homenagem ao Piripiri do Século; Pequenos Dados Biográficos de Virgulino Ferreira da Silva - O Lampião; História do Catirina (Lenda de Sete Cidades); As Bravuras de José Pela princesa Franluzia etc.
Piripiri se orgulha de ter entre seus filhos adotivos um dos maiores nomes da literatura cordelista do Brasil.
Fonte: fonte;http://www.piracuruca.com/



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

SHAKESPEARE EM CORDEL

Desde 2008 venho fazendo adaptações da obra de William Shakespeare para o CORDEL, algumas delas já publicadas, como podemos ver a seguir. As ilustrações são de Jô Oliveira, meu parceiro em várias obras:

A ambição de Macbeth - Cortez Editora

Otelo e Desdêmona - Editora Pallas

Sonho de uma noite de verão - Ed. Amarilys

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO – EM CORDEL
Adaptação de Arievaldo Viana


(TRECHOS)

À Grécia dos Tempos Clássicos
Quero agora retornar
Pois na cidade de Atenas
Por decreto milenar
O pai escolhia o noivo
Para a filha se casar.

Em Atenas residia
Um velho chamado Egeu
E o mesmo foi se valer
Do governante, Teseu,
Porque sua filha Hérmia
A lei desobedeceu.

Poderes de vida e morte
Dava a lei ultrapassada,
Egeu elegeu Demétrio
Julgando a escolha acertada,
Mas por Lisandro, outro jovem
Hérmia estava apaixonada.

Hérmia por esse motivo
Resolve então enfrentar
A autoridade paterna
E combinou de encontrar
Na floresta com Lisandro
Para bem longe casar.

Além do mais, que Helena
Sua amiga predileta
Amava o jovem Demétrio
Então traçaram uma meta
Julgando que assim teriam
Felicidade completa.

Helena para provar
O seu amor desvelado
Foi revelar à Demétrio
Aquele plano formado;
Estando noivo de Hérmia
Ele ficou transtornado.

Deixemos aqui os jovens
Com suas tramas formadas,
Vamos encontrar Titânia
Bela Rainha das Fadas
Com seu pajem favorito
E serviçais dedicadas.

(...)