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sexta-feira, 15 de novembro de 2013
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
ARTIMANHAS DE JOÃO GRILO
Autor: Arievaldo Viana
Ilustrações: Jô Oliveira
TODOS
conhecem João Grilo
Um
menino diferente
Pequeno,
feio e franzino
Porém
muito inteligente,
Uma
mente talentosa,
Bem
dotada e engenhosa,
Sagaz
e irreverente.
Quando
nasceu esse ente
Caiu
neve em Teresina
E
detonou um vulcão
Pras
bandas de Petrolina
De
Fortaleza a Belém
Os
carros correram sem
Precisar
de gasolina!
Ele
tinha a perna fina
E
a boca de 'Mãe-da-lua'
Nunca
gostou de cantar
A
cantiga da perua,
Tudo
na vida enfrentava
E
satisfeito gritava:
-
Manda brasa! Senta a pua!
Foi
um quengo muito fino
Legítimo
cabra da peste
Existiu
outro na Europa
Esse
viveu no Nordeste
O
de lá era um lesado
O
daqui era um danado
E
não há quem me conteste.
O
João Grilo português
Meteu-se
a decifrador
Rei
das adivinhações
E
só saiu vencedor
Devido
um golpe de sorte
Assim
escapou da morte
Recebendo
algum louvor.
Nosso
Grilo foi criado
Com
tareco e mariola
Nunca
se viu outro cabra
Com
tão medonha cachola
Encantou
até sultões
Pois
nas adivinhações
Foi
ele quem fez escola.
Nasceu
lá na Paraíba
Criou-se
em Taperoá
Foi
camelô em Sergipe
Fez
carimbó no Pará
E
foi encontrar a sorte
No
Rio Grande do Norte
Fronteira
com o Ceará.
(...)
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
HANS STADEN EM QUADRINHOS
NOVO ÁLBUM DE JÔ OLIVEIRA
No século XVI, o aventureiro alemão Hans Staden participou de duas expedições ao Brasil. Em sua segunda viagem, foi feito prisioneiro pelos índios Tupinambá, em Bertioga, que praticavam rituais de antropofagia. No período de cativeiro, escapou várias vezes de ser devorado pelos nativos, porque fingia ser frânces (os franceses eram amigos dos Tupinambá) e poque chorava muito (o que era considerado sinal de covardia pelos indígenas). Com esse estratagemas, conseguiu adiar seu sacrifício.
Em 1989 os deliciosos quadrinhos inspirados nessa aventura foram publicados na Itália, na revista "Corto Maltese", e, agora, chegaram em cores às mãos dos leitores brasileiros.
O Editor
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
TARANTELA E MACARRÃO
TARANTELA E MACARRÃO
EM SÃO JOSÉ DOS CACETES
EM SÃO JOSÉ DOS CACETES
Eu fiz muitas travessuras
No meu tempo de menino
Já roubei cuia de cego
Já cortei corda de sino
Só nunca fui pederasta
Mas passei tirando um fino.
(O poeta gozador – Oliveira de Panelas)
Cheguei para
morar em Canindé-CE com 12 anos de idade, em fevereiro de 1980 e ali permaneci
ininterruptamente por mais 12, até 1992, quando mudei-me para capital em busca
de trabalho. Naquele tempo todo mundo curtia a música brega que tocava nos
botequins e barracas do rio Canindé durante os festejos de São Francisco. A
grande novidade era o maranhense Raimundo
Soldado & Grupo de Ouro, com um disco que parecia ter sido gravado
dentro de uma cumbuca (seria Cumbuca
Records, o nome do estúdio?), onde pontificava o mega-sucesso Não tem jeito que dê jeito. Dez entre
dez romeiros do Piauí e Maranhão pediam essa música quando chegavam num desses
estabelecimentos. Trabalhando como camelô eu freqüentava esses locais e me
familiarizava com essas músicas. A penúltima faixa do disco (uma das menos
conhecidas) era uma música de ‘protesto’ intitulada Vamos economizar, onde o autor criticava a inflação, a violência no
trânsito etc. Eu fiz uma paródia da mesma com o título de Desse jeito assim não dá recheada de versos ingênuos, mas que já
continham métrica, rima e alguma visão social. Essa ‘pérola’ foi inscrita num
show de calouros promovido pelo colégio em parceria com o comércio local,
dentre os quais o ex-prefeito Antônio Monteiro dos Santos. Eis a minha paródia
da música de Raimundo Soldado:
Eu
não gosto de ver rico
Com o bolso cheio de grana
E dinheiro pra gastar
Enquanto o pobre com fome
No trabalho se consome
Desse jeito assim não dá...
(Refrão: ai, ai, desse jeito assim não dá / ai,
ai, desse jeito assim não dá)
Porém tem outro que falha
Com a sua obrigação
Praticando a malandragem
Vivendo de agiotagem
Promovendo a inflação.
O político brasileiro
Fica esperto e bem matreiro
Quando é tempo de eleição
Levando o povo no bico
Só pensando em ficar rico
E lascando com a nação.
(...)
Tinha outras estrofes que não recordo. Ora, quando
fui apresentar a tal paródia, devidamente acompanhado pelos músicos Chico
Dentão e Filomeno Pereira, num palco improvisado no pátio do colégio Frei
Policarpo, eu tremia de nervoso. Acho que era a primeira vez que eu pegava num
microfone e depois de cantar a primeira estrofe, esqueci alguns versos da
segunda e só então me dei conta que havia perdido a ‘cola’ onde havia anotado a
letra da música. Senti-me tal e qual o Charlie Chaplin, cantando aquela famosa
tarantela em Tempos Modernos. Foi aí que um dos violonistas teve uma idéia
‘salvadora’.
- Você sabe outra música?
Lembrei-me do grande sucesso do momento nas
barracas do Rio Canindé, o coco “Briga em São José dos Cacetes”, da dupla
Cachimbinho e Geraldo Mouzinho, e já fui logo enfiando o danado, sem esperar
que os músicos fizessem pelo menos uma introdução. Chico Dentão ria, fazendo
uma espécie de percussão no tampo do instrumento, enquanto eu desfiava os
versos da dupla:
No sítio do Periquito
Eu fui nascido e criado
No São José dos Cacetes
Onde
eu fui batizado;
Fui a primeira festa
Perto de Pau Enfincado.
No São José dos Cacetes
Lá ninguém se ‘afragela’
Lá o povo briga tanto
No beiço de uma panela
Nem tampouco fura o fundo
Nem ofende as beiras dela!
(...)
O Sr. Antônio Monteiro fazia sinais de incentivo,
de lá da platéia. Mal terminou a apresentação, levantou-se aplaudindo. A nota
máxima era cinco, mas ele foi logo dizendo:
- Dez! Dez para o São José dos Cacetes!!!
E eu, todo empolgado, pensei cá comigo: Ganhei o
premio. Se não me engano era uma roupa patrocinada pela Casa Campos.
Que nada, o jurado seguinte, uma professora
moralista e puritana foi logo protestando:
- Isso não é musica pra se cantar em colégio, principalmente
cantada por uma criança, Minha nota é zero!
Foi uma ducha de água fria nas minhas pretensões
de intérprete do cancioneiro popular nordestino. As notas seguintes também
foram baixas, influenciadas, talvez, pelo discurso moralista da tal professora.
Resultado: ganhei, como premio de consolação, um fardo de macarrão da marca
Veneza, fabricado pioneiramente em Canindé pelo saudoso Antonio Monteiro dos
Santos.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
MALA DE ROMANCES
BIBLIOTECA ITINERANTE
DE LITERATURA DE CORDEL
Eis a ferramenta paradidática que a sua ESCOLA precisa para estimular o hábito da leitura e difundir a verdadeira cultura brasileira. É uma BIBLIOTECA prática, simples, fácil de transportar e com um conteúdo excelente, para ninguém botar defeito! Nas mãos de professores inteligentes, a maleta pode se tornar uma biblioteca itinerante, de classe em classe. E até mesmo viajar para outras escolas.
O projeto MALA DE ROMANCES é um kit formado por 100 folhetos, reunidos numa bela maleta. CUSTO: R$ 400,00.
GRÁTIS: UM KIT DO PROJETO ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA (Livro, CD e Caixa com 12 folhetos) e um exemplar do livro LEANDRO GOMES DE BARROS - VIDA E OBRA.
Reserve já o seu, temos apenas 20 unidades. Maiores informações:
acordacordel@hotmail.com
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A MALA DE ROMANCES inclui clássicos como:
- Pavão Misterioso
- Vida de Cancão de Fogo e seu Testamento
- Artimanhas de João Grilo
- O Antigo Testamento segundo Zé Limeira
- Carmélia e Sebastião
- Artimanhas de João Grilo
- O Antigo Testamento segundo Zé Limeira
- Carmélia e Sebastião
- Chegada de Lampião no Inferno
- Peleja de Pinto com Milanês
- Como se amansa uma sogra
- A cura da quebradeira
- A Festa dos Cachorros
- A intriga do cachorro com o gato
- O rico ganancioso e o pobre abestalhado
- João Bocó e o ganso de ouro
- O batizado do gato
- Quirino, o vaqueiro que não mentia
- As proezas de João Grilo
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
CABRA DESEMPENADO
JOSÉ FREIRE SOBRINHO
O Baú
da Gaiatice teve a primazia de apresentar dezenas de tipos populares de
Canindé e cidades adjacentes, que ainda não haviam sido retratados por nenhum
cronista. De parelha com Pedro Paulo Paulino, traçamos em prosa e versos o perfil
de figuras como Broca da Silveira, Bunaco, Zé Adauto Bernardino, Muquila,
Zuquinha das Campinas e o impagável Zé Freire que começaram, a partir de então,
a aparecer com freqüência na obra de outros autores. Iniciamos esse trabalho
nos idos de 1997 e o livro veio à lume dois anos depois, tornando-se referência
no gênero.
Quanto ao Zé Freire, um dos personagens
mais interessantes do livro, temos a grata satisfação de encontrá-lo vivo e com
saúde, a narrar suas peripécias e encantar seus interlocutores com a sua prosa
engenhosa e divertida. Pedro Paulo Paulino, no seu blog Vila Campos Online (www.vilacamposonline.blogspot.com)
continua pesquisando e publicando uma série de crônicas a respeito do Zé Freire,
de quem é amigo pessoal, para deleite dos milhares de leitores que visitam
aquela página na internet. Ninguém melhor do que ele conseguiu captar a graça e
irreverência do curioso personagem, tampouco logrou reproduzir com tanta
perfeição o seu modo de conversar e graça peculiar. Dizem que o saudoso Leota
dava um verdadeiro show em suas palestras, falando desses tipos sertanejos. Eu
imagino se ele tivesse tido a honra de conhecer o Zé Freire...
Vejamos a nova crônica que Pedro Paulo Paulino preparou após a recente visita que fez ao Zé Freire, em sua fazendola nas imediações do distrito de Esperança:
Zé Freire mora
numa pequena propriedade rural nos arredores da vila que tem o auspicioso nome
de Esperança. Foi ali que há mais ou menos um par de décadas ele resolveu se
aboletar, trabalhar e viver. Encontrei-o pela manhã remontando a cerca de varas
que o “Sereno”, seu Pégaso indomável, havia derrubado, num ímpeto próprio dos
eqüinos corajosos.
Logo que me
avistou, Zé Freire caminhou de onde estava e fez esta saudação: “Deus te traga
em boa hora, feliz do homem que encontra outro trabalhando!” O rosto empoeirado
e queimado do sol, mas conservando o vigor; bigode escuro e imponente, olhos
acinzentados pelos 80 janeiros completos, mãos grossas cujas riscas são como
riachos escorrendo suor, Zé Freire pareceu-me um velho bruxo em estado de
abandono.
Do alto da
chapada, ele abre os braços para um lado e outro e mostra o produto do seu labor
diário: cerca bem cuidada, capim verde para o gado, bebedouro limpo junto à
represa onde resiste um punhado dágua, mas em cuja vazante nunca faltam a
batata, o jerimum, o feijão de corda e a
melancia.
Ao redor, a
caatinga pintada de preto toma conta do resto.
– Este verde é
um pequeno oásis, comento. – Ele desconhece a palavra oásis e dá seu parecer,
vitaminando bem a conversa, como é de seu bom
natural:
– Isto aqui,
Pedro, abaixo de Deus, é obra minha e do seu Chico, meu ajudante. Acordo
primeiro que o galo e já dou de garra da luta. Desde o dia que nasci não parei
de trabalhar um minuto, já sofri mais do que jumento fazendo
açude.
E prossegue
falando caudalosamente da sua trajetória no mundo, seja como boiadeiro, seja
como curandeiro, quiromante, feitor de obra, mochador de boi, poeta e profeta,
motorista de horário, e agora criador e roceiro, enfrentando pau e pedra, chuva
e seca.
– Não reclamo
a Deus nem ocupo Ele com pouca coisa. Conheço 23 estados do Brasil, fiz 55
filhos, perdi a conta dos netos e dos bisnetos e das carrada de mulher
que apareceu na minha vida. Quando eu era novo, num só ano de bom inverno
emprenhei 14 companheira, inclusive uma das
sogras.
Dito isto, me
convida para o café com pão de milho da hora, servido pela
D. Laninha que, segundo
ele, foi sua derradeira conquista, a qual lhe deu os herdeiros caçulas:
o Cidrak, já engrossando o cangote, e o José Freire Sobrinho Jr., de apenas três
anos. “Este último”, diz Zé Freire, “puxou noventa e nove por cento do meu
sangue. Só é menino na parença, mas já tem
ação de cabra macho disposto e namorador”.
(...)
Ver postagem completa aqui: www.vilacamposonline.blogspot.com
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Um conto europeu vira cordel no Brasil
HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE
METEU O DIABO NUM SACO
João Soldado se criou
Na terra da Palestina
Ficou órfão logo cedo
Foi bem triste a sua sina
Mas porém foi coroado
Por uma estrela divina.
Na terra da Palestina
Ficou órfão logo cedo
Foi bem triste a sua sina
Mas porém foi coroado
Por uma estrela divina.
(Da versão em cordel de Antônio
Teodoro do Santos)
Uma das histórias de cordel mais
conhecidas no Brasil é o folheto de Antônio Teodoro dos Santos (1916 – 1981), “João
Soldado, o valente praça que meteu o diabo num saco”. Desde criança conheço
este folheto, publicado pela Editora Luzeiro, de São Paulo. (Para saber mais
sobre este folheto, consultar o blog CORDEL ATEMPORAL:
A versão em prosa, que nos chegou de
Portugal, só vim a conhecer muito tempo depois. É esta que se segue:
Era
uma vez um rapaz bem nascido, mas sem leira nem beira, a quem tocou a sorte de
ser soldado. Terminado o tempo de praça, que foram oito anos, alistou-se por
mais oito e, terminados estes, por mais oito.
Quando completou os últimos oito anos, já era
velho e como nem para andar com as marmitas servia, deram-lhe baixa e
entregaram-lhe tudo o que restava do soldo: um pão e quatro vinténs.
Era tudo isto que vos estou narrando no tempo
em que o dinheiro se contava por vinténs e por patacos, valendo cada pataco
dois vinténs, no tempo em que “ir à tropa” era “ir às sortes” e o soldado era
soldado porque recebia um soldo, mas tão pequeno que, como aconteceu ao nosso
herói, ao fim de tantos anos só lhe restavam quatro vinténs.
João Soldado pôs-se a caminho e ia dizendo
para consigo:
“Sempre
te declaro que tiraste um lucro de arregalar o olho! Depois de servires o Rei
durante vinte e quatro anos, ficas com um pão e quatro vinténs! Mas é andar com
Deus e nada ganhas em desesperar senão criares mau sangue.”
E
pôs-se a cantarolar:
Não há vida mais rendosa
Do que a vida de soldado.
É rancho, mochila e arma,
Era também esse o tempo em que Nosso Senhor
Jesus Cristo andava pelo mundo e trazia por moço a São Pedro. Encontrou-se com
eles João Soldado e São Pedro, que era o do saco, pediu-lhe esmola.
Aqueles dois mendicantes
Eram São Pedro e Jesus
Quando andavam neste mundo
Trazendo a divina luz
Provando os bons corações
Com sua pesada cruz.
(Antônio
Teodoro dos Santos)
-Eu que lhe hei-de dar – disse João Soldado –
se, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, não fiquei com mais do que um
pão e quatro vinténs?
São Pedro era teimoso e insistiu.
-Enfim – disse João Soldado – ainda que,
depois de servir o Rei vinte e quatro anos só tenha por junto um pão e quatro
vinténs, repartirei o pão com vossemecês.
E puxando da navalha, cortou o pão em três
bocados, deu-lhes dois e ficou com um.
Daí a duas léguas, encontrou-se outra vez com
São Pedro que tornou a pedir-lhe esmola.
-Quer parecer-me – disse João Soldado – que lá
adiante vi vossemecês e que conheço essa calva. Mas enfim… é andar com Deus
ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, só tenha um pão e quatro
vinténs e do pão não me reste senão este bocado que vou repartir com
vossemecês.
Assim o fez e, em seguida, comeu a sua parte
para que não tornassem a pedir-lha.
Ao pôr do sol, terceira vez se encontrou com o
Senhor e São Pedro, que lhe pediram esmola.
- Ia
jurar que já lha dei – disse João Soldado. – Mas enfim… é andar com Deus ainda
que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, me vi só com um pão e quatro
vinténs. E vou repartir com vossemecês estes quatro vinténs como já reparti o
pão.
Pegou nas duas moedas de pataco, deu uma a São
Pedro e ficou com a outra.
“Que
hei-de fazer com um pataco?” disse João Soldado para os seus botões. “O remédio
é deitar-me a trabalhar, se quero ter de comer.”
-Mestre!
– dizia entretanto São Pedro ao Senhor – Faça Vossa Majestade alguma coisa em
favor desse desgraçado que serviu vinte e quatro anos o Rei e não tirou outro
proveito mais do que um pão e quatro vinténs que repartiu conosco.
-Está
bem – concordou o Senhor. – Chama-o e pergunta-lhe o que quer ele.
Assim fez São Pedro, e João Soldado, depois de
muito pensar, respondeu que o que queria era que, no bornal que levava vazio,
se metesse tudo o que ele quisesse meter nele. Isso lhe foi concedido. E João
Soldado seguiu caminho.
Ao passar por uma aldeia, avistou numa tenda
umas broas de pão mais alvo que jasmins e umas linguiças que estavam mesmo a
dizer: comei-me.
-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado
em voz de comando.
E era coisa de pasmar ver as broas dando
voltas como rodas de carreta e as linguiças arrastando-se como cobras a
encaminharem-se para o bornal.
João Soldado, que comia mais do que um cancro
e naquele dia tinha mais fome do que Deus tem paciência, apanhou um fartote,
daqueles de dizer “não posso mais”.
Ao
anoitecer chegou ele a outra aldeia. Como era soldado com baixa, tinha direito
a alojamento, a que lhe dessem boleto. Por isso se dirigiu ao regedor a quem
disse:
-Senhor,
eu sou um pobre soldado que, ao fim de ter servido o Rei 24 anos, achei-me só
com um pão e quatro vinténs que se gastaram no caminho.
O regedor respondeu-lhe que, se ele quisesse,
o alojaria numa herdade próxima, para onde ninguém queria ir habitar porque
nela havia morrido um condenado e, desde então, andava lá coisa ruim. Mas que
se ele era animoso e não tinha medo de coisas ruins, podia ir lá e encontraria
lá tudo do bom e do melhor pois o condenado tinha sido riquíssimo. Falou João
Soldado:
-Senhor!
João Soldado não deve nem teme e portanto posso encaixar-me lá enquanto o diabo
esfrega um olho.
Na tal herdade, achou-se João Soldado no
centro da abundância. A adega era das mais excelentes, a dispensa das mais providas
e os madureiros estavam atestados de fruta.
A primeira coisa que fez, como prevenção para
o que desse e viesse, foi encher uma cântara de vinho porque considerou que aos
bêbados costuma tapar-se a veia do medo. A seguir, acendeu uma vela e sentou-se
a fazer umas migas de toucinho.
Mal se tinha sentado, ouviu uma voz que vinha
pela chaminé abaixo e dizia:
-Caio?
-Pois cai, se tens vontade – respondeu João
Soldado que já estava meio pitosga com as emborcações daquele vinho precioso. –
Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não deve nem teme.
Ainda não tinha acabado de falar e já caía
pela chaminé abaixo a exacta perna de um homem. João Soldado sentiu tal arrepio
que se lhe eriçaram os cabelos como a um gato assanhado. Pegou na cântara e
bebeu um trago.
Mais animoso, perguntou à perna:
-Queres que te enterre?
A perna fez sinal de que não com o dedo gordo
do pé.
-Pois
apodrece para aí – disse João Soldado.
Daí a nada, tornou a ouvir a mesma voz, que
vinha da chaminé, a perguntar:
-Caio?
-Pois cai, se tens vontade – respondeu ele
dando outro beijo na cântara. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não teme
nem deve.
Caiu então a outra perna, ao lado da
companheira que já lá estava. Para rematar em poucas palavras: como caíram as
pernas, caíram os quatro quartos de um homem e, por último, a cabeça, que se
uniu aos quartos, e então se pôs em pé uma peça, não um cristão, mas um
assombroso espectro que parecia dever ser o próprio condenado em corpo e alma.
-João
Soldado – disse ele com um vozeirão capaz de gelar o sangue nas veias – vejo
que és um valente.
-Sim,
senhor. Sou um valente, não há dúvida. Pela vida de Cristo, nunca João Soldado
conheceu nem fartura nem medo. Apesar disso, saberá Vossa mercê que, ao fim de
ter servido vinte e quatro anos o Rei, o proveito que tirei foi um pão e quatro
vinténs.
-Não
te entristeças por isso. Porque se fizeres o que eu te vou dizer, salvarás a
minha alma e serás feliz. Aceitas fazê-lo?
-Sim senhor, sim senhor.
-O pior – observou o espectro – é que me
parece que tu estás bêbedo…
-Não
senhor, não senhor. Estou assim “tem-te não caias”. Pois saberá Vossa Mercê que
há três classes de bebedeira. A primeira é “tem-te não caias”, a segunda é de
fazer SS e RR e a terceira é de cair. Ora eu, senhor, não passei do “tem-te não
caias”.
-Se
assim é, vem comigo.
João Soldado levantou-se. Ficou a balouçar
como um santo num andor. Mas lá conseguiu pegar na vela. O espectro, porém,
estendeu o braço como uma garrocha e apagou a luz. Não era precisa porque os
olhos dele alumiavam como duas forjas acesas.
Quando
chegaram à adega disse o espectro:
João Soldado, pega numa enxada e abre aqui uma
cova.
-Abra-a
Vossa Mercê com toda a força que tem, se faz gosto nisso. Eu não servi o Rei
vinte e quatro anos, sem outro proveito que um pão e quatro vinténs, para me
pôr agora a servir outro amo que pode ser que nem isso me dê.
O espectro pegou na enxada, cavou e tirou três
talhas. Disse a João Soldado:
- Esta
primeira talha está cheia de cobre, que repartirás pelos pobres. Esta segunda
talha está cheia de prata, que empregarás em mandar rezar missas pela minha
alma. E esta terceira talha está cheia de ouro, que será para ti se me
prometeres entregar as outras conforme acabo de dispor.
- Fique
Vossa Mercê descansado – afirmou João Soldado. – Vinte e quatro anos passei
cumprindo as ordens que me davam sem tirar outro proveito que um pão e quatro
vinténs. Já vê Vossa Mercê se o não farei agora que tão boa recompensa me
promete.
E na verdade, João Soldado cumpriu tudo o que
lhe recomendou o espectro e, de contente, ficou metido num sino. Quem não ficou
nada contente foi o Diabo-Mor, Lúcifer, o qual perdeu a alma do condenado pelo
muito que por ela rezaram a igreja e os pobres. Mas não sabia como vingar-se de
João Soldado.
Ora havia no Inferno um Satanás pequeno,
astuto e ladino, que garantiu a Lúcifer ser capaz de lhe trazer João Soldado.
Causou isto muita alegria ao Diabo-Mor. E prometeu ao diabinho que, se ele
conseguisse fazer o que dizia, o presentearia com um molho de enfeites e de
ditos para seduzir e perder as filhas de Eva e com uma porção de baralhos de
cartas e garrafas de vinho para tentar e perder os filhos de Adão.
Estava João Soldado sentado no seu quintal,
quando vê chegar junto de si, todo lépido, o diabinho, que o saúda:
-Bons
dias, Senhor Dom João!
-Estimo
ver-te macaquinho. Que feio que tu és! Queres uma fumaça?
-Não
fumo, Dom João, senão palhas.
-Vai um copo?
-Não
bebo senão água-forte.
-Pois,
então, que vens tu cá fazer?
-Venho
levar Vossa Mercê comigo.
-Em
boa hora seja. Não servi vinte e quatro anos o Rei, para bater em retirada
diante de um macaquito de má morte como tu. João Soldado não deve nem teme,
percebes? Olha, sobe a essa figueira que está cheia de belos figos, enquanto eu
vou pelos alforjes porque me parece que a o caminho que temos a andar é
comprido.
O Satanás pequeno, que era guloso, subiu à
figueira e pôs-se a comer figos. João Soldado foi buscar o bornal que deitou às
costas, voltou para junto do diabrete e gritou-lhe:
-Salta para o bornal!
Dando gritos de assombrar o diabrete não teve
outro remédio senão enfiar-se dentro do bornal.
João Soldado fechou o saco, e pôs-se a
desancar o diabrete até lhe deixar os ossos num feixe. Depois, mandou-o ir-se
embora. Quando, chegado ele à sua presença, o Diabo-Mor viu o seu benjamim
naquele estado, e partido, pôs-se vermelho de fúria e desatou aos gritos:
-Irra!
Três mil vezes irra! Juro que esse descarado do João Soldado mas há-de pagar
todas de uma vez! Eu mesmo lá vou em pessoa!
João Soldado já esperava esta visita. Estava
prevenido e tinha o bornal às costas. Logo que Lúcifer se apresentou, deitando
lume pelos olhos e foguetes pela boca, avançou para ele muito tranquilo e
disse-lhe:
-Compadre
Lúcifer! Fizeste bem em vir. Mas é preciso que saibas que João Soldado não deve
nem teme!
-Tu,
meu fanfarrão das dúzias é que vais saber. Meto-te no inferno num abrir e
fechar de olhos.
-Tu
a mim? Tu, Lúcifer, a João Soldado? Não há-de ser fácil … tem cuidado.
O Diabo bufava: “Vil guzano terrestre!”
E
João Soldado a rir-se:
-Grande estafermo! Vou enfiar-te no meu
bornal. A ti, ao teu rabo e aos teus cornos.
-Basta de bravatas! – rugiu o Diabo,
estendendo o enorme braço e mostrando as unhas tremendas e negras.
-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado
na voz de comando que aprendera na tropa.
E por mais que Lúcifer se torcesse, por mais
que se arrepelasse e pusesse num novelo, foi direitinho de cabeça para dentro
do bornal.
João Soldado fechou o saco e foi buscar um
masso. Pôs-se a descarregar cada pancada que onde batia fazia uma cova. Lúcifer
ficou mais chato que uma folha de papel.
Quando sentiu os braços cansados abriu o
bornal, deixou cair o miserável e disse-lhe:
- Por
agora contento-me com isto. Mas se te atreves a voltar a aparecer diante de
mim, grande desavergonhado, arranco-te o rabo, os cornos e as unhas, e nunca
mais metes medo a ninguém.
O Diabo lá se arrastou como pôde até ao
Inferno. Quando a corte infernal o viu chegar naquele estado, derrubado,
encolhido, transparente, com o rabo entre as pernas, todos aqueles farricocos
se puseram a vomitar sapos e cobras.
-Que havemos de fazer depois disto, Senhor? –
perguntavam eles.
-Mandar
vir serralheiros para que façam ferrolhos para as portas, mandar vir pedreiros
para taparem todos os buracos e fendas das paredes, a fim de que não entre, não
surja, nem aporte ao Inferno o grande insolente do João Soldado!
E assim se fez com toda a pontualidade.
Quando João Soldado viu aproximar-se a hora da
sua morte, pegou no bornal e encaminhou-se para o céu. À porta encontrou São
Pedro.
-Ora viva! Seja benvindo! – disse-lhe São
Pedro – Onde é a ida, amigo?
-Aonde
vê – respondeu João Soldado muito ancho e emproado.
E ia entrando.
-Alto
lá, compadre! No céu não entra assim qualquer um como se entrasse em sua casa.
Vejamos. Que merecimentos traz Vocemecê?
-Pois
diga-me, Senhor São Pedro… Pois diga-me se lhe parece regular que eu, depois de
lá em baixo ter servido o Rei vinte e quatro anos sem tirar outro proveito mais
do que um pão e quatro vinténs, diga-me se, depois disso, não há no céu um
lugar para mim?
São Pedro sorriu e João Soldado entrou.
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