quinta-feira, 14 de novembro de 2013

ARTIMANHAS DE JOÃO GRILO



Autor: Arievaldo Viana
Ilustrações: Jô Oliveira
 
 
TODOS conhecem João Grilo
Um menino diferente
Pequeno, feio e franzino
Porém muito inteligente,
Uma mente talentosa,
Bem dotada e engenhosa,
Sagaz e irreverente.
 
Quando nasceu esse ente
Caiu neve em Teresina
E detonou um vulcão
Pras bandas de Petrolina
De Fortaleza a Belém
Os carros correram sem
Precisar de gasolina!
 
Ele tinha a perna fina
E a boca de 'Mãe-da-lua'
Nunca gostou de cantar
A cantiga da perua,
Tudo na vida enfrentava
E satisfeito gritava:
- Manda brasa! Senta a pua!
 
Foi um quengo muito fino
Legítimo cabra da peste
Existiu outro na Europa
Esse viveu no Nordeste
O de lá era um lesado
O daqui era um danado
E não há quem me conteste.
 
O João Grilo português
Meteu-se a decifrador
Rei das adivinhações
E só saiu vencedor
Devido um golpe de sorte
Assim escapou da morte
Recebendo algum louvor.
 
Nosso Grilo foi criado
Com tareco e mariola
Nunca se viu outro cabra
Com tão medonha cachola
Encantou até sultões
Pois nas adivinhações
Foi ele quem fez escola.
 
Nasceu lá na Paraíba
Criou-se em Taperoá
Foi camelô em Sergipe
Fez carimbó no Pará
E foi encontrar a sorte
No Rio Grande do Norte
Fronteira com o Ceará.
 
(...)
 
 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

HANS STADEN EM QUADRINHOS


NOVO ÁLBUM DE JÔ OLIVEIRA


No século XVI, o aventureiro alemão Hans Staden participou de duas expedições ao Brasil. Em sua segunda viagem, foi feito prisioneiro pelos índios Tupinambá, em Bertioga, que praticavam rituais de antropofagia. No período de cativeiro, escapou várias vezes de ser devorado pelos nativos, porque fingia ser frânces (os franceses eram amigos dos Tupinambá) e poque chorava muito (o que era considerado sinal de covardia pelos indígenas). Com esse estratagemas, conseguiu adiar seu sacrifício.
Em 1989 os deliciosos quadrinhos inspirados nessa aventura foram publicados na Itália, na revista "Corto Maltese", e, agora, chegaram em cores às mãos dos leitores brasileiros.



O Editor


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

TARANTELA E MACARRÃO



TARANTELA E MACARRÃO 

EM SÃO JOSÉ DOS CACETES


Eu fiz muitas travessuras
No meu tempo de menino
Já roubei cuia de cego
Já cortei corda de sino
Só nunca fui pederasta
Mas passei tirando um fino.
(O poeta gozador – Oliveira de Panelas)

Cheguei para morar em Canindé-CE com 12 anos de idade, em fevereiro de 1980 e ali permaneci ininterruptamente por mais 12, até 1992, quando mudei-me para capital em busca de trabalho. Naquele tempo todo mundo curtia a música brega que tocava nos botequins e barracas do rio Canindé durante os festejos de São Francisco. A grande novidade era o maranhense Raimundo Soldado & Grupo de Ouro, com um disco que parecia ter sido gravado dentro de uma cumbuca (seria Cumbuca Records, o nome do estúdio?), onde pontificava o mega-sucesso Não tem jeito que dê jeito. Dez entre dez romeiros do Piauí e Maranhão pediam essa música quando chegavam num desses estabelecimentos. Trabalhando como camelô eu freqüentava esses locais e me familiarizava com essas músicas. A penúltima faixa do disco (uma das menos conhecidas) era uma música de ‘protesto’ intitulada Vamos economizar, onde o autor criticava a inflação, a violência no trânsito etc. Eu fiz uma paródia da mesma com o título de Desse jeito assim não dá recheada de versos ingênuos, mas que já continham métrica, rima e alguma visão social. Essa ‘pérola’ foi inscrita num show de calouros promovido pelo colégio em parceria com o comércio local, dentre os quais o ex-prefeito Antônio Monteiro dos Santos. Eis a minha paródia da música de Raimundo Soldado:

Eu não gosto de ver rico
Com o bolso cheio de grana
E dinheiro pra gastar
Enquanto o pobre com fome
No trabalho se consome
Desse jeito assim não dá...

(Refrão: ai, ai, desse jeito assim não dá / ai, ai, desse jeito assim não dá)

Tem rico que até trabalha
Porém tem outro que falha
Com a sua obrigação
Praticando a malandragem
Vivendo de agiotagem
Promovendo a inflação.

O político brasileiro
Fica esperto e bem matreiro
Quando é tempo de eleição
Levando o povo no bico
Só pensando em ficar rico
E lascando com a nação.

(...)


Tinha outras estrofes que não recordo. Ora, quando fui apresentar a tal paródia, devidamente acompanhado pelos músicos Chico Dentão e Filomeno Pereira, num palco improvisado no pátio do colégio Frei Policarpo, eu tremia de nervoso. Acho que era a primeira vez que eu pegava num microfone e depois de cantar a primeira estrofe, esqueci alguns versos da segunda e só então me dei conta que havia perdido a ‘cola’ onde havia anotado a letra da música. Senti-me tal e qual o Charlie Chaplin, cantando aquela famosa tarantela em Tempos Modernos. Foi aí que um dos violonistas teve uma idéia ‘salvadora’.

- Você sabe outra música?

Lembrei-me do grande sucesso do momento nas barracas do Rio Canindé, o coco “Briga em São José dos Cacetes”, da dupla Cachimbinho e Geraldo Mouzinho, e já fui logo enfiando o danado, sem esperar que os músicos fizessem pelo menos uma introdução. Chico Dentão ria, fazendo uma espécie de percussão no tampo do instrumento, enquanto eu desfiava os versos da dupla:

No sítio do Periquito
Eu fui nascido e criado
No São José dos Cacetes
Onde eu fui batizado;
Fui a primeira festa
Perto de Pau Enfincado.

No São José dos Cacetes
Lá ninguém se ‘afragela’
Lá o povo briga tanto
No beiço de uma panela
Nem tampouco fura o fundo
Nem ofende as beiras dela!

(...)



O Sr. Antônio Monteiro fazia sinais de incentivo, de lá da platéia. Mal terminou a apresentação, levantou-se aplaudindo. A nota máxima era cinco, mas ele foi logo dizendo:

- Dez! Dez para o São José dos Cacetes!!!

E eu, todo empolgado, pensei cá comigo: Ganhei o premio. Se não me engano era uma roupa patrocinada pela Casa Campos.

Que nada, o jurado seguinte, uma professora moralista e puritana foi logo protestando:

- Isso não é musica pra se cantar em colégio, principalmente cantada por uma criança, Minha nota é zero!


Foi uma ducha de água fria nas minhas pretensões de intérprete do cancioneiro popular nordestino. As notas seguintes também foram baixas, influenciadas, talvez, pelo discurso moralista da tal professora. Resultado: ganhei, como premio de consolação, um fardo de macarrão da marca Veneza, fabricado pioneiramente em Canindé pelo saudoso Antonio Monteiro dos Santos.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

MALA DE ROMANCES

CORDELTECA BÁSICA





BIBLIOTECA ITINERANTE 
DE LITERATURA DE CORDEL


Eis a ferramenta paradidática que a sua ESCOLA precisa para estimular o hábito da leitura e difundir a verdadeira cultura brasileira. É uma BIBLIOTECA prática, simples, fácil de transportar e com um conteúdo excelente, para ninguém botar defeito!  Nas mãos de professores inteligentes, a maleta pode se tornar uma biblioteca itinerante, de classe em classe. E até mesmo viajar para outras escolas.
O projeto MALA DE ROMANCES é um kit formado por 100 folhetos, reunidos numa bela maleta. CUSTO: R$ 400,00. 

GRÁTIS: UM KIT DO PROJETO ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA (Livro, CD e Caixa com 12 folhetos) e um exemplar do livro LEANDRO GOMES DE BARROS - VIDA E OBRA.

Reserve já o seu, temos apenas 20 unidades. Maiores informações: 

acordacordel@hotmail.com
A MALA DE ROMANCES inclui clássicos como:

- Pavão Misterioso
- Vida de Cancão de Fogo e seu Testamento
- Artimanhas de João Grilo
- O Antigo Testamento segundo Zé Limeira
- Carmélia e Sebastião
- Chegada de Lampião no Inferno
- Peleja de Pinto com Milanês
- Como se amansa uma sogra
- A cura da quebradeira
- A Festa dos Cachorros
- A intriga do cachorro com o gato
- O rico ganancioso e o pobre abestalhado
- João Bocó e o ganso de ouro
- O batizado do gato
- Quirino, o vaqueiro que não mentia
- As proezas de João Grilo
DENTRE OUTROS.



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

CABRA DESEMPENADO


JOSÉ FREIRE SOBRINHO 

O Baú da Gaiatice teve a primazia de apresentar dezenas de tipos populares de Canindé e cidades adjacentes, que ainda não haviam sido retratados por nenhum cronista. De parelha com Pedro Paulo Paulino, traçamos em prosa e versos o perfil de figuras como Broca da Silveira, Bunaco, Zé Adauto Bernardino, Muquila, Zuquinha das Campinas e o impagável Zé Freire que começaram, a partir de então, a aparecer com freqüência na obra de outros autores. Iniciamos esse trabalho nos idos de 1997 e o livro veio à lume dois anos depois, tornando-se referência no gênero. 

Quanto ao Zé Freire, um dos personagens mais interessantes do livro, temos a grata satisfação de encontrá-lo vivo e com saúde, a narrar suas peripécias e encantar seus interlocutores com a sua prosa engenhosa e divertida. Pedro Paulo Paulino, no seu blog Vila Campos Online (www.vilacamposonline.blogspot.com) continua pesquisando e publicando uma série de crônicas a respeito do Zé Freire, de quem é amigo pessoal, para deleite dos milhares de leitores que visitam aquela página na internet. Ninguém melhor do que ele conseguiu captar a graça e irreverência do curioso personagem, tampouco logrou reproduzir com tanta perfeição o seu modo de conversar e graça peculiar. Dizem que o saudoso Leota dava um verdadeiro show em suas palestras, falando desses tipos sertanejos. Eu imagino se ele tivesse tido a honra de conhecer o Zé Freire...
 
Vejamos a nova crônica que Pedro Paulo Paulino preparou após a recente visita que fez ao Zé Freire, em sua fazendola nas imediações do distrito de Esperança:


Zé Freire mora numa pequena propriedade rural nos arredores da vila que tem o auspicioso nome de Esperança. Foi ali que há mais ou menos um par de décadas ele resolveu se aboletar, trabalhar e viver. Encontrei-o pela manhã remontando a cerca de varas que o “Sereno”, seu Pégaso indomável, havia derrubado, num ímpeto próprio dos eqüinos corajosos.

Logo que me avistou, Zé Freire caminhou de onde estava e fez esta saudação: “Deus te traga em boa hora, feliz do homem que encontra outro trabalhando!” O rosto empoeirado e queimado do sol, mas conservando o vigor; bigode escuro e imponente, olhos acinzentados pelos 80 janeiros completos, mãos grossas cujas riscas são como riachos escorrendo suor, Zé Freire pareceu-me um velho bruxo em estado de abandono.

Do alto da chapada, ele abre os braços para um lado e outro e mostra o produto do seu labor diário: cerca bem cuidada, capim verde para o gado, bebedouro limpo junto à represa onde resiste um punhado dágua, mas em cuja vazante nunca faltam a batata, o jerimum, o feijão de corda e a melancia.

Ao redor, a caatinga pintada de preto toma conta do resto.

– Este verde é um pequeno oásis, comento. – Ele desconhece a palavra oásis e dá seu parecer, vitaminando bem a conversa, como é de seu bom natural:

– Isto aqui, Pedro, abaixo de Deus, é obra minha e do seu Chico, meu ajudante. Acordo primeiro que o galo e já dou de garra da luta. Desde o dia que nasci não parei de trabalhar um minuto, já sofri mais do que jumento fazendo açude.

E prossegue falando caudalosamente da sua trajetória no mundo, seja como boiadeiro, seja como curandeiro, quiromante, feitor de obra, mochador de boi, poeta e profeta, motorista de horário, e agora criador e roceiro, enfrentando pau e pedra, chuva e seca.

– Não reclamo a Deus nem ocupo Ele com pouca coisa. Conheço 23 estados do Brasil, fiz 55 filhos, perdi a conta dos netos e dos bisnetos e das carrada de mulher que apareceu na minha vida. Quando eu era novo, num só ano de bom inverno emprenhei 14 companheira, inclusive uma das sogras.

Dito isto, me convida para o café com pão de milho da hora, servido pela D. Laninha que, segundo ele, foi sua derradeira conquista, a qual lhe deu os herdeiros caçulas: o Cidrak, já engrossando o cangote, e o José Freire Sobrinho Jr., de apenas três anos. “Este último”, diz Zé Freire, “puxou noventa e nove por cento do meu sangue. Só é menino na parença, mas já tem ação de cabra macho disposto e namorador”.
 
(...)
 
Ver postagem completa aqui: www.vilacamposonline.blogspot.com

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Um conto europeu vira cordel no Brasil

 
HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE 
METEU O DIABO NUM SACO
 

João Soldado se criou
Na terra da Palestina
Ficou órfão logo cedo
Foi bem triste a sua sina
Mas porém foi coroado
Por uma estrela divina.
 

(Da versão em cordel de Antônio Teodoro do Santos)
 

Uma das histórias de cordel mais conhecidas no Brasil é o folheto de Antônio Teodoro dos Santos (1916 – 1981), “João Soldado, o valente praça que meteu o diabo num saco”. Desde criança conheço este folheto, publicado pela Editora Luzeiro, de São Paulo. (Para saber mais sobre este folheto, consultar o blog CORDEL ATEMPORAL:  


A versão em prosa, que nos chegou de Portugal, só vim a conhecer muito tempo depois. É esta que se segue:
 

Era uma vez um rapaz bem nascido, mas sem leira nem beira, a quem tocou a sorte de ser soldado. Terminado o tempo de praça, que foram oito anos, alistou-se por mais oito e, terminados estes, por mais oito.
 Quando completou os últimos oito anos, já era velho e como nem para andar com as marmitas servia, deram-lhe baixa e entregaram-lhe tudo o que restava do soldo: um pão e quatro vinténs.
 Era tudo isto que vos estou narrando no tempo em que o dinheiro se contava por vinténs e por patacos, valendo cada pataco dois vinténs, no tempo em que “ir à tropa” era “ir às sortes” e o soldado era soldado porque recebia um soldo, mas tão pequeno que, como aconteceu ao nosso herói, ao fim de tantos anos só lhe restavam quatro vinténs.
 João Soldado pôs-se a caminho e ia dizendo para consigo:
“Sempre te declaro que tiraste um lucro de arregalar o olho! Depois de servires o Rei durante vinte e quatro anos, ficas com um pão e quatro vinténs! Mas é andar com Deus e nada ganhas em desesperar senão criares mau sangue.”

E pôs-se a cantarolar: 

Não há vida mais rendosa
Do que a vida de soldado.
É rancho, mochila e arma,
 E morrendo está arrumado! 

 Era também esse o tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo e trazia por moço a São Pedro. Encontrou-se com eles João Soldado e São Pedro, que era o do saco, pediu-lhe esmola.
 
Aqueles dois mendicantes
Eram São Pedro e Jesus
Quando andavam neste mundo
Trazendo a divina luz
Provando os bons corações
Com sua pesada cruz.

(Antônio Teodoro dos Santos) 

 -Eu que lhe hei-de dar – disse João Soldado – se, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, não fiquei com mais do que um pão e quatro vinténs?

 São Pedro era teimoso e insistiu.

 -Enfim – disse João Soldado – ainda que, depois de servir o Rei vinte e quatro anos só tenha por junto um pão e quatro vinténs, repartirei o pão com vossemecês.
 E puxando da navalha, cortou o pão em três bocados, deu-lhes dois e ficou com um.
 Daí a duas léguas, encontrou-se outra vez com São Pedro que tornou a pedir-lhe esmola.
 -Quer parecer-me – disse João Soldado – que lá adiante vi vossemecês e que conheço essa calva. Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, só tenha um pão e quatro vinténs e do pão não me reste senão este bocado que vou repartir com vossemecês.
 Assim o fez e, em seguida, comeu a sua parte para que não tornassem a pedir-lha.
 Ao pôr do sol, terceira vez se encontrou com o Senhor e São Pedro, que lhe pediram esmola.
- Ia jurar que já lha dei – disse João Soldado. – Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, me vi só com um pão e quatro vinténs. E vou repartir com vossemecês estes quatro vinténs como já reparti o pão.
 Pegou nas duas moedas de pataco, deu uma a São Pedro e ficou com a outra.
“Que hei-de fazer com um pataco?” disse João Soldado para os seus botões. “O remédio é deitar-me a trabalhar, se quero ter de comer.”
-Mestre! – dizia entretanto São Pedro ao Senhor – Faça Vossa Majestade alguma coisa em favor desse desgraçado que serviu vinte e quatro anos o Rei e não tirou outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs que repartiu conosco.
-Está bem – concordou o Senhor. – Chama-o e pergunta-lhe o que quer ele.
 Assim fez São Pedro, e João Soldado, depois de muito pensar, respondeu que o que queria era que, no bornal que levava vazio, se metesse tudo o que ele quisesse meter nele. Isso lhe foi concedido. E João Soldado seguiu caminho.
 Ao passar por uma aldeia, avistou numa tenda umas broas de pão mais alvo que jasmins e umas linguiças que estavam mesmo a dizer: comei-me. 
 -Salta para o bornal! – ordenou João Soldado em voz de comando.
 E era coisa de pasmar ver as broas dando voltas como rodas de carreta e as linguiças arrastando-se como cobras a encaminharem-se para o bornal.
 João Soldado, que comia mais do que um cancro e naquele dia tinha mais fome do que Deus tem paciência, apanhou um fartote, daqueles de dizer “não posso mais”.
Ao anoitecer chegou ele a outra aldeia. Como era soldado com baixa, tinha direito a alojamento, a que lhe dessem boleto. Por isso se dirigiu ao regedor a quem disse:
-Senhor, eu sou um pobre soldado que, ao fim de ter servido o Rei 24 anos, achei-me só com um pão e quatro vinténs que se gastaram no caminho.
 O regedor respondeu-lhe que, se ele quisesse, o alojaria numa herdade próxima, para onde ninguém queria ir habitar porque nela havia morrido um condenado e, desde então, andava lá coisa ruim. Mas que se ele era animoso e não tinha medo de coisas ruins, podia ir lá e encontraria lá tudo do bom e do melhor pois o condenado tinha sido riquíssimo. Falou João Soldado:
-Senhor! João Soldado não deve nem teme e portanto posso encaixar-me lá enquanto o diabo esfrega um olho.
 Na tal herdade, achou-se João Soldado no centro da abundância. A adega era das mais excelentes, a dispensa das mais providas e os madureiros estavam atestados de fruta.
 A primeira coisa que fez, como prevenção para o que desse e viesse, foi encher uma cântara de vinho porque considerou que aos bêbados costuma tapar-se a veia do medo. A seguir, acendeu uma vela e sentou-se a fazer umas migas de toucinho.
 Mal se tinha sentado, ouviu uma voz que vinha pela chaminé abaixo e dizia:
 -Caio?
 -Pois cai, se tens vontade – respondeu João Soldado que já estava meio pitosga com as emborcações daquele vinho precioso. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não deve nem teme.
 Ainda não tinha acabado de falar e já caía pela chaminé abaixo a exacta perna de um homem. João Soldado sentiu tal arrepio que se lhe eriçaram os cabelos como a um gato assanhado. Pegou na cântara e bebeu um trago.

 Mais animoso, perguntou à perna:
 -Queres que te enterre?
 A perna fez sinal de que não com o dedo gordo do pé.
-Pois apodrece para aí – disse João Soldado.
 Daí a nada, tornou a ouvir a mesma voz, que vinha da chaminé, a perguntar:

 -Caio?

 -Pois cai, se tens vontade – respondeu ele dando outro beijo na cântara. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não teme nem deve.
 Caiu então a outra perna, ao lado da companheira que já lá estava. Para rematar em poucas palavras: como caíram as pernas, caíram os quatro quartos de um homem e, por último, a cabeça, que se uniu aos quartos, e então se pôs em pé uma peça, não um cristão, mas um assombroso espectro que parecia dever ser o próprio condenado em corpo e alma. 

-João Soldado – disse ele com um vozeirão capaz de gelar o sangue nas veias – vejo que és um valente. 

-Sim, senhor. Sou um valente, não há dúvida. Pela vida de Cristo, nunca João Soldado conheceu nem fartura nem medo. Apesar disso, saberá Vossa mercê que, ao fim de ter servido vinte e quatro anos o Rei, o proveito que tirei foi um pão e quatro vinténs.
-Não te entristeças por isso. Porque se fizeres o que eu te vou dizer, salvarás a minha alma e serás feliz. Aceitas fazê-lo? 

 -Sim senhor, sim senhor. 

 -O pior – observou o espectro – é que me parece que tu estás bêbedo…

-Não senhor, não senhor. Estou assim “tem-te não caias”. Pois saberá Vossa Mercê que há três classes de bebedeira. A primeira é “tem-te não caias”, a segunda é de fazer SS e RR e a terceira é de cair. Ora eu, senhor, não passei do “tem-te não caias”.
-Se assim é, vem comigo.
 João Soldado levantou-se. Ficou a balouçar como um santo num andor. Mas lá conseguiu pegar na vela. O espectro, porém, estendeu o braço como uma garrocha e apagou a luz. Não era precisa porque os olhos dele alumiavam como duas forjas acesas.
Quando chegaram à adega disse o espectro:
 João Soldado, pega numa enxada e abre aqui uma cova.
-Abra-a Vossa Mercê com toda a força que tem, se faz gosto nisso. Eu não servi o Rei vinte e quatro anos, sem outro proveito que um pão e quatro vinténs, para me pôr agora a servir outro amo que pode ser que nem isso me dê.
 O espectro pegou na enxada, cavou e tirou três talhas. Disse a João Soldado:
- Esta primeira talha está cheia de cobre, que repartirás pelos pobres. Esta segunda talha está cheia de prata, que empregarás em mandar rezar missas pela minha alma. E esta terceira talha está cheia de ouro, que será para ti se me prometeres entregar as outras conforme acabo de dispor.
- Fique Vossa Mercê descansado – afirmou João Soldado. – Vinte e quatro anos passei cumprindo as ordens que me davam sem tirar outro proveito que um pão e quatro vinténs. Já vê Vossa Mercê se o não farei agora que tão boa recompensa me promete.
 E na verdade, João Soldado cumpriu tudo o que lhe recomendou o espectro e, de contente, ficou metido num sino. Quem não ficou nada contente foi o Diabo-Mor, Lúcifer, o qual perdeu a alma do condenado pelo muito que por ela rezaram a igreja e os pobres. Mas não sabia como vingar-se de João Soldado.
 Ora havia no Inferno um Satanás pequeno, astuto e ladino, que garantiu a Lúcifer ser capaz de lhe trazer João Soldado. Causou isto muita alegria ao Diabo-Mor. E prometeu ao diabinho que, se ele conseguisse fazer o que dizia, o presentearia com um molho de enfeites e de ditos para seduzir e perder as filhas de Eva e com uma porção de baralhos de cartas e garrafas de vinho para tentar e perder os filhos de Adão.
 Estava João Soldado sentado no seu quintal, quando vê chegar junto de si, todo lépido, o diabinho, que o saúda:
-Bons dias, Senhor Dom João!
-Estimo ver-te macaquinho. Que feio que tu és! Queres uma fumaça?
-Não fumo, Dom João, senão palhas.
 -Vai um copo?
-Não bebo senão água-forte.
-Pois, então, que vens tu cá fazer?
-Venho levar Vossa Mercê comigo.

-Em boa hora seja. Não servi vinte e quatro anos o Rei, para bater em retirada diante de um macaquito de má morte como tu. João Soldado não deve nem teme, percebes? Olha, sobe a essa figueira que está cheia de belos figos, enquanto eu vou pelos alforjes porque me parece que a o caminho que temos a andar é comprido.
 O Satanás pequeno, que era guloso, subiu à figueira e pôs-se a comer figos. João Soldado foi buscar o bornal que deitou às costas, voltou para junto do diabrete e gritou-lhe:
 -Salta para o bornal!
 Dando gritos de assombrar o diabrete não teve outro remédio senão enfiar-se dentro do bornal.
 João Soldado fechou o saco, e pôs-se a desancar o diabrete até lhe deixar os ossos num feixe. Depois, mandou-o ir-se embora. Quando, chegado ele à sua presença, o Diabo-Mor viu o seu benjamim naquele estado, e partido, pôs-se vermelho de fúria e desatou aos gritos:
-Irra! Três mil vezes irra! Juro que esse descarado do João Soldado mas há-de pagar todas de uma vez! Eu mesmo lá vou em pessoa!

 João Soldado já esperava esta visita. Estava prevenido e tinha o bornal às costas. Logo que Lúcifer se apresentou, deitando lume pelos olhos e foguetes pela boca, avançou para ele muito tranquilo e disse-lhe:

-Compadre Lúcifer! Fizeste bem em vir. Mas é preciso que saibas que João Soldado não deve nem teme!

-Tu, meu fanfarrão das dúzias é que vais saber. Meto-te no inferno num abrir e fechar de olhos.

-Tu a mim? Tu, Lúcifer, a João Soldado? Não há-de ser fácil … tem cuidado.

 O Diabo bufava: “Vil guzano terrestre!”

E João Soldado a rir-se:

 -Grande estafermo! Vou enfiar-te no meu bornal. A ti, ao teu rabo e aos teus cornos.

 -Basta de bravatas! – rugiu o Diabo, estendendo o enorme braço e mostrando as unhas tremendas e negras.

 -Salta para o bornal! – ordenou João Soldado na voz de comando que aprendera na tropa.

 E por mais que Lúcifer se torcesse, por mais que se arrepelasse e pusesse num novelo, foi direitinho de cabeça para dentro do bornal.

 João Soldado fechou o saco e foi buscar um masso. Pôs-se a descarregar cada pancada que onde batia fazia uma cova. Lúcifer ficou mais chato que uma folha de papel.

 Quando sentiu os braços cansados abriu o bornal, deixou cair o miserável e disse-lhe:

- Por agora contento-me com isto. Mas se te atreves a voltar a aparecer diante de mim, grande desavergonhado, arranco-te o rabo, os cornos e as unhas, e nunca mais metes medo a ninguém.

 O Diabo lá se arrastou como pôde até ao Inferno. Quando a corte infernal o viu chegar naquele estado, derrubado, encolhido, transparente, com o rabo entre as pernas, todos aqueles farricocos se puseram a vomitar sapos e cobras.

 -Que havemos de fazer depois disto, Senhor? – perguntavam eles.

-Mandar vir serralheiros para que façam ferrolhos para as portas, mandar vir pedreiros para taparem todos os buracos e fendas das paredes, a fim de que não entre, não surja, nem aporte ao Inferno o grande insolente do João Soldado!

 E assim se fez com toda a pontualidade.

 Quando João Soldado viu aproximar-se a hora da sua morte, pegou no bornal e encaminhou-se para o céu. À porta encontrou São Pedro.

 -Ora viva! Seja benvindo! – disse-lhe São Pedro – Onde é a ida, amigo?

-Aonde vê – respondeu João Soldado muito ancho e emproado.

 E ia entrando.

-Alto lá, compadre! No céu não entra assim qualquer um como se entrasse em sua casa. Vejamos. Que merecimentos traz Vocemecê?

-Pois diga-me, Senhor São Pedro… Pois diga-me se lhe parece regular que eu, depois de lá em baixo ter servido o Rei vinte e quatro anos sem tirar outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs, diga-me se, depois disso, não há no céu um lugar para mim?

 São Pedro sorriu e João Soldado entrou.