segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Um conto europeu vira cordel no Brasil

 
HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE 
METEU O DIABO NUM SACO
 

João Soldado se criou
Na terra da Palestina
Ficou órfão logo cedo
Foi bem triste a sua sina
Mas porém foi coroado
Por uma estrela divina.
 

(Da versão em cordel de Antônio Teodoro do Santos)
 

Uma das histórias de cordel mais conhecidas no Brasil é o folheto de Antônio Teodoro dos Santos (1916 – 1981), “João Soldado, o valente praça que meteu o diabo num saco”. Desde criança conheço este folheto, publicado pela Editora Luzeiro, de São Paulo. (Para saber mais sobre este folheto, consultar o blog CORDEL ATEMPORAL:  


A versão em prosa, que nos chegou de Portugal, só vim a conhecer muito tempo depois. É esta que se segue:
 

Era uma vez um rapaz bem nascido, mas sem leira nem beira, a quem tocou a sorte de ser soldado. Terminado o tempo de praça, que foram oito anos, alistou-se por mais oito e, terminados estes, por mais oito.
 Quando completou os últimos oito anos, já era velho e como nem para andar com as marmitas servia, deram-lhe baixa e entregaram-lhe tudo o que restava do soldo: um pão e quatro vinténs.
 Era tudo isto que vos estou narrando no tempo em que o dinheiro se contava por vinténs e por patacos, valendo cada pataco dois vinténs, no tempo em que “ir à tropa” era “ir às sortes” e o soldado era soldado porque recebia um soldo, mas tão pequeno que, como aconteceu ao nosso herói, ao fim de tantos anos só lhe restavam quatro vinténs.
 João Soldado pôs-se a caminho e ia dizendo para consigo:
“Sempre te declaro que tiraste um lucro de arregalar o olho! Depois de servires o Rei durante vinte e quatro anos, ficas com um pão e quatro vinténs! Mas é andar com Deus e nada ganhas em desesperar senão criares mau sangue.”

E pôs-se a cantarolar: 

Não há vida mais rendosa
Do que a vida de soldado.
É rancho, mochila e arma,
 E morrendo está arrumado! 

 Era também esse o tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo e trazia por moço a São Pedro. Encontrou-se com eles João Soldado e São Pedro, que era o do saco, pediu-lhe esmola.
 
Aqueles dois mendicantes
Eram São Pedro e Jesus
Quando andavam neste mundo
Trazendo a divina luz
Provando os bons corações
Com sua pesada cruz.

(Antônio Teodoro dos Santos) 

 -Eu que lhe hei-de dar – disse João Soldado – se, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, não fiquei com mais do que um pão e quatro vinténs?

 São Pedro era teimoso e insistiu.

 -Enfim – disse João Soldado – ainda que, depois de servir o Rei vinte e quatro anos só tenha por junto um pão e quatro vinténs, repartirei o pão com vossemecês.
 E puxando da navalha, cortou o pão em três bocados, deu-lhes dois e ficou com um.
 Daí a duas léguas, encontrou-se outra vez com São Pedro que tornou a pedir-lhe esmola.
 -Quer parecer-me – disse João Soldado – que lá adiante vi vossemecês e que conheço essa calva. Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, só tenha um pão e quatro vinténs e do pão não me reste senão este bocado que vou repartir com vossemecês.
 Assim o fez e, em seguida, comeu a sua parte para que não tornassem a pedir-lha.
 Ao pôr do sol, terceira vez se encontrou com o Senhor e São Pedro, que lhe pediram esmola.
- Ia jurar que já lha dei – disse João Soldado. – Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, me vi só com um pão e quatro vinténs. E vou repartir com vossemecês estes quatro vinténs como já reparti o pão.
 Pegou nas duas moedas de pataco, deu uma a São Pedro e ficou com a outra.
“Que hei-de fazer com um pataco?” disse João Soldado para os seus botões. “O remédio é deitar-me a trabalhar, se quero ter de comer.”
-Mestre! – dizia entretanto São Pedro ao Senhor – Faça Vossa Majestade alguma coisa em favor desse desgraçado que serviu vinte e quatro anos o Rei e não tirou outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs que repartiu conosco.
-Está bem – concordou o Senhor. – Chama-o e pergunta-lhe o que quer ele.
 Assim fez São Pedro, e João Soldado, depois de muito pensar, respondeu que o que queria era que, no bornal que levava vazio, se metesse tudo o que ele quisesse meter nele. Isso lhe foi concedido. E João Soldado seguiu caminho.
 Ao passar por uma aldeia, avistou numa tenda umas broas de pão mais alvo que jasmins e umas linguiças que estavam mesmo a dizer: comei-me. 
 -Salta para o bornal! – ordenou João Soldado em voz de comando.
 E era coisa de pasmar ver as broas dando voltas como rodas de carreta e as linguiças arrastando-se como cobras a encaminharem-se para o bornal.
 João Soldado, que comia mais do que um cancro e naquele dia tinha mais fome do que Deus tem paciência, apanhou um fartote, daqueles de dizer “não posso mais”.
Ao anoitecer chegou ele a outra aldeia. Como era soldado com baixa, tinha direito a alojamento, a que lhe dessem boleto. Por isso se dirigiu ao regedor a quem disse:
-Senhor, eu sou um pobre soldado que, ao fim de ter servido o Rei 24 anos, achei-me só com um pão e quatro vinténs que se gastaram no caminho.
 O regedor respondeu-lhe que, se ele quisesse, o alojaria numa herdade próxima, para onde ninguém queria ir habitar porque nela havia morrido um condenado e, desde então, andava lá coisa ruim. Mas que se ele era animoso e não tinha medo de coisas ruins, podia ir lá e encontraria lá tudo do bom e do melhor pois o condenado tinha sido riquíssimo. Falou João Soldado:
-Senhor! João Soldado não deve nem teme e portanto posso encaixar-me lá enquanto o diabo esfrega um olho.
 Na tal herdade, achou-se João Soldado no centro da abundância. A adega era das mais excelentes, a dispensa das mais providas e os madureiros estavam atestados de fruta.
 A primeira coisa que fez, como prevenção para o que desse e viesse, foi encher uma cântara de vinho porque considerou que aos bêbados costuma tapar-se a veia do medo. A seguir, acendeu uma vela e sentou-se a fazer umas migas de toucinho.
 Mal se tinha sentado, ouviu uma voz que vinha pela chaminé abaixo e dizia:
 -Caio?
 -Pois cai, se tens vontade – respondeu João Soldado que já estava meio pitosga com as emborcações daquele vinho precioso. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não deve nem teme.
 Ainda não tinha acabado de falar e já caía pela chaminé abaixo a exacta perna de um homem. João Soldado sentiu tal arrepio que se lhe eriçaram os cabelos como a um gato assanhado. Pegou na cântara e bebeu um trago.

 Mais animoso, perguntou à perna:
 -Queres que te enterre?
 A perna fez sinal de que não com o dedo gordo do pé.
-Pois apodrece para aí – disse João Soldado.
 Daí a nada, tornou a ouvir a mesma voz, que vinha da chaminé, a perguntar:

 -Caio?

 -Pois cai, se tens vontade – respondeu ele dando outro beijo na cântara. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não teme nem deve.
 Caiu então a outra perna, ao lado da companheira que já lá estava. Para rematar em poucas palavras: como caíram as pernas, caíram os quatro quartos de um homem e, por último, a cabeça, que se uniu aos quartos, e então se pôs em pé uma peça, não um cristão, mas um assombroso espectro que parecia dever ser o próprio condenado em corpo e alma. 

-João Soldado – disse ele com um vozeirão capaz de gelar o sangue nas veias – vejo que és um valente. 

-Sim, senhor. Sou um valente, não há dúvida. Pela vida de Cristo, nunca João Soldado conheceu nem fartura nem medo. Apesar disso, saberá Vossa mercê que, ao fim de ter servido vinte e quatro anos o Rei, o proveito que tirei foi um pão e quatro vinténs.
-Não te entristeças por isso. Porque se fizeres o que eu te vou dizer, salvarás a minha alma e serás feliz. Aceitas fazê-lo? 

 -Sim senhor, sim senhor. 

 -O pior – observou o espectro – é que me parece que tu estás bêbedo…

-Não senhor, não senhor. Estou assim “tem-te não caias”. Pois saberá Vossa Mercê que há três classes de bebedeira. A primeira é “tem-te não caias”, a segunda é de fazer SS e RR e a terceira é de cair. Ora eu, senhor, não passei do “tem-te não caias”.
-Se assim é, vem comigo.
 João Soldado levantou-se. Ficou a balouçar como um santo num andor. Mas lá conseguiu pegar na vela. O espectro, porém, estendeu o braço como uma garrocha e apagou a luz. Não era precisa porque os olhos dele alumiavam como duas forjas acesas.
Quando chegaram à adega disse o espectro:
 João Soldado, pega numa enxada e abre aqui uma cova.
-Abra-a Vossa Mercê com toda a força que tem, se faz gosto nisso. Eu não servi o Rei vinte e quatro anos, sem outro proveito que um pão e quatro vinténs, para me pôr agora a servir outro amo que pode ser que nem isso me dê.
 O espectro pegou na enxada, cavou e tirou três talhas. Disse a João Soldado:
- Esta primeira talha está cheia de cobre, que repartirás pelos pobres. Esta segunda talha está cheia de prata, que empregarás em mandar rezar missas pela minha alma. E esta terceira talha está cheia de ouro, que será para ti se me prometeres entregar as outras conforme acabo de dispor.
- Fique Vossa Mercê descansado – afirmou João Soldado. – Vinte e quatro anos passei cumprindo as ordens que me davam sem tirar outro proveito que um pão e quatro vinténs. Já vê Vossa Mercê se o não farei agora que tão boa recompensa me promete.
 E na verdade, João Soldado cumpriu tudo o que lhe recomendou o espectro e, de contente, ficou metido num sino. Quem não ficou nada contente foi o Diabo-Mor, Lúcifer, o qual perdeu a alma do condenado pelo muito que por ela rezaram a igreja e os pobres. Mas não sabia como vingar-se de João Soldado.
 Ora havia no Inferno um Satanás pequeno, astuto e ladino, que garantiu a Lúcifer ser capaz de lhe trazer João Soldado. Causou isto muita alegria ao Diabo-Mor. E prometeu ao diabinho que, se ele conseguisse fazer o que dizia, o presentearia com um molho de enfeites e de ditos para seduzir e perder as filhas de Eva e com uma porção de baralhos de cartas e garrafas de vinho para tentar e perder os filhos de Adão.
 Estava João Soldado sentado no seu quintal, quando vê chegar junto de si, todo lépido, o diabinho, que o saúda:
-Bons dias, Senhor Dom João!
-Estimo ver-te macaquinho. Que feio que tu és! Queres uma fumaça?
-Não fumo, Dom João, senão palhas.
 -Vai um copo?
-Não bebo senão água-forte.
-Pois, então, que vens tu cá fazer?
-Venho levar Vossa Mercê comigo.

-Em boa hora seja. Não servi vinte e quatro anos o Rei, para bater em retirada diante de um macaquito de má morte como tu. João Soldado não deve nem teme, percebes? Olha, sobe a essa figueira que está cheia de belos figos, enquanto eu vou pelos alforjes porque me parece que a o caminho que temos a andar é comprido.
 O Satanás pequeno, que era guloso, subiu à figueira e pôs-se a comer figos. João Soldado foi buscar o bornal que deitou às costas, voltou para junto do diabrete e gritou-lhe:
 -Salta para o bornal!
 Dando gritos de assombrar o diabrete não teve outro remédio senão enfiar-se dentro do bornal.
 João Soldado fechou o saco, e pôs-se a desancar o diabrete até lhe deixar os ossos num feixe. Depois, mandou-o ir-se embora. Quando, chegado ele à sua presença, o Diabo-Mor viu o seu benjamim naquele estado, e partido, pôs-se vermelho de fúria e desatou aos gritos:
-Irra! Três mil vezes irra! Juro que esse descarado do João Soldado mas há-de pagar todas de uma vez! Eu mesmo lá vou em pessoa!

 João Soldado já esperava esta visita. Estava prevenido e tinha o bornal às costas. Logo que Lúcifer se apresentou, deitando lume pelos olhos e foguetes pela boca, avançou para ele muito tranquilo e disse-lhe:

-Compadre Lúcifer! Fizeste bem em vir. Mas é preciso que saibas que João Soldado não deve nem teme!

-Tu, meu fanfarrão das dúzias é que vais saber. Meto-te no inferno num abrir e fechar de olhos.

-Tu a mim? Tu, Lúcifer, a João Soldado? Não há-de ser fácil … tem cuidado.

 O Diabo bufava: “Vil guzano terrestre!”

E João Soldado a rir-se:

 -Grande estafermo! Vou enfiar-te no meu bornal. A ti, ao teu rabo e aos teus cornos.

 -Basta de bravatas! – rugiu o Diabo, estendendo o enorme braço e mostrando as unhas tremendas e negras.

 -Salta para o bornal! – ordenou João Soldado na voz de comando que aprendera na tropa.

 E por mais que Lúcifer se torcesse, por mais que se arrepelasse e pusesse num novelo, foi direitinho de cabeça para dentro do bornal.

 João Soldado fechou o saco e foi buscar um masso. Pôs-se a descarregar cada pancada que onde batia fazia uma cova. Lúcifer ficou mais chato que uma folha de papel.

 Quando sentiu os braços cansados abriu o bornal, deixou cair o miserável e disse-lhe:

- Por agora contento-me com isto. Mas se te atreves a voltar a aparecer diante de mim, grande desavergonhado, arranco-te o rabo, os cornos e as unhas, e nunca mais metes medo a ninguém.

 O Diabo lá se arrastou como pôde até ao Inferno. Quando a corte infernal o viu chegar naquele estado, derrubado, encolhido, transparente, com o rabo entre as pernas, todos aqueles farricocos se puseram a vomitar sapos e cobras.

 -Que havemos de fazer depois disto, Senhor? – perguntavam eles.

-Mandar vir serralheiros para que façam ferrolhos para as portas, mandar vir pedreiros para taparem todos os buracos e fendas das paredes, a fim de que não entre, não surja, nem aporte ao Inferno o grande insolente do João Soldado!

 E assim se fez com toda a pontualidade.

 Quando João Soldado viu aproximar-se a hora da sua morte, pegou no bornal e encaminhou-se para o céu. À porta encontrou São Pedro.

 -Ora viva! Seja benvindo! – disse-lhe São Pedro – Onde é a ida, amigo?

-Aonde vê – respondeu João Soldado muito ancho e emproado.

 E ia entrando.

-Alto lá, compadre! No céu não entra assim qualquer um como se entrasse em sua casa. Vejamos. Que merecimentos traz Vocemecê?

-Pois diga-me, Senhor São Pedro… Pois diga-me se lhe parece regular que eu, depois de lá em baixo ter servido o Rei vinte e quatro anos sem tirar outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs, diga-me se, depois disso, não há no céu um lugar para mim?

 São Pedro sorriu e João Soldado entrou.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

CORDEL BRASILEIRO EM PORTUGAL

EXPOSIÇÃO DE CORDEL BRASILEIRO NA BIBLIOTECA NACIONAL PORTUGUESA
 
Ver matéria completa neste blog:
 
Literatura de Cordel no Brasil. Outra exposição na Biblioteca Nacional de Portugal que merece uma visita. Reparem nos títulos, são deliciosos. 
Desconheço este tipo de literatura e tenho pena de não poder pegar num livrinho, folhear e ler.



«Os folhetos que em Portugal, na Espanha e na América latina são ditos de cordel, porque outrora eram suspensos - para exposição e venda - de cordéis, apareceram em Portugal, como noutros países da Europa, poucas décadas depois da descoberta da imprensa, e foram até meados do século XX um poderoso meio de comunicação popular. Levados por emigrantes para o Brasil, aqui começaram alguns a ser reeditados pouco depois de D. João VI ter criado a primeira tipografia, em 1808; imitados ou recriados, permitiram que antes do final do século Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima e outros poetas populares, sobretudo da Paraíba e de Pernambuco, fixassem os modelos do folheto de cordel brasileiro, que como regra ainda se mantêm, apesar das transformações sociais e tipográficas: papel mais ou menos ordinário, formato raramente afastado dos 15x12 ou 16x11 centímetros, simplicidade gráfica, capa ilustrada, com privilégio da xilogravura, impressão rudimentar, enunciação oralizante e narrativa, linguagem concreta, popular e coloquial, fixação quase exclusiva na expressão poética, com preferência pelo verso setissílabo e pela sextilha, gosto do cómico e da crítica social, abertura temática mas com atracção por certos “ciclos”…»

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O PROFESSÔ DUS MENINOS

 
 
Hoje, 15 de outubro, dia do professor, quero publicar um poema do mestre Alberto Porfírio, poeta que muito me influenciou nos primeiros anos de vida. Desde 1978 sou leitor assíduo de sua obra.


Ideias de Caboclo

Extraído do Livro:  "Poetas Populares e Cantadores do Ceará", de Alberto Porfírio

 
O professô dos menino
Fala, fala chega estronda!
Querendo qui eu acredite
Qui a terra seja redonda.
 

Não, senhor, num acredito
Nunca pude acreditá
Qui viva assim todo mundo
Andando em cima duma bola
Sem nunca iscorregá!
 

Vós mincê preste atenção,
Um monstro cuma é o trem!...
Se a terra fosse redonda,
Iscorregava tombém.
 

Ele só diz qui a terra
Veve solta no espaço
Rodando num canto só
Sem tê nada de embaraço.
 

Muvimenta... muvimenta
E nunca descansa um pedaço,
E qui é as volta qui ela dá
Qui serve pra controlá
A frieza e o mormaço.

 
Num acredito!... não! não!
Qué sabê cuma é a terra
Na minha maginação?
É um prato feito de barro
Mal feito mais bem grandão!
Emborcado em riba d’água
N’uma firme pusição,
Cum a gente morando in riba
Cum toda satisfação.

 
Vou prová cuma é mermo
Vou dá toda a insplicação:
 

Quando Deus fez este mundo
Mandou a terra secá,
Mandou se juntá as água
E foi assim qui fez os má.
E se a terra fosse doida
Rodando pra se acabá,
Tinha derramado as água
E era até pirigoso
O próprio Deus se afogá.
 
Tá certo ou num tá?!
 
Os home religioso
Gostun de dizê a gente
Qui tem um tal de inferno
De fogo qui é munto quente
Qui vai pra dentro desse fogo
As alma dessas pessoa
Qui num vão munto decente
 

Desses home priguiçoso
Qui num quere trabaiá;
Dessas muié vaidosa
Qui usun as roupa curta
Qui é do juêio pra lá;
Qui usun outras safadage
Fazendo a gente pecá
Dispois tudo morre
Vai morá nesse lugá
Debaixo desse arguidá.

 
Agora eu aviso os home
Qui pras muié são ingrato
Tombém aviso as muié
Qui andun de ponta-de-pé
Mode os sarto do sapato;
Dão zunhada e esconde as unha
Fazendo a moda de gato
Se morrê nesses pecado
Vão pra debaixo do prato...

ABC DO SERTÃO - Ilustração de Arievaldo / Klévisson Viana
 
 


sábado, 12 de outubro de 2013

O MENINO E O POETA

Poeta CHICO PEDROSA, foto: Jorge Filó

O poeta Jorge Filó publicou em sua página no facebook uma belíssima foto, raro flagrante em que o poeta Chico Pedrosa se encontra declamando enquanto é obsrvado por um garoto, atento e embevecido com a sua poética. A postagem rendeu algumas estrofes, como as que veremos a seguir, dos poetas Maviael Melo, Arievaldo Viana e Kayson Oliveira Pires:

Maviael Melo:

É bom demais o poeta
Na sua declamação
Prender em forma liberta
Do menino a atenção
O grande Chico Pedrosa
Um mestre dessa nação

Arievaldo Viana:

A poesia é um dom
Que não me sai da lembrança
Pra uns ela tem beleza
Pra outros traz esperança
Porque toda musa é santa
Tão santa que até encanta
A alma de uma criança.

Arievaldo Viana:

É a sagrada aliança
Da infância com a poesia
É a pureza do sonho
Nos versos que o bardo cria
É a força da palavra
É ouro puro da lavra
Que alta luz irradia.

Arievaldo Viana:

Fermento da utopia
É sol da nossa bonança
É chuva no meu roçado
Pelo de milho na trança
Verso que sai da garganta
É o poeta que encanta
A alma de uma criança.

Kayson Oliveira Pires:

DUAS FACES DE AMORES AFINADAS
 ILUSÕES, SONHOS, GESTOS E PERFIS
SER IGUAL COMO O QUAL SE SEMPRE QUIS
DUAS FORÇAS DE PAZ EQUILIBRADAS
DUAS MENTES DE TEMPO ENTRELAÇADAS
DESTOADAS NAS VOZES DO DESTINO
UM TÃO GRANDE O OUTRO PEQUENINO
O QUE VEJO DE FORMA MAIS COMPLETA
O MENINO TEM POUCO DO POETA
E O POETA TEM MUITO DO MENINO.

Arievaldo Viana:

Nossa vida na terra é uma passagem
É o tempo que ceifa as gerações
Vem a morte e nos prende com grilhões
Vem a vida e nos mostra outra paragem
Vem a brisa benfazeja da aragem
Embalando essas redes do destino
Tem o tempo do errante beduíno
Tem a hora minguada do asceta
O menino tem um pouco de poeta
E o poeta tem um pouco de menino.

domingo, 6 de outubro de 2013

ARTIGO DE STÉLIO TORQUATO

 
Os PCN e as potencialidades

didático-pedagógicas do cordel 
( Primeira Parte )

Stélio Torquato Lima

 
Departamento de Literatura, Curso de Letras, Universidade Federal do Ceará, Av. da Universidade, 2683, 60020-181, Fortaleza, Ceará, Brasil. (Texto publicado na revista Acta Scientiarum. Education Maringá, v. 35, n. 1, p. 133-139, Jan.-June, 2013).
E-mail: profstelio@ufc.br

RESUMO. O artigo analisa a importância da inclusão da literatura de cordel como ferramenta auxiliar no processo de ensino-aprendizagem. Essa análise tem como referência os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN, diretrizes organizadas pelo governo federal para orientar a ação pedagógica nas escolas brasileiras de ensino fundamental e médio. Nessa perspectiva, mostramos como a inclusão do cordel em sala de aula possibilita ao professor trabalhar novas habilidades e novos saberes junto aos alunos, incluindo a superação de preconceitos de ordem linguística e cultural.

Palavras-chave: literatura popular, ensino-aprendizagem, materiais didáticos.
 
 Arievaldo Viana e Jô Oliveira com crianças do Rio de Janeiro
PCN and didactic and pedagogical
potentialities of the string literature 

ABSTRACT. This paper analyzes the importance of including string literature as an auxiliary tool in the teaching-learning process. This analysis has reference to the Parâmetros Curriculares Nacionais (National Curriculum Parameters) – PCN, a guidelines organized by the federal government to guide the pedagogical action in elementary and high Brazilian schools. From this perspective, we show how the inclusion of the string literature in classrooms allows the teacher to work on new skills and new knowledge close to the students, including the overcoming of linguistic and cultural prejudices.

Keywords: folk literature, teaching and learning, instructional tools.
Introdução
Por muito tempo, predominou no meio acadêmico certo desinteresse pela produção popular, que era vista como algo destituído de valor estético e de profundidade intelectual. Tratava-se, no fundo, da perpetuação de um distanciamento sedimentado na Idade Média entre a cultura popular e a erudita, entre a ‘alta’ e a ‘baixa’ cultura. Em eras pretéritas, como explica Luyten (2007), esse litígio resultou na marginalização das obras literárias identificadas com as camadas populares: sem o apoio de uma elite intelectual, que detinha o poder de chancela sobre o que era produzido pelos escritores, e sem o acesso ao aparato tecnológico que permitia a publicação em larga escala das obras, o povo viu sua produção literária cada vez mais relegada a um espaço afastado do meio em que circulava a ‘alta’ literatura.

Nesse contexto marginalizante, a relação da elite intelectual com a literatura popular foi marcada historicamente pelo preconceito. É o que destaca Guerreiro (1983), apontando como exemplo a censura que o trovador português Martim Soares faz a um colega na primeira metade do século XIII, acusando os cantares deste de agradarem ao ‘público popular’, e não ‘aos trovadores e às damas’. Não distante dessa linha de pensamento, o Marquês de Santilana, no século XV, critica os ‘ínfimos’ que “[...] fazen estos romances e cantares de que las gentes de baxa e servil condición se alegran” (SANTILANA, apud GUERREIRO, 1983, p. 26).

A escola, infelizmente, incorporou esse preconceito em relação às obras da cultura popular. Ao determinar, por exemplo, os livros que mereciam o atributo de ‘obra clássica’, ou seja, que eram dignos de serem estudados em classe, a escola encarregou-se durante muito tempo de manter distante dos alunos as obras populares.

No Brasil, autores como Silvio Romero (2002) e Câmara Cascudo (1971) dedicaram várias  pesquisas para demonstrar a riqueza da cultura popular e, mais especificamente, da literatura produzida pelos autores populares. Não obstante, foi principalmente a partir dos trabalhos de autores estrangeiros que produções como o cordel passaram a ser vistas com um olhar menos preconceituoso por parte da intelectualidade brasileira (ABREU, 1993). De toda forma, convém destacar que o cordel vem ocupando a cada dia um lugar, dada a sua estreita ligação com maior espaço nas instituições de ensino, incluindo as universidades. Em consequência disso, ampliam-se as pesquisas em torno dessas produções populares, incluindo entre essas investigações científicas alguns estudos que têm como recorte analítico a discussão sobre a importância do cordel como ferramenta auxiliar no processo de ensino-aprendizagem.

Entre os analistas que já se detiveram nesse assunto, cabe citar os nomes de Hélder Pinheiro e Ana CristinaLúcio (2001). Os dois pesquisadores não apenas defendem o uso do cordel como instrumento didáticopedagógico, como oferecem na obra Cordel em sala de aula (2001) uma série de sugestões metodológicas para explorar de forma mais eficiente a literatura de folhetos em sala de aula.

Também o professor Veríssimo de Melo, à guisa de prefácio de uma antologia do cordel, defende que Outro papel importante exercido pela literatura de cordel diz respeito à sua função como auxiliar de alfabetização. Sabe-se que incontáveis nordestinos carentes de alfabetização aprenderam a ler por meio de folhetos. E, desta forma, cresce, gradativamente, o interesse de estudantes e educadores, em todo o Brasil, pela literatura de cordel para este fim e das muitas maneiras como o folheto pode ser utilizado em sala de aula (apud VIANA, 2010, p. 8).

Reportagem do GLOBO RURAL visita uma escola de Maracanaú
 
É a partir dessa premissa que o presente artigo defende que a literatura de cordel pode ser uma importante ferramenta auxiliar no processo de ensinoaprendizagem. Como é aqui mostrado, o cordel permite aos professores trabalharem novas habilidades e fortalecer alguns saberes sintonizados com as novas demandas educacionais. Para tanto, recorremos à discussão de trechos dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN, assim denominadas as diretrizes organizadas pelo governo federal para orientar a ação pedagógica nas escolas brasileiras de ensino fundamental e médio. Com vistas a tornar mais clara nossa abordagem da questão, o trabalho está estruturado para contemplar cada benefício que identificamos no que tange à inserção do cordel em sala de aula.

(...)
In Acta Scientiarum. Education Maringá, v. 35, n. 1, p. 133-139, Jan.-June, 2013


PARTE II
Cordel e diversificação textual
 
 

Em consonância com a Constituição Federal de 1988 e com a nova Lei de Diretrizes e Bases daEducação Nacional (Lei Federal n. 9.394), aprovada em 20 de dezembro de 1996 (BRASIL, 1996), os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN – foram elaborados para servirem de referência para o trabalho docente no âmbito dos ensinos fundamental e médio no Brasil. Assim, mais do que um conjunto de regras, os PCN sugerem caminhos para o desenvolvimento do processo de ensinoaprendizagem, expressando os novos entendimentos em torno da ação pedagógica. No que diz respeito à disciplina de Língua Portuguesa, por exemplo, os PCN enfatizam a importância dos textos no processo de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. Como defendem os PCN, os textos são instrumentos  

[...] que favorecem a reflexão crítica e imaginativa, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, os mais vitais para a plena participação numa sociedade letrada (BRASIL, 1997a, p. 26). 

E, mais do que essa clara opção pelos textos, os PCN defendem a necessidade de colocar 

[...] à disposição dos alunos textos dos mais variados gêneros, respeitados os seus portadores: livros de contos, romances, poesia (...), ‘revistas de literatura de cordel’, textos gravados em áudio e em vídeo, entre outros (BRASIL, 1997a, p. 61, grifo nosso). 

Portanto, já se pode acentuar aqui um primeiro benefício que a inserção da literatura de cordel na escola pode trazer para o processo de ensinoaprendizagem: contribuir com o processo de diversificação de textos, viabilizando  

“[...] o acesso do aluno ao universo dos textos que circulam socialmente, [ensinando] [...] a produzi-los e a interpretá-los” (BRASIL, 1997a, p. 26). 

Ademais, considerando que o texto em folhetos é também um artefato estético, este possui marcas peculiares, entre as quais a plurissignificação e a desautomatização da linguagem (FIORIN; SAVIOLI, 1990; PROENÇA FILHO, 1995) e ainda oferece ao leitor observar estratégias criativas de trabalho dos autores com a linguagem. Por essa razão, os PCN afirmam que 

É importante que o trabalho com o texto literário esteja incorporado às práticas cotidianas da sala de aula, visto tratar-se de uma forma específica de conhecimento. Essa variável de constituição da experiência humana possui propriedades compositivas que devem sermostradas, discutidas e consideradas quando se trata de ler as diferentes manifestações colocadas sob a rubrica geral de texto literário (BRASIL, 1997a, p. 29). 

Considerando ainda que o texto em cordel é escrito em versos, as formalizações estéticas que ampliam o conhecimento do aluno no trato com o idioma pátrio se revelam ainda mais profundas, haja vista que  

No poema a linguagem recupera sua originalidade primitiva, mutilada pela redução que lhe impõem a prosa e a fala cotidiana. A reconquista de sua natureza é total e afeta os valores sonoros e plásticos tanto como os valores significativos. A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, todos os seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou como um foguete no momento de explodir no céu. O poeta põe em liberdade sua matéria. O prosador aprisiona-a (PAZ, 1982, p. 28-29). 

Soma-se a isso o fato de que o texto em versos possui uma dimensão lúdica e um componente de musicalidade ainda mais forte do que os textos em prosa. Além disso, a rima, a métrica e a sonoridade transformam o poema em um instrumento facilitador da memorização, auxiliando o aluno a reter o texto lido ou ouvido. Desse modo, não é sem razão que, como lembra Gustavo Barroso (1949),  

[...] o ensino das crianças, na Grécia Antiga, começava pela poesia, por ser o meio mais fácil de guardar de memória, nessa época em que o livro era raro, a narração dos acontecimentos e o perfil dos homens nele envolvidos. Assim, pôde o povo grego conservar, carinhosamente, de cor, os admiráveis cantos dos rapsodos (BARROSO, 1949, p. 33). 

Por fim, mas não menos importante, convém lembrar que os textos em versos há muito vêm sendo desprezados no dia-a-dia de sala de aula. Bittencourt (1997), por exemplo, ao aplicar um questionário junto a escolas públicas do Rio Grande do Sul, concluiu que apenas 6,4% dos textos trabalhados com os alunos em sala de aula eram em versos. Esse desprestígio do texto poético em sala de aula pode ser explicado de várias formas, incluindo o despreparo dos professores em trabalharem com o texto em versos, haja vista que

 “[...] a leitura do texto poético tem peculiaridades e carece, portanto, de mais cuidados do que o texto me prosa” (PINHEIRO; BANBERGER, 2002, p. 23).  

Todavia, sendo superados esses obstáculos, certamente a inserção do cordel no processo de ensino-aprendizagem contribui para preencher essa lacuna que insiste em perdurar nas  escolas de ensino fundamental e médio em nosso País. Cordel e desenvolvimento de novas habilidades Na obra Educação de corpo inteiro, João Batista Freire da Silva (1989) alerta sobre o risco de as escolas continuarem matriculando apenas a cabeça do aluno. Com essa declaração, o pesquisador chama a atenção para o fato de que, em regra, as grades curriculares de nossas escolas preocupam-se muito pouco com a educação corporal. Dessa forma, caberia às nossas instituições de ensino buscar a superação da dualidade corpo e mente, tendo em vista que estes  

“[...] devem ser entendidos como componentes que integram um único organismo. Ambos devem ter assento na escola” (SILVA, 1989, p. 13). 

Abordando essa questão de um ângulo diverso, pode-se afirmar que, em geral, a escola limitabastante o rol de habilidades a serem trabalhadas em sala de aula. O que se observa comumente é que as escolas se preocupam quase que exclusivamente com o desenvolvimento do raciocínio lógico, relegando a um segundo plano algumas das habilidades contempladas pela Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner (1995), entre as quais a inteligência espacial, a musical, a cinestésica, a interpessoal e a intrapessoal.

Os PCN fazem referências a várias habilidades que não são comumente trabalhadas em sala de aula. A criatividade, por exemplo, é citada várias vezes no corpo do documento em foco. Na introdução dos PCN de Língua Portuguesa, por exemplo, indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos 

[...] sejam capazes de: questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolvê-los, utilizando para isso o pensamento lógico, a ‘criatividade’, a intuição, a capacidade de análise crítica, selecionando procedimentos e verificando sua adequação (BRASIL, 1997a, p. 10, grifo nosso). 

Já na apresentação dos PCN da disciplina Arte, mencionam-se duas outras habilidades que devem ser trabalhadas juntamente com os alunos: a sensibilidade artística e a fruição estética: 

A educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico, que caracteriza um modo particular de dar sentido às experiências das pessoas: por meio dele, o aluno amplia a sensibilidade, a percepção, a reflexão e a imaginação. prender arte envolve, basicamente, fazer trabalhos artísticos, apreciar e refletir sobre eles. Envolve, também, conhecer, apreciar e refletir sobre as formas da natureza e sobre as produções artísticas individuais e coletivas de distintas culturas e épocas (BRASIL,1997b, p. 15). 

Em nosso julgamento, o cordel, como produto artístico, pode contribuir bastante com a ampliação do leque de habilidades a serem trabalhados em sala de aula. Incluem-se nesse rol as habilidades há pouco citadas – criatividade, sensibilidade artística e fruição estética. Isso decorre em muito de sua condição, já mencionada, de texto poético, uma vez que a poesia tem o poder de despertar junto aos alunos o  

[...] Exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade e do mundo dos seres, o cultivo do humor (CANDIDO, 1995, p. 249).


PARTE III - FINAL
Cordel e variações linguísticas
 
A oralidade é um traço marcante do cordel. O registro de palavras tal como são faladas pelo povo, a presença de provérbios, o uso de redundâncias ou elipses próprias da fala são algumas expressões dessa oralidade nos folhetos. Por essa razão, Martine Kunz (2007, p. 29) defende que a “[...] rima do cordel é feita para o ouvido e a memória, não para os olhos”, lembrando-nos de que, por muito tempo, uma massa expressiva de analfabetos usufruía do cordel apenas através de audições.
Importa destacar que essa característica remonta ao fato de que antes que o primeiro cordel fosse publicado já existia um cordel oral, o qual teve sua origem nas cantorias nordestinas. Nesse processo, tanto o uso das rimas quanto das redondilhas maiores serviam como recurso mnemônico, facilitando a memorização por parte dos ouvintes. Mas, mesmo quando o cordel passou a ser impresso, as marcas da oralidade permaneceram. Ou seja,
 
[...] a transposição gráfica não [implicou] [...] acesso completo ao universo da escrita, que, como se sabe, possui convenções e recursos próprios, em grande medida distintos daqueles característicos daoralidade (ABREU, 1993, p. 162).
 
Por outro lado, a presença da oralidade certamente ajuda a explicar por que o cordel esteve
por tanto tempo afastado das salas de aula. É que, entendida como elemento de oposição à escrita, a oralidade esteve por muito tempo identificada com os analfabetos, ou seja, com quem não possuía as habilidades de ler e escrever. Ademais, privilegiando apenas a norma culta, os educadores selecionavam para a leitura apenas as obras que contribuíssem com
o domínio da forma padrão de linguagem. É o que demonstra Zilberman (1999), ao listar os textos que eram normalmente lidos nas salas de aula brasileiras a partir do final do século XIX
 
Em nossos dias, porém, não mais se sustenta esse preconceito para com a oralidade. Paul Zumthor, por exemplo, defende que É inútil julgar a oralidade de modo negativo, realçando-lhe os traços que contrastam com a escrita. Oralidade não significa analfabetismo, o qual, despojado dos valores próprios da voz e de qualquer função social positiva, é percebido como uma lacuna (ZUMTHOR, 1995, p. 27).
 
De fato, os pesquisadores vêm acentuando a importância dos vários registros da linguagem. Bechara (2002), criticando a gramática normativa tradicional por ver a língua como algo homogêneo, e não como um conjunto de variantes dialetais, advoga a necessidade de o indivíduo tornar-se poliglota dentro da própria língua. Nessa mesma linha de pensamento, Paquette (apud BAGNO, 2001) mostra a insustentabilidade dos termos ‘culto’ e ‘não-culto’, uma vez que os falantes se utilizam de registros diferentes da língua de acordo com o contexto discursivo sociolinguista destaca a relevância das várias formas de dizer a língua, defende Cagliari (2002) que a
 
[...] língua portuguesa, como qualquer língua, tem ocerto e o errado somente em relação à sua estrutura. Com relação a seu uso pelas comunidades falantes, não existe certo e errado linguisticamente, mas o diferente (CAGLIARI, 2002, p. 35).
 
Afinados com esse novo entendimento a respeito das variantes dialetais, os PCN de Língua portuguesa defendem que A Língua Portuguesa, no Brasil, possui muitas variedades dialetais. Identificam-se geográfica e socialmente as pessoas pela forma como falam. Mas há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar: é muito comum se considerarem as variedades linguísticas de menor prestígio como inferiores ou erradas (BRASIL, 1997a, p. 26).
O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o respeito à diferença. Para isso, e também para poder ensinar Língua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma ‘certa’ de falar - a que se parece com a escrita - e o de que a escrita é o espelho da fala - e, sendo assim, seria preciso ‘consertar’ a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas duas crenças produziram uma prática de mutilação cultural que, além de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos, por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico (Cf. BRASIL, 1997a).
Portanto, os PCN, ao mesmo tempo em que afirmam a importância das variantes lingüísticas como expressões da identidade, acentuam a necessidade de a escola reformular suas práticas no sentido de combater o preconceito linguístico. Dessa forma, os PCN mostram que cada variante lingüística desempenha um papel de relevo de acordo com o contexto discursivo, cabendo à escola a tarefa de capacitar o aluno a escolher o registro mais ajustado a
uma dada situação comunicativa. Ou seja, A questão não é falar certo ou errado, mas saber qual forma de fala utilizar, considerando as características do contexto de comunicação, ou seja, saber adequar o registro às diferentes situações comunicativas. É saber coordenar satisfatoriamente o que falar e como fazê-lo, considerando a quem e por que se diz determinada coisa. É saber, portanto, quais variedades e registros da língua oral são pertinentes em função da intenção comunicativa, do contexto e dos interlocutores a quem o texto se dirige. A questão não é de correção da forma, mas de sua adequação às  circunstâncias de uso, ou seja, de utilização eficaz da linguagem: falar bem é falar adequadamente, é produzir o efeito pretendido (BRASIL, 1997a, p. 26).
No que diz respeito, em específico, à questão da oralidade, os PCN de Língua Portuguesa afirmam que Não é papel da escola ensinar o aluno a falar: isso é algo que a criança aprende muito antes da idade escolar. Talvez por isso, a escola não tenha tomado para si a tarefa de ensinar quaisquer usos e formas da língua oral.
Quando o fez, foi de maneira inadequada: tentou corrigir a fala “errada” dos alunos — por não ser coincidente com a variedade lingüística de prestígio social —, com a esperança de evitar que escrevessem errado. Reforçou assim o preconceito contra aqueles que falam diferente da variedade prestigiada (BRASIL,1997a, p. 38).
Dessa forma, o cordel pode propiciar um trabalho interessante em sala de aula tanto em relação ao trabalho com a oralidade quanto em relação ao estudo de variantes linguísticas, ou mais propriamente, de variantes regionais. Nesse sentido, o cordel pode contribuir com a descoberta, pelo aluno, de novos vocabulários, formulações sintáticas, timbres etc., ajudando-o a ampliar seu conhecimento no tocante à diversidade linguística do português falado no Brasil. O cordel, assim, pode servir como um instrumento de combate ao preconceito linguístico, mostrando como cada variante que forma o mosaico linguístico brasileiro tem potencialidades expressivas na produção da beleza e na transmissão de saberes.
 
Cordel e pluralidade cultural
 
A inserção dos temas transversais nos Parâmetros Curriculares Nacionais teve como alvo trazer para o debate de sala de aula alguns assuntos importantes que não estão ligados a uma disciplina específica da grade curricular das escolas. Trata-se de questões como meio ambiente, pluralidade cultural, ética e saúde, os quais devem ser abordados segundo uma perspectiva interdisciplinar. Ademais, os temas transversais também se ocupam da valorização de questões locais ligadas ao entorno do aluno. Assim, o
 
[...] currículo ganha em flexibilidade e abertura, uma vez que os temas podem ser priorizados e contextualizados de acordo com as diferentes realidades locais e regionais e outros temas podem ser incluídos (BRASIL, 1997c, p. 25).
 
Considerando a frequência com que os cordelistas discutem em suas obras os assuntos enfeixados nos PCN sob o rótulo de temas transversais universais, ratifica-se mais uma vez a importância do uso do cordel como ferramenta auxiliar de ensino-aprendizagem, pois o cordel há muito vem trabalhando questões como o meio ambiente, a ética, além de defender a importância da pluralidade cultural. Por outro lado, centrando o foco na importância do cordel para a discussão de temas locais, os quais
 
[...] pretendem contemplar os temas de interesse específico de uma determinada realidade a serem definidos no âmbito do Estado, da cidade e/ou da escola (BRASIL, 1997c, p. 28), importa ressaltar que a literatura de cordel manteve sempre o vínculo com a região que lhe serviu de berço. Em estreito diálogo com o contexto sócio-histórico e cultural em que se desenvolveu, o cordel expressa a visão de mundo do nordestino, transforma as demandas existenciais da população do semiárido em temas centrais, transforma em personagens indivíduos identificados com o povo sofrido do sertão: A virtuosidade e o talento dos poetas populares do Nordeste brasileiro eclodiram e persistem nessa região cuja cronologia é a das secas e das inundações, das grandes fomes históricas, ou das fomes mudas, cotidianas e crônicas, onde o analfabetismo e o subdesenvolvimento econômico sustentam-se um ao outro , onde a fome de pão muda-se em fome de vida e a espontaneidade poética parece nascer da dificuldade de sobreviver (KUNZ, 2001, p. 60).
 
De fato, a luta contra as secas e a fome, o mandonismo dos coronéis, o sofrimento dos menos favorecidos etc. não são apenas referências de um Nordeste ainda em luta consigo mesmo com vistas ao seu pleno desenvolvimento; são, também, as marcas de uma literatura ao mesmo tempo rústica e singela, que entretém ao mesmo tempo em que questiona as causas da opressão do povo. Nesse pormenor, Diegues Júnior (apud LOPES, 1983) enfatiza o contexto sóciohistórico nordestino como fator decisivo para o surgimento da literatura de cordel: No Nordeste, por condições sociais e culturais peculiares, foi possível o surgimento da literatura de cordel, de maneira como se tornou hoje em dia característica da própria fisionomia cultural da região. Fatores de formação social contribuíram para isso; a organização da sociedade patriarcal, o surgimento de manifestações messiânicas, o aparecimento de bandos de cangaceiros ou bandidos, as secas periódicas provocando desequilíbrios econômicos e sociais, as lutas de família deram oportunidade, entre outros fatores, para que se verificasse o surgimento de grupos de cantadores como instrumento do pensamento coletivo, das manifestações da memória popular (DIEGUESJÚNIOR apud LOPES, 1983, p. 12).
 
Dessa forma, servindo como veículo de expressão de elementos da cultura exprimindo elementos da região nordestina, a literatura de cordel estampa os traços basilares de uma visão e de um conhecimento acumulado pelas camadas populares, argutamente captados pelo folclorista Câmara Cascudo em obras como Tradição, ciência do povo (1971). Ou seja, os cordéis retratam a cosmovisão popular nordestina, a religiosidade popular, as superstições, a medicina popular das ervas, os métodos e as ferramentas de trabalho, etc., constituindo um repositório de saberes dignos de serem conhecidos como qualquer outro:
 
No âmbito da denominada literatura de cordel há (denominação recente, uma vez que o povo e os poetas não usavam esta terminologia), toda uma riqueza de versos, de imagens, de revelações do modo de ser de um povo que vem sendo lentamente descoberta e devidamente valorizada. São experiências humanas e artísticas que, durante séculos, estão à margem da literatura erudita e são, além de desconhecidas por milhares de estudiosos e professores, totalmente ausentes dos grandes compêndios de história da literatura brasileira (PINHEIRO, 2008, p. 35).
 
A partir desse entendimento, vê-se que a condição do cordel como repositório de saberes e culturas ligadas com o Nordeste pode contribuir para que seja atingido, por parte dos alunos, uma das metas que os Parâmetros Curriculares Nacionais indicam como objetivos do ensino, a saber:
 
[...] conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais (BRASIL, 1997c, p. 9).
 
Dito de outro modo: dada a estreita ligação do cordel com o contexto sociocultural nordestino, a literatura de folhetos pode ocupar um lugar importante em sala de aula tanto por oferecer ao aluno do Nordeste um espaço de reflexão sobre a própria cultura, quanto por propiciar aos alunos de outras regiões uma percepção da rica diversidade cultural brasileira.
 
 
 
Considerações finais
 
Os Parâmetros Curriculares Nacionais, em sintonia com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, expressam as novas concepções sobre o fazer pedagógico. Isso inclui uma nova relação entre os atores sociais do processo de ensino aprendizagem, uma preocupação em ampliar o rol de habilidades a serem desenvolvidos junto aos alunos pela escola, uma valorização do conhecimento prévio do aluno, um interesse em estreitar os laços entre escola e sociedade na promoção da cidadania etc. Em sala de aula, as novas percepções sobre o ensino-aprendizagem impõem uma quebra constante de paradigmas e superação de preconceitos. No plano da linguagem, por exemplo, significa substituir a velha noção de certo/errado pela ideia de adequado/não adequado.
Da mesma forma, a oralidade passa a ser valorizada, deixando de ser vista como elemento associado ao analfabetismo e em oposição à escrita. Ou seja, o aluno é estimulado a entrar em contato com os vários registros do idioma pátrio, habilitando-se a selecionar o registro mais adequado a uma dada situação comunicativa. Como vimos neste artigo, textos tradicionalmente marginalizados pela escola passam a ser agora valorizados como repositórios
de linguagens, cosmovisões e expressões culturais que são potencialmente úteis na tarefa de ajudar a expandir os saberes e os horizontes perceptivos dos alunos. Nesse processo, a literatura de cordel se revela bastante interessante no que tange à diversificação textual, ao trabalho com artefatos estéticos, ao contato com a oralidade, ao exercício da criatividade, à percepção da riqueza e à pluralidade cultural brasileira.
Para o aluno das escolas do Nordeste, onde o cordel se sedimentou, o cordel é uma ferramenta de debate da identidade, levando ao aluno o contato com as suas raízes culturais. Aos alunos de outras regiões, principalmente naquelas em que o cordel é menos conhecido, a literatura de folhetos traz aos estudantes uma percepção de uma cultura riquíssima, patrocinando assim a pluralidade cultural.
Assim, sem termos esgotado a lista de benefícios que o cordel pode trazer para o processo de ensino-aprendizagem, trouxemos aqui nossa contribuição para ampliar ainda mais a utilização dessa importante expressão da cultura popular. Ademais, não é demais lembrar que o cordel, com sua dimensão lúdica, musicalidade, humor etc., revela-se um instrumento que sempre encanta, ao mesmo tempo em que alarga o entendimento do pequeno leitor. Portanto, não exagera o poeta popular Arievaldo Viana ao dizer poeticamente que
 
Os doze Pares de França
Batalhas de Ferrabrás,
História de Pedro Cem,
As queixas de Satanás,
Tudo em linguagem correta
Como A História Completa
Do Herói João de Calais.
 
São histórias fascinantes
Que as escolas devem ter,
onde os estudantes podem
Pesquisar e aprender.
Em cada biblioteca
deve ter a Cordelteca,
outra fonte de saber.
 
O cordel contém ciência,
Matemática, astrologia,
Noções de física, gramática,
de história e geografia.
Em linguagem popular,
o cordel pode narrar
Tudo isso em poesia
(VIANA, 2010, p. 10).
 
Referências
 
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