domingo, 13 de maio de 2012

DOIS POEMAS DE MÃE



Mãe (Mário Quintana)

Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.


Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...


Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!



Mães de Maio: DOR E LUTA

Autora: Salete Maria



Mães de Maio: dor e luta!

Mães de maio são mulheres

Que lutam pela Justiça

Metendo suas colheres

Nos malfeitos da polícia

Exibindo para o mundo

O resultado imundo

Deste Estado-milícia



São guerreiras incansáveis

Que abrem seus corações

Tristes e inconsoláveis

Contra novos esquadrões

Que em plena democracia

Causam morte e agonia

De imensas proporções



São senhoras combativas

Diversas e populares

Que exercem voz ativa

E ocupam seus lugares

Na luta cotidiana

Contra a polícia tirana

Que executa milhares



São o rosto da coragem

Deste Brasil desigual

Traduzem bem a imagem

Desta guerra desleal:

Cidadão versus Estado

De terror banalizado

E impunidade total



São elas progenitoras

Das vítimas do poder

Da polícia opressora

E da justiça que não vê

Jovens da periferia

Na mira da covardia

Marcados para morrer



São a vanguarda da luta

Contra o Estado assassino

Que tantas vidas encurta

Com seu sistema cretino

Onde jovens inocentes

Tidos como delinquentes

Tem a morte por destino



São grandes protagonistas

Do combate ao genocídio

Que salta à nossa vista

Travestido de homicídio

Em autos de resistência

Cheios de incoerência

E sem qualquer subsídio



São elas quem, no Brasil,

No ano dois mil e seis

Nesta “pátria mãe gentil”

Quando maio era o mês

Tiveram a vida mudada

Pela mais triste jogada

Que as fez “bola da vez”



Quando brigas intestinas

Entre gangues estatais

Ilegais ou genuínas

Porém entre maiorais

Expôs a ferida aberta

São Paulo ficou alerta

E o povo sofreu demais



Quando a polícia saiu

Pelas ruas da cidade

E o horror emergiu

Entre discurso e maldade

Pacatas donas- de-casa

Tiveram que criar asa

Contra a impunidade



Pois em torno de dez dias

Mais de 500 morreram

Em verdadeiras sangrias

Muitos jovens pereceram

Negros eram maioria

Dos pobres que ali havia

Quantos desapareceram?


Fonte: www.cordelirando.blogspot.com.br  (SALETE MARIA)

sábado, 12 de maio de 2012

FOLHETOS DE JOAQUIM BATISTA DE SENA



Folhetos de Joaquim Batista de Sena, editados em Juazeiro do Norte, na Tipografia CASA DOS HORÓSCOPOS, de Manoel Caboclo e Silva

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MEMÓRIA DO CORDEL



Joaquim Batista de Sena - Um continuador da tradição dos mestres do cordel

Por: Arievaldo Viana

2012 é o ano do centenário de um dos maiores expoentes da Literatura de Cordel, o paraibano Joaquim Batista de Sena, que durante mais de quatro décadas palmilhou o Nordeste inteiro produzindo, imprimindo e revendendo seus folhetos. A partir da década de 1950 instalou o seu ‘quartel general’ em Fortaleza, onde fundou a Tipografia Graças Fátima, responsável pela publicação de seus próprios cordéis e também boa parte da criação literária de José Camelo Rezende, de quem adquiriu diversos originais. Romancista de primeira linha, Sena procura seguir a mesma trilha deixada por Camelo, Leandro, Athayde e outros gênios da poesia popular.

Mas não desdenhava o folheto-reportagem que também foi um de seus trunfos para conquistar a simpatia popular. Qualquer crime hediondo, enchente, desastre automobilístico, aparecimento de entidades sobrenaturais não escapava ao seu poder de observação, como se vê no folheto ‘O monstro do Cemitério São João Batista’ que trata de um curioso tema: a necrofilia. Entretanto, foi na passagem da imagem milagrosa de Nossa Senhora de Fátima, em 1953, que alcançou o seu apogeu como editor, percorrendo todo o itinerário da imagem pelo Nordeste afora. Ganhou tanto dinheiro que acabou batizando sua folhetaria com o nome de “Graças Fátima”. Antes disso, no início da década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu um naufrágio na baía de Quebra-Potes, no Maranhão, quando o navio em que viajava foi perseguido por um submarino alemão. Conseguiu salvar-se nadando, mas perdeu uma preciosa mala contendo diversos originais, dos quais não possuía outra cópia.

Hoje a obra de Sena parece naufragar em outros mares... o mar do esquecimento, do ostracismo a que vem sendo relegada a sua valiosa produção poética. Nada mais justo que a Tupynanquim Editora faça essa justa homenagem ao poeta, relançando três expressivos romances de sua lavra na passagem do seu centenário.
Capas das obras que serão relançadas pela Tupynanquim Editora

JOAQUIM BATISTA DE SENA - nasceu no dia 21 de maio de 1912, em Fazenda Velha, do termo de Bananeiras, hoje pertencente ao município de  Solânea-PB. Faleceu no distrito de Antônio Diogo (Redenção-CE) no início da década de 90 do século recém-findo. Autodidata, adquiriu vasto conhecimento sobre cultura popular e era um defensor intransigente da poesia popular nordestina. Começou como cantador de viola, permanecendo três anos neste ofício, no final da década de 30. 

No início da década de 40, vendeu um sítio de sua propriedade e adquiriu sua primeira tipografia, que funcionou algum tempo na cidade de Guarabira-PB, transferindo-se depois para Fortaleza, onde atuou durante muitos anos. Dizia-se discípulo de Leandro Gomes de Barros e era admirador incondicional de José Camelo de Melo. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando viajava de navio de Belém a Fortaleza, foi vítima de um naufrágio da Baía de Quebra-Potes (Maranhão). Salvou-se nadando, mas perdeu  uma mala de folhetos, contendo diversos originais. Na capital cearense sua tipografia adotou o nome de “Graças Fátima”. O poeta explicava a razão desse título: durante a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima pelo Nordeste, na década de 50, ele conseguiu ganhar muito dinheiro vendendo folhetos sobre a visita da santa, ampliando consideravelmente seus negócios.

Em 1973 vendeu sua  gráfica e sua propriedade literária para Manoel Caboclo e Silva e tentou estabelecer-se no Rio de Janeiro, também no ramo da literatura de cordel, mas não foi bem sucedido. De volta ao Ceará, ainda editou alguns folhetos de sucesso, como o que escreveu em parceria com Vidal Santos, sobre o desastre aéreo da Serra da Aratanha (Pacatuba-CE), onde faleceu, dentre outros, o industrial Edson Queiroz.

Sena era um grande poeta, de verve apurada e rico vocabulário. Conhecia bem os costumes, a fauna, a flora e a geografia nordestina, motivo pelo qual seus romances eram ricos em descrições dessa natureza. Pode-se dizer que com a sua morte, fechou-se um ciclo na poesia popular nordestina e o gênero “romance” perdeu um de seus maiores poetas. Só agora, no início deste novo século, surgem novos romancistas que pretendem dar continuidade à trilha deixada pelo mestre.

Dentre as suas obras de maior aceitação popular, destacamos: A filha noiva do pai ou Amor culpa e perdão; A morte comanda o cangaço; As sete espadas de dores de Maria Santíssima; Estória de Manoel Seguro e Manoel Xexeiro; História de João Mimoso e o castelo maldito; História de Braz e Anália; Os amores de Chiquinha e as bravuras de Apolinário; História do assassinato de Manoel Machado e a vingança do seu filho Samuel; História do Príncipe João Corajoso e a princesa do Reino Não-vai-ninguém.

(In “Acorda Cordel na Sala de Aula”, Arievaldo Viana)

O selinho do CENTENÁRIO é criação do poeta e editor KLÉVISSON VIANA

SAIU NO JORNAL

quinta-feira, 10 de maio de 2012

VITRINE



Acabo de receber a belíssima edição de O REI DO BAIÃO, DO NORDESTE PARA O MUNDO, editora Planeta Jovem, mais um livro que fiz em parceria com o ilustrador JÔ OLIVEIRA. Abaixo, uma relação dos meus principais livros, lançados no período de 1986 a 2012:

- Canindé – da lenda à realidade – HQ em cordel, Edição do autor, 1986
- O Baú da Gaiatice – Editora Varal, 1999;
- São Francisco de Canindé na Literatura de Cordel – Edições Livro Técnico, 2002;
- A moça que namorou com o bode, HQ em parceria com Klévisson Viana, indicada como melhor roteiro para o prêmio HQ-MIX - 2003;
- Acorda Cordel na Sala de Aula – 2005 – Editoras Tupynanquim e Queima-Bucha, (a segunda edição, com 5 mil exemplares, saiu em 2010);

- O Pavão Misterioso (Infanto-Juvenil, parceria com JÔ OLIVEIRA) – Editora IMEPH, 2006;
- A Raposa e o Cancão – (PNBE 2007 – Editora IMEPH) do qual já foram feitas várias edições - Ilustrações de Arlene Holanda;
- A ambição de Macbeth e a maldade feminina – Ilustrado por JÔ OLIVEIRA - (PNBE 2009 - Ed. CORTEZ),
- Padre Cícero, o santo do povo (Ed. Demócrito Rocha, presente no catálogo da Feira de livros infanto-juvenis de Bologna-Itália, 2009 - Ilustrações João Pedro Neto e Arlene Holanda;
- Dona Baratinha e seu casório atrapalhado – Projeto Viva Leitura, Edições Demócrito Rocha - 2009;
- João de Calais e sua amada Constança – Editora FTD – 2010, selecionado para o PNBE 2012 - Cordel em quadrinhos, parceria com JÔ OLIVEIRA.
- Luiz Gonzaga, o Embaixador do Sertão – Editora Iris, 2011 - Ilustrações de Rafael Limaverde
- Chapeuzinho Vermelho em Cordel – Editora Globo – 2011.
- O Coelho e o Jabuti – Editora Globo – 2011.
- Lendas do Folclore Brasileiro – Curupira, Mãe do Ouro, Boto e Mula sem cabeça – Edição especial feita pelo CORREIOS, 2011 - Parceria com JÔ OLIVEIRA.
- O jumento Melindroso desafiando a ciência – 2012 – Editora Prêmius (texto e ilustrações do autor).
- O Rei do Baião – Do Nordeste para o Mundo – Editora Planeta Jovem, 2012 - Ilustrações de Jô Oliveira.
OBRAS COLETIVAS:
Cantos de Luz - com Manoel Monteiro e Mestre Azulão
Antologia do Cordel Brasileiro - Org. Marco Haurelio.

LIVROS INÉDITOS

A Mala da Cobra - Almanaque Matuto
Leandro Gomes de Barros - Vida e Obra

terça-feira, 8 de maio de 2012

HISTÓRIA DA MOURA TORTA

Ilustração de Severino Ramos
para o livro Contos e fábulas do Brasil

Uma vez havia um pai que tinha três filhos, e, não tendo outra cousa que lhes dar, deu a cada um uma melancia, quando eles quiseram sair de casa para ganhar a sua vida. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas senão em lugar onde houvesse água.

O mais velho dos moços, quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto de casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita, dizendo: "Dai-me água, ou dai-me leite". O rapaz não achava nem uma coisa nem outra; a moça caiu para trás e morreu.
O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu também a sua melancia, e saiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu água ou leite, e o rapaz não achando nem uma coisa nem outra, ela caiu para trás e morreu.
Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida, foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. No abri-la pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: "Quero água ou leite". O moço foi à fonte, trouxe água e ela bebeu a se fartar. Mas a moça estava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse em um pé de árvore que havia ali perto da fonte, enquanto ele ia buscar a roupa para lhe dar. A moça subiu e se escondeu nas ramagens.
Veio uma moura torta buscar água, e vendo na água o retrato de uma moça tão bonita, pensou que fosse o seu e pôs-se a dizer: "Que desaforo! Pois eu sendo uma moça tão bonita, andar carregando água…!" Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem água e nem pote levou um repelão muito forte, e a senhora mandou-a buscar água outra vez; mas na fonte fez o mesmo, e quebrou o outro pote. Terceira vez fez o mesmo, e a moça, não se podendo conter, deu uma gargalhada.

A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: "Ah! É você, minha netinha!… Deixe eu lhe catar um piolho". E foi logo trepando pela árvore arriba, e foi catar a cabeça da moça. Infincou-lhe um alfinete, e a moça virou numa pombinha e avoou! A moura torta então ficou no lugar dela. O moço, quando chegou, achou aquela mudança tamanha e estranhou; mas a moura torta lhe disse: "O que quer? Foi o sol que me queimou!… Você custou tanto a vir me buscar!"

Partiram para o palácio, onde se casou. A pombinha então costumava voar por perto do palácio, e se punha no jardim a dizer: "Jardineiro, jardineiro, como vai o rei, meu senhor, com a sua moura torta?" E fugia. Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prendê-la, mas a pombinha não caiu. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal, um de visgo, e ela caiu. Foram levá-la, que muito a apreciou. Passados tempos, a moura torta fingiu-se pejada e pôs matos abaixo para comer a pombinha. No dia em que deviam botá-la na panela, o rei, com pena, se pôs a catá-la, e encontrou-lhe aquele carocinho na cabecinha, e, pensando ser uma pulga, foi puxando e saiu o alfinete e pulou lá aquela moça linda como os amores. O rei conheceu a sua bela princesa. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dois burros bravos lascada pelo meio.

(Versão de Sílvio Romero, publicada em Contos populares do Brasil)


la schiava nera
Ilustração de Warwick Goble para a versão inglesa do Pentamerone

Nota à versão colhida em Serra do Ramalho Bahia e reproduzida no livro Contos e fábulas do Brasil: A Moura Torta é um conto que só não se espalhou pelos quatro cantos da Terra porque esta é redonda. Sílvio Romero e Câmara Cascudo divulgaram versões muito conhecidas. A nossa variante aproxima-se da versão de Romero no tocante à quantidade de fi lhos do rei, três, com a sorte invariavelmente sorrindo para o caçula. Como na versão de Câmara Cascudo, o herói recebe três laranjas de uma velhinha, que desempenha a função de “doador mágico”. Ressalte-se ainda em nosso conto a jocosidade por meio da sede pantagruélica da princesa, que salta da laranja onde estivera, por conta de um feitiço, aprisionada, e do engano da Moura Torta, que julga ver no refl exo da princesa seu rosto desagradável. Segue-se o encanto da princesa em pomba, por meio de um alfinete mágico (“envenenado”), um motivo oriental presente nas Mil e uma noites. Original em nosso conto é o apêndice, que não consta de nenhuma variante conhecida e é motivo de riso para as crianças. Ítalo Calvino, nas Fábulas italianas, redigiu O amor das três romãs, citando como a mais antiga versão literária I tre cedri (As três cidras), do Pentamerone de Giambattista Basile. Afanas’ev recolheu, na Rússia, A pata branca, onde a metamorfose da princesa em ave se dá após esta banhar-se numa fonte, por instigação de uma feiticeira, que assume o seu lugar, até a descoberta do malefício e o castigo final. A noiva branca e a noiva preta, dos Grimm, com a heroína enfeitiçada em uma “patinha branca como a neve”, aproxima-se da versão russa.
(Marco Haurélio)

 
Capa de Jô Oliveira para edição da Queima-Bucha, de Mossoró
Trecho da versão em cordel publicada pela Editora Luzeiro, de São Paulo:

Oh, Deusa da poesia,
Meu verso agora te exorta,
Do Reino da Inspiração
Abre-me a sagrada porta
Para eu versar a famosa
História da Moura Torta.

Num reino muito distante
Houve um monarca afamado,
Pai de três belos rapazes,
Orgulho do tal reinado.
O rei, por possuir tudo,
Vivia bem sossegado.

Porém o filho mais velho,
Que se chamava Adriano,
Certo dia foi ao pai,
Com um desejo insano
De conhecer outras terras,
Além das do soberano.

O rei lhe disse: - Meu filho,
Aqui não lhe falta nada...
O mundo, pra quem não sabe,
É uma grande cilada;
Tire da sua cabeça
Esta ideia tresloucada.

O moço disse: - Meu pai,
Já escolhi meu roteiro.
O rei lhe disse: - Então vá,
Mas tem de escolher primeiro:
Muito dinheiro sem bênção,
Muita bênção sem dinheiro.

Disse o moço: - Bênção não
Enche o bucho de ninguém!
Não sou doido de sair
De casa sem um vintém.
Eu quero é muito dinheiro,
Pois bênção não me convém.

O rei deu para o rapaz
A sua parte da herança.
Ele saiu pelo mundo,
Sem achar que fez lambança.
Na embriaguez da orgia
Gastou tudo sem tardança.

Assim, voltou para a casa,
Muito roto e maltrapilho.
O rei, que era bondoso,
Inda recebeu o filho;
Porém o filho do meio
Quis seguir no mesmo trilho.

O filho do meio tinha
O nome de Cipião;
Este também foi ao pai
Para pedir permissão
Pra conhecer outras terras
Além daquela nação.

O moço disse: - Meu pai,
Agora é a minha vez.
Mas o velho disse:- Filho,
Deixe desta insensatez!
Não vá fazer mais tolice
Como Adriano já fez.

Como não o demovia,
O rei perguntou, ligeiro:
- Queres dinheiro sem bênção?
- Queres bênção sem dinheiro?
O infeliz Cipião
Fez igualmente ao primeiro.

O moço lhe disse: - Eu quero
Dinheiro em demasia,
Bênção e chuva no mar
Não têm qualquer serventia!
E sem a bênção paterna
Viajou no mesmo dia.

O rapaz pagou bem caro
O preço da imprudência,
Pois perdeu todo o dinheiro,
E, ficando na indigência,
Voltou pra casa esmoler,
Implorando ao rei clemência.

O rei recebeu o filho,
Pois tinha bom coração,
Mandou servir um banquete
Ao indigno Cipião,
Que, ao recusar a bênção,
Sucumbiu à maldição.

Passados uns onze meses,
Foi o rei interpelado
Pelo seu filho caçula,
Que estava interessado
Em conhecer outras terras
Para além de seu reinado.

Então, o jovem Hiran
Foi procurar o seu pai,
Mas ele disse: - Meu filho,
Sinto, mas você não vai,
Pois quem procura o abismo,
Tarda, mas um dia cai!...

O moço disse: - Meu pai,
Aos meus irmãos permitiste.
Se me recusares isto,
Eu ficarei muito triste
Por não conhecer o mundo
Que além daqui existe.

O rei retrucou: - Hiran,
Teus irmãos já viajaram;
Tudo a que tinham direito
Na orgia dilapidaram.
Quando estragaram tudo,
Na indigência voltaram.

Hiran disse: - Meu bom pai,
Sempre fui obediente,
Mas tenho necessidade
De correr o mundo urgente.
Contudo, eu lhe asseguro:
Desta vez é diferente.

O rei lhe disse: - Está bem,
Mas tenho de perguntar:
Tu queres muito dinheiro,
Mas sem eu lhe abençoar?
Ou vais querer muita bênção,
Mas sem dinheiro levar?
Hiran respondeu: - Meu pai,
De nada posso lucrar
Do dinheiro, se a bênção
De meu pai eu não levar.
O rei o abençoou
E o deixou viajar.
(...)
In: Marco Haurélio, Meus romances de cordel, São Paulo: Global, 2011, págs. 139-143.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

RELANÇAMENTO


Editora Assaré relança ‘‘O baú da gaiatice’’, clássico do humor cearense

Há mais de 12 anos, num momento em que o Ceará já se projetava nacionalmente como terra de comediantes, o radialista, poeta popular e cartunista Arievaldo Viana escreveu o livro “Baú da Gaiatice”. Incluindo crônicas, anedotas e literatura de cordel. O livro foi lançado em noite festiva no Pirata Bar, no dia 21 de maio de 1999 e, de imediato, tornou-se um clássico do gênero, recebendo elogios de escritores, pesquisadores e jornalistas como Blanchard Girão, Barros Alves, B.C. Neto, Ribamar Lopes, Eleuda de Carvalho, Falcão, Tarcísio Matos e Juarez Leitão. A idéia foi sugerida pelo amigo Vescêncio Fernandes (in memorian) diretor da extinta revista Varal, onde parte do material do livro havia sido publicado.

Na época do lançamento, o Caderno 3 do Diário do Nordeste fez a seguinte observação: “Juntando crônicas que escrevia para jornais e revistas sindicais como a Pérola Negra do Sindicato dos Petroleiros, e para a própria Varal, Arievaldo observou que tudo isso poderia dar um livro. Não precisaria ir longe para encontrar ilustrações bem apropriadas ao contexto das histórias. Contou com o apoio de seu irmão e artista plástico Klévisson, de Jefferson Portela e também deu suas próprias pinceladas, já que trabalha há alguns anos nesta área.”

Um dos grandes méritos da obra foi trazer a tona, de forma pioneira, ‘causos’ de personagens até então anônimos, porém interessantíssimos. É o caso do personagem “Broca da Silveira”, um cara cheio de espertezas que dribla sua condição de nordestino, pobre e semi-analfabeto, para conseguir o que quer. Foi preso e subornou o médico da penitenciária lá de São Paulo para lhe dar um medicamento que ficasse como um morto. Conseguiu, então, embarcar numa urna “funerária” de volta ao seu Nordeste. “A história dele é um misto de 50% de realidade e 50% de fantasia”, afirmava Arievaldo, na matéria publicada em 1999 pelo DN. Além do já citado Broca da Silveira, desfilam também pelas páginas do Baú o irreverente Zuca Idelfonso, o irriquieto boiadeiro Zé Adauto Bernardino e o profeta matuto Zé Freire, autor de uma curiosa oração para arranjar um magote de mulher. O autor conta que numa temporada em Canindé, costumava se embrenhar sertão adentro ou mesmo palestrar nos bares da cidade na companhia do poeta e boêmio Pedro Paulo Paulino. Munidos de papel e caneta e às vezes de um note-book, os dois observavam aquelas figuras bem características. Quando ouviam alguma história interessante, passavam para o papel ou para o computador. Assim, foi ampliando o material para a publicação do livro.

O terceiro capítulo é totalmente dedicado a Literatura de Cordel, o grande forte de Arievaldo, considerado atualmente um dos maiores expoentes desse gênero. O escritor apresenta seus próprios cordéis e outros de parcerias com Jota Batista, Pedro Paulo Paulino, Klévisson Viana e Sílvio Roberto Santos. Também trabalham temas atuais como a clonagem da ovelha Dolly, o encontro de Fernando Henrique Cardoso com Pedro Álvares Cabral nos 500 anos de descobrimento, a história de um poeta que adquiriu uma boneca inflável e até mesmo uma sátira intitulada “Descaminhos das Índias ou o Indiano que casou com uma cachorra”, incluída especialmente na terceira edição da obra.


UM POUCO DA TRAJETÓRIA DO AUTOR

Arievaldo Viana nasceu no Sertão Central do Ceará, em setembro de 1967. Desenha e escreve cordéis desde a infância. Atuou também como radialista de 1985 a 92. Trabalhava em Canindé, fazendo um quadro humorístico com personagens criados por ele, como Salustiano e dona Filismina. Em 1992, veio para a capital e integrou a equipe da Rádio Cidade e também na extinta TV Manchete, onde criou e apresentou o humorístico “Jornal da Caatinga”, em parceria com Cícero Lúcio e direção de Marcos Belmino, o saudoso “Ponhonhón”. Como escritor e poeta  publicou contribuições em diversos jornais e revistas, como Varal, Singular, Pérola Negra e atualmente na Nordeste Vinteum, onde mantém a coluna “Sala de Reboco”, relembrando fatos da vida e da obra de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Atua no movimento sindical como chargista e ilustrador desde 1993. É o criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, responsável pelo reconhecimento da literatura de cordel como gênero literário indispensável ao ensino, já apresentado através de oficinas e palestras em diversos estados do Brasil. Como escritor, Arievaldo Viana tem mais de 100 folhetos de cordel já publicados e quase duas dezenas de livros pelas maiores editoras do país: FTD, Cortez, Editora Globo, Planeta Jovem, Editora IMEPH, Demócrito Rocha, Armazém da Leitura e Nova Alexandria.

O QUE DISSERAM DA OBRA

O Baú da Gaiatice” é um livro sério, mesmo tendo como objetivo fundamental divertir e provocar o riso. É que espelha, com denodo e perícia, essa faceta esplêndida da alma cearense de zombar das trapaças da sorte, se divertir em frente da desdita e, mesmo no meio da noite mais tenebrosa, transportar em sua essência anímica os raios incandescentes da aurora.” 

(Juarez Leitão, escritor)

 “Arievaldo Viana é um “velho” poeta popular de trinta e três anos. Velho pela maturidade de seus versos, pelo muito que tem observado, acumulado e repassado em termos de cultura popular. Seu gosto pelo popular, despertado desde cedo - ainda criança - foi caldeado e sedimentado em Quixeramobim e Canindé, no telurismo desses dois territórios mágicos. As muitas leituras de folhetos, na infância, as muitas noites no “sereno” de cantorias, imprimiram-lhe na alma o gosto pelo estilo dos bons tempos - do tempo dos grandes poetas do cordel, sem contudo pretender imitá-los. É fecundo. Jovem (um “velho” poeta de trinta e três anos), é autor de várias dezenas de folhetos. Respira, vive poesia popular. Como poeta popular, poder-se-ia dizer que sofre de incontinência poética.”

(Ribamar Lopes, poeta e pesquisador da poesia popular, em dezembro de 2000)

 “Se alguns resquícios etílicos ainda me afetavam o fígado, foram definitivamente curados. Tudo por conta do "Baú da Gaiatice", de Arievaldo Viana, que lí de uma tirada só no último fim-de-semana. Ri a bandeiras despregadas com os "causos" colhidos no filão riquíssimo da cultura popular em suas diversas vertentes, a sertaneja, em primeiro lugar, a suburbana e a anedótica nascida nos meios mais intelectualizados. Tudo seria vulgar não fosse a capacidade própria de Arievaldo no saber contar, dando a cada estória o seu toque pessoal, a sua graça de humorista.”

(Blanchard Girão, jornal O ESTADO, junho de 1999)

O AUTOR E A OBRA, POR ELE MESMO

Acordei menino e ‘malino’ num lugarejo encantado, um recanto ensolarado chamado fazenda Ouro Preto, cafundós de Quixeramobim-CE, terra do beato Antônio Conselheiro.
Depois esse pedacinho de chão, pertencente ao distrito de Macaóca, passou a integrar o município de Madalena, território emancipado de Quixeramobim.
Para os lados do nascente se avistam os contrafortes do serrote dos Tres Irmãos, gigantescos monólitos de feição similar, que o velho Chico Pavio garantia tratar-se de três reinos encantados. Ao sul, os contornos da belíssima serra da Cacimba Nova. Quando eu era criança, alí pelos meados da década de 1970, não havia energia elétrica e a nossa diversão predileta era ouvir a vovó Alzira ler os folhetos de cordel, dentre eles Chegada de Lampião no Inferno, Cancão de Fogo, João Grilo, Pedro Malazartes e o impagável Casamento e divórcio da Lagartixa. Foi justamente nesses folhetos que eu me alfabetizei... ou melhor, desasnei na leitura, com a  ajuda de uma carta de ABC.
Essas leituras, aliadas a uma forte dose de imaginação me impeliram a ouvir tudo que era conversa de matuto, causos, arengas e ‘arisias’ ditas em estado sóbrio ou etílico nos balcões da bodega do Mané Lima, meu avô. Já crescido, em busca de instrução e trabalho, mudei-me para Maracanaú, Canindé e depois para o mundo... Foi daí que nasceu a inspiração para fazer este Baú da Gaiatice.

SERVIÇO:
O Baú da Gaitice, 3ª Edição
Editora Assaré / Prêmius
220 páginas ilustradas
Preço de capa: R$ 25,00
Preço especial de lançamento:
R$ 20,00