quinta-feira, 11 de outubro de 2018

OPINIÃO DE ROSEMBERG CARIRY


Rosemberg e Ariano Suassuna (Foto: Bárbara Cariry)

O ódio, o voto e a pulsão da morte

Estranho tempo este em que nos encontramos diante do avanço das forças do conservadorismo e do fascismo, representadas por um candidato de extrema direita e pela devoção e fúria cega dos seus seguidores, que apresentam semelhança com a tensão obscura das milícias nazistas na década de 1930, na preparação dos holocaustos, das torturas e das guerras. Nas carreatas, os "milicianos-bolsonaristas" apontam armas e/ou fazem das próprias mãos armas, em gesto portador de ameaças claras dirigidas aos seus opositores. 

Mãos que poderiam afagar e construir transformam-se em símbolos da ameaça de morte e da intolerância. Gritam palavras de ódio contra mulheres, negros, índios e gays. 

Triste tempo, onde muitos médicos, advogados e outros profissionais liberais, não obstante seus cursos universitários, perfilam irracionalmente, ao apoiar a extrema-direita e seus slogans e "vivas" à tortura e à morte. Os homens da lei rasgam a Constituição e manipulam decisões, em conformidade com suas ideologias conservadoras e os interesses das classes dominantes e do mercado. Alguns empresários judeus, em traição à memória das vítimas do totalitarismo, apoiam a ideologia despótica e racista. O mercado tem tremores e os empresários fascistas gozam. A Globo e a grande imprensa manipulam corações e mentes. Muitos pastores, com suas contas bancárias cheias de dinheiro tirado dos fiéis apavorados, invocam Deus para as novas cruzadas do ódio, subvertendo as pregações de Cristo em prol do amor e da justa dignidade do homem. Está escancarado o fracasso de uma civilização feita de destroços, da reedição de ódios e de retrocessos. O grande reino do egoísmo e da exploração do homem pelo homem se fortalece. As engrenagens perversas do capitalismo devoram o que de humano resta no homem. 

Assim como os indivíduos, as nações também adoecem e são capazes de suicídios históricos. A opção autoritária e de extrema direita parece-me isso: um mergulho nas trevas do ódio e da irracionalidade. Um suicídio coletivo que parece ser indicativo do fracasso das nossas principais instituições. A maioria das nossas escolas não forma homens para a solidariedade e para a liberdade, mas apenas para a competição, o lucro, o preconceito, a pulsão da morte e a hegemonia das sombras. Acredito que quem transforma o seu voto em instrumento do ódio, não está apenas tentando destruir o outro, mas está destruindo a si mesmo, enquanto projeto de humanidade. Afinal, ser humano é uma construção, a mais difícil e demorada de todas as construções. 



Rosemberg Cariry (ar.moura@uol.com.br) 

Cineasta e escritor

Fonte: O POVO (Opinião)



Arievaldo Vianna, Rosemberg Cariry e Marcus Lucenna